Juízes 18 - Significado, temas e aplicação

Entenda os temas principais e aplique Juízes 18 na sua vida hoje

31 versículos | Almeida Corrigida Fiel

Sobre o que é Juízes 18?

Juízes 18 narra como a tribo de Dã, ainda sem herança estabelecida, envia espias para buscar uma nova terra. Eles passam pela casa de Mica, conhecem seu levita e os ídolos domésticos, e depois descobrem a cidade pacífica de Laís. Mais tarde, seiscentos guerreiros danitas retornam, roubam os ídolos e o sacerdote de Mica, ameaçam-no para que não reaja e atacam Laís, destruindo a cidade e tomando-a para si, dando-lhe o nome de Dã. O capítulo termina mostrando que os danitas estabelecem um culto idólatra com a imagem de Mica, em paralelo ao culto legítimo do Senhor em Siló.

Temas principais em Juízes 18

Ausência de liderança e confusão espiritual (versículos 1, 6, 30-31)

A frase repetida em Juízes, "naqueles dias não havia rei em Israel", aqui se reflete em desordem moral e religiosa: cada um age segundo o que é conveniente, sem buscar de fato a vontade do Senhor. A tribo de Dã, o levita e Mica ilustram um povo sem direção espiritual verdadeira.

Versículos-chave: 1, 6, 31

Sincretismo e idolatria (versículos 14-20, 27-31)

Mica instala um sistema religioso próprio com imagens e um levita particular; a tribo de Dã se apropria desses objetos e do sacerdote, estabelecendo um culto paralelo ao culto em Siló. Há linguagem religiosa, mas o coração está voltado a ídolos feitos por mãos humanas.

Versículos-chave: 18, 20, 30, 31

Violência, oportunismo e injustiça (versículos 7-10, 22-28)

Os danitas se aproveitam da vulnerabilidade de Laís, um povo pacífico e sem alianças, atacam, matam e queimam a cidade. Também intimidam Mica com ameaças de violência, mostrando como a falta de temor a Deus leva à opressão do mais fraco.

Versículos-chave: 9, 10, 25, 27

Religião como instrumento de interesse próprio (versículos 3-6, 19-20)

O levita se vende primeiro a Mica e depois à tribo de Dã, movido por melhores oportunidades. A tribo de Dã procura uma "confirmação" religiosa para um plano já decidido. A fé é usada como meio para alcançar segurança, poder e território, em vez de submissão sincera a Deus.

Versículos-chave: 4, 5, 19, 20

Herança, identidade e desvio do propósito de Deus (versículos 1-2, 10-13, 27-31)

Dã busca herança, mas o caminho escolhido é de infidelidade. A cidade conquistada recebe o nome "Dã", marcando a identidade tribal, mas também um legado de idolatria que permanece por gerações, até o cativeiro.

Versículos-chave: 1, 10, 29, 30

Contexto histórico e literario

Juízes 18 se passa num período inicial da história de Israel na terra prometida, quando ainda não havia monarquia e "cada um fazia o que parecia direito aos seus olhos" (tema recorrente do livro). A tribo de Dã, originalmente destinada a uma porção de terra no oeste, próxima à região filisteia (descrita em Josué), enfrenta dificuldades para tomar posse plenamente e sai em busca de outra área. Esse contexto explica por que ainda estavam procurando herança (v.1).

A sociedade era tribal, com governo descentralizado. As cidades-estado cananeias e sidônias tinham sua própria organização, e Laís parece ser uma cidade com influência cultural sidônia, pacífica, isolada politicamente e distante de aliados como Sidom (v.7, 28). Por isso, era um alvo vulnerável para uma tribo guerreira em busca de território.

Religiosamente, o capítulo mostra uma época de sincretismo. Mesmo após a lei de Moisés estabelecer um culto centralizado e proibido de imagens, Israel tolerava éfodes, terafins e ídolos domésticos. A referência à "casa de Deus" em Siló (v.31) aponta para o tabernáculo ali instalado, provavelmente nos dias de Josué até o início da monarquia. A menção a Jônatas, descendente de Gérson, filho de Manassés (alguns manuscritos apontam para Moisés), indica como até mesmo linhagens ligadas à liderança espiritual anterior se misturaram à idolatria.

