Juízes 8 - Significado, temas e aplicação

Entenda os temas principais e aplique Juízes 8 na sua vida hoje

35 versículos | Almeida Corrigida Fiel

Sobre o que e Juízes 8?

Juízes 8 narra a conclusão da campanha de Gideão contra os midianitas, a tensão com outras tribos de Israel, a falta de apoio das cidades de Sucote e Penuel, a captura e execução dos reis Zeba e Salmuna, a recusa formal de Gideão em se tornar rei e, ao mesmo tempo, o tropeço causado pelo éfode que ele manda fazer. O capítulo termina com a morte de Gideão, um período de quarenta anos de paz e o rápido esquecimento de Deus e da casa de Jerubaal por parte de Israel.

Temas principais em Juízes 8

Orgulho, ciúme e pacificação (versículos 1-3)

Os homens de Efraim ficam ressentidos por não terem sido chamados desde o início da batalha, revelando orgulho e rivalidade entre as tribos. Gideão responde com humildade e elogios, desarmando a ira deles e preservando a unidade, ao reconhecer a participação importante de Efraim na captura de Orebe e Zeebe.

Versículos-chave: 1, 3

Incredulidade e dureza dentro do próprio povo (versículos 4-17)

Sucote e Penuel, cidades israelitas, recusam-se a ajudar Gideão e seus homens cansados, exigindo prova de vitória antes de oferecer apoio. Essa falta de fé e solidariedade gera disciplina severa, mostrando que a oposição ao plano de Deus às vezes vem de dentro do próprio povo e não apenas de inimigos externos.

Versículos-chave: 4, 6, 16, 17

Justiça, vingança e limite da responsabilidade humana (versículos 18-21)

Ao descobrir que Zeba e Salmuna haviam matado seus irmãos, Gideão executa os reis midianitas. A narrativa mistura justiça de guerra, responsabilidade por sangue inocente e a dor profundamente pessoal de Gideão, evidenciando o terreno delicado entre fazer justiça e agir movido por vingança pessoal.

Versículos-chave: 18, 19, 21

Rejeição formal da realeza e sutil desvio espiritual (versículos 22-28)

O povo deseja que Gideão se torne rei, estendendo o governo aos seus descendentes. Gideão recusa, afirmando que o Senhor deve reinar sobre Israel. Porém, ao recolher ouro e fazer um éfode que se torna objeto de idolatria, sua prática contradiz parcialmente seu discurso, tornando-se uma pedra de tropeço para ele e sua casa.

Versículos-chave: 22, 23, 27

Esquecimento de Deus e ingratidão (versículos 28-35)

Após a morte de Gideão, Israel volta rapidamente aos baalins e estabelece Baal-Berite como deus, esquecendo o Senhor que os livrou dos inimigos. Também deixam de demonstrar gratidão à casa de Gideão, revelando um coração volúvel, sem memória espiritual e sem fidelidade ao Deus que os salvou.

Versículos-chave: 33, 34, 35

Contexto histórico e literario

Juízes 8 se situa no período dos juízes, antes da instituição da monarquia em Israel. Gideão, também chamado Jerubaal, havia sido levantado por Deus para libertar Israel da opressão midianita, um povo nômade do deserto, ligado a outros povos do oriente e, neste texto, associado também a ismaelitas (v.24). A campanha contra Midiã já havia tido sua virada decisiva no capítulo anterior, com os 300 homens de Gideão derrotando um exército muito maior. Efraim era uma tribo importante do norte, que frequentemente disputava protagonismo com outras tribos (um conflito semelhante aparece depois com Jefté em Juízes 12). Sucote e Penuel eram cidades a leste do Jordão, em uma região que ficava na rota de fuga dos midianitas. O castigo a essas cidades revela a tensão entre as tribos e cidades israelitas, que nem sempre cooperavam nas guerras do Senhor. O pedido de um governo hereditário (v.22) antecipa o desejo posterior de Israel por um rei (1Sm 8), mas aqui Gideão recusa a realeza explícita, ainda que sua vida e muitos filhos o aproximem de um padrão quase real. O éfode de ouro em Ofra lembra o uso do éfode no culto legítimo, mas aqui se torna objeto de culto indevido, antecipando a mistura entre símbolos religiosos e idolatria que marcaria a história de Israel. A referência a Baal-Berite (v.33) aponta para um culto cananeu que via Baal como “senhor da aliança”, em contraste com a aliança verdadeira com o Senhor.

