Números 22:1
" Depois partiram os filhos de Israel, e acamparam-se nas campinas de Moabe, além do Jordão na altura de Jericó. "
Entenda os temas principais e aplique Números 22 na sua vida hoje
41 versículos | Almeida Corrigida Fiel
Embora Balaque tente comprar uma maldição contra Israel, Deus declara que o povo é bendito e não pode ser amaldiçoado. Nenhum poder humano ou espiritual consegue reverter aquilo que Deus decidiu abençoar.
Balaão fala com linguagem correta e aparentemente piedosa, mas insiste em negociar e reabrir um assunto que Deus já havia encerrado, atraído por honra, dinheiro e prestígio. Seu caminho é chamado de perverso diante de Deus.
O Senhor abre a boca da jumenta e, depois, os olhos de Balaão para enxergar o Anjo do Senhor. Deus se mostra capaz de usar instrumentos improváveis para impedir o mal e revelar o que está oculto.
Nem o poder político de Balaque, nem o prestígio espiritual de Balaão controlam o resultado. Deus determina quem é bendito e qual palavra será pronunciada, definindo os limites de todos os envolvidos.
O Anjo do Senhor se interpõe como adversário de Balaão para impedir destruição maior. A jumenta, ao se desviar, na verdade salva a vida de Balaão. A correção divina é apresentada como proteção.
Números 22 se passa nas campinas de Moabe, junto ao Jordão, em frente a Jericó, na fase final da peregrinação de Israel pelo deserto. Israel já havia derrotado poderosos reis amorreus (como Seom e Ogue), o que desencadeia pânico em Moabe (vv. 2–3). Balaque, filho de Zipor, é o rei moabita que, temendo a força militar de Israel, recorre a um meio religioso/mágico típico do Antigo Oriente: contratar um adivinho ou vidente famoso para proferir bênçãos ou maldições eficazes.
Balaão, filho de Beor, é descrito como alguém ligado a práticas de encantamento (v. 7) e conhecido por sua reputação: quem ele abençoava era abençoado, e quem amaldiçoava era amaldiçoado (v. 6). Ele vem de Petor, cidade associada à região do Eufrates, indicando que sua fama ultrapassava fronteiras locais. Moab e Midiã, nações aparentadas a Israel por meio de parentescos distantes (descendentes de Ló e de Abraão), unem forças por medo do avanço israelita (v. 4).
O cenário religioso mistura crenças pagãs em maldições contratadas com a intervenção direta do Deus de Israel, que se revela a Balaão e limita sua ação. Isso mostra que, apesar de Balaão não ser um profeta típico de Israel, ele é confrontado e governado pelo Deus verdadeiro. O episódio da jumenta e do Anjo do Senhor ressalta, em linguagem narrativa vívida, que o Senhor dirige a história, freia intenções perversas e protege a trajetória do seu povo às portas da Terra Prometida.
O capítulo possui uma narrativa contínua, com diálogos intensos e elementos quase dramáticos, organizados em cenas bem definidas:
Introdução: o medo de Moabe e a decisão de Balaque (vv. 1–4)
Primeira missão a Balaão e resposta divina negativa (vv. 5–14)
Segunda missão, proposta mais sedutora e nova permissão condicionada (vv. 15–21)
A jumenta de Balaão e o encontro com o Anjo do Senhor (vv. 22–35)
Encontro entre Balaque e Balaão e preparação para as profecias (vv. 36–41)
Números 22 destaca vários pontos teológicos importantes:
A inviolabilidade da bênção de Deus: Quando Deus declara Israel como povo bendito (v. 12), isso significa que não há poder espiritual independente capaz de revogar essa bênção. A tentativa de Balaque de manipular o destino de Israel por meio de rituais e maldições é frustrada pela autoridade soberana de Deus.
