Juízes 1 - Significado, temas e aplicação

Entenda os temas principais e aplique Juízes 1 na sua vida hoje

36 versículos | Almeida Corrigida Fiel

Sobre o que e Juízes 1?

Juízes 1 descreve a transição após a morte de Josué e mostra como as tribos de Israel iniciam, mas não completam, a conquista da terra prometida. Judá e Simeão avançam com vitórias significativas, incluindo a tomada de cidades importantes e a história de Calebe e Otniel. Porém, o capítulo termina destacando a falha de várias tribos em expulsar totalmente os cananeus, optando por conviver com eles ou torná-los tributários. Esse retrato misto de obediência parcial prepara o cenário para a instabilidade espiritual e moral que marca o livro de Juízes.

Temas principais em Juízes 1

Obediência inicial e direção do Senhor (versículos 1-4, 19, 22)

O capítulo começa com Israel buscando orientação do Senhor e obedecendo à ordem de que a tribo de Judá suba primeiro à batalha. Essa consulta mostra dependência de Deus e revela que a vitória verdadeira vem de sua presença, não apenas da força militar.

Versículos-chave: 1, 2, 19, 22

Justiça retributiva de Deus (versículos 5-7)

A história de Adoni-Bezeque ilustra a lei da colheita espiritual: o que alguém faz, acaba colhendo. Ele reconhece que o que sofre é um juízo de Deus proporcional à crueldade que praticou contra outros reis.

Versículos-chave: 6, 7

Conquistas exemplares de fé (Calebe e Otniel) (versículos 10-15, 20)

Calebe e Otniel se destacam como exemplos de coragem e fé. A iniciativa de Calebe, a bravura de Otniel e a atitude sábia de Acsa mostram como a confiança nas promessas de Deus se manifesta em decisões concretas e ousadas.

Versículos-chave: 12, 13, 15, 20

Alianças e convivência com os cananeus (versículos 21, 27-36)

Em vez de expulsar totalmente os habitantes da terra, várias tribos optam por conviver com eles ou torná-los tributários. Essa escolha pragmática revela desobediência parcial e lança a base para futuras quedas espirituais.

Versículos-chave: 21, 28, 32, 33

Força humana versus limitações de fé (versículos 19, 27-35)

Algumas tribos alegam dificuldades militares, como os carros de ferro dos habitantes do vale, e não completam a missão. A narrativa mostra que o problema central não é apenas falta de recursos, mas falta de confiança plena em Deus.

Versículos-chave: 19, 28, 30, 34

Contexto histórico e literario

Juízes 1 se passa logo após a morte de Josué, líder que havia conduzido Israel na entrada e nas grandes campanhas de conquista em Canaã. A terra, porém, ainda não estava plenamente ocupada, e cada tribo precisava tomar posse do seu território designado. O cenário é de transição de um comando central forte (Josué) para uma organização tribal mais solta, sem um rei ou governo centralizado.

Os cananeus, perizeus, jebuseus, amorreus e outros povos mencionados eram grupos estabelecidos na região com cidades fortificadas, tecnologia militar superior em certos aspectos (como carros de ferro) e uma cultura religiosa idólatra e moralmente corrompida. A ordem de Deus para expulsá-los estava ligada tanto ao cumprimento da promessa feita a Abraão quanto ao juízo sobre a maldade dessas nações.

Judá se destaca como a tribo líder no início, refletindo seu papel de proeminência entre as tribos. A menção de Calebe, Otniel e da casa de José (Efraim e Manassés) conecta este capítulo ao período de Josué, mostrando certa continuidade. Ao mesmo tempo, o texto já revela sinais de declínio: hesitação, acomodações políticas e econômicas (transformar cananeus em tributários) e convivência com povos cuja religião se opunha à aliança com o Senhor.

O capítulo funciona como uma espécie de “radiografia” da situação inicial de Israel na terra: militarmente em ascensão, mas espiritualmente vulnerável por causa da obediência incompleta.

