Números 9:1
" E falou o SENHOR a Moisés no deserto de Sinai, no ano segundo da sua saída da terra do Egito, no primeiro mês, dizendo: "
Entenda os temas principais e aplique Números 9 na sua vida hoje
23 versículos | Almeida Corrigida Fiel
A ordem de celebrar a Páscoa no tempo determinado relembra ao povo o ato central de libertação que fundamenta sua identidade. Mesmo no deserto, Deus exige que a salvação seja lembrada e celebrada de forma fiel aos estatutos e ritos estabelecidos.
Alguns israelitas estão cerimonialmente impuros por contato com um morto e, por isso, impedidos de participar da Páscoa na data designada. Deus responde à sua angústia com uma provisão específica: uma segunda Páscoa no mês seguinte, mostrando que leva a santidade a sério, mas também abre caminho para participação por meio de seus mandamentos.
Quem está em condições de celebrar a Páscoa e, mesmo assim, deixa de fazê-lo, é descrito como alguém que será extirpado do povo. A negligência no culto ordenado não é vista como algo secundário, mas como rejeição da própria oferta do Senhor.
Versículos-chave: 13
O estrangeiro peregrino que deseja celebrar a Páscoa é incluído sob o mesmo estatuto e rito do israelita. A comunidade da aliança é chamada a viver uma única regra para todos, revelando um Deus que acolhe e exige a mesma fidelidade de todos os que se aproximam dele.
Versículos-chave: 14
A presença de Deus, simbolizada pela nuvem de dia e pelo fogo à noite, determina cada movimento do povo: quando partir, quando acampar e por quanto tempo permanecer em cada lugar. Israel aprende a viver em total dependência da ordem do Senhor.
Às vezes a nuvem permanecia muitos dias, outras vezes poucos, ou até um mês ou um ano. O povo precisava adaptar-se constantemente à duração da permanência da nuvem, exercitando paciência, prontidão e submissão ao ritmo divino, e não ao próprio.
Números 9 se passa no segundo ano após a saída de Israel do Egito, ainda no deserto do Sinai (v. 1). O tabernáculo já foi construído e erguido (v. 15), e o povo está organizado ao redor dele. A celebração da Páscoa nesse contexto é a primeira registrada após o evento original no Egito (Êxodo 12). A Páscoa era a principal festividade da aliança, relembrando a libertação do cativeiro egípcio e o livramento do juízo de Deus pela aplicação do sangue do cordeiro.
A legislação sobre impureza por contato com mortos fazia parte do sistema cerimonial dado em Levítico. Quem tocasse um corpo morto ficava ritualmente impuro por um período e, por isso, não podia participar de certas atividades sagradas. Isso levanta a questão prática: o que acontece com quem, por causa dessa impureza, perde a Páscoa? A resposta de Deus, por meio de Moisés, estabelece a “segunda Páscoa” (no segundo mês, dia 14), algo específico desse contexto histórico do deserto e das leis cerimoniais.
O relato da nuvem e do fogo está ligado à manifestação de Deus desde a saída do Egito (Êxodo 13:21-22; 40:34-38). Essa coluna de nuvem/fogo era um sinal visível da presença e direção do Senhor, repousando sobre o tabernáculo, o centro de culto e da vida comunitária. A rotina de partir ou acampar conforme o movimento da nuvem moldava todo o ritmo de vida de Israel, destacando a condição de povo peregrino guiado diretamente por Deus em direção à terra prometida.
O capítulo se divide em duas seções principais, unidas pelo tema da obediência à ordem do Senhor:
Celebração da Páscoa no deserto e seu regulamento ampliado (9:1-14)
A nuvem que guia Israel em todas as jornadas (9:15-23)
O texto alterna narrativa e instrução legal, mostrando como situações concretas (impureza, viagem, deslocamentos) geram revelações adicionais da vontade de Deus para o povo.
Números 9 destaca a centralidade da Páscoa e a presença guiadora de Deus como eixos da vida do povo da aliança.
Teologicamente, a Páscoa é reafirmada como memorial obrigatório da salvação. Não se trata apenas de tradição cultural, mas de resposta de obediência à ordem divina. O esquecimento ou a negligência da Páscoa é apresentado como pecado grave, que acarreta separação do povo (v. 13), porque implica rejeitar o modo como Deus decidiu ser conhecido: como o Deus que salva e liberta.
