Jeremias 26:1
" No princípio do reinado de Jeoiaquim, filho de Josias, rei de Judá, veio esta palavra do SENHOR, dizendo: "
Entenda os temas principais e aplique Jeremias 26 na sua vida hoje
24 versiculos | Almeida Corrigida Fiel
Deus envia Jeremias ao centro da vida religiosa do povo para anunciar que ainda há tempo para voltar atrás. O juízo é real, mas não inexorável: se o povo ouvir, se converter e mudar os caminhos, o Senhor se arrepende do mal anunciado. O foco não é apenas denunciar o pecado, mas abrir uma porta de retorno.
A fidelidade de Jeremias à palavra de Deus o coloca em choque com sacerdotes, profetas e povo, que o declaram réu de morte. A mesma palavra que poderia trazer vida provoca hostilidade em quem não quer ser confrontado. O capítulo mostra o custo de falar em nome do Senhor quando a mensagem é impopular.
Jeremias se coloca nas mãos das autoridades sem recuar da mensagem. Ele afirma claramente que foi enviado por Deus e alerta que tirar sua vida seria derramar sangue inocente. Sua segurança não está na proteção humana, mas na certeza do chamado e da justiça divina.
Os anciãos recorrem ao exemplo de Miquéias nos dias de Ezequias para avaliar a situação presente. Lembram como um rei piedoso reagiu à mesma espécie de advertência: com temor, súplica e busca do favor de Deus, e assim o juízo foi suspenso. A história torna-se um critério para não repetir erros e para reconhecer a voz de Deus.
Príncipes, sacerdotes, profetas e rei são colocados diante de decisões opostas: uns protegem o profeta, outros o perseguem até a morte. O texto contrasta as atitudes de Ezequias, Jeoaquim e Aicão, mostrando como líderes podem abrir caminho para misericórdia ou para tragédia, dependendo de como respondem à palavra divina.
O cenário é o início do reinado de Jeoaquim, filho de Josias, rei de Judá (cerca de 609–605 a.C.). Após a morte de Josias, que promoveu grandes reformas religiosas, Judá retorna rapidamente à infidelidade, idolatria e injustiça. Jeoaquim é conhecido por sua dureza de coração, rejeição à mensagem profética e alinhamento político instável entre potências como Egito e Babilônia. O templo em Jerusalém, centro do culto, torna-se também símbolo de falsa segurança: muitos acreditavam que a simples presença do templo os protegeria do juízo, independentemente da obediência. Ao mencionar Siló (antigo centro de culto onde a arca da aliança esteve antes de Jerusalém), Jeremias lembra que Deus já havia permitido a destruição de um lugar sagrado por causa do pecado do povo. O episódio com Urias mostra que a perseguição a profetas fiéis não era hipotética: reis como Jeoaquim estavam dispostos a matar mensageiros para silenciar a palavra de juízo. Em contraste, os anciãos evocam os dias de Ezequias (final do século VIII a.C.), quando o rei reagiu com arrependimento às advertências de Miquéias e Isaías, e assim Judá foi livrado de um juízo imediato.
O capítulo se organiza como uma narrativa histórica com foco em um julgamento público da profecia de Jeremias:
Jeremias 26 traz questões centrais sobre a relação entre Deus, seu povo e seus mensageiros. A passagem mostra que a palavra de juízo não é capricho divino, mas resposta à persistente recusa em ouvir a lei e os profetas que Deus envia com insistência. Ainda assim, há uma ênfase marcante na misericórdia: o próprio Deus declara a possibilidade de “se arrepender do mal” anunciado se o povo se converter de seus maus caminhos. O juízo é condicional à resposta humana, não porque Deus mude de caráter, mas porque seu propósito é restaurar, não destruir.
O texto também destaca a seriedade de rejeitar a verdadeira profecia. Quando líderes religiosos e o povo se levantam contra Jeremias, revelam como o culto pode se tornar vazio e até hostil à voz de Deus, quando protege tradições e instituições em vez de acolher a verdade. O contraste entre os anciãos que se lembram de Miquéias e o rei Jeoaquim que mata Urias mostra dois caminhos teológicos: o temor do Senhor que abre a porta para a graça e a dureza que conduz à culpa e ao juízo.