A expressão "até ao dia do cativeiro da terra" (v.30) pode se referir ao exílio assírio do reino do Norte, quando tribos como Dã foram levadas cativas. Isso sugere que o culto idólatra estabelecido aqui permaneceu por muito tempo, marcando a história espiritual de Dã e contribuindo para o afastamento geral de Israel do Senhor.

Estrutura de Juízes 18

Juízes 18 apresenta uma narrativa contínua, com uma estrutura clara em etapas:

  1. Introdução: problema da tribo de Dã (v.1-2)

    • Constatação da ausência de rei e da falta de herança de Dã.
    • Envio de cinco homens valentes como espias, que chegam à casa de Mica.
  2. Encontro com o levita e uso religioso utilitário (v.3-6)

    • Reconhecimento da voz do levita.
    • Diálogo sobre sua função na casa de Mica.
    • Pedido de consulta a Deus e resposta tranquilizadora do sacerdote.
  3. Espionagem de Laís e relatório entusiasmado (v.7-10)

    • Descrição de Laís como povo pacífico, confiante, sem autoridade opressora e isolado.
    • Retorno dos espias e incentivo para conquistar a terra, apresentada como muito boa.
  4. Movimentação militar de Dã (v.11-13)

    • Partida de seiscentos homens armados.
    • Acampamento em Quiriate-Jearim (Maané-Dã) e, em seguida, volta à casa de Mica.
  5. Roubo dos ídolos e cooptação do sacerdote (v.14-21)

    • Lembrança dos objetos religiosos na casa de Mica.
    • Entrada na casa, tomada das imagens, éfode e terafins.
    • Convite ao levita para se tornar sacerdote de toda uma tribo; ele aceita alegremente.
    • Partida do grupo com famílias, gado e bagagem.
  6. Conflito entre Mica e os danitas (v.22-26)

    • Perseguição de Mica ao grupo.
    • Diálogo tenso, com Mica reivindicando seus deuses e seu sacerdote.
    • Ameaça velada de violência por parte dos danitas.
    • Retorno de Mica para casa, reconhecendo a superioridade de força do outro lado.
  7. Conquista de Laís e fundação da cidade de Dã (v.27-29)

    • Ataque a um povo quieto e confiado, destruição da cidade ao fio da espada e pelo fogo.
    • Reconstrução e ocupação de Laís, renomeada Dã, em honra ao ancestral da tribo.
  8. Conclusão: estabelecimento da idolatria em Dã (v.30-31)

    • Levantamento da imagem de escultura.
    • Instituição de uma linhagem sacerdotal ligada à imagem.
    • Persistência desse culto paralelo enquanto o tabernáculo estava em Siló.

Significado teológico

Juízes 18 expõe de forma vívida as consequências da falta de submissão à soberania de Deus. A ausência de rei em Israel não é apenas um dado político, mas teológico: o verdadeiro Rei, o Senhor, não é honrado. Quando a autoridade de Deus é desprezada, o povo passa a definir sua própria moral, inclusive no campo religioso.

A idolatria aparece aqui não somente como adoração de objetos, mas como distorção da revelação de Deus. Há linguagem de consulta ao Senhor (v.5-6), uso de éfode e presença de um levita, elementos que lembram o culto legítimo. Contudo, tudo isso é rearranjado para servir interesses pessoais e tribais. Isso mostra como a forma de religiosidade pode continuar, ainda que o coração esteja distante.

O comportamento da tribo de Dã evidencia uma visão utilitarista de Deus: buscam uma palavra de aprovação para um plano que já tomaram e interpretam a vulnerabilidade de Laís como evidência de que "Deus vo-la entregou nas mãos" (v.10), sem qualquer registro de um verdadeiro mandato divino. A teologia que emerge é a de um deus a serviço da expansão e segurança humanas, e não de um povo a serviço do Deus santo.

Há também uma crítica implícita à infidelidade de líderes religiosos. O levita aceita servir primeiro a uma casa idólatra e depois a toda uma tribo em culto sincretista, motivado pela "melhor proposta" (v.19-20). Ele não se guia pela aliança e pela lei, mas por vantagens. Isso antecipa, em contraste, a necessidade de um sacerdócio fiel e de um rei justo, temas que ganharão foco nas histórias posteriores de Israel.

