Jeremias 7:1
" A palavra que da parte do SENHOR, veio a Jeremias, dizendo: "
Entenda os temas principais e aplique Jeremias 7 na sua vida hoje
34 versiculos | Almeida Corrigida Fiel
O povo acreditava que a simples existência do templo os protegeria do juízo, repetindo como um lema: “Templo do Senhor”. Deus desmascara essa confiança vazia, mostrando que a presença física do templo não substitui um coração obediente nem uma vida justa.
A verdadeira mudança exigida por Deus envolve melhorar caminhos e obras, exercer juízo justo e cessar a opressão do estrangeiro, órfão e viúva, bem como abandonar a violência e a idolatria. O arrependimento bíblico aparece como transformação concreta na forma de tratar o próximo.
O povo rouba, mata, comete adultério, jura falsamente e adora outros deuses, mas depois entra no templo como se estivesse livre para continuar nas mesmas abominações. Deus compara o templo a uma caverna de salteadores, pois se tornou refúgio de gente que não quer mudar de vida.
Desde a saída do Egito, Deus enviou profetas continuamente, mas o povo não quis ouvir, endurecendo o coração geração após geração. Jeremias é chamado a falar mesmo sabendo que não será ouvido, e a nação é descrita como aquela que não aceitou correção nem guardou a verdade.
A idolatria chegou ao ponto de envolver toda a família em cultos à “rainha dos céus” e até sacrifícios de filhos em Tofete. Deus declara que tais práticas nunca foram ordenadas e anuncia que o vale se tornará um “Vale da Matança”, com cadáveres expostos e cessação total de alegria em Judá e Jerusalém.
Deus lembra que, ao tirar o povo do Egito, o centro de sua aliança não foi o sistema de sacrifícios, mas o chamado: “Dai ouvidos à minha voz”. A verdadeira relação com Deus é marcada por escuta, obediência e caminhada nos caminhos que Ele ordena.
Jeremias 7 se situa no período final do reino de Judá, provavelmente durante o reinado de Jeoaquim, pouco antes da destruição de Jerusalém pelos babilônios (final do século VII e início do VI a.C.). O templo em Jerusalém ainda estava de pé, e muitos em Judá acreditavam que essa instituição religiosa garantiria sua segurança contra qualquer ameaça. Havia uma memória histórica importante de Siló, antigo centro de culto onde a arca da aliança havia estado nos tempos de Eli, mas que fora destruído por causa da infidelidade de Israel (cf. 1Sm 4). Deus usa Siló como advertência: o fato de seu nome ter habitado ali não o impediu de julgar aquele lugar. A sociedade de Judá vivia um sincretismo religioso forte: além do culto formal ao Senhor no templo, o povo prestava culto a Baal e à “rainha dos céus”, realizando rituais familiares e estava envolvido em práticas extremamente abomináveis, como o sacrifício de crianças no Vale do Filho de Hinom (Tofete). Esse vale, ao sudoeste de Jerusalém, se tornaria mais tarde um símbolo de juízo e condenação. Jeremias é chamado a se colocar à porta do templo, possivelmente durante uma festa ou ocasião em que muitos vinham adorar. Ali, ele proclama uma “pregação de porta do templo”, confrontando diretamente a confiança enganosa nas instituições religiosas. O texto reflete a longa paciência de Deus, que, ao longo de séculos, enviou profetas ao povo, mas também aponta para a aproximação de um juízo histórico inevitável: exílio, destruição da cidade, profanação do templo e desolação da terra.
O capítulo apresenta um discurso profético estruturado como uma severa advertência, com elementos de sermão e oráculo de juízo:
Introdução e cenário (v.1-2)
Chamado ao arrependimento verdadeiro (v.3-7)
Exposição da hipocrisia religiosa (v.8-11)
Lembrança de Siló como precedente de juízo (v.12-15)
Proibição de intercessão por Jeremias (v.16-20)
Crítica ao formalismo sacrificial (v.21-23)
Histórico da desobediência contínua (v.24-28)
Lamento e rejeição da geração atual (v.29)
Detalhamento da idolatria extrema em Jerusalém (v.30-31)
Profecia de desolação total (v.32-34)
O capítulo destaca a seriedade com que Deus trata a santidade, a justiça e a verdadeira adoração. O templo, embora fosse sinal da presença de Deus, nunca foi um amuleto espiritual capaz de anular a necessidade de obediência. Jeremias 7 desmonta qualquer teologia baseada em símbolos sem transformação de vida. Deus mostra que pode abandonar até o lugar que leva seu nome, se este se tornar palco de injustiça e idolatria.
