2 Samuel 15:1
" E aconteceu depois disto que Absalão fez aparelhar carros e cavalos, e cinqüenta homens que corressem adiante dele. "
Entenda os temas principais e aplique 2 Samuel 15 na sua vida hoje
37 versículos | Almeida Corrigida Fiel
Absalão usa charme, proximidade e um discurso de justiça para minar silenciosamente o governo de Davi e conquistar o afeto de Israel. Ele se coloca como defensor do povo, enquanto prepara um golpe contra o rei legítimo.
Davi, diante da notícia da traição, age com rapidez, realismo e cuidado com o povo. Ele foge de Jerusalém não por covardia, mas para evitar um banho de sangue na cidade, mostrando um coração de pastor mesmo em meio à própria dor.
Enquanto Absalão conquista seguidores pela aparência, Davi é cercado por leais que o acompanham em sofrimento, como Itai, os giteus, os quereteus, os peleteus, Zadoque, Abiatar e Husai. A fidelidade deles se evidencia no momento de perda e não de glória.
Subindo o monte das Oliveiras chorando, descalço e de cabeça coberta, Davi vive um momento de profunda humilhação. Ainda assim, entrega seu futuro a Deus, reconhecendo que o Senhor pode restaurá-lo ou não, conforme a Sua vontade.
Aitofel, conselheiro renomado, une-se a Absalão, aumentando o perigo para Davi. Em resposta, Davi ora para que o conselho de Aitofel seja confundido e providencia a presença de Husai em Jerusalém para neutralizar a estratégia do inimigo.
2 Samuel 15 situa-se na fase mais tardia do reinado de Davi, após seus grandes triunfos militares e também depois do episódio com Bate-Seba e Urias, e das consequências familiares e nacionais que se seguiram. Absalão, um dos filhos de Davi, já havia passado por conflitos sérios: vingou a irmã Tamar matando Amnom, fugiu para Gesur e depois retornou a Jerusalém com reconciliação parcial. O texto mostra um período politicamente delicado, em que o prestígio do rei convive com tensões internas e insatisfações no povo.
A porta da cidade (v.2) era o lugar oficial de julgamentos e decisões públicas em Israel. Nela se reuniam líderes, anciãos e juízes. Ao posicionar-se ali, Absalão se apropria simbolicamente de uma função judicial, insinuando que o sistema de justiça do reino estava falhando. Hebrom (v.7-10), onde ele se proclama rei, era uma cidade com grande importância histórica: ali Davi havia sido ungido rei sobre Judá e ali estava enraizado apoio tribal. Proclamar-se rei ali tinha forte peso político e simbólico.
A arca da aliança (v.24-29) representava a presença de Deus no meio do povo. Em momentos anteriores, líderes israelitas tentaram usar a arca quase como amuleto de guerra. Davi, neste capítulo, recusa instrumentalizar a arca para garantir seu poder, preferindo confiar no juízo de Deus. O monte das Oliveiras (v.30) fica a leste de Jerusalém; a caminhada chorosa de Davi por essa encosta marca um êxodo temporário do rei e antecipa, de forma impressionante, cenas futuras de sofrimento e oração nesse mesmo lugar.
Aitofel (v.12, 31) era um conselheiro extremamente respeitado de Davi, cuja traição representa grande perda estratégica. Husai, o arquita (v.32-37), é apresentado como “amigo de Davi”, título que indica uma função de confiança no entorno real. Zadoque e Abiatar (v.24-29, 35-36) são sacerdotes que representam a continuidade da adoração ao Senhor em meio à instabilidade política, e também se tornam peças-chave na obtenção de informações para Davi.
O capítulo pode ser dividido em blocos bem definidos, que constroem uma crescente tensão narrativa:
A sedução política de Absalão (vv.1-6) – A descrição detalhada dos carros, cavalos, homens correndo adiante, gestos de proximidade (beijos, apertos de mão) e discurso de justiça mostra um processo calculado de conquista de popularidade.
O pretexto religioso e a proclamação de Absalão em Hebrom (vv.7-12) – O voto ao Senhor serve como cobertura para deslocar-se a Hebrom, onde a conspiração é organizada e fortalecida com a adesão de homens influentes, como Aitofel.
A notícia da traição e a decisão de Davi de fugir (vv.13-18) – Com um relato direto da mensagem recebida, o texto mostra a reação rápida de Davi, o consenso dos servos fiéis e o início da retirada da cidade.
