2 Reis 7:1
" Então disse Eliseu: Ouvi a palavra do SENHOR; assim diz o SENHOR: Amanhã, quase a este tempo, haverá uma medida de farinha por um siclo, e duas medidas de cevada por um siclo, à porta de Samaria. "
Entenda os temas principais e aplique 2 Reis 7 na sua vida hoje
20 versículos | Almeida Corrigida Fiel
Eliseu anuncia, em plena fome extrema, que no dia seguinte haveria abundância à porta de Samaria. A situação parecia humanamente impossível, mas a palavra do Senhor se cumpre exatamente como foi declarada, mostrando que Deus não está limitado pelas circunstâncias.
O oficial do rei despreza a promessa de Deus, considerando-a absurda. Eliseu declara que ele veria o milagre, mas não participaria dele. Quando a profecia se cumpre, o homem é pisoteado pelo povo faminto na porta da cidade, simbolizando o perigo de rejeitar a palavra de Deus.
Quatro leprosos, excluídos e à beira da morte, tornam-se os primeiros a experimentar o livramento e os mensageiros das boas novas à cidade. Deus se serve de pessoas desprezadas para anunciar sua salvação e provisão.
Sem batalha, sem estratégia militar de Israel, Deus faz os sírios ouvirem um som de grande exército e fugirem em pânico, deixando cavalos, tendas, comida e riquezas. O livramento do Senhor vem de maneira totalmente inesperada e além das capacidades humanas.
Depois de se fartarem, os leprosos reconhecem que não é correto guardar só para si o que Deus providenciou. Eles entendem que aquele é um “dia de boas novas” e se apressam em anunciar à cidade, ilustrando a responsabilidade de não reter a notícia do livramento de Deus.
O capítulo se passa durante o cerco de Samaria pelo exército da Síria (Aram), provavelmente no século IX a.C., no reinado de Jorão, filho de Acabe, sobre o reino do Norte (Israel). A cidade está cercada, o que impede a entrada de alimentos e leva a uma fome devastadora, descrita no capítulo anterior. Táticas de cerco prolongado eram comuns no antigo Oriente Próximo para enfraquecer economicamente e psicologicamente o inimigo. Os sírios eram, nessa época, um dos principais adversários de Israel, alternando períodos de trégua e hostilidade.
A presença de leprosos à porta da cidade revela as leis e costumes de exclusão de pessoas com doenças de pele consideradas impuras. Eles viviam à margem da comunidade, dependendo da caridade e restando-lhes pouca esperança numa situação de fome geral. A menção a possíveis alianças com “reis dos heteus e reis dos egípcios” mostra o temor sírio de coalizões internacionais, algo politicamente plausível naquele contexto, em que grandes potências e pequenos reinos se influenciavam mutuamente.
Eliseu atua como profeta de Deus em Israel, frequentemente confrontando a idolatria e apontando para a fidelidade do Senhor à Sua aliança, apesar da infidelidade do povo. Seu ministério é marcado por sinais poderosos, entre eles multiplicação de alimentos, cura e intervenções em conflitos com a Síria, preparando o pano de fundo espiritual deste livramento sobrenatural.
2 Reis 7 apresenta uma narrativa coesa, dividida em cenas bem marcadas que enfatizam o contraste entre desespero humano e intervenção divina:
Profecia de abundância em meio à fome (v.1-2)
Decisão dos leprosos e descoberta do arraial vazio (v.3-5)
Explicação do livramento: pânico enviado por Deus (v.6-7)
Primeira reação dos leprosos: apropriação e consciência moral (v.8-9)
Anúncio à cidade e desconfiança do rei (v.10-12)
Verificação da notícia e confirmação do livramento (v.13-15)
Cumprimento da profecia e destino do oficial incrédulo (v.16-20)
A repetição da profecia e do diálogo com o oficial (v.18-19) funciona como um recurso literário de ênfase, sublinhando a certeza da palavra de Deus e o contraste entre fé e incredulidade.
Este capítulo destaca de forma vívida que a palavra de Deus é eficaz, soberana e não depende de condições favoráveis para se cumprir. Onde a lógica humana enxerga apenas impossibilidade, Deus revela Seu poder criador, capaz de inverter a realidade em um único dia.