Ao mesmo tempo, o texto revela a combinação entre santidade e graça. A impureza cerimonial impede a participação na data exata, mas Deus não simplesmente exclui essas pessoas da celebração; ao contrário, fornece uma nova oportunidade, com uma “segunda Páscoa” (v. 10-12). A lei não é meramente rígida: ela inclui disposições misericordiosas para que os que desejam honrar o Senhor não sejam descartados por circunstâncias involuntárias. Deus leva a sério tanto a obediência quanto o desejo sincero de participar do culto.
A inclusão do estrangeiro (v. 14) aponta para uma compreensão mais ampla da aliança. O privilégio de celebrar a Páscoa não é restrito pelo sangue ou pela etnia, mas pela adesão ao Deus de Israel e à sua forma de culto. Um único estatuto para todos indica que a santidade de Deus e as exigências da aliança são universais para os que se aproximam dele.
A segunda metade do capítulo aprofunda a teologia da presença de Deus. A nuvem e o fogo não são apenas fenômenos visuais, mas símbolos da habitação e direção contínua do Senhor no meio do povo. Cada gesto da comunidade – partir ou acampar – é subordinado ao movimento da presença divina. Isso mostra um Deus que não apenas salvou no passado (Páscoa), mas continua conduzindo, passo a passo, a caminhada do povo.
O refrão “segundo a ordem do Senhor” (v. 18, 20, 23) enfatiza a obediência como resposta adequada à presença e à revelação divinas. A vida de fé é retratada como peregrinação atenta, que espera, anda, permanece e muda de rumo não por conveniência, mas pela voz de Deus. Assim, o capítulo une memória da salvação, santidade, graça inclusiva e direção contínua como aspectos inseparáveis da relação entre Deus e seu povo.
Números 9 oferece imagens e princípios com potencial de consolo e reorganização interna para pessoas em sofrimento emocional.
A situação dos que estavam impuros por causa de um corpo morto (v. 6-7) reflete a experiência de quem, por circunstâncias fora de seu controle, sente-se impedido de participar plenamente da vida espiritual ou comunitária. Eles se aproximam com um sentimento de perda: “por que seríamos privados de oferecer a oferta do Senhor?”. A resposta divina, provendo uma segunda oportunidade, comunica que Deus não ignora quem sofre limitações, nem descarta quem, de boa-fé, se vê temporariamente afastado. Essa imagem pode aliviar sentimentos de culpa indevida e exclusão espiritual.
A postura de Moisés – “Esperai, e eu ouvirei o que o Senhor vos ordenará” (v. 8) – sugere um modelo de manejo de dilemas e angústias: pausa, escuta, busca de direção superior, em vez de respostas precipitadas. Isso se conecta com abordagens terapêuticas que valorizam a tolerância à incerteza, a reflexão e o suporte de uma referência confiável em momentos de confusão.
A narrativa da nuvem e do fogo (v. 15-23) traz conforto para quem se sente desorientado. A ideia de uma presença constante – nuvem de dia, fogo de noite – aponta para um cuidado que não se interrompe, mesmo quando as circunstâncias mudam. Há períodos longos de espera e períodos de mudanças rápidas, mas, em todos eles, a referência é a mesma: a ordem do Senhor. Isso pode ajudar pessoas que se angustiam com o tempo das coisas, lembrando que nem permanência prolongada nem deslocamentos frequentes significam abandono.
O texto também legitima emoções associadas à imprevisibilidade. Israel nunca sabia se ficaria dois dias ou um ano (v. 22); essa incerteza poderia gerar ansiedade e frustração. Porém, a narrativa mostra um povo aprendendo a viver com esse ritmo, ancorado na confiança na direção divina. Para processos terapêuticos, essa imagem pode ser trabalhada como metáfora de aceitação de processos gradativos, recuperação lenta ou mudanças inesperadas, sem perder o senso de propósito.
Alguns elementos do capítulo podem ser mal interpretados de forma emocionalmente danosa se lidos sem contexto.
A punição de ser “extirpado” do povo para quem, estando limpo e não viajando, deixa de celebrar a Páscoa (v. 13) pode ser internalizada por pessoas com forte sentimento de culpa, perfeccionismo espiritual ou histórico religioso rígido, como se qualquer falha ou dificuldade em práticas espirituais atuais fosse motivo para rejeição absoluta por parte de Deus. Essa leitura ignora o contexto específico da lei cerimonial e o caráter coletivo e histórico dessa advertência.
