Jeremias 37 - Significado, temas e aplicação

Entenda os temas principais e aplique Jeremias 37 na sua vida hoje

21 versículos | Almeida Corrigida Fiel

Sobre o que é Jeremias 37?

Jeremias 37 narra parte do reinado de Zedequias, rei de Judá, mostrando a contradição entre buscar ajuda espiritual e, ao mesmo tempo, rejeitar a mensagem de Deus. Enquanto o cerco babilônico é temporariamente suspenso por causa do exército do Egito, Jeremias anuncia que a cidade ainda será conquistada. O profeta é falsamente acusado de traição, espancado e lançado num calabouço. Depois, Zedequias o consulta secretamente sobre a palavra do Senhor, e Jeremias reafirma o juízo iminente, suplicando apenas para não morrer na prisão. O rei ameniza sua situação, colocando-o no átrio da guarda, onde ele permanece com ração diária de pão.

Temas principais em Jeremias 37

Rebeldia persistente contra a palavra de Deus (versículos 1-3, 17-19)

Zedequias, seus oficiais e o povo continuam sem obedecer à palavra do Senhor, mesmo tendo acesso ao profeta e vendo as circunstâncias se apertarem. Há uma busca pontual por ajuda, mas sem arrependimento nem mudança de postura diante da mensagem de Deus.

Versículos-chave: 2, 17

A inevitabilidade do juízo divino (versículos 5-10)

Mesmo com a retirada momentânea dos caldeus por causa do exército de Faraó, Deus afirma que Babilônia voltará, tomará Jerusalém e queimará a cidade. O capítulo desmonta falsas esperanças políticas e mostra que o juízo de Deus não pode ser evitado por alianças humanas.

Versículos-chave: 7, 8, 9, 10

Sofrimento do profeta fiel (versículos 13-16, 18-20)

Jeremias é acusado injustamente de traição, espancado e jogado num calabouço transformado em cárcere. Sua fidelidade à mensagem de Deus o leva ao sofrimento, rejeição e risco de morte, mas ele permanece firme e continua falando em nome do Senhor.

Versículos-chave: 15, 16, 18

Busca secreta por Deus sem obediência pública (versículos 17-21)

Zedequias chama Jeremias em segredo para saber se há palavra do Senhor, revelando temor e curiosidade espiritual, mas sem coragem para obedecer abertamente. Essa duplicidade contrasta com a franqueza e integridade do profeta.

Versículos-chave: 17, 19, 21

Cuidado providencial em meio à disciplina (versículos 20-21)

Mesmo dentro do contexto de juízo sobre Jerusalém e do sofrimento pessoal de Jeremias, há um cuidado mínimo preservado: o profeta é tirado do calabouço e recebe pão diariamente até o fim do suprimento da cidade.

Versículos-chave: 20, 21

Contexto histórico e literario

Jeremias 37 se passa nos últimos anos do reino de Judá, durante o reinado de Zedequias (597–586 a.C.), o último rei antes da destruição de Jerusalém. Zedequias foi colocado no trono por Nabucodonosor, rei da Babilônia, em lugar de Joaquim (aqui chamado de Conias), como um vassalo politicamente submisso ao império babilônico.

O cenário é o cerco de Jerusalém pelos caldeus (babilônios). Em meio a esse cerco, o exército do Egito (de Faraó) se move em direção à região, forçando temporariamente os babilônios a se afastarem de Jerusalém. Esse recuo momentâneo criou falsas esperanças no povo de Judá, que passou a acreditar que seria definitivamente livrado, apoiando-se na aliança com o Egito.

Jeremias, porém, já vinha profetizando há anos que confiar em alianças políticas, especialmente no Egito, não livraria Judá do juízo de Deus. A mensagem do profeta era clara: Babilônia seria instrumento de disciplina divina, Jerusalém cairia, e resistir ao rei da Babilônia significava, na prática, resistir à vontade de Deus.

A casa de Jônatas, o escrivão, ter sido transformada em cárcere mostra como a crise militar e política impacta também a vida civil e as estruturas internas da cidade. O texto também reflete o clima de paranoia e acusação de traição, típico de tempos de guerra, em que qualquer movimento pode ser interpretado como fuga ou colaboração com o inimigo.

