Números 24:1
" Vendo Balaão que bem parecia aos olhos do SENHOR que abençoasse a Israel, não se foi esta vez como antes ao encontro dos encantamentos; mas voltou o seu rosto para o deserto. "
Entenda os temas principais e aplique Números 24 na sua vida hoje
25 versículos | Almeida Corrigida Fiel
Mesmo que Balaque insista em contratar Balaão para amaldiçoar Israel, Deus transforma as maldições desejadas em bênçãos pronunciadas. Balaão reconhece que não pode falar além do que o Senhor ordena, mostrando como a vontade divina se impõe às ambições políticas e financeiras humanas.
Quando Balaão vê Israel acampado, o Espírito de Deus vem sobre ele e ele descreve a beleza das tendas e moradas de Israel, comparando-as a jardins bem regados, árvores plantadas pelo Senhor e cedros junto às águas. A imagem é de um povo cuidado, frutífero e protegido por Deus.
Balaão anuncia que uma estrela surgirá de Jacó e um cetro se levantará de Israel, trazendo juízo sobre os inimigos e estabelecendo domínio. Essa linguagem aponta para um futuro rei ideal, cumprido plenamente no Messias, que exerce autoridade justa e definitiva.
Diversos povos são mencionados nos oráculos finais: Moabe, Edom, Seir, Amaleque, os quenitas, Assur e Quitim. Todos, de alguma forma, enfrentam o juízo de Deus, seja por inimizar-se com Israel, seja por sua soberba. O texto ressalta que nenhum poder humano é definitivo diante do plano divino.
Israel é descrito como forte como um boi selvagem, vitorioso sobre as nações inimigas e capaz de proezas. Sua força não vem de si, mas do Deus que o tirou do Egito. Assim, o povo é apresentado como instrumento escolhido para manifestar o poder e os propósitos de Deus na história.
Números 24 continua a narrativa dos encontros entre Balaque, rei de Moabe, e Balaão, um adivinho/profeta renomado na região. Balaque teme Israel, que está acampado nas campinas de Moabe, depois de ter vencido outros povos no caminho rumo à terra prometida. Nos capítulos anteriores (Nm 22–23), Balaque contrata Balaão com presentes e promessas de honra para amaldiçoar Israel, na esperança de enfraquecer o povo pela via espiritual antes de qualquer confronto militar.
Balaão, figura complexa e ambígua, é alguém que tem algum conhecimento do Deus verdadeiro, mas também está envolvido com práticas de adivinhação e encantamentos. Em Números 24, ele decide não recorrer aos encantamentos como antes (24.1), o que mostra uma mudança de postura diante da clara direção de Deus. O texto se passa ainda nas fronteiras da terra prometida, pouco antes da entrada em Canaã, num momento em que Israel já está numeroso, organizado por tribos e com um histórico recente de vitórias militares sobre povos vizinhos.
Os povos mencionados nas profecias finais (Moabe, Edom, Seir, Amaleque, os quenitas, Assur e Quitim) representam diferentes potências e clãs da região do Oriente Próximo antigo. Muitos deles, ao longo da história bíblica, serão opositores de Israel. O anúncio de que seriam dominados ou destruídos reflete tanto conflitos imediatos quanto uma visão profética de longo alcance, apontando para a ação de Deus ao longo das gerações.
O capítulo pode ser dividido em quatro grandes movimentos literários, marcados pela expressão recorrente “proferiu a sua parábola” (ou “oráculo”):
Terceiro oráculo de Balaão: a beleza e a força de Israel (24.1-9)
Conflito entre Balaque e Balaão (24.10-14)
Quarto oráculo: a estrela de Jacó e o cetro de Israel (24.15-19)
Oráculos sobre outras nações (24.20-24)
O uso de linguagem poética, metáforas naturais (rios, jardins, cedros, leão, estrela, cetro) e fórmulas introdutórias solenes confere ao capítulo um tom de revelação profética solene e de longo alcance.
