Números 31 - Significado, temas e aplicação

Entenda os temas principais e aplique Números 31 na sua vida hoje

54 versículos | Almeida Corrigida Fiel

Sobre o que é Números 31?

Números 31 narra a guerra de Israel contra os midianitas como ato de juízo divino pelo episódio de Peor. O capítulo descreve a convocação dos soldados, a presença de Finéias com os utensílios sagrados, a destruição dos homens midianitas e de Balaão, bem como a controvérsia sobre os sobreviventes. Em seguida, estabelece-se um rigoroso processo de purificação após a guerra, a contagem detalhada dos despojos e sua divisão justa entre os guerreiros, o restante do povo, os sacerdotes e os levitas. Por fim, os oficiais trazem uma oferta voluntária de ouro em reconhecimento de que nenhum soldado pereceu, deixando um memorial diante do Senhor.

Temas principais em Números 31

Juízo de Deus contra a sedução idólatra de Midiã (versículos 1-8, 15-17)

A guerra não é apresentada como conquista territorial comum, mas como vingança santa contra o povo que, pelo conselho de Balaão, levou Israel à idolatria e imoralidade em Peor. O juízo recai especialmente sobre aqueles que foram instrumento ativo de corrupção espiritual.

Versículos-chave: 2, 3, 16

Santidade e purificação após a guerra (versículos 19-24)

Mesmo em contexto bélico, a santidade de Deus exige purificação de pessoas, roupas e objetos. Matar e tocar mortos trazem impureza ritual, e tudo precisa passar pelo fogo ou pela água da purificação antes de voltar ao arraial.

Versículos-chave: 19, 23

Administração justa dos despojos (versículos 25-31, 36-47)

Deus determina uma divisão equilibrada entre quem foi à batalha e quem ficou, estabelecendo tributos específicos para o sacerdócio e para os levitas. Toda a riqueza conquistada é reconhecida como pertencente, em última instância, ao Senhor.

Versículos-chave: 27, 28, 30

Reconhecimento da proteção divina (versículos 48-54)

Os oficiais constatam que nenhum soldado morreu e, movidos por gratidão e temor, oferecem voluntariamente objetos de ouro para expiação e memorial, reconhecendo que a preservação da vida veio de Deus.

Versículos-chave: 49, 50, 54

Responsabilidade espiritual dos líderes (versículos 6, 13-14, 21, 26, 31, 48-52)

Moisés, Eleazar e os oficiais assumem papéis diferentes, mas complementares: liderança militar, orientação sacerdotal, fiscalização e obediência rigorosa às ordens divinas. A liderança é vista como serviço responsável diante de Deus.

Versículos-chave: 6, 21, 31

Contexto histórico e literario

Números 31 está localizado no final da jornada de Israel pelo deserto, nas campinas de Moabe, perto do Jordão, diante de Jericó (v.12). Pouco antes, em Números 25, Israel havia sido seduzido pelas mulheres midianitas e moabitas à idolatria e à imoralidade no episódio de Peor, o que resultou em uma praga devastadora entre o povo. Balaão, personagem já apresentado em Números 22–24 como profeta contratado para amaldiçoar Israel, aparece aqui novamente (v.8, 16) como conselheiro que indicou aos midianitas o uso da sedução para levar Israel a pecar. Midiã não é uma nação cananeia fixa, mas um conjunto de clãs seminômades espalhados pelo deserto e região de Moabe; o conflito não é uma campanha de conquista de território, e sim uma ação punitiva específica contra grupos midianitas envolvidos diretamente na corrupção de Israel. A presença de Finéias, filho do sumo sacerdote Eleazar, levando os utensílios sagrados e as trombetas (v.6), vincula a guerra ao culto e à intercessão, mostrando que se trata de guerra declarada por Deus, não apenas por interesse político. As leis de purificação (v.19-24) retomam instruções anteriores do livro, aplicando-as agora ao retorno de uma campanha militar. A contagem minuciosa dos despojos e a forma de divisão (v.26-47) refletem uma sociedade organizada por tribos, com clero (sacerdotes e levitas) sustentado por ofertas vinculadas ao tabernáculo.

