Números 16 - Significado, temas e aplicação

Entenda os temas principais e aplique Números 16 na sua vida hoje

50 versículos | Almeida Corrigida Fiel

Sobre o que é Números 16?

Números 16 narra a grave rebelião de Coré, Datã, Abirão e 250 líderes contra a autoridade de Moisés e Arão. Eles questionam o lugar especial de Arão no sacerdócio e acusam Moisés de se exaltar sobre o povo. Deus intervém de forma dramática: a terra se abre e engole os rebeldes, fogo consome os 250 homens, e seus incensários se tornam memorial. Mesmo após esse juízo, o povo continua murmurando, o que resulta em uma praga que só é interrompida quando Arão, com o incensário, se coloca entre os mortos e os vivos, fazendo expiação pela congregação.

Temas principais em Números 16

Rebelião contra a autoridade estabelecida por Deus (versículos 1-14)

Coré, Datã e Abirão não se rebelam apenas contra Moisés e Arão, mas contra o próprio Deus que os havia escolhido. A insatisfação com o próprio lugar no serviço a Deus gera inveja, distorção da realidade e desafio aberto à liderança estabelecida.

Versículos-chave: 3, 11, 13

Escolha divina e santidade do sacerdócio (versículos 5-10, 16-19, 36-40)

Moisés propõe uma prova com incensários para que o Senhor revele quem Ele escolheu para se aproximar de Sua presença. Fica claro que o acesso ao serviço sacerdotal não é uma ambição humana, mas chamado específico de Deus.

Versículos-chave: 5, 7, 40

Juízo imediato e severo contra o pecado da rebelião (versículos 28-35)

A terra se abre e engole os rebeldes, e fogo do Senhor consome os 250 homens. O juízo não é apenas disciplinar, mas também sinal público para todo Israel sobre a gravidade de desafiar a santidade de Deus e a ordem que Ele estabeleceu.

Versículos-chave: 30, 32, 35

Memorial como alerta permanente (versículos 36-40)

Os incensários dos homens que morreram são transformados em cobertura do altar, servindo como lembrança visível para que nenhuma pessoa não autorizada se aproxime do serviço sacerdotal. O memorial protege gerações futuras de repetir o mesmo erro.

Versículos-chave: 38, 40

Intercessão sacerdotal que interrompe o juízo (versículos 41-50)

Mesmo após testemunhar o juízo, o povo continua murmurando, provocando uma praga. Arão, obedecendo a Moisés, corre com o incensário, coloca-se entre os mortos e os vivos e, por meio da expiação, a praga cessa.

Versículos-chave: 46, 48, 49

Contexto histórico e literario

Números 16 se situa durante a peregrinação de Israel pelo deserto, após a saída do Egito e antes da entrada em Canaã. O povo já havia recebido a Lei no Sinai, e o tabernáculo e o sistema sacerdotal estavam estabelecidos. Os levitas, descendentes de Levi, haviam sido separados para o serviço religioso, e apenas os descendentes de Arão eram sacerdotes. Coré, levita coatita, já tinha um papel importante no transporte dos objetos sagrados, mas ambiciona também o sacerdócio. Datã, Abirão e Om são rubenitas, descendentes do primogênito de Jacó, o que possivelmente alimentava um sentimento de direito à liderança. O capítulo revela tensões internas em Israel: frustração por ainda estarem no deserto, memória idealizada do Egito, e resistência à disciplina de Deus após o episódio da recusa em entrar na terra prometida (Números 13–14). Nesse cenário de instabilidade, uma rebelião contra Moisés e Arão ganha força e envolve 250 príncipes da congregação, homens influentes, o que torna o conflito uma crise nacional de autoridade espiritual e política.