Estrutura de Juízes 8

O capítulo pode ser dividido em cinco movimentos principais:

  1. Conflito com Efraim e pacificação (v.1-3)

    • Queixa dos homens de Efraim por não terem sido chamados desde o começo.
    • Resposta diplomática de Gideão, exaltando o papel deles e acalmando a ira.
  2. Perseguição final a Zeba e Salmuna e recusa de ajuda (v.4-12)

    • Gideão e os 300 atravessam o Jordão exaustos, mas continuam a perseguição.
    • Pedidos de pão em Sucote e Penuel e recusa irônica dos líderes.
    • Promessa de juízo futuro sobre essas cidades.
    • Ataque surpresa ao restante do exército midianita, captura dos reis.
  3. Juízo sobre Sucote e Penuel (v.13-17)

    • Gideão volta da batalha, identifica os líderes de Sucote.
    • Lembra o desprezo que sofreu e cumpre a disciplina com espinhos.
    • Derruba a torre de Penuel e mata os homens da cidade.
  4. Execução de Zeba e Salmuna e pedido do povo (v.18-23)

    • Interrogatório sobre os homens mortos em Tabor.
    • Revelação: eram irmãos de Gideão, filhos de sua mãe.
    • Tentativa de envolver seu primogênito Jeter na execução.
    • Gideão mata os reis e toma os ornamentos.
    • Israel pede que Gideão e sua dinastia governem; ele recusa mencionando o reinado do Senhor.
  5. O éfode, a paz temporária e o esquecimento pós-Gideão (v.24-35)

    • Pedido de Gideão pelos pendentes de ouro do despojo.
    • Fabrico do éfode em Ofra, que se torna foco de idolatria para todo Israel.
    • Resultado militar: Midiã é abatido e há quarenta anos de paz.
    • Vida familiar extensa de Gideão, nascimento de Abimeleque.
    • Morte de Gideão em boa velhice.
    • Após sua morte, Israel volta aos baalins, estabelece Baal-Berite e esquece tanto o Senhor como a casa de Gideão.

Significado teológico

Juízes 8 evidencia a tensão entre a soberania de Deus e as fragilidades humanas no exercício da liderança espiritual. Gideão afirma corretamente que o Senhor é quem deve reinar sobre Israel (v.23), refletindo a teologia central desse período: Deus, e não um homem, é o verdadeiro rei do povo. No entanto, a mesma narrativa mostra como até um líder usado por Deus pode se tornar instrumento de tropeço ao permitir que a vitória e os recursos recebidos se convertam em objeto de culto indevido (v.27). A idolatria não se manifesta apenas na adoração direta a outros deuses, mas também na deturpação de símbolos legítimos.

O capítulo também destaca a seriedade do pecado de incredulidade e covardia comunitária. Sucote e Penuel, mesmo pertencendo ao povo da aliança, recusam dar suporte ao propósito de Deus por medo e cálculo político (v.6, 8). O juízo que recebem mostra que o pertencimento formal ao povo de Deus não isenta da responsabilidade de cooperar com a obra que Ele realiza.

Outro ponto importante é o perigo do orgulho e da rivalidade dentro do povo de Deus. Efraim, insatisfeita por não ter sido chamada desde o início, revela uma motivação mais ligada a prestígio do que ao zelo pela glória de Deus. A habilidade de Gideão em pacificar a situação (v.2-3) ressalta o valor da humildade e da palavra mansa que desvia a ira.

Por fim, o esquecimento de Deus após a morte de Gideão (v.33-35) reforça o ciclo típico de Juízes: livramento, paz temporária, esquecimento, idolatria e ingratidão. A memória das obras de Deus e a fidelidade à aliança não dependem apenas de líderes carismáticos, mas de um coração renovado. Sem essa transformação interna, mesmo grandes libertações e quarenta anos de paz não impedem a queda de volta à idolatria.