Estrutura de Juízes 1

Juízes 1 é construído como um relato histórico em blocos, com repetições intencionais que enfatizam vitórias e falhas:

  1. Introdução: consulta ao Senhor e escolha de Judá (1–2)

    • Situação após a morte de Josué
    • Pergunta de Israel e resposta divina destacando Judá
  2. Campanhas de Judá e Simeão (3–8)

    • Aliança entre as tribos irmãs
    • Vitória em Bezeque e juízo sobre Adoni-Bezeque
    • Conquista de Jerusalém e destruição da cidade
  3. Conquistas específicas de Judá e Calebe (9–15, 20)

    • Campanhas de Judá nas montanhas, no sul e nas planícies
    • Tomada de Hebrom e Debir
    • Episódio de Calebe, Otniel e Acsa, com o pedido das fontes
  4. Movimentação de outros grupos aliados (16–18)

    • Filhos do queneu associados a Judá
    • Conquistas adicionais de Judá (Gaza, Ascalom, Ecrom)
  5. Notas sobre sucessos limitados de Judá (19)

    • Êxito nas montanhas
    • Limitação diante dos carros de ferro no vale
  6. Conquistas e falhas de outras tribos (21–36)

    • Benjamim e os jebuseus em Jerusalém (21)
    • Casa de José e Betel, com uso de espiões e trato de misericórdia (22–26)
    • Série de falhas de Manassés, Efraim, Zebulom, Aser, Naftali e Dã em expulsar os cananeus (27–35)
    • Definição do limite dos amorreus (36)

A repetição da expressão “não expulsou” funciona como um refrão literário, marcando a desobediência parcial. Em contraste, as referências à presença do Senhor com certas tribos sublinham que o fator decisivo não é a força militar, mas a fidelidade à aliança.

Significado teológico

Juízes 1 marca teologicamente a transição da geração de Josué para uma nova fase da história de Israel. Um dos pontos centrais é a relação entre promessa divina e responsabilidade humana. Deus já havia dado a terra, mas Israel precisava responder com fé e obediência integral. O capítulo mostra que o cumprimento da promessa não significa ausência de luta, e sim confiança perseverante na palavra de Deus.

A narrativa de Adoni-Bezeque destaca a justiça retributiva: o próprio inimigo reconhece que Deus retribuiu segundo as obras. Isso enfatiza que o Senhor é soberano sobre todas as nações e que sua justiça alcança até os poderosos opressores.

A figura de Calebe e Otniel evidencia que Deus honra a fé perseverante. Calebe, ainda no período de Josué, havia confiado na promessa mesmo diante dos gigantes. Agora, ele e sua família continuam como exemplos de fidelidade num contexto onde muitos se acomodam. Otniel, que depois se tornará o primeiro juiz de Israel, aparece aqui como guerreiro obediente, introduzindo o tema de líderes levantados por Deus em meio ao declínio do povo.

O tema da obediência parcial é teologicamente crucial. Em vez de destruir completamente práticas e estruturas contrárias ao Senhor, Israel as administra, explora economicamente e tolera. Essa mistura entre povo da aliança e culturas idólatras revela um coração dividido, que mais tarde se manifestará em idolatria aberta. O texto sugere que pequenas concessões espirituais de hoje preparam grandes quedas amanhã.

Por fim, Juízes 1 apresenta implicitamente a fidelidade de Deus, mesmo diante da infidelidade do povo. Ele continua dando vitórias, orientando e agindo com justiça. A tensão entre a fidelidade divina e a fragilidade humana se tornará um fio condutor em todo o livro, apontando para a necessidade de um libertador maior e definitivo.

Aplicação restauradora e de saúde mental

Lido sob uma perspectiva de cuidado emocional, Juízes 1 mostra um povo em transição, lidando com perdas, desafios novos e responsabilidades pesadas. A morte de Josué representa o fim de uma era segura e conhecida. Em momentos assim, é comum surgir medo, insegurança e a tentação de buscar soluções mais fáceis em lugar da obediência completa.

O texto também expõe a experiência humana de viver entre vitórias e frustrações. Há conquistas importantes, mas também limites, falhas e convivência com situações não resolvidas. Isso se aproxima da realidade de quem luta com padrões antigos, traumas ou hábitos difíceis de vencer: há avanços reais, mas também áreas onde a mudança parece incompleta. O capítulo legitima essa tensão, sem romantizá-la, e mostra que a acomodação pode trazer consequências profundas.

