Números 11 - Significado, temas e aplicação

Entenda os temas principais e aplique Números 11 na sua vida hoje

35 versículos | Almeida Corrigida Fiel

Sobre o que é Números 11?

Números 11 descreve um momento crítico na caminhada de Israel no deserto: o povo reclama do cuidado de Deus, despreza o maná e exige carne. A murmuração provoca juízo divino, mas também revela a fraqueza de Moisés, que se sente sobrecarregado. Em resposta, Deus reparte o espírito que estava sobre Moisés com setenta anciãos para compartilhar a liderança e, ao mesmo tempo, envia codornizes em abundância, acompanhadas de severo castigo pela cobiça. O capítulo une pecado, disciplina, graça e provisão de Deus na organização espiritual do povo.

Temas principais em Números 11

Murmuração e ingratidão diante da provisão de Deus (versículos 1-10, 18-20, 33-34)

O povo se queixa do cuidado divino, idealiza o Egito e despreza o maná, preferindo as lembranças da escravidão à dependência diária de Deus. A murmuração não é apenas sobre comida, mas sobre um coração insatisfeito com a forma como Deus conduz a vida de Israel.

Versículos-chave: 1, 6, 18, 20, 34

O peso da liderança e o cuidado de Deus com seus servos (versículos 10-17, 24-25)

Moisés confessa esgotamento e desesperança diante das exigências do povo. Deus não o repreende por ser honesto, mas responde providenciando companheiros de liderança, mostrando que o chamado é pesado, porém não deve ser carregado sozinho.

Versículos-chave: 11, 14, 17

Distribuição do Espírito e liderança compartilhada (versículos 16-17, 24-30)

O Senhor tira do espírito que está sobre Moisés e o coloca sobre setenta anciãos, que passam a profetizar. A liderança é ampliada, e o agir do Espírito não fica preso a estruturas rígidas, como se vê em Eldade e Medade profetizando no arraial.

Versículos-chave: 17, 25, 26, 29

O perigo da cobiça e suas consequências (versículos 4-6, 18-20, 31-34)

O desejo descontrolado por carne transforma-se em rejeição ao próprio Deus. A codorniz chega em abundância, mas o alimento desejado se torna instrumento de juízo, revelando que nem todo “pedido atendido” é sinal de aprovação divina.

Versículos-chave: 4, 20, 33, 34

O poder e a fidelidade de Deus diante da incredulidade (versículos 21-23, 31-32)

Moisés questiona como Deus poderia alimentar um povo tão grande por um mês com carne. Deus responde lembrando que sua mão não está encolhida, reafirmando sua capacidade ilimitada de cumprir o que promete, mesmo quando os recursos humanos parecem impossíveis.

Versículos-chave: 21, 23, 31

Contexto histórico e literario

Números 11 se passa durante a peregrinação de Israel pelo deserto, após a saída do Egito e depois que o maná já havia sido estabelecido como alimento diário. O povo estava a caminho da terra prometida, vivendo em tendas e organizado em arraial ao redor do tabernáculo. A memória do Egito ainda era recente, e muitos lembravam dos alimentos de lá como se fossem sinais de bem-estar, ignorando a escravidão e a opressão que sofriam.

O “vulgo” (v. 4) provavelmente indica um grupo misto, composto por estrangeiros que saíram com Israel e possivelmente israelitas menos comprometidos, que influenciam o povo com suas queixas. O sistema de liderança já incluía anciãos e oficiais (v. 16), mas a pressão sobre Moisés demonstra a necessidade de um arranjo mais amplo de liderança espiritual.

A descida da nuvem (v. 25) remete à presença manifesta de Deus sobre o tabernáculo. O ato de Deus “tirar do espírito” que estava sobre Moisés e repartí-lo com os anciãos não significa divisão em partes menores, mas compartilhamento do mesmo poder e vocação para governar o povo. Eldade e Medade profetizando dentro do arraial mostram que a atuação do Espírito não se limita à proximidade física da tenda da congregação.