Estrutura de Números 16

O capítulo apresenta uma narrativa dramática e bem estruturada, com progressão clara de tensão, juízo e intercessão:

  1. Introdução da rebelião (16:1-3): apresentação de Coré, Datã, Abirão, Om e os 250 líderes que se levantam contra Moisés e Arão, questionando sua posição.
  2. Resposta de Moisés e proposta da prova com incensários (16:4-11): Moisés se prostra, apela a Deus e convoca os levitas à reflexão sobre seus privilégios; anuncia que o Senhor mostrará a quem escolheu.
  3. Confronto com Datã e Abirão (16:12-15): recusa em atender ao chamado de Moisés, acusação injusta de que Moisés os tirou de “terra que mana leite e mel” (Egito) para matá-los no deserto; indignação e oração de Moisés para que Deus não aceite a oferta deles.
  4. Preparação e clímax do juízo (16:16-27): os incensários são preparados, a glória do Senhor aparece, e Deus anuncia que consumirá a congregação; Moisés e Arão intercedem, e o povo é instruído a se afastar das tendas dos rebeldes.
  5. Sinal extraordinário e destruição dos rebeldes (16:28-35): Moisés declara o sinal que confirmará seu envio; a terra se abre e engole Coré, Datã, Abirão e os seus, e fogo consome os 250 homens com incensários.
  6. Instituição do memorial com os incensários (16:36-40): Deus ordena que Eleazar recolha os incensários, que são transformados em lâminas para revestir o altar, como sinal permanente de advertência.
  7. Nova murmuração e praga (16:41-46): no dia seguinte, o povo acusa Moisés e Arão de terem matado o povo do Senhor; a glória de Deus aparece novamente, e uma praga começa.
  8. Intervenção sacerdotal de Arão (16:47-50): Arão corre com o incensário, faz expiação pela congregação, coloca-se entre os mortos e os vivos, e a praga cessa, deixando um saldo de 14.700 mortos, além dos que morreram por causa de Coré.

Significado teológico

Números 16 destaca a seriedade da rebelião contra Deus e a importância da autoridade e do sacerdócio estabelecidos por Ele. Do ponto de vista teológico, a narrativa mostra que a santidade de Deus não pode ser manipulada e que o acesso à Sua presença é regulado pela Sua própria escolha, não por ambição humana. Questionar a legitimidade de Moisés e Arão, que foram constituídos por Deus, é visto como questionar o próprio Deus (v. 11).

O episódio também aprofunda a compreensão do papel mediador do sacerdote. Arão, mesmo sendo alvo da rebelião, é o instrumento que Deus usa para cessar a praga. Ele se coloca “entre os mortos e os vivos” (v. 48), imagem forte de intercessão e expiação. Essa figura antecipa, em linha teológica mais ampla, a obra de um mediador perfeito que, colocando-se entre o juízo e o povo, interrompe a condenação.

O texto ressalta ainda a tensão entre santidade e misericórdia. Deus mostra Sua santidade por meio de um juízo público e extraordinário, mas também aceita a intercessão de Moisés e Arão, poupando a congregação que se afasta das tendas dos rebeldes. O memorial com os incensários reforça a pedagogia divina: o juízo não é apenas punitivo, mas educativo, servindo de sinal para as gerações futuras.

Por fim, o capítulo evidencia a persistência do coração humano em murmurar, mesmo depois de grandes sinais. Mesmo após um juízo tão claro, o povo volta a reclamar no dia seguinte. Isso expõe a profundidade do pecado, não apenas como atos isolados, mas como uma atitude contínua de resistência à vontade de Deus e à liderança que Ele concede.

Aplicação restauradora e de saúde mental

Em termos terapêuticos, Números 16 explora dinâmicas internas e comunitárias que frequentemente aparecem em contextos de crise: inveja, ressentimento, distorção da memória e projeção de culpa. Coré e seus aliados demonstram insatisfação com o lugar que receberam, o que se transforma em contestação aberta da autoridade e da ordem estabelecidas. A narrativa retrata como o descontentamento pode crescer em silêncio até tornar-se rebelião coletiva, envolvendo até mesmo líderes respeitados (250 príncipes).

O capítulo também mostra o peso emocional sobre quem lidera em tempos de tensão. Moisés cai sobre o rosto em diversas ocasiões, demonstrando sobrecarga, mas também rendição diante de Deus. A intercessão constante revela que a resposta saudável à crítica injusta e à hostilidade nem sempre é a autoproteção, mas a entrega da causa a Deus.

A cena de Arão entre os mortos e os vivos traz uma imagem poderosa de cuidado em meio ao desastre: alguém que se coloca no fronte do sofrimento coletivo para buscar reconciliação. Em linguagem terapêutica, a figura do mediador lembra o papel de quem trabalha para restaurar vínculos, desescalar conflitos e deter danos maiores, mesmo quando não é o causador direto do problema.