A figura de Jeremias ilustra a vocação profética como serviço marcado por vulnerabilidade e sofrimento. Ele não se defende com violência nem adapta a mensagem para salvar a própria pele; coloca-se nas mãos das autoridades, confiante na justiça de Deus e consciente de sua inocência. Isso ressalta que a autoridade do mensageiro vem do envio divino, não da aceitação humana. Ao lado disso, a intervenção de Aicão indica que Deus pode usar pessoas em posições estratégicas para proteger seus servos e manter viva a palavra profética, mesmo em ambientes hostis.
Há ainda uma teologia do lugar sagrado: o templo não é garantia automática de proteção. Assim como Siló foi abandonada ao juízo, Jerusalém também pode ser. A presença de Deus não se prende a edifícios, mas à aliança, à obediência e ao coração contrito. O capítulo, portanto, reafirma que a verdadeira segurança espiritual está em ouvir e responder à palavra do Senhor, não em símbolos religiosos ou em poder político.
Este capítulo oferece uma lente terapêutica importante sobre a experiência de falar a verdade em contextos hostis, lidar com rejeição e encontrar segurança na consciência diante de Deus. Jeremias se vê cercado por acusações injustas, ódio coletivo e ameaça real de morte, mas permanece firme naquilo que sabe ser seu chamado. A narrativa valida a dor de ser mal interpretado e atacado justamente quando se busca ser fiel.
O texto também mostra como a memória de experiências passadas de restauração, como nos dias de Ezequias, pode funcionar como recurso interno de esperança: o povo já viu Deus reverter juízos quando houve arrependimento genuíno. Do ponto de vista emocional, isso oferece uma estrutura para compreender que situações de conflito intenso não são o fim da história; há espaço para mudança de postura, revisão de decisões e proteção inesperada, como a que vem através de Aicão.
A figura de Jeremias reforça a importância de manter integridade mesmo debaixo de pressão. Ele não nega o medo ou a gravidade da situação, mas assume uma postura de entrega: reconhece que está nas mãos das autoridades, sem abrir mão da verdade. Essa atitude pode inspirar processos de fortalecimento interno, em que a pessoa aprende a distinguir entre sua responsabilidade (fidelidade ao que é certo) e aquilo que foge ao seu controle (reação dos outros).
Por fim, o relato do profeta Urias lembra que o sofrimento e até a morte de inocentes podem acontecer, mesmo quando se faz o que é certo. Em vez de romantizar a fidelidade, o texto a encara com realismo. No contexto de cuidado emocional, isso ajuda a reconhecer que a dor vivida por pessoas que sofreram injustiças não é sinal de fraqueza espiritual, mas parte de uma luta maior em que Deus continua atento, mesmo quando o cenário parece dominado pela violência e pela injustiça.
O capítulo apresenta elementos que podem ser sensíveis para pessoas em sofrimento emocional ou espiritual:
Em contextos de cuidado, é importante ler esse texto com sensibilidade, reforçando a dimensão de apelo ao arrependimento, a possibilidade de mudança e a ênfase na misericórdia de Deus, além de validar a dor causada por injustiças e perseguições.
Jeremias 26 traz implicações práticas para várias dimensões da vida:
Fidelidade à verdade em contextos difíceis: Jeremias permanece fiel à mensagem, mesmo quando se torna impopular e perigosa. Isso inspira atitudes de honestidade e integridade em ambientes de trabalho, família ou comunidade, especialmente quando a pressão é para se calar diante de injustiças.
Importância de ouvir advertências: O capítulo mostra que Deus envia avisos por meio de sua palavra e de pessoas que chamam ao arrependimento. Na prática, isso encoraja a não desprezar correções, conselhos sábios ou confrontos amorosos sobre atitudes erradas.
Responsabilidade de líderes: Sacerdotes, profetas, príncipes e rei influenciam o destino do povo. Líderes hoje — em igrejas, famílias, empresas ou governo — são lembrados de que suas decisões diante da verdade podem proteger ou ferir vidas. Admitir erros e buscar o que é justo traz segurança; endurecer-se diante da verdade traz consequências.