Deus governa até sobre os agentes religiosos exteriores a Israel: Balaão não é um profeta de Israel no sentido estrito, mas Deus fala com ele, o confronta, o limita e, mais à frente, o utiliza para proclamar verdades sobre Israel. Isso mostra que o Senhor não está restrito às fronteiras étnicas ou institucionais; sua voz se impõe a qualquer líder espiritual.
O caráter de Deus: santo e zeloso: A ira de Deus se acende quando Balaão segue adiante com um coração ambíguo (v. 22). Mesmo tendo recebido permissão condicional para ir, o caminho de Balaão é chamado de perverso (v. 32), evidenciando que Deus considera não apenas a ação exterior, mas a motivação interna – ambição, ganância, desejo de honra.
A ironia divina e a reversão de expectativas: A jumenta enxerga o Anjo do Senhor antes do vidente famoso. O animal, considerado irracional, age com mais percepção espiritual do que o homem contratado para ver e falar o invisível. Deus, assim, humilha o orgulho humano e mostra que a verdadeira visão espiritual é dom seu, não técnica ou prestígio profissional.
Revelação progressiva da mediação divina: O Anjo do Senhor aparece como figura que representa a presença e a autoridade de Deus, com espada desembainhada e poder de vida e morte (vv. 23, 31–33). Ele age como juiz do caminho de Balaão e guardião do povo de Deus, antecipando a compreensão de uma mediação pessoal na ação divina.
A limitação da palavra humana diante da Palavra de Deus: Repetidamente, Balaão é lembrado de que só poderá dizer aquilo que Deus colocar em sua boca (vv. 20, 35, 38). Isso antecipa o princípio profético de que a verdadeira profecia não é produto da vontade humana, mas procede da iniciativa soberana de Deus.
Este capítulo traz elementos ricos para reflexão terapêutica, especialmente em temas como medo coletivo, manipulação, ambição e correção divina. O pavor de Moabe mostra como a percepção de ameaça pode gerar respostas desproporcionais e estratégias de controle, em vez de diálogo ou busca sincera da verdade. Balaque procura resolver seu medo comprando poder espiritual, o que ilustra tentativas humanas de controlar o que não se domina.
Balaão encarna o conflito interno entre consciência da vontade de Deus e desejo por reconhecimento e ganho material. Ele sabe o que Deus já disse, mas insiste em reabrir o assunto, o que espelha a dinâmica de autoengano: racionalizações, dúvidas fabricadas e negociação com limites éticos já conhecidos. A narrativa mostra como esse caminho é qualificado como perverso, mesmo que externamente pareça religioso.
A jumenta de Balaão é uma figura terapêutica marcante: alguém (ou algo) que sofre agressões por tentar impedir um dano maior. Ela vê o perigo, é mal interpretada e punida, até que Deus dá voz ao que estava sendo injustamente silenciado. Esse quadro pode iluminar experiências de pessoas que tentam alertar sobre situações destrutivas e recebem resistência, raiva ou violência em troca.
Por fim, a correção de Deus, por meio do Anjo do Senhor, é apresentada não como desejo de destruição, mas como intervenção para evitar um mal maior. A ideia de que a jumenta “salvou” Balaão ao se desviar (v. 33) oferece uma perspectiva de que bloqueios, frustrações e desvios impostos podem ser formas de proteção, não apenas obstáculos.
O capítulo toca em temas que podem ser sensíveis para algumas pessoas:
Em contextos de cuidado emocional, é importante acolher possíveis reações fortes a esses elementos, validando sentimentos despertados pela leitura e, quando necessário, encaminhando para apoio psicológico ou pastoral especializado.
Números 22 oferece lições práticas para várias áreas da vida:
Respeitar limites que Deus já deixou claros: Balaão volta a consultar sobre algo que já tinha resposta. Em decisões éticas, relacionais ou profissionais, a insistência em reabrir fronteiras claras frequentemente indica busca de brechas para justificar o que o coração já deseja.
Examinar motivações por trás das escolhas: A linguagem de Balaão é correta, mas seu caminho é chamado de perverso. A ação certa com motivação errada continua problemática. Projetos, convites e oportunidades devem ser avaliados não só pelo ganho, mas pela integridade envolvida.
