Jeremias 44:1
" A palavra que veio a Jeremias, acerca de todos os judeus, habitantes da terra do Egito, que habitavam em Migdol, e em Tafnes, e em Nofe, e na terra de Patros, dizendo: "
Entenda os temas principais e aplique Jeremias 44 na sua vida hoje
30 versículos | Almeida Corrigida Fiel
Mesmo depois de verem a destruição de Jerusalém e ouvirem repetidos apelos proféticos, os judeus no Egito insistem em adorar a “rainha dos céus”. Em vez de se arrepender, o povo decide conscientemente manter seus votos idólatras, revelando um coração endurecido e uma rebelião aberta contra Deus.
Deus chama o povo a lembrar o que aconteceu em Judá: as maldades dos pais, dos reis e das mulheres, e o juízo que transformou a terra em desolação. O problema não é falta de informação, mas um esquecimento voluntário e uma recusa em aprender com a disciplina anterior.
O Senhor declara que pôs o Seu rosto contra os judeus no Egito: espada, fome e peste os alcançariam, e se tornariam maldição e opróbrio entre as nações. O juízo é proporcional à clareza da revelação rejeitada e à teimosia do povo em manter seus votos idólatras.
O povo usa sua própria leitura da realidade para justificar a idolatria: lembra um tempo de aparente prosperidade e conclui que adorar a “rainha dos céus” trouxe bênção, enquanto obedecer ao Senhor trouxe perda. A fé é substituída por uma interpretação distorcida da história.
Deus afirma que também julgará o Egito e entregará Faraó-Hofra nas mãos de seus inimigos, assim como fez com Zedequias. Nem o rei de Judá nem o rei do Egito escapam da mão soberana do Senhor, que dirige a história e disciplina tanto seu povo quanto as nações.
Jeremias 44 situa-se após a queda de Jerusalém em 586 a.C., durante o período em que um remanescente de judeus, contra a orientação do Senhor, fugiu para o Egito levando Jeremias consigo (cf. Jr 42–43). Eles buscavam segurança política e econômica sob a proteção do Egito, uma potência regional ainda relevante, embora enfraquecida diante do império babilônico.
Os locais mencionados — Migdol, Tafnes, Nofe e a terra de Patros — indicam que os judeus estavam espalhados por várias regiões egípcias, do Delta do Nilo ao Alto Egito. Nessa dispersão, em vez de se voltarem ao Senhor, retomaram as práticas idólatras que já haviam provocado a destruição de Judá.
A “rainha dos céus” provavelmente se refere a uma divindade feminina associada a cultos astrais, possivelmente vinculada à adoração de deuses como Ishtar/Astarote ou deidades semelhantes. Esses cultos envolviam incenso, libações e bolos moldados em imagens simbólicas. O texto mostra que essas práticas eram amplamente difundidas em Judá antes do exílio, envolvendo homens, mulheres, autoridades e famílias inteiras.
Faraó-Hofra (Apries, governou aproximadamente 589–570 a.C.) foi um faraó egípcio envolvido na política regional contra a Babilônia. As fontes históricas indicam que ele acabou deposto e morto em meio a conflitos internos, o que confirma o anúncio profético de que seria entregue nas mãos de seus inimigos. Assim, o capítulo coloca os acontecimentos de Judá e do Egito dentro de um mesmo cenário de juízo divino e rearranjo geopolítico sob o domínio babilônico.
Jeremias 44 apresenta uma estrutura em forma de debate profético entre Deus, por meio de Jeremias, e o povo de Judá no Egito:
Introdução e destinatários (44.1)
Recordação do juízo sobre Judá (44.2-6)
Acusação atual aos judeus no Egito (44.7-10)
Anúncio de juízo sobre o remanescente em Egito (44.11-14)
Resposta rebelde do povo e das mulheres (44.15-19)
Refutação de Jeremias e interpretação correta da história (44.20-23)
Confirmação dos votos idólatras e sentença final (44.24-27)
Pequeno remanescente e teste da palavra divina (44.28-29)
Sinal histórico: queda de Faraó-Hofra (44.30)
Jeremias 44 levanta questões teológicas centrais sobre pecado, juízo, arrependimento e soberania divina.
