Êxodo 12 - Significado, temas e aplicação

Entenda os temas principais e aplique Êxodo 12 na sua vida hoje

51 versículos | Almeida Corrigida Fiel

Sobre o que é Êxodo 12?

Êxodo 12 narra a instituição da Páscoa e da festa dos pães ázimos, o juízo final de Deus sobre o Egito com a morte dos primogênitos e a saída efetiva de Israel após 430 anos de permanência na terra. Deus estabelece um novo calendário para o povo, dá instruções detalhadas sobre o cordeiro pascal e o uso do sangue nas portas como sinal de proteção, e ordena que essa noite seja lembrada como estatuto perpétuo. O capítulo descreve a execução do juízo, a reação de Faraó, a pressa da partida, o despojo dos egípcios e as regras permanentes para a celebração da Páscoa, incluindo quem pode participar dela.

Temas principais em Êxodo 12

A Páscoa como marco de libertação (versículos 1-14, 21-28, 42)

A Páscoa inaugura um novo começo para Israel: um novo calendário, uma nova identidade e uma memória central de que Deus os libertou com mão poderosa. O cordeiro, o sangue nas portas e a refeição apressada marcam a transição de escravos para povo em marcha.

Versículos-chave: 2, 11, 13, 42

Juízo de Deus e proteção pelo sangue (versículos 12-13, 23, 29-30)

A décima praga alcança todos os primogênitos do Egito, do palácio à prisão, demonstrando o juízo de Deus sobre o pecado e os deuses egípcios. Ao mesmo tempo, o sangue do cordeiro funciona como sinal de proteção e distinção entre Israel e o Egito.

Versículos-chave: 12, 13, 23, 29

Memória e transmissão geracional (versículos 14-20, 24-27, 42)

A celebração da Páscoa e da festa dos pães ázimos deve ser guardada em todas as gerações. Deus estrutura a memória por meio de ritos, perguntas dos filhos e explicações que mantêm viva a história da salvação.

Versículos-chave: 14, 17, 24, 26, 27, 42

Obediência detalhada às instruções de Deus (versículos 3-11, 15-20, 21-22, 28, 50)

O capítulo enfatiza que Israel fez exatamente como o Senhor ordenara por meio de Moisés e Arão. As minúcias sobre o cordeiro, o sangue, a comida e a separação do fermento mostram que a obediência não é genérica, mas concreta e específica.

Versículos-chave: 7, 8, 11, 15, 20, 28, 50

Inclusão e santidade na comunidade da aliança (versículos 43-49)

As normas sobre quem pode comer a Páscoa mostram que a refeição é um privilégio da aliança. Estrangeiros podem participar, mas precisam abraçar o sinal da aliança. A Páscoa une todo o povo sob uma mesma lei, preservando identidade e santidade.

Versículos-chave: 43, 46, 47, 49

Contexto histórico e literario

Êxodo 12 está situado no clímax do conflito entre o Senhor e Faraó, após uma série de nove pragas que já haviam abalado o Egito. Israel vivia na terra de Gósen e vinha sofrendo escravidão pesada há gerações. A décima praga – a morte dos primogênitos – é o golpe definitivo contra o poder egípcio e contra os deuses que sustentavam aquela sociedade.

Deus redefine o calendário de Israel ao instituir este mês como o primeiro do ano (v.2), transformando o evento da saída do Egito no ponto zero da história nacional. As instruções sobre o cordeiro pascal, seu sacrifício e o uso do sangue nas ombreiras e verga das portas refletem práticas sacrificiais do Antigo Oriente Próximo, mas com um significado teológico singular: sinal de proteção divina e separação.

A festa dos pães ázimos, ligada à pressa da partida (massa sem tempo de levedar), torna-se um memorial anual. O texto informa que Israel permaneceu 430 anos no Egito (v.40), indicando um período longo de formação e multiplicação do povo dentro de outro império. Quando saem, são cerca de 600 mil homens a pé, sem contar crianças (v.37), além de “muita mistura de gente” (v.38), o que indica um êxodo multiétnico.