Aplicação restauradora e de saúde mental

Em uma perspectiva terapêutica, Juízes 8 ilumina dinâmicas emocionais e relacionais complexas que muitas vezes se repetem na vida humana. O ressentimento de Efraim exemplifica o impacto de orgulho ferido e sensação de exclusão, que podem gerar conflitos intensos dentro de um mesmo grupo. A resposta de Gideão mostra como uma comunicação mansa, que reconhece o valor do outro, pode desarmar a hostilidade e restaurar algum equilíbrio.

A recusa de Sucote e Penuel em ajudar ilustra medo, autopreservação e desconfiança. Grupos e comunidades, diante do risco, podem se fechar e negar apoio até mesmo a pessoas que estão lutando por um bem comum. Isso produz sentimento de abandono e traição, visível na reação forte de Gideão. Ao mesmo tempo, a severidade do juízo lembra que agir movido apenas pela dor pessoal e pelo senso de ofensa pode levar a respostas duras, que também machucam e deixam marcas.

A parte em que Gideão descobre o assassinato de seus irmãos (v.18-19) toca em luto, trauma familiar e sede de justiça. A tentativa de envolver o filho jovem na execução (v.20) mistura legado, identidade e peso emocional, revelando como histórias de dor podem ser transmitidas às próximas gerações. A narrativa não romantiza esses elementos, mas expõe a complexidade de um coração ferido.

Por fim, o esquecimento de Deus e da casa de Gideão após sua morte mostra um padrão de ingratidão e memória seletiva. Comunidades podem se beneficiar de grandes libertações e, ainda assim, apagar rapidamente a história, rompendo vínculos de lealdade e reconhecimento. Esse movimento gera um vazio espiritual e relacional, no qual a idolatria e as falsas seguranças encontram espaço. O texto, lido terapeuticamente, convida a reconhecer feridas de rejeição, disputas internas, medo de risco e a necessidade de cultivar memória saudável, gratidão e comprometimento duradouro.

warning Importante: maus usos comuns

O capítulo contém elementos que podem acionar memórias dolorosas ou gatilhos em algumas pessoas:

  • Violência física severa, incluindo punições corporais com espinhos, morte de homens da cidade e execução de reis (v.16-17, 21), o que pode afetar quem tem histórico de abuso, violência doméstica ou trauma de guerra.
  • Temas de vingança ligada à perda de familiares (v.18-19), que podem tocar em lutos não elaborados ou experiências de injustiça grave.
  • Exposição de conflitos internos, rejeição de apoio e escárnio (v.1, 6, 15), que podem reativar memórias de abandono por parte de pessoas próximas ou de comunidades de fé.
  • Referências à idolatria e queda espiritual após um período de livramento (v.27, 33-34), que podem despertar culpa intensa em quem carrega um passado de afastamento da fé ou sente que decepcionou a Deus.

Leituras em contextos de fragilidade emocional podem precisar de mediação cuidadosa, valorizando o acolhimento e a possibilidade de falar sobre essas reações sem julgamento.

Aplicação prática para hoje

Juízes 8 oferece várias lições práticas para a vida cotidiana:

  1. Lidar com ciúmes e rivalidades internas
  • A reação de Efraim mostra como orgulho e sensação de inferioridade podem gerar queixas agressivas. A postura de Gideão, valorizando o que Efraim fez e minimizando seu próprio papel, aponta para a importância de respostas humildes, que reconhecem o valor do outro e protegem a unidade.
  1. Cuidar das motivações ao buscar justiça
  • Gideão tinha uma causa justa contra os inimigos, mas o envolvimento de sentimentos pessoais profundos (a morte dos irmãos) mostra como é fácil misturar justiça e vingança. Na prática, a busca por reparação precisa ser acompanhada de vigilância interior, para que a dor não governe as ações e não se multipliquem ciclos de ferida.
  1. Apoiar quem está lutando na direção certa
  • Sucote e Penuel recusam socorro a pessoas exaustas que estão engajadas numa batalha legítima. No dia a dia, muitas lutas justas exigem apoio concreto: intercessão, recursos, palavras de encorajamento. A hesitação por medo ou conveniência pode significar omissão diante de algo que Deus está fazendo.
  1. Atenção a símbolos religiosos que desviam o coração
  • O éfode de Gideão mostra que até algo ligado à fé pode se tornar foco de idolatria. Na prática, dons, ministérios, líderes, tradições ou objetos espirituais podem ocupar o lugar de Deus no coração. É necessário avaliar constantemente se aquilo que começou bem não se tornou um fim em si mesmo.
  1. Cultivar memória e gratidão
  • Após a morte de Gideão, Israel esquece tanto o Senhor quanto o bem feito por ele. No cotidiano, a ingratidão corrói relacionamentos e afeta a saúde espiritual. Relembrar livramentos, reconhecer instrumentos que Deus usou e manter gratidão viva fortalece a fidelidade a longo prazo.
  1. Não depender exclusivamente de líderes carismáticos
  • A paz dura enquanto Gideão vive, mas o povo volta rapidamente à idolatria depois. Isso alerta para o risco de uma fé apoiada apenas em figuras fortes. A maturidade espiritual envolve enraizar-se em Deus, de modo que a fidelidade não dependa apenas de quem está à frente.