A prioridade da obediência sobre os sacrifícios, já enfatizada por outros profetas, é reafirmada aqui (v.21-23). A aliança é relacional: Deus promete “eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo”, condicionando essa realidade à escuta e prática de sua palavra. O culto é aceito quando está em harmonia com a ética do reino de Deus — especialmente no cuidado com estrangeiros, órfãos e viúvas, e na rejeição da violência e da idolatria.
O capítulo também revela a paciência e, ao mesmo tempo, os limites do juízo divino. Ao longo de séculos, Deus enviou profetas, madrugando e falando, mas o povo endureceu o coração. Chega um ponto em que o juízo se torna inevitável, a ponto de Jeremias ser proibido de orar pelo povo (v.16). Isso não nega a misericórdia divina, mas mostra que a graça não é licença para persistir continuamente na rebelião.
A referência a Tofete e ao Vale do Filho de Hinom, onde crianças eram sacrificadas, destaca a profundidade da corrupção humana quando se afasta de Deus. Esse vale, transformado em símbolo de juízo, antecipa imagens posteriores de condenação e separação de Deus. A teologia de Jeremias 7 sublinha que a idolatria não é apenas erro doutrinário, mas caminho de autodestruição: “não a mim... e não a si mesmos, para confusão dos seus rostos?” (v.19).
Finalmente, o texto enfatiza a verdade como dom frágil quando constantemente rejeitado: “já pereceu a verdade, e foi cortada da sua boca” (v.28). Onde a voz de Deus é sistematicamente abafada, a sociedade perde seu eixo moral, e o culto se torna fachada, abrindo caminho para desolação espiritual e, no caso de Judá, também histórica e material.
Jeremias 7 toca em temas que se relacionam profundamente com saúde emocional e espiritual. A denúncia da hipocrisia e da incoerência entre discurso e prática expõe um tipo de fratura interna que, na vida de qualquer pessoa ou comunidade, gera culpa crônica, vergonha e sensação de vazio. Quando a espiritualidade é usada como máscara para esconder comportamentos destrutivos, o resultado costuma ser esgotamento interior e quebra de confiança nas relações.
O texto também mostra a dor de um relacionamento rompido: Deus fala repetidas vezes, mas não é ouvido; chama, e ninguém responde. Essa dinâmica é semelhante a vínculos humanos marcados por comunicação unilateral, rejeição contínua e endurecimento do coração. A recusa persistente em ouvir, aqui, não é apenas erro moral, mas um processo de embrutecimento afetivo e espiritual, que torna a pessoa menos sensível à verdade, à correção e ao cuidado.
Ao mesmo tempo, o capítulo deixa implícita a possibilidade de um caminho diferente: “Melhorai os vossos caminhos e as vossas obras”. Há um convite à integração entre fé e vida, entre culto e justiça, que aponta para uma espiritualidade mais saudável, coerente e transformadora. Uma fé assim favorece uma mente mais estável, relações mais justas e um senso mais profundo de propósito.
A dureza das imagens de juízo (desolação, silêncio, morte) também revela a seriedade das escolhas ao longo do tempo. Elas simbolizam a experiência subjetiva de quem colhe, emocionalmente e existencialmente, as consequências de caminhos destrutivos: sensação de vazio, perda de alegria, isolamento. A mensagem tem potencial terapêutico quando conduz à reflexão honesta, ao reconhecimento do autoengano e à busca de um relacionamento mais verdadeiro com Deus, consigo mesmo e com o próximo.