Em primeiro lugar, o capítulo mostra a gravidade da idolatria como ruptura de aliança. Não se trata apenas de práticas religiosas alternativas, mas de rejeição direta ao Deus vivo que libertou e sustentou Israel. O povo atribui seus tempos de fartura à “rainha dos céus” e não ao Senhor, transferindo a glória que a Ele pertence.
Em segundo lugar, o texto destaca a responsabilidade moral do povo diante da revelação recebida. Deus enviou profetas “madrugando e enviando”, insistindo para que deixassem as práticas abomináveis. O juízo que se segue não é arbitrário, mas resposta justa e paciente a uma rebelião persistente, consciente e assumida publicamente.
Em terceiro lugar, Jeremias 44 confronta a tendência humana de reinterpretar a história à luz da conveniência. O povo avalia o passado apenas pelo prisma de prosperidade material aparente, ignorando a longa paciência de Deus e a proximidade do juízo. A fé bíblica, porém, lê a história à luz da palavra de Deus, e não o contrário.
O capítulo também ressalta a soberania de Deus sobre as nações e seus governantes. O Senhor julga tanto Judá quanto o Egito, entregando reis como Zedequias e Hofra nas mãos de inimigos. Nenhum poder político é autônomo diante do Senhor dos Exércitos.
Por fim, mesmo em meio a um anúncio severo, há um traço de remanescente: alguns poucos escaparão e retornarão. Essa minoria se torna sinal de que, embora o juízo seja real e pesado, Deus preserva um povo e cumpre sua palavra. A história da salvação segue adiante, não porque o povo seja fiel, mas porque Deus permanece fiel ao Seu propósito.
Lido em chave terapêutica, Jeremias 44 revela dinâmicas emocionais e espirituais que aparecem com frequência em momentos de crise e perda.
O povo associa um período de estabilidade e fartura com práticas que Deus reprova e, diante do sofrimento atual, tenta recuperar o “controle” voltando ao que antes parecia funcionar. Essa atitude traduz um mecanismo de defesa: em vez de confrontar o próprio pecado e fragilidade, busca-se uma explicação que preserve a autoimagem, culpando a obediência a Deus pelas perdas. Há um apego profundo a padrões antigos, mesmo destrutivos, porque estão associados à sensação de segurança.
Em termos de saúde emocional, o texto mostra como a dor não elaborada pode levar à negação e à teimosia. A destruição de Jerusalém, o exílio, a fuga para o Egito e o medo do futuro criam um ambiente de trauma coletivo. Em vez de reconhecer a necessidade de mudança e dependência de Deus, o povo endurece o coração, fecha-se à correção e se apega a narrativas ilusórias sobre o passado.
O capítulo também toca na dimensão comunitária do comportamento: homens, mulheres, líderes e famílias participam juntos do mesmo sistema de crenças e práticas. Isso mostra como padrões espirituais e emocionais podem ser compartilhados e reforçados em grupo, para o bem ou para o mal.
Ao mesmo tempo, o texto sustenta a ideia de que a verdade, ainda que dolorosa, é essencial para a cura. Jeremias reinterpreta a história à luz da palavra de Deus, desmontando leituras distorcidas. Essa confrontação não é apenas moral, mas também terapêutica: sem nomear a raiz do problema, não há possibilidade de transformação real.
Alguns sinais de alerta emocionais e espirituais emergem com força em Jeremias 44:
Endurecimento deliberado do coração: o povo afirma explicitamente que não obedecerá à palavra do Senhor (v.16). Existe uma recusa consciente de ouvir, que bloqueia qualquer processo de arrependimento e cura.
Idealização do passado: o período de idolatria é lembrado como tempo de fartura e alegria, sem reconhecer os sinais de alerta espirituais e morais daquele tempo (v.17-18). Essa idealização pode levar a escolhas repetidas que reproduzem o sofrimento.
Inversão de causas e consequências: o povo atribui as tragédias à interrupção da idolatria, e não ao pecado (v.18). Essa inversão impede a autocrítica e reforça padrões destrutivos.
