Juízes 19:1
" Aconteceu também naqueles dias, em que não havia rei em Israel, que houve um homem levita, que, peregrinando aos lados da montanha de Efraim, tomou para si uma concubina, de Belém de Judá. "
Entenda os temas principais e aplique Juízes 19 na sua vida hoje
30 versículos | Almeida Corrigida Fiel
A frase de abertura, lembrando que não havia rei em Israel, prepara o leitor para um relato em que a ausência de liderança justa se reflete em caos social, violência e falta de temor a Deus. A narrativa mostra uma sociedade sem freios morais, onde até o povo de Deus age como as nações mais perversas.
A dificuldade do levita em encontrar hospedagem em Gibeá e o contraste entre a hospitalidade do ancião estrangeiro na cidade e a crueldade dos homens de Benjamim destacam a ruína de um valor essencial na cultura bíblica: acolher e proteger o viajante sob o próprio teto.
A concubina é tratada como objeto: primeiro numa relação conjugal desestruturada, depois oferecida para proteger o hóspede, violentada brutalmente a noite toda e, por fim, esquartejada. O texto expõe sem adornos a desumanização, revelando a profundidade do pecado que distorce relações, corpos e dignidade.
Ao receberem as partes do corpo da concubina, as tribos de Israel reconhecem que algo sem precedentes aconteceu e são conclamadas a ponderar, considerar e falar. A atrocidade se torna um choque coletivo que expõe o estado espiritual da nação e prepara o cenário para o juízo e a guerra civil do capítulo seguinte.
O levita menciona estar indo à casa do Senhor, mas sua conduta em relação à concubina e sua decisão de entregá-la aos homens violentos revelam incoerência profunda entre discurso religioso e ética nas relações humanas.
Juízes 19 situa-se no período dos juízes, entre a conquista de Canaã e o estabelecimento da monarquia em Israel. Era uma época marcada por ciclos de infidelidade a Deus, opressão por inimigos, clamor e libertação. A expressão repetida em Juízes, inclusive no início deste capítulo, "naqueles dias não havia rei em Israel", resume a desordem política e espiritual do período.
Gibeá era uma cidade da tribo de Benjamim. A hospitalidade, elemento central na cultura do Antigo Oriente Médio, implicava acolher o viajante, prover alimento e, sobretudo, garantir a sua segurança. A falha de Gibeá em acolher o levita na praça, aliada ao ataque violento dos homens da cidade, mostra que a tribo de Benjamim havia absorvido práticas semelhantes às cidades cananeias mais corrompidas.
O fato de o levita enviar as partes do corpo da concubina às doze tribos está ligado ao costume de convocar a nação para guerra ou juízo coletivo por meio de um sinal chocante. Esse gesto comunica urgência e gravidade, exigindo resposta unificada das tribos. Assim, Juízes 19 prepara o cenário histórico-espiritual para os acontecimentos de Juízes 20–21, quando Israel quase extermina a tribo de Benjamim.
O texto também reflete a condição vulnerável das mulheres nesse contexto histórico: concubinas tinham status social inferior à esposa legítima, e decisões sobre seus corpos e destinos eram tomadas pelos homens. Essa realidade cultural não é endossada como ideal, mas exposta como parte da queda moral de Israel.
Juízes 19 é construído como um relato narrativo contínuo, com forte carga dramática e crescente tensão. A estrutura pode ser vista em alguns movimentos principais:
Introdução e contexto (v.1-3)
Demora na partida e insistência do sogro (v.4-10)
Jornada e busca de hospedagem (v.10-21)
Ataque dos homens ímpios de Gibeá (v.22-26)
Reação fria do levita e viagem de volta (v.27-28)
Gesto extremo e convocação nacional (v.29-30)
O texto usa repetições (hospitalidade, comer e beber, pedidos para ficar, o anoitecer) para criar ritmo, atrasar o enredo e aumentar a tensão até a explosão da violência. O contraste entre o dever de proteger o hóspede e a decisão de expor a mulher sublinha a inversão de valores.