Uso da memória para discernir: Os anciãos recorrem ao exemplo de Miquéias e Ezequias para orientar sua decisão presente. Aplicado à vida diária, isso incentiva a aprender com experiências passadas, testemunhos e a história da fé para evitar reações precipitadas e injustas.
Cuidado com a falsa segurança religiosa: A confiança exagerada em estruturas, tradições ou rótulos religiosos pode levar à cegueira espiritual. O texto convida a checar se a prática de fé está alinhada com obediência e mudança de vida, em vez de se apoiar apenas em símbolos ou costumes.
Coragem serena diante de injustiças: A postura de Jeremias — reconhecendo o poder dos outros sobre sua vida, sem abrir mão da verdade — sugere uma forma de coragem que não é agressiva, mas firme. Em conflitos, isso se traduz em falar com respeito, manter a consciência limpa e entregar o resultado a Deus.
Apoio a quem sofre por fazer o certo: Aicão usa sua posição para proteger Jeremias. Isso aponta para a responsabilidade de apoiar quem está sendo injustiçado por ser fiel, oferecendo cobertura, voz e proteção sempre que possível.
Quando o texto diz que Deus pode se arrepender do mal que intentava fazer (v.3, v.13), não significa que Deus erra ou muda de caráter. É uma forma humana de descrever que Ele suspende ou revoga o juízo anunciado quando há arrependimento genuíno do povo. O juízo é condicional: se o povo persevera no pecado, a sentença se cumpre; se se volta a Deus, a mesma fidelidade divina se manifesta em misericórdia. O "arrependimento" de Deus é, na prática, a mudança de tratamento em resposta à mudança de atitude humana.
Siló foi um antigo centro de culto em Israel, onde a arca da aliança permaneceu nos dias de Josué e dos juízes. Por causa do pecado e da infidelidade do povo, Siló foi devastada, deixando de ser um local de adoração central. Ao dizer que o templo se tornaria como Siló (v.6), Jeremias afirma que nem mesmo o lugar mais sagrado está isento do juízo quando o povo vive em rebelião. A mensagem é que Deus não se prende a edifícios; Ele pode permitir a destruição de um templo se o coração do povo estiver longe dEle.
Urias, filho de Semaías, de Quiriate-Jearim (vv.20-23), foi um profeta que também anunciava, em nome do Senhor, juízo contra Jerusalém e a terra, em termos semelhantes aos de Jeremias. Ao ser perseguido pelo rei Jeoaquim, Urias fugiu para o Egito, mas foi capturado, trazido de volta e morto à espada, tendo seu corpo lançado em sepulturas comuns. O relato de Urias mostra que a perseguição contra profetas fiéis era real e reforça o contraste entre a dureza de Jeoaquim e a proteção concedida a Jeremias por meio de Aicão.
O texto destaca dois fatores principais. Primeiro, a intervenção dos príncipes e do povo, influenciados pelos anciãos que lembram o exemplo de Miquéias e do rei Ezequias (vv.16-19). Eles reconhecem que Jeremias falou em nome do Senhor e, por isso, não deve ser condenado à morte. Segundo, a ação específica de Aicão, filho de Safã, que protege Jeremias (v.24), impedindo que seja entregue ao povo. Assim, além da soberania de Deus preservando a vida do profeta, o texto mostra como decisões humanas e lideranças justas podem impedir injustiças.
Os anciãos citam Miquéias (vv.18-19), que profetizou nos dias de Ezequias que Sião seria lavrada como um campo e Jerusalém se tornaria em montes de ruínas. Eles recordam que, em vez de matar o profeta, Ezequias temeu ao Senhor, implorou o favor de Deus e, como resultado, o Senhor se arrependeu do mal anunciado. Esse exemplo funciona como precedente histórico e teológico: mostra a maneira correta de reagir à palavra dura de Deus — com arrependimento, não com violência contra o mensageiro — e serve para convencer os presentes de que matar Jeremias seria “um grande mal contra as suas almas”.