As codornizes (v. 31-32) são aves migratórias que podiam ser trazidas por ventos sazonais a partir do mar Mediterrâneo. Deus usa esse fenômeno natural de forma extraordinária, em volume descomunal, como resposta à cobiça do povo. Os nomes dos lugares, Taberá (“incêndio”) e Quibrote-Ataavá (“sepulturas da cobiça”), funcionam como memoriais históricos dos pecados e juízos ocorridos ali.

Estrutura de Números 11

O capítulo apresenta uma narrativa contínua, mas pode ser organizado em seções claras:

  1. Primeira murmuração e juízo com fogo (11:1-3)

    • Queixa genérica do povo.
    • Fogo do Senhor consome a extremidade do arraial.
    • Intercessão de Moisés e cessação do fogo.
    • Nomeação do lugar como Taberá.
  2. Cobiça pela carne e desprezo ao maná (11:4-9)

    • O “vulgo” incita o desejo por carne.
    • O povo chora lembrando dos alimentos do Egito.
    • Descrição detalhada do maná e seu preparo.
  3. O desabafo de Moisés e sua angústia na liderança (11:10-15)

    • Lamento generalizado do povo em cada tenda.
    • Moisés se sente sobrecarregado, incapaz e pede até a morte.
  4. Resposta de Deus: compartilhamento da liderança e anúncio de carne (11:16-23)

    • Escolha dos setenta anciãos.
    • Promessa de repartição do espírito de Moisés.
    • Proclamação de que o povo comerá carne por um mês, até o enjoo.
    • Dúvida de Moisés e afirmação do poder de Deus.
  5. O Espírito sobre os anciãos e a questão de Eldade e Medade (11:24-30)

    • Reunião dos anciãos ao redor da tenda.
    • Descida do Senhor na nuvem e profecia inicial.
    • Eldade e Medade profetizam no arraial.
    • Ciúme de Josué e resposta generosa de Moisés.
  6. Envio das codornizes e juízo sobre a cobiça (11:31-35)

    • Vento do Senhor traz codornizes em grande quantidade.
    • Povo colhe em excesso.
    • Ira do Senhor se acende; grande praga durante o consumo da carne.
    • Nome do lugar: Quibrote-Ataavá.
    • Partida para Hazerote.

Significado teológico

Números 11 oferece um retrato intenso da dinâmica entre Deus, seu povo e seus líderes. A murmuração não é uma simples reclamação circunstancial; é apresentada como rejeição direta ao Senhor que está “no meio” do povo (v. 20). Ao desprezar o maná, Israel demonstra desprezo pela forma como Deus escolheu sustentá-los, evidenciando um coração que prefere as seguranças da escravidão a confiar na provisão diária de Deus.

A experiência de Moisés destaca a realidade da fragilidade humana em tarefas espirituais elevadas. O desabafo sincero do líder, sentindo-se incapaz e esmagado pelo peso do povo, não é condenado, mas acolhido por Deus, que provê ajuda concreta. A solução divina passa não por tornar Moisés “mais forte” em si mesmo, mas por repartir o Espírito com outros, apontando para um modelo de liderança compartilhada e comunitária na obra de Deus.

O derramamento do Espírito sobre setenta anciãos, e até sobre Eldade e Medade, antecipa a visão de um povo amplo, capacitado pelo Espírito, e não de um único indivíduo carismático. A frase de Moisés, “Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta” (v. 29), ressoa como um anseio que encontra eco posterior na promessa de um derramamento universal do Espírito sobre filhos e filhas.

A resposta de Deus à incredulidade de Moisés quanto à capacidade de prover carne para um mês (“Teria sido encurtada a mão do Senhor?”, v. 23) reafirma a onipotência divina e a fidelidade de sua palavra. Ao mesmo tempo, o envio das codornizes acompanhado de juízo mostra que Deus pode, em certos casos, conceder o que é pedido em rebelião para expor o caráter destrutivo da cobiça. Nem toda provisão é sinal de aprovação; o texto alerta para os desejos que afastam o coração do Senhor.

Assim, o capítulo entrelaça a santidade de Deus, sua paciência, seu poder, a seriedade do pecado de ingratidão e a importância da liderança espiritual marcada pelo Espírito e pelo serviço compartilhado.