Números 24 enfatiza a soberania de Deus sobre as nações e sobre a fala de seus mensageiros. Balaão, ainda que seja um profeta de fora de Israel e ligado a práticas de adivinhação, é dominado pelo Espírito de Deus e se torna instrumento para abençoar o povo que Balaque desejava amaldiçoar. Isso reforça a verdade de que o plano de Deus não depende da fidelidade ou da pureza de instrumentos humanos, mas do próprio propósito divino.
O capítulo também apresenta Israel como povo escolhido, protegido e abençoado. As imagens de águas abundantes, jardins, árvores plantadas pelo Senhor e força de um boi selvagem comunicam a ideia de que Deus garante a vida, a fecundidade e a proteção do seu povo. A promessa de que serão benditos os que abençoarem Israel e malditos os que o amaldiçoarem ecoa a aliança feita com Abraão, mostrando a continuidade da fidelidade de Deus às suas promessas.
A profecia da “estrela” que procede de Jacó e do “cetro” que se levanta de Israel é uma das declarações mais significativas do capítulo. Ela aponta para um rei vindouro, cujo reinado se manifesta em justiça e juízo contra os inimigos de Deus. Ao longo da tradição bíblica, essa imagem foi entendida em chave messiânica, convergindo para a figura de um rei ideal que realiza o domínio definitivo de Deus. Assim, Números 24 conecta a história imediata de Israel com a esperança escatológica de um reinado pleno e justo.
Por fim, o juízo anunciado sobre diversas nações demonstra que Deus governa sobre todo o cenário internacional, não apenas sobre Israel. Reinos que parecem fortes e estáveis são apresentados como passageiros diante da ação do Altíssimo. A teologia do capítulo sustenta que a verdadeira segurança não está em poder político ou militar, mas em estar alinhado com o propósito de Deus.
Este capítulo pode servir como fonte de conforto para quem enfrenta situações em que se sente vulnerável, atacado ou injustamente visado. Israel está cercado por um rei que deseja amaldiçoá-lo, mas Deus transforma a intenção maldosa em bênção explícita. A narrativa comunica que, mesmo quando forças externas parecem organizadas contra alguém, Deus continua soberano e pode reverter o mal desejado em proteção e cuidado.
A imagem das tendas de Israel como jardins à beira de rios e árvores fortes plantadas pelo Senhor traz uma sensação de estabilidade, nutrição e beleza em meio ao deserto. Para quem se sente ressecado emocionalmente ou espiritualmente, essa linguagem pode alimentar a esperança de que Deus é capaz de trazer vida onde parece haver apenas aridez.
Além disso, a limitação de Balaão pela palavra de Deus aponta para um limite também sobre aquilo que pessoas podem fazer ou dizer contra outros. Nem todas as intenções hostis se cumprem; há um Deus que coloca fronteiras e que tem a última palavra. Isso pode aliviar a ansiedade de quem vive sob medo do que outros possam decidir ou tramar.
A perspectiva de um futuro rei justo, simbolizado pela estrela e pelo cetro, ajuda a ancorar a esperança para além das circunstâncias atuais. A consciência de que a história caminha para um desfecho sob o governo de Deus pode reduzir o sentimento de desamparo e de caos, oferecendo um sentido mais amplo para o sofrimento presente.
Algumas leituras deste capítulo podem gerar interpretações delicadas ou potencialmente prejudiciais para pessoas vulneráveis. A forte linguagem de juízo e destruição de nações pode ser mal utilizada para justificar hostilidade contra grupos específicos, etnias ou nações contemporâneas, o que contraria o caráter redentor e misericordioso de Deus revelado de forma mais plena na totalidade das Escrituras.