Jeremias 26 revela um coração fiel cercado por incompreensão e hostilidade. Jeremias está apenas obedecendo à voz de Deus, mas encontra o peso da rejeição de praticamente todos os lados: sacerdotes, profetas e povo se levantam contra ele, gritando que merece a morte. A dor de ser tratado como inimigo quando se busca o bem do outro é real e profunda, e o texto não a esconde. Ao mesmo tempo, esse capítulo mostra que Deus não ignora quem sofre por fidelidade. A mensagem que Jeremias traz não é uma sentença fria, mas um apelo amoroso: talvez o povo ouça, mude de caminho, e então o próprio Deus se arrependa do mal anunciado. Há ternura nesse “talvez”: Deus continua oferecendo uma chance, insistindo em alcançar corações endurecidos. O profeta carrega essa tensão: traz palavras duras, mas sustentadas por um desejo de restauração. A atitude de Jeremias diante do perigo também fala de um coração entregue. Ele admite estar nas mãos dos príncipes e do povo, sem negar a gravidade da situação, mas mantém a consciência de que é inocente e foi enviado pelo Senhor. Não se vê desespero histérico, e sim uma dor firme, que se ancora na certeza de não estar mentindo. Para quem sente o peso de acusações injustas, essa postura mostra que é possível reconhecer a ferida e, ainda assim, guardar a própria dignidade. Deus também levanta pessoas que cuidam de seus servos. Aicão aparece quase silenciosamente, mas sua mão protege Jeremias. No meio de tanto grito de ódio, há um gesto de proteção que impede uma tragédia. Isso lembra que, mesmo quando a solidão parece total, Deus sabe como colocar ao redor de seus filhos pessoas que amparam, defendem e dão suporte em horas críticas. O contraste com Urias é doloroso: ele é morto, e seu corpo é tratado sem honra. A narrativa não disfarça a injustiça. Em vez de explicar ou minimizar, apenas mostra o quanto a maldade humana pode esmagar vidas inocentes. Para corações feridos por injustiças, essa honestidade bíblica é um consolo: Deus não mascara o sofrimento, não romantiza a dor. Ele a vê, a registra e a coloca dentro da sua história, onde nada do que é sofrido por amor à verdade é esquecido.
Jeremias 26 oferece um caso paradigmático sobre a função e o julgamento da profecia em Judá. A datação “no princípio do reinado de Jeoaquim” posiciona este episódio em um momento de transição da reforma de Josias para a infidelidade crescente. A ordem divina coloca Jeremias no átrio do templo, local de máximo fluxo de adoradores vindos de “todas as cidades de Judá”, sugerindo um oráculo de alcance nacional. A fórmula “não omitas nenhuma palavra” ressalta a integralidade da revelação: o profeta não é editor, mas mensageiro. O conteúdo do oráculo retoma temas centrais de Jeremias: exigência de ouvir a lei, recusa histórica em atender aos profetas “madrugando e enviando” e o uso de Siló como exemplo de lugar sagrado abandonado ao juízo. Siló havia sido destruída nos dias dos juízes, provavelmente no contexto da derrota contra os filisteus (1Sm 4), e funcionava como advertência histórica contra a confiança supersticiosa em santuários. Teologicamente, isso reforça uma visão não mágica do templo: a presença de Deus está condicionada à fidelidade à aliança. A reação dos sacerdotes e profetas que acusam Jeremias de traição à cidade evidencia um conflito entre autoridade institucional e autoridade carismática. Do ponto de vista deles, falar contra o templo e Jerusalém soa como blasfêmia e deslealdade nacional. O texto, porém, reverte essa perspectiva, mostrando que é precisamente a defesa cega das instituições que os coloca em oposição à verdadeira palavra do Senhor. A defesa de Jeremias é teologicamente significativa: ele reconhece a legitimidade das autoridades civis em julgá-lo, mas fundamenta sua mensagem exclusivamente no envio divino. Sua proposta de solução é clara: “melhorai os vossos caminhos e as vossas ações” e “ouvi a voz do Senhor vosso Deus”. Em outras palavras, a profecia não é fatalista; abre espaço para uma resposta que altera o desfecho. O discurso dos anciãos introduz um importante precedente jurídico-teológico. Miquéias 3:12, texto citado quase