A figura de Calebe, Otniel e Acsa ilustra relações de confiança, coragem compartilhada e busca por provisão saudável (como o pedido das fontes de água). Isso ecoa a importância de vínculos familiares e comunitários que incentivem escolhas maduras. Em contraste, a estratégia de transformar inimigos em tributários lembra quando alguém tenta “administrar” seus problemas em vez de tratá-los na raiz, gerando pesos emocionais de longo prazo.

Em termos terapêuticos, o capítulo encoraja o reconhecimento honesto de limitações, o luto por expectativas não cumpridas e a consciência de que pequenos compromissos com o que faz mal podem minar o bem-estar ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, ele aponta para a presença de Deus em meio à fragilidade, atuando, guiando e chamando a um caminho mais íntegro.

warning Importante: maus usos comuns

Algumas passagens deste capítulo podem ser emocionalmente difíceis:

  1. Violência intensa e mutilação (versos 4–7): a descrição da guerra e da punição de Adoni-Bezeque, com dedos cortados e morte em Jerusalém, pode ativar memórias dolorosas em pessoas que sofreram violência física, abuso ou trauma de guerra.

  2. Destruição de cidades e mortes em massa (versos 8, 17–18, 25): cenas de destruição total e de cidades queimadas podem afetar quem carrega experiências de perda repentina, desastres ou conflitos familiares graves.

  3. Temas de derrota e impotência (versos 19, 34–35): a sensação de não conseguir vencer inimigos fortes, de ser empurrado para longe (como a tribo de Dã) pode ressoar com sentimentos de fracasso, humilhação ou opressão constantes.

  4. Convivência com ambientes prejudiciais (versos 21, 27–33): a ideia de permanecer cercado por influências destrutivas, sem conseguir se afastar, pode tocar feridas de quem viveu em contextos familiares abusivos, relacionamentos tóxicos ou ambientes de risco.

Leitores com histórico de trauma, violência, abuso ou depressão profunda podem precisar de leitura cuidadosa, pausas e, idealmente, apoio pastoral ou terapêutico ao lidar com essas narrativas. A história não descreve modelos a serem repetidos literalmente hoje, mas registra eventos em um contexto histórico específico.

Aplicação prática para hoje

Juízes 1 oferece diversos princípios práticos para a vida diária:

  1. Buscar direção antes de agir: Israel pergunta ao Senhor quem deve subir primeiro. Em decisões importantes, o princípio de buscar orientação de Deus — por meio da Palavra, oração e conselho maduro — continua atual.

  2. Valor da parceria e apoio mútuo: Judá pede o apoio de Simeão, e a casa de José atua em conjunto. Desafios grandes são melhor enfrentados com alianças saudáveis, em família, igreja e amizades marcadas por fé e compromisso.

  3. Coragem de enfrentar “gigantes” pessoais: Calebe, Otniel e Acsa mostram iniciativa e ousadia para assumir riscos à luz das promessas de Deus. Em termos práticos, isso lembra a importância de confrontar áreas difíceis da vida (padrões destrutivos, pecados persistentes, conflitos) com disposição para mudanças reais.

  4. Cuidado com a obediência parcial: transformar os cananeus em tributários em vez de expulsá-los é uma imagem de compromissos perigosos. Na prática, isso se parece com negociar valores, manter hábitos nocivos sob controle superficial ou tolerar pequenas corrupções. A longo prazo, essas concessões enfraquecem o caráter e o relacionamento com Deus.

  5. Reconhecer limites sem se acomodar: o texto mostra limitações reais (como os carros de ferro), mas também sugere que o problema não era só falta de recursos, e sim fé vacilante. Na vida cotidiana, é importante distinguir entre limites intransponíveis e desculpas que mascaram medo ou comodismo.

  6. Construir ambientes saudáveis: o homem poupado em Betel constrói uma nova cidade chamada Luz entre os heteus. Essa capacidade de recomeçar em novos contextos, construindo algo diferente, inspira a responsabilidade de formar lares, relacionamentos e comunidades marcados por justiça e verdade, em vez de repetir padrões antigos.

  7. Honrar a herança espiritual: a continuidade do legado de Josué nas figuras de Calebe e Otniel lembra que cada geração é chamada a receber e viver a herança de fé, não apenas em palavras, mas em atitudes concretas, escolhas éticas e perseverança nas promessas.