A incredulidade do oficial ilustra uma postura que reduz Deus aos limites do raciocínio humano: “ainda que o SENHOR fizesse janelas no céu, poderia isso suceder?” A resposta divina, confirmada pelos acontecimentos, mostra que a dúvida arrogante, que zomba da promessa, não é neutra; ela é confrontada com juízo. Ele vê o milagre, mas não participa dele. A teologia do texto afirma que não basta testemunhar o agir de Deus; é necessária uma relação de confiança em Sua palavra.
O uso de leprosos como instrumentos de boas novas traz uma dimensão teológica da graça: Deus escolhe os marginalizados e impuros para serem portadores de salvação e provisão. Isso antecipa, em certa medida, a forma como Deus, ao longo da história bíblica, chama pessoas frágeis e desprezadas para revelar Sua glória, enfatizando que o mérito não está no mensageiro, mas na mensagem e no Deus que age.
O livramento em si é totalmente sobrenatural: não há combate, não há estratégia militar de Israel, não há negociação diplomática. Deus age diretamente na mente dos sírios, provocando medo e fuga. Isso reforça a visão de que o Senhor é Senhor da história e dos povos, capaz de inclinar o curso de eventos militares sem depender da força de Seu povo.
Por fim, o reconhecimento dos leprosos de que “este dia é dia de boas novas, e nos calamos” aponta para uma responsabilidade comunitária em relação ao que Deus faz. Teologicamente, o texto sugere que a graça de Deus não é um bem privado; quando o Senhor intervém e salva, essa obra é, por natureza, algo a ser anunciado. Assim, há uma dimensão missionária implícita: quem experimenta o livramento de Deus é chamado a se tornar testemunha dele.
2 Reis 7 oferece um retrato de transformação radical em um cenário de desespero extremo, podendo dialogar com experiências humanas de crise, impotência e medo do futuro. A fome em Samaria reflete situações em que tudo parece fechado, sem saída visível, gerando angústia profunda. Nesse contexto, a palavra de esperança, aparentemente “irreal”, pode provocar tanto consolo quanto resistência, como aconteceu com o oficial incrédulo.
Os quatro leprosos encarnam um tipo de sofrimento duplo: exclusão social e ameaça de morte iminente pela fome. Em meio a isso, eles demonstram um raciocínio simples, mas lúcido: qualquer caminho parece levar à morte, então resolvem dar um passo, ainda que arriscado. Esse movimento pode ser lido terapeuticamente como a importância de escolhas ativas, mesmo em situações limitadas, em vez de paralisia completa. O texto não idealiza o sofrimento, mas mostra que atitudes mínimas de enfrentamento podem abrir espaço para experiências inesperadas de alívio.
Outro aspecto terapêutico é a tomada de consciência moral dos leprosos. Após satisfazerem sua fome e acumularem bens, percebem que é errado silenciar diante das boas novas. Essa mudança de foco — do próprio ventre para o bem coletivo — aponta para um caminho de saúde emocional: sair do isolamento da dor para o compartilhamento da esperança.
A incredulidade do oficial, por sua vez, pode ser vista como uma reação compreensível de alguém saturado pelo sofrimento, incapaz de imaginar outra realidade. Porém, o texto alerta para o risco de endurecimento: a descrença absoluta fecha o coração até mesmo para um futuro que o próprio Deus promete. Em termos de cuidado emocional, isso sugere a importância de manter algum espaço interno para a possibilidade de mudança, ainda que a dor seja grande.
No conjunto, o capítulo pode ser lido como um convite a reconhecer que a situação atual, por mais sufocante que seja, não esgota as possibilidades de intervenção de Deus, ao mesmo tempo em que valoriza movimentos pequenos, mas significativos, rumo à esperança e à partilha.
Este capítulo descreve fome extrema, morte em massa implícita e uma cena de atropelamento fatal na multidão. Para pessoas sensíveis a temas de violência, catástrofe, sensação de sufocamento ou desespero coletivo, a leitura pode despertar ansiedade, memórias traumáticas ou pânico, especialmente em quem já viveu situações de guerra, pobreza severa ou crises humanitárias.