Alguns elementos de Jeremias 7 podem ser gatilhos para pessoas em sofrimento emocional:
Imagens intensas de juízo e destruição (v.20, 32-34)
Proibição de intercessão (v.16)
Idolatria com sacrifício de crianças (v.31)
Linguagem de rejeição e abandono (v.29)
Ênfase na culpa coletiva e persistente (v.24-28)
Por esses motivos, é importante aproximar-se deste texto com compreensão do contexto histórico e teológico, evitando aplicá-lo de forma direta e literal a situações pessoais específicas sem discernimento. Leitura acompanhada, estudo cuidadoso e, quando necessário, apoio de líderes maduros ou profissionais de saúde mental podem ajudar a processar essas imagens de maneira mais segura.
Jeremias 7 oferece aplicações práticas significativas para a vida cotidiana:
Coerência entre fé e prática
Cuidado com autoengano religioso
Prioridade da obediência à voz de Deus
Justiça social como parte da espiritualidade
Atenção à rigidez do coração
Rejeição de práticas destrutivas, mesmo quando normalizadas
Consciência das consequências a longo prazo
A porta do templo era o lugar de entrada do povo para o culto. Ao mandar Jeremias pregar ali, Deus confronta diretamente a falsa segurança que o povo depositava na instituição religiosa. Muitos achavam que, por terem o templo em Jerusalém, estavam automaticamente protegidos, independentemente de seus pecados. Falar à porta do templo tornava a mensagem inescapável para todos os que vinham adorar e mostrava que o próprio culto estava sob julgamento.
A frase “Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é este” era usada como espécie de slogan ou fórmula de segurança espiritual. O povo repetia essas palavras para se convencer de que Deus jamais permitiria a destruição de Jerusalém por causa do templo. Jeremias denuncia essa confiança ilusória, mostrando que a presença do templo não anula o juízo quando há injustiça, idolatria e falta de arrependimento.
Siló foi um importante centro de culto em Israel nos tempos dos juízes e do sacerdote Eli, onde a arca da aliança permaneceu por um período. Ali também se dizia que o nome de Deus habitava. Porém, por causa da infidelidade e pecado do povo, Siló foi destruída, e a arca foi capturada (cf. 1Sm 4). Em Jeremias 7, Deus usa Siló como exemplo histórico para dizer que pode fazer o mesmo com o templo de Jerusalém: o fato de seu nome ter estado em um lugar não impede o juízo se o povo persistir na rebelião.
Essa ordem indica que a situação chegou a um ponto extremo de endurecimento e rebelião coletiva. Ao proibir Jeremias de interceder, Deus comunica que o juízo anunciado não será revertido, porque o povo recusou repetidamente ouvir, arrepender-se e aceitar correção. Não significa que Deus, em geral, rejeite a oração de arrependimento, mas que, naquele momento histórico específico, a nação tinha ultrapassado um limite em sua obstinação, e as consequências seriam inevitáveis.
A “rainha dos céus” era provavelmente uma deusa cultuada em povos vizinhos, associada a astros ou à fertilidade (alguns estudiosos ligam essa expressão a deusas como Astarote/Ishtar). Em Judá, famílias inteiras participavam desse culto idolátrico: filhos apanhavam lenha, pais acendiam o fogo e mulheres preparavam bolos como oferta. Deus condena esse culto por ser idolatria e por substituir a verdadeira adoração a Ele.
Tofete era um local específico dentro do Vale do Filho de Hinom, ao sul ou sudoeste de Jerusalém, onde eram realizados rituais pagãos, incluindo o sacrifício de crianças, queimadas no fogo para deuses estrangeiros. Deus declara que essa prática jamais foi ordenada, nem sequer cogitada por Ele. Por causa dessa abominação, o vale seria renomeado “Vale da Matança”, tornando-se símbolo de juízo e local de enterramentos e cadáveres expostos.
O capítulo mostra que, desde o êxodo, a prioridade de Deus não foi o sistema de sacrifícios em si, mas a obediência à sua voz e a caminhada nos seus caminhos. Sacrifícios só têm sentido se expressam um coração que ouve, se arrepende e busca viver segundo a vontade de Deus. Quando usados para encobrir pecado deliberado e injustiça, tornam-se vazios. Assim, Jeremias 7 reforça que a relação com Deus é centrada em fidelidade, não em rituais mecânicos.