Estrutura de Números 31

O capítulo se organiza de forma ordenada e quase administrativa, alternando narrativa e instruções:

  1. Ordem divina de vingança contra Midiã (v.1-2): Deus fala a Moisés, define a guerra como vingança e anuncia que, depois disso, Moisés será reunido a seu povo.
  2. Mobilização e envio para a guerra (v.3-6): Moisés convoca mil homens de cada tribo, totalizando doze mil, e envia Finéias com vasos do santuário e trombetas.
  3. Relato resumido da batalha e da destruição de Midiã (v.7-12): Morte de todos os homens midianitas, dos cinco reis e de Balaão; captura de mulheres, crianças, animais e bens; retorno com cativos e despojos ao arraial.
  4. Confronto de Moisés com os oficiais e nova ordem de execução (v.13-18): Moisés se indigna por terem poupado as mulheres, relembra o pecado de Peor e ordena a morte de meninos e de mulheres sexualmente ativas, preservando apenas as meninas virgens.
  5. Instruções de purificação pós-guerra (v.19-24): Período de sete dias fora do arraial, uso de água da purificação, passagem pelo fogo ou pela água de roupas, peles, utensílios e metais.
  6. Ordem para contagem e divisão dos despojos (v.25-31): Deus manda contabilizar e dividir em duas partes: metade para os soldados, metade para toda a congregação; estabelece-se um tributo específico para o Senhor a partir de cada metade.
  7. Listagem numérica detalhada da presa (v.32-40): Ovelhas, bois, jumentos e mulheres jovens são contados; registra-se o tributo ao Senhor em cada categoria.
  8. Entrega do tributo aos sacerdotes e levitas (v.41-47): A porção de Eleazar e dos levitas é descrita, confirmando a obediência às instruções divinas.
  9. Oferta voluntária dos oficiais e memorial de ouro (v.48-54): Os oficiais relatam que nenhum homem morreu na guerra, oferecem ouro como expiação e o ouro é levado à tenda da congregação como memorial diante do Senhor.

Significado teológico

Números 31 traz questões teológicas profundas e difíceis, especialmente em relação à guerra, juízo divino e santidade.

  1. Deus como juiz santo: A guerra contra Midiã é apresentada como vingança do Senhor (v.2-3), não como iniciativa arbitrária de Israel. O foco recai sobre o pecado de sedução espiritual em Peor (v.16). O juízo é duro, mas coerente com a gravidade de afastar um povo inteiro de Deus para idolatria.

  2. Santidade que alcança todas as esferas: A santidade não é restrita ao culto. A realidade da morte na guerra gera impureza ritual (v.19), exigindo purificação de pessoas, roupas e utensílios. Até os despojos devem ser purificados (v.20-23). Em perspectiva bíblica mais ampla, isso mostra que a santidade de Deus abrange corpo, comunidade, objetos e processos sociais.

  3. Guerra como instrumento excepcional de juízo: O texto mostra uma situação específica, dentro de um momento particular da história da redenção: o povo da aliança, sob direção direta de Deus, executando juízo sobre uma nação que o havia atacado espiritualmente. Não se trata de modelo generalizável para qualquer conflito humano, mas de evento singelo no contexto do Antigo Testamento.

  4. Deus como dono de tudo: Os despojos, embora obtidos pela força humana, são tratados como pertencentes a Deus em primeiro lugar. A divisão e o tributo (v.27-30) declaram que a vitória vem do Senhor e que os recursos conquistados devem servir ao culto e à manutenção do tabernáculo.

  5. Responsabilidade coletiva e expiação: Os oficiais reconhecem que, apesar de terem voltado sem baixas (v.49), ainda precisam de expiação (v.50). A oferta de ouro é um reconhecimento de que a preservação da vida depende da misericórdia de Deus, e que até em vitória há necessidade de purificação e reconciliação.

  6. Liderança sacerdotal e mediação: Eleazar aparece não apenas como figura ritual, mas também como legislador que aplica a lei ao contexto da guerra (v.21). O sacerdócio é mediador entre o povo e Deus, garantindo que o retorno da batalha seja integrado à vida santa da comunidade.