Perguntas frequentes

Por que o livro de Juízes começa com uma nova descrição das conquistas se o livro de Josué já falou sobre isso?

Juízes 1 não repete simplesmente o livro de Josué, mas oferece outro ângulo. Josué registra as grandes campanhas militares que quebraram o poder dos cananeus e garantiram a entrada na terra. Juízes 1 foca na fase seguinte: a tomada detalhada de territórios por cada tribo e, principalmente, as falhas em completar a tarefa. Assim, o capítulo serve como ponte entre a vitória inicial e o período de declínio espiritual, mostrando como a obediência incompleta de Israel abriu caminho para os problemas narrados no restante do livro.

O que significa a frase de Adoni-Bezeque: “Assim como eu fiz, assim Deus me pagou”?

Adoni-Bezeque admite que o sofrimento que está experimentando é uma forma de juízo divino proporcional à maldade que praticou. Ele havia mutilado setenta reis, fazendo-os recolher migalhas debaixo de sua mesa. Ao ser tratado de maneira similar, reconhece que há uma justiça superior em ação. O texto não apresenta Adoni-Bezeque como justo, mas sua fala ilustra a verdade de que Deus vê e julga, e que, mais cedo ou mais tarde, o mal colhe consequências.

Quem é Otniel em Juízes 1 e por que ele é importante?

Otniel é apresentado como sobrinho de Calebe (filho de Quenaz) que conquista Quiriate-Sefer e recebe Acsa, filha de Calebe, por esposa. Ele é importante porque mais adiante, em Juízes 3, se torna o primeiro juiz levantado por Deus para libertar Israel da opressão. Sua presença em Juízes 1 mostra que já havia, naquela geração, homens de fé e coragem, conectados ao legado de Josué e Calebe, mesmo em meio a um povo que começava a se acomodar.

Por que tantas tribos “não expulsaram” os cananeus e outros povos?

O texto sugere uma combinação de fatores: dificuldades militares reais, como cidades fortificadas e carros de ferro; acomodação e interesse econômico, ao transformar cananeus em tributários; e, sobretudo, falta de obediência total à ordem de Deus. Em vez de confiar plenamente que o Senhor lhes daria a vitória completa, muitas tribos aceitaram um meio-termo conveniente. Essa escolha se tornaria uma armadilha espiritual, pois a presença contínua dos cananeus traria influência religiosa e moral contrária à aliança com Deus.

Qual o sentido da história do homem de Betel que teve sua vida poupada?

Os espiões da casa de José prometeram poupar o homem que lhes mostrasse a entrada da cidade de Betel. Depois da conquista, ele e sua família foram deixados livres, e ele fundou outra cidade chamada Luz entre os heteus. Essa história ilustra que, em meio ao juízo, ainda pode haver experiências de misericórdia e oportunidade de recomeço. Do ponto de vista narrativo, também mostra como cidades e povos se reorganizam depois de grandes conflitos e como nomes e tradições se deslocam para outros lugares.

Perspectivas dos nossos guias espirituais

Heart
Heart

Juízes 1 mostra um povo aprendendo a viver sem o líder forte que os guiou por tantos anos. A morte de Josué significa o fim de uma fase segura, e isso costuma mexer profundamente com o coração. No meio dessa transição, há vitórias e sinais claros de que Deus continua presente — o Senhor fala, dá direção, está com Judá — mas também aparecem medos, acomodações e escolhas que não vão até o fim. Esse retrato misto lembra a experiência humana de caminhar entre avanços e retrocessos. Há momentos em que a coragem de Calebe, Otniel e Acsa brilha: eles confiam, agem, pedem bênçãos, constroem algo novo. Em outros, as tribos se contentam com menos do que Deus tinha prometido, permitindo que aquilo que um dia as oprimiria permaneça ao redor. Essa realidade fala de corações cansados, talvez desencorajados, tentando apenas sobreviver. O capítulo não descreve pessoas perfeitas, mas um povo vulnerável, com medo de forças maiores (como os carros de ferro), que ainda assim é alcançado pelo cuidado de Deus. Ele continua conduzindo, permitindo vitórias, abrindo caminhos e chamando a um relacionamento mais profundo. Por trás dos relatos de guerra, aparece o coração de um Deus que não desiste do seu povo, mesmo quando ele responde com obediência quebrada. Há consolo em perceber que a história de Israel não acaba neste capítulo, apesar das falhas. A presença de exemplos de fé, como Calebe, perto de fragilidades coletivas, lembra que Deus sempre preserva pessoas que o buscam de todo o coração. Essa tensão entre luz e sombra ecoa em muitos percursos pessoais: passos sinceros na direção certa, misturados com áreas ainda inacabadas. Juízes 1 não minimiza essas contradições, mas, ao registrá-las, abre espaço para que a graça de Deus se manifeste justamente onde a força humana não chega.