As regras sobre quem pode comer a Páscoa (v.43-49) pressupõem uma sociedade organizada em famílias, com escravos, estrangeiros e assalariados, e um sinal de aliança (circuncisão) já estabelecido desde Abraão. O texto mostra que, já na saída do Egito, Israel é chamado a se entender como “congregação”, um povo ordenado em torno da adoração ao Senhor.

Estrutura de Êxodo 12

Êxodo 12 apresenta uma combinação de instrução litúrgica, narrativa histórica e legislação, organizada de forma cuidadosamente estruturada:

  1. Instituição da Páscoa e do novo calendário (v.1-2)
    – Deus fala a Moisés e Arão estabelecendo o novo início do ano.

  2. Instruções detalhadas sobre o cordeiro pascal (v.3-11)
    – Escolha do cordeiro/cabrito sem defeito, por família ou em conjunto com o vizinho.
    – Dia do sacrifício, forma de preparo, consumo total na mesma noite.
    – Postura de prontidão: lombos cingidos, sandálias e cajado, refeição apressada.

  3. Anúncio do juízo e significado do sangue como sinal (v.12-13)
    – Deus declara que passará pelo Egito, ferindo os primogênitos e executando juízos sobre os deuses.
    – O sangue nas portas será sinal para que a morte “passe por cima”.

  4. Estabelecimento da festa dos pães ázimos como memorial perpétuo (v.14-20)
    – Sete dias de pães sem fermento, com convocação santa no primeiro e no sétimo dia.
    – Proibição rigorosa do fermento nas casas e da comida levedada.

  5. Convocação dos anciãos e execução prática da Páscoa (v.21-28)
    – Moisés transmite as instruções: escolha dos cordeiros, uso do hissopo, permanência em casa até a manhã.
    – Orientação sobre a resposta às perguntas dos filhos.
    – O povo se inclina em adoração e obedece.

  6. Relato da décima praga e reação de Faraó (v.29-33)
    – Morte dos primogênitos em todo o Egito.
    – Clamor generalizado.
    – Faraó finalmente ordena que Israel saia e até pede bênção.

  7. Saída apressada, pães ázimos e despojo dos egípcios (v.34-39)
    – Massa sem levedar, amassadeiras sobre os ombros.
    – Favor diante dos egípcios, com ouro, prata e roupas.
    – Cozimento de bolos ázimos na jornada.

  8. Resumo cronológico e declaração da “noite do Senhor” (v.40-42)
    – Duração da permanência no Egito: 430 anos.
    – Saída dos “exércitos do Senhor” naquele mesmo dia.
    – A noite é consagrada como memória perpétua.

  9. Ordenanças específicas sobre a participação na Páscoa (v.43-49)
    – Quem não pode comer (estrangeiro, assalariado não circuncidado).
    – Regras sobre onde comer e integridade dos ossos.
    – Mesma lei para o natural e o estrangeiro que se une ao povo.

  10. Conclusão com a obediência do povo e a saída (v.50-51)
    – Israel faz conforme o Senhor ordenou.
    – Deus tira os filhos de Israel da terra do Egito, “segundo os seus exércitos”.

Significado teológico

Êxodo 12 é um dos capítulos mais teologicamente centrais do Antigo Testamento, pois estabelece a Páscoa como o grande símbolo da salvação de Deus. A libertação de Israel não é apenas um ato político de emancipação, mas um evento profundamente teológico em que o Senhor se revela como o Deus que julga, salva e constitui um povo para si.

O juízo sobre os primogênitos (v.12, 29-30) mostra a soberania de Deus sobre toda a vida e sobre os deuses do Egito. A praga atinge do trono ao cárcere, demonstrando que ninguém está acima do juízo divino. Ao mesmo tempo, o juízo é discriminador: ele distingue entre quem está sob o sinal do sangue e quem não está (v.13, 23). Essa distinção não se baseia em mérito, mas na obediência à palavra de Deus e na confiança em seu meio de salvação.

