Números 35:1
" E falou o SENHOR a Moisés nas campinas de Moabe, junto ao Jordão na direção de Jericó, dizendo: "
Entenda os temas principais e aplique Números 35 na sua vida hoje
34 versículos | Almeida Corrigida Fiel
Deus ordena que os levitas recebam quarenta e oito cidades espalhadas por Israel, com arrabaldes para seu sustento. Isso mostra que o serviço ao Senhor deve estar presente em toda a terra, e que o povo tem responsabilidade de sustentar aqueles dedicados ao ministério.
Seis cidades são separadas como refúgio para quem mata alguém sem intenção. Elas funcionam como um espaço de proteção contra o vingador do sangue até que haja julgamento da congregação, evitando injustiças e vingança impulsiva.
O texto distingue cuidadosamente entre morte causada por ódio e intenção, e morte resultante de acidente. Essa diferenciação revela o cuidado de Deus com a justiça, avaliando motivações, circunstâncias e não apenas o resultado final do ato.
O vingador do sangue não tem liberdade absoluta; a congregação julga o caso, exige múltiplas testemunhas e proíbe qualquer tipo de suborno ou resgate para livrar o homicida culpado. A justiça é colocada acima de interesses pessoais.
O capítulo conclui afirmando que o sangue derramado contamina a terra e que somente o sangue do culpado pode fazer expiação. Isso sublinha o valor da vida humana diante de Deus e a seriedade do pecado da violência.
Números 35 é proclamado nas campinas de Moabe, à beira do Jordão, em frente a Jericó, pouco antes da entrada em Canaã (verso 1). Israel está prestes a tomar posse da terra prometida, que será dividida entre as tribos. Os levitas, porém, não recebem uma porção territorial contínua, mas cidades espalhadas entre as tribos, pois sua herança principal é o serviço ao Senhor.
As “cidades de refúgio” refletem uma realidade do antigo Oriente Médio, onde famílias exerciam a vingança de sangue contra quem matasse um parente. Em muitas culturas, a vingança podia ser irrestrita e desproporcional. Aqui, Deus regula esse costume, estabelecendo limites, garantindo julgamento formal e protegendo o inocente. As seis cidades (três a leste e três a oeste do Jordão) deveriam ser acessíveis para todo o povo, incluindo estrangeiros e residentes temporários (verso 15).
A figura do “vingador do sangue” representa o parente responsável pela defesa da honra e justiça da família. Contudo, o texto submete essa figura à lei de Deus e ao julgamento da congregação. A permanência do homicida involuntário na cidade de refúgio até a morte do sumo sacerdote (versos 25-28) cria um marco temporal e simbólico: a morte do sacerdote marca um tipo de renovação nacional, ligada ao culto e à expiação, momento em que o homicida pode voltar à sua propriedade.
O destaque dado à contaminação da terra pelo sangue (versos 33-34) dialoga com a visão antiga de que a terra prometida é dom de Deus e, ao mesmo tempo, lugar da presença dEle no meio de Israel. Derramar sangue inocente não é apenas um crime social, mas um pecado espiritual que atinge diretamente a relação do povo com Deus.
O capítulo apresenta uma estrutura organizada e legal, típica de textos normativos do Pentateuco:
Introdução e ordem sobre as cidades levíticas (35.1-8)
Instituição das cidades de refúgio (35.9-15)
Definição do homicídio intencional (35.16-21)
Definição do homicídio não intencional (35.22-24)
Função e limites da cidade de refúgio (35.25-28)
Estatuto permanente de justiça (35.29-32)
Conclusão teológica: a santidade da terra e do Deus presente (35.33-34)
Números 35 destaca, de forma concentrada, três grandes eixos teológicos: a presença de Deus no meio do povo, a santidade da vida humana e a justiça que une misericórdia e retidão.
A distribuição de cidades aos levitas mostra que Deus coloca o ministério sacerdotal e o ensino da lei espalhados por toda a nação, e não confinados a um único centro. A presença levítica lembra que Israel é uma comunidade sacerdotal, chamada a viver em aliança com Deus em cada território e tribo.
As cidades de refúgio revelam um Deus que se importa tanto com o inocente quanto com a ordem social. Ele não ignora a morte acidental nem a dor da família enlutada, mas estabelece um caminho em que a justiça não se torna vingança descontrolada. O homicida involuntário encontra proteção, mas também limite: deve permanecer na cidade de refúgio até a morte do sumo sacerdote. Há, ao mesmo tempo, segurança e responsabilidade.