Por fim, o memorial feito com os incensários queimados sugere a importância de lembranças simbólicas que ajudem comunidades a aprender com traumas passados, diminuindo o risco de repetir padrões destrutivos.

warning Importante: maus usos comuns

O capítulo apresenta sinais de alerta importantes para a saúde emocional e relacional de comunidades e grupos:

  1. Inveja e comparação destrutiva: Coré, apesar de ter um papel privilegiado como levita, sente que é pouco (vv. 9-10). Esse sentimento o leva a cobiçar outra função, desvalorizando a própria vocação.
  2. Distorção da realidade: Datã e Abirão chamam o Egito de “terra que mana leite e mel” (v. 13), invertendo completamente a memória do sofrimento. Esse tipo de idealização do passado é um mecanismo comum em meio à frustração, que impede a leitura lúcida da situação.
  3. Transferência de culpa: o povo acusa Moisés e Arão de “matarem o povo do Senhor” (v. 41), mesmo após um juízo claramente vindo de Deus. Projeções injustas de culpa em autoridades e lideranças podem indicar dificuldade de assumir responsabilidade.
  4. Reação coletiva impulsiva: a rebelião atinge rapidamente muitos líderes influentes (v. 2). Quando conflitos internos crescem sem diálogo saudável e sem escuta, tornam-se crises amplas.
  5. Resistência à correção e ao convite ao diálogo: Datã e Abirão recusam-se a subir quando chamados por Moisés (v. 12), revelando fechamento, radicalização de posições e indisponibilidade para conversar.

Essas dinâmicas podem apontar, em contextos atuais, para situações de abuso emocional, ambientes tóxicos, conflitos de poder e crises de confiança. Em casos assim, pode ser importante buscar apoio responsável, como conselheiros, liderança madura ou profissionais de saúde mental, para evitar agravamento de danos.

Aplicação prática para hoje

Números 16 oferece princípios práticos para a vida em comunidade, liderança e serviço:

  1. Reconhecimento do chamado e dos limites: Coré e seu grupo mostram como a insatisfação com o próprio papel pode gerar grandes danos. Valorizar o lugar recebido, sem cobiçar o do outro, protege relacionamentos e a própria saúde do coração.
  2. Cuidado com a murmuração e alianças de descontentamento: a rebelião começa com insatisfação e se amplia quando mais pessoas se unem ao discurso de queixa. Conversas marcadas por ressentimento, sem busca sincera de solução, costumam alimentar divisões.
  3. Entrega dos conflitos a Deus: diante de acusações, Moisés não responde apenas com defesa própria, mas se prostra e busca direção do Senhor (vv. 4, 22, 45). Essa postura inspira a responder a conflitos com humildade, oração e abertura para que Deus julgue com justiça.
  4. Afaste-se de caminhos destruidores: o chamado para sair de perto das tendas de Coré, Datã e Abirão (vv. 24, 26-27) mostra a importância de se distanciar de influências que conduzem à rebelião e à dureza de coração.
  5. Intercessão em vez de vingança: mesmo quando o povo murmura, Moisés e Arão se colocam mais uma vez em favor da congregação (vv. 22, 46-48). Em vez de desejar o mal dos que erram, a narrativa destaca o valor de quem busca a reconciliação.
  6. Aprender com os sinais do passado: os incensários transformados em memorial (vv. 38-40) lembram que experiências dolorosas devem gerar aprendizado coletivo. Comunidades que registram e refletem sobre suas crises tendem a crescer em maturidade.

No cotidiano, esses princípios podem se traduzir em comunicação mais transparente, respeito à liderança legítima, disposição para ouvir correções e iniciativa em interceder e mediar ao invés de amplificar conflitos.

Perguntas frequentes

Por que a rebelião de Coré foi tão grave?

A rebelião de Coré não foi apenas um desentendimento pessoal com Moisés e Arão. Ele questionou a própria escolha de Deus quanto à liderança e ao sacerdócio, usando o argumento de que "toda a congregação é santa" (v. 3) para justificar sua ambição pelo sacerdócio. Ao rejeitar a distinção que Deus mesmo havia estabelecido entre levitas e sacerdotes descendentes de Arão, Coré desafiou diretamente a ordem divina. Por isso, o juízo de Deus foi severo e público, para mostrar que não se trata apenas de disputa política, mas de rebelião espiritual contra o Senhor (v. 11).