O cordeiro pascal se torna um poderoso símbolo teológico: sem defeito, sacrificado, consumido integralmente, com seu sangue servindo de proteção. O ato de comer o cordeiro em família, em postura de partida, une fé, obediência e esperança. A Páscoa é, assim, uma refeição de aliança, um rito que marca a transição de escravos a povo de Deus.

A festa dos pães ázimos (v.14-20, 17) reforça a ideia de separação e santidade. O afastamento do fermento das casas torna-se um sinal pedagógico da urgência da libertação e da necessidade de uma nova vida sem a “velha massa” da escravidão. A obediência a esse estatuto perpétuo mantém viva, em cada geração, a consciência de que a salvação pertence ao Senhor e de que o povo vive em resposta a um ato prévio de graça.

As normas sobre quem participa da Páscoa (v.43-49) sublinham a seriedade da aliança. A refeição é para os que pertencem à comunidade do Senhor, mas há espaço para o estrangeiro que deseja se unir plenamente, aceitando o sinal da aliança. Isso antecipa a vocação de Israel como povo santo, aberto à inclusão, mas comprometido com uma identidade distinta fundamentada na obediência a Deus.

O capítulo também apresenta Deus como Senhor da história (v.40-41). Os 430 anos não são descuido, mas parte de um plano que culmina na noite em que o Senhor tira seus exércitos do Egito. A memória litúrgica (“esta noite se guardará ao Senhor”, v.42) conecta o tempo presente das gerações futuras ao dia da salvação, formando um povo que lê toda a sua história à luz do que Deus fez nessa noite.

Aplicação restauradora e de saúde mental

Este capítulo apresenta uma poderosa imagem de transição: de escravidão para liberdade, de luto generalizado no Egito para preservação e novo começo em Israel. Ele fala profundamente ao emocional humano, especialmente em contextos de medo, opressão, sensação de aprisionamento e perdas.

A Páscoa destaca que, em meio ao caos de uma noite de juízo, há casas marcadas pelo sangue onde se encontra proteção, ordem e sentido. A minuciosidade das instruções de Deus pode ser vista como um antídoto para a ansiedade: em vez de um abandono à incerteza, o povo recebe um passo a passo concreto para atravessar a crise. Há alimento, há ritual, há gestos que lembram que Deus está presente e atua.

O foco na memória e na repetição anual da festa mostra a importância de narrar e relembrar experiências de libertação. Psicologicamente, isso organiza o passado doloroso, impede que o sofrimento seja a última palavra e reforça uma identidade construída sobre cuidado e salvação, não apenas sobre trauma.

A ênfase na obediência comunitária também tem efeito terapêutico: ninguém atravessa aquela noite sozinho. Famílias se reúnem, vizinhos compartilham o cordeiro, e o povo inteiro participa do mesmo rito. Isso aponta para o valor de pertencer a uma comunidade que compartilha histórias e práticas de fé em meio às angústias da vida.

warning Importante: maus usos comuns

O relato da morte de todos os primogênitos do Egito (v.29-30) e o “grande clamor” na terra podem ser extremamente perturbadores para pessoas em luto recente, especialmente pais que perderam filhos ou familiares que viveram mortes traumáticas. A linguagem de juízo e destruição pode ativar memórias dolorosas e sentimentos de culpa religiosa em quem associa o sofrimento pessoal diretamente a castigo divino.

A ideia de um “destruidor” impedido de entrar nas casas (v.23) pode provocar ansiedade espiritual em pessoas com histórico de medo intenso de punição, transtorno obsessivo-compulsivo religioso ou experiências de espiritualidade abusiva. Também há risco de leituras distorcidas que usem o texto para justificar violência, discriminação cultural ou religiosa, especialmente se não for feita a distinção entre um evento único na história da salvação e padrões normativos de comportamento humano.

