Jeremias 38:1
" Ouviram, pois, Sefatias, filho de Matã, e Gedalias, filho de Pasur, e Jucal, filho de Selemias, e Pasur, filho de Malquias, as palavras que anunciava Jeremias a todo o povo, dizendo: "
Entenda os temas principais e aplique Jeremias 38 na sua vida hoje
28 versiculos | Almeida Corrigida Fiel
Jeremias permanece firme em anunciar a palavra de Deus, mesmo sendo considerado traidor, ameaçado de morte e lançado em uma cisterna. Seu compromisso não é com a aprovação humana, mas com a verdade revelada.
Ebede-Meleque, um etíope e eunuco, age com sensibilidade e bravura: denuncia a injustiça contra Jeremias, expõe-se diante do rei e organiza o resgate com cuidado. Deus usa alguém marginalizado para proteger seu profeta.
Zedequias procura Jeremias em segredo, jura não matá-lo e ouve a orientação do Senhor, mas sua decisão é travada pelo medo do que os outros farão e pensarão. Ele conhece a vontade de Deus, porém não se dispõe a obedecer plenamente.
A mensagem divina é clara: quem permanecer confiando em suas próprias defesas será destruído; quem se render ao plano de Deus, ainda que pareça fraqueza, encontrará vida. A obediência passa por aceitar um caminho humilhante aos olhos humanos.
A recusa do rei em ouvir a voz do Senhor não afetaria apenas sua própria vida, mas traria sofrimento para sua casa e para toda a cidade. A liderança infiel aprofunda a tragédia de um povo já em crise.
Jeremias 38 se passa no fim do reino de Judá, durante o cerco babilônico a Jerusalém (cerca de 588–586 a.C.), nos últimos dias do rei Zedequias. A cidade já sofria com fome, desânimo e divisão interna. Muitos líderes políticos e militares resistiam à mensagem de Jeremias, que, desde o início do reinado de Zedequias, anunciava que a Babilônia era instrumento do juízo de Deus e que a única saída era a rendição.
Os "caldeus" mencionados eram o povo dominante do Império Babilônico, liderado por Nabucodonosor. O reinado de Zedequias foi marcado pela instabilidade e por alianças políticas vacilantes, ora buscando apoio do Egito, ora tentando romper o jugo babilônico, em oposição direta às advertências proféticas. Jerusalém já havia sofrido deportações anteriores, e muitos judeus haviam se passado para o lado dos caldeus (v. 19), aprofundando a sensação de traição e medo dentro da cidade.
As cisternas como a de Malquias (v. 6) eram reservatórios escavados na rocha para armazenar água da chuva; vazias, podiam ser usadas como prisões improvisadas. Lançar alguém ali, em tempo de escassez, significava deixá-lo em situação extrema, praticamente uma sentença de morte lenta. Ebede-Meleque, descrito como etíope e eunuco da corte (v. 7), provavelmente era um oficial estrangeiro escravizado ou recrutado, sem pleno status social em Judá, o que torna sua intervenção ainda mais significativa.
O encontro secreto entre Zedequias e Jeremias no templo (v. 14) reflete um reino em colapso: o rei reconhece algo da autoridade espiritual de Jeremias, mas teme seus próprios oficiais e o julgamento da opinião interna. A ordem de manter sigilo sobre a conversa (v. 24-26) mostra um sistema político dominado por jogos de poder, controle de informação e medo, às vésperas da queda definitiva de Jerusalém.
O capítulo pode ser dividido em quatro movimentos narrativos principais:
Acusação e tentativa de silenciar o profeta (v. 1-6)
Intervenção de Ebede-Meleque e resgate de Jeremias (v. 7-13)
Encontro secreto entre Zedequias e Jeremias (v. 14-23)
Conspiração, sigilo e permanência de Jeremias na guarda (v. 24-28)
Alguns eixos teológicos importantes emergem deste capítulo:
A palavra de Deus é inegociável, mesmo quando impopular
Jeremias insiste na mesma mensagem que já vinha proclamando: o juízo através da Babilônia é inevitável, e a única resposta fiel é a rendição ao que Deus determinou (v. 2-3, 17-18). A verdade divina não é ajustada ao interesse político, ao moral do exército ou ao desejo de sobrevivência de uma certa forma de vida nacional. A fidelidade profética consiste em repetir o que Deus diz, mesmo quando isso gera oposição intensa.