O encontro com Itai e o teste de lealdade (vv.19-22) – Um diálogo intenso destaca a fidelidade de um estrangeiro, contrastando com a traição de um filho israelita. A resposta de Itai assume a forma de juramento solene.
A arca, os sacerdotes e a confiança de Davi em Deus (vv.23-29) – A narrativa alterna entre a emoção coletiva (o choro da terra) e as instruções cuidadosas de Davi a Zadoque e Abiatar, sublinhando fé e prudência.
A subida chorando ao monte das Oliveiras (vv.30-31) – Descrição altamente simbólica e emotiva: lágrimas, pés descalços, cabeça coberta. O anúncio da traição de Aitofel é imediatamente seguido por uma oração breve e intensa.
A estratégia com Husai e a rede de informações (vv.32-37) – Davi combina fé e planejamento. O encontro com Husai leva à montagem de uma estrutura de contra-conselho, envolvendo sacerdotes e seus filhos como mensageiros. O capítulo termina com o contraste entre Husai chegando à cidade e Absalão entrando em Jerusalém, preparando a cena para o confronto subsequente.
2 Samuel 15 apresenta várias dimensões teológicas importantes relacionadas a pecado, disciplina divina, liderança e confiança em Deus.
A conspiração de Absalão aparece como fruto de uma cadeia de desordens morais e familiares que já vinha se desenvolvendo na casa de Davi. O texto não relaciona explicitamente cada evento à profecia de Natã, mas o pano de fundo da disciplina divina está presente: o mal que Davi semeou agora se manifesta em conflitos internos, inclusive no ambiente doméstico.
O capítulo enfatiza a soberania de Deus sobre o trono, acima dos jogos políticos humanos. Absalão trabalha sistematicamente para se tornar rei, utilizando carisma, engano e até linguagem religiosa. Em contraste, Davi se recusa a manipular a arca ou a usar símbolos sagrados para garantir sua posição. Em vez disso, entrega sua situação nas mãos do Senhor: se Deus quiser, o trará de volta; se não, ele se submete (vv.25-26). Essa postura ilustra a fé madura que reconhece Deus como verdadeiro Rei e Senhor da história.
Também se observa a tensão entre responsabilidade humana e confiança em Deus. Davi ora para que o conselho de Aitofel seja frustrado (v.31), e, ao mesmo tempo, toma medidas concretas, enviando Husai a Jerusalém e estabelecendo uma rede de comunicação. Fé não é passividade, mas confiança que age com prudência e discernimento.
No plano da teologia do coração, o texto mostra que os corações podem ser “furtados” (v.6) por discursos agradáveis, mas nem sempre verdadeiros. A narrativa alerta para o perigo de se medir a legitimidade de uma liderança apenas pela simpatia popular, sem considerar a fidelidade a Deus. Ao mesmo tempo, evidencia que a verdadeira lealdade se revela na adversidade: estrangeiros e servos exilados demonstram mais fidelidade ao ungido do Senhor do que muitos conterrâneos.
Por fim, a humilhação de Davi, subindo o monte das Oliveiras em lágrimas, ecoa o tema bíblico do servo sofredor e do rei que passa pelo vale da aflição antes da restauração. A figura do rei em vergonha, mas ainda dependente de Deus, aponta para um padrão de liderança que passa pelo sofrimento, entregando-se nas mãos do Pai e esperando a restauração conforme a vontade divina.
Este capítulo percorre emoções humanas profundas: traição, medo, vergonha, perda de controle, lealdade, esperança em meio à dor. A história de Davi em fuga mostra como uma pessoa pode ser atingida por decisões erradas do passado, conflitos familiares e injustiças presentes, e ainda assim encontrar um modo de seguir adiante com dignidade e fé.
Há um retrato realista da experiência da traição: Davi é abandonado por um filho e por conselheiros de confiança, enquanto ouve que “o coração” de Israel está com Absalão. Isso toca em feridas de rejeição, sensação de substituição e perda de lugar. Ao mesmo tempo, o texto mostra que nem toda perda é total: na hora da crise, surgem lealdades inesperadas, como a de Itai e de guerreiros estrangeiros.