A bênção sobre Israel e a maldição sobre quem o amaldiçoa, se interpretadas de forma simplista, podem alimentar uma visão de superioridade espiritual ou étnica, ou uma expectativa de que Deus sempre eliminará qualquer tipo de oposição de forma imediata. Para pessoas com tendência à rigidez, maniqueísmo ou desejo de vingança, é importante lembrar que o texto fala de um contexto histórico e de um papel específico de Israel na história da redenção, não de licença para perseguição.
Também é possível que pessoas ansiosas interpretem as profecias de destruição e cativeiro como uma ameaça pessoal constante, desenvolvendo medo exacerbado do futuro ou de juízos iminentes. Em contextos de sofrimento emocional, convém enfatizar que o centro do capítulo é a proteção de Deus sobre o seu povo e a certeza de que a história está nas mãos do Senhor, não uma convocação para viver em terror.
Por fim, a figura de Balaão, que apesar de profetizar corretamente é apresentada em outros textos bíblicos como exemplo negativo, pode confundir quem busca modelos espirituais. É necessário cuidado para não idealizar qualquer líder religioso apenas por ter discursos aparentemente corretos, lembrando que caráter e obediência contínua importam tanto quanto palavras.
Números 24 inspira algumas aplicações práticas para a vida cotidiana. A primeira é a confiança na soberania de Deus em meio a ataques e injustiças. Assim como Balaque tentou repetidas vezes amaldiçoar Israel, pessoas podem enfrentar críticas, calúnias ou oposição injusta. O texto ensina que a última palavra pertence a Deus e que ninguém consegue ultrapassar os limites que Ele estabelece.
Outra aplicação é a integridade na fala. Balaão, mesmo com motivações ambíguas, declara que não pode ir além da ordem do Senhor, ainda que receba promessas de grande honra e riqueza. Isso aponta para a importância de manter a fidelidade à verdade e aos princípios divinos, mesmo quando há pressão ou sedução para distorcê-los em troca de vantagens.
As imagens de Israel como jardins e árvores bem plantadas sugerem a relevância de buscar raízes profundas em Deus para uma vida frutífera. Em tempos de seca emocional, espiritual ou relacional, cultivar comunhão com Deus, praticar disciplinas espirituais e permanecer na comunidade de fé favorece essa “irrigação” interior que sustenta a vida.
O anúncio da estrela e do cetro convida a reconhecer que a verdadeira autoridade e liderança legítima vêm de Deus. Em um mundo onde muitos disputam poder, o texto encoraja a avaliar lideranças e decisões não pela força aparente, mas pelo alinhamento com a justiça, a verdade e o propósito divino. Na prática, isso significa optar por caminhos que honrem a Deus, mesmo quando parecem menos vantajosos no curto prazo.
Por fim, o juízo sobre as nações lembra que nenhum poder humano é permanente. Essa consciência ajuda a relativizar medos exagerados diante de estruturas injustas e também impede que o coração se apegue a posições de poder, status ou segurança terrena como se fossem definitivos.
Em Números 24.1, é dito que Balaão percebeu que era agradável ao Senhor abençoar Israel. Ele entende com mais clareza que Deus já decidiu o destino do povo e que seus métodos anteriores de adivinhação e encantamentos não alteram a vontade divina. Em vez de procurar sinais por práticas místicas, Balaão simplesmente volta o rosto para o deserto, contempla Israel e o Espírito de Deus vem sobre ele. Isso destaca que a verdadeira revelação vem de Deus, não de técnicas humanas.
As expressões “Quão formosas são as tuas tendas, ó Jacó, as tuas moradas, ó Israel” (24.5) e as comparações com ribeiros, jardins à beira de rios e árvores plantadas pelo Senhor (24.6) comunicam a ideia de beleza, ordem, fertilidade e proteção. Em contraste com o ambiente árido do deserto, Israel é retratado como um oásis de vida, resultado do cuidado de Deus. Essas imagens reforçam a identidade de Israel como povo abençoado e guardado pelo Senhor, mesmo em contexto hostil.