Espiritualidade instrumental: as práticas religiosas são avaliadas apenas pelos benefícios imediatos (pão, alegria, segurança), e não pela verdade sobre quem Deus é (v.17-18). Quando a relação com Deus é reduzida a resultados visíveis, cresce a frustração e a tentação de abandonar a fé quando surgem perdas.
Complicidade coletiva no erro: homens e mulheres, casais e comunidade inteira se apoiam mutuamente em decisões erradas (v.15,19,25). A pressão do grupo fortalece a resistência à correção.
Desconexão entre palavras e responsabilidade: o povo faz votos idólatras e se sente comprometido com eles (v.25), mas não reconhece a gravidade de assumir compromissos contrários à vontade de Deus. Isso revela dificuldade em lidar com culpa, limites e retificação de promessas mal feitas.
Jeremias 44 oferece princípios práticos que podem orientar escolhas e atitudes diárias:
Aprender com a história em vez de repeti-la. O povo no Egito esqueceu as lições do juízo sobre Jerusalém. A vida convida a olhar para trás com honestidade, reconhecendo o que levou a quedas e sofrimentos, para não repetir padrões antigos.
Avaliar a vida à luz da palavra de Deus, não só da experiência. Os judeus interpretaram o passado apenas pela lente da prosperidade material. A prática diária de confrontar as próprias conclusões com a Escritura ajuda a corrigir percepções distorcidas e decisões precipitadas.
Rever promessas e compromissos que não agradam a Deus. O povo se sentia preso a votos feitos à “rainha dos céus”. Há compromissos, alianças e hábitos que precisam ser revisitados, confessados e abandonados, mesmo que pareçam “funcionar” por um tempo.
Reconhecer mecanismos de fuga em momentos de crise. Diante do medo, os judeus fugiram para o Egito e retomaram velhas práticas. Nas crises, é comum voltar a antigas muletas emocionais ou espirituais. A consciência desse movimento ajuda a buscar refúgio em Deus, não em substitutos.
Valorizar a voz profética, ainda que desconfortável. Jeremias confronta a leitura enganosa do povo com a verdade de Deus. Na prática, isso aponta para a importância de ouvir conselhos bíblicos, ensino sólido e correções amorosas, em vez de apenas reafirmações do que já se deseja fazer.
Lembrar que Deus continua soberano sobre contextos hostis. Mesmo no Egito, sob outro governo e outra cultura, Deus continua dirigindo a história e julgando reis como Hofra. Esse entendimento incentiva a viver com integridade e fé, independentemente do ambiente externo.
A “rainha dos céus” parece designar uma divindade feminina ligada a cultos astrais e à fertilidade, comum no antigo Oriente Médio. Em vários contextos bíblicos, esse tipo de culto se associa a práticas envolvendo incenso, libações e bolos moldados com formas simbólicas. Não se trata de uma figura aprovada por Deus, mas de um ídolo que competia com a adoração exclusiva ao Senhor. O povo de Judá havia incorporado esse culto em sua religiosidade, e Jeremias 44 mostra como homens e mulheres o mantinham mesmo depois da queda de Jerusalém.
Eles faziam uma leitura seletiva da própria história. Lembravam que, nos tempos em que queimavam incenso à “rainha dos céus”, havia fartura de pão e aparente estabilidade, e concluíam que a idolatria era a causa dessas bênçãos. Ignoravam a paciência de Deus e os repetidos alertas proféticos durante aquele período. Quando as calamidades vieram, em vez de associá-las ao pecado e à ruptura com o Senhor, culparam o abandono da idolatria. Jeremias corrige essa interpretação, afirmando que foi justamente o pecado, inclusive a idolatria, que trouxe desolação e maldição sobre a terra.
Quando Deus declara que Seu nome não seria mais pronunciado pela boca dos homens de Judá no Egito (v.26), está anunciando um juízo severo sobre a relação deles com Ele. O juramento usual “Vive o Senhor” deixaria de ser pronunciado por aquele grupo, seja porque pereceriam, seja porque estariam cortados da verdadeira adoração. É um sinal de ruptura de comunhão: o povo insistiu em se vincular a outros deuses, e Deus afirma o peso dessa escolha, retirando deles o privilégio de invocar legitimamente o Seu nome naquele contexto.