Deus vê e valoriza os que praticam justiça, ainda que marginalizados
Ebede-Meleque é estrangeiro, eunuco e servo de um rei fraco, mas é ele quem discerne a injustiça feita ao profeta e arrisca sua posição para interceder (v. 7-9). O Senhor mostra, na própria narrativa, que sua obra não depende apenas dos grandes líderes formais; a compaixão e a coragem de um servo estrangeiro se tornam centrais na preservação de Jeremias.
O medo dos homens paralisa a obediência à vontade de Deus
Zedequias representa o coração dividido: ele procura a orientação de Deus, jura em nome do Senhor, mas teme a reação de seus oficiais e dos judeus que já se entregaram aos caldeus (v. 16, 19). O capítulo retrata teologicamente que não basta ouvir a palavra de Deus em segredo; é necessária a decisão pública de obedecer. O medo de zombaria e humilhação se torna mais determinante do que o temor reverente ao Senhor.
Juízo e misericórdia coexistem na mensagem profética
A mensagem de Jeremias não é um fatalismo frio. Mesmo em meio ao juízo iminente, Deus abre uma porta concreta de livramento: "viverá a tua alma" (v. 17, 20). A ira de Deus contra o pecado e a rebelião não anula sua disposição de salvar os que, em humildade, se submetem ao que Ele determinou. O chamado à rendição é uma forma de graça, não apenas de punição.
Responsabilidade da liderança diante de Deus
As palavras sobre as mulheres e filhos de Zedequias (v. 22-23) revelam o peso da responsabilidade do rei. A decisão da liderança influencia o destino de muitos. A teologia do capítulo ressalta que Deus julga não só atos pessoais, mas também o modo como líderes conduzem seu povo diante das advertências divinas. A resistência de Zedequias à obediência intensifica o desastre nacional.
Jeremias 38 oferece um quadro rico para reflexões terapêuticas sobre sofrimento injusto, medo, coragem e conflitos internos. O profeta vive a experiência de ser mal interpretado e punido exatamente por fazer o que é correto. Isso ecoa situações em que pessoas sofrem rejeição ou pressão por manter valores e convicções éticas, gerando dor, sensação de solidão e até desespero. A cisterna com lama simboliza estados emocionais de afundamento, estagnação e impotência.
Ao mesmo tempo, o surgimento de Ebede-Meleque mostra o poder de uma única pessoa que enxerga a injustiça, valida o sofrimento e age para resgatar. Sua atitude une empatia, coragem e cuidado prático (até na forma de usar trapos para aliviar a dor das cordas), trazendo à tona a importância de relacionamentos seguros e compassivos como fator de proteção em meio a traumas.
Zedequias encarna o conflito entre o que se sabe ser certo e o medo das consequências sociais. Do ponto de vista psicológico, ele ilustra paralisia decisória, dependência excessiva da aprovação alheia e vergonha antecipada. O capítulo expõe como o medo de zombaria e de perda de status pode levar a escolhas autodestrutivas, mesmo quando a pessoa tem clareza interna sobre o melhor caminho.
A narrativa também ajuda a compreender o impacto coletivo de decisões individuais, especialmente de pessoas em posição de poder. Há elementos de luto antecipado, culpa e ansiedade generalizada no povo cercado, enquanto a liderança evita fazer o movimento de mudança necessário. Nesse contexto, o texto abre espaço para pensar sobre responsabilidade, limites pessoais, coragem moral e a busca de apoio em pessoas confiáveis durante crises intensas.
Alguns pontos sensíveis do capítulo podem acender alertas importantes:
Situações de violência e risco de morte
Jeremias é lançado em uma cisterna para morrer de fome (v. 6, 9). Isso pode disparar memórias dolorosas em pessoas que sofreram abusos, tentativas de homicídio, cárcere privado ou negligência extrema.
Sensação de abandono e aprisionamento
A imagem de estar atolado na lama, sem saída visível, pode ressoar em quem já viveu depressão profunda, internações involuntárias, isolamento ou situações em que se sentiu emocionalmente paralisado.
Injustiça institucionalizada
A conivência do rei com a violência dos príncipes (v. 5) pode ser gatilho para pessoas que sofreram injustiças em ambientes de autoridade: família, trabalho, igreja ou Estado, especialmente quando quem deveria proteger se omite.