Juízes 19 não traz ensinamentos doutrinários em forma de discurso, mas comunica verdades teológicas profundas por meio de uma narrativa chocante.
Pecado coletivo e corrupção interna O capítulo mostra que a maior ameaça a Israel nem sempre vem de fora, mas de dentro. Uma tribo de Israel passa a agir como Sodoma, sinalizando que o povo da aliança pode se tornar tão corrupto quanto as nações ao redor quando se afasta de Deus. O pecado não é apenas individual, mas estrutural e comunitário.
Ausência de rei e necessidade de liderança justa A menção inicial de que "não havia rei em Israel" aponta para a necessidade de uma liderança que exerça justiça, proteja os vulneráveis e mantenha o povo fiel à aliança. Ao mesmo tempo, o capítulo sugere que a raiz do problema não é apenas política, mas espiritual: sem reconhecer o reinado de Deus, nenhuma estrutura humana impede a decadência moral.
Dignidade humana e gravidade da violência A narrativa expõe, sem suavizar, o horror da violência sexual e do desprezo pela vida. Teologicamente, isso confronta qualquer visão que minimize o pecado. A brutalidade contra a concubina denuncia a violação do propósito criacional de Deus para a dignidade humana, especialmente na forma como as mulheres são tratadas.
Hipocrisia religiosa e ética distorcida O levita, ligado ao serviço religioso, menciona a "casa do Senhor", mas participa de decisões que sacrificam a vida da concubina para preservar a sua. A narrativa desmonta qualquer ideia de que status religioso, tradições ou linguagem piedosa garantam um coração alinhado com a justiça e a misericórdia de Deus.
Juízo inevitável O ato de enviar o corpo esquartejado convoca Israel ao juízo. Mesmo sem descrever ainda a guerra contra Benjamim, o capítulo prepara a compreensão de que Deus não ignora o mal. O clamor da injustiça exige resposta, ainda que por meio de conflitos dolorosos. A mensagem implícita é que sociedades que abandonam os caminhos de Deus colhem consequências severas.
Juízes 19 funciona, assim, como um espelho sombrio da condição humana afastada de Deus e como um apelo implícito por restauração, justiça verdadeira e um rei que governe segundo o coração de Deus.
Este capítulo descreve violência extrema, especialmente violência sexual, abandono e desumanização. Ler Juízes 19 pode tocar feridas profundas e reativar memórias difíceis em pessoas que já sofreram abuso, traição ou negligência. Também pode despertar sentimentos de indignação, tristeza, impotência e até revolta contra injustiças que parecem impunes.
Em termos de cuidado emocional, o texto mostra o que acontece quando faltam empatia, proteção e responsabilidade. A concubina é usada, exposta, violentada e depois tratada como objeto em um gesto político. Isso contrasta radicalmente com o valor que Deus atribui a cada pessoa.
Para quem lê, reconhecer que a Bíblia não esconde o sofrimento humano pode ajudar a validar a dor. A Escritura registra horrores reais, não os nega nem os romantiza. Isso abre espaço para lamentar, chorar o mal e reconhecer que Deus vê e leva a sério a injustiça. Ao mesmo tempo, pode despertar o desejo de contextos mais seguros, relações mais saudáveis e comunidades que protejam os vulneráveis.
O capítulo, por ser tão pesado, convida a um olhar cuidadoso sobre limites emocionais: nem sempre é recomendável meditar longamente nele em momentos de grande fragilidade. Ele é melhor compreendido no conjunto maior da história bíblica, que aponta para restauração, cura e justiça perfeita de Deus.
Juízes 19 contém conteúdos potencialmente desencadeadores para várias pessoas:
Pessoas com histórico de abuso sexual, violência doméstica, trauma complexo, luto recente por morte violenta ou exposição a crimes similares podem sentir forte angústia, ansiedade, flashbacks ou dissociação ao ler este capítulo.