Reconhecer sinais de advertência: A jumenta que se desvia, tropeços, portas fechadas e desconfortos internos podem ser comparados a alertas. Em vez de reagir com irritação, é sábio perguntar o que essas resistências revelam sobre o caminho tomado.
Evitar manipulação espiritual: Balaque tenta usar um “especialista espiritual” para forçar um resultado. Essa atitude lembra o perigo de buscar líderes ou rituais apenas para legitimar desejos próprios, em vez de se submeter à vontade de Deus.
Valorizar a verdade, mesmo quando corrige o ego: Balaão é envergonhado pela fala da própria jumenta, mas essa humilhação o salva. Situações em que somos confrontados, contrariados ou expostos podem ser dolorosas, porém protetoras, se acolhidas como oportunidade de arrependimento e ajuste de rota.
Humildade diante da Palavra: A resposta final de Balaão – falar apenas o que Deus lhe disser (v. 38) – indica a postura adequada de quem lida com assuntos espirituais: não falar além do que Deus permite, nem prometer o que não está em seu controle.
Balaão era um vidente ou adivinho de grande reputação, vindo de Petor, região associada ao Eufrates. Ele não era israelita, mas era reconhecido como alguém cuja bênção ou maldição tinha peso. Em Números 22, Deus se revela a ele, limita suas ações e o usa, apesar de suas motivações ambíguas, para abençoar Israel em vez de amaldiçoá-lo.
Na primeira vez, Deus deixa claro que Balaão não deve ir nem amaldiçoar Israel, porque o povo é abençoado (v. 12). Quando Balaque insiste e envia mensageiros mais importantes, Balaão reabre o assunto, revelando desejo de aceitar a proposta. Deus então permite que ele vá, mas sob estrita condição de falar apenas o que o Senhor mandar (v. 20). A permissão não significa aprovação do coração de Balaão, pois seu caminho ainda é chamado de perverso (v. 32); é uma forma de Deus conduzir a situação para cumprir seus propósitos, ao mesmo tempo em que expõe e corrige Balaão.
O episódio é um milagre que tem função pedagógica e irônica. Deus abre a boca da jumenta para mostrar que até um animal pode perceber o perigo espiritual e obedecer mais do que o próprio vidente. A jumenta, ao se desviar, está salvando a vida de Balaão (v. 33). O diálogo revela o absurdo da raiva de Balaão e desnuda sua cegueira espiritual. A narrativa ensina que Deus pode usar meios inesperados para impedir caminhos errados, corrigir corações e revelar a verdade.
O Anjo do Senhor aparece como representante direto de Deus, com autoridade para julgar, matar ou poupar (vv. 31–33). Ele se coloca como adversário no caminho de Balaão por causa de seu proceder perverso. Em várias passagens bíblicas, o Anjo do Senhor carrega características que o aproximam da própria presença de Deus atuando de forma pessoal; aqui, ele exerce o papel de guardião do povo e corretor do profeta, garantindo que os planos divinos prevaleçam.
Moabe observa não apenas o número de israelitas, mas também o que Deus já havia feito por meio deles contra outros povos, como os amorreus (vv. 2–3). As vitórias de Israel, somadas aos relatos do Êxodo, despertam pânico: para Balaque, não se trata apenas de um grupo de nômades, mas de um povo acompanhado por uma força divina que ele não entende. Por isso ele procura um recurso espiritual, tentando neutralizar Israel por meio de maldição.
