2 Samuel 19:1
" E disseram a Joabe: Eis que o rei anda chorando, e lastima-se por Absalão. "
Entenda os temas principais e aplique 2 Samuel 19 na sua vida hoje
43 versículos | Almeida Corrigida Fiel
A dor de Davi pela morte de Absalão é profunda e legítima, mas o excesso de lamento o impede de se alegrar com a preservação do povo e da própria vida. Joabe o confronta, lembrando-o de sua responsabilidade como rei. O texto mostra o desafio de equilibrar emoções intensas com o chamado a liderar e servir.
Após a rebelião de Absalão, Israel debate a volta de Davi, e Judá é persuadida a recebê-lo novamente. O rei trabalha para ganhar de volta o coração do povo, nomeia Amasa em lugar de Joabe e atravessa o Jordão em um ato simbólico de retorno e recomeço do governo.
Simei, que havia amaldiçoado Davi, reconhece seu pecado e pede perdão; apesar da sugestão de Abisai para executá-lo, Davi opta por poupá-lo. A maneira como Davi lida com Simei, Mefibosete e Barzilai revela uma postura de misericórdia, gratidão e discernimento diante dos que erraram ou ajudaram.
Mefibosete demonstra lealdade a Davi, Barzilai é honrado por seu apoio fiel no exílio, e Quimã recebe favor por meio da generosidade do rei. As relações são marcadas por lembrança do bem feito, reconhecimento da fidelidade e disposição de recompensar e honrar.
Ao final do capítulo, homens de Israel e de Judá entram em conflito verbal sobre quem tem mais direito ao rei. Surge um clima de rivalidade e orgulho regional, prenunciando futuras divisões no reino. Mesmo após a restauração, o coração do povo ainda carrega disputas e ressentimentos.
2 Samuel 19 se passa logo após a derrota e morte de Absalão, que havia liderado uma grande rebelião contra seu pai, o rei Davi (2 Samuel 15–18). Davi estava refugiado em Maanaim, na Transjordânia, e o exército leal a ele havia vencido a batalha nas florestas de Efraim. A travessia do Jordão de volta à terra central simboliza o retorno de Davi ao poder legítimo em Jerusalém.
O contexto político é de grande instabilidade: Absalão havia sido reconhecido como rei por boa parte de Israel, e agora o reino precisa decidir se e como aceitar novamente Davi. Judá, tribo do rei, estava dividida e hesitante, talvez por vergonha de ter seguido Absalão ou por receio das consequências. Davi age com estratégia política e relacional, enviando mensagem aos anciãos de Judá e prometendo a Amasa (que havia sido general de Absalão) a chefia do exército em lugar de Joabe.
Surgem personagens significativos: Simei, um benjamita que havia amaldiçoado Davi quando ele fugia; Mefibosete, neto de Saul, que vivia sob a graça de Davi; Ziba, servo de Saul, que havia feito acusações contra Mefibosete; Barzilai, um ancião rico de Gileade que susteve Davi no exílio; e Quimã, provavelmente seu filho ou parente mais jovem, que passa a acompanhar o rei.
Ao final do capítulo, o conflito verbal entre os homens de Israel (as demais tribos) e os de Judá revela tensões profundas entre norte e sul. Esse tipo de rivalidade mais tarde culminará na divisão do reino em Reino do Norte (Israel) e Reino do Sul (Judá) após o reinado de Salomão (1 Reis 12).
O capítulo pode ser organizado em blocos narrativos distintos, mas interligados:
Luto de Davi e confronto de Joabe (19:1-8)
Debate em Israel e reconquista de Judá (19:9-15)
Encontro com Simei e seu perdão (19:16-23)
Encontro com Mefibosete e decisão sobre Ziba (19:24-30)
Honra a Barzilai e favor a Quimã (19:31-39)
Travessia a Gilgal e conflito entre Judá e Israel (19:40-43)
O texto alterna momentos íntimos e emocionais com diálogos políticos e decisões estratégicas, compondo um capítulo denso em reconciliações, tensões e redefinições de lealdade.