Para quem se encontra emocionalmente vulnerável, pode ser prudente: - Ler o texto com acompanhamento pastoral ou em grupo seguro. - Fazer pausas durante a leitura, prestando atenção às próprias reações físicas e emocionais. - Lembrar que a narrativa descreve, mas não aprova, os atos cometidos. - Buscar apoio de profissionais de saúde mental ou conselheiros cristãos ao perceber reações intensas ligadas a traumas pessoais.
Juízes 19 é um relato difícil, mas levanta questões práticas sobre como comunidades e pessoas tratam os vulneráveis e lidam com o mal.
Valor da hospitalidade responsável O contraste entre a indiferença da cidade e o cuidado do ancião de Efraim ressalta a importância de acolher com responsabilidade, proteger em vez de expor. Em termos práticos, isso se traduz em criar ambientes seguros em igrejas, famílias e comunidades, onde quem chega seja visto, cuidado e protegido de abusos.
Proteção dos vulneráveis acima de interesses próprios O texto revela escolhas distorcidas: para preservar a própria segurança ou honra, mulheres são oferecidas e sacrificadas. Na prática, isso desafia a abandonar qualquer lógica que exponha os mais fracos para proteger reputações, instituições ou conveniências. Aponta para a necessidade de colocar a proteção de crianças, mulheres e pessoas em situação de fragilidade acima de qualquer interesse.
Enfrentamento do mal, não encobrimento O gesto extremo do levita, embora moralmente problemático em vários níveis, mostra que o pecado de Gibeá não poderia ser tratado com indiferença. Em termos práticos, comunidades de fé são chamadas a não encobrir abusos, mas a tratá-los com seriedade, buscando justiça, proteção às vítimas e arrependimento real.
Coerência entre devoção e ética Um personagem ligado à religião toma decisões profundamente injustas. Isso alerta contra a separação entre espiritualidade e vida diária. Prática devocional sem compromisso com justiça, cuidado e respeito à dignidade humana torna-se vazia e até cúmplice de males maiores.
Sensibilidade à dor do outro Embora o texto se concentre mais na indignação nacional do que na dor individual da concubina, a leitura atenta convida a perceber esse silêncio e a não repetir o mesmo padrão. Na prática, isso significa ouvir vítimas, levar suas histórias a sério, não culpá-las e não usá-las como meros símbolos em debates ou agendas, mas reconhecê-las como pessoas inteiras.
Juízes 19 mostra o estágio extremo de decadência moral em Israel quando o povo se afasta de Deus. A Bíblia não esconde o lado sombrio da história do povo de Deus, mas registra o pecado e suas consequências para revelar a gravidade do afastamento de Deus e a necessidade de restauração. Essa narrativa prepara o cenário para a crise nacional dos capítulos seguintes e, em termos mais amplos, ressalta a necessidade de um Rei justo e de um coração transformado.
O texto narra os fatos, mas não os apresenta como aprovados por Deus. A oferta da filha virgem e da concubina (v.24) e a decisão do levita de entregar sua concubina aos homens violentos (v.25) refletem a distorção moral da época, não um padrão divino. A própria indignação nacional (v.30) indica que algo profundamente errado aconteceu. A Bíblia frequentemente relata ações pecaminosas sem validá-las, deixando que o próprio contexto e a revelação mais ampla da vontade de Deus julguem esses atos.
O ato do levita, embora chocante, tinha o objetivo de provocar uma reação nacional à atrocidade cometida em Gibeá. No contexto da época, enviar partes do corpo era uma forma extrema de convocar as tribos para guerra ou juízo coletivo, comunicando que um crime sem precedentes havia sido cometido. O gesto não é apresentado como exemplo a ser seguido, mas como expressão do caos moral do período e como gatilho para a assembleia de Israel em Juízes 20.
Essa frase funciona como um comentário teológico sobre a situação descrita. Ela sugere que, sem liderança justa e sem submissão ao governo de Deus, o povo entra em anarquia moral. Ao longo de Juízes, essa expressão prepara o leitor para o surgimento da monarquia, apontando para a necessidade de um rei que exerça justiça. Ao mesmo tempo, a história mostra que o problema é mais profundo que a ausência de um governo humano: é a rejeição do senhorio de Deus sobre a vida do povo.