Jeremias 7 retrata um Deus profundamente ferido por um povo que continua vindo ao templo, mas insiste em caminhos que o destroem. O tom do capítulo é duro, mas por trás dele existe um coração que falou, chamou, enviou profetas “todos os dias, madrugando” – alguém que não desistiu facilmente, que insistiu muitas vezes antes de anunciar o juízo. Há uma dor muito humana nesta imagem: a de um relacionamento em que um lado tenta, conversa, avisa, mas é repetidamente ignorado. A recusa em ouvir vai se transformando em casca dura, em insensibilidade. O resultado é um ambiente em que a verdade “perece” e a vida perde alegria, música, celebração. As cenas de silêncio e desolação no final do capítulo são como o eco do que acontece quando vínculos se rompem de forma prolongada. Ao mesmo tempo, logo no início aparece um fio de esperança: “Melhorai os vossos caminhos e as vossas obras”. Há espaço para mudança real, não superficial. A visão aqui não é de pessoas perfeitas, mas de gente disposta a rever a forma como trata o próximo, especialmente quem é frágil – estrangeiro, órfão, viúva. Nessa direção, o próprio Deus se apresenta mais uma vez como alguém que quer ser “vosso Deus” e chama o povo de “meu povo”. O capítulo também expõe o peso de viver uma fé de fachada, onde palavras religiosas tentam abafar uma consciência inquieta. Essa dissonância cansa, aprisiona e gera culpa oculta. A mensagem de Jeremias 7, quando acolhida com honestidade, abre espaço para algo mais leve: uma vida em que o interior e o exterior se aproximam, em que a espiritualidade não é máscara, mas lugar de verdade. Ali, a correção de Deus não soa como rejeição definitiva, mas como cuidado firme de quem não quer ver a pessoa seguir num caminho que só produz vergonha e desolação. Por trás das palavras de juízo, permanece a realidade de um Deus que viu tudo (“eu mesmo, vi isto”), que não é indiferente à dor, à injustiça e à violência. Esse olhar que enxerga também alcança quem se sente esmagado por ambientes religiosos incoerentes ou por histórias de abuso espiritual: Deus não aprova esse uso distorcido do sagrado. Jeremias 7 revela um Deus que não faz vista grossa à maldade, mas que, justamente por isso, deseja um povo inteiro, coerente, capaz de experimentar alegria verdadeira, não apenas religiosidade vazia.
Jeremias 7 é frequentemente chamado de “sermão do templo” e representa uma peça central na teologia de Jeremias. O profeta é enviado à porta do templo para dialogar com uma teologia popular que acreditava na inviolabilidade de Sião e do templo. A repetição tripla “Templo do Senhor” evoca uma espécie de encantamento teológico: uma confiança em fórmulas e símbolos que substituem a obediência efetiva à aliança. O discurso se estrutura como uma acusação de violação da aliança, com elementos próximos de um processo judicial. Deus apresenta as exigências básicas: prática de justiça, não opressão do estrangeiro, órfão e viúva, rejeição ao derramamento de sangue inocente e à idolatria (v.5-7). Em seguida, contrasta essas condições com a realidade: furtos, homicídios, adultério, falso juramento, culto a Baal e outros deuses (v.9). A pergunta retórica do v.10 expõe a teologia pervertida do povo, que transforma a graça em licença para continuar nas mesmas abominações. A menção a Siló (v.12-14) funciona como argumento histórico-teológico. Assim como o santuário de Siló foi abandonado e destruído, apesar de ser lugar do nome de Deus, Jerusalém também poderia ser julgada. O conceito de eleição não é revogado, mas é reinterpretado: a escolha de Deus não é garantia automática contra o juízo quando há infidelidade persistente. Isso corrige uma leitura simplista da aliança davídica e da presença do templo. Os vv.16-20 introduzem uma dimensão teológica complexa: a proibição de intercessão. Em termos bíblicos, a intercessão é muitas vezes meio de suspensão ou mitigação do juízo (como em Moisés). Aqui, o limite é sinalizado: a recusa sistemática de ouvir torna o juízo irreversível. A linguagem de ira derramada sobre