Qual é o significado dos incensários transformados em cobertura do altar?

Os incensários pertenciam aos 250 homens que se aproximaram de Deus de forma indevida e foram consumidos pelo fogo (v. 35). Deus ordena que eles sejam recolhidos, transformados em lâminas de metal e usados para revestir o altar (vv. 37-38). Isso faz deles um memorial permanente, um sinal visível para que nenhum estranho, que não fosse descendente de Arão, se aproximasse para acender incenso diante do Senhor (v. 40). O incenso, símbolo de adoração e intercessão, não podia ser oferecido de qualquer jeito, por qualquer pessoa, mas segundo a ordem estabelecida por Deus.

Por que o povo continuou murmurando mesmo depois de ver o juízo de Deus?

O texto mostra como o coração humano pode permanecer endurecido, mesmo diante de sinais claros. No dia seguinte ao juízo sobre Coré e seu grupo, a congregação acusa Moisés e Arão de terem "matado o povo do Senhor" (v. 41), reinterpretando o acontecimento e culpando as lideranças. Isso revela dificuldade de reconhecer a própria participação no pecado, tendência à vitimização e resistência em aceitar o juízo de Deus como justo. Também reflete o clima geral de frustração e desconfiança que marcava Israel no deserto, especialmente após as consequências de terem recusado entrar na terra prometida (Números 14).

Qual é o papel de Arão quando se coloca entre os mortos e os vivos?

Arão age como mediador e intercessor da nação. Orientado por Moisés, ele pega o incensário com fogo do altar, coloca incenso e corre ao meio da congregação onde a praga já havia começado (vv. 46-47). Ao se colocar "entre os mortos e os vivos" (v. 48), ele simbolicamente se interpõe entre o juízo de Deus e o povo, fazendo expiação. O resultado é que a praga cessa. Essa cena enfatiza a função do sacerdote como aquele que se coloca no lugar de risco, na fronteira entre morte e vida, para buscar reconciliação e preservação da comunidade.

O que Números 16 ensina sobre liderança espiritual?

O capítulo mostra que liderança espiritual verdadeira não é conquista de poder, mas resposta a um chamado de Deus. Moisés e Arão não se autoexaltam; são confirmados por sinais divinos, não por autopromoção (vv. 5, 28-30). A liderança fiel suporta críticas e acusações injustas levando-as diante de Deus em oração, não em vingança pessoal (vv. 4, 15, 22). Além disso, a liderança genuína intercede pelo povo, mesmo quando este o ataca (vv. 22, 46-48). Ao mesmo tempo, o capítulo alerta que contestar ou minar a liderança que Deus estabeleceu, por inveja ou ambição, é um pecado sério com consequências profundas para a comunidade.

Perspectivas dos nossos guias espirituais

Heart
Heart

Números 16 descreve um momento muito pesado e tenso na história de Israel. Há acusações, injustiças, medo coletivo, juízo e morte. Em meio a tudo isso, a dor de muitos corações aparece: a frustração de quem se sente menosprezado, a angústia de quem lidera sob pressão, o temor de um povo que vê a terra se abrir e o fogo consumir pessoas conhecidas. Coré e seu grupo mostram o quanto a ferida da comparação pode ferir profundamente. Eles não conseguem enxergar o privilégio que já tinham; o que fala mais alto é a sensação de que “não é suficiente”. Quando esse sentimento cresce, a visão se distorce: Datã e Abirão chegam a chamar o Egito de “terra que mana leite e mel” (v. 13), como se o lugar de escravidão tivesse sido melhor do que a jornada difícil com Deus no deserto. Esse tipo de inversão nasce muitas vezes do cansaço e da decepção, quando o coração teme que as promessas não se cumpram. Moisés, por sua vez, carrega o peso de ser acusado injustamente. Sua reação é se lançar com o rosto em terra, mais de uma vez, em vez de explodir em defesa própria. É a imagem de alguém que, ferido pelas palavras, entra na presença de Deus com toda essa carga, buscando refúgio. E Arão, embora alvo da rebelião, é usado por Deus exatamente como instrumento de preservação quando corre com o incensário e se coloca “entre os mortos e os vivos” (v. 48). Ele está ali, no meio da tragédia, servindo e intercedendo. O capítulo é duro, mas também mostra que, mesmo em meio ao juízo, Deus ouve a intercessão. Moisés e Arão repetidamente se prostram, pedem misericórdia, pedem distinção entre o pecador e a congregação. Em um cenário de muitas perdas, ainda assim existe cuidado: Deus avisa para que o povo se afaste das tendas de Coré, Datã e Abirão, para que não seja destruído junto com eles. No meio do caos, há proteção para quem atende à voz do Senhor. Essa história ressoa com momentos em que comunidades atravessam conflitos profundos, rupturas e culpas cruzadas. Em meio a isso, figuras que se prostram, que intercedem, que se colocam “no meio” para que o dano não seja maior, são um lembrete de que, mesmo quando as consequências do pecado são sérias, ainda há espaço para a compaixão, para a preservação e para um cuidado que se doa pelos outros.