O capítulo expõe, de forma negativa, a desvalorização extrema da vida, especialmente da vida da concubina. Ela é tratada como propriedade, usada como escudo humano e depois como instrumento de denúncia política. Isso contrasta com a visão bíblica mais ampla, em que homens e mulheres são criados à imagem de Deus. O choque causado por essa história convida a reconhecer a gravidade da violência contra mulheres e a importância de protegê-las e honrá-las, em vez de aceitá-las como vítimas sacrificáveis.
Juízes 19 é um dos relatos mais dolorosos da Escritura. A história da concubina atravessa o capítulo quase sem voz, sem defesa, sem que alguém pare realmente para ver sua dor. O foco está nos movimentos dos homens à sua volta, nas decisões que tomam sobre o corpo e o destino dela. Essa assimetria ecoa muitas experiências humanas de abuso, abandono e injustiça em que quem sofre parece não ser ouvido. Ao mesmo tempo, o fato de Deus permitir que essa história esteja registrada nas Escrituras comunica algo importante: o sofrimento extremo, a violência sofrida e a humilhação não são apagados diante de Deus. A dor não é silenciada no relato bíblico. O texto reconhece que existiram vítimas reais, que passaram por horrores inimagináveis, e que o mal praticado contra elas não é ignorado. Este capítulo também mostra o impacto do ambiente ao redor: uma cidade inteira indiferente, homens dispostos a sacrificar os vulneráveis, uma cultura que prefere preservar a própria segurança em vez de proteger quem está em risco. Em termos de cuidado emocional, isso revela como a solidão no sofrimento aprofunda a ferida. Quando não há ninguém que se levante de forma corajosa para proteger, o trauma ganha proporções ainda mais devastadoras. O registro bíblico, porém, funciona como um testemunho: a injustiça não fica esquecida. O clamor por justiça chega a todo Israel, e a atrocidade cometida não passa em silêncio. Em linguagem de cuidado da alma, isso significa que histórias de abuso e violência merecem ser trazidas à luz, ouvidas com seriedade e tratadas com verdade, não escondidas. Ao se deparar com Juízes 19, uma leitura sensível percebe o peso e permite o lamento. Esse tipo de texto cria espaço para chorar não só pela concubina, mas por todas as pessoas que, ao longo da história, sofreram violência, foram descartadas ou usadas. A narrativa convida a uma postura de compaixão profunda por quem carrega marcas de traumas semelhantes, lembrando que, mesmo em contextos de grande confusão e pecado humano, Deus vê, conhece e não banaliza a dor das vítimas.
Do ponto de vista exegético e literário, Juízes 19 é um texto chave para entender o fechamento do livro de Juízes. Ele integra um apêndice (caps. 17–21) que não segue a sequência cronológica dos juízes, mas oferece um retrato teológico da condição de Israel: idolatria interna e colapso moral. A fórmula inicial, "naqueles dias, em que não havia rei em Israel", funciona como moldura interpretativa para essa narrativa e para o episódio de Mica e o levita em Juízes 17–18. Um ponto relevante é o paralelismo com Gênesis 19. Em ambas as histórias há viajantes acolhidos em casa, homens perversos da cidade cercando a casa à noite, exigindo "conhecer" (em sentido sexual) os hóspedes, e um anfitrião oferecendo mulheres em substituição. O autor de Juízes parece conscientemente retratar Gibeá como uma nova Sodoma, sugerindo que Israel se tornou semelhante à cidade paradigmática do juízo divino. O termo "filhos de Belial" reforça a ideia de perversão extrema. A escolha de não se hospedar em Jebus (cidade não israelita) e preferir Gibeá, cidade israelita, aprofunda o contraste: justamente entre o povo da aliança a corrupção atinge níveis sodomitas. O ancião de Efraim