Medo intenso e decisões sob coação
O medo de Zedequias em relação ao julgamento dos outros (v. 19) pode tocar feridas ligadas a vergonha, bullying, humilhações públicas e traumas por exposição social.
Violência e ameaça contra mulheres e crianças
A previsão de que as mulheres e filhos do rei seriam levados e humilhados (v. 22-23) pode ser especialmente sensível para vítimas de violência doméstica, sexual ou de guerra.
Diante desses temas, é importante abordar o texto com cuidado em contextos pastorais ou terapêuticos, oferecendo espaço seguro para que emoções e memórias sejam reconhecidas. Quando surgir identificação com situações de violência ou desespero, pode ser necessário encorajar a busca de ajuda profissional qualificada e de redes de apoio confiáveis.
Jeremias 38 sugere aplicações práticas em várias áreas da vida:
Coragem para permanecer fiel à verdade
A postura de Jeremias inspira integridade em ambientes hostis. Em contextos de trabalho, família ou comunidade, manter-se fiel a princípios justos pode trazer oposição, porém o capítulo ressalta o valor de falar com honestidade, mesmo quando isso não traz benefícios imediatos.
Valor de ser um "Ebede-Meleque" na vida de alguém
A atitude desse etíope mostra como pequenas ações concretas podem impedir que uma pessoa afunde ainda mais. No dia a dia, isso pode significar notar quem está sendo injustiçado, usar a influência disponível para proteger, e oferecer ajuda com sensibilidade, considerando inclusive os detalhes que reduzem a dor.
Cuidado com decisões baseadas apenas no medo
Zedequias conhecia a direção certa, mas deixou que o medo da opinião dos outros definisse suas escolhas. Em decisões importantes, o capítulo encoraja a não agir somente para evitar críticas ou humilhações, mas a considerar o que é correto e quais serão as consequências a longo prazo para si e para os que dependem da decisão.
A importância de ouvir alertas antes que seja tarde
A palavra de Jeremias representava um aviso insistente. Na vida prática, isso lembra a necessidade de acolher conselhos sábios, feedbacks difíceis e sinais de risco, seja em saúde, finanças, relacionamentos ou espiritualidade, em vez de silenciar as vozes incômodas.
Responsabilidade de quem exerce liderança
Pais, gestores, líderes comunitários e espirituais podem refletir sobre como suas escolhas impactam outros. O capítulo chama atenção para o peso de ignorar advertências claras e para a importância de tomar decisões corajosas, ainda que custosas, para preservar o bem-estar coletivo.
Buscar e oferecer ambientes seguros em tempos de crise
O átrio da guarda, embora não fosse a liberdade plena, tornou-se um lugar mais seguro para Jeremias do que a cisterna. Em períodos turbulentos, nem sempre é possível resolver tudo, mas é possível construir espaços mais protegidos, com limites claros e apoio mútuo, enquanto se atravessam tempos difíceis.
Os príncipes entenderam a mensagem de Jeremias como desmotivadora e até traiçoeira, porque ele dizia que quem permanecesse na cidade morreria e que a única saída era se render aos caldeus (v. 2-3). Para a lógica militar e nacionalista dos líderes, isso soava como desânimo proposital e incentivo à rendição. No entanto, Jeremias não falava por cálculo político, mas por obediência à palavra de Deus, que havia determinado o juízo por meio da Babilônia. O conflito não era apenas político, mas espiritual: eles rejeitavam a forma como Deus decidiu disciplinar Judá.
Ebede-Meleque é apresentado como um etíope e eunuco que servia na casa do rei (v. 7). Provavelmente era um estrangeiro, com limitações de status social. Mesmo assim, ele percebe a injustiça cometida contra Jeremias, confronta respeitosamente o rei e organiza o resgate do profeta com cuidado e eficiência (v. 8-13). Sua importância é dupla: humanamente, ele salva a vida de Jeremias; teologicamente, ele ilustra como Deus pode usar pessoas improváveis, movidas por compaixão e valentia, para proteger os que lhe são fiéis.
Zedequias vive dividido entre ouvir o profeta e temer a reação de seus oficiais e do povo. Ele chama Jeremias a uma terceira entrada da casa do Senhor (v. 14) para tentar buscar direção sem se comprometer publicamente. Depois, ordena que o conteúdo real da conversa não seja revelado aos príncipes (v. 24-26). Isso mostra um rei inseguro, que deseja orientação espiritual, mas não está disposto a enfrentar o custo político e social de obedecer ao que Deus diz. Sua espiritualidade é marcada pelo segredo e pelo medo, não por confiança e obediência abertas.