Em contextos de acompanhamento emocional ou pastoral, é importante ler este texto com sensibilidade, ressaltando o caráter histórico-específico do juízo, o cuidado de Deus com os oprimidos e a centralidade da proteção, e não a glorificação do sofrimento alheio. Em casos de trauma severo, pode ser necessário abordar o texto com mediação cuidadosa, linguagem acolhedora e, se preciso, com apoio profissional de saúde mental.

Aplicação prática para hoje

Êxodo 12 oferece vários princípios para a vida prática contemporânea:

  1. Viver a partir de um novo começo
    – Deus redefine o calendário de Israel a partir da libertação. Na prática, isso inspira a organizar a vida, o tempo e as prioridades a partir da ação de Deus, e não apenas de ciclos sociais ou econômicos.

  2. Obediência concreta em detalhes
    – As instruções sobre o cordeiro, o sangue, o fermento e a forma de comer mostram que a fé se expressa em atos específicos. Isso aponta para a importância de práticas diárias coerentes com aquilo em que se crê, em vez de uma espiritualidade apenas teórica.

  3. Preparação para mudanças rápidas
    – Comer de lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão é imagem de prontidão. Na vida cotidiana, implica estar disposto a responder com rapidez quando portas de libertação se abrem, evitando a paralisia pelo medo ou apego a zonas de conforto.

  4. Cuidar da memória e da identidade
    – A celebração anual da Páscoa e dos pães ázimos ensina a importância de ritos e marcos que relembram experiências de cuidado de Deus. Na prática, isso pode se traduzir em registros, comemorações, histórias de família e comunitárias que reforçam uma identidade de gratidão e confiança.

  5. Viver em comunidade, não isolado
    – Famílias compartilham cordeiros, vizinhos se ajudam, o povo age em conjunto. No cotidiano, isso encoraja a desenvolver redes de apoio, partilhar recursos e decisões e não enfrentar crises de forma solitária.

  6. Tratar o estrangeiro com justiça e clareza
    – O texto combina inclusão (o estrangeiro pode participar se abraçar a aliança) com critérios claros. Na prática, isso inspira relações justas com quem vem de fora, oferecendo acolhimento sem abrir mão de valores fundamentais.

  7. Disciplina contra “velhas leveduras”
    – A retirada do fermento das casas é um exercício de limpeza intencional. Aplicado hoje, pode significar revisar hábitos, influências e padrões de pensamento que alimentam escravidões interiores, substituindo-os por práticas que promovem liberdade e santidade.

Perguntas frequentes

Qual é o significado principal da Páscoa em Êxodo 12?

Em Êxodo 12, a Páscoa é o marco da libertação de Israel da escravidão no Egito. O cordeiro sacrificado, o sangue nas portas e a refeição apressada simbolizam a intervenção de Deus que poupa o seu povo do juízo e o coloca em caminho de liberdade. A Páscoa se torna um memorial perpétuo de que o Senhor passou por cima das casas dos israelitas, feriu os egípcios e livrou Israel.

Por que o sangue nas portas era necessário?

O sangue nas ombreiras e na verga das portas funcionava como um sinal visível de obediência à palavra de Deus e de pertencimento ao povo que Ele estava salvando. Deus promete que, vendo o sangue, passará por cima da casa e não permitirá que a praga de morte atinja os moradores (v.13, 23). O poder não estava no rito em si, mas na promessa de Deus ligada ao sinal.

Qual a relação entre a Páscoa e a festa dos pães ázimos?

As duas festas estão intimamente ligadas no texto. A Páscoa se concentra na noite da libertação e no cordeiro sacrificado; a festa dos pães ázimos se estende por sete dias após essa noite, lembrando a pressa da saída, em que não houve tempo para a massa levedar. Juntas, formam um único grande período de memória: Deus livra e chama o povo a viver uma nova realidade simbolizada pelo pão sem fermento.