Por fim, o fato de as imagens de Mica se tornarem o centro do culto de Dã por muitos anos (v.30-31) revela como escolhas erradas numa geração podem consolidar estruturas espirituais de longa duração. O texto convida à reflexão sobre a fidelidade à aliança, a centralidade da adoração verdadeira e a necessidade de um governo divino que corrija o caos moral e espiritual do povo.

Aplicação restauradora e de saúde mental

Este capítulo retrata cenários de abuso de poder, manipulação religiosa, violência e perda, que ressoam com muitas experiências humanas. Mica perde, de uma só vez, seus "deuses" e o sacerdote em quem confiava. Ainda que sua confiança estivesse colocada em coisas erradas, a narrativa reconhece a dor de quem vê ruir o que considerava seu refúgio. A atitude dos danitas mostra como grupos armados ou mais fortes podem impor sua vontade, deixando outros sem defesa.

Há também a figura do levita, que se adapta às circunstâncias para benefício próprio. Isso evoca experiências de quem já viu líderes espirituais ou figuras de autoridade usarem a fé como moeda de troca, causando desilusão profunda. A cidade de Laís, pacífica e confiante, é surpreendida por uma violência para a qual não estava preparada, lembrando que ataques e injustiças nem sempre são provocados por quem sofre.

Em termos emocionais, o texto toca em sentimentos de insegurança, traição, medo e impotência. Traz um realismo duro: o mal nem sempre é punido imediatamente, e a injustiça pode parecer vencedora por muito tempo. Ao mesmo tempo, o capítulo está inserido em uma história maior, onde Deus continua presente, mesmo quando não é mencionado explicitamente, conduzindo o curso da história para além dos fracassos humanos. Essa perspectiva ajuda a lembrar que a dor e o caos não têm a palavra final na vida de quem pertence a Deus.

warning Importante: maus usos comuns

Juízes 18 contém elementos sensíveis que podem despertar gatilhos emocionais em algumas pessoas:

  • Violência e destruição de uma cidade pacífica (v.7, 27-28): referências a massacre e queima de cidade podem recordar experiências de violência urbana, guerra ou traumas coletivos.
  • Intimidação e ameaças de morte (v.25): a fala dos danitas a Mica envolve ameaça velada de violência contra ele e sua casa, o que pode ressoar com histórias de abuso, bullying ou ameaças familiares.
  • Roubo e perda súbita de bens significativos (v.17-24): Mica perde tudo o que considerava sagrado e seguro, o que pode tocar em memórias de perdas materiais, emocionais ou espirituais abruptas.
  • Manipulação e corrupção religiosa (v.3-6, 19-20, 30-31): a forma como o levita e a tribo de Dã usam a religião para fins próprios pode ser dolorosa para quem sofreu em contextos religiosos abusivos.

Leitores com histórico de trauma, violência, abuso espiritual ou opressão podem sentir-se particularmente afetados. Em contextos de aconselhamento, é importante abordar este texto com sensibilidade, dando espaço para que emoções difíceis sejam reconhecidas e, se necessário, buscando apoio profissional especializado.

Aplicação prática para hoje

Juízes 18 oferece lições práticas sobre fé, ética e decisões cotidianas:

  • Cuidado com a aparência de religiosidade: a tribo de Dã e o levita usam linguagem religiosa, mas suas atitudes mostram interesse próprio, injustiça e idolatria. Aplicado à vida diária, isso alerta contra o uso de frases espirituais para justificar decisões já tomadas ou condutas que ferem justiça e amor ao próximo.

  • Discernimento na escolha de líderes e referências espirituais: o levita se vende ao melhor ofertante. Isso lembra a importância de avaliar caráter, fidelidade às Escrituras e integridade, e não apenas carisma ou conveniência, seja em líderes religiosos, mentores ou influenciadores.

  • Rejeição da idolatria moderna: Mica confia em objetos e em um sistema religioso moldado por ele mesmo. Hoje, ídolos podem ser segurança financeira, status, relacionamentos ou até ministérios que ocupam o lugar de Deus no coração. O texto incentiva a examinar o que se tornou "indispensável" e a recolocar a confiança em Deus acima de tudo.

  • Questionar a lógica do "oportunismo abençoado": os danitas interpretam uma situação vantajosa como se fosse evidência automática da vontade de Deus (v.10). Circunstâncias favoráveis nem sempre significam aprovação divina. Isso encoraja a buscar princípios bíblicos, oração séria e conselho sábio, não apenas oportunidade e resultados.