Mind
Mind

Do ponto de vista exegético, Juízes 1 funciona como um prólogo histórico-teológico ao livro. Ele estabelece um quadro complexo: por um lado, confirma a fidelidade de Deus nas vitórias iniciais das tribos; por outro, introduz a problemática central da obra: a obediência incompleta de Israel e suas consequências. O capítulo apresenta uma estrutura que alterna entre relatos de sucesso (especialmente ligados a Judá, Calebe e a casa de José) e fracassos crescentes das demais tribos. A fórmula recorrente “não expulsou” e menções a povos que permaneceram na terra revelam uma intencionalidade redacional: o autor quer que o leitor perceba que a situação caótica narrada mais adiante não surgiu do nada, mas tem raízes em decisões tomadas aqui. A menção de tecnologias militares como “carros de ferro” serve não apenas como descrição histórica, mas também como contraponto teológico. Em Josué, a ênfase estava na superioridade do Senhor sobre muralhas e exércitos; aqui, a narrativa sugere que Israel começa a avaliar as batalhas sob um prisma mais humano, ponderando recursos materiais em detrimento da confiança plena no poder divino. A figura de Calebe, ancorada em tradições mais antigas (Números e Josué), é retomada como elo entre a geração da conquista inicial e a nova fase tribal. Otniel é introduzido discretamente neste capítulo, preparando seu papel como primeiro juiz. A cena de Acsa pedindo fontes d’água também tem importância simbólica, pois a posse de água em uma terra seca é sinal de bênção e possibilidade de permanência. A pequena narrativa do homem de Betel e da fundação de uma nova Luz entre os heteus ilustra como movimentos populacionais e renomeações de cidades eram parte do cenário geopolítico da época. Ao mesmo tempo, destaca o motivo da “misericórdia” em meio à guerra. Por fim, o texto marca fronteiras étnicas e territoriais (como o limite dos amorreus) e, assim, descreve um mapa inacabado: territórios prometidos, parcialmente tomados, com enclaves estrangeiros mantidos. Essa tensão espacial espelha a tensão espiritual do povo: uma herança dada por Deus, mas ocupada de forma fragmentada e inconsistente.

Life
Life

Juízes 1 retrata escolhas muito práticas que têm impacto direto na vida cotidiana de um povo. As tribos enfrentam decisões difíceis: lutar até o fim ou se acomodar; confiar na orientação de Deus ou se guiar apenas pelo cálculo humano; assumir o custo imediato da obediência ou buscar ganhos rápidos tornando inimigos em tributários. Na esfera das relações, o capítulo destaca a importância de parcerias certas. Judá chama Simeão para lutar junto, e essa cooperação traz vitória. A casa de José age em unidade para conquistar Betel. Já Calebe, Otniel e Acsa exemplificam uma família que toma decisões alinhadas com a promessa de Deus: enfrentam cidades difíceis, honram compromissos, pedem recursos necessários (como as fontes de água) e constroem um futuro num território desafiador. Ao mesmo tempo, há um alerta forte contra soluções que parecem vantajosas no curto prazo, mas se revelam perigosas depois. Transformar cananeus em tributários pode ter parecido uma boa estratégia econômica, mas espiritualmente era uma armadilha: a presença contínua de culturas e práticas contrárias à aliança acabaria influenciando Israel de maneira profunda. Isso aponta para a tendência de conviver com hábitos ou ambientes prejudiciais, acreditando que é possível controlá-los sem ser afetado. As menções a limitações militares reais, como os carros de ferro, também se aproximam do dia a dia de qualquer pessoa que sente que enfrenta obstáculos maiores do que sua capacidade. O texto sugere que o problema não está apenas nas dificuldades em si, mas em como se responde a elas: com fé corajosa e perseverante, como Calebe, ou com resignação acomodada, como várias tribos. De forma concreta, o capítulo convida a considerar que decisões aparentemente pequenas — tolerar um pouco de injustiça, manter certo padrão errado, não insistir em mudar o que é destrutivo — podem ter efeitos duradouros na família, no trabalho, na comunidade. Em contraste, alianças saudáveis, pedidos sábios de recursos necessários e confiança firme nas promessas de Deus apontam para um estilo de vida que busca integridade mesmo em um ambiente complexo.