Quem podia participar da refeição da Páscoa?

Segundo Êxodo 12.43-49, a Páscoa era para a congregação de Israel. Estrangeiros de passagem e assalariados não podiam comer dela. Escravos comprados poderiam participar, desde que circuncidados. Um estrangeiro que desejasse celebrar a Páscoa ao Senhor poderia fazê-lo se todos os homens de sua casa fossem circuncidados; então ele seria considerado como natural da terra. Havia, portanto, abertura para inclusão, mas dentro dos limites da aliança.

Por que o fermento era tão rigidamente proibido nessa festa?

O fermento está ligado, no contexto, à velha vida no Egito e à ideia de algo que se espalha pela massa. A pressa da saída fez com que o pão fosse assado sem tempo para levedar (v.34, 39), e isso se tornou um símbolo da nova fase que começava. A proibição rigorosa do fermento e de qualquer coisa levedada nas casas (v.15, 19-20) reforça uma separação prática e simbólica: o povo deixa para trás o passado de escravidão e assume uma identidade nova, limpa, em resposta à salvação de Deus.

Perspectivas dos nossos guias espirituais

Heart
Heart

Êxodo 12 descreve uma noite intensa, cheia de dor e ao mesmo tempo de cuidado. De um lado, há o grande clamor do Egito, o luto em cada casa; de outro, há famílias em Israel reunidas, protegidas, comendo juntas sob a promessa de que o destruidor não entraria ali. O contraste é forte, e o texto não suaviza a realidade do sofrimento. No entanto, para quem olha a partir do lado de Israel, esta é também a noite em que Deus cuida de detalhes: o que comer, como preparar, como se vestir, até onde ficar dentro de casa. Cada pequena instrução revela que o povo não está abandonado em meio ao caos; Deus está presente, dando um caminho prático para atravessar a escuridão. Há consolo em perceber que a proteção de Deus não é abstrata, mas se expressa em orientações concretas e em uma presença que distingue, que vê cada casa marcada pelo sangue. O capítulo também mostra a importância de transformar dor antiga em memória de cuidado. Israel viveu 430 anos no Egito, com muitas gerações marcadas pela opressão. A ordem para lembrar essa noite, ano após ano, não é uma forma de reabrir feridas sem propósito, mas de olhar para trás sabendo que o sofrimento não foi o fim da história. A narrativa, contada aos filhos, transforma trauma em testemunho: “O Senhor passou, feriu os egípcios e livrou as nossas casas”. Há uma ternura discreta no fato de o povo sair junto, em família, com vizinhos que dividem o cordeiro, com crianças incluídas na caminhada e até com uma “mistura de gente” que segue junto. Ninguém é convidado a atravessar aquela noite sozinho. O cuidado divino aparece tanto na proteção contra a morte quanto na formação de uma comunidade que se apoia e se reconhece como alvo da graça de Deus.