Números 22 apresenta uma cena cheia de medo, tensão e correção, mas ao mesmo tempo revela um Deus que protege e intervém. Moabe está dominado pelo pavor diante de Israel, e quando o medo governa, surgem estratégias duras, tentativas de controle e decisões baseadas no desespero. Balaque prefere comprar uma maldição do que buscar entender o que Deus está fazendo. No meio disso, aparece Balaão, um homem dividido. Ele fala como alguém que teme a Deus, mas seu coração se deixa atrair por honra e recompensa. A forma como Deus lida com ele é firme, mas também cuidadosa. O Senhor não o abandona ao próprio engano; ao contrário, entra em sua história, fala com ele mais de uma vez e até coloca um anjo no caminho para impedi-lo de ir longe demais. O incidente com a jumenta é duro, mas profundamente protetor: o animal sofre por tentar poupar Balaão, e Deus dá voz a esse sofrimento injustiçado. Há consolo em perceber que, mesmo quando alguém se envolve em caminhos tortuosos, Deus pode intervir antes que o desastre seja definitivo. A expressão do Anjo – de que a jumenta salvou Balaão ao se desviar – mostra que alguns impedimentos dolorosos podem ser cuidado disfarçado. O texto também acolhe pessoas que se sentem incompreendidas ao tentar alertar outros: a jumenta é incompreendida e agredida, mas Deus vê, ouve e defende. No final do capítulo, a palavra de Deus ainda é o que define a história. Nenhum plano de maldição contra o povo abençoado consegue prosperar. Em um cenário de ameaças, o cuidado de Deus permanece silenciosamente firme. Essa certeza de que há um olhar amoroso e atento, ajustando caminhos, expondo enganos e defendendo os vulneráveis, oferece descanso ao coração cansado de lutas e de mal-entendidos.
Do ponto de vista exegético, Números 22 inaugura a conhecida sequência dos oráculos de Balaão (Nm 22–24), estruturando o conflito entre a tentativa moabita de amaldiçoar Israel e a bênção irrevogável de Deus. O texto integra elementos típicos da literatura do Antigo Oriente – como a figura do adivinho internacionalmente famoso e a crença em maldições eficazes – com a teologia bíblica da soberania absoluta de YHWH. A narrativa apresenta Balaque como rei de Moabe em aliança pragmática com Midiã, ambos aterrorizados pela recente expansão militar de Israel. A metáfora do boi que lambe a erva (v. 4) ecoa linguagem de devastação agrícola, expressando o temor de aniquilação. O envio de mensageiros com “preço dos encantamentos” (v. 7) indica uma prática de culto remunerado, na qual o especialista religioso é pago para pronunciar fórmulas rituais. Balaão é uma figura complexa. O texto o mostra recebedor de revelação verdadeira, capaz de ouvir Deus, mas ao mesmo tempo ligado ao universo dos encantamentos. Posteriormente, outras passagens bíblicas o associam claramente à ganância e ao erro (por exemplo, referências no Novo Testamento), confirmando a ambiguidade que já se percebe aqui. Sua resposta inicial (v. 12) tem contornos claros: Israel é bendito e não deve ser amaldiçoado. No entanto, o pedido de uma nova consulta diante de uma oferta mais tentadora (v. 19) sugere tensão entre obediência e ambição. A permissão condicional de Deus (v. 20) precisa ser lida à luz da onisciência divina e da pedagogia narrativa: Deus não muda de opinião sobre Israel, mas conduz Balaão por um caminho onde o próprio profeta será usado para afirmar, e não negar, a bênção sobre o povo. A ira de Deus no v. 22 não é contradição, e sim julgamento do coração de Balaão, cujo “caminho é perverso” (v. 32). O Anjo do Senhor, armado com espada, funciona como mediador judicial, avaliando e limitando a ação de Balaão. O episódio da jumenta é literariamente sofisticado: há repetição em três cenas (vv. 23–27), construção de ironia (o vidente que não vê, enquanto o animal vê) e inversão de papéis (a jumenta argumenta com lógica e apela à experiência relacional com Balaão). O “abrir a boca” da jumenta e o “abrir os olhos” de Balaão (vv. 28, 31) destacam a iniciativa divina tanto na fala profética quanto na percepção espiritual. Isso refuta qualquer ideia de que Balaão controla o poder espiritual; ele é, na melhor hipótese, um instrumento que só vê e fala quando Deus decide. Em termos teológicos, o capítulo prepara o leitor para compreender que as maldições encomendadas por Balaque se transformarão, pela ação soberana de Deus, em bênçãos sobre Israel. A tensão entre medo humano, magia contratada e revelação divina é resolvida sempre em favor dos propósitos de YHWH.