A distinção forte entre homicídio intencional e não intencional manifesta um princípio central da justiça bíblica: Deus julga não apenas atos, mas também intenções e circunstâncias. O ódio, a inimizade e o mau intento são decisivos para caracterizar o pecado e a culpa. Por isso, não há pagamento ou resgate que compre a vida de um homicida culpado; a gravidade do derramamento de sangue exige juízo proporcional.
Teologicamente, o capítulo sublinha que a terra é do Senhor, e a vida pertence a Ele. O sangue derramado contamina não apenas relações humanas, mas a própria terra, o espaço da presença de Deus. Isso prepara o entendimento bíblico posterior de que o pecado tem consequências cósmicas e que a expiação não é questão apenas privada, mas envolve toda a criação. A lei do sangue por sangue antecipa, em tensão e contraste, a ideia de que só um sacrifício perfeito poderia lidar plena e definitivamente com a culpa humana diante de Deus.
Ao mesmo tempo, a morte do sumo sacerdote abrindo caminho para o retorno do homicida à sua herança aponta, de maneira tipológica, para a relação entre sacerdócio, culpa e libertação. A figura do sacerdote ungido, cuja morte marca um novo começo para o culpado involuntário, ecoa temas que mais tarde serão aprofundados na revelação sobre o sacrifício e o sacerdócio perfeitos em Cristo.
Este capítulo dialoga profundamente com temas de culpa, justiça, vingança e segurança. Ao prever a existência de cidades de refúgio, o texto reconhece a realidade de acidentes, falhas humanas e situações em que alguém causa dano sem ter desejado esse mal. Isso oferece um quadro simbólico importante para lidar com sentimentos de culpa não intencional, mostrando que há espaço para proteção, acolhimento e processo, e não apenas condenação imediata.
A figura do vingador do sangue representa a força da dor, da raiva e do desejo de retribuição presentes no coração humano diante de perdas traumáticas. Números 35 não nega essa realidade emocional, mas coloca limites, submetendo a vingança a critérios de justiça, testemunhas e julgamento comunitário. Isso se aproxima de abordagens terapêuticas que reconhecem a raiva e o desejo de reparação, mas trabalham para canalizá-los de forma que não gere ciclos de destruição.
A exigência de múltiplas testemunhas e a proibição de resgate para o homicida culpado reforçam o valor da verdade e da responsabilidade. Na perspectiva emocional, isso lembra que, para haver verdadeira cura, é importante encarar a realidade dos fatos, assumir responsabilidade pelo que foi feito e, ao mesmo tempo, não atribuir culpa onde não houve intenção maldosa.
O tempo de permanência na cidade de refúgio até a morte do sumo sacerdote também sugere que alguns processos de cura e restauração são prolongados, exigem espera, limites e uma nova configuração de vida. Nem tudo se resolve rapidamente. O texto acolhe tanto a necessidade de proteção do vulnerável quanto a necessidade de segurança e ordem para a comunidade.
Assim, Números 35 oferece um quadro rico para refletir sobre como uma comunidade pode lidar com traumas, perdas e conflitos de forma justa, protegendo ao mesmo tempo quem sofreu e quem, sem intenção, causou o dano, sem reduzir justiça a vingança nem misericórdia a impunidade.
Números 35 descreve a figura do vingador do sangue e a pena de morte para o homicida culpado de morte. Lido fora de contexto ou de forma literalista, esse material pode ser mal interpretado por pessoas emocionalmente fragilizadas, com impulsos de violência, ideias de vingança ou pensamentos de fazer justiça com as próprias mãos. Também pode ser delicado para quem vive luto por morte violenta ou sente culpa intensa por acidentes graves.
É importante lembrar que o texto apresenta uma legislação para um contexto histórico específico, e não uma autorização para vingança pessoal em ambientes atuais. A presença do julgamento comunitário, das exigências de testemunhas e dos limites claros ao vingador mostra que a intenção é conter a violência, não expandi-la.
Pessoas com histórico de trauma, pensamentos suicidas, autoacusação severa ou desejo intenso de punição própria ou alheia podem reagir de forma intensa a passagens que falam em morte, sangue e retribuição. Nesses casos, a leitura deve ser feita com cuidado, preferencialmente com acompanhamento pastoral ou profissional qualificado em saúde mental. Se houver risco de autoagressão ou agressão a outros, é necessário buscar ajuda profissional imediata e suporte de emergência local.