representa um resquício de hospitalidade correta, mas ele mesmo revela uma moralidade comprometida ao propor entregar mulheres indefesas à violência. Historicamente, a figura do levita é significativa. Levitas estavam associados ao serviço religioso, distribuídos entre as tribos, sem herança territorial própria. A aparente menção à "casa do Senhor" (v.18) sugere que o culto central ainda era reconhecido, mas exercido num contexto de desordem. A conduta do levita – especialmente ao entregar sua concubina e ao esquartejar o corpo – ilustra a desconexão entre identidade religiosa e ética da aliança. O gesto de enviar os pedaços do corpo às tribos tem paralelos com outras práticas do Antigo Oriente Médio, em que partes de um corpo ou objetos eram usados como convocação para guerra ou ato simbólico de aliança. Em 1 Samuel 11, Saul faz algo semelhante com bois, mas aqui a gravidade é maior por estar em jogo um corpo humano. Teologicamente, Juízes 19 contribui para a narrativa maior que conduz à monarquia. Ao retratar a anarquia moral no período dos juízes, o texto prepara o leitor para entender por que Israel desejaria um rei e por que a figura de um rei justo e fiel à aliança se tornaria uma esperança central. Ao mesmo tempo, ao mostrar um levita moralmente falho, o capítulo antecipa a crítica profética posterior a sacerdotes e líderes religiosos incoerentes, reforçando que o problema do povo não é apenas a estrutura de governo, mas o coração distante de Deus.
Embora Juízes 19 pareça distante da realidade cotidiana, ele aborda dinâmicas muito presentes na vida: abuso de poder, omissão diante da injustiça, distorção de prioridades e comunidades que falham em proteger os vulneráveis. Na esfera dos relacionamentos, a história revela vínculos frágeis e disfuncionais. O relacionamento do levita com a concubina é marcado por ruptura, distância e tratamento utilitário. Há reconciliação aparente, mas a forma como ele age depois da violência mostra ausência de compromisso real com a dignidade dela. Isso ilustra como vínculos sem responsabilidade, respeito e cuidado podem expor pessoas a riscos enormes. Na dimensão comunitária, Gibeá representa um ambiente perigoso: ninguém se dispõe a acolher na praça, a cidade produz homens violentos e ninguém os confronta de forma eficaz. Isso se assemelha a contextos onde a cultura de um grupo tolera atitudes abusivas, silencia denúncias e persiste em proteger a própria imagem em vez de enfrentar o mal. Juízes 19 mostra o resultado extremo desse tipo de conivência. Um ponto prático importante é a inversão de prioridades. O ancião está preocupado em honrar as normas de hospitalidade, mas está disposto a sacrificar a própria filha e a concubina. O levita quer preservar a própria integridade física e talvez a honra masculina/hospitaleira às custas da vida da mulher. Esse padrão se repete quando instituições, famílias ou grupos preferem preservar sua reputação ou conforto em vez de defender quem foi ferido. Do ponto de vista de vida prática, o capítulo sugere a importância de: - Desenvolver ambientes em que a proteção das pessoas mais frágeis é prioridade. - Questionar padrões culturais que normalizam o uso de pessoas como meios para fins. - Romper o silêncio e a indiferença diante de injustiças claras. - Construir relacionamentos baseados em responsabilidade mútua, não em posse ou conveniência. Juízes 19 não apresenta soluções diretas, mas funciona como um alerta: quando a ética se afasta dos valores de justiça, misericórdia e proteção à vida, o resultado é destrutivo para todos, inclusive para a sociedade como um todo. A vida diária é chamada a ser diferente desse padrão, refletindo cuidado real com a integridade física, emocional e espiritual do próximo.