Este capítulo, lido à luz de toda a Escritura, mostra a seriedade do pecado, a radicalidade da santidade divina e a necessidade constante de mediação e expiação, elementos que apontam para a obra redentora definitiva em Cristo.

Aplicação restauradora e de saúde mental

Números 31 contém cenas de violência que podem despertar desconforto, tristeza ou confusão. Do ponto de vista de cuidado emocional, este capítulo revela a tensão entre juízo e proteção: o povo é preservado, mas por meio de medidas duras e difíceis de assimilar. Em termos terapêuticos, o texto evidencia que a Bíblia não ignora a existência de guerra, trauma e perdas, e que até experiências de vitória podem exigir processos de purificação, luto e reorganização. A oferta final dos oficiais, reconhecendo que ninguém morreu e ainda assim buscando expiação, revela um movimento de consciência e responsabilidade: mesmo quando externamente tudo “deu certo”, existe a necessidade de processar o que foi vivido, reconhecer a fragilidade da vida e colocá-la diante de Deus. O capítulo também pode servir como ponto de partida para refletir, de forma cuidadosa, sobre a dor causada pela violência, a dificuldade de lidar com passagens duras e a importância de buscar segurança, acolhimento e clareza quando se entra em contato com textos bíblicos que evocam sofrimento.

warning Importante: maus usos comuns

Este capítulo descreve guerra, matança em massa e morte de crianças e mulheres (v.7-8, 17), bem como a tomada de pessoas como cativas (v.9, 18, 35). Para pessoas com histórico de trauma relacionado à violência, abuso, guerra ou perdas familiares, a leitura pode despertar lembranças dolorosas, ansiedade ou sentimentos intensos de injustiça e revolta. A linguagem de juízo e vingança divina também pode ser muito perturbadora para quem já sofreu abusos espirituais ou foi exposto a interpretações rígidas. Em contextos de acompanhamento pastoral ou psicológico, é importante que esse texto seja trabalhado com muito cuidado, validando reações emocionais, evitando aplicações diretas à realidade atual e, quando necessário, intercalando a leitura com passagens que ressaltam cuidado, consolo, justiça restauradora e o chamado ao amor ao próximo.

Aplicação prática para hoje

Números 31, apesar de descrever um contexto muito distante, traz princípios que podem ser traduzidos para a vida prática.

  1. Levar a sério o que leva ao pecado: O foco do juízo está na sedução espiritual de Peor (v.16). Em termos de vida diária, isso aponta para a necessidade de tratar com firmeza aquilo que, persistentemente, afasta de Deus e destrói relacionamentos, não com violência, mas com decisões claras, limites saudáveis e abandono de padrões destrutivos.

  2. Processar experiências difíceis: Após a guerra, o povo não simplesmente volta ao normal; há um período de sete dias de afastamento e purificação (v.19-24). Isso inspira a importância de dar tempo, cuidado e ritos (mesmo que simbólicos ou emocionais) para processar experiências intensas, perdas, conflitos ou grandes mudanças.

  3. Reconhecer Deus como fonte de vitória e provisão: A divisão dos despojos com tributo ao Senhor (v.28-30) e a oferta voluntária dos oficiais (v.50-54) reforçam o princípio de gratidão e devolução. Na prática, isso pode significar consagrar a Deus resultados profissionais, conquistas materiais e oportunidades, usando-os de maneira responsável, generosa e alinhada com valores do Reino.

  4. Valorizar a responsabilidade na liderança: Moisés, Eleazar e os oficiais são chamados a agir com obediência, justiça e consciência espiritual. Liderança familiar, profissional ou comunitária também pede esse senso de responsabilidade diante de Deus e das pessoas, evitando decisões impulsivas, buscando orientação e prestação de contas.

  5. Reconhecer que até a vitória exige cuidado interior: Os soldados retornam ilesos, mas sentem a necessidade de expiação (v.50). Sucessos e conquistas podem esconder desgastes, culpas, medos e tensões que precisam ser tratados. Cuidar da vida interior, mesmo quando externamente tudo parece bem, é um princípio importante para uma vida equilibrada.