  • Responsabilidade coletiva: uma tribo inteira se envolve em injustiça, deixando um legado negativo que perdura por gerações. Decisões familiares, comunitárias ou institucionais de hoje podem moldar o futuro. Isso incentiva a cultivar culturas de honestidade, justiça e adoração verdadeira, sabendo que outros colherão os frutos dessas escolhas.

Perguntas frequentes

Por que a tribo de Dã ainda buscava herança em Juízes 18?

A tribo de Dã tinha, em teoria, uma porção de terra definida quando Israel entrou em Canaã, mas enfrentou forte oposição de povos como os filisteus e não conseguiu ocupar plenamente seu território. Em vez de confiar no Senhor e perseverar em tomar a posse designada, buscaram uma alternativa aparentemente mais fácil: uma cidade isolada, pacífica e vulnerável (Laís). Juízes 18 mostra esse movimento de busca de uma "herança" mais simples, porém obtida de forma injusta e sem alinhamento com a vontade de Deus.

Quem é o levita mencionado neste capítulo?

Em Juízes 17, o capítulo anterior, fica claro que esse levita é um jovem sem território fixo, que aceita trabalhar como sacerdote particular na casa de Mica em troca de sustento. Em Juízes 18, ele é convidado pelos danitas a ser sacerdote de toda uma tribo. No final do capítulo, é identificado como Jônatas, filho de Gérson, ligado a Manassés (v.30). Sua figura representa um líder religioso sem firmeza espiritual, que muda de lugar conforme a vantagem, servindo tanto em contextos de idolatria doméstica quanto tribal.

O que eram o éfode, os terafins e a imagem de escultura?

O éfode, no contexto bíblico, era originalmente uma peça de vestimenta sacerdotal usada no culto legítimo do Senhor, mas em alguns textos também aparece associado a práticas desviadas. Terafins eram pequenos ídolos domésticos, usados em consultas religiosas e práticas supersticiosas. A imagem de escultura e a imagem de fundição eram representações físicas, provavelmente deidades feitas em madeira esculpida e metal fundido. Em Juízes 18, todos esses objetos são usados em um culto sincrético, misturando símbolos da fé verdadeira com idolatria proibida pela lei de Deus.

Por que Laís foi atacada se era um povo pacífico?

O texto destaca que o povo de Laís era quieto, confiado, vivia em segurança, estava longe de seus possíveis aliados sidônios e não tinha relações com outras cidades (v.7, 28). Justamente por isso, os espias de Dã viram a cidade como alvo fácil: boa terra, povo confiante e sem proteção política ou militar relevante. A narrativa não apresenta provocação de Laís contra Dã; o ataque é um ato de oportunismo e violência, evidenciando a decadência moral de Israel naquela época.

O que significa dizer que a imagem de Dã permaneceu até o cativeiro?

A afirmação de que Jônatas e seus descendentes foram sacerdotes da tribo de Dã "até ao dia do cativeiro da terra" (v.30) indica que o culto idólatra iniciado ali se prolongou por muitos anos, atravessando gerações. Em termos históricos, provavelmente aponta para o período em que o reino do Norte, incluindo a região de Dã, foi levado cativo pelos assírios. Isso mostra que escolhas espirituais desviadas podem criar tradições e estruturas que perduram, influenciando a vida religiosa de um povo por longo tempo.