Perguntas frequentes

Por que os homens de Efraim ficaram ofendidos com Gideão?

Os homens de Efraim reclamaram porque não foram chamados desde o início para a batalha contra os midianitas (v.1). Efraim era uma tribo importante, e a sensação de ter sido deixada de lado feriu o orgulho deles. Embora tenham participado depois, capturando Orebe e Zeebe, queriam reconhecimento maior. Gideão aplaca a indignação deles destacando que o que fizeram foi mais expressivo do que a própria atuação da casa de Abiezer (v.2-3).

Por que Sucote e Penuel recusaram ajudar Gideão e seus homens?

As cidades de Sucote e Penuel temeram se comprometer com Gideão antes da vitória final. Elas perguntaram se Zeba e Salmuna já estavam nas mãos de Gideão (v.6), indicando medo de represálias caso Midiã se recuperasse. Em vez de agir em fé e solidariedade para com irmãos exaustos, preferiram esperar garantias de sucesso, o que revela incredulidade e cálculo político. Por isso, foram disciplinadas quando Gideão voltou vitorioso (v.16-17).

Qual foi o pecado de Gideão em relação ao éfode?

Gideão pediu os pendentes de ouro do despojo e fez deles um éfode, colocando-o em Ofra (v.24-27). O éfode, que em outros contextos se relacionava ao culto legítimo, aqui se tornou objeto de idolatria: “todo o Israel prostituiu-se ali após ele” (v.27). O problema não foi apenas o objeto em si, mas o fato de ter se tornado centro de adoração e confiança, afastando o povo do Senhor e tornando-se tropeço para Gideão e sua casa.

Se Gideão recusou ser rei, por que sua vida parece ter traços de realeza?

Gideão afirmou claramente que não dominaria sobre Israel, nem seu filho, porque o Senhor é quem deveria reinar (v.23). No entanto, ele teve muitos filhos, uma concubina em outra cidade e um filho chamado Abimeleque (“meu pai é rei”, v.31). Além disso, o acúmulo de ouro e a centralização de culto em Ofra se aproximam de práticas reais. Isso revela a ambiguidade de sua liderança: discurso correto sobre o reinado de Deus, mas práticas que se aproximam de um modelo quase monárquico.

Por que Israel se desviou tão rapidamente depois da morte de Gideão?

Após a morte de Gideão, os filhos de Israel retomaram o culto aos baalins e estabeleceram Baal-Berite como deus (v.33). O texto destaca que eles não se lembraram do Senhor nem usaram de beneficência com a casa de Gideão (v.34-35). Isso mostra que, embora tivessem experimentado livramento e paz, o coração do povo não estava firmemente enraizado na aliança. Dependiam muito da presença de um líder forte, e a fé não havia se tornado convicção profunda e duradoura. Sem a liderança de Gideão, voltaram aos padrões antigos de idolatria e ingratidão.