Mind
Mind

Do ponto de vista exegético, Êxodo 12 é um texto-chave para compreender a teologia da libertação no Antigo Testamento. Ele combina instruções cultuais, narrativa histórica e legislação de forma integrada, constituindo o núcleo da identidade litúrgica e histórica de Israel. O estabelecimento do mês da Páscoa como primeiro mês (v.2) é um gesto de reordenação temporal: a história de Israel passa a ser contada a partir da ação salvífica de Deus. Isso é coerente com o padrão bíblico em que a experiência da salvação precede a entrega da lei (o êxodo antes do Sinai). A fé não nasce de abstrações, mas de um evento fundante. O cordeiro pascal, sem mácula, machos de um ano (v.5), sacrificado no dia 14 (v.6), com seu sangue aplicado nas portas (v.7), assume papel central. O animal é ao mesmo tempo sacrifício e refeição, articulando expiação e comunhão. O uso do hissopo (v.22) é típico em rituais de aspersão, reforçando o caráter quase-sacrificial da cena domiciliar. A ordem de não quebrar os ossos (v.46) sublinha a integridade do cordeiro, carregando um peso simbólico de totalidade. A menção de juízos sobre “todos os deuses do Egito” (v.12) aponta para uma dimensão teológica mais profunda: não se trata apenas de libertar escravos, mas de desmascarar sistemas religiosos e políticos que se opõem ao Senhor. A morte dos primogênitos, atingindo desde Faraó até o preso (v.29), mostra que nenhum estrato social está imune ao juízo divino. Do ponto de vista literário, o texto alterna discurso divino, mediação de Moisés, resposta do povo e narrativa dos acontecimentos. As repetições – especialmente a reafirmação de que o povo fez “como o Senhor ordenara” (v.28, 50) – servem para destacar a obediência como chave para usufruir da salvação oferecida. A expressão “todos os exércitos do Senhor” (v.41) transforma um grupo de ex-escravos em uma categoria quase militar, ressaltando sua nova identidade. A legislação sobre quem pode comer a Páscoa (v.43-49) mostra um equilíbrio entre exclusividade e abertura. A Páscoa é claramente uma refeição da aliança: não é um banquete público irrestrito. Porém, o estrangeiro pode ser integrado por meio da circuncisão, sinal da aliança abraâmica. A cláusula “uma mesma lei haja para o natural e para o estrangeiro que peregrinar entre vós” (v.49) antecipa uma visão de povo de Deus que inclui o outro, sem dissolver a identidade da fé. Em suma, Êxodo 12 apresenta a Páscoa como um eixo em torno do qual giram história, culto, ética e identidade. Qualquer leitura bíblica robusta da salvação no Antigo Testamento passa necessariamente por este capítulo.

Life
Life

Êxodo 12 coloca o povo de Israel num ponto de virada em que teoria e prática se encontram. Eles tinham ouvido várias promessas de libertação, mas agora precisam agir: selecionar o cordeiro, organizar a casa, marcar as portas, preparar a refeição e comer prontos para partir. A libertação divina exige respostas muito concretas. Há uma lição prática na forma como Deus orienta o povo a se preparar: cada família assume responsabilidade, mas há cooperação com o vizinho quando a casa é pequena (v.4). Isso desenha um modelo de vida em que planejamento familiar e solidariedade caminham juntos. Ninguém desperdiça, ninguém fica sem participar, e os recursos são ajustados à realidade de cada núcleo. Outro ponto marcante é a prontidão. Comer de lombos cingidos, com sandálias e cajado (v.11) significa não se fixar num sistema de opressão como se fosse definitivo. Em termos práticos, é uma postura de desapego saudável a contextos que, ainda que conhecidos, já não são alinhados com a vontade de Deus. Quando chega a hora de sair, o povo não está preso à lentidão de quem precisa arrumar tudo do zero; já vive em modo de preparação. A proibição do fermento nas casas por sete dias (v.15-20) sugere uma disciplina de revisar o ambiente doméstico. Encontrar e remover o fermento é um exercício ativo, não passivo. Traduzido para a vida cotidiana, isso inspira a examinar rotinas, hábitos, influências e até objetos que mantêm padrões destrutivos. Libertação não é apenas mudar de lugar; é também mudar de prática. A forma como Israel sai do Egito também é instrutiva. Eles obedecem à orientação de pedir joias e roupas (v.35-36), recebendo favor inesperado. Isso mostra que, em transições importantes, não é errado receber ajuda, recursos e reconhecimento de quem antes era opressor. A questão é como esses recursos serão utilizados na nova fase. Por fim, as regras sobre quem participa da Páscoa (v.43-49) ensinam sobre fronteiras saudáveis. Há espaço para incluir o estrangeiro, mas é preciso que ele aceite os compromissos da aliança. Em termos práticos, isso remete à importância de relacionamentos em que valores centrais são compartilhados. Comunidades e famílias saudáveis acolhem, mas também deixam claro quais princípios não podem ser negociados.