A linguagem da estrela que procede de Jacó e do cetro que se levanta de Israel aponta para um rei futuro que exercerá autoridade e trará juízo sobre os inimigos. Em primeiro plano, pode aludir à dinastia real em Israel, especialmente a Davi e seus sucessores, que conquistariam territórios vizinhos. Em uma leitura mais ampla, ao longo da tradição bíblica e cristã, esse texto é entendido como profecia messiânica, apontando para o Messias, o Rei ideal que realiza plenamente o governo de Deus.
Os oráculos contra Moabe, Edom, Amaleque, os quenitas, Assur e Quitim (24.17-24) devem ser lidos dentro do contexto do Antigo Oriente Próximo, onde nações frequentemente se enfrentavam e se oprimiam mutuamente. Na Bíblia, esses anúncios de juízo mostram que Deus é juiz de todas as nações e que a injustiça, a violência e a oposição ao plano de Deus não ficarão impunes. Não são licenças para ódio étnico, mas afirmações de que nenhum poder humano é absoluto diante de Deus.
Números 24 mostra Balaão profetizando corretamente sob a influência do Espírito de Deus. No entanto, outros textos bíblicos, como Números 31.16 e referências no Novo Testamento, apontam que Balaão aconselhou formas de fazer Israel tropeçar, revelando cobiça e falta de fidelidade. Isso mostra que Deus pode usar até pessoas moralmente ambíguas para cumprir seus propósitos, mas isso não significa que seu caráter seja aprovado. O foco está na fidelidade de Deus à sua Palavra, não na perfeição do mensageiro.
Números 24 revela um Deus que guarda o seu povo mesmo quando ele é alvo de intenções maldosas que acontecem longe de seus olhos. Israel está acampado, vulnerável na beira da terra prometida, enquanto Balaque planeja, insiste e paga para que alguém os amaldiçoe. E, ainda assim, tudo o que sai da boca de Balaão são declarações de beleza, proteção e futuro para esse povo. As imagens usadas tocam profundamente o coração: tendas formosas, jardins à beira de rios, árvores fortes plantadas pelo próprio Senhor. É a figura de uma vida cercada pelo cuidado de Deus em pleno deserto. Há momentos em que a alma se sente seca, cansada e exposta, mas o texto mostra que Deus enxerga seu povo com carinho, como algo precioso e belo, mesmo quando o próprio povo talvez não se veja assim. Chama atenção também a forma como Deus coloca limites sobre o que pode ser dito e feito contra Israel. Balaão declara que não pode ir além da palavra do Senhor, ainda que lhe prometam riqueza e honra. Isso fala de uma espécie de “cercado de proteção” invisível ao redor do povo de Deus. Nem toda palavra maldosa, nem todo desejo ruim, nem todo plano de destruição tem liberdade para se cumprir. Há um Deus que diz “até aqui e não além”. Quando o texto fala da estrela que vai surgir de Jacó e do cetro que se levantará de Israel, aponta para um cuidado ainda maior: Deus não apenas protege no presente, mas prepara um futuro sob um rei justo. Isso sustenta o coração cansado com a certeza de que a história não está solta ao acaso. Mesmo entre nações que caem, levantam-se e entram em conflito, Deus segue conduzindo tudo para um desfecho em que seu povo é lembrado, visto e sustentado. Para corações machucados, Números 24 é como um lembrete silencioso de que, mesmo quando você não vê, Deus vê. Mesmo quando não escuta, Deus fala em seu favor. E, em meio a tantos interesses humanos, Ele não deixa de reconhecer a beleza de quem Lhe pertence e de plantar, no meio do deserto, sinais de vida e esperança.