O relato da morte do oficial, esmagado pelo povo, pode impactar quem tem histórico de fobias relacionadas a aglomerações, medo de multidões ou pavor de ser esmagado. Além disso, a exclusão social dos leprosos pode ressoar fortemente em pessoas que se sentem rejeitadas ou estigmatizadas.
Em casos de sofrimento emocional intenso, depressão profunda, ideação suicida ou traumas relacionados a violência e fome, pode ser importante que a leitura desse texto seja acompanhada de apoio pastoral, psicológico ou de alguém de confiança, para processar sentimentos de desesperança, medo ou revolta que possam emergir.
2 Reis 7 sugere diversas aplicações práticas:
Levar a sério a palavra de Deus, mesmo quando tudo parece impossível A promessa de abundância em meio à fome extrema desafia a tendência de avaliar o futuro apenas pelos indicadores visíveis. Na prática, isso pode significar continuar confiando em Deus, permanecendo fiel e buscando Sua direção, mesmo quando as circunstâncias gritam o contrário.
Evitar o cinismo e a incredulidade arrogante O oficial do rei transforma sua dor e frustração em sarcasmo contra a promessa divina. Esse padrão, comum em contextos de sofrimento, acaba fechando portas para a esperança. Aplicar o texto hoje envolve vigiar contra o costume de ridicularizar a fé ou as promessas de Deus, especialmente em momentos de crise.
Dar passos de coragem nas pequenas decisões Os leprosos não tinham uma grande estratégia; apenas reconheceram que ficar parados significava morte certa e decidiram agir com o pouco que lhes restava. Em termos práticos, isso pode inspirar decisões concretas, ainda que modestas: buscar ajuda, tentar um novo caminho, assumir um pequeno risco responsável, em vez de entregar-se à paralisia.
Compartilhar boas notícias e recursos, não guardar só para si Após saciar a fome, os leprosos percebem que não é correto calar. A aplicação atual inclui repartir o que se tem — alimento, informação, oportunidade, consolo espiritual — com quem ainda está na “cidade sitiada” pela necessidade, lembrando que a bênção de Deus não foi dada apenas para consumo individual.
Cultivar discernimento sem cair na desconfiança crônica O rei de Israel tem uma reação compreensível de prudência, suspeitando de uma armadilha síria. Ao mesmo tempo, ele quase perde o livramento por não considerar a possibilidade de que Deus realmente tenha agido. Na prática, isso sugere equilibrar cautela responsável com abertura para reconhecer quando o Senhor está, de fato, abrindo uma porta.
Reconhecer a dignidade de pessoas marginalizadas Deus escolhe leprosos como protagonistas do anúncio do livramento. Isso encoraja uma postura de respeito e escuta a quem é facilmente descartado socialmente, lembrando que Deus pode operar por meio de quem o mundo não valoriza.
O oficial reagiu à profecia de Eliseu com descrença e zombaria, questionando se mesmo que Deus abrisse “janelas no céu” aquilo poderia acontecer. A resposta de Eliseu foi clara: ele veria com os próprios olhos, mas não comeria da provisão. Quando a profecia se cumpriu, o povo faminto se aglomerou à porta para sair ao arraial sírio, e o oficial, colocado ali para controlar a passagem, foi atropelado e morreu. Sua morte cumpre literalmente a palavra anunciada e simboliza a seriedade de desprezar com arrogância o que Deus promete.
Os quatro homens eram leprosos, isto é, sofriam de uma doença de pele que, segundo os costumes e leis de pureza daquela época, exigia isolamento da vida comunitária. Por isso, ficavam à entrada da porta, à margem da cidade, sem plena integração social. Eles representam os excluídos e vulneráveis da sociedade. Mesmo nesse estado de rejeição, Deus os utiliza como primeiros beneficiários da provisão e mensageiros das boas novas para Samaria.
O texto explica que o Senhor fez o arraial dos sírios ouvir um ruído de carros, cavalos e um grande exército. Diante desse som sobrenatural, eles concluíram que o rei de Israel havia contratado exércitos estrangeiros, dos heteus e dos egípcios, para atacá-los. Tomados de pânico, fugiram às pressas, abandonando tendas, animais e bens pelo caminho. Não houve intervenção militar de Israel; foi uma intervenção direta de Deus na percepção e no medo dos inimigos.