Da mesma forma, a ênfase repetida em “cumprir a ordem do Senhor” pode ser distorcida em direção a um legalismo rígido, alimentando medo de punição em pessoas vulneráveis, em vez de confiança amorosa. Em contextos de abuso espiritual, textos como este podem ter sido usados para silenciar questionamentos saudáveis e impor obediência cega a líderes humanos, confundindo a voz de Deus com controle religioso.
A descrição da nuvem que, às vezes, se detém por longos períodos e, em outras, se move rapidamente (v. 19-22) também pode gerar ansiedade em quem luta com incertezas: a pessoa pode sentir que nunca sabe o que Deus quer e viver paralisada com medo de “errar o tempo”. Sem uma leitura equilibrada, isso pode reforçar pensamentos obsessivos e dificuldade de tomar decisões cotidianas.
Por isso, ao trabalhar esse texto em contextos pastorais ou terapêuticos, é importante frisar o caráter revelador do cuidado contínuo de Deus, a centralidade da graça e da inclusão (v. 10-12, 14) e a diferença entre o contexto cerimonial de Israel no deserto e a realidade espiritual atual. Leitores com histórico de abuso religioso, transtornos obsessivo-compulsivos ou depressão grave podem precisar de acompanhamento cuidadoso para que esse texto não se torne gatilho de medo, desesperança ou autocondenação.
Números 9 sugere aplicações práticas em diferentes dimensões da vida cristã e comunitária.
Na dimensão da memória e da gratidão, a insistência de Deus para que a Páscoa fosse celebrada “a seu tempo determinado” (v. 2-3) inspira comunidades a manterem vivas práticas que recordam a obra salvadora de Deus. A fé não se sustenta apenas em experiências atuais, mas também na lembrança intencional de como Deus já agiu no passado. Isso pode se traduzir em ritmos de culto, celebrações, testemunhos e disciplinas pessoais que mantêm viva a consciência da graça recebida.
No campo da sensibilidade pastoral, a provisão para quem está impuro ou em viagem (v. 10-12) aponta para a importância de estruturas eclesiásticas que considerem realidades diversas. Comunidades podem aprender a não confundir zelo por ordem com indiferença às limitações concretas das pessoas (doença, luto, deslocamentos), buscando caminhos responsáveis que permitam a participação de quem, de coração sincero, deseja honrar a Deus.
A advertência sobre quem, estando em condições, simplesmente negligencia a Páscoa (v. 13) toca na questão da prioridade espiritual. A vida cotidiana facilmente empurra o culto a Deus para a periferia. O texto lembra que o relacionamento com Deus não é um acréscimo opcional, mas centro da identidade do povo. Em termos práticos, isso convida a revisar prioridades, horários, compromissos e hábitos, para que o culto – pessoal e comunitário – não seja constantemente adiado.
A inclusão do estrangeiro sob o mesmo estatuto (v. 14) sugere uma postura comunitária acolhedora, mas também clara quanto ao compromisso com Deus. Na prática, isso inspira igrejas e grupos a não criarem barreiras étnicas, culturais ou sociais para a participação, ao mesmo tempo em que mantêm a centralidade dos valores do evangelho e da santidade de Deus como padrão comum para todos.
No dia a dia, a imagem da nuvem e do fogo (v. 15-23) pode ser aplicada ao discernimento e à direção. O povo só partia “segundo a ordem do Senhor” (v. 18, 23). Isso encoraja a buscar, nas decisões grandes e pequenas, um processo de ouvir a Deus por meio da Escritura, da oração, do conselho sábio e da reflexão, em vez de agir apenas por impulsos ou pressões externas. Também incentiva a aprender a conviver com tempos de espera, sem desespero, e com tempos de mudança, sem resistência inflexível, desenvolvendo um coração disponível para permanecer ou partir conforme a direção discernida.
A “segunda Páscoa” é a possibilidade de celebrar a Páscoa um mês depois da data principal (no segundo mês, dia 14, ao entardecer), concedida por Deus aos que estivessem ritualmente impuros por contato com um morto ou em viagem distante na data original (v. 10-11). Ela seguia os mesmos estatutos da Páscoa principal: comer com pães ázimos e ervas amargas, não deixar nada até a manhã e não quebrar os ossos do sacrifício (v. 12). Essa provisão mostra a preocupação de Deus em não excluir, injustamente, quem tivesse impedimentos involuntários, mas desejasse participar fielmente.