Números 24 é um texto rico em elementos literários, teológicos e históricos. Do ponto de vista da forma, há uma clara estrutura em torno de “parábolas” ou oráculos de Balaão, cada um introduzido por fórmulas solenes que o identificam como alguém que “ouviu as palavras de Deus” e viu “a visão do Todo-Poderoso” (24.3-4,15-16). Esse tipo de autoapresentação era comum em profecias do Antigo Oriente Próximo, marcando autoridade e distinção do vidente. A menção explícita de que “veio sobre ele o Espírito de Deus” (24.2) é significativa, sobretudo porque Balaão é um personagem externo a Israel e ligado à adivinhação. O texto ressalta que, acima de técnicas divinatórias, é o Espírito do Senhor quem dá a revelação verdadeira. Em 24.1, Balaão abandona os encantamentos, o que indica um contraste entre práticas humanas de manipulação espiritual e a revelação soberana de Deus. Nos versos 5–9, a descrição das tendas de Israel utiliza metáforas de fertilidade e estabilidade: ribeiros, jardins, árvores de sândalo (ou aloés) plantadas pelo Senhor, cedros junto às águas. Tais imagens são típicas da poesia hebraica para descrever bênção e vida abundante. A menção ao “boi selvagem” (24.8) sugere vigor e poder, reforçando o tema de Israel como potência emergente sob o comando divino. A frase “benditos os que te abençoarem, e malditos os que te amaldiçoarem” conecta-se diretamente à promessa feita a Abraão (Gn 12.3), evidenciando a continuidade da aliança. O núcleo cristológico tradicionalmente identificado está em 24.17: a “estrela” de Jacó e o “cetro” de Israel. “Cetro” é símbolo clássico de realeza, e “estrela” pode ser entendida como um sinal celeste de liderança e glória. Historicamente, o oráculo pode se referir inicialmente à ascensão da monarquia em Israel e às vitórias de Davi sobre povos mencionados no texto (como Moabe e Edom). Porém, ao longo do desenvolvimento canônico, essa linguagem foi reinterpretada em chave messiânica, inclusive influenciando expectativas judaicas posteriores. Os oráculos finais (24.20-24) apresentam uma “geopolítica profética”: Amaleque, primeira das nações em hostilidade, terá um fim de destruição; os quenitas têm habitação firme, mas enfrentarão cativeiro por Assur; Quitim (frequentemente associado a regiões marítimas ocidentais, como Chipre ou mesmo potências posteriores) afligirá Assur e Éber. Essa visão de amplo alcance mostra que Israel e seu Deus estão no centro de uma teologia da história em que todas as nações estão sob juízo e supervisão divina. Comparando com outros textos bíblicos, Balaão é retratado de modo ambivalente: aqui ele é veículo de revelação autêntica; em outras passagens, é condenado por sua influência perniciosa (Nm 31.16; 2Pe 2.15; Ap 2.14). Isso adverte contra uma leitura simplista de profetismo: a exatidão momentânea de um oráculo não garante pureza ética ou doutrinária permanente do mensageiro. O foco do capítulo recai na fidelidade de Deus à sua palavra e no inabalável propósito de abençoar Israel, apesar de pressões políticas e espirituais contrárias.