Perspectivas dos nossos guias espirituais

Heart
Heart

Juízes 8 mostra corações profundamente marcados: orgulho ferido, medo, sensação de abandono e dor familiar. Os homens de Efraim reagem porque se sentem desvalorizados; Sucote e Penuel se fecham por medo e autopreservação; Gideão, cansado e perseguindo o inimigo, sente a recusa de apoio como um golpe em quem já está exausto. Há também a ferida mais íntima: irmãos mortos em Tabor, uma perda que não é apenas política, mas profundamente pessoal. No meio disso, surge um momento terno na forma como Gideão fala com Efraim. Ele, que poderia responder com dureza, escolhe palavras que acalmam a ira. Essa cena sugere que a palavra mansa, cheia de reconhecimento, tem poder de curar tensões e reorganizar emoções tumultuadas. Ao mesmo tempo, o capítulo não esconde que, quando a dor não é tratada, ela pode transbordar em dureza. O juízo sobre Sucote e Penuel e a forma como Gideão lida com Zeba e Salmuna mostram como injustiças sofridas podem alimentar respostas intensas. Isso não é romantizado, mas exposto, como se a narrativa revelasse a fragilidade de um coração ferido que também pode ferir. No final, quando Israel esquece o bem feito por Deus e por Gideão, aparece outra dor: a da ingratidão e do apagamento. A história de quem se doou é rapidamente colocada de lado. Para corações que já experimentaram ser esquecidos ou desvalorizados, esse trecho toca numa ferida conhecida. Ainda assim, o texto lembra que, mesmo quando as pessoas se esquecem, Deus é o libertador que não muda. Entre falhas humanas, Ele permanece como o único que vê a dor toda, conhece o esforço, e não apaga da sua memória o bem que foi feito em fidelidade.

Mind
Mind

Juízes 8 é teologicamente e literariamente denso. Em termos de composição, ele conclui o ciclo de Gideão e prepara o terreno para a narrativa de Abimeleque no capítulo seguinte. O conflito com Efraim ilustra tensões intertribais recorrentes, que reaparecerão em Juízes 12. A habilidade retórica de Gideão, ao rebaixar seu papel e exaltar Efraim, é um recurso narrativo que enfatiza a importância da diplomacia interna na preservação da unidade do povo. Sucote e Penuel, cidades israelitas situadas no lado leste do Jordão, tipificam a ambivalência de grupos que pertencem ao povo da aliança mas hesitam em participar plenamente da sua missão. A punição severa a essas cidades indicia que a neutralidade diante da guerra do Senhor é apresentada como cumplicidade com o opressor. A menção de 120 mil que “puxavam da espada” (v.10) reforça o contraste entre o poder humano e o pequeno contingente de 300 homens, destacando a vitória como ato de Deus. A seção sobre Zeba e Salmuna aprofunda a motivação pessoal de Gideão: a morte de seus irmãos em Tabor, possivelmente ligada a uma batalha anterior não detalhada no texto. Isso confere ao ato de execução um caráter de vingança de sangue, alinhado com o costume antigo, mas também ambíguo à luz do ideal teológico que apresenta Deus como o verdadeiro juiz. A recusa formal da realeza (v.23) é um ponto-chave. Gideão articula a teologia do reinado direto de Deus sobre Israel, em contraste com a monarquia humana. Contudo, sua posterior conduta – acúmulo de ouro, criação de um centro de culto em Ofra, família numerosa e um filho chamado Abimeleque – sugere uma tensão entre ideal teológico e prática histórica. Essa ambiguidade prepara a crítica que recairá sobre a realeza ilegítima de Abimeleque em Juízes 9. O éfode de ouro funciona como símbolo de desvio cúltico: um objeto associado ao serviço legítimo se torna foco de prostituição espiritual. A narrativa, assim, critica a instrumentalização de símbolos sagrados para fins particulares. Por fim, o retorno aos baalins e a instituição de Baal-Berite evidenciam a oscilação de Israel entre a aliança com o Senhor e as alianças pagãs, tema central de Juízes. A ingratidão à casa de Gideão (v.35) reforça a fragilidade da memória do povo e prepara o cenário para o julgamento divino nas narrativas subsequentes.