Perguntas frequentes

Por que Deus mandou Israel guerrear contra os midianitas em Números 31?

O próprio texto liga a guerra ao episódio de Peor (Números 25), quando Israel foi levado à idolatria e imoralidade pelas mulheres midianitas e moabitas. Em Números 31:2-3, Deus ordena a Moisés que faça a vingança contra os midianitas, e em 31:16 fica claro que, por conselho de Balaão, eles foram instrumento de tropeço espiritual para Israel. Assim, a guerra aparece como juízo específico contra um povo que buscou destruir a fidelidade de Israel ao Senhor, num momento particular da história da aliança.

Quem era Balaão e por que sua morte é mencionada aqui?

Balaão aparece em Números 22–24 como profeta solicitado por Balaque, rei de Moabe, para amaldiçoar Israel. Deus não permitiu que ele amaldiçoasse o povo, e Balaão chegou a pronunciar bênçãos. Porém, Números 31:8 e 31:16 revelam um outro lado: ele aconselhou os midianitas a usar a sedução e a idolatria para levar Israel a pecar. Por isso, sua morte à espada é mencionada junto com a dos reis midianitas, como parte do juízo divino sobre quem se opôs aos propósitos de Deus.

O que significam as regras de purificação depois da guerra?

As regras de Números 31:19-24 aplicam princípios já dados anteriormente em Números sobre impureza causada por contato com mortos. Quem matou ou tocou em cadáveres ficava ritualmente impuro e precisava de sete dias, uso da água da purificação e, em alguns casos, passar objetos pelo fogo. Isso não é apenas questão de higiene, mas símbolo da distância entre a morte e a santidade de Deus. O processo ensina que até atividades consideradas necessárias, como a defesa do povo, não anulam a necessidade de purificação e de reaproximação do Deus santo.

Por que os despojos da guerra foram divididos em duas metades?

Deus ordena que a presa seja dividida entre os que foram à guerra e toda a congregação (v.27). Isso reconhece o esforço direto dos soldados, mas também o fato de que eles lutaram em nome de todo o povo, que se beneficiaria da vitória. A partir de cada metade é separado um tributo para o Senhor: da parte dos guerreiros, um de cada quinhentos (v.28-29), entregue a Eleazar; da parte da congregação, um de cada cinquenta (v.30), entregue aos levitas. Essa divisão reforça justiça, solidariedade interna e a consciência de que tudo vem de Deus.

Qual o sentido da oferta de ouro que os oficiais trazem no final do capítulo?

Depois de contarem os soldados, os oficiais percebem que não faltou ninguém, ou seja, não houve baixas (v.49). Em resposta, eles trazem uma oferta voluntária de objetos de ouro para o Senhor, com o propósito de fazer expiação por suas almas (v.50). Isso expressa gratidão pela preservação da vida, reconhecimento de que a vitória veio de Deus e consciência de culpa ou impureza associada à guerra. O ouro é levado à tenda da congregação como memorial (v.54), para lembrar às gerações futuras da intervenção e misericórdia divinas.