Aplicação restauradora e de saúde mental

Este capítulo toca em emoções e experiências humanas muito comuns: insatisfação crônica, nostalgia idealizada do passado, esgotamento na liderança, sensação de peso insuportável e conflitos diante da forma como Deus conduz a vida. O povo expressa uma fome que vai além de comida; é a ânsia por controle, conforto e segurança segundo padrões próprios. Moisés, por sua vez, revela um cansaço profundo, uma exaustão que o leva a desejar a morte, retratando o limite emocional de quem carrega responsabilidades pesadas.

A narrativa mostra que Deus leva a sério tanto o pecado da murmuração quanto a dor real de um líder sobrecarregado. Há um contraste terapêutico: a queixa do povo nasce da rebelião e da ingratidão; o lamento de Moisés nasce da fraqueza sincera. Deus corrige o povo, mas acolhe e ampara o líder cansado, provendo comunidade e partilha de carga.

A idealização do Egito ilustra o mecanismo psicológico de romantizar o passado em tempos difíceis, filtrando apenas o que parecia bom e esquecendo o sofrimento. Isso mostra como o sofrimento atual pode distorcer a memória e alimentar decisões destrutivas. A disciplina divina, inclusive na forma da praga, aparece como um limite firme colocado por Deus à autodestruição coletiva da cobiça.

Ao mesmo tempo, o derramamento do Espírito sobre os anciãos revela que Deus não espera que seus servos enfrentem pressões espirituais sozinhos. O cuidado divino se manifesta em suporte relacional e espiritual para dividir tarefas e responsabilidades, reforçando a importância de comunidades que compartilham o peso da caminhada e do serviço.

warning Importante: maus usos comuns

O texto apresenta alguns sinais de alerta importantes:

  1. Murmuração persistente e coletiva (v. 1-4, 10): quando a reclamação deixa de ser um desabafo pontual e se torna um padrão constante, alimentado em grupo, pode indicar um coração endurecido, resistência a encarar a realidade e dificuldade de reconhecer qualquer aspecto positivo da situação.

  2. Idealização do passado e negação do sofrimento anterior (v. 5): lembrar do Egito apenas pelos alimentos “de graça” ignora a escravidão. Esse tipo de memória seletiva pode conduzir a decisões que reabrem antigos ciclos de opressão e pecado.

  3. Desprezo pelas formas de provisão atuais (v. 6): olhar para o “maná” da vida — aquilo que Deus tem provido — com desprezo, como se fosse “nada”, pode indicar ingratidão profunda, comparações destrutivas e incapacidade de perceber cuidado no cotidiano.

  4. Exaustão extrema na liderança, com desejo de morte (v. 14-15): a fala de Moisés expressa um ponto crítico de esgotamento. Em qualquer contexto, quando a pessoa sente que a única saída seria morrer, isso é um sinal grave de sofrimento emocional e espiritual que exige atenção e suporte.

  5. Cobiça descontrolada e foco em um único desejo (v. 4, 13, 20): quando a vida passa a girar em torno de uma única coisa desejada, vista como condição indispensável para a felicidade, há risco de idolatria e autossabotagem.

  6. Confusão entre “pedido atendido” e aprovação divina (v. 31-34): o fato de Deus permitir que o povo obtenha carne não significa que esteja aprovando seu coração. Ler qualquer ganho ou conquista imediata como sinal automático de bênção pode levar a autoengano espiritual.

Aplicação prática para hoje

Números 11 oferece vários pontos de aplicação prática:

  1. Avaliação da murmuração: a repetição das queixas de Israel convida a uma autoanálise das conversas, pensamentos e reclamações. É uma chamada para distinguir entre lamento sincero e murmuração que rejeita o modo de Deus agir.

  2. Reconhecimento da provisão atual: o desprezo pelo maná mostra o perigo de tratar como “nada” aquilo que Deus tem colocado diariamente diante de nós. Há um convite implícito à gratidão concreta pelas formas simples, constantes e talvez pouco glamorosas de cuidado divino.