Espiritualmente, Juízes 19 é como um espelho escuro colocado diante da alma humana. Ele revela o que acontece quando uma sociedade vive sem reconhecer o senhorio de Deus, mesmo mantendo linguagem religiosa e estruturas externas. A maldade não é apenas individual; ela é compartilhada, normalizada e, em certo ponto, parece fazer parte do "modo de viver" de uma comunidade. O capítulo evoca a pergunta sobre quem governa de fato o coração humano. A frase "não havia rei em Israel" fala de ausência de governo visível, mas aponta para uma ausência mais profunda: a rejeição prática do governo de Deus. Quando Deus deixa de ser a referência máxima, os desejos desordenados ganham espaço, as pessoas passam a ser tratadas como objetos, e a imagem de Deus nelas é ignorada. Há também uma dimensão de lamento espiritual. A concubina, silenciosa e esmagada pela violência, torna-se símbolo de todas as vítimas da história, cujas vozes parecem apagadas. No entanto, a presença dessa história na Escritura é, em si, um testemunho: diante de Deus, a dor não é apagada, e o clamor por justiça não é perdido. O choque que Israel sente ao ver as partes do corpo (v.30) antecipa o clamor da criação por restauração que percorre toda a revelação bíblica. Juízes 19, ligado aos capítulos seguintes, conduz à percepção de que a solução para a corrupção humana não é apenas reação punitiva ou guerra civil. O livro inteiro aponta para a necessidade de um Rei diferente, justo, temente a Deus, capaz de conduzir o povo em fidelidade. Mais adiante, na história bíblica, essa expectativa se aprofunda até encontrar seu cumprimento no reinado de Cristo, o Rei que não entrega outros à morte para se salvar, mas entrega a si mesmo para salvar os outros. Sob a ótica da formação espiritual, o capítulo convida a uma sensibilidade maior ao pecado estrutural, ao sofrimento das vítimas e à necessidade de arrependimento não apenas individual, mas comunitário. Convida também à intercessão: clamar por justiça, proteção dos vulneráveis, transformação de culturas inteiras e por um dia em que Deus julgará com retidão. Ao contemplar essa narrativa, a alma é levada a desejar um mundo diferente, no qual as concubinas anônimas não sejam mais esquecidas, em que cidades não produzam homens violentos como padrão e em que a presença do verdadeiro Rei transforme a forma como cada pessoa é vista e tratada, à luz da eternidade e da dignidade recebida do Criador.
" Aconteceu também naqueles dias, em que não havia rei em Israel, que houve um homem levita, que, peregrinando aos lados da montanha de Efraim, tomou para si uma concubina, de Belém de Judá. "
" Porém a sua concubina adulterou contra ele, e deixando-o, foi para a casa de seu pai, em Belém de Judá, e esteve ali alguns dias, a saber, quatro meses. "
" E seu marido se levantou, e foi atrás dela, para lhe falar conforme ao seu coração, e para tornar a trazê-la; e o seu moço e um par de jumentos iam com ele; e ela o levou à casa de seu pai, e, vendo-o o pai da moça, alegrou-se ao encontrar-se com ele. "
" E seu sogro, o pai da moça, o deteve, e ficou com ele três dias; e comeram e beberam, e passaram ali a noite. "
" E sucedeu que ao quarto dia pela manhã, de madrugada, ele levantou-se para partir; então o pai da moça disse a seu genro: Fortalece o teu coração com um bocado de pão, e depois partireis. "
" Assentaram-se, pois, e comeram ambos juntos, e beberam; e disse o pai da moça ao homem: Peço-te que ainda esta noite queiras passá-la aqui, e alegre-se o teu coração. "
" Porém o homem levantou-se para partir; mas seu sogro o constrangeu a tornar a passar ali a noite. "
" E, madrugando ao quinto dia pela manhã para partir, disse o pai da moça: Ora, conforta o teu coração. E detiveram-se até já declinar o dia; e ambos juntos comeram. "