Faraó-Hofra, conhecido historicamente como Apries, foi um rei do Egito que governou no tempo de Jeremias. Ele se envolveu em alianças e conflitos com a Babilônia, tentando conter o avanço babilônico na região. Segundo fontes antigas, Hofra acabou deposto e morto em meio a tumultos internos. Em Jeremias 44.30, Deus anuncia que o entregaria nas mãos de seus inimigos, assim como Zedequias, rei de Judá, foi entregue nas mãos de Nabucodonosor. O destino de Hofra serviria como sinal concreto de que a palavra de juízo de Deus sobre os judeus no Egito era real e certa.
Embora a mensagem de Jeremias 44 seja majoritariamente de juízo, o texto menciona que alguns poucos escapariam da espada e retornariam a Judá (v.14,28). Esse pequeno remanescente indica que Deus não abandona completamente Seu povo, mesmo em meio a grande disciplina. A esperança, porém, não está na manutenção da idolatria ou na segurança política do Egito, mas na fidelidade de Deus e na disposição de se voltar para Ele. O caminho de volta passa pelo arrependimento e pela confiança na palavra do Senhor, não pela insistência em votos contrários à Sua vontade.
Jeremias 44 mostra um povo profundamente ferido por perdas, desastres e deslocamento. Depois de ver Jerusalém destruída, de viver o medo e a incerteza, muitos escolheram fugir para o Egito em busca de algum tipo de segurança. Dentro dessa dor coletiva, eles acabam se agarrando ao que um dia pareceu trazer estabilidade: práticas antigas, costumes religiosos familiares, mesmo que estivessem afastando seus corações de Deus. Há uma tristeza silenciosa no texto: Deus relembra com dor tudo o que o povo fez e como, mesmo depois de tantos avisos, permanece endurecido. Ele fala de crianças, de bebês, de famílias inteiras sendo arrancadas da terra; isso revela o quanto o pecado e a teimosia trazem sofrimento amplo, que atinge gerações. Emocionalmente, o capítulo expõe como a dor mal trabalhada pode virar resistência e dureza. Em vez de chorar diante de Deus, o povo decide se fortalecer na própria rebeldia, dizendo com firmeza que não vai obedecer. É um coração cansado de confiar, que tenta recuperar o controle à sua maneira. Também chama atenção o lugar das mulheres na narrativa: elas aparecem como parte ativa do culto idólatra, fazendo bolos, oferecendo incenso, argumentando com firmeza. Não são apenas personagens secundárias; também carregam suas convicções, medos e lembranças de tempos de aparente fartura. A história delas também é de dor e de escolhas feitas em meio à insegurança. Dentro de tudo isso, permanece um fio de realidade: Deus vê, lembra, sente, chama, ainda fala. Mesmo quando o povo decide não ouvir, a palavra dEle continua apontando a verdade sobre o que está acontecendo. É um capítulo duro, mas que mostra um Deus profundamente envolvido com a história e com os sentimentos do Seu povo, não indiferente às lágrimas nem às consequências das decisões tomadas.