  3. Cuidado com a nostalgia distorcida: a memória seletiva do Egito alerta contra idealizar fases passadas de vida ou situações de pecado apenas pelos aparentes benefícios, ignorando o custo espiritual e emocional que traziam.

  4. Saúde emocional na liderança e no serviço: o desabafo de Moisés mostra que é legítimo reconhecer limites, confessar cansaço e admitir que não é possível carregar tudo sozinho. O texto encoraja estruturas de apoio, delegação e partilha de responsabilidades em qualquer contexto de liderança ou serviço.

  5. Valorização da liderança compartilhada e do agir do Espírito: Deus reparte o espírito de Moisés entre muitos, mostrando que o trabalho de Deus não foi projetado para heróis solitários. A visão de Moisés desejando que todo o povo fosse profeta aponta para comunidades em que muitos são capacitados e envolvidos.

  6. Discernimento sobre desejos e orações: o juízo ligado às codornizes ajuda a refletir sobre desejos insistentes que podem estar enraizados na insatisfação com Deus, e não numa fé madura. Convida a examinar motivações e a submeter anseios ao caráter de Deus, não o contrário.

  7. Confiança na capacidade de Deus: a pergunta divina — se a mão do Senhor teria sido encurtada — desafia a incredulidade prática que calcula apenas com os próprios recursos. O texto chama a incluir o poder de Deus nas contas, especialmente em situações que parecem humanamente impossíveis.

Perguntas frequentes

Por que a murmuração do povo em Números 11 é considerada tão grave?

A murmuração não era apenas reclamação de circunstâncias difíceis, mas rejeição direta ao cuidado e à presença de Deus. O povo idealizava o Egito, o lugar de escravidão, e desprezava o maná, que era o sinal diário da provisão divina. Ao dizer, na prática, que preferiam o Egito à condução do Senhor no deserto, Israel estava questionando o caráter, a sabedoria e a bondade de Deus. Isso tornava a queixa um ato de rebelião, e não apenas desabafo de dor.

O que significa Deus tirar do espírito que estava sobre Moisés e colocar sobre os anciãos?

A expressão indica que Deus repartiu com os anciãos a mesma capacitação espiritual e autoridade que já havia concedido a Moisés para liderar o povo. Não se trata de diminuir o que Moisés tinha, mas de estender a outros a mesma obra do Espírito, para que a carga do povo fosse compartilhada. O foco é a multiplicação da liderança espiritual e a confirmação divina de que eles estavam sendo oficialmente capacitados para ajudar na condução de Israel.

Por que Eldade e Medade profetizam longe da tenda da congregação?

Eldade e Medade estavam entre os escolhidos, mas não saíram até a tenda com os outros anciãos. Mesmo assim, o Espírito repousou sobre eles, e profetizaram no arraial. Isso mostra que a atuação do Espírito de Deus não fica presa a formalidades de localização ou à presença física em um único lugar. Deus confirma o chamado deles independentemente da posição em que estavam, e a reação de Moisés, desejando que todo o povo tivesse o Espírito, ressalta que a profecia não é privilégio de um pequeno círculo fechado.

Por que Deus dá carne ao povo se isso resultaria em juízo?

Deus atende ao pedido do povo, mas deixa claro que o desejo deles expressa rejeição a Ele, e não fé. A carne é dada em abundância, porém o próprio pedido se torna ocasião de disciplina severa, revelando a gravidade da cobiça. Nesse caso, Deus permite que o povo experimente as consequências de um desejo insistente e idolatrado, para expor como esse coração insatisfeito é destrutivo. A concessão da carne não representa aprovação, mas uma forma de juízo pedagógico.

O que significam os nomes Taberá e Quibrote-Ataavá?

Taberá significa algo como “incêndio” ou “queimadura” e lembra o fogo do Senhor que ardeu entre o povo quando murmuraram (v. 1-3). Quibrote-Ataavá significa “sepulturas da cobiça” ou “sepulturas do desejo”, referindo-se ao lugar onde foram enterrados aqueles que foram feridos pela praga após cobiçarem carne de forma rebelde (v. 34). Os nomes funcionam como memoriais permanentes de como Deus trata a murmuração e a cobiça do seu povo.