Lido de forma prática, Números 22 é um estudo sobre decisões sob pressão, uso de poder e conflitos de interesse. Balaque reage ao medo tentando controlar o que não entende: ele busca comprar influência espiritual, como quem contrata um consultor de alto nível para manipular resultados. Essa postura lembra atitudes em que se tenta resolver problemas complexos apenas com dinheiro, status ou alianças, sem questionar se o objetivo em si é justo. Já Balaão ilustra o perigo de misturar fé com conveniência. Ele sabe o que Deus disse, mas deixa espaço para negociação porque há muito a ganhar em prestígio e recursos. Nessa dinâmica, sua espiritualidade se torna seletiva: ouve a Deus, mas também ouve com muita atenção as promessas de honra de Balaque. Na vida profissional, relacional ou ministerial, esse tipo de divisão abre brechas para compromissos questionáveis, ainda que a pessoa continue usando um vocabulário piedoso. O episódio da jumenta traz uma imagem forte para o cotidiano: às vezes, as situações que mais irritam – atrasos, bloqueios, pessoas ou circunstâncias que “atrapalham” – podem estar, de fato, evitando um dano maior. A reação automática de Balaão é bater, forçar, descarregar frustração em quem está mais vulnerável. Essa é uma tentação comum em contextos de estresse: culpar e agredir o elo mais fraco, em vez de investigar o que está realmente acontecendo. Ao final, o princípio-chave para decisões aparece repetidas vezes: falar e agir apenas dentro dos limites daquilo que Deus aprova e autoriza. Isso se traduz em integridade: não prometer o que não se pode cumprir, não se comprometer com tarefas que ferem convicções éticas, não usar dons ou posições para favorecer interesses que vão contra a justiça. A história lembra que, por mais sedutora que seja uma proposta, a consequência de seguir por um “caminho perverso” é sempre mais alta do que qualquer recompensa oferecida. Numa perspectiva prática, Números 22 convida à revisão de alianças, negociações e rotas: o que está motivando certas escolhas? Há sinais de advertência que estão sendo ignorados? Em vez de pressionar tudo e todos para que o caminho desejado se cumpra, o texto aponta para a sabedoria de escutar os limites, reconsiderar intenções e alinhar decisões a uma consciência limpa diante de Deus e das pessoas.
Espiritualmente, Números 22 mostra que existe um conflito invisível em torno do povo de Deus e de seus propósitos, e que esse conflito não é decidido por forças neutras de sorte ou azar, mas pela vontade soberana do Senhor. Balaque representa a tentativa humana de alterar destinos por meio de poder espiritual comprado. Ele acredita que uma palavra de maldição possa reescrever o futuro de Israel. O texto, porém, revela que o selo de bênção que Deus coloca não é negociável. Essa realidade traz implicações profundas para a vida espiritual: identidade e destino não se definem, em última instância, por opiniões humanas, ataques, invejas ou rituais contrários, mas pela palavra de Deus. Quando o Senhor diz que um povo é bendito, nem reis, nem videntes, nem alianças políticas conseguem revogar essa decisão. Isso não elimina lutas, mas garante que o fio condutor da história está nas mãos do Criador. Balaão encarna a tensão entre conhecer a voz de Deus e permitir que o coração seja arrastado por outros chamados – de honra, de riqueza, de influência. O fato de que Deus fala com ele, o confronta, o freia e ainda assim o utiliza, mostra tanto a paciência divina quanto a seriedade do chamado espiritual. A expressão “o teu caminho é perverso diante de mim” (v. 32) aponta que não basta ter experiências espirituais; é necessário que o caminho inteiro seja alinhado ao caráter de Deus. A presença do Anjo do Senhor com a espada desembainhada introduz uma dimensão de juízo e proteção ao mesmo tempo. Ele se coloca como adversário de Balaão para preservar algo maior: a bênção sobre o povo de Deus. Essa imagem sugere que, na jornada espiritual, há momentos em que o próprio Deus se opõe a certos passos, não por rejeitar a pessoa, mas para proteger um propósito eterno que inclui tanto seu povo quanto o próprio indivíduo que está em risco. Por fim, o milagre da jumenta que fala e do profeta que finalmente enxerga ensina que Deus pode despertar consciência e arrependimento de maneiras surpreendentes. Ele abre bocas e olhos, inclusive de formas humilhantes, para que a verdade venha à tona. Nessa perspectiva, a correção divina não é apenas disciplina; é também graça que resgata, redireciona e reinsere a pessoa no fluxo do plano de Deus. A vida espiritual madura acolhe essa correção como misericórdia, confiando que, por trás de cada desvio imposto, há um cuidado que pensa não só no presente, mas no impacto eterno das escolhas.