Perspectivas dos nossos guias espirituais

Heart
Heart

Números 31 é um capítulo pesado, com descrições de guerra, morte e juízo que podem gerar angústia ao ser lido. Esse desconforto é compreensível. As cenas de violência e as ordens duras mexem com a sensibilidade e levantam muitas emoções. O texto mostra um tempo em que o povo vivia conflitos visíveis, externos, mas também travava lutas internas de fidelidade e infidelidade a Deus. Nesse cenário duro, aparece um detalhe que carrega consolo: ao final, os oficiais contam os homens de guerra e percebem que não falta nenhum (v.49). Em meio a um ambiente marcado por morte, todas as vidas dos soldados foram preservadas. Eles reconhecem isso e trazem uma oferta, não por obrigação, mas por gratidão e consciência de que foram sustentados. Há, nesse gesto, um eco de cuidado: Deus não é indiferente à vida, mesmo quando o contexto é de juízo. O capítulo também revela que, depois de experiências intensas, o povo precisa de um tempo de afastamento e purificação (v.19-24). Isso se parece com momentos em que corações machucados precisam de espaço, silêncio, cuidado e processos para lidar com o que viveram. A Escritura não romantiza as batalhas: ela mostra que, mesmo quando há vitória, há marcas, memórias e a necessidade de tratamento. Ao olhar para este texto, surgem muitas perguntas que nem sempre encontram respostas simples. Ainda assim, permanece a certeza de que Deus leva a sério tanto o mal que destrói quanto a vida que Ele preserva. Em meio à dureza, Ele continua atento às pessoas, às perdas, às feridas e aos passos de quem caminha. A história termina com um memorial de ouro na tenda (v.54), um sinal visível para lembrar o povo do cuidado e da intervenção divina. Em muitos caminhos difíceis, memórias assim — de preservação, socorro, sustento — se tornam pontos de apoio para corações cansados.

Mind
Mind

Do ponto de vista exegético, Números 31 funciona como fechamento de um ciclo iniciado em Números 25, o episódio de Peor. O próprio texto fornece a chave interpretativa: as mulheres midianitas, por conselho de Balaão, levaram Israel a transgredir contra o Senhor (v.16). Assim, a guerra contra Midiã é apresentada como juízo divino, não expansão territorial. A presença de Finéias, figura ligada ao zelo pela santidade em Números 25, agora à frente da guerra com os vasos do santuário e trombetas (v.6), reforça o caráter religioso do conflito. A lista dos reis mortos (v.8) e a menção de Balaão estabelecem continuidade literária com os capítulos anteriores. Balaão, que em Números 22–24 é impedido de amaldiçoar Israel, aparece aqui como conselheiro por trás da estratégia de corrupção espiritual. Sua morte sela o veredito divino contra um personagem ambíguo. As instruções de purificação (v.19-24) retomam temas de Números 19, aplicando a água da purificação e o contato com mortos ao contexto militar. A distinção entre objetos que passam pelo fogo e os que passam apenas pela água mostra sensibilidade prática e ritual, indicando que a santidade permeia até o manejo de bens materiais. O foco não é higiene apenas, mas a separação simbólica entre morte e vida diante de Deus. A divisão dos despojos (v.25-47) é notavelmente detalhada. A ordem é: contagem, divisão em duas metades (soldados e congregação), tributo da metade dos guerreiros (um de cada 500 para o sacerdote) e tributo da metade da congregação (um de cada 50 para os levitas). Essa diferença nas proporções provavelmente reflete funções distintas: o sacerdote representa o culto central no tabernáculo; os levitas cuidam de sua guarda e transporte. A aritmética presente reforça a veracidade administrativa do relato e mostra um sistema de sustento do culto vinculado a acontecimentos concretos da vida nacional. Teologicamente, o capítulo apresenta Deus como juiz santo, mas também como aquele que protege seu povo — nenhum soldado morre (v.49). Os oficiais, ao trazerem sua oferta de ouro para expiação (v.50), reconhecem que participação em guerra, ainda que sob ordens divinas, exige purificação e reconciliação. O ouro, levado à tenda por Moisés e Eleazar como memorial (v.54), transforma a experiência bélica em marca litúrgica e didática. Em síntese, o capítulo integra narrativa histórica, lei ritual e teologia da santidade em um bloco coeso, porém complexo, que exige leitura atenta dentro do conjunto de Números e da teologia bíblica como um todo.