Depois de tanto tempo sob cerco e fome, o cenário de um arraial inimigo vazio parecia bom demais para ser verdade. O rei supõe que os sírios estariam escondidos no campo, apenas esperando que os israelitas saíssem para então atacá-los e entrar na cidade. Essa reação mostra um misto de prudência e desconfiança profunda, típica de quem vive sob ameaça constante. Somente após uma investigação cuidadosa, enviando mensageiros, o rei aceita que se tratava realmente de um livramento.
Quando os leprosos dizem “este dia é dia de boas novas, e nos calamos”, eles reconhecem que a descoberta do arraial sírio vazio e da abundante provisão é um evento de salvação para toda a cidade, não apenas para eles. “Boas novas” indicam notícia de livramento da fome e da morte. A expressão carrega a ideia de que guardar para si aquilo que pode salvar muitos é moralmente errado. O dia de boas novas deveria ser marcado pelo anúncio público e pela partilha do que Deus concedeu.
2 Reis 7 descreve um cenário de dor coletiva tão intensa que até a esperança parecia proibida. A cidade cercada, a fome extrema, os leprosos rejeitados à porta… tudo aponta para corações exaustos, que já não conseguem imaginar mudança. Neste ambiente, a palavra de Eliseu soa quase como um choque: abundância em vinte e quatro horas. Não é difícil entender a reação do oficial, cheio de descrença; às vezes, o sofrimento prolongado torna muito difícil acreditar em qualquer boa notícia. O capítulo, porém, mostra que a realidade emocional de desespero não é o limite para o que Deus pode fazer. Enquanto a cidade se sente presa, o Senhor já está agindo fora dos muros, preparando um caminho de vida onde ninguém esperava. Ele não despreza a dor, mas também não se rende a ela. A fuga dos sírios, provocada por um ruído misterioso, lembra que o coração humano não enxerga tudo o que Deus está movendo em silêncio. Os leprosos são um detalhe comovente: pessoas à margem, cansadas, com poucas perspectivas, tornam-se as primeiras a se fartar e a carregar a notícia que salva uma cidade inteira. Isso comunica um consolo profundo: nem a exclusão, nem a fraqueza, nem o cansaço tiram de alguém o valor diante de Deus. Na narrativa, justamente quem parecia “sobrando” é usado como canal de boas novas. Há também um momento delicado quando os leprosos, depois de comerem e esconderem bens, se dão conta de que não é certo calar. Esse despertar mostra um movimento interno de sair do foco apenas na própria sobrevivência para lembrar o sofrimento do outro. Em tempos de dor, isso é um caminho de cura: perceber que não estamos sozinhos, que há outros famintos, e que o que recebemos não é só para nós. O desfecho com o oficial pisoteado é duro de ler, especialmente para quem já se sente no limite. O texto não ignora a seriedade da incredulidade, mas também revela um Deus que, antes de qualquer juízo, ofereceu palavra, promessa e livramento. Em meio às nossas ruínas internas, 2 Reis 7 sussurra que a dor não é a palavra final, que Deus vê a fome do corpo e da alma, e que Ele é capaz de virar páginas que pareciam definitivamente fechadas.