Soul
Soul

Êxodo 12 revela um Deus que escreve a história da salvação a partir de uma noite específica, cheia de sinais e significados espirituais. É a noite em que a morte atravessa uma nação, mas passa por cima de casas marcadas pelo sangue de um cordeiro. Essa dinâmica de juízo e proteção desenha, de forma vívida, o mistério da graça: a vida é preservada não por força humana, mas porque Deus proveu um meio de passar ileso pelo juízo. O capítulo convida a perceber a existência como marcada por um antes e um depois. Antes, escravidão; depois, caminhada com Deus. Antes, calendário marcado por ritmos impostos; depois, o tempo redimensionado pela ação divina. Essa nova medida do tempo aponta para uma reorientação profunda do sentido da vida: a identidade não é mais definida pelo Egito, mas pelo Deus que liberta. A repetição da Páscoa em todas as gerações (v.14, 24-27, 42) mostra que a espiritualidade bíblica não se contenta com experiências isoladas. O passado da salvação precisa ser continuamente celebrado para moldar o presente e apontar para o futuro. A cada ano, ao reviver a narrativa, o povo reafirma que pertence a um Senhor que governa a história, domina sobre os deuses e poderes, e conduz seu povo em direção a uma terra prometida. Espiritualmente, a remoção do fermento e o comer pães ázimos durante sete dias (número de plenitude) indicam um chamado a viver integralmente a partir da obra de Deus. Não se trata apenas de um momento intenso de emoção espiritual, mas de um estilo de vida que rejeita a “velha massa” e abraça uma caminhada contínua de santificação. O fato de saírem como “exércitos do Senhor” (v.41) dá à comunidade um senso de vocação: não são apenas fugitivos, mas um povo convocado para um propósito maior. A salvação não é fim em si mesma; é porta para uma vida de serviço, adoração e missão. Assim, Êxodo 12 aponta para uma espiritualidade que enxerga cada libertação como parte de um chamado mais amplo, no qual Deus forma um povo para si, para viver sob seu domínio e refletir seu caráter no mundo.

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Versículos em Êxodo 12

Êxodo 12:3

Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: Aos dez deste mês tome cada um para si um cordeiro, segundo as casas dos pais, um cordeiro para cada família.

Êxodo 12:4

Mas se a família for pequena para um cordeiro, então tome um só com seu vizinho perto de sua casa, conforme o número das almas; cada um conforme ao seu comer, fareis a conta conforme ao cordeiro.

Êxodo 12:6

E o guardareis até ao décimo quarto dia deste mês, e todo o ajuntamento da congregação de Israel o sacrificará à tarde.

Êxodo 12:9

Não comereis dele cru, nem cozido em água, senão assado no fogo, a sua cabeça com os seus pés e com a sua fressura.

Êxodo 12:11

Assim pois o comereis: Os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés, e o vosso cajado na mão; e o comereis apressadamente; esta é a páscoa do Senhor.

Êxodo 12:12

E eu passarei pela terra do Egito esta noite, e ferirei todo o primogênito na terra do Egito, desde os homens até aos animais; e em todos os deuses do Egito farei juízos. Eu sou o Senhor.

Êxodo 12:13

E aquele sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; vendo eu sangue, passarei por cima de vós, e não haverá entre vós praga de mortandade, quando eu ferir a terra do Egito.

Êxodo 12:14

E este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo.

Êxodo 12:15

Sete dias comereis pães ázimos; ao primeiro dia tirareis o fermento das vossas casas; porque qualquer que comer pão levedado, desde o primeiro até ao sétimo dia, aquela alma será cortada de Israel.

Êxodo 12:16

E ao primeiro dia haverá santa convocação; também ao sétimo dia tereis santa convocação; nenhuma obra se fará neles, senão o que cada alma houver de comer; isso somente aprontareis para vós.