Números 35 inspira práticas que tocam justiça, convivência e o valor da vida:
Criação de espaços de refúgio: a ideia de cidades de refúgio pode inspirar comunidades a oferecerem ambientes seguros para pessoas que estão fragilizadas, em crise ou sob acusação, até que a verdade seja apurada e o suporte adequado seja dado.
Valorização da vida humana: ao mostrar que o sangue derramado contamina a terra e exige reparação séria, o capítulo reforça a importância de proteger a vida, evitar violência e tratar com máximo cuidado qualquer situação que envolva risco à integridade de alguém.
Diferenciar intenção de acidente: na vida diária, o texto encoraja a distinguir entre erros intencionais e falhas não planejadas. Isso pode ajudar a lidar com conflitos familiares, profissionais e sociais com mais equilíbrio, evitando julgamentos apressados e condenações injustas.
Limitar a vingança pessoal: a figura do vingador do sangue sendo limitado pela lei aponta para a necessidade de submeter nossos impulsos de revanche a princípios mais altos de justiça, diálogo e mediação. Hoje, isso se traduz em buscar reconciliação, mediação de conflitos e, quando necessário, recursos legais adequados.
Responsabilidade comunitária: a congregação participa do julgamento e da proteção do homicida involuntário. Isso lembra que a justiça não é apenas tarefa de indivíduos, mas de comunidades e instituições que devem agir com sabedoria, imparcialidade e cuidado com todas as partes envolvidas.
Reconhecimento de processos longos: o tempo de permanência na cidade de refúgio até a morte do sumo sacerdote sugere que alguns processos de restauração e reintegração exigem paciência e limites. Em termos práticos, isso pode significar respeitar períodos de afastamento, tratamentos, acompanhamentos e reconstrução de confiança em relacionamentos.
Os levitas eram a tribo separada por Deus para o serviço religioso: cuidado do tabernáculo, apoio aos sacerdotes, ensino da lei e funções litúrgicas. Diferente das outras tribos, eles não receberam uma porção contínua de terra, mas quarenta e oito cidades distribuídas entre todas as tribos, com arrabaldes ao redor (Números 35.2-7). Assim, seu ministério e ensino estariam presentes em todo o território de Israel, lembrando constantemente o povo da aliança com Deus.
As cidades de refúgio eram seis cidades levíticas escolhidas para servir como locais de proteção para quem matasse alguém sem intenção, isto é, sem ódio ou plano prévio (Números 35.11, 22-23). Nelas, o homicida involuntário podia se refugiar do vingador do sangue até ser julgado pela congregação. Se fosse reconhecido como não intencional, ele deveria permanecer nessa cidade até a morte do sumo sacerdote, quando então poderia voltar à sua herança (Números 35.25-28).
O vingador do sangue era geralmente um parente próximo da pessoa morta, encarregado de buscar justiça para a família. Em muitas culturas antigas, isso incluía o direito de tirar a vida daquele que matou o parente. Números 35, porém, regula essa prática, impondo limites: o vingador não podia matar o homicida involuntário dentro da cidade de refúgio e deveria respeitar o julgamento da congregação (Números 35.12, 24-25, 26-27).
O texto apresenta exemplos concretos. Se alguém mata outro usando um instrumento claramente mortal, motivado por ódio, inimizade ou mau intento, é considerado homicida e está sujeito à morte (Números 35.16-21). Já casos em que a morte ocorre sem ódio prévio, sem intenção de fazer mal, como empurrões acidentais ou pedras que caem sem que a pessoa veja a vítima, são tratados como homicídio não intencional (Números 35.22-23). Nesses casos, a pessoa pode buscar refúgio e proteção, embora ainda precise conviver com limites.
O texto não explica em detalhes o motivo, mas liga claramente o retorno do homicida à sua posse à morte do sumo sacerdote (Números 35.25, 28). Isso sugere que a vida e o ministério do sumo sacerdote tinham um papel simbólico e representativo para toda a nação. Sua morte marcava uma espécie de renovação, um novo ciclo nacional, no qual certas culpas e situações eram, de alguma forma, encerradas, permitindo a reintegração plena do homicida involuntário à sua terra.
Números 35.31 declara que não deveria ser recebido resgate pela vida do homicida culpado de morte, pois ele deveria, certamente, morrer. Isso reforça a ideia de que a vida humana é valiosa demais para ser compensada por dinheiro ou bens. Permitir resgate criaria uma justiça desigual, em que pessoas com recursos poderiam escapar da penalidade. O texto insiste que o derramamento de sangue é grave e exige resposta proporcional, sem possibilidade de compra de impunidade.