Perspectivas dos nossos guias espirituais

Heart
Heart

Juízes 18 descreve um cenário duro, cheio de injustiça, perda e traição. Há pessoas que confiam em algo e, de repente, veem tudo ser levado embora. Mica perde seus ídolos e o sacerdote em quem investira tanta expectativa. Laís vive tranquila, confiante, até ser atingida por uma violência para a qual não estava preparada. Essas histórias lembram situações em que, sem aviso, estruturas aparentemente estáveis desmoronam. O capítulo também mostra como é doloroso quando religião e fé são usadas como instrumento de interesse. O levita se deixa levar por propostas mais vantajosas; a tribo de Dã busca apenas uma aprovação espiritual para um plano definido por conveniência. Essa distorção daquilo que é sagrado toca feridas profundas em quem já se decepcionou com líderes, comunidades ou experiências religiosas. Em meio a tudo isso, aparece um silêncio de Deus no texto, como se Ele não estivesse em cena. Para muitos corações feridos, a vida também parece assim: decisões injustas são tomadas, o mais forte oprime, e Deus parece ausente. Mas Juízes faz parte de uma história maior, em que o Senhor continua conduzindo seu povo, mesmo quando não é mencionado. A dor de Mica, o grito silencioso de Laís e a confusão espiritual de Dã não ficam para sempre sem resposta na perspectiva da aliança de Deus. O capítulo acolhe o sentimento de quem se sente enganado, impotente ou abandonado. Mostra que a Bíblia não esconde a desordem humana, nem romantiza a fé. Em vez disso, registra com honestidade os períodos em que tudo parece fora do lugar. Nessa honestidade, há um consolo: Deus conhece realidades complexas, confusas e injustas, e sua fidelidade não depende da fidelidade do povo. O coração pode encontrar descanso não nas estruturas frágeis que construímos, mas no Deus que vê, lembra e age em seu tempo, mesmo quando a narrativa ainda parece dominada pela injustiça.

Mind
Mind

Juízes 18 funciona como um estudo de caso da teologia distorcida que marcou o período dos juízes. O narrador repete a chave interpretativa: "naqueles dias não havia rei em Israel" (v.1), sinalizando um ambiente em que a autoridade de Deus como Rei não é reconhecida. Em vez de obedecer à lei, o povo cria estruturas religiosas e éticas próprias. A tribo de Dã, chamada a ocupar uma herança específica, busca outra terra por meio de espionagem e violência. O relato de Laís (v.7) traz elementos sociológicos interessantes: cultura sidônia, ausência de autoridade opressora e isolamento político. Isso enfatiza o contraste entre a vulnerabilidade de Laís e a agressividade oportunista de Dã, que interpreta a situação como "porta aberta" dada por Deus (v.10) sem qualquer oráculo legítimo. O levita e os objetos de culto na casa de Mica revelam um sincretismo avançado. São usados termos e elementos associados ao culto ao Senhor (levita, éfode, consulta a Deus), mas num contexto totalmente privado, doméstico e idólatra. Quando os danitas cooptam o levita (v.19-20), a narrativa expõe o caráter mercenário de um sacerdote que troca de "paroquia" por maior prestígio, ignorando a aliança. A referência final a Jônatas, filho de Gérson, ligado a Manassés (v.30), é teologicamente carregada. Aponta para a própria família de Moisés/Gérson (dependendo da leitura textual), sugerindo que até linhagens associadas ao êxodo e à entrega da lei foram contaminadas pela idolatria. Além disso, o fato de o culto idólatra em Dã coexistir com o culto legítimo em Siló (v.31) antecipa tensões futuras entre lugares de adoração em Israel, como mais tarde em Betel e Dã nos tempos de Jeroboão. Assim, o capítulo não trata apenas de um episódio isolado de violência tribal, mas ilustra uma crise mais ampla: perda do centro teológico (o Senhor e sua aliança), desarticulação da liderança fiel, privatização e instrumentalização da religião. Tudo isso prepara o terreno para a compreensão da necessidade de um rei segundo o coração de Deus e de uma restauração do culto, temas que se desenvolverão ao longo da história bíblica.

Life
Life

Juízes 18 é um espelho incômodo de dinâmicas que continuam presentes no dia a dia: decisões guiadas por conveniência, uso de religião para carimbar escolhas, liderança flexível demais para proteger o próprio interesse e gente comum sendo prejudicada por escolhas egoístas de grupos mais fortes. A tribo de Dã, em vez de enfrentar o desafio de assumir a herança que lhe fora designada, escolhe um caminho aparentemente mais simples, ainda que moralmente errado. Esse padrão se repete quando alguém evita processos difíceis, porém corretos, e procura atalhos: negócios de ética duvidosa, relacionamentos construídos sobre engano, alianças estratégicas que desconsideram princípios. O texto chama atenção para o custo desses atalhos, que podem trazer ganhos imediatos, mas deixam um rastro de injustiça e um legado espiritual pesado. O levita encarna o profissional que se move apenas por oportunidades melhores: troca de lugar, de missão e até de convicções para ganhar visibilidade e segurança. Em qualquer área da vida – trabalho, família, serviço cristão – essa atitude compromete confiança. Juízes 18 sugere a importância de cultivar integridade, mesmo quando surgem propostas aparentemente vantajosas, e de avaliar convites e parcerias à luz de valores, e não só de benefícios. A história de Laís lembra que comunidades pacíficas e confiantes também precisam de vigilância e responsabilidade. Estar em paz não significa estar imune a agressões ou injustiças. Na prática, isso se traduz em cuidar de estruturas de proteção, justiça e auxílio mútuo, tanto em famílias quanto em organizações, sem ingenuidade. Por outro lado, Mica, apesar de estar espiritualmente equivocado, sente com força a perda de tudo o que construiu. Sua dor mostra como é frágil construir segurança em bases erradas. A lição prática é revisar constantemente onde está o fundamento da vida: reputação, bens, pessoas específicas ou valores que podem ruir, ou uma confiança mais profunda, que resiste quando circunstâncias e estruturas falham.