literalmente, havia anunciado a destruição de Sião e Jerusalém. Entretanto, o rei Ezequias respondeu com temor e súplica, e o juízo foi revertido. Os anciãos usam esse caso como jurisprudência profética: uma mensagem de destruição não torna o profeta réu de morte; ao contrário, exige arrependimento. Assim, o capítulo ilumina como a tradição profética foi usada internamente para avaliar reivindicações proféticas posteriores. O relato de Urias funciona como contranarrativa. Ele compartilha da mesma mensagem de Jeremias, mas é perseguido, foge para o Egito e é executado por ordem de Jeoaquim. Sua morte mostra que a proteção dada a Jeremias não era automática; dependia de fatores históricos concretos, incluindo a presença de aliados como Aicão. Isso ressalta a diversidade de destinos de profetas fielmente enviados. Em termos de crítica literária, o capítulo enfatiza a tensão entre diferentes grupos de poder: sacerdotes e profetas oficiais versus príncipes e anciãos; o rei Jeoaquim versus o rei Ezequias do passado; e figuras de apoio como Aicão. A mensagem teológica subjacente é que a autenticidade profética se discerne não pela popularidade ou benefício imediato, mas pela fidelidade à tradição da aliança e pela coerência com a história da ação de Deus entre seu povo.
Jeremias 26 coloca em cena alguém que paga um preço alto por falar a verdade. Ele é enviado a um lugar de grande visibilidade — o átrio do templo, centro da vida religiosa — e não recebe permissão para suavizar a mensagem. No dia a dia, isso se traduz em situações em que uma pessoa precisa tocar em temas desconfortáveis em casa, no trabalho ou na comunidade, sabendo que isso pode gerar resistência ou até hostilidade. A reação que Jeremias enfrenta é muito parecida com conflitos modernos: em vez de avaliar o conteúdo da mensagem, as pessoas atacam o mensageiro. Sacerdotes e profetas o acusam de ser inimigo da cidade e pedem sua morte. Isso reflete dinâmicas em que críticas construtivas são interpretadas como deslealdade, e quem aponta problemas é rotulado como ameaça. O texto mostra o risco real de tomar partido da aparência de estabilidade — manter o templo “intocado” — em vez de encarar aquilo que precisa mudar. A postura de Jeremias oferece um modelo prático de como lidar com confrontos inevitáveis. Ele não se retrai, nem devolve a hostilidade em tom agressivo. Reafirma com clareza de onde vem sua mensagem, repete o apelo à mudança de caminhos e admite que sua própria vida está nas mãos das autoridades. Ao mesmo tempo, ele estabelece um limite ético: matar um inocente traria culpa sobre a cidade. Em termos de convivência, isso ensina a falar com firmeza, mas de forma respeitosa, deixando claro o que é responsabilidade de cada parte. Os anciãos demonstram outro elemento prático importante: em momentos de tensão, eles recorrem à memória de uma situação semelhante do passado (Miquéias e Ezequias) e analisam o que deu certo naquela ocasião. Em vez de decidirem movidos apenas pela emoção do momento, ponderam sobre exemplos anteriores e percebem que repetir a violência seria um “grande mal contra as suas almas”. Essa atitude lembra o valor de ouvir pessoas experientes, estudar casos anteriores e evitar decisões precipitadas quando as emoções estão à flor da pele. A história de Urias alerta para a dureza de contextos injustos: nem sempre a fidelidade será recompensada visivelmente nesta vida. Isso ajuda a ajustar expectativas: seguir a verdade não é uma garantia automática de resultados seguros ou aprovação geral. Por isso, o papel de pessoas como Aicão é tão relevante: ele usa sua influência para proteger Jeremias. Na prática, isso inspira a apoiar quem está sob fogo por fazer o que é certo, seja defendendo alguém injustamente acusado, seja abrindo espaço para que vozes impopulares, mas necessárias, sejam ouvidas. Como princípio de vida, o capítulo sugere três movimentos: ouvir com seriedade chamadas à mudança, mesmo quando incômodas; manter integridade ao falar, aceitando que nem todos aprovarão; e usar qualquer posição de liderança ou influência para proteger a justiça e dar espaço para a verdade, em vez de silenciá-la.