Nos versos 33-34, o texto diz que o sangue derramado profana a terra, e que não há expiação pela terra por causa do sangue, a não ser com o sangue daquele que o derramou. Isso comunica que a violência e o assassinato não são apenas crimes sociais, mas pecados que atingem o próprio ambiente da presença de Deus. A terra prometida é vista como lugar santo, dado por Deus e habitado por Ele no meio do povo. Derramar sangue injustamente rompe a ordem desejada por Deus e exige correção séria.
Números 35 revela um Deus que conhece profundamente a dor humana, a culpa e o desejo de vingança. As cidades de refúgio mostram que Ele sabe que existem situações em que alguém causa um mal terrível sem ter planejado isso, sem nutrir ódio. Há um lugar preparado para esse coração confuso, quebrado e assustado: um lugar de proteção até que tudo seja esclarecido. Ao mesmo tempo, o texto leva em conta a dor de quem perde alguém. A figura do vingador do sangue expressa a revolta, a indignação e a fome de justiça que surgem quando a morte entra em uma família. Deus não ignora essa dor, mas também a envolve em limites, para que a ferida não se transforme em corrente interminável de destruição. É tocante perceber que a vida importa tanto para Deus, que Ele diz que o sangue derramado mancha a própria terra. A morte injusta não passa despercebida. Isso traz consolo a corações que, em algum momento, se sentiram invisíveis em sua dor: diante de Deus, nenhuma lágrima e nenhuma injustiça são pequenas demais. A permanência do homicida involuntário na cidade de refúgio até a morte do sumo sacerdote também conversa com a realidade de processos emocionais longos. Há culpas, traumas e memórias que não se resolvem de um dia para o outro. Às vezes é preciso tempo, cuidado, limites e um novo começo marcado por algo maior do que a própria história pessoal. Números 35, com sua linguagem dura, guarda dentro de si um fio de esperança: mesmo em situações de morte, culpa e vingança, Deus prepara caminhos de proteção, esclarecimento e, em algum ponto da jornada, possibilidade de recomeço.
Do ponto de vista exegético, Números 35 é um texto-chave para compreender a legislação israelita sobre homicídio e refúgio, bem como o papel social e teológico dos levitas. Primeiramente, a distribuição de quarenta e oito cidades levíticas (vv.2-7) mostra um padrão de descentralização do culto e do ensino da lei. Os levitas funcionam como uma rede de presença religiosa e jurídica em toda a nação, favorecendo a aplicação da Torá em escala local. O conceito de “cidades de refúgio” (vv.11-15) é inovador na forma como organiza a justiça. Em contraste com outras culturas do antigo Oriente Médio, não há aqui uma autorização irrestrita para a vingança de sangue, mas sua regulamentação. A lei distingue entre homicídio doloso (com ódio, mau intento, inimizade) e homicídio culposo (sem intenção nem inimizade), oferecendo critérios objetivos: tipo de instrumento, contexto do ato e motivação interna (vv.16-23). A exigência de múltiplas testemunhas (v.30) reforça um padrão processual preocupado com a integridade do julgamento. A permanência do homicida involuntário na cidade de refúgio até a morte do sumo sacerdote (vv.25-28) levanta discussões interessantes na teologia bíblica. Alguns interpretes veem aqui um vínculo entre a figura do sumo sacerdote, sua unção com o santo óleo (v.25) e a dimensão de representatividade diante de Deus: sua morte marcaria o fim de um período e o início de outro, com implicações jurídicas e simbólicas para a nação. O texto, porém, não articula explicitamente um motivo teológico, deixando espaço para leituras tipológicas posteriores. Os versículos finais (33-34) são densos em teologia: a terra é vista como entidade moralmente sensível ao derramamento de sangue, e a presença de Deus “no meio dos filhos de Israel” torna a questão da violência uma preocupação cultual e não apenas cívica. Assim, Números 35 conecta direito penal, geografia sagrada e teologia da presença divina, mostrando que, na cosmovisão bíblica, justiça, território e adoração não são esferas separadas, mas interligadas em uma mesma aliança.