Zedequias aparece como um rei fraco, dividido entre o medo político, a pressão de seus oficiais e algum respeito (temeroso e inseguro) pela palavra de Deus anunciada por Jeremias.

Estrutura de Jeremias 37

O capítulo tem uma estrutura narrativa relativamente simples, mas carregada de tensão política e espiritual:

  1. Introdução ao reinado de Zedequias e sua desobediência (37:1–2)

    • Relembrança de que Zedequias foi estabelecido por Nabucodonosor.
    • Constatação de que rei, servos e povo não deram ouvidos à palavra do Senhor.
  2. Pedido de intercessão em meio à crise militar (37:3–5)

    • Zedequias envia mensageiros (Jucal e Sofonias) para pedir a Jeremias que ore por Judá.
    • Nota-se que Jeremias ainda circulava livremente, não estava preso.
    • Saída do exército de Faraó do Egito e recuo temporário dos caldeus.
  3. Oráculo de Deus sobre a inutilidade do socorro do Egito (37:6–10)

    • Palavra do Senhor a Jeremias para responder a Zedequias.
    • Anúncio de que o exército de Faraó voltará ao Egito.
    • Garantia de que os caldeus retornarão, tomarão e incendiarão Jerusalém.
    • Advertência contra autoengano e falsas esperanças.
  4. Prisão injusta de Jeremias (37:11–16)

    • No intervalo em que os caldeus sobem de Jerusalém, Jeremias tenta sair em direção à terra de Benjamim.
    • Jerias, capitão da guarda, acusa-o de deserção para o lado dos caldeus.
    • O profeta nega, mas não é ouvido; é levado aos príncipes.
    • Os príncipes se iram, espancam Jeremias e o colocam na prisão, num calabouço na casa de Jônatas.
  5. Entrevista secreta de Zedequias e renovação da profecia de juízo (37:17–19)

    • Zedequias manda soltar Jeremias e o interroga em segredo em sua casa.
    • Pergunta se há palavra do Senhor.
    • Jeremias responde afirmativamente: Zedequias será entregue nas mãos do rei da Babilônia.
    • O profeta questiona a razão de sua prisão e expõe a falsidade dos outros profetas que negavam a invasão babilônica.
  6. Súplica de Jeremias e alívio parcial de seu sofrimento (37:20–21)

    • Jeremias apresenta sua súplica para não voltar ao cárcere de Jônatas, temendo morrer ali.
    • Zedequias ordena que fique no átrio da guarda e receba diariamente um pão da rua dos padeiros.
    • Nota final: Jeremias permanece no átrio da guarda até se esgotar o pão na cidade.

Significado teológico

Jeremias 37 destaca verdades teológicas importantes sobre a relação entre Deus, seu povo e seus mensageiros.

  1. Deus fala com clareza, mesmo em tempos de juízo O capítulo reforça que Deus continua comunicando sua vontade, mesmo quando o juízo é inevitável. A existência de um profeta fiel no meio de uma nação endurecida mostra a graça de Deus em advertir, esclarecer e confirmar sua palavra. A pergunta de Zedequias (“Há porventura alguma palavra do SENHOR?”) é respondida com um claro “Há”, indicando que o silêncio divino não é o problema; o problema é a recusa em obedecer.

  2. Juízo divino é soberano, não anulado por alianças humanas O recuo dos caldeus por causa do Egito poderia ser interpretado como um sinal de livramento, mas Deus revela que é apenas temporário. A teologia do capítulo mostra que nenhuma estratégia política, aliança militar ou cálculo humano pode desfazer a decisão soberana de Deus quando ele decreta juízo. Mesmo um exército caldeu debilitado, “apenas feridos”, ainda seria instrumento suficiente nas mãos de Deus para cumprir seu propósito.