Soul
Soul

Em Juízes 1, a dimensão espiritual mais profunda aparece na tensão entre promessa e resposta. Deus já havia prometido a terra, mostrado seu poder em gerações anteriores e continuava presente, orientando e concedendo vitórias. A questão central não é se Deus é fiel, mas como o povo corresponde a essa fidelidade ao longo do tempo. A obediência parcial das tribos revela um coração dividido. Em vez de separar-se plenamente de práticas e deuses que negavam o Senhor, Israel prefere uma convivência negociada. Espiritualmente, isso aponta para uma lealdade fragmentada: palavras e atos de fé coexistem com concessões estratégicas ao que é contrário à vontade de Deus. Ao manter os cananeus na terra, Israel mantém ídolos em potencial dentro de seus próprios limites. A justiça que recai sobre Adoni-Bezeque lembra que Deus vê as ações humanas em sua profundidade moral. Não há poder terreno que o impeça de agir. Ao mesmo tempo, a história do homem poupado em Betel sugere que, em meio ao juízo, ainda há espaço para misericórdia e novos começos. Esses dois lados — juízo e graça — apontam para a seriedade da aliança: o Deus que se compromete com seu povo também leva a sério o pecado e a opressão. A presença de figuras como Calebe e Otniel mostra que, mesmo em contextos de declínio espiritual coletivo, Deus preserva indivíduos que caminham pela fé. Eles se tornam sinais vivos de que é possível responder de forma íntegra à chamada divina, ainda que o ambiente ao redor seja marcado por acomodações. Essa realidade ecoa o convite a uma espiritualidade que não se molda apenas ao cenário cultural, mas permanece ancorada nas promessas e no caráter de Deus. Em última análise, Juízes 1 antecipa a necessidade de um libertador maior e definitivo. As vitórias parciais e a queda progressiva das tribos mostram que a simples posse da terra não resolve o problema mais profundo: o coração humano, inclinado à mistura e à infidelidade. O capítulo prepara o terreno para perceber que a verdadeira restauração espiritual não viria apenas por reformas externas, mas por uma obra mais profunda de Deus na história e no interior das pessoas, para formar um povo que o ame de forma completa e indivisível.

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Versículos em Juízes 1

Juízes 1:1

" E sucedeu, depois da morte de Josué, que os filhos de Israel perguntaram ao SENHOR, dizendo: Quem dentre nós primeiro subirá aos cananeus, para pelejar contra eles? "

Juízes 1:3

" Então disse Judá a Simeão, seu irmão: Sobe comigo à minha herança. E pelejemos contra os cananeus, e também eu contigo subirei à tua herança. E Simeão partiu com ele. "

Juízes 1:4

" E subiu Judá, e o Senhor lhe entregou na sua mão os cananeus e os perizeus; e feriram deles, em Bezeque, a dez mil homens. "

Juízes 1:6

" Porém Adoni-Bezeque fugiu, mas o seguiram, e prenderam-no e cortaram-lhe os dedos polegares das mãos e dos pés. "

Juízes 1:7

" Então disse Adoni-Bezeque: Setenta reis, com os dedos polegares das mãos e dos pés cortados, apanhavam as migalhas debaixo da minha mesa; assim como eu fiz, assim Deus me pagou. E levaram-no a Jerusalém, e morreu ali. "

Juízes 1:8

" E os filhos de Judá pelejaram contra Jerusalém, e tomando-a, feriram-na ao fio da espada; e puseram fogo na cidade. "