Mind
Mind

Do ponto de vista exegético, Números 16 é um texto-chave para compreender a estrutura de autoridade e culto em Israel. A genealogia inicial de Coré (v. 1) o vincula à linhagem levítica de Coate, responsável pelos objetos sagrados do tabernáculo. Isso torna ainda mais significativo o fato de ele questionar a exclusividade do sacerdócio aarônico. A menção aos rubenitas Datã, Abirão e Om insinua uma dimensão política: Rúben era o primogênito de Jacó, o que pode alimentar um sentimento de direito à liderança. O argumento de Coré — “toda a congregação é santa” (v. 3) — ecoa a vocação de Israel em Êxodo 19:6 como “reino de sacerdotes e nação santa”. Contudo, ele aplica essa verdade de forma a nivelar as funções específicas que Deus estabeleceu dentro do povo. A narrativa responde demonstrando a diferença entre santidade geral da nação e a santidade cultual associada ao sacerdócio. A “prova dos incensários” (vv. 6-7, 16-19) ressalta que o acesso à presença imediata de Deus, representado pelo incenso, é regulado por Sua própria escolha. O juízo que se segue é descrito com linguagem altamente teofânica e judicial. Moisés anuncia um “novo” ato criador de Deus (v. 30), que remete à soberania divina sobre a própria ordem da criação: a terra abre a boca, engole os rebeldes e se fecha. Isso funciona como sinal inequívoco de autenticação do envio de Moisés (v. 28). O fogo que consome os 250 homens (v. 35) lembra outros episódios onde fogo divino sanciona ou julga atos relacionados ao culto, como em Levítico 10 (Nadabe e Abiú). Os incensários transformados em laminado para o altar (vv. 36-40) constroem uma teologia da memória: o altar, lugar de aproximação a Deus, passa a carregar fisicamente uma advertência contra a usurpação do sacerdócio. O texto explicita a função didática: “serão por sinal aos filhos de Israel” (v. 38). A distinção entre “estranho” e descendente de Arão (v. 40) não é étnica, mas funcional, relacionada ao ofício sacerdotal. A seção final (vv. 41-50) revela um padrão teológico recorrente em Números: a repetição da murmuração e a intervenção mediadora de Moisés e Arão. A acusação de que eles “mataram o povo do Senhor” (v. 41) é ironicamente seguida pela manifestação da glória divina e pela praga enviada pelo próprio Deus. A figura de Arão correndo com o incensário, colocando-se entre mortos e vivos (v. 48), intensifica o tema do sacerdócio como mediação vital. O incenso aqui assume função expiatória, não apenas simbólica de oração. Assim, o capítulo articula vários eixos teológicos: autoridade mosaica, exclusividade do sacerdócio aarônico, santidade divina, juízo exemplar e mediação sacerdotal. Em conjunto, eles reforçam que o culto e a liderança em Israel não são espaços abertos à disputa de poder, mas esferas determinadas pelo chamado e pela escolha de Deus.