  3. A gravidade do autoengano espiritual Deus ordena: “Não enganeis as vossas almas”, apontando para a responsabilidade pessoal de não se iludir diante da realidade espiritual. O problema não é apenas crença em notícias falsas sobre o cerco, mas a recusa em encarar o juízo como consequência direta da rebeldia contra o Senhor. Teologicamente, o texto alerta contra qualquer esperança baseada em negação da verdade revelada.

  4. Fidelidade profética em contraste com religiosidade superficial Zedequias pede oração e busca palavra de Deus, mas não se submete a ela. Essa tensão evidencia a diferença entre religiosidade de conveniência e verdadeira obediência. Jeremias, por outro lado, mantém-se fiel à mensagem recebida, mesmo sob espancamento, prisão e risco de morte. O texto enfatiza a vocação profética como serviço a Deus antes de qualquer conveniência política.

  5. Soberania de Deus sobre reis e impérios A narrativa recorda que Zedequias foi colocado por Nabucodonosor, mas o pano de fundo de todo o livro mostra que, acima de reis e impérios, está o governo de Deus. Babilônia não é apenas uma potência expansionista; é instrumento de disciplina nas mãos do Senhor. Teologicamente, isso aponta para um Deus que dirige a história, inclusive usando nações pagãs para corrigir seu povo.

  6. Juízo e misericórdia coexistem Embora o juízo sobre Jerusalém seja certo, há sinais de misericórdia: Deus continua falando, Jeremias é poupado da morte imediata no calabouço e recebe sustento básico. A providência de Deus se manifesta mesmo em meio à disciplina severa, preservando um remanescente e mantendo viva a palavra profética.

  7. Responsabilidade dos líderes diante de Deus Zedequias é retratado como um líder ambivalente, pressionado por seus príncipes, temeroso do povo, mas também inquieto diante de Deus. O capítulo, dentro da teologia de Jeremias, denuncia a fraqueza espiritual de líderes que não assumem publicamente a obediência à palavra do Senhor, contribuindo para a ruína nacional.

Aplicação restauradora e de saúde mental

Este capítulo dialoga com experiências de injustiça, insegurança, confusão e esperanças quebradas. Jeremias 37 mostra um homem fiel sofrendo acusações falsas, violência física e encarceramento, em um contexto de colapso social e político.

Do ponto de vista emocional, o texto ressoa com sentimentos de quem é mal interpretado, de quem paga um preço por dizer a verdade ou de quem sofre por decisões erradas de outros (como o povo de Judá sob o governo de Zedequias). A acusação injusta de Jeremias, o fato de não ser ouvido, e o medo de morrer na prisão refletem angústias humanas profundas: medo de abandono, de sofrimento prolongado e de falta de justiça.

Ao mesmo tempo, o capítulo traz um fio de sustentação emocional: mesmo em situação de extrema vulnerabilidade, Jeremias mantém a coerência com sua vocação e continua a falar com clareza. O cuidado básico que recebe (um pão diário, um lugar um pouco menos severo que o calabouço) ilustra como, em meio à crise, ainda pode haver sinais de cuidado providencial suficientes para sustentar a esperança.

Para quem vive em ambientes instáveis ou sob lideranças pouco confiáveis, Jeremias 37 legitima a dor causada pela irresponsabilidade coletiva, mas também aponta para a importância de permanecer fiel aos próprios valores diante de Deus. O texto oferece consolo ao mostrar que sofrimento por fidelidade não é sinal de abandono divino, e sim parte de uma história maior que Deus está conduzindo.

warning Importante: maus usos comuns

Alguns elementos do capítulo podem acionar gatilhos em pessoas sensíveis a temas de violência, injustiça ou opressão:

  1. Violência física e abuso de autoridade: Jeremias é espancado pelos príncipes e colocado em um calabouço. Leitores com histórico de violência física, abuso institucional ou prisões injustas podem se sentir abalados por essa descrição.

  2. Prisão e confinamento: A temática de cárcere, celas e medo de morrer preso pode ser especialmente sensível para quem viveu encarceramento, perseguição ou isolamento forçado.

  3. Injustiça e falsas acusações: Jeremias é acusado injustamente de traição e ninguém lhe dá ouvidos. Isso pode mexer com memórias de processos injustos, difamação ou situações em que a palavra da pessoa foi ignorada.