Juízes 1:9

" E depois os filhos de Judá desceram a pelejar contra os cananeus, que habitavam nas montanhas, e no sul, e nas planícies. "

Juízes 1:10

" E partiu Judá contra os cananeus que habitavam em Hebrom (era porém outrora o nome de Hebrom, Quiriate-Arba), e feriram a Sesai, e a Aimã e Talmai. "

Juízes 1:13

" E tomou-a Otniel, filho de Quenaz, o irmão de Calebe, mais novo do que ele; e Calebe lhe deu a sua filha Acsa por mulher. "

Juízes 1:14

" E sucedeu que, indo ela a ele, o persuadiu que pedisse um campo a seu pai; e ela desceu do jumento, e Calebe lhe disse: Que é que tens? "

Juízes 1:15

" E ela lhe disse: Dá-me uma bênção; pois me deste uma terra seca, dá-me também fontes de águas. E Calebe lhe deu as fontes superiores e as fontes inferiores. "

Juízes 1:16

" Também os filhos do queneu, sogro de Moisés, subiram da cidade das palmeiras com os filhos de Judá ao deserto de Judá, que está ao sul de Arade, e foram, e habitaram com o povo. "

Juízes 1:17

" E foi Judá com Simeão, seu irmão, e feriram aos cananeus que habitavam em Zefate; e totalmente a destruíram, e chamou-se o nome desta cidade Hormá. "

Juízes 1:19

" E estava o Senhor com Judá, e despovoou as montanhas; porém não expulsou aos moradores do vale, porquanto tinham carros de ferro. "

Juízes 1:21

" Porém os filhos de Benjamim não expulsaram os jebuseus que habitavam em Jerusalém; antes os jebuseus ficaram habitando com os filhos de Benjamim em Jerusalém, até ao dia de hoje, "

Juízes 1:21 mostra que a tribo de Benjamim desobedeceu a ordem de Deus e deixou os jebuseus continuarem em Jerusalém. A convivência com o que …

Ler análise completa

Juízes 1:24

" E viram os espias a um homem, que saía da cidade, e lhe disseram: Ora, mostra-nos a entrada da cidade, e usaremos contigo de misericórdia. "

Juízes 1:25

" E, mostrando-lhes ele a entrada da cidade, feriram-na ao fio da espada; porém àquele homem e a toda a sua família deixaram ir. "

Juízes 1:26

" Então aquele homem se foi à terra dos heteus, e edificou uma cidade, e chamou o seu nome Luz; este é o seu nome até ao dia de hoje. "

Juízes 1:27

" Manassés não expulsou os habitantes de Bete-Seã, nem mesmo dos lugares da sua jurisdição; nem a Taanaque, com os lugares da sua jurisdição; nem os moradores de Dor, com os lugares da sua jurisdição; nem os moradores de Ibleão, com os lugares da sua jurisdição; nem os moradores de Megido, com os lugares da sua jurisdição; e resolveram os cananeus habitar na mesma terra. "

Juízes 1:28

" E sucedeu que, quando Israel cobrou mais forças, fez dos cananeus tributários; porém não os expulsou de todo. "

Juízes 1:29

" Tampouco expulsou Efraim os cananeus que habitavam em Gezer; antes os cananeus ficaram habitando com ele, em Gezer. "

Juízes 1:30

" Tampouco expulsou Zebulom os moradores de Quitrom, nem os moradores de Naalol; porém os cananeus ficaram habitando com ele, e foram tributários. "

Juízes 1:31

" Tampouco Aser expulsou os moradores de Aco, nem os moradores de Sidom; como nem de Alabe, nem de Aczibe, nem de Helba, nem de Afeque, nem de Reobe; "

Juízes 1:33

" Tampouco Naftali expulsou os moradores de Bete-Semes, nem os moradores de Bete-Anate; mas habitou no meio dos cananeus que habitavam na terra; porém lhes foram tributários os moradores de Bete-Semes e Bete-Anate. "

Juízes 1:35

" Também os amorreus quiseram habitar nas montanhas de Heres, em Aijalom e em Saalbim; porém prevaleceu a mão da casa de José, e ficaram tributários. "

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