Do ponto de vista exegético, 2 Reis 7 está intimamente ligado ao contexto imediato de 2 Reis 6, onde o cerco de Samaria pela Síria e a extrema fome são descritos em detalhes. O capítulo 7 funciona como a resposta divina à crise, articulada por meio da profecia de Eliseu e seu cumprimento histórico. O v.1 contém uma fórmula profética típica: “Ouvi a palavra do SENHOR; assim diz o SENHOR”. A mensagem anuncia uma inversão econômica abrupta: de escassez e preços exorbitantes para abundância e preços baixos, num prazo de um dia. Isso cria uma tensão literária que prepara o conflito com a incredulidade do oficial no v.2. A objeção dele (“ainda que o SENHOR fizesse janelas no céu”) é hiperbolicamente teológica, questionando a capacidade de Deus intervir na ordem natural. Os leprosos (v.3-9) são um recurso narrativo importante. Eles funcionam como personagens liminares: estão na fronteira entre cidade e arraial, entre inclusão e exclusão, entre vida e morte. Sua decisão de ir ao acampamento sírio advém de uma lógica pragmática: qualquer opção parece levar à morte, então escolhem a que, paradoxalmente, contém uma fresta de possibilidade. O narrador associa esse movimento humano simples a uma obra divina prévia: Deus já havia produzido pânico no exército sírio (v.6-7). O v.6 é teologicamente denso. O Senhor atua não com fenômenos visíveis para Israel, mas afetando a percepção auditiva dos sírios: eles “ouvem” um grande exército e interpretam isso como resultado de uma aliança israelita com grandes potências regionais. Tal percepção equivocada, mas eficaz, mostra um Deus que governa também as cognições e medos dos povos. Do ponto de vista histórico, a menção a heteus e egípcios faz sentido, pois eram conhecidos como forças militares significativas. A progressão do relato — descoberta dos leprosos, anúncio aos porteiros, reação cética do rei, verificação por mensageiros, confirmação da fuga inimiga — estrutura-se para verificar e autenticar o milagre, evitando qualquer impressão de boato ou exagero (v.10-15). O narrador apresenta testemunhas e rastros materiais (roupas, objetos pelo caminho até o Jordão) como evidências. Os versículos 16-20 funcionam como epílogo didático. A repetição do conteúdo da profecia (v.18-19) e seu contraste com o destino do oficial estabelecem um padrão teológico: a palavra do profeta, como porta-voz de Deus, é confiável e auto-autenticadora. O oficial, cuja função era estar “em cuja mão o rei se encostava”, aparece ironicamente como alguém em quem o rei confiava, mas que não confiou em Deus. Sua morte pela pressão da multidão, exatamente onde a palavra havia prometido abundância (“à porta de Samaria”), sela o cumprimento literal da promessa e do juízo anunciados. Literariamente, o capítulo mostra uma simetria interessante: inicia com a palavra de Deus sobre alimentos à porta da cidade e termina descrevendo alimentos à porta, junto com o juízo sobre o descrente. No meio, o foco recai no campo, no arraial sírio, conectando espaço urbano (Samaria) e espaço militar (acampamento) por meio dos leprosos e dos mensageiros. Tudo converge para a centralidade da fidelidade de Deus e da autoridade profética em Israel.
Lido sob uma perspectiva prática, 2 Reis 7 oferece diversos princípios para a vida cotidiana em meio a contextos difíceis. A situação de Samaria é extrema: economia colapsada, escassez de recursos, sensação de bloqueio total. Em cenários assim, é comum que as pessoas adotem atitudes de desespero, cinismo ou paralisia. O oficial do rei representa esse tipo de postura: ele enxerga apenas os limites do momento presente e, a partir disso, conclui que a promessa de mudança é absurda. Do outro lado, os quatro leprosos mostram um tipo de pragmatismo corajoso. Eles reconhecem a gravidade da realidade, não se iludem, mas também percebem que ficar parados não melhora nada. A análise que fazem de suas alternativas (ficar, voltar à cidade, ir ao arraial sírio) evidencia uma habilidade importante: pesar riscos com clareza, mesmo sob pressão. Na prática, isso inspira a examinar opções concretas quando a vida parece sem saída, sem negar a dor, mas também sem entregar o controle totalmente à inércia. Quando encontram abundância no arraial, os leprosos inicialmente reagem de forma compreensível: saciam a fome, recolhem bens e escondem. É a resposta imediata de sobreviventes que sempre tiveram pouco. Porém, ao refletirem, concluem que não é correto reter a notícia. Aqui aparece um princípio ético para o dia a dia: quando alguém tem acesso a algo que pode aliviar a dor de muitos — seja alimento, informação, oportunidade ou mesmo encorajamento —, a resposta madura não é apenas garantir o próprio conforto, mas também compartilhar. O rei de Israel ilustra o desafio de administrar riscos em situações de crise. Sua desconfiança diante da boa notícia não é completamente irracional: ele considera a possibilidade de emboscada. Contudo, se ficasse apenas na suspeita, a cidade permaneceria sitiada e faminta. A solução intermediária — enviar alguns homens para verificar — mostra a importância de unir prudência e ação: checar, testar, investigar, em vez de bloquear qualquer iniciativa por medo. O destino do oficial que duvidou também traz uma lição prática: palavras carregadas de cinismo ao redor de outras pessoas podem alimentar um clima de descrédito generalizado, com efeitos concretos. Em contextos de trabalho, família ou comunidade, lideranças que ridicularizam a esperança, a fé e qualquer proposta de mudança acabam contribuindo para a manutenção de ambientes tóxicos, em vez de criar espaço para soluções. Em suma, o capítulo aponta caminhos para tempos difíceis: escutar com seriedade a possibilidade de mudança; não se entregar à paralisia; experimentar soluções viáveis, mesmo modestas; exercer prudência sem cair na desconfiança crônica; e, quando o alívio chega, não viver apenas para o acúmulo pessoal, mas repartir benefícios com os que ainda estão na “cidade faminta”.