Perspectivas dos nossos guias espirituais

Heart
Heart

Números 11 revela um povo cansado, um líder esgotado e um Deus que ouve tudo isso. Há lágrimas por toda parte: o povo chora nas portas de suas tendas, e Moisés chora diante do Senhor, sentindo-se incapaz e sobrecarregado. O capítulo não esconde essa dor; ele a expõe com honestidade. A murmuração do povo nasce de um coração insatisfeito, que olha para trás e idealiza aquilo que já foi, como se o passado de escravidão fosse melhor do que a caminhada difícil com Deus. Essa nostalgia ferida é compreensível na experiência humana, mas aqui se transforma em rejeição ao próprio cuidado divino. A dor legítima se mistura com revolta, e isso machuca tanto o relacionamento com Deus quanto com as lideranças. Moisés, por outro lado, aparece vulnerável. Ele não finge força quando não a tem. Sente o peso do povo como se fosse impossível de carregar, a ponto de dizer que preferia morrer a continuar daquele jeito. Nessa confissão extrema, o texto deixa claro que Deus não despreza a angústia profunda de seus servos. Em vez de descartá-lo, o Senhor provê ajuda: reparte o espírito que está sobre Moisés com outros anciãos, para que ele não fique sozinho em sua carga. Há consolo em perceber que Deus enxerga o coração exausto, entende o limite humano e responde com companhia e suporte. O derramamento do Espírito sobre os anciãos mostra que a solução de Deus para o cansaço não é apenas exigir mais força, mas cercar o fraco com gente cheia do seu Espírito. Mesmo onde há disciplina severa por causa da cobiça, o capítulo não termina em abandono, mas na continuidade da caminhada. Isso sugere uma verdade silenciosa: a história do povo de Deus não para nas crises, nem nos pontos de colapso emocional; Deus permanece conduzindo, mesmo quando corrige.

Mind
Mind

Números 11 funciona como uma peça crucial na narrativa do deserto, revelando tensões internas de Israel e aprofundando o entendimento da liderança mosaica. O capítulo se abre com uma queixa generalizada, pouco especificada (v. 1), que contrasta com a queixa específica pela falta de carne (v. 4-6). Isso sugere que a insatisfação do povo vinha se acumulando em múltiplos níveis. O juízo inicial com fogo em Taberá prepara o leitor para encarar a murmuração como questão séria diante do Senhor. A seção sobre o “vulgo” (v. 4) é importante: há ali uma indicação de que elementos externos ou marginais podem ter alimentado um clima de rebelião. Literariamente, a memória dos alimentos do Egito é recitada com detalhes, enquanto o maná é descrito com objetividade quase técnica (v. 7-9). O contraste mostra que a imaginação do povo se apega aos sabores do passado, enquanto a provisão divina presente é tratada com frieza. Isso revela um deslocamento teológico: a confiança em Deus é substituída pela confiança naquilo que se come. A queixa de Moisés (v. 11-15) é carregada de metáforas familiares: ele não é mãe do povo, não é ama, não gerou Israel. Essas imagens reforçam que a verdadeira origem e responsabilidade final pelo povo pertencem a Deus, não ao líder humano. Deus responde de modo estrutural, estabelecendo um conselho de setenta anciãos (v. 16-17), e teológico, repartindo o espírito de Moisés. Essa partilha não indica divisão ontológica do Espírito, mas extensão funcional da autoridade profética e governamental. A breve, mas significativa, profecia dos anciãos (v. 25) e o caso de Eldade e Medade (v. 26-29) mostram que o Espírito é soberano em seu agir. O desejo de Moisés de que todo o povo fosse profeta antecipa temas desenvolvidos na teologia posterior sobre o derramamento do Espírito sobre todos os crentes. Aqui, porém, o foco é a validação de uma liderança ampliada e a crítica a qualquer ciúme institucional. A segunda metade do capítulo enfatiza o juízo sobre a cobiça. Deus promete carne, não como resposta favorável, mas como meio de expor a gravidade do desejo (v. 18-20). A pergunta de Deus a Moisés sobre sua “mão encurtada” (v. 23) reforça a teologia da onipotência e da fidelidade da palavra divina, presente em toda a Torá. O episódio das codornizes, com dados de medida e extensão (v. 31-32), confere realismo à narrativa, enquanto o nome Quibrote-Ataavá fixa a lembrança do evento como advertência para as futuras gerações. Teologicamente, o capítulo une temas de provisão, juízo, liderança, Espírito e memória, compondo uma teologia do deserto onde cada crise serve tanto para disciplinar quanto para formar o povo na dependência de Deus.