A Páscoa era o principal memorial da libertação do Egito, ato central da identidade de Israel como povo de Deus. Deixar de celebrá-la, sem motivo legítimo, era visto como recusar a própria oferta do Senhor “a seu tempo determinado” (v. 13). Por isso, o texto afirma que quem, estando limpo e não viajando, negligenciasse a Páscoa seria “extirpado” do povo e “levaria o seu pecado”. A gravidade não está apenas na quebra de um ritual, mas na rejeição simbólica da salvação que Deus realizou e ordenou que fosse lembrada.
A nuvem de dia e a aparência de fogo à noite (v. 15-16) representam a presença e a glória de Deus no meio de Israel, repousando sobre o tabernáculo, que era o centro do culto. Além disso, serviam como guia visível: quando a nuvem se levantava, o povo partia; quando parava, o povo acampava (v. 17-18). O cotidiano de Israel no deserto era, assim, regulado pela manifestação da presença de Deus, ensinando o povo a depender totalmente de sua direção, tanto nos momentos de espera prolongada quanto nas mudanças repentinas.
Em Números 9:14, Deus estabelece que “um mesmo estatuto haverá para vós, assim para o estrangeiro, como para o natural da terra”. Isso mostra que a participação na Páscoa, e portanto na memória da salvação, não era baseada em etnia, mas na adesão ao Deus de Israel e à sua aliança. O estrangeiro que escolhesse celebrar a Páscoa deveria submeter-se aos mesmos estatutos e ritos, porque a santidade de Deus e o padrão de culto não variam conforme a origem da pessoa. Ao mesmo tempo, isso revela uma abertura inclusiva: não há dois tipos de pertencimento na comunidade da fé, mas um único padrão para todos.
O povo sabia pela movimentação da nuvem sobre o tabernáculo. Sempre que a nuvem se alçava, os israelitas partiam; quando a nuvem parava, eles acampavam (v. 17). Isso valia independentemente da duração: se a nuvem permanecesse muitos dias, poucos dias, dois dias, um mês ou um ano, o povo se ajustava a esse tempo (v. 19-22). O versículo 23 resume: “Segundo a ordem do Senhor se alojavam, e segundo a ordem do Senhor partiam”, indicando que toda a logística da jornada era regida pela direção divina.
Números 9 traz à tona sentimentos muito humanos: o desejo de não ficar de fora, a dor de ser impedido por algo que foge ao controle e o medo de perder algo precioso. Aqueles homens que estavam impuros por terem tocado um corpo morto (v. 6-7) não se conformam em simplesmente aceitar a exclusão. Eles expressam sua angústia: não querem ser privados de oferecer ao Senhor o que ele pediu. Dentro desse clamor há tristeza, talvez um senso de perda e até de injustiça. A resposta de Deus, mediada por Moisés, é profundamente consoladora. Antes de dar uma solução, há um momento de espera: “Esperai, e eu ouvirei o que o Senhor vos ordenará” (v. 8). Essa postura transmite cuidado. Suas dores não são descartadas; são levadas a Deus. O Senhor não fecha a porta para quem deseja se aproximar com sinceridade, mas abre um caminho possível: uma segunda Páscoa, uma nova chance no tempo certo (v. 10-11). Para corações que se sentem atrasados, manchados ou em desvantagem espiritual, essa imagem fala de um Deus que não se cansa de criar oportunidades de reencontro. A segunda parte do capítulo descreve uma presença que não abandona: nuvem de dia, fogo à noite (v. 15-16). Em todo tempo, algo visível lembra ao povo que não está só. Quando há longas esperas, a nuvem permanece; quando é hora de seguir, a nuvem se move. Nada disso é caótico: existe uma ordem, um cuidado, um olhar atento do Senhor sobre cada etapa (v. 17-18, 23). Corações cansados, que se sentem presos em ciclos longos ou empurrados em mudanças rápidas, encontram aqui uma imagem de companhia constante. A mensagem que atravessa o texto é que Deus não esquece, não abandona, não perde de vista nenhum acampamento, nenhum tempo de deserto, nenhum coração que deseja ficar perto dele, mesmo quando se sente impuro ou limitado.