" Então o homem levantou-se para partir, ele, e a sua concubina, e o seu moço; e disse-lhe seu sogro, o pai da moça: Eis que já o dia declina e a tarde já vem chegando; peço-te que aqui passes a noite; eis que o dia já vai acabando, passa aqui a noite, e que o teu coração se alegre; e amanhã de madrugada levanta-te a caminhar, e irás para a tua tenda. "
" Porém o homem não quis ali passar a noite, mas levantou-se, e partiu, e chegou até defronte de Jebus (que é Jerusalém), e com ele o par de jumentos albardados, como também a sua concubina. "
" Estando, pois, já perto de Jebus, e tendo-se já declinado muito o dia, disse o moço a seu senhor: Vamos agora, e retiremo-nos a esta cidade dos jebuseus, e passemos ali a noite. "
" Porém disse-lhe seu senhor: Não nos retiraremos a nenhuma cidade estranha, que não seja dos filhos de Israel; mas iremos até Gibeá. "
" Disse mais a seu moço: Vamos, e cheguemos a um daqueles lugares, e passemos a noite em Gibeá ou em Ramá. "
" Passaram, pois, adiante, e caminharam, e o sol se lhes pôs junto a Gibeá, que é cidade de Benjamim. "
" E retiraram-se para lá, para passarem a noite em Gibeá; e, entrando ele, assentou-se na praça da cidade, porque não houve quem os recolhesse em casa para ali passarem a noite. "
" E eis que um velho homem vinha à tarde do seu trabalho do campo; e era este homem da montanha de Efraim, mas peregrinava em Gibeá; eram porém os homens deste lugar filhos de Benjamim. "
" Levantando ele, pois, os olhos, viu a este viajante na praça da cidade, e disse o ancião: Para onde vais, e donde vens? "
" E ele lhe disse: Viajamos de Belém de Judá até aos lados da montanha de Efraim, de onde sou; porquanto fui a Belém de Judá, porém agora vou à casa do Senhor; e ninguém há que me recolha em casa, "
" Todavia temos palha e pasto para os nossos jumentos, e também pão e vinho há para mim, e para a tua serva, e para o moço que vem com os teus servos; de coisa nenhuma há falta. "
" Então disse o ancião: Paz seja contigo; tudo quanto te faltar fique ao meu cargo; tão-somente não passes a noite na praça. "
" E levou-o à sua casa, e deu pasto aos jumentos; e, lavando-se os pés, comeram e beberam. "
" Estando eles alegrando o seu coração, eis que os homens daquela cidade (homens que eram filhos de Belial) cercaram a casa, batendo à porta; e falaram ao ancião, senhor da casa, dizendo: Tira para fora o homem que entrou em tua casa, para que o conheçamos. "
" E o homem, dono da casa, saiu a eles e disse-lhes: Não, irmãos meus, ora não façais semelhante mal; já que este homem entrou em minha casa, não façais tal loucura. "
" Eis que a minha filha virgem e a concubina dele vo-las tirarei fora; humilhai-as a elas, e fazei delas o que parecer bem aos vossos olhos; porém a este homem não façais essa loucura. "
" Porém aqueles homens não o quiseram ouvir; então aquele homem pegou da sua concubina, e lha tirou para fora; e eles a conheceram e abusaram dela toda a noite até pela manhã, e, subindo a alva, a deixaram. "
" E ao romper da manhã veio a mulher, e caiu à porta da casa daquele homem, onde estava seu senhor, e ficou ali até que se fez claro. "
" E, levantando-se seu senhor pela manhã, e abrindo as portas da casa, e saindo a seguir o seu caminho, eis que a mulher, sua concubina, jazia à porta da casa, com as mãos sobre o limiar. "
" E ele lhe disse: Levanta-te, e vamo-nos, porém ela não respondeu; então, levantando-se o homem a pôs sobre o jumento, e foi para o seu lugar. "
" Chegando, pois, à sua casa, tomou um cutelo, e pegou na sua concubina, e a despedaçou com os seus ossos em doze partes; e enviou-as por todos os termos de Israel. "
" E sucedeu que cada um que via aquilo dizia: Nunca tal se fez, nem se viu desde o dia em que os filhos de Israel subiram da terra do Egito, até ao dia de hoje; ponderai isto, considerai, e falai. "
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