Números 24 traz princípios que se desdobram em situações bem concretas da vida. Balaque representa alguém disposto a manipular circunstâncias e pessoas para alcançar seus objetivos: contrata, insiste, oferece honra e riqueza para conseguir uma palavra que favoreça seus planos. Balaão, ainda que tenha suas contradições, acaba afirmando algo essencial: “não poderia ir além da ordem do Senhor” (24.13). Em termos práticos, isso fala da importância de não vender a consciência nem distorcer a verdade por pressão, dinheiro ou status. No cotidiano, isso aparece em decisões éticas no trabalho, em relacionamentos e em escolhas financeiras. Há momentos em que ceder a expectativas alheias parece vantajoso, mas entra em choque com aquilo que se reconhece como justo diante de Deus. O capítulo mostra que, em última instância, é mais sábio estar alinhado com a vontade de Deus do que tentar agradar quem oferece vantagens temporárias. Outro aspecto é a maneira como Deus protege Israel sem que o povo esteja ativamente negociando essa proteção. Enquanto Israel acampa, alheio aos detalhes das conversas entre Balaque e Balaão, Deus já está agindo em seu favor. Na prática, isso relativiza o peso de tentar controlar todos os riscos da vida. Responsabilidade é importante, mas há muitos fatores além do nosso alcance. Números 24 lembra que há situações em que a proteção vem de Deus mesmo quando não se enxerga o que está acontecendo nos bastidores. As metáforas de Israel como jardins irrigados e árvores fortes sugerem hábitos e contextos que favorecem a saúde integral. Na vida diária, isso pode se traduzir em cultivar ambientes e rotinas que alimentem a fé, as emoções e os relacionamentos: tempo de descanso, comunhão, estudo da Palavra, serviço ao próximo. Uma árvore plantada junto às águas não depende do clima imediato; ela tem uma fonte mais profunda. Assim também, quem se organiza em torno de princípios e práticas saudáveis não fica tão refém das oscilações externas. Por fim, a visão de que Deus governa sobre as nações, definindo limites e destinos, ensina a não absolutizar poderes humanos. Em contextos de medo político, insegurança econômica ou conflitos sociais, Números 24 convida a colocar essas realidades em perspectiva. Isso não dispensa a responsabilidade cidadã, mas impede que o coração fique cativo ao pânico. A vida prática ganha equilíbrio quando decisões são tomadas com a consciência de que nenhuma estrutura humana é definitiva diante do governo de Deus.
Números 24 abre uma janela para a dimensão eterna da história. As cenas parecem, à primeira vista, políticas e circunstanciais: um rei preocupado, um adivinho contratado, um povo acampado. Mas, por trás disso, está um Deus que escreve uma história muito maior, que envolve não apenas o presente de Israel, mas também os “últimos dias” (24.14). O texto convida a olhar além do imediatismo e a perceber que cada evento está conectado a um propósito divino que vai muito além do que os personagens enxergam. O oráculo da estrela que procede de Jacó e do cetro que se levanta de Israel (24.17) aponta para um rei que transcende qualquer outro governante humano. Essa figura messiânica encarna a esperança de um governo perfeito, em que justiça e verdade finalmente prevalecem. Para a alma, isso significa que não se está à mercê de ciclos intermináveis de opressão e insegurança: há um desfecho preparado, um reinado final que põe fim à instabilidade. O capítulo também mostra que Deus conhece e avalia todas as nações. Amaleque, quenitas, Edom, Moabe, Assur, Quitim: cada nome representa histórias, culturas e poderes que parecem sólidos, mas são fugazes diante do juízo divino. Para a vida espiritual, isso recorda que nenhuma identidade meramente terrena — nacional, política ou cultural — é suficiente para definir o destino último de alguém. O eixo decisivo é a relação com o Deus vivo e com o seu plano de redenção. Ver Israel como jardins e árvores plantadas pelo Senhor, em meio ao deserto, oferece uma figura poderosa da vida espiritual. A alma, por natureza, é sedenta e facilmente ressecada por preocupações, culpas e vaidades. O texto mostra que Deus é quem planta, rega e sustenta a verdadeira vida interior. O papel humano é posicionar-se sob essa graça, como uma árvore às margens de um rio, permitindo que a presença de Deus penetre e transforme. A limitação de Balaão à Palavra do Senhor destaca outro princípio espiritual: a voz definitiva não é a dos reis, dos magos, dos poderosos ou das circunstâncias, mas a de Deus. Na jornada espiritual, muitas vozes disputam autoridade interior — medos, traumas, expectativas alheias, culturas. Números 24 afirma que, em última instância, a Palavra de Deus tem precedência sobre todas. A formação da alma passa por aprender a reconhecer, confiar e submeter-se a essa voz, mesmo quando outras promessas ou ameaças parecem mais imediatas. Por fim, o capítulo termina de forma simples: Balaão e Balaque se separam, cada um segue seu caminho (24.25). Os dois se vão, mas a palavra de Deus permanece. A alma é chamada a ancorar sua esperança não em personagens passageiros, mas no Deus que conduz a história ao encontro de seu Rei prometido, a estrela que ilumina definitivamente as trevas.