2 Samuel 19 explora a tensão entre fraqueza humana, responsabilidade de liderança e graça de Deus. Davi aparece vulnerável em seu luto, mas também é levado a retomar sua função real para o bem do povo. Isso evidencia que a liderança dada por Deus envolve não apenas sentimentos pessoais, mas serviço e cuidado pela comunidade.
O capítulo destaca a importância do arrependimento e da misericórdia. Simei, que antes amaldiçoara o ungido do Senhor, humilha-se, confessa seu pecado e suplica perdão. Davi, em vez de exercer vingança, decide poupá-lo, especialmente por ser um dia de restauração do reino. Isso reflete um princípio presente em toda a Escritura: o Senhor se agrada mais da misericórdia que do sacrifício, e o dia da salvação é tempo de graça, não de juízo definitivo.
Na relação com Mefibosete, a narrativa ressalta a fidelidade da aliança. Mesmo em meio a acusações, Mefibosete permanece leal a Davi e valoriza mais a presença do rei do que seus bens materiais. Isso ecoa a lógica da aliança de Deus com seu povo: a maior recompensa não são as bênçãos em si, mas a presença do Rei.
Barzilai representa a visão de peregrinagem e contentamento: um servo idoso, consciente de seus limites terrenos, que prefere terminar seus dias em sua terra, ao lado da sepultura dos pais, mas abre espaço para que a próxima geração (Quimã) desfrute de novos favores. Teologicamente, isso aponta para a continuidade da graça de Deus através das gerações e para a humildade de quem não busca posição, mas permanece fiel.
Por fim, o conflito entre Judá e Israel revela como o pecado e o orgulho continuam atuando mesmo após uma grande restauração. O reino é reunificado, mas carrega feridas profundas que mais adiante produzirão divisão. Isso dialoga com a realidade espiritual do povo de Deus: mesmo restaurado, ainda vive em tensão entre a unidade desejada por Deus e as divisões produzidas pelo coração humano. A esperança bíblica aponta para um Rei perfeito, descendente de Davi, que traria uma unidade definitiva e sem divisão.
Este capítulo traz elementos valiosos para a compreensão de emoções intensas, reconciliação e cicatrização de relacionamentos rompidos.
O luto de Davi por Absalão ilustra como a dor pode ser tão forte a ponto de distorcer a percepção da realidade. Mesmo após uma vitória que salvou muitas vidas, o rei é incapaz de consolar-se e de reconhecer o bem que Deus preservou. Em termos emocionais, isso espelha situações em que uma perda domina toda a visão de mundo, impedindo a pessoa de ver qualquer sinal de esperança. A intervenção de Joabe, embora dura, revela a necessidade de limites e de chamados à realidade quando a tristeza ameaça paralisar completamente a função e o propósito de alguém.
Os pedidos de perdão e os gestos de reconciliação mostram caminhos para a restauração. Simei assume sua culpa sem se justificar, e Davi decide interromper o ciclo da violência com um ato de misericórdia. Mefibosete sofre injustiça, mas reage sem desejo de vingança, focado em gratidão pelo que já recebeu. Barzilai lida com o envelhecimento de maneira lúcida, aceitando limitações e permanecendo grato, sem exigir privilégios tardios.
Há também um retrato da complexidade das relações sociais e políticas: ressentimentos, rivalidades, disputas por reconhecimento, como no conflito entre Judá e Israel. Tais dinâmicas lembram que comunidades e famílias podem carregar tensões antigas, que reaparecem mesmo após momentos de aparente vitória.
De forma terapêutica, o capítulo abre espaço para trabalhar temas como luto complicado, gratidão em meio às perdas, perdão, arrependimento genuíno, honra às gerações anteriores, manejo de conflitos e convivência com divisões que ainda não foram totalmente resolvidas. A narrativa demonstra que Deus age em meio às fragilidades emocionais e às relações quebradas, conduzindo processos de retorno, cura e reestruturação.
Alguns elementos do capítulo sinalizam situações potencialmente sensíveis ou desencadeadoras:
Ler e meditar neste capítulo pode ser emocionalmente intenso para pessoas em luto, com histórico de relacionamentos abusivos, culpa religiosa severa ou que sofrem com conflitos familiares. Em tais casos, é importante haver espaço seguro para processar sentimentos, possivelmente com apoio pastoral ou profissional especializado.