Life
Life

Juízes 8 atravessa questões muito práticas que tocam trabalho em equipe, liderança, conflitos internos e gestão de poder. A reação de Efraim lembra situações em que uma equipe ou setor se sente excluído de um projeto importante e reage com queixa e crítica. A resposta de Gideão, reconhecendo o valor deles e não entrando em competição, mostra uma postura eficaz de liderança para desarmar conflitos: menos comparação, mais reconhecimento. Sucote e Penuel encarnam o tipo de aliado que só ajuda quando o resultado já está garantido. Em ambientes de trabalho, família ou ministério, é comum encontrar pessoas e grupos que evitam se comprometer com algo arriscado, mesmo sendo correto, até que vejam quem sairá vencedor. O texto evidencia as consequências de uma postura baseada apenas em autopreservação: perda de confiança e, no contexto de Juízes, disciplina severa. Gideão, por sua vez, é um líder bem-sucedido militarmente, mas que começa a dar sinais de desvio na administração pós-vitória. Ele recusa o título de rei, porém concentra recursos, estabelece um objeto de culto em sua cidade e vive com uma estrutura familiar ampla, que lembra uma casa real. Na prática, isso mostra que uma pessoa pode acertar em grandes decisões e, ainda assim, se perder em excessos posteriores: poder, honra, dinheiro ou status podem distorcer alguém que começou humilde. O éfode feito de ouro ilustra um perigo muito concreto: transformar conquistas e recursos em símbolos de poder que passam a dominar a comunidade. Algo que começou como lembrança de vitória pode se tornar um centro de dependência equivocada. Em termos práticos, isso desafia a avaliar o que, na vida pessoal, profissional ou comunitária, tem assumido importância exagerada. Por fim, o esquecimento de Israel após a morte de Gideão demonstra a fragilidade de compromissos baseados só em admiração por um líder. Para a vida diária, isso incentiva a construir valores e princípios que não dependam apenas de uma figura forte, mas de convicções enraizadas. Projetos, famílias e igrejas mais saudáveis são aquelas em que a fidelidade e a gratidão continuam mesmo quando quem iniciou a obra já não está presente.

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Versículos em Juízes 8

Juízes 8:1

" Então os homens de Efraim lhe disseram: Que é isto que nos fizeste, que não nos chamaste, quando foste pelejar contra os midianitas? E contenderam com ele fortemente. "

Juízes 8:2

" Porém ele lhes disse: Que mais fiz eu agora do que vós? Não são porventura os rabiscos de Efraim melhores do que a vindima de Abiezer? "

Juízes 8:3

" Deus vos deu na vossa mão os príncipes dos midianitas, Orebe e Zeebe; que mais pude eu fazer do que vós? Então a sua ira se abrandou para com ele, quando falou esta palavra. "

Juízes 8:4

" E, como Gideão veio ao Jordão, passou com os trezentos homens que com ele estavam, já cansados, mas ainda perseguindo. "

Juízes 8:5

" E disse aos homens de Sucote: Dai, peço-vos, alguns pedaços de pão ao povo, que segue as minhas pisadas; porque estão cansados, e eu vou ao encalço de Zeba e Salmuna, reis dos midianitas. "

Juízes 8:6

" Porém os príncipes de Sucote disseram: Estão já, Zeba e Salmuna, em tua mão, para que demos pão ao teu exército? "

Juízes 8:7

" Então disse Gideão: Pois quando o Senhor der na minha mão a Zeba e a Salmuna, trilharei a vossa carne com os espinhos do deserto, e com os abrolhos. "

Juízes 8:8

" E dali subiu a Penuel, e falou-lhes da mesma maneira; e os homens de Penuel lhe responderam como os homens de Sucote lhe haviam respondido. "

Juízes 8:9

" Por isso também falou aos homens de Penuel, dizendo: Quando eu voltar em paz, derribarei esta torre. "

Juízes 8:9 mostra Gideão advertindo Penuel por ter negado ajuda em um momento de luta. A torre simboliza falsa segurança baseada em recursos e não …

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Juízes 8:10

" Estavam, pois, Zeba e Salmuna em Carcor, e os seus exércitos com eles, uns quinze mil homens, todos os que restaram do exército dos filhos do oriente; e os que caíram foram cento e vinte mil homens, que puxavam da espada. "