Do ponto de vista exegético, Números 9 articula dois eixos teológicos importantes: a consolidação do calendário cultual no deserto e a teologia da presença guiadora de Deus. A primeira seção (v. 1-14) registra a ordem para celebrar a Páscoa “no ano segundo da sua saída da terra do Egito, no primeiro mês” (v. 1-3), retomando o padrão estabelecido em Êxodo 12. Isso mostra que, mesmo ainda no Sinai, antes da entrada em Canaã, o povo já deveria observar o ritmo anual de memória da libertação. O episódio dos homens impuros por contato com morto (v. 6-7) introduz um caso jurídico que demanda esclarecimento. Moisés atua como mediador que consulta o Senhor (v. 8), e a resposta divina estabelece um princípio de direito cultual que se estende “entre vós, ou entre as vossas gerações” (v. 10): quem estiver impuro ou em jornada distante terá a possibilidade de celebrar a Páscoa um mês depois. A solução preserva tanto a exigência da pureza ritual quanto a importância da participação na Páscoa. A proibição de deixar sobras até a manhã e de quebrar ossos (v. 12) reafirma detalhes já presentes na primeira instituição da festa, sublinhando a continuidade entre a Páscoa do Egito e sua observância posterior. O versículo 13, por sua vez, intensifica a seriedade do mandamento: a omissão voluntária da Páscoa, quando não há impedimentos legítimos, resulta em extirpação. O verbo usado expressa uma ruptura da comunhão com o povo da aliança. Essa sanção ressalta a teologia da Páscoa como fundante: recusar o memorial da salvação equivale a afastar-se da própria identidade de Israel. A inclusão do estrangeiro (v. 14) é teologicamente significativa. A expressão “um mesmo estatuto” ecoa a ideia de que a lei de Deus vale igualmente para israelitas e estrangeiros que se integrem à comunidade de fé. Isso está em consonância com outros textos do Pentateuco que estabelecem uma mesma norma para o “natural” e o “estrangeiro” em questões de culto e moral. A segunda parte (v. 15-23) retoma e amplia a nota final de Êxodo 40, descrevendo a coluna de nuvem/fogo como guia permanente. O texto enfatiza a variação dos períodos de permanência (muitos dias, poucos dias, dois dias, um mês, um ano; v. 19-22) e repete que tudo é feito “segundo a ordem do Senhor” (v. 18, 20, 23). Essa repetição funciona como refrão pedagógico, gravando na memória do leitor que a jornada não é dirigida por decisões humanas autônomas, mas pela iniciativa divina. A mediação de Moisés (v. 23) reforça seu papel como profeta e legislador, através de quem o povo conhece a vontade de Deus. Literariamente, o capítulo integra instrução legal e narrativa teofânica para construir uma imagem coerente da vida da aliança: marcada por memória ritual, legislação adaptativa e direção contínua da presença de Deus.
Lido pela lente da vida diária, Números 9 fala muito sobre ritmo, prioridade e flexibilidade. O texto mostra um povo que precisa organizar todo o calendário e a logística do acampamento em torno de duas referências: a Páscoa e a nuvem do Senhor. A Páscoa, sempre no tempo determinado (v. 2-3), funciona como um compromisso inegociável. Isso sugere que, na prática, a lembrança da ação de Deus precisa ter lugar fixo na agenda, não ser encaixada “se sobrar tempo”. Em termos de prioridades, é como decidir o que entra primeiro no calendário antes de preencher com o resto. Essa ordem protege o povo de se perder em tarefas diárias e esquecer quem os tirou da escravidão. Ao mesmo tempo, o capítulo ensina a lidar com situações fora de controle. Os homens impuros por causa de um corpo morto (v. 6-7) lembram as interrupções inesperadas: doença, luto, viagem, imprevistos que bagunçam planos. A resposta divina não é: “vocês perderam a chance, paciência”, mas uma nova possibilidade, com regras claras (v. 10-12). Isso aponta para a importância de sistemas e hábitos com margem para recomeços, em vez de funcionarem com a lógica do “errou uma vez, acabou”. Na vida prática, isso se traduz em não desistir de disciplinas saudáveis porque um período foi interrompido, mas em retomar com responsabilidade quando for possível. A imagem da nuvem que ora fica muitos dias, ora poucos, às vezes dois dias, às vezes um ano (v. 19-22) é um retrato da imprevisibilidade da vida. O povo precisa estar pronto para duas atitudes igualmente importantes: permanecer ou partir. Organizar a vida em volta dessa dinâmica exige desapego e prontidão. Em termos práticos, sugere a necessidade de planos, mas também de abertura para ajustá-los. Ensina a importância de observar os sinais do momento – no contexto atual, isso inclui circunstâncias, conselhos sábios, portas que se abrem ou se fecham – e não insistir em permanecer quando é hora de seguir, nem sair correndo quando é hora de ficar. Por fim, a repetida frase “segundo a ordem do Senhor” (v. 18, 23) mostra que a referência para decidir não é apenas conveniência, medo ou pressa, mas um critério superior. Nas decisões profissionais, familiares, financeiras e comunitárias, esse princípio aponta para a busca deliberada de orientação em valores firmes e na vontade de Deus revelada, em vez de reagir apenas por impulso ou pressão externa. Assim, Números 9 inspira uma vida que combina compromisso firme com o essencial, flexibilidade diante dos imprevistos e disposição constante para ajustar o passo à direção discernida.