Life
Life

Números 11 é extremamente prático porque expõe padrões de comportamento que se repetem em contextos de trabalho, família, igreja e comunidade. O povo, insatisfeito, transforma frustração em queixa coletiva. A reclamação se espalha de tenda em tenda, até se tornar um ambiente tóxico que afeta tudo. Em qualquer grupo humano, quando a rotina é dominada por comparações com o “antigamente” e por queixas constantes sobre liderança e provisão, a coesão começa a se romper. O texto mostra também como a nostalgia pode ser perigosa. Israel lembra do Egito pelos alimentos e não pela escravidão. Em termos práticos, é o retorno mental a situações que, apesar de terem algum benefício aparente, eram destrutivas. Isso se aplica a relacionamentos abusivos, hábitos nocivos, estilos de vida que pareciam “mais fáceis” mas carregavam grandes consequências. Quando a dificuldade atual leva a romantizar o passado destrutivo, há risco de recaída em velhos padrões. Na figura de Moisés, o capítulo aborda o esgotamento de quem assume responsabilidade por muita coisa sem rede de apoio adequada. Ele se sente sozinho, responsável por tudo, e chega ao limite. A resposta de Deus — multiplicar lideranças, repartir o peso, distribuir tarefas — é uma lição direta para qualquer ambiente de liderança: ninguém foi feito para carregar tudo só. A sustentabilidade de um projeto, de um ministério, de uma família ou de um trabalho requer divisão responsável de funções e reconhecimento de limites. A questão da cobiça pela carne é igualmente prática. O desejo por algo em si não é o problema; o perigo é quando esse desejo domina, define o humor, orienta decisões e coloca em xeque até a confiança em Deus. Isso serve de alerta para áreas como finanças, carreira, consumo e status: quando a vida passa a girar em torno de “eu só vou ficar bem se tiver isso”, há sinal de desequilíbrio. O episódio das codornizes também mostra que nem tudo que se consegue é bom. O povo obtém o que queria, mas isso vem acompanhado de consequências duras. Na vida real, é possível alcançar metas, acordos ou conquistas que, na prática, trazem peso, conflitos e frustração. O texto convida a avaliar não apenas se algo é possível de alcançar, mas se é saudável e alinhado com o caráter de Deus e com os valores que se deseja manter. Por fim, a multiplicação de pessoas cheias do Espírito para ajudar Moisés é um modelo prático de como comunidades mais saudáveis funcionam: muita gente envolvida, responsabilidades compartilhadas e menos peso concentrado em uma única pessoa.

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Versículos em Números 11

Números 11:1

" E aconteceu que, queixou-se o povo falando o que era mal aos ouvidos do SENHOR; e ouvindo o SENHOR a sua ira se acendeu; e o fogo do SENHOR ardeu entre eles e consumiu os que estavam na última parte do arraial. "

Números 11:4

" E o vulgo, que estava no meio deles, veio a ter grande desejo; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar, e disseram: Quem nos dará carne a comer? "

Números 11:5

" Lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça; e dos pepinos, e dos melões, e dos porros, e das cebolas, e dos alhos. "

Números 11:5 mostra o povo de Israel sentindo saudade da comida do Egito e esquecendo o sofrimento da escravidão. O versículo revela como, em momentos …

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Números 11:8

" Espalhava-se o povo e o colhia, e em moinhos o moía, ou num gral o pisava, e em panelas o cozia, e dele fazia bolos; e o seu sabor era como o sabor de azeite fresco. "