2 Samuel 19 oferece vários princípios práticos para a vida pessoal, familiar e comunitária:
Equilíbrio entre emoções e responsabilidades
O luto de Davi mostra que sentimentos profundos são legítimos, mas também que emoções podem, em certos momentos, impedir o cumprimento de responsabilidades essenciais. A vida real muitas vezes exige a difícil tarefa de continuar servindo e cuidando de outros mesmo em meio à dor. O texto convida a reconhecer o sofrimento, mas também a buscar forças para não abandonar o que Deus confiou às mãos.
Importância da confrontação honesta
A fala de Joabe é dura, porém verdadeira em alguns pontos. Em relações saudáveis, é necessário haver espaço para conversas francas, ainda que desconfortáveis, quando atitudes de alguém prejudicam o bem comum. A confrontação sábia busca restaurar, não humilhar.
Valor do arrependimento e do perdão
Simei ensina que reconhecer o erro, sem desculpas, é parte essencial da reconciliação. Davi demonstra que quem tem poder pode escolher o caminho da misericórdia, mesmo quando teria motivos para punir. Em famílias, amizades e igrejas, abrir mão da vingança e praticar o perdão pode interromper ciclos de destruição.
Gratidão maior que os direitos pessoais
A postura de Mefibosete mostra a força da gratidão. Ele se considera digno de morte, mas lembra que foi recebido à mesa do rei; por isso, não coloca bens materiais acima da restauração do relacionamento. Em um mundo marcado por disputas de direitos, esse exemplo aponta para a beleza de valorizar mais a presença e a reconciliação do que a posse.
Honra às gerações e reconhecimento da idade
Barzilai aceita as limitações da velhice e escolhe não buscar conforto extra no fim da vida, mas indicar um mais jovem para receber o favor. Isso inspira a honrar quem veio antes, reconhecer as contribuições passadas e permitir que novas gerações avancem, em vez de se apegar a posições.
Cuidado com o orgulho coletivo e rivalidades
A discussão entre Judá e Israel mostra como a busca por prestígio e reconhecimento pode dividir um povo. Em ambientes de trabalho, igrejas e famílias, conflitos por protagonismo e vaidades podem corromper boas causas. O texto chama à humildade e à disposição de agir pelo bem comum, não pela própria glória.
Memória da lealdade em tempos difíceis
Davi não esquece quem o apoiou quando estava em exílio e necessidade (como Barzilai). Lembrar-se de quem esteve presente nas fases difíceis e honrar essa lealdade é um princípio valioso para construir relações duradouras e justas.
Joabe confrontou Davi porque o luto excessivo do rei por Absalão estava transformando a vitória do povo em vergonha e tristeza. Os soldados que arriscaram a vida para salvar Davi e o reino voltavam humilhados, pois o rei chorava mais pelo inimigo rebelde do que se alegrava com os leais que sobreviveram. Joabe percebeu que, se Davi não se levantasse para falar ao coração do povo, poderia perder o apoio de todos naquela mesma noite. O confronto duro visava preservar a estabilidade do reino e lembrar Davi de sua responsabilidade como líder.
O texto mostra Simei reconhecendo claramente que pecou contra Davi e pedindo que sua culpa não seja levada em conta (versos 19-20). Há sinais de arrependimento verbal e público, mas também é provável que o medo influencie sua atitude, já que Davi retornava ao trono com poder para puni-lo. A narrativa não analisa as motivações profundas de Simei; ela destaca, sobretudo, a escolha de Davi em exercer misericórdia em um dia de restauração, em vez de vingança. Mais tarde, em 1 Reis 2, o comportamento de Simei volta a ser tema, sugerindo que seu arrependimento não era totalmente firme.