  4. Cenário de guerra e colapso social: O cerco, a escassez de pão e o desespero nacional podem ativar lembranças dolorosas em quem viveu contextos de guerra, fome ou instabilidade extrema.

Por esses motivos, é recomendável que quem está emocionalmente fragilizado leia este texto com cuidado, eventualmente com acompanhamento pastoral ou terapêutico, permitindo tempo para processar as emoções despertadas.

Aplicação prática para hoje

Jeremias 37 sugere aplicações práticas para a vida cotidiana, especialmente em tempos de crise ou pressão:

  1. Levar a sério a verdade, mesmo quando ela é desconfortável A insistência de Jeremias em anunciar o juízo, apesar da oposição, inspira a cultivar integridade e compromisso com a verdade, em vez de buscar apenas mensagens agradáveis. Em decisões importantes, isso significa priorizar o que é certo diante de Deus, não apenas o que é conveniente ou popular.

  2. Evitar o autoengano e as falsas esperanças O povo de Judá se apega ao recuo temporário dos caldeus como se fosse livramento definitivo. Na prática, o texto alerta contra a tendência de negar problemas graves, apegar-se a sinais superficiais e ignorar causas profundas. Em nível pessoal, isso pode significar reconhecer pecados, padrões destrutivos ou relacionamentos tóxicos em vez de maquiar a realidade.

  3. Não confundir consulta espiritual com obediência real Zedequias procura Jeremias em segredo para ouvir a palavra de Deus, mas não se dispõe a obedecer abertamente. Isso ilustra a distância entre buscar orientação e de fato seguir o que se sabe ser correto. Aplicado à vida diária, reforça a importância de alinhar prática e discurso, especialmente quando se trata de valores espirituais.

  4. Perseverar na fidelidade em ambientes hostis Jeremias permanece fiel à sua missão, mesmo diante de espancamentos, prisões e difamações. Essa postura pode inspirar perseverança ética e espiritual em contextos de trabalho injustos, conflitos familiares ou pressões sociais, lembrando que a aprovação de Deus é mais estável que a aprovação humana.

  5. Reconhecer pequenos sinais de cuidado em meio à crise O pão diário e o átrio da guarda não são uma solução completa, mas representam um alívio real em relação ao calabouço. Essa dinâmica incentiva a valorizar pequenas provisões e cuidados concretos em tempos difíceis, sem perder de vista que ainda se vive um contexto de luta.

  6. Responsabilidade de líderes e influência pessoal A postura vacilante de Zedequias mostra como a indecisão e o medo em posições de liderança podem agravar o sofrimento coletivo. Mesmo quem não ocupa grandes cargos exerce algum tipo de influência (na família, trabalho, comunidade) e é chamado a exercer essa influência com coragem, verdade e responsabilidade.

Perguntas frequentes

Quem era Zedequias mencionado em Jeremias 37?

Zedequias foi o último rei de Judá antes da queda de Jerusalém para a Babilônia em 586 a.C. Ele era filho de Josias e foi colocado no trono por Nabucodonosor, rei da Babilônia, em lugar de Joaquim (Conias). Apesar de ter certa consciência da importância da palavra de Deus, retratada em suas consultas a Jeremias, ele não a obedeceu de forma consistente e acabou conduzindo Judá ao colapso final.

Por que Jeremias foi acusado de fugir para os caldeus?

Quando os caldeus se afastaram temporariamente de Jerusalém por causa do exército de Faraó, Jeremias saiu da cidade em direção à terra de Benjamim. Nesse contexto de guerra e paranoia, Jerias, o capitão da guarda, interpretou sua saída como tentativa de deserção para o lado dos inimigos caldeus e o acusou de fuga. Jeremias negou a acusação, mas não foi ouvido, o que resultou em sua prisão e espancamento.

Se Zedequias pedia oração, por que ele é visto de forma negativa?