Números 11:10

" Então Moisés ouviu chorar o povo pelas suas famílias, cada qual à porta da sua tenda; e a ira do Senhor grandemente se acendeu, e pareceu mal aos olhos de Moisés. "

Números 11:11

" E disse Moisés ao Senhor: Por que fizeste mal a teu servo, e por que não achei graça aos teus olhos, visto que puseste sobre mim o cargo de todo este povo? "

Números 11:12

" Concebi eu porventura todo este povo? Dei-o eu à luz? para que me dissesses: leva-o ao teu colo, como a ama leva a criança que mama, à terra que juraste a seus pais? "

Números 11:15

" E se assim fazes comigo, mata-me, peço-te, se tenho achado graça aos teus olhos, e não me deixes ver o meu mal. "

Números 11:15 mostra Moisés exausto, sentindo que não aguenta mais a responsabilidade. Ele fala de forma extrema, pedindo a morte, para mostrar seu desespero. O …

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Números 11:16

" E disse o Senhor a Moisés: Ajunta-me setenta homens dos anciãos de Israel, que sabes serem anciãos do povo e seus oficiais; e os trarás perante a tenda da congregação, e ali estejam contigo. "

Números 11:17

" Então eu descerei e ali falarei contigo, e tirarei do espírito que está sobre ti, e o porei sobre eles; e contigo levarão a carga do povo, para que tu não a leves sozinho. "

Números 11:18

" E dirás ao povo: Santificai-vos para amanhã, e comereis carne; porquanto chorastes aos ouvidos do Senhor, dizendo: Quem nos dará carne a comer? Pois íamos bem no Egito; por isso o Senhor vos dará carne, e comereis; "

Números 11:20

" Mas um mês inteiro, até vos sair pelas narinas, até que vos enfastieis dela; porquanto rejeitastes ao Senhor, que está no meio de vós, e chorastes diante dele, dizendo: Por que saímos do Egito? "

Números 11:21

" E disse Moisés: Seiscentos mil homens de pé é este povo, no meio do qual estou; e tu tens dito: Dar-lhes-ei carne, e comerão um mês inteiro. "

Números 11:22

" Degolar-se-ão para eles ovelhas e vacas que lhes bastem? Ou ajuntar-se-ão para eles todos os peixes do mar, que lhes bastem? "

Números 11:23

" Porém, o Senhor disse a Moisés: Teria sido encurtada a mão do Senhor? Agora verás se a minha palavra se há de cumprir ou não. "

Números 11:24

" E saiu Moisés, e falou as palavras do Senhor ao povo, e ajuntou setenta homens dos anciãos do povo e os pôs ao redor da tenda. "

Números 11:25

" Então o Senhor desceu na nuvem, e lhe falou; e, tirando do espírito, que estava sobre ele, o pôs sobre aqueles setenta anciãos; e aconteceu que, quando o espírito repousou sobre eles, profetizaram; mas depois nunca mais. "

Números 11:26

" Porém no arraial ficaram dois homens; o nome de um era Eldade, e do outro Medade; e repousou sobre eles o espírito (porquanto estavam entre os inscritos, ainda que não saíram à tenda), e profetizavam no arraial. "

Números 11:28

" E Josué, filho de Num, servidor de Moisés, um dos seus jovens escolhidos, respondeu e disse: Moisés, meu senhor, proíbe-lho. "

Números 11:29

" Porém, Moisés lhe disse: Tens tu ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta, e que o Senhor pusesse o seu espírito sobre ele! "

Números 11:31

" Então soprou um vento do Senhor e trouxe codornizes do mar, e as espalhou pelo arraial quase caminho de um dia, de um lado e de outro lado, ao redor do arraial; quase dois côvados sobre a terra. "

Números 11:32

" Então o povo se levantou todo aquele dia e toda aquela noite, e todo o dia seguinte, e colheram as codornizes; o que menos tinha, colhera dez ômeres; e as estenderam para si ao redor do arraial. "

Números 11:33

" Quando a carne estava entre os seus dentes, antes que fosse mastigada, se acendeu a ira do Senhor contra o povo, e feriu o Senhor o povo com uma praga mui grande. "

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