Josué 9:1
" E sucedeu que, ouvindo isto todos os reis, que estavam aquém do Jordão, nas montanhas, e nas campinas, em toda a costa do grande mar, em frente do Líbano, os heteus, e os amorreus, os cananeus, os perizeus, os heveus, e os jebuseus, "
Entenda os temas principais e aplique Josué 9 na sua vida hoje
27 versículos | Almeida Corrigida Fiel
Os líderes de Israel avaliam a situação apenas pelos sinais externos e pelas palavras dos gibeonitas, mas não perguntam ao Senhor antes de firmar a aliança. Essa omissão resulta em consequências duradouras para o povo.
Os gibeonitas usam de engano para preservar a vida, motivados pelo que ouviram sobre o poder do Senhor e o decreto de que Israel tomaria a terra. Seu estratagema evidencia tanto a realidade do juízo iminente quanto o reconhecimento da fama de Deus.
Mesmo ao descobrir o engano, Israel não rompe a aliança, por respeito ao juramento feito diante do Senhor. A manutenção do pacto, ainda que custosa, mostra a importância dada à fidelidade e ao temor a Deus.
Os gibeonitas não são destruídos, mas também não permanecem em plena liberdade. Passam a viver sob maldição de servidão, ao mesmo tempo em que são preservados e integrados a um papel de serviço ligado ao altar do Senhor.
Os reis cananeus se unem para guerrear contra Israel, enquanto Gibeom segue um caminho diferente, buscando preservação por meio de um pacto. O capítulo contrasta reação de enfrentamento e reação de rendição ao plano de Deus.
Josué 9 se insere no período da conquista de Canaã, logo após as vitórias militares de Israel sobre Jericó (Josué 6) e Ai (Josué 7–8). A notícia dessas conquistas se espalha rapidamente entre os povos cananeus: heteus, amorreus, cananeus, perizeus, heveus e jebuseus, que habitavam a região montanhosa, as campinas e a costa do Mediterrâneo, em frente ao Líbano (v.1). Esses povos, ameaçados pela chegada de Israel, formam uma coalizão militar para resistir (v.2). Gibeom, cidade importante da região dos heveus, escolhe outro caminho, recorrendo à política e à astúcia em vez do confronto direto. Segundo a ordem anteriormente dada por Deus a Moisés, Israel deveria destruir completamente os povos de Canaã, mas poderia fazer tratados com nações realmente distantes (cf. instruções da Lei, que explicam o pano de fundo da preocupação de Israel em não pactuar com povos que habitavam a terra). Esse cenário explica por que a estratégia gibeonita se concentra em parecerem viajantes de uma terra remota, com pão envelhecido, roupas gastas e odres remendados (v.4-5, 12-13). Os líderes israelitas, baseados na prática de juramentos solenes feitos em nome do Senhor, consideram o pacto com a máxima seriedade. Romper um juramento assim era entendido como trazer culpa e ira divina sobre o povo (v.19-20). Ao final, os gibeonitas são poupados, mas colocados em trabalho servil a serviço da congregação e do altar do Senhor (v.27), o que mostra como questões políticas, religiosas e sociais se entrelaçavam naquele período.
O capítulo apresenta uma narrativa contínua com um enredo bem definido, estruturado em cenas sucessivas:
Panorama da ameaça regional (v.1-2)
O plano astuto dos gibeonitas (v.3-6)
Diálogo e negociação com Israel (v.7-13)
Decisão sem consulta a Deus e pacto firmado (v.14-15)
Descoberta do engano e tensão na congregação (v.16-21)
Confronto de Josué e destino dos gibeonitas (v.22-27)
Josué 9 concentra temas teológicos fundamentais para compreender o caráter de Deus, a responsabilidade de Seu povo e a tensão entre juízo e misericórdia.
Em primeiro lugar, o capítulo destaca a necessidade de dependência de Deus em toda decisão. A frase “não pediram conselho ao Senhor” (v.14) funciona como um comentário crítico sobre a liderança de Israel. Mesmo após vitórias claras, a autoconfiança pode levar à negligência espiritual. A fé bíblica não exclui o uso da razão, mas chama a submeter a análise humana à direção de Deus.