Zedequias aparece como um rei que procura Jeremias, pede oração e pergunta pela palavra do Senhor, mas não está disposto a obedecer de forma pública e firme. Ele consulta o profeta em segredo, teme o que o povo e os príncipes vão pensar e não toma decisões alinhadas com a mensagem recebida. Essa duplicidade, entre buscar conselho espiritual e não se submeter a ele, é o que o coloca em uma luz negativa no livro de Jeremias.

O que significa a advertência 'Não enganeis as vossas almas' em Jeremias 37?

A advertência está ligada à falsa esperança de que os caldeus iriam embora definitivamente por causa do exército do Egito. Deus está dizendo ao povo para não se iludir com sinais superficiais de alívio, ignorando a realidade do juízo que havia sido anunciado. Em termos espirituais, significa não alimentar ilusões que contrariem a palavra clara de Deus, nem negar a gravidade do pecado ou das consequências de decisões erradas.

Por que Jeremias pediu para não voltar à casa de Jônatas, o escriba?

A casa de Jônatas havia sido transformada em cárcere, com condições duras, como um calabouço. Jeremias já tinha passado muitos dias ali e temia morrer se voltasse para aquele tipo de prisão. Seu pedido ao rei Zedequias não foi para evitar o sofrimento em geral, mas para não ser colocado novamente em condições tão severas que ameaçavam diretamente sua sobrevivência. O rei então o manteve no átrio da guarda, com provisão diária de pão.

Perspectivas dos nossos guias espirituais

Heart
Heart

Jeremias 37 revela um coração fiel vivendo em meio a um contexto de profunda confusão, medo e injustiça. A figura de Jeremias, acusado falsamente, espancado e colocado num calabouço, expressa o quanto pode doer permanecer fiel quando tudo ao redor parece ruir. Ele sente na pele o peso de ser mal interpretado e ignorado por aqueles que têm poder sobre sua vida. Ao mesmo tempo, o capítulo mostra que Deus não se esquece de seus servos no meio da dor. A mudança do calabouço para o átrio da guarda e o pão diário não são um final feliz, mas são sinais de cuidado em um cenário ainda muito difícil. Há uma ternura silenciosa em ver esse profeta cansado, ferido, ainda assim sendo sustentado dia após dia, sem que sua vida seja esmagada por completo. Também é tocante perceber a angústia de uma nação em colapso, com um rei inseguro buscando respostas em segredo. Por trás das decisões políticas e militares, há medo, desespero e corações divididos. O texto valida a sensação de viver num ambiente instável e tenso, onde quem fala a verdade pode se tornar alvo de agressão. Jeremias 37 abraça a realidade de que a fidelidade a Deus não imuniza ninguém contra a dor, a injustiça ou a solidão. Mas mostra que, mesmo dentro de uma prisão, é possível manter a integridade e que, mesmo dentro de uma cidade cercada, ainda há um Deus que vê, fala e sustenta, passo a passo.

Mind
Mind

Jeremias 37 funciona como uma peça importante no quadro maior da queda de Jerusalém. O texto apresenta de forma condensada a tensão entre teologia e política: de um lado, a palavra do Senhor, que já havia anunciado a Babilônia como instrumento de juízo; de outro, as manobras diplomáticas e militares de Judá, sobretudo na tentativa de apoio do Egito. Do ponto de vista literário, a narrativa contrapõe figuras e atitudes: Zedequias, rei nomeado por Nabucodonosor, aparece como um líder vacilante, que consulta Jeremias, mas não o protege nem obedece plenamente à sua mensagem. Os príncipes de Judá representam a elite resistente ao discurso profético, pronta a calar a voz incômoda da verdade por meio de violência e cárcere. Jeremias, por sua vez, encarna a função profética clássica: porta-voz de Deus, frequentemente em tensão com o poder político. O episódio da retirada temporária dos caldeus por causa do exército de Faraó ilustra o risco hermenêutico de ler circunstâncias isoladas como se fossem toda a interpretação da vontade de Deus. O texto corrige essa leitura, reafirmando a primazia da revelação divina sobre as aparências históricas: o recuo babilônico não significa livramento, e sim uma pausa dentro de um processo de juízo já decretado. A acusação contra Jeremias na porta de Benjamim mostra como, em tempos de crise, gestos cotidianos são facilmente reinterpretados como traição, e a verdade pode ser suprimida pela força. No entanto, o fato de Jeremias ainda ter acesso ao rei e de sua palavra continuar registrada destaca a vitória, ainda que discreta, da mensagem profética sobre as tentativas de silenciamento. Teologicamente, o capítulo reforça temas caros a Jeremias: a soberania de Deus sobre impérios, a futilidade de alianças humanas sem arrependimento, o perigo de falsos profetas que oferecem segurança ilusória e o custo da vocação profética em contextos de endurecimento coletivo.