" E falou o SENHOR a Moisés no deserto de Sinai, no ano segundo da sua saída da terra do Egito, no primeiro mês, dizendo: "
" Celebrem os filhos de Israel a páscoa a seu tempo determinado. "
" No dia catorze deste mês, pela tarde, a seu tempo determinado a celebrareis; segundo todos os seus estatutos, e segundo todos os seus ritos, a celebrareis. "
" Disse, pois, Moisés aos filhos de Israel que celebrassem a páscoa. "
" Então celebraram a páscoa no dia catorze do primeiro mês, pela tarde, no deserto de Sinai; conforme a tudo o que o Senhor ordenara a Moisés, assim fizeram os filhos de Israel. "
" E houve alguns que estavam imundos por terem tocado o corpo de um homem morto; e não podiam celebrar a páscoa naquele dia; por isso se chegaram perante Moisés e Arão naquele mesmo dia; "
" E aqueles homens disseram-lhe: Imundos estamos nós pelo corpo de um homem morto; por que seríamos privados de oferecer a oferta do Senhor a seu tempo determinado no meio dos filhos de Israel? "
" E disse-lhes Moisés: Esperai, e eu ouvirei o que o Senhor vos ordenará. "
" Então falou o Senhor a Moisés, dizendo: "
" Fala aos filhos de Israel, dizendo: Quando alguém entre vós, ou entre as vossas gerações, for imundo por tocar corpo morto, ou achar-se em jornada longe de vós, contudo ainda celebrará a páscoa ao Senhor. "
" No mês segundo, no dia catorze à tarde, a celebrarão; com pães ázimos e ervas amargas a comerão. "
" Dela nada deixarão até à manhã, e dela não quebrarão osso algum; segundo todo o estatuto da páscoa a celebrarão. "
" Porém, quando um homem for limpo, e não estiver em viagem, e deixar de celebrar a páscoa, essa alma do seu povo será extirpada; porquanto não ofereceu a oferta do Senhor a seu tempo determinado; esse homem levará o seu pecado. "
" E, quando um estrangeiro peregrinar entre vós, e também celebrar a páscoa ao Senhor, segundo o estatuto da páscoa e segundo o seu rito assim a celebrará; um mesmo estatuto haverá para vós, assim para o estrangeiro, como para o natural da terra. "
" E no dia em que foi levantado o tabernáculo, a nuvem cobriu o tabernáculo sobre a tenda do testemunho; e à tarde estava sobre o tabernáculo com uma aparência de fogo até à manhã. "
" Assim era de contínuo: a nuvem o cobria, e de noite havia aparência de fogo. "
" Mas sempre que a nuvem se alçava de sobre a tenda, os filhos de Israel partiam; e no lugar onde a nuvem parava, ali os filhos de Israel se acampavam. "
" Segundo a ordem do Senhor, os filhos de Israel partiam, e segundo a ordem do Senhor se acampavam; todos os dias em que a nuvem parava sobre o tabernáculo, ficavam acampados. "
" E, quando a nuvem se detinha muitos dias sobre o tabernáculo, então os filhos de Israel cumpriam a ordem do Senhor, e não partiam. "
" E, quando a nuvem ficava poucos dias sobre o tabernáculo, segundo a ordem do Senhor se alojavam, e segundo a ordem do Senhor partiam. "
" Porém, outras vezes a nuvem ficava desde a tarde até à manhã, e quando ela se alçava pela manhã, então partiam; quer de dia quer de noite alçando-se a nuvem, partiam. "
" Ou, quando a nuvem sobre o tabernáculo se detinha dois dias, ou um mês, ou um ano, ficando sobre ele, então os filhos de Israel se alojavam, e não partiam; e alçando-se ela, partiam. "
" Segundo a ordem do Senhor se alojavam, e segundo a ordem do Senhor partiam; cumpriam o seu dever para com o Senhor, segundo a ordem do Senhor por intermédio de Moisés. "
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