Números 35 oferece princípios muito práticos para a vida em sociedade, especialmente onde há conflitos, acidentes e sentimentos de injustiça. A ideia central é que justiça equilibrada exige, ao mesmo tempo, proteção para o inocente, responsabilidade para o culpado e limites claros para a vingança. A distinção entre homicídio intencional e não intencional chama atenção para algo essencial nas relações do dia a dia: nem todo dano causado tem a mesma raiz. Há atitudes movidas por ódio e maldade, e há falhas, erros, falta de atenção. Misturar tudo sem discernimento leva a decisões injustas em famílias, igrejas e ambientes de trabalho. O texto convida a olhar com cuidado para motivações, contexto e histórico, antes de concluir e reagir. As cidades de refúgio podem ser vistas como um modelo de “espaços seguros” para momentos de crise. Na prática, isso inspira a criar ambientes onde situações complexas possam ser avaliadas com calma, sem que a pressão da opinião pública ou da emoção do momento leve a condenações precipitadas. Em conflitos, é valioso ter gente capacitada para ouvir todas as partes, agir como “congregação” julgadora e buscar o que é justo para todos os envolvidos. Outra lição forte é a proibição de comprar impunidade. Em termos contemporâneos, isso aponta para a importância de não deixar que poder econômico, posição social ou influência determinem o que é certo ou errado. A vida humana não tem preço, e nenhum recurso deveria servir para encobrir abuso, violência ou injustiça. Por fim, a permanência do homicida involuntário na cidade de refúgio até a morte do sumo sacerdote lembra que algumas situações exigem restrições e períodos de afastamento, mesmo quando não houve má intenção. Em termos práticos, isso pode significar impor limites temporários, avaliações, acompanhamentos e processos de reintegração gradativa em vez de retorno imediato à normalidade. Isso protege a comunidade e ajuda quem errou a compreender o peso do que aconteceu, sem ficar abandonado à própria sorte.
Números 35 fala de vida, morte, culpa e presença de Deus na terra. Em seu centro está a convicção de que a vida humana é sagrada e que o sangue derramado não se perde no vazio: ele clama aos céus, contamina a terra e precisa de expiação. A terra prometida é mais que um território; é o espaço em que Deus escolheu habitar no meio do seu povo (v.34). A violência afeta, portanto, não apenas relações humanas, mas o próprio ambiente da presença divina. As cidades de refúgio oferecem um vislumbre da forma como Deus lida com a culpa não intencional. O homicida involuntário não é abandonado à vingança, mas também não é simplesmente liberado como se nada tivesse acontecido. Ele é acolhido em um lugar específico, protegido, mas chamado a viver sob limites até um momento determinado pela morte do sumo sacerdote (vv.25-28). Esse padrão sugere que a culpa, mesmo quando não foi fruto de ódio deliberado, ainda assim precisa ser tratada. O caminho não é nem a negação nem a destruição, mas um tipo de peregrinação protegida até que uma transição maior aconteça. A relação entre a morte do sumo sacerdote e a libertação do homicida involuntário aponta, em termos espirituais, para a ideia de que uma vida representativa, colocada diante de Deus, pode marcar o fim de um período de culpa e o início de um novo tempo. Mais adiante, a revelação bíblica aprofundará essa intuição ao falar de um sacerdócio perfeito que assume, de modo definitivo, o peso do pecado diante de Deus. A exigência de que não haja resgate financeiro para o homicida culpado (v.31) e a afirmação de que somente o sangue daquele que derramou o sangue pode expiar a terra (v.33) ressaltam que a justiça de Deus não é negociável. Nenhum recurso humano é suficiente para encobrir o peso do pecado contra a vida. Isso, ao mesmo tempo, coloca o ser humano diante da seriedade do juízo divino e abre espaço para contemplar a necessidade de uma solução mais profunda, que vá além das capacidades humanas de reparação. Em última análise, Números 35 convida a uma visão da existência em que cada vida é vista sob o olhar de Deus, e cada ato tem ressonância diante dEle. A história humana não se desenrola em um espaço neutro: desenrola-se em uma terra que Deus considera sua, onde Ele decide habitar. Viver com essa consciência dá peso espiritual às relações, às escolhas e à forma como se lida com justiça, culpa e perdão.