Soul
Soul

Do ponto de vista da formação espiritual, Juízes 18 é um alerta sobre o que acontece quando o culto a Deus é deslocado do centro e substituído por arranjos humanos. A tribo de Dã, Mica e o levita constroem uma espiritualidade sob medida: imagens feitas por mãos humanas, um sacerdote contratado, uma palavra de "paz" que confirma planos já decididos. Tudo parece religioso, mas o coração da adoração não é o Senhor soberano, e sim a própria segurança e prosperidade. Esse capítulo mostra como a alma pode se acostumar a viver sem a presença real de Deus, contentando-se com símbolos, tradições e sistemas que dão a sensação de espiritualidade. Enquanto o tabernáculo está em Siló, centro legítimo da adoração, Dã estabelece um centro alternativo com sua imagem de escultura, e o faz por gerações (v.30-31). Isso retrata o perigo de construir altares pessoais – ideias, hábitos, identidades – que passam a competir com a obediência simples e profunda ao Deus vivo. A jornada de Dã em busca de herança também fala de uma busca de identidade e propósito. Em vez de se submeterem ao chamado que Deus já lhes havia dado, redefinem sua rota a partir do que é mais fácil e vantajoso. Espiritualmente, existe a mesma tentação de ajustar a vocação e a obediência às conveniências, e não à voz de Deus. Com o tempo, essa escolha molda não apenas um momento da vida, mas uma história inteira, como a idolatria de Dã que perdura até o cativeiro. Juízes 18, inserido na narrativa maior da Escritura, destaca a necessidade de um Rei verdadeiro, que alinhe o coração do povo ao coração de Deus. Ele prepara o terreno para a compreensão de um governo espiritual mais profundo, que não é apenas político, mas interior. Na caminhada de fé, esse capítulo convida à revisão de altares, vocações e lealdades. Convida a alma a abandonar seguranças fabricadas, a recusar palavras religiosas vazias que apenas confirmam desejos humanos, e a voltar-se ao Deus que chama à adoração verdadeira, mesmo quando isso exige caminhos mais difíceis, porém cheios de vida eterna.

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Versículos em Juízes 18

Juízes 18:1

" Naqueles dias não havia rei em Israel; e nos mesmos dias a tribo dos danitas buscava para si herança para habitar; porquanto até àquele dia entre as tribos de Israel não lhe havia caído por sorte sua herança. "

Juízes 18:2

" E enviaram os filhos de Dã, da sua tribo, cinco homens dentre eles, homens valorosos, de Zorá e de Estaol, a espiar e reconhecer a terra, e lhes disseram: Ide, reconhecei a terra. E chegaram à montanha de Efraim, até à casa de Mica, e passaram ali a noite. "

Juízes 18:3

" E quando eles estavam junto da casa de Mica, reconheceram a voz do moço, do levita; e dirigindo-se para lá, lhe disseram: Quem te trouxe aqui? Que fazes aqui? E que é que tens aqui? "

Juízes 18:7

" Então foram-se aqueles cinco homens, e chegaram a Laís; e viram que o povo que havia no meio dela estava seguro, conforme ao costume dos sidônios, quieto e confiado; nem havia autoridade alguma do reino que por qualquer coisa envergonhasse a alguém naquela terra; também estavam longe dos sidônios, e não tinham relação com ninguém. "