Quando Jeremias diz que a alma de Zedequias viveria se ele saísse voluntariamente aos príncipes da Babilônia (v. 17), está afirmando que sua vida seria preservada e que ele evitaria a destruição violenta que viria com a resistência. A palavra "alma" aqui destaca a preservação da vida pessoal em contraste com a morte certa e a devastação da cidade. Em termos mais amplos, expressa o princípio de que a submissão à vontade de Deus, mesmo quando envolve perda de controle e humilhação, abre caminho para uma forma de salvação em meio ao juízo.
Zedequias orientou Jeremias a responder apenas sobre o pedido para não voltar à casa de Jônatas (v. 24-26). Quando os príncipes o interrogaram, Jeremias seguiu essa orientação e não revelou o conteúdo completo da conversa (v. 27). Isso não significa que o profeta estava mentindo a respeito da mensagem de Deus, mas que, naquela situação específica, não estava obrigado a expor um diálogo privado que poderia agravar ainda mais a perseguição sem trazer arrependimento. O foco do texto não é justificar ou condenar essa omissão, mas mostrar o clima de intriga e medo que dominava o palácio às vésperas da queda da cidade.
Neste capítulo, a dor de Jeremias transparece de forma muito humana. Ele não sofre porque fez algo errado, mas justamente por permanecer fiel ao que Deus lhe mandou falar. Ser arrastado e jogado em uma cisterna vazia, atolado na lama, é uma imagem forte de humilhação, desamparo e solidão. Há momentos em que o coração fiel se sente exatamente assim: abandonado, incompreendido, sem chão. A narrativa não disfarça o peso desses sentimentos. Ao mesmo tempo, a história de Ebede-Meleque acende uma luz no meio desse cenário escuro. Deus levanta, inesperadamente, alguém que enxerga a injustiça, se compadece e decide agir. Ele não minimiza o sofrimento de Jeremias, não diz que é exagero: reconhece que o profeta corre risco real de morrer de fome. E seu cuidado é tão delicado que até se preocupa em colocar trapos para que as cordas não machuquem ainda mais. Nesse gesto, transparece algo do coração de Deus: um socorro que não é apenas eficaz, mas também terno. A luta interna de Zedequias também carrega uma dimensão emocional: ele tem medo de ser humilhado, medo de ser zombado, medo do que os outros vão fazer com ele. Não consegue se apoiar totalmente na promessa de que "bem te irá, e viverá a tua alma". Esse medo o aprisiona e impede decisões que poderiam aliviar a dor de muitos. O texto reconhece esse tipo de fraqueza sem romantizá-la. No fundo, Jeremias 38 mostra que, mesmo quando tudo parece contra, Deus não ignora o sofrimento dos seus. A cisterna não é o fim da história do profeta. Deus vê o vale mais fundo, ouve os clamores não registrados e, muitas vezes por caminhos discretos, envia pessoas como Ebede-Meleque para segurar cordas, colocar trapos sob ombros feridos e ajudar a sair da lama. A fidelidade de Jeremias é atravessada por lágrimas e medo, mas também por intervenções de cuidado que lembram que o coração de Deus permanece atento, mesmo quando a dor é provocada exatamente pela obediência.