O lamento coletivo – a terra chorando, o povo chorando, Davi chorando, caminhando descalço e de cabeça coberta – legitima o choro e a expressão visível da dor. Não há tentativa de mascarar ou apressar o sofrimento. O capítulo mostra que é possível estar profundamente abalado e ainda assim continuar caminhando, fazendo escolhas responsáveis e buscando direção em Deus.
A postura de Davi diante da arca e sua declaração “eis-me aqui, faça de mim como parecer bem aos seus olhos” revelam um tipo de entrega que pode aliviar o peso da necessidade de controlar tudo. Em contextos de crise, essa atitude de confiança pode ajudar a reorganizar internamente o caos, reconhecendo limites pessoais e reafirmando que há um Senhor acima das circunstâncias.
Também há um elemento terapêutico na presença de amizades e alianças fiéis. A figura de Husai, que chega com roupas rasgadas, partilha da dor de Davi e se coloca à disposição, mostra o valor de alguém que se identifica com o sofrimento e atua com sabedoria para o bem do outro. A narrativa lembra que a cura e a sobrevivência em tempos difíceis muitas vezes passam por relacionamentos leais e por uma rede de apoio.
O capítulo traz vários elementos que podem ser gatilho emocional para algumas pessoas:
Conflitos familiares intensos e traição de filho contra pai – Para quem viveu rompimentos familiares, rebelião de filhos, abusos ou abandono por parentes próximos, a conspiração de Absalão pode reavivar dores profundas.
Sensação de rejeição e perda de lugar – A frase de que o coração de Israel segue Absalão pode tocar pessoas que se sentiram trocadas, substituídas ou deixadas de lado em relacionamentos, comunidades ou ambientes de trabalho.
Culpa ligada a consequências do passado – O contexto da vida de Davi pode lembrar a alguns leitores erros antigos que geram efeitos prolongados, ativando sentimentos de culpa, vergonha e desesperança quanto à possibilidade de restauração.
Imagens fortes de lamento e humilhação pública – A descrição de Davi e do povo chorando, caminhando descalços, de cabeça coberta, pode ser difícil para quem já passou por situações públicas de humilhação, exposição ou perda.
Temas de perseguição e fuga – A necessidade de deixar a cidade às pressas, por risco de morte e violência, pode ser sensível para pessoas que enfrentaram deslocamento forçado, violência doméstica, perseguição ou ambientes inseguros.
Em experiências de leitura pessoal, pode ser importante processar essas emoções com calma, talvez com apoio de conselheiros maduros ou profissionais de saúde emocional, especialmente quando o texto desperta lembranças traumáticas ou sentimentos intensos.
2 Samuel 15 oferece lições práticas relevantes para relacionamentos, liderança e decisões em tempos de crise.
Na esfera dos relacionamentos e da comunidade, o capítulo alerta sobre o poder da manipulação emocional. Absalão conquista o povo por meio de proximidade, elogios e promessas, mas com um propósito oculto. Isso ajuda a avaliar melhor discursos sedutores que criticam a liderança vigente e se apresentam como a solução perfeita para todas as injustiças, seja em famílias, igrejas, trabalho ou política. A integridade do caráter importa mais do que a simpatia momentânea.
Na liderança – formal ou informal –, Davi mostra o valor de cuidar das pessoas mesmo quando está em desvantagem. Ele prefere sair de Jerusalém a arriscar a destruição da cidade. Em contextos de conflito, essa atitude ensina a priorizar o bem comum em vez de insistir em manter o próprio status a qualquer custo.
Em tempos de crise pessoal, a combinação de fé e planejamento é exemplar. Davi não se paralisa: toma decisões, organiza quem fica, quem vai, estabelece comunicação e pede ajuda. Ao mesmo tempo, reconhece que o resultado final está nas mãos de Deus. Isso inspira uma postura de responsabilidade ativa: fazer o que está ao alcance, sem tentar controlar o incontrolável.
O valor da lealdade também se destaca. A fidelidade de Itai, dos guerreiros estrangeiros e de Husai demonstra que amizades verdadeiras se revelam na adversidade. Na prática, isso incentiva a cultivar relacionamentos marcados por compromisso e verdade, e não apenas conexões convenientes.
Além disso, o capítulo legitima o luto e o choro. Em vez de esconder a dor para preservar a imagem, Davi chora e se humilha. Essa transparência pode encorajar ambientes familiares e comunitários em que as pessoas não precisem fingir força o tempo todo, mas possam expressar dor de forma saudável, sem perder a dignidade.