Life
Life

Números 16 é um retrato forte de como conflitos de poder, inveja e murmuração podem destruir uma comunidade. A história de Coré, Datã e Abirão mostra o caminho que muitas vezes a insatisfação percorre na prática: começa com a percepção de injustiça, se alimenta de conversas entre descontentes, ganha apoio de pessoas influentes e, quando explode, causa danos que vão muito além do grupo inicial. Coré já tinha uma função relevante entre os levitas, mas considerou pouco o que Deus lhe havia confiado (vv. 9-10). Essa atitude se parece com situações em que alguém, mesmo reconhecidamente útil, sente que só terá valor se ocupar o lugar de outro. No ambiente de trabalho, na família ou em comunidades de fé, esse tipo de comparação rouba energia, destrói cooperação e alimenta competição velada. Quando isso cresce, surge a tentação de deslegitimar quem está em posição de liderança: apontam-se falhas reais ou exageradas, reinterpretam-se decisões anteriores, e aos poucos se constrói uma narrativa de opressor versus oprimido que nem sempre corresponde à realidade. Datã e Abirão revelam outro aspecto prático: a distorção do passado como arma no conflito. Chamam o Egito de “terra que mana leite e mel” (v. 13), ignorando a escravidão. Em contextos de frustração, é comum idealizar fases antigas e usar essa idealização para atacar quem está liderando o presente. Esse padrão aparece em famílias, empresas e igrejas: qualquer mudança ou dificuldade atual é comparada a um passado “perfeito” que, na verdade, nunca foi tão perfeito assim. O comportamento de Moisés oferece um contraste importante. Em vez de entrar em disputa pessoal, ele se coloca diante de Deus, pede que o Senhor mesmo mostre quem foi escolhido (vv. 4-5) e deixa claro que não está no cargo por ambição própria (v. 28). Em termos práticos, isso aponta para lideranças que não se agarram ao poder, mas à responsabilidade, e que estão dispostas a ser examinadas por critérios justos, não apenas por opiniões. O aviso para o povo se afastar das tendas dos rebeldes (vv. 24-26) tem implicações concretas: em situações de divisão tóxica, nem sempre é possível “ficar em cima do muro” sem ser afetado. Às vezes, a forma de preservar a própria integridade é se distanciar de rodas de murmuração, intrigas constantes e ambientes que claramente caminham para atitudes destrutivas. Por outro lado, a atitude de Arão correndo com o incensário para se colocar entre os mortos e os vivos (vv. 47-48) mostra um tipo de liderança e serviço que faz falta em tempos de crise: pessoas que, em vez de apenas tomar partido, se colocam no meio do conflito para limitar o dano, interceder, construir pontes e buscar restauração. No mundo real, isso se traduz em gente disposta a ouvir lados diferentes, interromper boatos, incentivar conversas honestas e direcionar todos a um foco comum de reconstrução. A narrativa, portanto, encoraja a examinar motivações, a tratar comparações e ressentimentos com seriedade, a buscar clareza e justiça quando há acusações contra lideranças, e a valorizar aqueles que escolhem interceder e mediar, em vez de apenas alimentar divisões.

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Versículos em Números 16

Números 16:1

" E Coré, filho de Izar, filho de Coate, filho de Levi, tomou consigo a Datã e a Abirão, filhos de Eliabe, e a Om, filho de Pelete, filhos de Rúben. "

Números 16:2

" E levantaram-se perante Moisés com duzentos e cinqüenta homens dos filhos de Israel, príncipes da congregação, chamados à assembléia, homens de posição, "

Números 16:3

" E se congregaram contra Moisés e contra Arão, e lhes disseram: Basta-vos, pois que toda a congregação é santa, todos são santos, e o Senhor está no meio deles; por que, pois, vos elevais sobre a congregação do Senhor? "

Números 16:5

" E falou a Coré e a toda a sua congregação, dizendo: Amanhã pela manhã o Senhor fará saber quem é seu, e quem é o santo que ele fará chegar a si; e aquele a quem escolher fará chegar a si. "

Números 16:7

" E, pondo fogo neles amanhã, sobre eles deitai incenso perante o Senhor; e será que o homem a quem o Senhor escolher, este será o santo; basta-vos, filhos de Levi. "

Números 16:9

" Porventura pouco para vós é que o Deus de Israel vos tenha separado da congregação de Israel, para vos fazer chegar a si, e administrar o ministério do tabernáculo do Senhor e estar perante a congregação para ministrar-lhe; "

Números 16:13

" Porventura pouco é que nos fizeste subir de uma terra que mana leite e mel, para nos matares neste deserto, senão que também queres fazer-te príncipe sobre nós? "

Números 16:14

" Nem tampouco nos trouxeste a uma terra que mana leite e mel, nem nos deste campo e vinhas em herança; porventura arrancarás os olhos a estes homens? Não subiremos. "