Jeremias 38 aprofunda o retrato do conflito entre profecia verdadeira e resistência político-religiosa no fim do reino de Judá. O texto faz eco ao capítulo anterior, onde Jeremias já havia sido preso e o rei o consultara. Aqui, a mensagem permanece idêntica: a entrega inevitável de Jerusalém à Babilônia e a única via possível de sobrevivência por meio da rendição (v. 2-3, 17-18). Isso sublinha a consistência do oráculo: não se trata de opinião pessoal mutável, mas de um decreto divino reiterado. O papel dos príncipes é crucial. Eles acusam Jeremias de "enfraquecer as mãos" dos soldados (v. 4), expressão militar que indica perda de coragem em combate. É uma leitura política da profecia: para eles, a mensagem de rendição é traição nacional. Teologicamente, porém, o texto mostra o inverso: insistir em resistência contra Babilônia é que se torna oposição direta a Deus. A cisterna de Malquias (v. 6) funciona, literariamente, como símbolo da tentativa de silenciar a voz profética, confinando-a a um lugar de morte lenta. Ebede-Meleque, o etíope, introduz uma reviravolta teológica interessante. Como estrangeiro e eunuco, representaria, aos olhos da elite judaíta, alguém de menor relevância religiosa e social. No entanto, é ele quem discerne a injustiça contra o profeta e usa adequadamente o acesso que tem ao rei. O autor destaca sua iniciativa, seu discurso corajoso e a forma criativa como realiza o resgate (v. 9-12). Esse arranjo literário enfatiza que a aliança de Deus não está limitada às fronteiras étnicas ou políticas de Judá. A cena entre Zedequias e Jeremias (v. 14-23) é teologicamente densa. O juramento do rei "vive o Senhor, que nos fez esta alma" (v. 16) evoca o Deus criador como fiador da promessa de preservação da vida do profeta. Ainda assim, o rei permanece temeroso dos "judeus que se passaram para os caldeus" (v. 19). Jer 38, portanto, desenha um quadro da realeza de Judá como incapaz de exercer fé na palavra de Deus quando confrontada com pressões humanas. O oráculo dado ao rei é condicional: rendição traz vida e preservação limitada da cidade; recusa traz destruição, deportação familiar e humilhação (v. 17-23). Embora o texto não descreva aqui a resposta final de Zedequias, o leitor conhece, pelo restante do livro e por 2 Reis, que ele não se rendeu, confirmando o cumprimento do juízo. O episódio final (v. 24-27) mostra a política do sigilo, com o rei pedindo a Jeremias que não revele todo o teor da conversa. Literariamente, isso realça a tensão entre a transparência própria da profecia e os jogos de poder da corte. O encerramento, com Jeremias permanecendo no átrio da guarda até a queda de Jerusalém (v. 28), cria uma ponte direta com o relato da destruição da cidade, posicionando o profeta como testemunha ocular do cumprimento da palavra anunciada. Assim, o capítulo reforça a confiabilidade da profecia verdadeira, em contraste com estratégias humanas de autopreservação que se revelam, ao final, ineficazes.
Jeremias 38 expõe dinâmicas muito atuais de pressão, medo e tomada de decisão. Jeremias é o profissional fiel que fala o que precisa ser dito, mesmo quando ninguém quer ouvir. Ele não adapta o discurso para agradar ou preservar posição; mantém o alinhamento com o que entende ser a vontade de Deus, apesar de entrar em conflito com autoridades e grupos influentes. Isso mostra o custo real da integridade em ambientes onde a verdade ameaça interesses estabelecidos. Os príncipes de Judá representam grupos que, para manter uma agenda, preferem calar vozes incômodas a rever caminhos e assumir erros. Em contextos de trabalho, família ou comunidade, isso se parece com situações em que, em vez de se corrigir um problema, se tenta silenciar quem aponta o risco. A estratégia da cisterna é um retrato drástico de cancelamento e exclusão: tira-se a pessoa de circulação, isolando e deixando-a definhar. O texto sugere que esse tipo de postura, mais cedo ou mais tarde, colabora para um colapso maior, porque a realidade não muda só porque foi abafada. Ebede-Meleque é um modelo de ação prática. Ele vê a injustiça, acessa quem tem poder para mudar a situação, apresenta os fatos com clareza e se envolve na solução. Ele usa os recursos à mão (trapos e cordas) de forma inteligente, pensando inclusive no conforto mínimo de quem está sendo resgatado. Isso inspira uma atuação ética no cotidiano: usar a influência disponível, por menor que seja, para proteger quem está vulnerável; combinar coragem com senso prático. Zedequias, por outro lado, mostra o perigo de decisões guiadas apenas por medo da opinião alheia. Ele sabe qual é o caminho mais sensato para reduzir danos (rendir-se e preservar vidas), mas fica travado pela preocupação com a imagem e com a reação dos outros (v. 19). Esse padrão se repete hoje quando alguém deixa de tomar a decisão certa em uma empresa, em um casamento ou em uma crise familiar apenas para evitar confronto, exposição ou críticas. O capítulo evidencia que essa postergação, impregnada de medo, pode intensificar o prejuízo para todos à volta. A fala dura sobre o futuro das mulheres e dos filhos do rei (v. 22-23) também lembra que escolhas de liderança têm efeito direto sobre a família e a comunidade. Pais, chefes, líderes e responsáveis por equipes podem enxergar aqui um chamado à responsabilidade: a coragem de enfrentar a verdade, ainda que humilhante, é parte do cuidado prático com quem depende de suas decisões. O texto encoraja a substituir o movimento de esconder problemas por uma postura de encará-los, buscar conselho confiável e agir com firmeza, mesmo que o caminho pareça menos glorioso aos olhos humanos.