" Vendo Balaão que bem parecia aos olhos do SENHOR que abençoasse a Israel, não se foi esta vez como antes ao encontro dos encantamentos; mas voltou o seu rosto para o deserto. "
" E, levantando Balaão os seus olhos, e vendo a Israel, que estava acampado segundo as suas tribos, veio sobre ele o Espírito de Deus. "
" E proferiu a sua parábola, e disse: Fala, Balaão, filho de Beor, e fala o homem de olhos abertos; "
" Fala aquele que ouviu as palavras de Deus, o que vê a visão do Todo-Poderoso; que cai, e se lhe abrem os olhos: "
" Quão formosas são as tuas tendas, ó Jacó, as tuas moradas, ó Israel! "
" Como ribeiros se estendem, como jardins à beira dos rios; como árvores de sândalo o Senhor os plantou, como cedros junto às águas; "
" De seus baldes manarão águas, e a sua semente estará em muitas águas; e o seu rei se erguerá mais do que Agague, e o seu reino será exaltado. "
" Deus o tirou do Egito; as suas forças são como as do boi selvagem; consumirá as nações, seus inimigos, e quebrará seus ossos, e com as suas setas os atravessará. "
" Encurvou-se, deitou-se como leão, e como leoa; quem o despertará? benditos os que te abençoarem, e malditos os que te amaldiçoarem. "
" Então a ira de Balaque se acendeu contra Balaão, e bateu ele as suas palmas; e Balaque disse a Balaão: Para amaldiçoar os meus inimigos te tenho chamado; porém agora já três vezes os abençoaste inteiramente. "
" Agora, pois, foge para o teu lugar; eu tinha dito que te honraria grandemente; mas eis que o Senhor te privou desta honra. "
" Então Balaão disse a Balaque: Não falei eu também aos teus mensageiros, que me enviaste, dizendo: "
" Ainda que Balaque me desse a sua casa cheia de prata e ouro, não poderia ir além da ordem do Senhor, fazendo bem ou mal de meu próprio coração; o que o Senhor falar, isso falarei eu? "
" Agora, pois, eis que me vou ao meu povo; vem, avisar-te-ei do que este povo fará ao teu povo nos últimos dias. "
" Então proferiu a sua parábola, e disse: Fala Balaão, filho de Beor, e fala o homem de olhos abertos; "
" Fala aquele que ouviu as palavras de Deus, e o que sabe a ciência do Altíssimo; o que viu a visão do Todo-Poderoso, que cai, e se lhe abrem os olhos. "
" Vê-lo-ei, mas não agora, contemplá-lo-ei, mas não de perto; uma estrela procederá de Jacó e um cetro subirá de Israel, que ferirá os termos dos moabitas, e destruirá todos os filhos de Sete. "
" E Edom será uma possessão, e Seir, seus inimigos, também será uma possessão; pois Israel fará proezas. "
" E dominará um de Jacó, e matará os que restam das cidades. "
" E vendo os amalequitas, proferiu a sua parábola, e disse: Amaleque é a primeira das nações; porém o seu fim será a destruição. "
" E vendo os quenitas, proferiu a sua parábola, e disse: Firme está a tua habitação, e puseste o teu ninho na penha. "
" Todavia o quenita será consumido, até que Assur te leve por prisioneiro. "
" E, proferindo ainda a sua parábola, disse: Ai, quem viverá, quando Deus fizer isto? "
" E as naus virão das costas de Quitim e afligirão a Assur; também afligirão a Éber; que também será para destruição. "
" Então Balaão levantou-se, e se foi, e voltou ao seu lugar, e também Balaque se foi pelo seu caminho. "
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