homens, animais, árvores e frutos reforça a dimensão cósmica das consequências do pecado humano, que afetam toda a criação. Nos vv.21-23, Jeremias faz uma releitura crítica do sistema sacrificial. A afirmação de que Deus não falou “acerca de holocaustos ou sacrifícios” no dia do êxodo não nega a legislação posterior, mas coloca o foco na prioridade da obediência: o eixo da aliança é o chamado a ouvir a voz de Deus. Esse ponto ecoa tradições proféticas como 1Sm 15.22, Os 6.6 e Mq 6.6-8, delineando uma teologia em que culto verdadeiro é inseparável de ética. A seção histórica (vv.24-28) expande a perspectiva: o problema de Judá não é pontual, mas parte de um padrão transgeracional de resistência à palavra profética. A expressão “andaram para trás, e não para diante” sintetiza regressão espiritual. A conclusão é que a verdade “pereceu” da boca da nação, caracterizando uma sociedade em que discurso religioso pode existir, mas desconectado da realidade da verdade vivida. Finalmente, a referência a Tofete e ao Vale do Filho de Hinom (vv.30-34) conecta práticas cultuais concretas (provavelmente ligadas a divindades como Moloque) com o ápice da abominação: sacrifício de crianças. O anúncio de que o vale se tornará “Vale da Matança” transforma o lugar do pecado em cenário de juízo. Em termos intertextuais, esse vale ainda ganhará importância na literatura bíblica e judaica posterior como imagem de condenação. Assim, Jeremias 7 articula, de forma densa, crítica ao formalismo religioso, ética social, hermenêutica da história de Israel e anúncio de juízo iminente sobre Judá.
Jeremias 7 encosta a vida real na parede: não há espaço para separar espiritualidade das escolhas concretas do dia a dia. O povo mantinha uma agenda religiosa ativa – ia ao templo, falava as palavras certas –, mas, fora dali, a rotina era marcada por injustiça, opressão, falsidade e idolatria. O texto desmonta a ideia de que é possível “compensar” comportamentos destrutivos com atividades religiosas ou boas aparências. Na prática, isso toca diretamente áreas como trabalho, família e relacionamentos. Deus aponta, por exemplo, para como a sociedade tratava o estrangeiro, o órfão e a viúva – justamente quem tinha menos proteção. Hoje, a lógica é a mesma: o tratamento que se dá a quem tem menos poder, menos voz ou menos recursos revela muito mais sobre a fé de alguém do que discursos bonitos. O capítulo sugere que projetos, negócios e decisões que exploram os fracos, mesmo se rodeados de linguagem religiosa, caminham na contramão da vontade de Deus. Outro ponto prático é o padrão de autoengano. O povo repetia “Templo do Senhor” como se isso apagasse a realidade do que acontecia fora do templo. Em termos cotidianos, isso lembra justificativas como “todo mundo faz”, “sempre foi assim” ou “Deus entende”, usadas para manter hábitos claramente prejudiciais. A mensagem de Jeremias 7, aplicada de forma sábia, leva à revisão honesta de justificativas que servem apenas para adiar mudanças necessárias. O texto também expõe o peso de tradições familiares nocivas. Em Judá, famílias inteiras cooperavam em práticas idólatras, cada um com seu papel, como se fosse algo natural. Isso se aproxima de dinâmicas em que padrões de mentira, corrupção, violência ou desrespeito se tornam “normais” dentro da família ou da cultura. A partir desta crítica, o capítulo encoraja a romper ciclos: reconhecer que algo é cultural ou herdado não o torna correto. Por fim, Jeremias 7 lembra que escolhas constantes moldam o futuro. A desolação, o silêncio e a perda de alegria descritos no final não surgem de um dia para o outro; são o resultado de anos de decisões na direção errada. Em sentido positivo, isso também é verdade: pequenos passos consistentes em direção à justiça, à verdade e à escuta de Deus constroem, ao longo do tempo, ambientes mais saudáveis para famílias, comunidades e sociedades. A fé, então, deixa de ser apenas um rótulo e passa a influenciar agenda, prioridades, relacionamentos e forma de exercer poder e recursos no cotidiano.