2 Samuel 19 não resolve de modo explícito quem estava completamente certo. Em 2 Samuel 16, Ziba havia dito a Davi que Mefibosete ficou em Jerusalém esperando recuperar o reino de seu avô Saul. Em 2 Samuel 19, Mefibosete afirma que Ziba o enganou, não o ajudou a montar o jumento e ainda o acusou falsamente. A aparência negligente de Mefibosete (sem lavar os pés, sem aparar a barba, sem lavar as roupas) desde a partida de Davi sugere que ele estava, de fato, de luto e leal ao rei. Davi parece não investigar mais profundamente e decide dividir as terras, talvez enxergando falhas dos dois lados ou simplesmente optando por uma solução prática em um momento político delicado.
Davi prometeu a Amasa, que fora comandante do exército de Absalão, que ele seria chefe do exército no lugar de Joabe (verso 13). Essa decisão tinha, ao menos, dois aspectos: político e pessoal. Politicamente, aproximar Amasa era uma forma de ganhar o coração de Judá e de antigos apoiadores de Absalão, sinalizando reconciliação e inclusão. Pessoalmente, Joabe havia desobedecido a ordem de Davi ao matar Absalão, o que pesava contra ele. A nomeação de Amasa funcionaria como punição indireta a Joabe e, ao mesmo tempo, como gesto de pacificação nacional.
A discussão entre os homens de Israel e os de Judá sobre quem tinha mais "direito" ao rei revela tensões profundas entre as tribos. Israel reclama por não ter sido chamado primeiro para conduzir o rei; Judá responde com base no parentesco com Davi e na negação de ter tirado vantagem do rei. Essa briga de palavras antecipa a rivalidade entre norte (Israel) e sul (Judá) que, mais tarde, levará à divisão do reino após Salomão. O texto mostra que mesmo uma restauração política aparente ainda pode carregar fissuras que, se não forem tratadas, se transformarão em rupturas maiores.
2 Samuel 19 retrata corações feridos em muitas direções. O choro de Davi por Absalão é o lamento de um pai que perdeu o filho, mesmo sabendo de tudo o que o filho fez. A repetição do grito "meu filho" mostra um amor que sofre, um coração dividido entre o papel de rei e a dor de pai. A narrativa não corrige diretamente esse sofrimento; ela apenas mostra que, em algum momento, o luto precisa encontrar um lugar de equilíbrio para que a vida continue. Ao longo do capítulo, surgem outros sentimentos intensos. Simei aparece dominado por culpa e medo; ele sabe que errou e teme o julgamento. Davi, em vez de alimentar a vingança, escolhe interromper o ciclo de ódio com um juramento de que Simei não morreria. Isso oferece um vislumbre de descanso para um coração que se afoga em culpa: há espaço para confissão e para receber misericórdia. Mefibosete carrega consigo a marca da deficiência física e da história da casa de Saul. Sua fala revela a consciência de que, humanamente, não tinha valor diante do rei. Ainda assim, ele foi acolhido à mesa. Quando se vê injustiçado por Ziba, não responde com raiva, mas com uma gratidão tão profunda que considera suficiente apenas o retorno de Davi em paz. Há aqui um coração que encontrou segurança em ser aceito, mais do que em possuir terras. Barzilai, idoso, expressa com serenidade as limitações do corpo envelhecido: menos prazer, menos força, menor capacidade. Mesmo assim, seu coração não é amargo; ele está satisfeito em ter sido útil, não quer se tornar um peso nem buscar privilégios. Prefere abençoar a próxima geração, indicando Quimã para acompanhar o rei. É um retrato de um coração maduro, que sabe quando recuar e como honrar sem buscar centralidade. No final, o conflito entre Judá e Israel mostra corações cheios de orgulho e sentimento de injustiça, disputando quem tem mais direito ao rei. Isso revela como machucados coletivos podem se transformar em brigas por reconhecimento. O capítulo inteiro, em suas dores e reconciliações, mostra que os corações humanos são frágeis, contraditórios, carentes de cura. E, ao mesmo tempo, que há espaço para consolo, para recomeços, para decisões de misericórdia mesmo em meio a lágrimas e marcas profundas.