Life
Life

Jeremias 37 traz lições diretas para as dinâmicas de liderança, responsabilidade e tomada de decisão em ambientes de crise. Zedequias ilustra o impacto de uma liderança que sabe, em alguma medida, o que é certo, mas não assume isso com clareza diante do povo. Sua postura de consultar Jeremias em segredo e, ainda assim, não alinhar publicamente suas ações à palavra recebida, reflete um tipo de gestão marcada pelo medo da opinião alheia. No cotidiano, algo semelhante acontece em famílias, empresas e comunidades, quando líderes buscam conselhos sábios, mas recuam diante da pressão do grupo. O resultado costuma ser prolongamento da crise, perda de confiança e sofrimento para todos os envolvidos. Jeremias 37 expõe esse mecanismo com nitidez: as palavras de Deus são conhecidas, mas a obediência é protelada, e o custo sobe. O comportamento dos príncipes em relação a Jeremias revela como grupos de poder podem se voltar contra quem aponta problemas reais. Em contextos de trabalho ou de comunidade, quem denuncia injustiças ou alerta para riscos muitas vezes se torna alvo, não por estar errado, mas porque sua fala ameaça interesses estabelecidos. O texto encoraja a reconhecer essa dinâmica e a pensar cuidadosamente sobre como reagir à verdade incômoda: com abertura e correção, ou com agressividade e repressão. A perseverança de Jeremias, mesmo depois de ser espancado e preso, mostra um caminho de integridade em ambientes hostis. Ele não adota um discurso mais palatável para ganhar alívio, nem troca sua missão por segurança pessoal. Na prática, isso inspira a manter valores éticos diante de decisões difíceis, ainda que isso não traga recompensas imediatas. Por fim, a pequena melhoria nas condições de Jeremias – do calabouço para o átrio da guarda com pão diário – ilustra que, em muitas situações, mudanças graduais já são passos importantes. Em vez de esperar soluções perfeitas, o texto incentiva a reconhecer e valorizar avanços parciais que reduzem danos, protegem vidas e abrem espaço para a continuidade da missão, mesmo em contextos adversos.

Soul
Soul

Jeremias 37 coloca em foco a seriedade de ouvir e responder à voz de Deus em tempos críticos. A pergunta de Zedequias – “Há porventura alguma palavra do SENHOR?” – ecoa como um clamor espiritual de quem percebe que chegou ao limite de suas estratégias humanas. A resposta de Jeremias, simples e firme – “Há” – revela que o verdadeiro problema raramente é a ausência de direção divina, mas a resistência interior em acolhê-la. O capítulo mostra que alianças políticas, cálculos humanos e sinais circunstanciais não podem substituir a obediência à revelação de Deus. Espiritualmente, isso aponta para o perigo de buscar livramento e conforto sem passar pelo caminho do arrependimento. A falsa segurança oferecida pelos profetas que diziam que o rei da Babilônia não viria é um retrato de mensagens espirituais que prometem paz sem conversão, bem-estar sem cruz. Jeremias, firme em sua vocação, é um modelo de vida orientada por um chamado que transcende a autopreservação. Mesmo diante do risco de morte, ele continua a falar o que Deus lhe confiou. Essa postura sugere uma identidade e um propósito enraizados em algo maior que o momento presente, um horizonte que conecta sofrimento atual com fidelidade eterna. Ao mesmo tempo, o cuidado de Deus em preservar a vida do profeta, dando-lhe pão diário em meio ao cerco, lembra que a jornada espiritual não é vivida fora da realidade material. A provisão simples, em um contexto de escassez, sinaliza que o Deus que disciplina também sustenta, guiando seus servos pelo vale, não apenas chamando do outro lado. Em sua profundidade, Jeremias 37 convida a examinar de que forma se busca a Deus: apenas em segredo, com medo de assumir publicamente a fé e a obediência, ou com uma entrega que unifica coração, decisões e testemunho. Aponta para uma caminhada espiritual em que ouvir a palavra do Senhor implica disposição de alinhar a vida toda com essa voz, mesmo quando isso significa atravessar tempos de perda, correção e aparente derrota, na certeza de que a história está nas mãos daquele que julga com justiça e conduz ao futuro eterno.