Life
Life

Lido com atenção, Números 31 traz princípios práticos relevantes para a vida cotidiana, mesmo estando em um contexto distante e duro de guerra. A primeira lição é a seriedade com que o texto trata aquilo que desvia o povo de Deus. Midiã não é apenas um inimigo político; foi instrumento de sedução em Peor (v.16). Em termos de vida diária, isso lembra que influências que corroem caráter, fé e relacionamentos, quando toleradas, trazem consequências. Nem tudo que parece vantajoso, agradável ou inofensivo é neutro. Há situações que pedem decisão firme, corte de ciclos e redefinição de limites para preservar o que é essencial. Outra lição é a gestão responsável de recursos. Quando os despojos da guerra são contados e divididos (v.26-31, 36-47), há critério, transparência e reconhecimento de que Deus tem prioridade. Nada fica sem prestação de contas. É um contraste com atitudes de apropriação individualista: cada vitória é tratada como algo que deve beneficiar o coletivo e sustentar o serviço a Deus. Em termos práticos, isso toca finanças, tempo, talentos e posições: o que se conquista não é apenas “meu”, mas deve ser administrado com senso de missão. Há ainda um princípio de cuidado com quem está na linha de frente e com quem fica atrás. Os soldados recebem metade da presa, mas a outra metade vai para toda a congregação (v.27). Essa lógica de partilha valoriza tanto quem enfrenta diretamente os desafios quanto quem apoia de outras formas. Em famílias, igrejas, equipes de trabalho, isso inspira reconhecimento mútuo: nem todos têm a mesma função, mas todos participam dos frutos. O comportamento dos oficiais no final do capítulo também é instrutivo. Eles percebem que voltaram sem perder ninguém (v.49) e não tratam isso como algo automático. Ao contrário, demonstram gratidão e senso de responsabilidade, trazendo uma oferta para expiação (v.50). Em aplicações contemporâneas, isso se aproxima da atitude de avaliar grandes projetos, crises vencidas ou períodos intensos, reconhecer que a preservação e os resultados não dependem apenas de esforço humano, e responder com gratidão concreta, ajustes de rota e compromisso renovado. Vitória, na perspectiva bíblica, não é pretexto para orgulho, mas oportunidade para rever prioridades à luz de Deus.

Soul
Soul

Números 31 lança luz sobre dimensões profundas da relação entre Deus, pecado, juízo e preservação da vida. No centro do capítulo está a lembrança de Peor (v.16), onde o povo se desviou para a idolatria. A guerra contra Midiã, com toda sua dureza, aparece como resposta de um Deus que leva a sério o que destrói a comunhão com Ele. Em termos espirituais, isso revela que a infidelidade a Deus não é algo superficial: é ruptura de aliança, adoecimento espiritual que contamina toda a comunidade. Ao mesmo tempo, há um traço de cuidado na narrativa: os homens de guerra retornam sem perdas (v.49). Em meio a juízo, há preservação. Os oficiais, conscientes disso, trazem ouro “para fazer expiação pelas nossas almas perante o Senhor” (v.50). Eles entenderam que, mesmo poupados, permanecem dependentes de expiação. Essa consciência é central na espiritualidade bíblica: ninguém se apresenta diante de Deus apenas com méritos; todos precisam de reconciliação. As leis de purificação (v.19-24) lembram que o contato com a morte marca as pessoas e as coisas, pedindo um processo de retorno à santidade. Espírito e corpo, culto e cotidiano, tudo é atravessado por essa necessidade de ser purificado. Em perspectiva mais ampla da revelação bíblica, isso aponta para a realidade de que a humanidade inteira vive em um mundo marcado pela morte e pelo pecado, e necessita de um caminho de purificação mais profundo e definitivo. O memorial de ouro levado à tenda (v.54) encerra o capítulo com um símbolo de memória espiritual. O povo carrega para o lugar da presença de Deus a lembrança de uma guerra, de juízo e de proteção. A história não é apagada; é colocada diante de Deus. No horizonte da fé, essa dinâmica encontra cumprimento pleno em Cristo, onde juízo e misericórdia se encontram na cruz. O Deus que julga o pecado é o mesmo que oferece expiação perfeita. Assim, mesmo textos difíceis como este contribuem para formar uma consciência espiritual séria sobre a gravidade do mal e, ao mesmo tempo, uma esperança profunda na graça que preserva, purifica e reconcilia.