Por fim, a atitude de Davi diante da arca sugere prudência no uso de símbolos e discursos religiosos. Em decisões complexas, é importante não usar o nome de Deus como justificativa automática para projetos pessoais, mas buscar discernimento, submissão e humildade diante da vontade do Senhor.
Absalão se posicionava à porta da cidade porque ali era o lugar de julgamentos e decisões públicas em Israel. Ao antecipar-se ao atendimento que normalmente caberia ao rei ou aos oficiais do rei, ele criava a impressão de que se importava mais com as causas do povo do que a liderança vigente. Ao afirmar que ninguém os ouvia da parte do rei e ao prometer que faria justiça se fosse juiz, Absalão minava a confiança no governo de Davi e conquistava o coração de muitos israelitas.
A expressão indica que Absalão conquistava o afeto, a confiança e a lealdade do povo, afastando-os do rei Davi. Por meio de gestos de proximidade, elogios, escuta aparente e promessas de justiça, ele estimulava a insatisfação e atraía os israelitas para si. Não é apenas uma mudança política, mas um deslocamento afetivo e emocional do povo em relação ao rei legítimo.
Davi entendeu que, se ficasse em Jerusalém para resistir, a cidade poderia ser gravemente atingida. Ele não tinha garantia de que conseguiria organizar defesa adequada antes do avanço de Absalão, e temia que a capital sofresse grande violência. Ao sair, ele protege a população e busca ganhar tempo para avaliar a situação. A decisão mistura prudência militar, cuidado pastoral com o povo e reconhecimento de que a crise era profunda demais para uma simples reação impulsiva.
Embora a arca simbolizasse a presença de Deus, Davi recusou usá-la como instrumento para garantir sua segurança ou seu trono. Ao mandá-la de volta à cidade, ele reconhece que Jerusalém continua sendo o centro do culto ao Senhor, independentemente de sua situação pessoal. Ele entrega seu futuro a Deus: se o Senhor quiser, o trará de volta para ver a arca e a habitação divina; se não quiser, Davi se submete. Assim, ele evita transformar o símbolo sagrado em objeto de uso político.
Itai era um estrangeiro de Gate, líder de um grupo de guerreiros giteus que haviam se juntado a Davi. Ainda recém-chegado, ele não estava preso a laços antigos com o rei. Mesmo assim, declara uma lealdade radical: onde estivesse Davi, para vida ou para morte, ele estaria também. A narrativa destaca essa atitude para mostrar que a verdadeira fidelidade pode vir de onde menos se espera e para contrastar a lealdade de um estrangeiro com a traição de um filho israelita.
Aitofel era um conselheiro de altíssima reputação de Davi; sua adesão à conspiração de Absalão representava grande perigo, pois suas orientações eram consideradas extremamente sábias. Diante disso, Davi ora pedindo que Deus confunda o conselho de Aitofel e, ao mesmo tempo, envia Husai de volta a Jerusalém. Husai se apresenta a Absalão como servo, mas, na verdade, tem a missão de influenciar as decisões e enfraquecer o impacto das estratégias de Aitofel. A disputa entre os conselhos dos dois mostra que a crise não é apenas militar, mas também de sabedoria e direção, e que Deus pode agir confundindo planos aparentemente imbatíveis.
2 Samuel 15 é um retrato muito sensível de um coração ferido. Davi não sofre apenas uma ameaça política; sofre a ruptura de laços profundos: um filho se volta contra ele, um conselheiro de confiança o abandona, o povo que ele serviu tantos anos agora corre para outra voz. É o tipo de dor que toca a área mais íntima da identidade e do afeto. A narrativa não esconde o choro. A terra chora, o povo chora, o rei chora. A Bíblia dá espaço para essa expressão: o luto não é sinal de fraqueza, mas parte da verdade do que se passa por dentro. A imagem de Davi subindo o monte das Oliveiras, descalço, de cabeça coberta, em lágrimas, mostra alguém que perdeu quase tudo visivelmente, mas que ainda se agarra à presença de Deus. Ele não precisa fingir força; ele apenas continua caminhando, um passo depois do outro, com dor e com fé. Nesse capítulo, a fidelidade de pessoas como Itai, os guerreiros estrangeiros, Husai, Zadoque e Abiatar funciona como um consolo em meio ao abandono. O coração de Davi está estraçalhado, mas não está sozinho. A narrativa revela esse misto de perda e de cuidado: ao mesmo tempo em que muitos o traem, alguns permanecem ao lado dele, partilham lágrimas, assumem riscos, carregam o peso junto. Em tempos de grande dor, Deus muitas vezes usa presenças leais assim para lembrar que ainda há amor e apoio. Há também consolo na entrega que Davi faz: ele reconhece que talvez não volte, mas se coloca nas mãos de Deus – “eis-me aqui”. Quando tudo parece sair do controle, essa atitude pode aliviar um pouco o peso: não há como garantir resultados, mas há como confiar que a própria vida está nas mãos de um Deus que vê lágrimas, ouve orações curtas, como a de Davi sobre Aitofel, e permanece presente mesmo quando tudo à volta parece ruir.