2 Reis 7 abre uma janela para dimensões profundas da relação entre Deus, esperança e destino eterno. Samaria cercada simboliza uma humanidade sitiada pelo pecado, pela morte e pela falta de perspectiva. Em meio a isso, Deus levanta um profeta que anuncia uma realidade futura radicalmente diferente: de fome a abundância, de desespero a provisão. A palavra de Eliseu, nesse sentido, antecipa o padrão da revelação divina ao longo da história: promessa de salvação em contraste com a condição presente. A incredulidade do oficial escancara uma questão espiritual séria: o que uma pessoa faz com as promessas de Deus. Ele não apenas duvida em silêncio; ele verbaliza um ceticismo que reduz Deus a um agente limitado. No plano espiritual, isso espelha a atitude de quem, diante da mensagem de salvação e vida eterna, responde com desdém, julgando-a impossível ou irrelevante. O desfecho mostra que se pode, sim, ver os sinais do agir de Deus — mudanças, libertações, testemunhos — sem, porém, entrar nessa realidade por falta de fé. Os leprosos, por sua vez, trazem uma imagem com forte ressonância espiritual. Impuros, marginalizados, sem acesso pleno à comunhão do povo, eles experimentam primeiro a provisão e tornam-se mensageiros de boas novas. Isso ecoa o modo como Deus frequentemente chama os quebrados, os que se reconhecem necessitados, para serem alcançados pela graça e, depois, testemunhas do que receberam. Espiritualmente, são um retrato de pessoas que, mesmo marcadas por falhas e limitações, são convidadas a participar do plano de Deus. Quando afirmam que “este dia é dia de boas novas”, sugerem algo que toca o centro da missão espiritual: dias em que Deus intervém com salvação não são dias comuns; são dias de anúncio. O silêncio diante do que Deus faz é retratado como uma falha moral e espiritual. A mensagem ganha contornos ainda mais profundos se conectada à proclamação das boas novas de salvação em Cristo: quem provou o livramento é chamado a não reter essa notícia. O livramento de Samaria, proporcionado sem esforço militar e sem mérito do povo, aponta para a natureza da graça: o povo colhe abundância de um campo que não plantou e se beneficia de uma vitória que não lutou. No plano eterno, isso ecoa a realidade de que a salvação não é conquista humana, mas obra de Deus, preparada à frente do tempo, antes mesmo que as pessoas percebam sua necessidade. Em última análise, 2 Reis 7 convida a uma postura de fé diante do Deus que promete o impossível, a reconhecer a dignidade espiritual de quem é considerado “impuro” ou “sem lugar”, e a abraçar a vocação de mensageiros das boas novas, sabendo que o maior cerco que a humanidade enfrenta — o da morte e do pecado — também é rompido não pela força humana, mas pela intervenção soberana de Deus.