Do ponto de vista exegético e histórico, 2 Samuel 19 é um texto de transição crucial na narrativa deuteronomista, situando-se entre a crise da rebelião de Absalão e a retomada da centralidade de Jerusalém no reinado de Davi. A abertura do capítulo (19:1-8) apresenta uma tensão entre o ideal régio e a dimensão pessoal de Davi. O rei, chamado a representar o povo e a garantir estabilidade, está consumido por um luto que subverte a ordem social: a vitória é sentida como derrota. Joabe cumpre um papel quase profético de repreensão, lembrando que um governante não pode inverter os valores a ponto de parecer amar os que o ameaçam e desprezar os que o protegem. Do ponto de vista literário, a crítica de Joabe prepara o terreno para sua substituição posterior por Amasa. A seção seguinte (19:9-15) trata da legitimidade real e da reconstrução do consenso. Israel reconhece que Davi havia sido o libertador anterior e começa a questionar a demora em reconduzi-lo ao trono. Davi, por sua vez, atua de modo estratégico: envia recado aos anciãos de Judá e a Amasa. A referência a Judá como "ossos e carne" do rei remete à linguagem de aliança interna, ao mesmo tempo em que sua escolha de Amasa sobre Joabe é carregada de implicações políticas e éticas (Joabe havia matado Absalão contra a ordem do rei). Os encontros ao longo da travessia do Jordão (Simei, Mefibosete e Barzilai) funcionam como micro-narrativas teológicas. Simei representa a oposição ao ungido, agora em postura de súplica. O juramento de Davi de não matá-lo ressalta o caráter de anistia em um dia de restauração real. Mefibosete reabre a tensão sobre a casa de Saul e mostra a complexidade das relações de lealdade e propaganda (Ziba vs. Mefibosete), sem que o narrador ofereça julgamento fechado. Barzilai e Quimã, por sua vez, ilustram a transição geracional e o patronato típico do mundo antigo: um benfeitor é honrado, e um protegido é introduzido na corte. Do ponto de vista macroestrutural, a briga entre Judá e Israel (19:40-43) prepara o leitor para a futura cisão do reino. A discussão sobre "dez partes" no rei ecoa a composição tribal de Israel e antecipa a linguagem usada na separação do reino em 1 Reis 11–12. O narrador mostra que, apesar da reunificação aparente, há um processo centrífugo em curso, derivado de rivalidades tribais, orgulho e percepções de injustiça. Teologicamente, o capítulo mantém a ênfase na realeza davídica como instrumento de Deus, mas também expõe suas fragilidades. Davi é ao mesmo tempo o ungido e o pai enlutado, o rei que perdoa e o homem que toma decisões políticas ambíguas (como a divisão das terras entre Ziba e Mefibosete). O texto não idealiza a figura do rei; antes, apresenta um quadro complexo, que aponta para a necessidade de um rei futuro mais perfeito, tema que se desenvolve na teologia messiânica ao longo da Escritura.
2 Samuel 19 é um laboratório de relacionamentos, liderança e decisões em tempos de crise. Ele mostra como, em situações de tensão, atitudes práticas influenciam profundamente a saúde de famílias, comunidades e organizações. Na liderança, Davi ilustra o risco de deixar a dor pessoal ocupar todos os espaços. A vitória militar havia garantido segurança, mas a ausência do rei na porta da cidade desmotivava quem havia lutado por ele. Quando Joabe o chama à realidade, Davi decide sentar-se à porta, lugar de autoridade e justiça. Em termos práticos, isso mostra que, em posições de responsabilidade, é necessário encontrar formas de estar presente, mesmo quando o coração está ferido. A reconciliação com Judá ensina sobre reconstrução de confiança. Davi não exige apenas que o povo volte a ele; ele mesmo toma a iniciativa, envia mensageiros, usa linguagem de proximidade e faz concessões políticas (como a nomeação de Amasa). Em relacionamentos quebrados, a restauração muitas vezes exige passos conscientes de aproximação, reconhecimento de laços e disposição para mudanças reais. Simei mostra um caminho para lidar com erros graves: ele assume o que fez, não tenta se justificar e corre ao encontro do rei com humildade. Mesmo se parte de sua motivação for medo, a atitude aponta para a importância de não fugir indefinidamente de quem foi ofendido. Davi, por sua vez, demonstra que quem tem poder relacional (pais, líderes, chefes) pode escolher não usar o erro do outro como arma permanente, mas abrir uma nova página. A narrativa de Mefibosete e Ziba alerta para os perigos de julgamentos apressados e de versões únicas de uma história. Davi havia aceitado o relato de Ziba no calor da crise e agora se vê diante de outra perspectiva. Em muitos contextos – família, trabalho, igreja – decidir com base em uma só versão pode gerar injustiça. A solução de Davi (dividir as terras) resolve parcialmente o problema, mas deixa tensão no ar. Isso chama atenção para a importância de ouvir mais de um lado e buscar o máximo de clareza antes de tomar decisões que afetem vidas. Barzilai oferece um exemplo de maturidade prática no envelhecimento: ele conhece seus limites, recusa uma mudança que seria pesada para sua fase de vida e, ao mesmo tempo, indica outro para receber oportunidade. Isso fala de sucessão, mentoria e desprendimento: saber quando apoiar à distância, em vez de ocupar o centro. Por fim, o conflito entre Judá e Israel ilustra como disputas por reconhecimento podem corroer conquistas coletivas. Mesmo após um grande problema superado, o povo entra numa briga sobre quem teve mais parte no rei. Em contextos modernos, equipes e famílias podem repetir esse padrão, concentrando-se em quem merece crédito em vez de celebrar o que foi restaurado. O capítulo sugere a necessidade de olhar além do orgulho pessoal e trabalhar para preservar a unidade, ainda que isso signifique abrir mão de ter a "última palavra".
No plano da formação espiritual, 2 Samuel 19 aponta para o modo como Deus trabalha em meio a perdas, culpas e recomeços. A figura de Davi voltando do exílio, atravessando o Jordão e sendo gradualmente recebido pelo povo evoca um processo de restauração que não é simples nem imediato. Há choro, confrontos, pedidos de perdão, ajustes de rota e conflitos residuais. O lamento de Davi por Absalão revela a profundidade da dor humana, mesmo na vida de alguém escolhido por Deus. A Escritura não esconde que o povo de Deus sofre intensamente, às vezes sem conseguir enxergar o significado do que foi preservado. Ao mesmo tempo, Davi é chamado a se levantar e ocupar seu lugar. Espiritualmente, isso sugere que Deus acolhe o pranto, mas também conduz seus servos para além do luto absoluto, para que continuem cumprindo o propósito a eles confiado. Simei, prostrado diante do rei, é um retrato da alma que reconhece ter resistido ao ungido e agora busca reconciliação. Davi, no papel de rei, escolhe graça em vez de juízo naquele momento. Essa dinâmica antecipa, em alguma medida, o que se revela mais plenamente em Cristo: o Rei que, tendo todo o direito de condenar, anuncia perdão àqueles que reconhecem sua culpa e se rendem. O juramento de não matar Simei naquele dia ecoa a paciência divina, que adia o juízo final para oferecer um tempo de salvação. Mefibosete, neto de um rei deposto, coxo, dependente da mesa de Davi, encarna a condição de quem nada tem a apresentar como mérito. Sua resposta – considerar suficiente apenas a volta do rei em paz – ilustra a alma que encontra satisfação principal na presença do Rei, não em posses ou direitos. No caminho da vida espiritual, esse desapego é sinal de maturidade: considerar a comunhão com Deus maior tesouro do que qualquer restauração material. Barzilai, consciente da finitude, prefere terminar seus dias próximo à sepultura dos pais. Ele não busca alongar sua experiência de prestígio na corte; escolhe a simplicidade do fim de sua jornada, mas abre uma porta para que outro avance. Espiritualmente, isso fala de uma visão de peregrinagem: a vida aqui é limitada, e os dons recebidos não servem apenas para nossa própria história, mas para beneficiar outros que continuarão o caminho. O conflito final entre Judá e Israel lembra que, mesmo após experiências de restauração, o povo de Deus ainda lida com orgulho, ressentimentos e disputas. A plena unidade e reconciliação só se concretizam de forma definitiva no governo do Messias perfeito, descendente de Davi, que reúne povos diversos em um só corpo. Assim, o capítulo alimenta a esperança em um reino que ainda está por vir em plenitude, onde o rei não estará dividido entre dor e dever, e onde as divisões internas serão finalmente saradas.