Do ponto de vista exegético, 2 Samuel 15 marca o início explícito da rebelião de Absalão contra Davi. A narrativa é construída com cuidado literário para mostrar um processo progressivo: primeiro a conquista do povo, depois o movimento estratégico a Hebrom, então a proclamação real e, finalmente, o reposicionamento de Davi em fuga. O texto destaca a habilidade política de Absalão: carros, cavalos, séquito (v.1) remetem à imagem de realeza e poder militar. Sua postura na porta da cidade (v.2) é significativa, pois ali se concentrava a administração da justiça. Ao afirmar que as causas do povo são justas, mas que não há quem as ouça da parte do rei (v.3), ele sugere um vácuo na justiça oficial. A declaração “quem me dera ser juiz” (v.4) sintetiza a estratégia: ele se apresenta como alternativa ideal. O uso de um voto em Hebrom (vv.7-9) é teologicamente e politicamente ambíguo: em nível de aparência, é devoção religiosa; na realidade, é pretexto para consolidar apoio distante de Jerusalém. O lugar escolhido, Hebrom, guarda memória de Davi como rei inicial, o que confere peso simbólico à proclamação de Absalão (v.10). Os 200 homens que o acompanham “na sua simplicidade” (v.11) reforçam o tom de engano: nem todos os envolvidos têm plena consciência da conspiração. A resposta de Davi, ao receber a notícia (vv.13-14), não é mera fuga; revela análise realista da correlação de forças e preocupação com a segurança de Jerusalém. A declaração de seus servos (v.15) ressalta que o rei ainda possui um núcleo fiel. A inclusão de grupos como quereteus, peleteus e giteus (v.18) destaca a presença significativa de estrangeiros na guarda real, algo coerente com outros textos históricos do período de Davi. Teologicamente relevante é a atitude de Davi em relação à arca (vv.24-29). Ao recusá-la em seu deslocamento, ele demonstra compreensão da centralidade de Jerusalém como lugar da habitação simbólica de Deus e rejeita o uso instrumental do sagrado. A frase “se achar graça nos olhos do Senhor” (v.25) e a disposição de aceitar a possibilidade de rejeição divina (v.26) revelam profunda consciência da soberania de Deus. A menção de Aitofel (v.31) antecipa a importância de seu papel nos capítulos seguintes. A oração de Davi para que o conselho de Aitofel se torne loucura, seguida imediatamente pela chegada de Husai (v.32), sugere uma conexão entre a petição e a providência de Deus, embora o texto não o explicite de forma direta. A estratégia de usar Husai, em cooperação com Zadoque e Abiatar, cria uma rede de contra-informação que será decisiva mais adiante. Literariamente, o capítulo encerra com a imagem de Husai entrando em Jerusalém ao mesmo tempo em que Absalão entra (v.37). Esse paralelismo prepara o leitor para o confronto de conselhos que virá, ao mesmo tempo em que ressalta que, mesmo em aparente desvantagem, Davi não está sem recursos humanos e, sobretudo, não está fora do alcance da intervenção divina.