" Depois partiram os filhos de Israel, e acamparam-se nas campinas de Moabe, além do Jordão na altura de Jericó. "
" Vendo, pois, Balaque, filho de Zipor, tudo o que Israel fizera aos amorreus, "
" Moabe temeu muito diante deste povo, porque era numeroso; e Moabe andava angustiado por causa dos filhos de Israel. "
" Por isso Moabe disse aos anciãos dos midianitas: Agora lamberá esta congregação tudo quanto houver ao redor de nós, como o boi lambe a erva do campo. Naquele tempo Balaque, filho de Zipor, era rei dos moabitas. "
" Este enviou mensageiros a Balaão, filho de Beor, a Petor, que está junto ao rio, na terra dos filhos do seu povo, a chamá-lo, dizendo: Eis que um povo saiu do Egito; eis que cobre a face da terra, e está parado defronte de mim. "
" Vem, pois, agora, rogo-te, amaldiçoa-me este povo, pois mais poderoso é do que eu; talvez o poderei ferir e lançar fora da terra; porque eu sei que, a quem tu abençoares será abençoado, e a quem tu amaldiçoares será amaldiçoado. "
" Então foram-se os anciãos dos moabitas e os anciãos dos midianitas com o preço dos encantamentos nas suas mãos; e chegaram a Balaão, e disseram-lhe as palavras de Balaque. "
" E ele lhes disse: Passai aqui esta noite, e vos trarei a resposta, como o Senhor me falar; então os príncipes dos moabitas ficaram com Balaão. "
" E veio Deus a Balaão, e disse: Quem são estes homens que estão contigo? "
" E Balaão disse a Deus: Balaque, filho de Zipor, rei dos moabitas, os enviou, dizendo: "
" Eis que o povo que saiu do Egito cobre a face da terra; vem agora, amaldiçoa-o; porventura poderei pelejar contra ele e expulsá-lo. "
" Então disse Deus a Balaão: Não irás com eles, nem amaldiçoarás a este povo, porquanto é bendito. "
" Então Balaão levantou-se pela manhã, e disse aos príncipes de Balaque: Ide à vossa terra, porque o Senhor recusa deixar-me ir convosco. "
" E levantaram-se os príncipes dos moabitas, e vieram a Balaque, e disseram: Balaão recusou vir conosco. "
" Porém Balaque tornou a enviar mais príncipes, mais honrados do que aqueles. "
" Os quais foram a Balaão, e lhe disseram: Assim diz Balaque, filho de Zipor: Rogo-te que não te demores em vir a mim. "
" Porque grandemente te honrarei, e farei tudo o que me disseres; vem pois, rogo-te, amaldiçoa-me este povo. "
" Então Balaão respondeu, e disse aos servos de Balaque: Ainda que Balaque me desse a sua casa cheia de prata e de ouro, eu não poderia ir além da ordem do Senhor meu Deus, para fazer coisa pequena ou grande; "
" Agora, pois, rogo-vos que também aqui fiqueis esta noite, para que eu saiba o que mais o Senhor me dirá. "
" Veio, pois, Deus a Balaão, de noite, e disse-lhe: Se aqueles homens te vieram chamar, levanta-te, vai com eles; todavia, farás o que eu te disser. "
" Então Balaão levantou-se pela manhã, e albardou a sua jumenta, e foi com os príncipes de Moabe. "
" E a ira de Deus acendeu-se, porque ele se ia; e o anjo do Senhor pôs-se-lhe no caminho por adversário; e ele ia caminhando, montado na sua jumenta, e dois de seus servos com ele. "