" E disseram a Joabe: Eis que o rei anda chorando, e lastima-se por Absalão. "
" Então a vitória se tornou naquele mesmo dia em tristeza por todo o povo; porque naquele mesmo dia o povo ouvira dizer: Mui triste está o rei por causa de seu filho. "
" E naquele mesmo dia o povo entrou às furtadelas na cidade, como o faz quando, envergonhado, foge da peleja. "
" Estava, pois, o rei com o rosto coberto; e o rei gritava a alta voz: Meu filho Absalão, Absalão meu filho, meu filho! "
" Então entrou Joabe na casa do rei, e disse: Hoje envergonhaste o rosto de todos os teus servos, que livraram hoje a tua vida, e a vida de teus filhos, e de tuas filhas, e a vida de tuas mulheres, e a vida de tuas concubinas; "
" Amando tu aos teus inimigos, e odiando aos teus amigos. Porque hoje dás a entender que nada valem para contigo príncipes e servos; porque entendo hoje que se Absalão vivesse, e todos nós hoje fôssemos mortos, estarias bem contente. "
" Levanta-te, pois, agora; sai, e fala conforme ao coração de teus servos; porque pelo Senhor te juro que, se não saíres, nem um só homem ficará contigo esta noite; e maior mal te será isto do que todo o mal que tem vindo sobre ti desde a tua mocidade até agora. "
" Então o rei se levantou, e se assentou à porta; e fizeram saber a todo o povo dizendo: Eis que o rei está assentado à porta. Então todo o povo veio apresentar-se diante do rei; porém Israel havia fugido cada um para a sua tenda. "
" E todo o povo, em todas as tribos de Israel, andava porfiando entre si, dizendo: O rei nos tirou das mãos de nossos inimigos, e ele nos livrou das mãos dos filisteus; e agora fugiu da terra por causa de Absalão. "
" E Absalão, a quem ungimos sobre nós, já morreu na peleja; agora, pois, por que vos calais, e não fazeis voltar o rei? "
" Então o rei Davi mandou dizer a Zadoque e a Abiatar, sacerdotes: Falai aos anciãos de Judá, dizendo: Por que seríeis vós os últimos em tornar a trazer o rei para a sua casa? Porque as palavras de todo o Israel chegaram ao rei, até à sua casa. "
" Vós sois meus irmãos, meus ossos e minha carne sois vós; por que, pois, seríeis os últimos em tornar a trazer o rei? "
" E a Amasa direis: Porventura não és tu meu osso e minha carne? Assim me faça Deus, e outro tanto, se não fores capitão do arraial diante de mim para sempre, em lugar de Joabe. "
" Assim moveu ele o coração de todos os homens de Judá, como o de um só homem; e enviaram ao rei, dizendo: Volta tu com todos os teus servos. "
" Então o rei voltou, e chegou até ao Jordão; e Judá veio a Gilgal, para ir encontrar-se com o rei, ao outro lado do Jordão. "
" E apressou-se Simei, filho de Gera, benjamita, que era de Baurim; e desceu com os homens de Judá a encontrar-se com o rei Davi. "
" E com ele mil homens de Benjamim, como também Ziba, servo da casa de Saul, e seus quinze filhos, e seus vinte servos com ele; e prontamente passaram o Jordão adiante do rei. "
" E, atravessando a barca, para fazer passar a casa do rei e para fazer o que bem parecesse aos seus olhos, então Simei, filho de Gera, se prostrou diante do rei, quando ele passava o Jordão. "
" E disse ao rei: Não me impute meu senhor a minha culpa, e não te lembres do que tão perversamente fez teu servo, no dia em que o rei meu senhor saiu de Jerusalém; não conserve o rei isso no coração. "
" Porque teu servo deveras confessa que pecou; porém eis que eu sou o primeiro que de toda a casa de José desci a encontrar-me com o rei meu senhor. "
" Então respondeu Abisai, filho de Zeruia, e disse: Não morreria, pois, Simei por isto, havendo amaldiçoado ao ungido do Senhor? "