2 Samuel 15 traz vários princípios práticos para situações de liderança, relacionamentos e crises pessoais. Absalão mostra como é possível conquistar apoio com gestos e discursos atraentes, mas com intenções equivocadas. Ele ouve, toca, beija, elogia, promete justiça – tudo isso o torna querido. Porém, seu objetivo é tomar o lugar do rei. Isso alerta, na vida real, para líderes e influenciadores que se aproximam com aparente empatia, enquanto enfraquecem a confiança em quem está à frente, criando divisões em equipes, igrejas, famílias ou grupos de trabalho. A forma como Davi reage à ameaça ensina a lidar com conflitos grandes. Ele não fica paralisado, nem nega a gravidade da situação. Reconhece o perigo, toma decisões rápidas, organiza quem vai com ele e quem deve ficar, delega funções, cria meios de comunicação por meio dos sacerdotes e dos filhos deles. Em contextos de crise – seja um conflito familiar, uma mudança brusca no trabalho ou um problema comunitário –, a combinação de lucidez, agilidade e cuidado com as pessoas é essencial. O cuidado de Davi com Jerusalém mostra uma prioridade prática: ele pensa no impacto das suas escolhas sobre os outros. Ao invés de insistir em defender sua posição a qualquer custo, prefere recuar para proteger a cidade. Isso serve de parâmetro para decidir em situações em que manter o próprio prestígio pode significar expor outros a danos desnecessários. O capítulo também ressalta o valor da lealdade nos relacionamentos. A atitude de Itai, que escolhe seguir Davi mesmo sem garantias de vitória, mostra uma fidelidade que não depende de conveniência. Em termos práticos, isso incentiva a ser alguém confiável, que não abandona compromissos assim que a situação se complica, e também a reconhecer e valorizar pessoas que permanecem ao lado na adversidade. Ao devolver a arca para Jerusalém, Davi oferece uma lição sobre não usar o nome de Deus para sustentar projetos pessoais. Na prática, isso significa evitar justificar planos com uma linguagem espiritual apenas para conquistarem apoio, sem uma postura verdadeira de submissão à vontade divina. Em decisões difíceis, é mais saudável admitir incertezas, buscar conselho sábio, orar com sinceridade e aceitar que a resposta nem sempre será a confirmação dos próprios desejos. Por fim, a exposição pública da dor de Davi ensina sobre autenticidade. Fingir invulnerabilidade pode isolar e adoecer. A narrativa mostra um líder que chora, se humilha, mas continua liderando e organizando. Para o cotidiano, isso sugere que admitir limitações, cansaço e tristeza não invalida a responsabilidade; pelo contrário, pode abrir espaço para apoio mútuo e decisões mais sensatas.
" E aconteceu depois disto que Absalão fez aparelhar carros e cavalos, e cinqüenta homens que corressem adiante dele. "
" Também Absalão se levantou pela manhã, e parava a um lado do caminho da porta. E sucedia que a todo o homem que tinha alguma demanda para vir ao rei a juízo, o chamava Absalão a si, e lhe dizia: De que cidade és tu? E, dizendo ele: De uma das tribos de Israel é teu servo; "
" Então Absalão lhe dizia: Olha, os teus negócios são bons e retos, porém não tens quem te ouça da parte do rei. "
" Dizia mais Absalão: Ah, quem me dera ser juiz na terra, para que viesse a mim todo o homem que tivesse demanda ou questão, para que lhe fizesse justiça! "
" Sucedia também que, quando alguém se chegava a ele para se inclinar diante dele, ele estendia a sua mão, e pegava dele, e o beijava. "
" E desta maneira fazia Absalão a todo o Israel que vinha ao rei para juízo; assim furtava Absalão o coração dos homens de Israel. "
" Aconteceu, pois, ao cabo de quarenta anos, que Absalão disse ao rei: Deixa-me ir pagar em Hebrom o meu voto que fiz ao Senhor. "
" Porque, morando eu em Gesur, na Síria, fez o teu servo um voto, dizendo: Se o Senhor outra vez me fizer tornar a Jerusalém, servirei ao Senhor. "
" Então lhe disse o rei: Vai em paz. Levantou-se, pois, e foi para Hebrom. "
" E enviou Absalão espias por todas as tribos de Israel, dizendo: Quando ouvirdes o som das trombetas, direis: Absalão reina em Hebrom. "
" E de Jerusalém foram com Absalão duzentos homens convidados, porém iam na sua simplicidade, porque nada sabiam daquele negócio. "