Em Jeremias 38, o cenário histórico de cerco e colapso aponta para questões profundas sobre rendição, confiança e destino eterno. A mensagem ao rei Zedequias é, em sua essência, um apelo espiritual: aceitar a disciplina de Deus, ainda que isso signifique abrir mão do controle, da honra e de um certo modo de vida, para que "viva a tua alma" (v. 17, 20). A palavra "alma" não é apenas sobrevivência física; ela aponta para a preservação da vida diante do juízo divino. A escolha é entre resistir ao que Deus determinou e perder tudo, ou render-se e encontrar uma forma de salvação no meio do caos. Jeremias, com sua fidelidade, encarna a vocação espiritual de quem vive diante de Deus, mesmo quando isso o coloca em confronto com sistemas e expectativas humanas. A cisterna, lugar de lama e silêncio, pode ser vista como metáfora de momentos em que a obediência leva a aparentes derrotas e enclausuramento. No entanto, o chamado de Deus não é medido pelos resultados imediatos, mas pela permanência no propósito recebido. A história mostra que a palavra do profeta atravessa a cisterna e chega até a queda de Jerusalém, enquanto muitos dos que pareciam fortes desaparecem do cenário. Ebede-Meleque surge como sinal da forma como Deus cuida dos seus servos. Espiritualmente, ele revela que o Senhor sempre tem meios de sustentar aqueles que permanecem fiéis, às vezes por intermédio de pessoas e caminhos totalmente inesperados. Um estrangeiro e eunuco torna-se instrumento de preservação da voz profética. Isso antecipa a amplitude do propósito divino, que não se limita a fronteiras étnicas ou estruturas religiosas rígidas, mas alcança quem teme a Deus de coração. Zedequias é uma figura trágica, espiritualmente falando. Ele conhece a vontade de Deus, ouve a promessa de vida associada à obediência, até recorre secretamente ao profeta, mas continua governado pelo medo do escárnio humano. O contraste que o texto sugere é profundo: quem teme mais a zombaria dos homens do que o juízo de Deus acaba perdendo justamente o que tenta preservar. A rendição que ele recusa é, na verdade, a porta estreita que poderia conduzi-lo à preservação da alma. No horizonte maior das Escrituras, este capítulo aponta para o chamado constante de Deus à rendição interior: abrir mão de estratégias de autossalvação, descer do trono próprio e aceitar que o caminho de vida, muitas vezes, envolve humilhação aparente. A mensagem é que, diante do juízo divino, a saída não está em resistência orgulhosa, mas em confiar e submeter-se Àquele que é Senhor da história. Quem se curva à vontade de Deus, ainda que em meio a perdas e cercos, encontra uma vida que não pode ser destruída pelo colapso das estruturas ao redor.