" Viu, pois, a jumenta o anjo do Senhor, que estava no caminho, com a sua espada desembainhada na mão; pelo que desviou-se a jumenta do caminho, indo pelo campo; então Balaão espancou a jumenta para fazê-la tornar ao caminho. "
" Mas o anjo do Senhor pôs-se numa vereda entre as vinhas, havendo uma parede de um e de outro lado. "
" Vendo, pois, a jumenta, o anjo do Senhor, encostou-se contra a parede, e apertou contra a parede o pé de Balaão; por isso tornou a espancá-la. "
" Então o anjo do Senhor passou mais adiante, e pôs-se num lugar estreito, onde não havia caminho para se desviar nem para a direita nem para a esquerda. "
" E, vendo a jumenta o anjo do Senhor, deitou-se debaixo de Balaão; e a ira de Balaão acendeu-se, e espancou a jumenta com o bordão. "
" Então o Senhor abriu a boca da jumenta, a qual disse a Balaão: Que te fiz eu, que me espancaste estas três vezes? "
" E Balaão disse à jumenta: Por que zombaste de mim; quem dera tivesse eu uma espada na mão, porque agora te mataria. "
" E a jumenta disse a Balaão: Porventura não sou a tua jumenta, em que cavalgaste desde o tempo em que me tornei tua até hoje? Acaso tem sido o meu costume fazer assim contigo? E ele respondeu: Não. "
" Então o Senhor abriu os olhos a Balaão, e ele viu o anjo do Senhor, que estava no caminho e a sua espada desembainhada na mão; pelo que inclinou a cabeça, e prostrou-se sobre a sua face. "
" Então o anjo do Senhor lhe disse: Por que já três vezes espancaste a tua jumenta? Eis que eu saí para ser teu adversário, porquanto o teu caminho é perverso diante de mim; "
" Porém a jumenta me viu, e já três vezes se desviou de diante de mim; se ela não se desviasse de diante de mim, na verdade que eu agora te haveria matado, e a ela deixaria com vida. "
" Então Balaão disse ao anjo do Senhor: Pequei, porque não sabia que estavas neste caminho para te opores a mim; e agora, se parece mal aos teus olhos, voltarei. "
" E disse o anjo do Senhor a Balaão: Vai-te com estes homens; mas somente a palavra que eu falar a ti, esta falarás. Assim Balaão se foi com os príncipes de Balaque. "
" Ouvindo, pois, Balaque que Balaão vinha, saiu-lhe ao encontro até à cidade de Moabe, que está no termo de Arnom, na extremidade do termo dele. "
" E Balaque disse a Balaão: Porventura não enviei diligentemente a chamar-te? Por que não vieste a mim? Não posso eu na verdade honrar-te? "
" Então Balaão disse a Balaque: Eis que eu tenho vindo a ti; porventura poderei eu agora de alguma forma falar alguma coisa? A palavra que Deus puser na minha boca, essa falarei. "
" E Balaão foi com Balaque, e chegaram a Quiriate-Huzote. "
" Então Balaque matou bois e ovelhas; e deles enviou a Balaão e aos príncipes que estavam com ele. "
" E sucedeu que, pela manhã Balaque tomou a Balaão, e o fez subir aos altos de Baal, e viu ele dali a última parte do povo. "
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