" Porém Davi disse: Que tenho eu convosco, filhos de Zeruia, para que hoje me sejais adversários? Morreria alguém hoje em Israel? Pois porventura não sei que hoje fui feito rei sobre Israel? "
" E disse o rei a Simei: Não morrerás. E o rei lho jurou. "
" Também Mefibosete, filho de Saul, desceu a encontrar-se com o rei, e não tinha lavado os pés, nem tinha feito a barba, nem tinha lavado as suas vestes desde o dia em que o rei tinha saído até ao dia em que voltou em paz. "
" E sucedeu que, vindo ele a Jerusalém a encontrar-se com o rei, disse-lhe o rei: Por que não foste comigo, Mefibosete? "
" E disse ele: Ó rei meu senhor, o meu servo me enganou; porque o teu servo dizia: Albardarei um jumento, e nele montarei, e irei com o rei; pois o teu servo é coxo. "
" Demais disto, falsamente acusou a teu servo diante do rei meu senhor; porém o rei meu senhor é como um anjo de Deus; faze, pois, o que parecer bem aos teus olhos. "
" Porque toda a casa de meu pai não era senão de homens dignos de morte diante do rei meu senhor; e contudo puseste a teu servo entre os que comem à tua mesa; e que mais direito tenho eu de clamar ao rei? "
" E disse-lhe o rei: Por que ainda mais falas de teus negócios? Já disse eu: Tu e Ziba reparti as terras. "
" E disse Mefibosete ao rei: Tome ele também tudo; pois já veio o rei meu senhor em paz à sua casa. "
" Também Barzilai, o gileadita, desceu de Rogelim, e passou com o rei o Jordão, para o acompanhar ao outro lado do Jordão. "
" E era Barzilai muito velho, da idade de oitenta anos; e ele tinha sustentado o rei, quando tinha a sua morada em Maanaim, porque era grande homem. "
" E disse o rei a Barzilai: Passa tu comigo, e sustentar-te-ei comigo em Jerusalém. "
" Porém Barzilai disse ao rei: Quantos serão os dias dos anos da minha vida, para que suba com o rei a Jerusalém? "
" Da idade de oitenta anos sou eu hoje; poderia eu discernir entre o bom e o mau? Poderia o teu servo ter gosto no que comer e beber? Poderia eu mais ouvir a voz dos cantores e cantoras? E por que será o teu servo ainda pesado ao rei meu senhor? "
" Com o rei passará teu servo ainda um pouco mais além do Jordão; e por que me recompensará o rei com tal recompensa? "
" Deixa voltar o teu servo, e morrerei na minha cidade, junto à sepultura de meu pai e de minha mãe; mas eis aí está o teu servo Quimã; passe ele com o rei meu senhor, e faze-lhe o que bem parecer aos teus olhos. "
" Então disse o rei: Quimã passará comigo, e eu lhe farei como bem parecer aos teus olhos, e tudo quanto me pedires te farei. "
" Havendo, pois, todo o povo passado o Jordão, e passando também o rei, beijou o rei a Barzilai, e o abençoou; e ele voltou para o seu lugar. "
" E dali passou o rei a Gilgal, e Quimã passou com ele; e todo o povo de Judá conduziu o rei, como também a metade do povo de Israel. "
" E eis que todos os homens de Israel vieram ao rei, e disseram ao rei: Por que te furtaram nossos irmãos, os homens de Judá, e conduziram o rei e a sua casa dalém do Jordão, e todos os homens de Davi com eles? "
" Então responderam todos os homens de Judá aos homens de Israel: Porquanto o rei é nosso parente; e por que vos irais por isso? Porventura comemos às custas do rei, ou nos deu algum presente? "
" E responderam os homens de Israel aos homens de Judá, e disseram: Dez partes temos no rei, e até em Davi mais temos nós do que vós; por que, pois, não fizestes conta de nós, para que a nossa palavra não fosse a primeira, para tornar a trazer o nosso rei? Porém a palavra dos homens de Judá foi mais forte do que a palavra dos homens de Israel. "
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