Jeremias 44 é um texto-chave para entender a teologia da história em Jeremias e a dinâmica da aliança em contexto de diáspora. Ele registra o confronto final entre a palavra profética e a rebelião consciente dos judeus que se refugiaram no Egito. Primeiro, observa-se o esquema típico da profecia: lembrança do passado (vv.2-6), acusação presente (vv.7-10) e anúncio de juízo futuro (vv.11-14,26-27,30). O profeta interpreta a destruição de Jerusalém não como simples efeito de forças políticas, mas como consequência direta da idolatria e da desobediência. Esse padrão é retomado para avaliar o comportamento atual dos judeus no Egito, que repetem os mesmos erros em outro cenário geográfico. O discurso do povo nos vv.15-19 é um elemento literário e teológico singular. Em vez de simples narração, o texto oferece a fala direta dos opositores, permitindo ver como eles constroem sua teologia alternativa: a prosperidade passada é associada à adoração da “rainha dos céus”, enquanto a desgraça é associada ao abandono dessa prática. Trata-se de uma hermenêutica concorrente à de Jeremias, fundada em observação seletiva e memória distorcida. Jeremias responde oferecendo uma releitura autorizada da história (vv.20-23): o que Deus “se lembrou” foi precisamente o incenso queimado nas cidades de Judá, e isso levou à saturação da paciência divina e ao juízo. Nota-se um contraste entre a memória de Deus, fiel aos fatos e à aliança, e a memória do povo, moldada por conveniência e desejo de autojustificação. Tecnicamente, o texto reforça a compreensão de que o juízo é pactual: termos como “lei” e “estatutos” (v.10), bem como “testemunhos” (v.23), apontam para o conteúdo da aliança mosaica. A insistência na responsabilidade intergeracional (pais, reis, mulheres) indica que a infidelidade é sistêmica, não pontual. A referência a Faraó-Hofra (v.30) ancora o oráculo na história política do século VI a.C. e mostra que a soberania de Deus abrange tanto Judá quanto o Egito. O paralelismo entre Hofra e Zedequias demonstra que nenhum rei se encontra fora do alcance do Senhor dos Exércitos. Por fim, o versículo 28 introduz um elemento importante: a prova empírica da palavra de Deus. O retorno de alguns poucos fugitivos a Judá funcionaria como verificação histórica de qual palavra prevalece — a divina ou a humana. Assim, o texto articula profecia, história e fé em um mesmo quadro interpretativo, onde a realidade confirmará a verdade da revelação.
Jeremias 44 desce ao nível das escolhas concretas: para onde fugir, em quem confiar, que práticas manter, que promessas cumprir. O povo já havia tomado uma decisão prática séria — fugir para o Egito, buscando proteção política e segurança econômica — mesmo depois de ouvir avisos contrários. No Egito, em vez de rever caminhos, consolidou compromissos com práticas que sabia ser reprovadas por Deus. Um ponto marcante é a forma como homens e mulheres, juntos, defendem o que decidiram fazer. Eles se apegam à narrativa de que “quando fazíamos assim, dava certo; quando paramos, tudo piorou”. Essa lógica é muito comum na vida cotidiana: hábitos, relacionamentos, negócios e prioridades são avaliados apenas pelo resultado visível imediato, sem perguntar se honram a Deus ou quais consequências terão a longo prazo. O capítulo também mostra a força de votos e compromissos assumidos sob motivação errada. O povo diz, na prática: já prometemos, agora vamos até o fim. Isso levanta a questão da responsabilidade sobre palavras empenhadas: há promessas, alianças e acordos que precisam ser revistos, desfeitos ou confessados, porque foram construídos em desobediência. Nas relações familiares, nota-se um padrão de cumplicidade: as mulheres perguntam se fizeram bolos à “rainha dos céus” sem o conhecimento dos maridos, sugerindo que havia conhecimento e concordância mútua. Isso reflete como escolhas espirituais e éticas se entrelaçam na rotina doméstica: aquilo que é tolerado ou encorajado dentro de casa molda a direção de toda a família. O texto também alerta para uma armadilha prática: buscar refúgio em “Egitos” modernos — soluções aparentemente fortes e seguras — em vez de enfrentar a realidade diante de Deus. Em vez de lidar com o caos de Judá sob a orientação divina, o povo preferiu recalcular a rota por conta própria, com base em medo e cálculo político. Em termos práticos, Jeremias 44 convida a reavaliar decisões que parecem estratégicas, mas que foram tomadas em desacordo com a vontade de Deus; a reexaminar votos e hábitos que se tornaram intocáveis; e a reconhecer que prosperidade aparente não é prova automática de aprovação divina. Ele chama a uma vida em que a obediência pesa mais do que a sensação imediata de segurança.