" E falou o SENHOR a Moisés nas campinas de Moabe, junto ao Jordão na direção de Jericó, dizendo: "
" Dá ordem aos filhos de Israel que, da herança da sua possessão, dêem cidades aos levitas, em que habitem; e também aos levitas dareis arrabaldes ao redor delas. "
" E terão estas cidades para habitá-las; porém os seus arrabaldes serão o seu gado, e para os seus bens, e para todos os seus animais. "
" E os arrabaldes das cidades, que dareis aos levitas, desde o muro da cidade para fora, serão de mil côvados em redor. "
" E de fora da cidade, do lado do oriente, medireis dois mil côvados, e do lado do sul, dois mil côvados, e do lado do ocidente dois mil côvados, e do lado do norte dois mil côvados, e a cidade no meio; isto terão por arrabaldes das cidades. "
" Das cidades, pois, que dareis aos levitas, haverá seis cidades de refúgio, as quais dareis para que o homicida ali se acolha; e, além destas, lhes dareis quarenta e duas cidades. "
" Todas as cidades que dareis aos levitas serão quarenta e oito cidades, juntamente com os seus arrabaldes. "
" E quanto às cidades que derdes da herança dos filhos de Israel, do que tiver muito tomareis muito, e do que tiver pouco tomareis pouco; cada um dará das suas cidades aos levitas, segundo a herança que herdar. "
" Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo: "
" Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando passardes o Jordão à terra de Canaã, "
" Fazei com que vos estejam à mão cidades que vos sirvam de cidades de refúgio, para que ali se acolha o homicida que ferir a alguma alma por engano. "
" E estas cidades vos serão por refúgio do vingador do sangue; para que o homicida não morra, até que seja apresentado à congregação para julgamento. "
" E das cidades que derdes haverá seis cidades de refúgio para vós. "
" Três destas cidades dareis além do Jordão, e três destas cidades dareis na terra de Canaã; cidades de refúgio serão. "
" Serão por refúgio estas seis cidades para os filhos de Israel, e para o estrangeiro, e para o que se hospedar no meio deles, para que ali se acolha aquele que matar a alguém por engano. "
" Porém, se o ferir com instrumento de ferro e morrer, homicida é; certamente o homicida morrerá. "
" Ou, se lhe ferir com uma pedrada, de que possa morrer, e morrer, homicida é; certamente o homicida morrerá. "
" Ou, se o ferir com instrumento de pau que tiver na mão, de que possa morrer, e ele morrer, homicida é; certamente morrerá o homicida. "
" O vingador do sangue matará o homicida; encontrando-o, matá-lo-á. "
" Se também o empurrar com ódio, ou com mau intento lançar contra ele alguma coisa, e morrer; "
" Ou por inimizade o ferir com a sua mão, e morrer, certamente morrerá aquele que o ferir; homicida é; o vingador do sangue, encontrando o homicida, o matará. "
" Porém, se o empurrar subitamente, sem inimizade, ou contra ele lançar algum instrumento sem intenção; "
" Ou, sobre ele deixar cair alguma pedra sem o ver, de que possa morrer, e ele morrer, sem que fosse seu inimigo nem procurasse o seu mal; "
" Então a congregação julgará entre aquele que feriu e o vingador do sangue, segundo estas leis. "
" E a congregação livrará o homicida da mão do vingador do sangue, e a congregação o fará voltar à cidade do seu refúgio, onde se tinha acolhido; e ali ficará até à morte do sumo sacerdote, a quem ungiram com o santo óleo. "
" Porém, se de alguma maneira o homicida sair dos limites da cidade de refúgio, onde se tinha acolhido, "
" E o vingador do sangue o achar fora dos limites da cidade de seu refúgio, e o matar, não será culpado do sangue. "
" Pois o homicida deverá ficar na cidade do seu refúgio, até à morte do sumo sacerdote; mas, depois da morte do sumo sacerdote, o homicida voltará à terra da sua possessão. "
" E estas coisas vos serão por estatuto de direito às vossas gerações, em todas as vossas habitações. "
" Todo aquele que matar alguma pessoa, conforme depoimento de testemunhas, será morto; mas uma só testemunha não testemunhará contra alguém, para que morra. "
" E não recebereis resgate pela vida do homicida que é culpado de morte; pois certamente morrerá. "
" Também não tomareis resgate por aquele que se acolher à sua cidade de refúgio, para tornar a habitar na terra, até à morte do sumo sacerdote. "
" Assim não profanareis a terra em que estais; porque o sangue faz profanar a terra; e nenhuma expiação se fará pela terra por causa do sangue que nela se derramar, senão com o sangue daquele que o derramou. "
" Não contaminareis pois a terra na qual vós habitais, no meio da qual eu habito; pois eu, o Senhor, habito no meio dos filhos de Israel. "
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