Jeremias 7 coloca a questão da relação com Deus em termos profundamente espirituais: quem é, de fato, o Deus que governa o coração? A idolatria descrita não é apenas um erro externo; ela reorganiza a vida inteira ao redor de falsos centros – outros deuses, seguranças humanas, práticas herdadas. Quando a confiança passa do Deus vivo para símbolos, instituições ou rituais, a espiritualidade entra em colapso silencioso, mesmo que a aparência religiosa permaneça. O chamado “Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo” é central. A identidade espiritual do povo não se baseia primeiro em um lugar (templo, cidade) ou em um rótulo, mas numa relação viva de escuta e obediência. Isso aponta para uma compreensão de salvação e vida eterna que começa já agora: viver como povo de Deus significa participar de um caminho de aliança, em que Ele guia, corrige, orienta e sustenta. A proibição de intercessão a Jeremias revela a gravidade de um coração que, ao longo de muito tempo, rejeita persistentemente a voz de Deus. Espiritualmente, o texto não incentiva o medo desesperado, mas o despertar: não tratar a graça como algo barato. A paciência divina é longa, mas não significa indiferença. Cada vez que a verdade é rejeitada, o coração se torna menos sensível, e o distanciamento de Deus deixa de ser apenas conceito para se tornar realidade existencial. O contraste entre culto verdadeiro e culto idólatra é outro ponto espiritual importante. No culto à “rainha dos céus” e em Tofete, a adoração leva literalmente à morte – inclusive de crianças. Esse retrato extremo simboliza o que todo falso deus faz, em última instância: exige sacrifícios destrutivos e nunca oferece vida verdadeira. Em contrapartida, a verdadeira adoração ao Deus de Israel está ligada ao bem do povo (“para que vos vá bem”), à justiça, à vida comunitária saudável. A transformação do Vale do Filho de Hinom em “Vale da Matança” carrega um peso escatológico. Ao longo da tradição bíblica e judaica, esse vale se tornará imagem de juízo e separação de Deus. Jeremias 7, portanto, antecipa a verdade de que as escolhas espirituais têm consequências não apenas temporais, mas também de longo alcance, apontando para realidades últimas. Ainda assim, há um fio de esperança subjacente: se Deus se ocupa tão seriamente em denunciar, lembrar a história, chamar ao arrependimento e mostrar as consequências, isso revela o quanto Ele leva a sério o destino espiritual do seu povo. A mesma voz que anuncia juízo é a que, em outros trechos, promete restauração. Jeremias 7 convida a uma espiritualidade em que a relação com Deus é central, exclusiva e transformadora, na qual ouvir e obedecer à sua voz é visto como caminho de vida, e não de perda. Nessa perspectiva, o templo físico é secundário diante do coração que se torna, ele mesmo, lugar de encontro real com o Deus santo e misericordioso.