" Então disse Eliseu: Ouvi a palavra do SENHOR; assim diz o SENHOR: Amanhã, quase a este tempo, haverá uma medida de farinha por um siclo, e duas medidas de cevada por um siclo, à porta de Samaria. "
" Porém um senhor, em cuja mão o rei se encostava, respondeu ao homem de Deus e disse: Eis que ainda que o SENHOR fizesse janelas no céu, poder-se-ia fazer isso? E ele disse: Eis que o verás com os teus olhos, porém disso não comerás. "
" E quatro homens leprosos estavam à entrada da porta, os quais disseram uns aos outros: Para que estaremos nós aqui até morrermos? "
" Se dissermos: Entremos na cidade, há fome na cidade, e morreremos aí; e se ficarmos aqui, também morreremos. Vamos nós, pois, agora, e passemos para o arraial dos sírios; se nos deixarem viver, viveremos, e se nos matarem, tão-somente morreremos. "
" E levantaram-se ao crepúsculo, para irem ao arraial dos sírios; e, chegando à entrada do arraial dos sírios, eis que não havia ali ninguém. "
" Porque o Senhor fizera ouvir no arraial dos sírios ruído de carros e ruído de cavalos, como o ruído de um grande exército; de maneira que disseram uns aos outros: Eis que o rei de Israel alugou contra nós os reis dos heteus e os reis dos egípcios, para virem contra nós. "
" Por isso se levantaram, e fugiram no crepúsculo, e deixaram as suas tendas, os seus cavalos, os seus jumentos e o arraial como estava; e fugiram para salvarem a sua vida. "
" Chegando, pois, estes leprosos à entrada do arraial, entraram numa tenda, e comeram, beberam e tomaram dali prata, ouro e roupas, e foram e os esconderam; então voltaram, e entraram em outra tenda, e dali também tomaram alguma coisa e a esconderam. "
" Então disseram uns para os outros: Não fazemos bem; este dia é dia de boas novas, e nos calamos; se esperarmos até à luz da manhã, algum mal nos sobrevirá; por isso agora vamos, e o anunciaremos à casa do rei. "
Segundo Reis 7:9 mostra que reter boas notícias é errado. Os leprosos entendem que, tendo encontrado salvação e alimento, precisam compartilhar com a cidade faminta. …
Ler análise completa" Vieram, pois, e bradaram aos porteiros da cidade, e lhes anunciaram, dizendo: Fomos ao arraial dos sírios e eis que lá não havia ninguém, nem voz de homem, porém só cavalos atados, jumentos atados, e as tendas como estavam. "
" E chamaram os porteiros, e o anunciaram dentro da casa do rei. "
" E o rei se levantou de noite, e disse a seus servos: Agora vos farei saber o que é que os sírios nos fizeram; bem sabem eles que esfaimados estamos, pelo que saíram do arraial, a esconder-se pelo campo, dizendo: Quando saírem da cidade, então os tomaremos vivos, e entraremos na cidade. "
" Então um dos seus servos respondeu e disse: Tomem-se, pois, cinco dos cavalos que restam aqui dentro (eis que são como toda a multidão dos israelitas que ficaram aqui; e eis que são como toda a multidão dos israelitas que já pereceram) e enviemo-los, e vejamos. "
" Tomaram, pois, dois cavalos de carro; e o rei os enviou com mensageiros após o exército dos sírios, dizendo: Ide, e vede. "
" E foram após eles até ao Jordão, e eis que todo o caminho estava cheio de roupas e de aviamentos que os sírios, apressando-se, lançaram fora; e voltaram os mensageiros e o anunciaram ao rei. "
" Então saiu o povo, e saqueou o arraial dos sírios; e havia uma medida de farinha por um siclo, e duas medidas de cevada por um siclo, conforme a palavra do Senhor. "
" E pusera o rei à porta o senhor em cuja mão se encostava; e o povo o atropelou na porta, e morreu, como falara o homem de Deus, o que falou quando o rei descera a ele. "
" Porque assim sucedeu como o homem de Deus falara ao rei dizendo: Amanhã, quase a este tempo, haverá duas medidas de cevada por um siclo, e uma medida de farinha por um siclo, à porta de Samaria. "
" E aquele senhor respondeu ao homem de Deus, e disse: Eis que ainda que o SENHOR fizesse janelas no céu poderia isso suceder? E ele disse: Eis que o verás com os teus olhos, porém dali não comerás. "
" E assim lhe sucedeu, porque o povo o atropelou à porta, e morreu. "
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