Juízes 8:11

" E subiu Gideão pelo caminho dos que habitavam em tendas, para o oriente de Nobá e Jogbeá; e feriu aquele exército, porquanto o exército estava descuidado. "

Juízes 8:12

" E fugiram Zeba e Salmuna; porém ele os perseguiu, e tomou presos a ambos os reis dos midianitas, a Zeba e a Salmuna, e afugentou a todo o exército. "

Juízes 8:14

" Tomou preso a um moço dos homens de Sucote, e lhe fez perguntas; o qual lhe deu por escrito os nomes dos príncipes de Sucote, e dos seus anciãos, setenta e sete homens. "

Juízes 8:15

" Então veio aos homens de Sucote, e disse: Vede aqui a Zeba e a Salmuna, a respeito dos quais desprezivelmente me escarnecestes, dizendo: Estão já, Zeba e Salmuna, na tua mão, para que demos pão aos teus homens, já cansados? "

Juízes 8:16

" E tomou os anciãos daquela cidade, e os espinhos do deserto, e os abrolhos; e com eles ensinou aos homens de Sucote. "

Juízes 8:18

" Depois perguntou a Zeba e a Salmuna: Que homens eram os que matastes em Tabor? E disseram: Como és tu, assim eram eles; cada um parecia filho de rei. "

Juízes 8:19

" Então disse ele: Meus irmãos eram, filhos de minha mãe; vive o Senhor, que, se os tivésseis deixado com vida, eu não vos mataria. "

Juízes 8:20

" E disse a Jeter, seu primogênito: Levanta-te, mata-os. Porém o moço não puxou da sua espada, porque temia; porquanto ainda era jovem. "

Juízes 8:21

" Então disseram Zeba e Salmuna: Levanta-te, e acomete-nos; porque, qual o homem, tal a sua valentia. Levantou-se, pois, Gideão, e matou a Zeba e a Salmuna, e tomou os ornamentos que estavam nos pescoços dos seus camelos. "

Juízes 8:22

" Então os homens de Israel disseram a Gideão: Domina sobre nós, tanto tu, como teu filho e o filho de teu filho; porquanto nos livraste da mão dos midianitas. "

Juízes 8:23

" Porém Gideão lhes disse: Sobre vós eu não dominarei, nem tampouco meu filho sobre vós dominará; o Senhor sobre vós dominará. "

Juízes 8:24

" E disse-lhes mais Gideão: Uma petição vos farei: Dá-me, cada um de vós, os pendentes do seu despojo (porque tinham pendentes de ouro, porquanto eram ismaelitas). "

Juízes 8:25

" E disseram eles: De boa vontade os daremos. E estenderam uma capa, e cada um deles deitou ali um pendente do seu despojo. "

Juízes 8:26

" E foi o peso dos pendentes de ouro, que pediu, mil e setecentos siclos de ouro, afora os ornamentos, e as cadeias, e as vestes de púrpura que traziam os reis dos midianitas, e afora as coleiras que os camelos traziam ao pescoço. "

Juízes 8:27

" E fez Gideão dele um éfode, e colocou-o na sua cidade, em Ofra; e todo o Israel prostituiu-se ali após ele; e foi por tropeço a Gideão e à sua casa. "

Juízes 8:28

" Assim foram abatidos os midianitas diante dos filhos de Israel, e nunca mais levantaram a sua cabeça; e sossegou a terra quarenta anos nos dias de Gideão. "

Juízes 8:32

" E faleceu Gideão, filho de Joás, numa boa velhice; e foi sepultado no sepulcro de seu pai Joás, em Ofra dos abiezritas. "

Juízes 8:33

" E sucedeu que, como Gideão faleceu, os filhos de Israel tornaram a se prostituir após os baalins; e puseram a Baal-Berite por deus. "

Juízes 8:34

" E assim os filhos de Israel não se lembraram do Senhor seu Deus, que os livrara da mão de todos os seus inimigos ao redor. "

Juízes 8:35

" Nem usaram de beneficência com a casa de Jerubaal, a saber, de Gideão, conforme a todo o bem que ele havia feito a Israel. "

Juízes 8:35 mostra que o povo esqueceu rapidamente o bem que Gideão fez e não demonstrou gratidão à sua família. O versículo ensina que a …

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