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Versículos em Números 31

Números 31:3

" Falou, pois, Moisés ao povo, dizendo: Armem-se alguns de vós para a guerra, e saiam contra os midianitas, para fazerem a vingança do Senhor contra eles. "

Números 31:6

" E Moisés os mandou à guerra, mil de cada tribo, e com eles Finéias, filho de Eleazar, o sacerdote, com os vasos do santuário, e com as trombetas do alarido na sua mão. "

Números 31:8

" Mataram também, além dos que já haviam sido mortos, os reis dos midianitas: a Evi, e a Requém, e a Zur, e a Hur, e a Reba, cinco reis dos midianitas; também a Balaão, filho de Beor, mataram à espada. "

Números 31:9

" Porém, os filhos de Israel levaram presas as mulheres dos midianitas e as suas crianças; também levaram todos os seus animais e todo o seu gado, e todos os seus bens. "

Números 31:12

" E trouxeram a Moisés e a Eleazar, o sacerdote, e à congregação dos filhos de Israel, os cativos, e a presa, e o despojo, para o arraial, nas campinas de Moabe, que estão junto ao Jordão, na altura de Jericó. "

Números 31:13

" Porém Moisés e Eleazar, o sacerdote, e todos os príncipes da congregação, saíram a recebê-los fora do arraial. "

Números 31:14

" E indignou-se Moisés grandemente contra os oficiais do exército, capitães dos milhares e capitães das centenas, que vinham do serviço da guerra. "

Números 31:16

" Eis que estas foram as que, por conselho de Balaão, deram ocasião aos filhos de Israel de transgredir contra o Senhor no caso de Peor; por isso houve aquela praga entre a congregação do Senhor. "

Números 31:17

" Agora, pois, matai todo o homem entre as crianças, e matai toda a mulher que conheceu algum homem, deitando-se com ele. "

Números 31:19

" E alojai-vos sete dias fora do arraial; qualquer que tiver matado alguma pessoa, e qualquer que tiver tocado algum morto, ao terceiro dia, e ao sétimo dia vos purificareis, a vós e a vossos cativos. "

Números 31:20

" Também purificareis toda a roupa, e toda a obra de peles, e toda a obra de pêlos de cabras, e todo o utensílio de madeira. "

Números 31:21

" E disse Eleazar, o sacerdote, aos homens da guerra, que foram à peleja: Este é o estatuto da lei que o Senhor ordenou a Moisés. "

Números 31:23

" Toda a coisa que pode resistir ao fogo, fareis passar pelo fogo, para que fique limpa, todavia se purificará com a água da purificação; mas tudo que não pode resistir ao fogo, fareis passar pela água. "

Números 31:26

" Faze a soma da presa que foi tomada, de homens e de animais, tu e Eleazar, o sacerdote, e os cabeças das casas dos pais da congregação, "

Números 31:27

" E divide a presa em duas metades, entre os que se armaram para a peleja, e saíram à guerra, e toda a congregação. "

Números 31:28

" Então para o Senhor tomarás o tributo dos homens de guerra, que saíram a esta peleja, de cada quinhentos uma alma, dos homens, e dos bois, e dos jumentos e das ovelhas. "

Números 31:30

" Mas, da metade dos filhos de Israel, tomarás um de cada cinqüenta, um dos homens, dos bois, dos jumentos, e das ovelhas, e de todos os animais; e os darás aos levitas que têm cuidado da guarda do tabernáculo do Senhor. "

Números 31:36

" E a metade, que era a porção dos que saíram à guerra, foi em número de trezentas e trinta e sete mil e quinhentas ovelhas. "

Números 31:47

" Desta metade dos filhos de Israel, Moisés tomou um de cada cinqüenta, de homens e de animais, e os deu aos levitas, que tinham cuidado da guarda do tabernáculo do Senhor, como o Senhor ordenara a Moisés. "

Números 31:48

" Então chegaram-se a Moisés os oficiais que estavam sobre os milhares do exército, os chefes de mil e os chefes de cem; "

Números 31:49

" E disseram a Moisés: Teus servos tomaram a soma dos homens de guerra que estiveram sob as nossas ordens; e não falta nenhum de nós. "

Números 31:50

" Por isso trouxemos uma oferta ao Senhor, cada um o que achou, objetos de ouro, cadeias, ou manilhas, anéis, arrecadas, e colares, para fazer expiação pelas nossas almas perante o Senhor. "

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