Jeremias 26 traz à tona questões profundas sobre como o coração humano responde à voz de Deus e qual é o peso espiritual dessas respostas. A mensagem de Jeremias é, ao mesmo tempo, aviso de juízo e convite à restauração. Deus se apresenta como alguém que envia servos repetidas vezes, “madrugando e enviando”, insistindo em alcançar um povo que fecha os ouvidos. Isso revela um Deus que não desiste facilmente, que procura o arrependimento antes do juízo. Quando Ele diz que pode se arrepender do mal que intentava fazer, mostra a dinâmica espiritual do arrependimento: não se trata apenas de evitar consequências negativas, mas de retomar uma relação quebrada. O juízo é descrito como caminho provável se a dureza persistir; o arrependimento abre uma via alternativa, na qual a compaixão de Deus prevalece. Esse capítulo, portanto, reforça a seriedade da liberdade humana: as escolhas diante da palavra de Deus moldam destinos, individuais e coletivos. A figura de Jeremias convida a refletir sobre vocação e fidelidade. Ele permanece fiel mesmo sob ameaça de morte, consciente de que está nas mãos de outros, mas ainda mais nas mãos de Deus. Há aqui um retrato de espiritualidade que não mede sua fidelidade pelo resultado imediato. Jeremias não tem garantia de livramento; sua segurança está na obediência. Essa perspectiva amplia o horizonte da fé para além de recompensas visíveis, apontando para uma confiança que aceita inclusive o sofrimento como parte da caminhada com Deus. A memória de Miquéias e Ezequias acrescenta profundidade espiritual. Ela mostra que uma geração pode escolher reagir ao aviso divino com temor e súplica, experimentando reversão de juízo. A outra pode reagir com violência, como no caso de Jeoaquim e Urias, acumulando culpa sobre si. O contraste sugere que cada geração, cada comunidade e cada pessoa está diante de uma encruzilhada: acolher a voz de Deus, mesmo quando ela desconstrói seguranças, ou calá-la, mantendo estruturas mas perdendo a presença viva do Senhor. A execução de Urias revela que, na história, a fidelidade pode levar ao martírio. Do ponto de vista eterno, porém, a narrativa se recusa a reduzir a vida de Urias ao gesto de violência que o matou. Seu nome, sua cidade de origem e seu testemunho são preservados no texto bíblico, como se Deus o resgatasse do esquecimento humano. Isso sugere uma perspectiva em que nenhuma fidelidade é perdida, mesmo que o mundo a descarte em “sepulturas do povo”. A memória divina reabilita aqueles que foram esmagados pela injustiça. A intervenção de Aicão oferece uma pista de como Deus age na história: servos e servas que, muitas vezes em silêncio, sustentam a obra de Deus protegendo seus mensageiros. Espiritualmente, esse detalhe lembra que o plano de Deus não se cumpre apenas por meio de grandes figuras, mas também por meio de pessoas que, movidas pelo temor do Senhor, colocam sua influência a serviço do propósito divino. No conjunto, Jeremias 26 convoca a uma espiritualidade que leva a sério a voz de Deus, reconhece o custo de segui-la, mas enxerga além do momento presente, para uma realidade na qual a fidelidade, mesmo perseguida, é guardada por Deus e encontra seu pleno sentido diante dEle.