Êxodo 12:17

Guardai pois a festa dos pães ázimos, porque naquele mesmo dia tirei vossos exércitos da terra do Egito; pelo que guardareis a este dia nas vossas gerações por estatuto perpétuo.

Êxodo 12:19

Por sete dias não se ache nenhum fermento nas vossas casas; porque qualquer que comer pão levedado, aquela alma será cortada da congregação de Israel, assim o estrangeiro como o natural da terra.

Êxodo 12:21

Chamou pois Moisés a todos os anciãos de Israel, e disse-lhes: Escolhei e tomai vós cordeiros para vossas famílias, e sacrificai a páscoa.

Êxodo 12:22

Então tomai um molho de hissopo, e molhai-o no sangue que estiver na bacia, e passai-o na verga da porta, e em ambas as ombreiras, do sangue que estiver na bacia; porém nenhum de vós saia da porta da sua casa até à manhã.

Êxodo 12:23

Porque o Senhor passará para ferir aos egípcios, porém quando vir o sangue na verga da porta, e em ambas as ombreiras, o Senhor passará aquela porta, e não deixará o destruidor entrar em vossas casas, para vos ferir.

Êxodo 12:27

Então direis: Este é o sacrifício da páscoa ao Senhor, que passou as casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu aos egípcios, e livrou as nossas casas. Então o povo inclinou-se, e adorou.

Êxodo 12:29

E aconteceu, à meia-noite, que o Senhor feriu a todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que se sentava em seu trono, até ao primogênito do cativo que estava no cárcere, e todos os primogênitos dos animais.

Êxodo 12:30

E Faraó levantou-se de noite, ele e todos os seus servos, e todos os egípcios; e havia grande clamor no Egito, porque não havia casa em que não houvesse um morto.

Êxodo 12:31

Então chamou a Moisés e a Arão de noite, e disse: Levantai-vos, saí do meio do meu povo, tanto vós como os filhos de Israel; e ide, servi ao Senhor, como tendes dito.

Êxodo 12:33

E os egípcios apertavam ao povo, apressando-se para lançá-los da terra; porque diziam: Todos seremos mortos.

Êxodo 12:34

E o povo tomou a sua massa, antes que levedasse, e as suas amassadeiras atadas em suas roupas sobre seus ombros.

Êxodo 12:35

Fizeram, pois, os filhos de Israel conforme à palavra de Moisés, e pediram aos egípcios jóias de prata, e jóias de ouro, e roupas.

Êxodo 12:36

E o Senhor deu ao povo graça aos olhos dos egípcios, e estes lhe davam o que pediam; e despojaram aos egípcios.

Êxodo 12:37

Assim partiram os filhos de Israel de Ramessés para Sucote, cerca de seiscentos mil a pé, somente de homens, sem contar os meninos.

Êxodo 12:39

E cozeram bolos ázimos da massa que levaram do Egito, porque não se tinha levedado, porquanto foram lançados do Egito; e não se puderam deter, nem prepararam comida.

Êxodo 12:41

E aconteceu que, passados os quatrocentos e trinta anos, naquele mesmo dia, todos os exércitos do Senhor saíram da terra do Egito.

Êxodo 12:42

Esta noite se guardará ao Senhor, porque nela os tirou da terra do Egito; esta é a noite do Senhor, que devem guardar todos os filhos de Israel nas suas gerações.

Êxodo 12:43

Disse mais o Senhor a Moisés e a Arão: Esta é a ordenança da páscoa: nenhum filho do estrangeiro comerá dela.

Êxodo 12:48

Porém se algum estrangeiro se hospedar contigo e quiser celebrar a páscoa ao Senhor, seja-lhe circuncidado todo o homem, e então chegará a celebrá-la, e será como o natural da terra; mas nenhum incircunciso comerá dela.

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