Jeremias 44 expõe um embate profundo entre duas lealdades espirituais: a fidelidade ao Deus da aliança e o apego a deuses que parecem garantir prosperidade. O povo, ao insistir na adoração à “rainha dos céus”, está escolhendo um sentido de vida, uma confiança última, um centro de devoção que não é o Senhor. No plano da alma, o capítulo mostra como o coração humano busca segurança em algo que possa controlar ou prever. A idolatria, aqui, não é só um conjunto de rituais, mas uma forma de organizar a existência em torno de um sistema que parece recompensar com pão, alegria e proteção. A obediência ao Deus vivo, por outro lado, exige confiança mesmo quando o caminho passa por disciplina, perda e aparente desamparo. A reação do povo à palavra de Jeremias revela uma escolha espiritual madura, porém errada: não se trata de ignorância pura, mas de uma recusa deliberada em submeter a própria leitura da história à revelação de Deus. Em termos de eternidade, isso ilustra o que significa endurecer-se frente à verdade: preferir uma narrativa que conforta no curto prazo a uma palavra que confronta, mas conduz à vida. Ao jurar que Seu nome não seria mais invocado pelos judeus no Egito, Deus sinaliza a gravidade dessa ruptura. A possibilidade de invocar o nome do Senhor é um privilégio espiritual máximo, ligado a relacionamento, salvação e esperança. Perder esse lugar é perder o eixo da própria existência. Ainda assim, a menção de um pequeno remanescente que voltaria a Judá sugere que a história de Deus com Seu povo não termina ali. Há sempre, no projeto divino, um fio de continuidade, uma porta estreita para a restauração. Jeremias 44, portanto, convida a pensar na vida espiritual não apenas em termos de práticas religiosas, mas de confiança última: em quem se confia para interpretar o passado, sustentar o presente e garantir o futuro? Ao apresentar o destino de reis como Zedequias e Hofra, o texto lembra que nenhum poder humano pode oferecer segurança definitiva. A alma encontra repouso verdadeiro quando se rende à palavra de Deus, mesmo quando essa palavra desfaz ilusões e chama ao arrependimento profundo.
" A palavra que veio a Jeremias, acerca de todos os judeus, habitantes da terra do Egito, que habitavam em Migdol, e em Tafnes, e em Nofe, e na terra de Patros, dizendo: "
" Assim diz o Senhor dos Exércitos, Deus de Israel: Vós vistes todo o mal que fiz vir sobre Jerusalém, e sobre todas as cidades de Judá; e eis que elas são hoje uma desolação, e ninguém habita nelas; "
" Por causa da maldade que fizeram, para me irarem, indo queimar incenso, e servir a deuses estranhos, que nunca conheceram, nem eles, nem vós, nem vossos pais. "
" E eu vos enviei todos os meus servos, os profetas, madrugando e enviando a dizer: Ora, não façais esta coisa abominável que odeio. "
" Mas eles não escutaram, nem inclinaram os seus ouvidos, para se converterem da sua maldade, para não queimarem incenso a outros deuses. "
" Derramou-se, pois, a minha indignação e a minha ira, e acendeu-se nas cidades de Judá, e nas ruas de Jerusalém, e elas tornaram-se em deserto e em desolação, como hoje se vê. "
" Agora, pois, assim diz o Senhor, Deus dos Exércitos, Deus de Israel: Por que fazeis vós tão grande mal contra as vossas almas, para vos desarraigardes, ao homem e à mulher, à criança e ao que mama, do meio de Judá, a fim de não deixardes remanescente algum; "
" Irando-me com as obras de vossas mãos, queimando incenso a deuses estranhos na terra do Egito, aonde vós entrastes para lá habitar; para que a vós mesmos vos desarraigueis, e para que sirvais de maldição, e de opróbrio entre todas as nações da terra? "
" Esquecestes já as maldades de vossos pais, e as maldades dos reis de Judá, e as maldades de suas mulheres, e as vossas maldades, e as maldades de vossas mulheres, que cometeram na terra de Judá, e nas ruas de Jerusalém? "
" Não se humilharam até ao dia de hoje, nem temeram, nem andaram na minha lei, nem nos meus estatutos, que pus diante de vós e diante de vossos pais. "
" Portanto assim diz o Senhor dos Exércitos, Deus de Israel: Eis que eu ponho o meu rosto contra vós para mal, e para desarraigar a todo o Judá. "