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Versículos em Jeremias 37

Jeremias 37:1

" E Zedequias, filho de Josias, a quem Nabucodonosor, rei de babilônia, constituiu rei na terra de Judá, reinou em lugar de Conias, filho de Jeoiaquim. "

Jeremias 37:2

" Mas nem ele, nem os seus servos, nem o povo da terra deram ouvidos às palavras do Senhor que falou pelo ministério de Jeremias, o profeta. "

Jeremias 37:3

" Contudo mandou o rei Zedequias a Jucal, filho de Selemias, e a Sofonias, filho de Maaséias, o sacerdote, ao profeta Jeremias, para lhe dizer: Roga agora por nós ao Senhor nosso Deus. "

Jeremias 37:5

" E o exército de Faraó saíra do Egito; e quando os caldeus, que tinham sitiado Jerusalém, ouviram esta notícia, retiraram-se de Jerusalém. "

Jeremias 37:7

" Assim diz o Senhor, Deus de Israel: Assim direis ao rei de Judá, que vos enviou a mim para me consultar: Eis que o exército de Faraó, que saiu em vosso socorro, voltará para a sua terra no Egito. "

Jeremias 37:9

" Assim diz o Senhor: Não enganeis as vossas almas, dizendo: Sem dúvida se retirarão os caldeus de nós, pois não se retirarão. "

Jeremias 37:10

" Porque ainda que ferísseis a todo o exército dos caldeus, que peleja contra vós, e só ficassem deles homens feridos, cada um levantar-se-ia na sua tenda, e queimaria a fogo esta cidade. "

Jeremias 37:13

" Mas, estando ele à porta de Benjamim, achava-se ali um capitão da guarda, cujo nome era Jerias, filho de Selemias, filho de Hananias, o qual prendeu a Jeremias, o profeta, dizendo: Tu foges para os caldeus. "

Jeremias 37:14

" E Jeremias disse: Isso é falso, não fujo para os caldeus. Mas ele não lhe deu ouvidos; e assim Jerias prendeu a Jeremias, e o levou aos príncipes. "

Jeremias 37:15

" E os príncipes se iraram muito contra Jeremias, e o feriram; e puseram-no na prisão, na casa de Jônatas, o escrivão; porque a tinham transformado em cárcere. "

Jeremias 37:17

" E mandou o rei Zedequias soltá-lo; e o rei lhe perguntou em sua casa, em segredo: Há porventura alguma palavra do SENHOR? E disse Jeremias: Há. E disse ainda: Na mão do rei de babilônia serás entregue. "

Jeremias 37:18

" Disse mais Jeremias ao rei Zedequias: Em que tenho pecado contra ti, e contra os teus servos, e contra este povo, para que me pusésseis na prisão? "

Jeremias 37:19

" Onde estão agora os vossos profetas, que vos profetizavam, dizendo: O rei de babilônia não virá contra vós nem contra esta terra? "

Jeremias 37:20

" Ora, pois, ouve agora, ó rei meu senhor: Seja aceita agora a minha súplica diante de ti, e não me deixes tornar à casa de Jônatas, o escriba, para que eu não venha a morrer ali. "

Jeremias 37:21

" Então ordenou o rei Zedequias que pusessem a Jeremias no átrio da guarda; e deram-lhe um pão cada dia, da rua dos padeiros, até que se acabou todo o pão da cidade; assim ficou Jeremias no átrio da guarda. "

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