" Ouviram, pois, Sefatias, filho de Matã, e Gedalias, filho de Pasur, e Jucal, filho de Selemias, e Pasur, filho de Malquias, as palavras que anunciava Jeremias a todo o povo, dizendo: "
" Assim diz o Senhor: O que ficar nesta cidade morrerá à espada, de fome e de pestilência; mas o que sair aos caldeus viverá; porque a sua alma lhe será por despojo, e viverá. "
" Assim diz o SENHOR: Esta cidade infalivelmente será entregue na mão do exército do rei de babilônia, e ele a tomará. "
" E disseram os príncipes ao rei: Morra este homem, visto que ele assim enfraquece as mãos dos homens de guerra que restam nesta cidade, e as mãos de todo o povo, dizendo-lhes tais palavras; porque este homem não busca a paz para este povo, porém o mal. "
" E disse o rei Zedequias: Eis que ele está na vossa mão; porque o rei nada pode fazer contra vós. "
" Então tomaram a Jeremias, e o lançaram na cisterna de Malquias, filho do rei, que estava no átrio da guarda; e desceram a Jeremias com cordas; mas na cisterna não havia água, senão lama; e atolou-se Jeremias na lama. "
" E, ouvindo Ebede-Meleque, o etíope, um eunuco que então estava na casa do rei, que tinham posto a Jeremias na cisterna (estava, porém, o rei assentado à porta de Benjamim), "
" Logo Ebede-Meleque saiu da casa do rei, e falou ao rei, dizendo: "
" Ó rei, senhor meu, estes homens agiram mal em tudo quanto fizeram a Jeremias, o profeta, lançando-o na cisterna; de certo morrerá de fome no lugar onde se acha, pois não há mais pão na cidade. "
" Então deu ordem o rei a Ebede-Meleque, o etíope, dizendo: Toma contigo daqui trinta homens, e tira a Jeremias, o profeta, da cisterna, antes que morra. "
" E tomou Ebede-Meleque os homens consigo, e foi à casa do rei, por debaixo da tesouraria, e tomou dali uns trapos velhos e rotos, e roupas velhas, e desceu-os a Jeremias na cisterna por meio de cordas. "
" E disse Ebede-Meleque, o etíope, a Jeremias: Põe agora estes trapos velhos e rotos, já apodrecidos, nas axilas, calçando as cordas. E Jeremias assim o fez. "
" E puxaram a Jeremias com as cordas, e o alçaram da cisterna; e ficou Jeremias no átrio da guarda. "
" Então o rei Zedequias mandou trazer à sua presença Jeremias, o profeta, à terceira entrada da casa do Senhor; e disse o rei a Jeremias: Pergunto-te uma coisa, não me encubras nada. "
" E disse Jeremias a Zedequias: Se eu te declarar, porventura não me matarás? E se eu te aconselhar, não me ouvirás? "
" Então jurou o rei Zedequias a Jeremias, em segredo, dizendo: Vive o Senhor, que nos fez esta alma, que não te matarei nem te entregarei na mão destes homens que procuram a tua morte. "
" Então Jeremias disse a Zedequias: Assim diz o SENHOR, Deus dos Exércitos, Deus de Israel: Se voluntariamente saíres aos príncipes do rei de babilônia, então viverá a tua alma, e esta cidade não se queimará a fogo, e viverás tu e a tua casa. "
" Mas, se não saíres aos príncipes do rei de babilônia, então será entregue esta cidade na mão dos caldeus, e queimá-la-ão a fogo, e tu não escaparás da mão deles. "
" E disse o rei Zedequias a Jeremias: Receio-me dos judeus, que se passaram para os caldeus; que estes me entreguem na mão deles, e escarneçam de mim. "
" E disse Jeremias: Não te entregarão; ouve, peço-te, a voz do Senhor, conforme a qual eu te falo; e bem te irá, e viverá a tua alma. "
" Mas, se tu não quiseres sair, esta é a palavra que me mostrou o Senhor: "
" Eis que todas as mulheres que ficaram na casa do rei de Judá serão levadas aos príncipes do rei de babilônia, e elas mesmas dirão: Teus pacificadores te incitaram e prevaleceram contra ti, mas agora que se atolaram os teus pés na lama, voltaram atrás. "
" Assim que a todas as tuas mulheres e a teus filhos levarão aos caldeus, e nem tu escaparás da sua mão, antes pela mão do rei de babilônia serás preso, e esta cidade será queimada a fogo. "
" Então disse Zedequias a Jeremias: Ninguém saiba estas palavras, e não morrerás. "
" E quando os príncipes, ouvindo que falei contigo, vierem a ti, e te disserem: Declara-nos agora o que disseste ao rei e o que ele te disse, não no-lo encubras, e não te mataremos; "
" Então lhes dirás: Eu lancei a minha súplica diante do rei, que não me fizesse tornar à casa de Jônatas, para morrer ali. "
" Vindo, pois, todos os príncipes a Jeremias, e interrogando-o, declarou-lhes todas as palavras que o rei lhe havia ordenado; e calados o deixaram, porque o assunto não foi revelado. "
" E ficou Jeremias no átrio da guarda, até o dia em que Jerusalém foi tomada, e ainda ali estava quando Jerusalém foi tomada. "
Aviso importante: Esta orientacao biblica nao substitui cuidados profissionais de saude mental. Se voce estiver com sintomas de crise, entre em contato com o 988 (National Suicide Prevention Lifeline) ou procure ajuda profissional imediata.