" A palavra que da parte do SENHOR, veio a Jeremias, dizendo: "
" Põe-te à porta da casa do Senhor, e proclama ali esta palavra, e dize: Ouvi a palavra do Senhor, todos de Judá, os que entrais por estas portas, para adorardes ao Senhor. "
" Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Melhorai os vossos caminhos e as vossas obras, e vos farei habitar neste lugar. "
" Não vos fieis em palavras falsas, dizendo: Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é este. "
" Mas, se deveras melhorardes os vossos caminhos e as vossas obras; se deveras praticardes o juízo entre um homem e o seu próximo; "
" Se não oprimirdes o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, nem derramardes sangue inocente neste lugar, nem andardes após outros deuses para vosso próprio mal, "
" Eu vos farei habitar neste lugar, na terra que dei a vossos pais, desde os tempos antigos e para sempre. "
" Eis que vós confiais em palavras falsas, que para nada vos aproveitam. "
" Porventura furtareis, e matareis, e adulterareis, e jurareis falsamente, e queimareis incenso a Baal, e andareis após outros deuses que não conhecestes, "
" E então vireis, e vos poreis diante de mim nesta casa, que se chama pelo meu nome, e direis: Fomos libertados para fazermos todas estas abominações? "
" É pois esta casa, que se chama pelo meu nome, uma caverna de salteadores aos vossos olhos? Eis que eu, eu mesmo, vi isto, diz o Senhor. "
" Mas ide agora ao meu lugar, que estava em Siló, onde, ao princípio, fiz habitar o meu nome, e vede o que lhe fiz, por causa da maldade do meu povo Israel. "
" Agora, pois, porquanto fazeis todas estas obras, diz o Senhor, e eu vos falei, madrugando, e falando, e não ouvistes, e chamei-vos, e não respondestes, "
" Farei também a esta casa, que se chama pelo meu nome, na qual confiais, e a este lugar, que vos dei a vós e a vossos pais, como fiz a Siló. "
" E lançar-vos-ei de diante de minha face, como lancei a todos os vossos irmãos, a toda a geração de Efraim. "
" Tu, pois, não ores por este povo, nem levantes por ele clamor ou oração, nem me supliques, porque eu não te ouvirei. "
" Porventura não vês tu o que andam fazendo nas cidades de Judá, e nas ruas de Jerusalém? "
" Os filhos apanham a lenha, e os pais acendem o fogo, e as mulheres preparam a massa, para fazerem bolos à rainha dos céus, e oferecem libações a outros deuses, para me provocarem à ira. "
" Acaso é a mim que eles provocam à ira? diz o Senhor, e não a si mesmos, para confusão dos seus rostos? "
" Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que a minha ira e o meu furor se derramarão sobre este lugar, sobre os homens e sobre os animais, e sobre as árvores do campo, e sobre os frutos da terra; e acender-se-á, e não se apagará. "
" Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Ajuntai os vossos holocaustos aos vossos sacrifícios, e comei carne. "
" Porque nunca falei a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios. "
" Mas isto lhes ordenei, dizendo: Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e andai em todo o caminho que eu vos mandar, para que vos vá bem. "
" Mas não ouviram, nem inclinaram os seus ouvidos, mas andaram nos seus próprios conselhos, no propósito do seu coração malvado; e andaram para trás, e não para diante. "
" Desde o dia em que vossos pais saíram da terra do Egito, até hoje, enviei-vos todos os meus servos, os profetas, todos os dias madrugando e enviando-os. "
" Mas não me deram ouvidos, nem inclinaram os seus ouvidos, mas endureceram a sua cerviz, e fizeram pior do que seus pais. "
" Dir-lhes-ás, pois, todas estas palavras, mas não te darão ouvidos; chamá-los-ás, mas não te responderão. "
" E lhes dirás: Esta é a nação que não deu ouvidos à voz do Senhor seu Deus e não aceitou a correção; já pereceu a verdade, e foi cortada da sua boca. "
" Corta o teu cabelo e lança-o de ti, e levanta um pranto sobre as alturas; porque já o Senhor rejeitou e desamparou a geração do seu furor. "
" Porque os filhos de Judá fizeram o que era mau aos meus olhos, diz o Senhor; puseram as suas abominações na casa que se chama pelo meu nome, para contaminá-la. "
" E edificaram os altos de Tofete, que está no Vale do Filho de Hinom, para queimarem no fogo a seus filhos e a suas filhas, o que nunca ordenei, nem me subiu ao coração. "
" Portanto, eis que vêm dias, diz o Senhor, em que não se chamará mais Tofete, nem Vale do Filho de Hinom, mas o Vale da Matança; e enterrarão em Tofete, por não haver outro lugar. "
" E os cadáveres deste povo servirão de pasto às aves dos céus e aos animais da terra; e ninguém os espantará. "
" E farei cessar nas cidades de Judá, e nas ruas de Jerusalém, a voz de gozo, e a voz de alegria, a voz de esposo e a voz de esposa; porque a terra se tornará em desolação. "
Aviso importante: Esta orientacao biblica nao substitui cuidados profissionais de saude mental. Se voce estiver com sintomas de crise, entre em contato com o 988 (National Suicide Prevention Lifeline) ou procure ajuda profissional imediata.