" Também Absalão mandou vir Aitofel, o gilonita, do conselho de Davi, à sua cidade de Giló, estando ele oferecendo os seus sacrifícios; e a conjuração se fortificava, e vinha o povo, e ia crescendo com Absalão. "
" Então veio um mensageiro a Davi, dizendo: O coração de cada um em Israel segue a Absalão. "
" Disse, pois, Davi a todos os seus servos que estavam com ele em Jerusalém: Levantai-vos, e fujamos, porque não poderíamos escapar diante de Absalão. Dai-vos pressa a caminhar, para que porventura não se apresse ele, e nos alcance, e lance sobre nós algum mal, e fira a cidade a fio de espada. "
" Então os servos do rei disseram ao rei: Eis aqui os teus servos, para tudo quanto determinar o rei, nosso senhor. "
" E saiu o rei, com toda a sua casa, a pé; deixou, porém, o rei dez mulheres concubinas, para guardarem a casa. "
" Tendo, pois, saído o rei com todo o povo a pé, pararam num lugar distante. "
" E todos os seus servos iam a seu lado, como também todos os quereteus e todos os peleteus; e todos os giteus, seiscentos homens que vieram de Gate a pé, caminhavam diante do rei. "
" Disse, pois, o rei a Itai, o giteu: Por que irias tu também conosco? Volta-te, e fica-te com o rei, porque és estrangeiro, e também desterrado de teu lugar. "
" Ontem vieste, e te levaria eu hoje conosco a caminhar? Pois eu vou para onde puder ir; volta, pois, e torna a levar teus irmãos contigo, com beneficência e fidelidade. "
" Respondeu, porém, Itai ao rei, e disse: Vive o SENHOR, e vive o rei meu senhor, que no lugar em que estiver o rei meu senhor, seja para morte seja para vida, aí certamente estará também o teu servidor. "
" Então Davi disse a Itai: Vem, pois, e passa adiante. Assim passou Itai, o giteu, e todos os seus homens, e todas as crianças que havia com ele. "
" E toda a terra chorava a grandes vozes, passando todo o povo; também o rei passou o ribeiro de Cedrom, e passou todo o povo na direção do caminho do deserto. "
" Eis que também Zadoque ali estava, e com ele todos os levitas que levavam a arca da aliança de Deus; e puseram ali a arca de Deus, e subiu Abiatar, até que todo o povo acabou de passar da cidade. "
" Então disse o rei a Zadoque: Torna a levar a arca de Deus à cidade; que, se achar graça nos olhos do Senhor, ele me tornará a trazer para lá e me deixará ver a ela e a sua habitação. "
" Se, porém, disser assim: Não tenho prazer em ti; eis-me aqui, faça de mim como parecer bem aos seus olhos. "
" Disse mais o rei a Zadoque, o sacerdote: Não és tu porventura vidente? Torna, pois, em paz para a cidade, e convosco também vossos dois filhos, Aimaás, teu filho, e Jônatas, filho de Abiatar. "
" Olhai que me demorarei nas campinas do deserto até que tenha notícias vossas. "
2 Samuel 15:28 mostra Davi fugindo de Absalão e combinando um sinal com os mensageiros: ele esperaria notícias no deserto. O versículo ensina a importância …
Ler análise completa" Zadoque, pois, e Abiatar, tornaram a levar para Jerusalém a arca de Deus; e ficaram ali. "
" E seguiu Davi pela encosta do monte das Oliveiras, subindo e chorando, e com a cabeça coberta; e caminhava com os pés descalços; e todo o povo que ia com ele cobria cada um a sua cabeça, e subiam chorando sem cessar. "
" Então fizeram saber a Davi, dizendo: Também Aitofel está entre os que se conjuraram com Absalão. Pelo que disse Davi: Ó Senhor, peço-te que torne em loucura o conselho de Aitofel. "
" E aconteceu que, chegando Davi ao cume, para adorar ali a Deus, eis que Husai, o arquita, veio encontrar-se com ele com a roupa rasgada e terra sobre a cabeça. "
" E disse-lhe Davi: Se passares comigo, ser-me-ás pesado. "
" Porém se voltares para a cidade, e disseres a Absalão: Eu serei, ó rei, teu servo; bem fui antes servo de teu pai, mas agora serei teu servo; dissipar-me-ás então o conselho de Aitofel. "
" E não estão ali contigo Zadoque e Abiatar, sacerdotes? E será que todas as coisas que ouvires da casa do rei, farás saber a Zadoque, e a Abiatar, sacerdotes. "
" Eis que estão também ali com eles seus dois filhos, Aimaás filho de Zadoque, e Jônatas filho de Abiatar; pela mão deles aviso me mandareis, de todas as coisas que ouvirdes. "
" Husai, pois, amigo de Davi, veio para a cidade; e Absalão entrou em Jerusalém. "
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