" E tomarei os que restam de Judá, os quais puseram os seus rostos para entrarem na terra do Egito, para lá habitar e todos eles serão consumidos na terra do Egito; cairão à espada, e de fome morrerão; consumir-se-ão, desde o menor até ao maior; à espada e de fome morrerão; e servirão de execração, e de espanto, e de maldição, e de opróbrio. "
" Porque castigarei os que habitam na terra do Egito, como castiguei Jerusalém, com a espada, com a fome e com a peste. "
" De maneira que da parte remanescente de Judá, que entrou na terra do Egito, para lá habitar, não haverá quem escape e fique para tornar à terra de Judá, à qual eles suspiram voltar para nela morar; porém não tornarão senão uns fugitivos. "
" Então responderam a Jeremias todos os homens que sabiam que suas mulheres queimavam incenso a deuses estranhos, e todas as mulheres que estavam presentes em grande multidão, como também todo o povo que habitava na terra do Egito, em Patros, dizendo: "
" Quanto à palavra que nos anunciaste em nome do Senhor, não obedeceremos a ti; "
" Mas certamente cumpriremos toda a palavra que saiu da nossa boca, queimando incenso à rainha dos céus, e oferecendo-lhe libações, como nós e nossos pais, nossos reis e nossos príncipes, temos feito, nas cidades de Judá, e nas ruas de Jerusalém; e então tínhamos fartura de pão, e andávamos alegres, e não víamos mal algum. "
" Mas desde que cessamos de queimar incenso à rainha dos céus, e de lhe oferecer libações, tivemos falta de tudo, e fomos consumidos pela espada e pela fome. "
" E quando nós queimávamos incenso à rainha dos céus, e lhe oferecíamos libações, acaso lhe fizemos bolos, para a adorar, e oferecemos-lhe libações sem nossos maridos? "
" Então disse Jeremias a todo o povo, aos homens e às mulheres, e a todo o povo que lhe havia dado esta resposta, dizendo: "
" Porventura não se lembrou o Senhor, e não lhe veio ao coração o incenso que queimastes nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém, vós e vossos pais, vossos reis e vossos príncipes, como também o povo da terra? "
" De maneira que o Senhor não podia por mais tempo sofrer a maldade das vossas ações, as abominações que cometestes; por isso se tornou a vossa terra em desolação, e em espanto, e em maldição, sem habitantes, como hoje se vê. "
" Porque queimastes incenso, e porque pecastes contra o Senhor, e não obedecestes à voz do Senhor, e na sua lei, e nos seus testemunhos não andastes, por isso vos sucedeu este mal, como se vê neste dia. "
" Disse mais Jeremias a todo o povo e a todas as mulheres: Ouvi a palavra do Senhor, vós, todo o Judá, que estais na terra do Egito. "
" Assim fala o Senhor dos Exércitos, Deus de Israel, dizendo: Vós e vossas mulheres não somente falastes por vossa boca, senão também o cumpristes por vossas mãos, dizendo: Certamente cumpriremos os nossos votos que fizemos de queimar incenso à rainha dos céus e de lhe oferecer libações; confirmai, pois, os vossos votos, e perfeitamente cumpri-os. "
" Portanto ouvi a palavra do SENHOR, todo o Judá, que habitais na terra do Egito: Eis que eu juro pelo meu grande nome, diz o SENHOR, que nunca mais será pronunciado o meu nome pela boca de nenhum homem de Judá em toda a terra do Egito dizendo: Vive o Senhor DEUS! "
" Eis que velarei sobre eles para mal, e não para bem; e serão consumidos todos os homens de Judá, que estão na terra do Egito, pela espada e pela fome, até que de todo se acabem. "
" E os que escaparem da espada voltarão da terra do Egito à terra de Judá, poucos em número; e todo o restante de Judá, que entrou na terra do Egito, para habitar ali, saberá se subsistirá a minha palavra ou a sua. "
" E isto vos servirá de sinal, diz o Senhor, que eu vos castigarei neste lugar, para que saibais que certamente subsistirão as minhas palavras contra vós para mal. "
" Assim diz o SENHOR: Eis que eu darei Faraó-Hofra, rei do Egito, na mão de seus inimigos, e na mão dos que procuram a sua morte; como entreguei Zedequias, rei de Judá, na mão de Nabucodonosor, rei de babilônia, seu inimigo, e que procurava a sua morte. "
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