" No princípio do reinado de Jeoiaquim, filho de Josias, rei de Judá, veio esta palavra do SENHOR, dizendo: "
" Assim diz o Senhor: Põe-te no átrio da casa do Senhor e dize a todas as cidades de Judá, que vêm adorar na casa do Senhor, todas as palavras que te mandei que lhes dissesses; não omitas nenhuma palavra. "
" Bem pode ser que ouçam, e se convertam cada um do seu mau caminho, e eu me arrependa do mal que intento fazer-lhes por causa da maldade das suas ações. "
" Dize-lhes pois: Assim diz o Senhor: Se não me derdes ouvidos para andardes na minha lei, que pus diante de vós, "
" Para que ouvísseis as palavras dos meus servos, os profetas, que eu vos envio, madrugando e enviando, mas não ouvistes; "
" Então farei que esta casa seja como Siló, e farei desta cidade uma maldição para todas as nações da terra. "
" Os sacerdotes, e os profetas, e todo o povo, ouviram a Jeremias, falando estas palavras na casa do Senhor. "
" E sucedeu que, acabando Jeremias de dizer tudo quanto o Senhor lhe havia ordenado que dissesse a todo o povo, pegaram nele os sacerdotes, e os profetas, e todo o povo, dizendo: Certamente morrerás, "
" Por que profetizaste no nome do Senhor, dizendo: Como Siló será esta casa, e esta cidade será assolada, de sorte que não fique nenhum morador nela? E ajuntou-se todo o povo contra Jeremias, na casa do Senhor. "
" E, ouvindo os príncipes de Judá estas palavras, subiram da casa do rei à casa do Senhor, e se assentaram à entrada da porta nova do Senhor. "
" Então falaram os sacerdotes e os profetas aos príncipes e a todo o povo, dizendo: Este homem é réu de morte, porque profetizou contra esta cidade, como ouvistes com os vossos ouvidos. "
" E falou Jeremias a todos os príncipes e a todo o povo, dizendo: O Senhor me enviou a profetizar contra esta casa, e contra esta cidade, todas as palavras que ouvistes. "
" Agora, pois, melhorai os vossos caminhos e as vossas ações, e ouvi a voz do Senhor vosso Deus, e arrepender-se-á o Senhor do mal que falou contra vós. "
" Quanto a mim, eis que estou nas vossas mãos; fazei de mim conforme o que for bom e reto aos vossos olhos. "
" Sabei, porém, com certeza que, se me matardes, trareis sangue inocente sobre vós, e sobre esta cidade, e sobre os seus habitantes; porque, na verdade, o Senhor me enviou a vós, para dizer aos vossos ouvidos todas estas palavras. "
" Então disseram os príncipes, e todo o povo aos sacerdotes e aos profetas: Este homem não é réu de morte, porque em nome do Senhor, nosso Deus, nos falou. "
" Também se levantaram alguns homens dentre os anciãos da terra, e falaram a toda a congregação do povo, dizendo: "
" Miquéias, o morastita, profetizou nos dias de Ezequias, rei de Judá, e falou a todo o povo de Judá, dizendo: Assim disse o Senhor dos Exércitos: Sião será lavrada como um campo, e Jerusalém se tornará em montões de pedras, e o monte desta casa como os altos de um bosque. "
" Mataram-no, porventura, Ezequias, rei de Judá, e todo o Judá? Antes não temeu ao Senhor, e não implorou o favor do Senhor? E o Senhor não se arrependeu do mal que falara contra eles? Nós fazemos um grande mal contra as nossas almas. "
" Também houve outro homem que profetizava em nome do Senhor, a saber: Urias, filho de Semaías de Quiriate-Jearim, o qual profetizou contra esta cidade, e contra esta terra, conforme todas as palavras de Jeremias. "
" E, ouvindo o rei Jeoiaquim, e todos os seus poderosos e todos os príncipes, as suas palavras, procurou o rei matá-lo; mas ouvindo isto, Urias temeu e fugiu, e foi para o Egito; "
" Mas o rei Jeoiaquim enviou alguns homens ao Egito, a saber: Elnatã, filho de Acbor, e outros homens com ele, ao Egito. "
" Os quais tiraram a Urias do Egito, e o trouxeram ao rei Jeoiaquim, que o feriu à espada, e lançou o seu cadáver nas sepulturas dos filhos do povo. "
" Porém a mão de Aicão, filho de Safã, foi com Jeremias, para que o não entregassem na mão do povo, para ser morto. "
Aviso importante: Esta orientacao biblica nao substitui cuidados profissionais de saude mental. Se voce estiver com sintomas de crise, entre em contato com o 988 (National Suicide Prevention Lifeline) ou procure ajuda profissional imediata.