Juízes 18:9

" E eles disseram: Levantai-vos, e subamos contra eles; porque examinamos a terra, e eis que é muitíssimo boa. E vós estareis aqui tranqüilos? Não sejais preguiçosos em irdes para entrar a possuir esta terra. "

Juízes 18:10

" Quando lá chegardes, vereis um povo confiado, e a terra é larga de extensão; porque Deus vo-la entregou nas mãos; lugar em que não há falta de coisa alguma que há na terra. "

Juízes 18:11

" Então partiram dali, da tribo dos danitas, de Zorá e de Estaol, seiscentos homens munidos de armas de guerra. "

Juízes 18:12

" E subiram, e acamparam-se em Quiriate-Jearim, em Judá; então chamaram a este lugar Maané-Dã, até ao dia de hoje; eis que está por detrás de Quiriate-Jearim. "

Juízes 18:14

" Então responderam os cinco homens, que foram espiar a terra de Laís, e disseram a seus irmãos: Sabeis vós também que naquelas casas há um éfode, e terafins, e uma imagem de escultura e uma de fundição? Vede, pois, agora o que haveis de fazer. "

Juízes 18:16

" E os seiscentos homens, que eram dos filhos de Dã, munidos com suas armas de guerra, ficaram à entrada da porta. "

Juízes 18:17

" Porém subindo os cinco homens, que foram espiar a terra, entraram ali, e tomaram a imagem de escultura, o éfode, e os terafins, e a imagem de fundição, ficando o sacerdote em pé à entrada da porta, com os seiscentos homens que estavam munidos com as armas de guerra. "

Juízes 18:18

" Entrando eles, pois, em casa de Mica, e tomando a imagem de escultura, e o éfode, e os terafins, e a imagem de fundição, disse-lhes o sacerdote: Que estais fazendo? "

Juízes 18:19

" E eles lhe disseram: Cala-te, põe a mão na boca, e vem conosco, e sê-nos por pai e sacerdote. É melhor ser sacerdote da casa de um só homem, do que ser sacerdote de uma tribo e de uma família em Israel? "

Juízes 18:20

" Então alegrou-se o coração do sacerdote, e tomou o éfode, e os terafins, e a imagem de escultura; e entrou no meio do povo. "

Juízes 18:22

" E, estando já longe da casa de Mica, os homens que estavam nas casas junto à casa de Mica, reuniram-se, e alcançaram os filhos de Dã. "

Juízes 18:23

" E clamaram após os filhos de Dã, os quais viraram os seus rostos, e disseram a Mica: Que tens, que tanta gente convocaste? "

Juízes 18:24

" Então ele disse: Os meus deuses, que eu fiz, me tomastes, juntamente com o sacerdote, e partistes; que mais me resta agora? Como, pois, me dizeis: Que é que tens? "

Juízes 18:25

" Porém os filhos de Dã lhe disseram: Não nos faças ouvir a tua voz, para que porventura homens de ânimo mau não se lancem sobre vós, e tu percas a tua vida, e a vida dos da tua casa. "

Juízes 18:26

" Assim seguiram o seu caminho os filhos de Dã; e Mica, vendo que eram mais fortes do que ele, virou-se, e voltou à sua casa. "

Juízes 18:27

" Eles, pois, tomaram o que Mica tinha feito, e o sacerdote que tivera, e chegaram a Laís, a um povo quieto e confiado, e os feriram ao fio da espada, e queimaram a cidade a fogo. "

Juízes 18:28

" E ninguém houve que os livrasse, porquanto estavam longe de Sidom, e não tinham relações com ninguém, e a cidade estava no vale que está junto de Bete-Reobe; depois reedificaram a cidade e habitaram nela. "

Juízes 18:29

" E chamaram-lhe Dã, conforme ao nome de Dã, seu pai, que nascera a Israel; era, porém, antes o nome desta cidade Laís. "

Juízes 18:30

" E os filhos de Dã levantaram para si aquela imagem de escultura; e Jônatas, filho de Gérson, o filho de Manassés, ele e seus filhos foram sacerdotes da tribo dos danitas, até ao dia do cativeiro da terra. "

Juízes 18:31

" Assim, pois, estabeleceram para si a imagem de escultura, que fizera Mica, por todos os dias em que a casa de Deus esteve em Siló. "

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