Números 16:15

" Então Moisés irou-se muito, e disse ao Senhor: Não atentes para a sua oferta; nem um só jumento tomei deles, nem a nenhum deles fiz mal. "

Números 16:17

" E tomai cada um o seu incensário, e neles ponde incenso; e trazei cada um o seu incensário perante o Senhor, duzentos e cinqüenta incensários; também tu e Arão, cada um o seu incensário. "

Números 16:18

" Tomaram, pois, cada um o seu incensário, e neles puseram fogo, e neles deitaram incenso, e se puseram perante a porta da tenda da congregação com Moisés e Arão. "

Números 16:19

" E Coré fez ajuntar contra eles todo o povo à porta da tenda da congregação; então a glória do Senhor apareceu a toda a congregação. "

Números 16:22

" Mas eles se prostraram sobre os seus rostos, e disseram: Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a carne, pecará um só homem, e indignar-te-ás tu contra toda esta congregação? "

Números 16:26

" E falou à congregação, dizendo: Desviai-vos, peço-vos, das tendas destes homens ímpios, e não toqueis nada do que é seu para que porventura não pereçais em todos os seus pecados. "

Números 16:27

" Subiram, pois, do derredor da habitação de Coré, Datã e Abirão. E Datã e Abirão saíram, e se puseram à porta das suas tendas, juntamente com as suas mulheres, e seus filhos, e suas crianças. "

Números 16:28

" Então disse Moisés: Nisto conhecereis que o Senhor me enviou a fazer todos estes feitos, que de meu coração não procedem. "

Números 16:29

" Se estes morrerem como morrem todos os homens, e se forem visitados como são visitados todos os homens, então o Senhor não me enviou. "

Números 16:29 mostra Moisés dizendo que, se a morte de Corá e seu grupo fosse comum, ele não teria sido enviado por Deus. Deus usaria …

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Números 16:30

" Mas, se o Senhor criar alguma coisa nova, e a terra abrir a sua boca e os tragar com tudo o que é seu, e vivos descerem ao abismo, então conhecereis que estes homens irritaram ao Senhor. "

Números 16:32

" E a terra abriu a sua boca, e os tragou com as suas casas, como também a todos os homens que pertenciam a Coré, e a todos os seus bens. "

Números 16:34

" E todo o Israel, que estava ao redor deles, fugiu ao clamor deles; porque diziam: Para que não nos trague a terra também a nós. "

Números 16:37

" Dize a Eleazar, filho de Arão, o sacerdote, que tome os incensários do meio do incêndio, e espalhe o fogo longe, porque santos são; "

Números 16:38

" Quanto aos incensários daqueles que pecaram contra as suas almas, deles se façam folhas estendidas para cobertura do altar; porquanto os trouxeram perante o Senhor; pelo que santos são; e serão por sinal aos filhos de Israel. "

Números 16:39

" E Eleazar, o sacerdote, tomou os incensários de metal, que trouxeram aqueles que foram queimados, e os estenderam em folhas para cobertura do altar, "

Números 16:40

" Por memorial para os filhos de Israel, que nenhum estranho, que não for da descendência de Arão, se chegue para acender incenso perante o Senhor; para que não seja como Coré e a sua congregação, como o Senhor lhe tinha dito por intermédio de Moisés, "

Números 16:41

" Mas no dia seguinte toda a congregação dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e contra Arão, dizendo: Vós matastes o povo do Senhor. "

Números 16:42

" E aconteceu que, ajuntando-se a congregação contra Moisés e Arão, e virando-se para a tenda da congregação, eis que a nuvem a cobriu, e a glória do Senhor apareceu. "

Números 16:46

" E disse Moisés a Arão: Toma o teu incensário, e põe nele fogo do altar, e deita incenso sobre ele, e vai depressa à congregação, e faze expiação por eles; porque grande indignação saiu de diante do Senhor; já começou a praga. "

Números 16:47

" E tomou-o Arão, como Moisés tinha falado, e correu ao meio da congregação; e eis que já a praga havia começado entre o povo; e deitou incenso nele, e fez expiação pelo povo. "

Números 16:49

" E os que morreram daquela praga foram catorze mil e setecentos, fora os que morreram pela causa de Coré. "

Números 16:49 mostra o resultado grave da rebelião contra Deus: milhares morrem por desafiar Sua autoridade. O versículo ensina que escolhas coletivas têm consequências amplas. …

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