O texto também ressalta a santidade do nome do Senhor e o peso dos juramentos feitos em Sua presença. Ao descobrir o engano, a solução mais intuitiva seria anular um pacto construído sobre mentira. No entanto, os príncipes entendem que o que está em jogo não é apenas a relação com os gibeonitas, mas a honra do Deus em cujo nome juraram (v.18-20). Preservar a palavra empenhada mostra que a fidelidade de Israel deve refletir a fidelidade do próprio Deus.
Há ainda um entrelaçamento entre juízo e misericórdia. A ordem divina de destruir os povos de Canaã está ligada ao juízo sobre sua maldade e à preservação espiritual de Israel. Porém, no caso de Gibeom, a punição não vem pela via da morte, mas por meio da servidão: tornam-se “malditos” no sentido de viverem perpetuamente como servos (v.23). Ao mesmo tempo, essa servidão é direcionada ao serviço da congregação e do altar (v.27), abrindo uma brecha para que esse povo, que teme o Senhor (v.24), viva sob a sombra da presença divina, ainda que em posição inferior. Desenha-se, assim, um vislumbre de inclusão de estrangeiros no ambiente do culto ao Deus verdadeiro.
O temor dos gibeonitas revela outro aspecto teológico: eles reconhecem a soberania do Senhor sobre a terra e sobre a história. Sabem que Deus entregou toda a terra a Israel e destruiria os moradores (v.24). Seu engano é condenável, mas nasce da consciência de que não podem resistir ao decreto divino e de que a vida só pode ser preservada se se colocarem à mercê do povo de Deus (v.25). O texto sugere que, mesmo no meio de um cenário de guerra e juízo, há espaço para que povos distantes de Deus se aproximem, ainda que de forma imperfeita, ao reconhecerem Sua autoridade.
Por fim, o capítulo contribui para a compreensão da aliança como um compromisso sério e duradouro. A aliança de Israel com os gibeonitas, embora fruto de erro, passa a fazer parte da história do povo e será lembrada em momentos posteriores. Isso ilustra como decisões tomadas sem consultar a Deus podem gerar vínculos de longo prazo, mas também como Deus é capaz de redimir tais situações, colocando até mesmo um engano humano a serviço de Seu propósito maior.
Do ponto de vista emocional e terapêutico, Josué 9 toca em temas como engano, culpa, tensão comunitária e medo. A astúcia dos gibeonitas nasce de um medo intenso de serem destruídos (v.24), retratando como o medo pode levar a estratégias desesperadas, nem sempre éticas, para preservar a vida. Esse medo não é trivial: envolve a ameaça real de perder tudo, o que reflete sentimentos comuns em situações de crise extrema.
Do lado de Israel, aparece o peso da responsabilidade e o impacto emocional de um erro coletivo. Ao perceberem que foram enganados, a congregação reage com murmuração contra seus líderes (v.18), evidenciando frustração, raiva e sensação de traição. Os príncipes, por sua vez, precisam lidar com a culpa de não terem consultado o Senhor (v.14) e, mesmo assim, sustentar com firmeza uma decisão impopular, por fidelidade ao juramento. Isso ilustra a angústia que acompanha decisões difíceis, nas quais nenhuma solução parece perfeita, e ainda assim é preciso escolher o caminho mais íntegro.
O desfecho apresenta um tipo de reestruturação do dano: os gibeonitas não são destruídos, mas aceitam uma nova identidade social como servos (v.25, 27). Há uma espécie de aceitação da realidade e um reposicionamento em relação ao povo de Deus e à vontade do Senhor. Em termos de cuidado emocional, o texto sugere que erros graves – tanto de quem engana quanto de quem é enganado – podem ser reconhecidos, enfrentados e, de alguma forma, reorganizados em um novo equilíbrio, ainda que com marcas e limitações. A preservação da vida, a proteção contra uma “grande ira” (v.20) e a integração em tarefas ligadas ao altar apontam para a possibilidade de reconstrução, mesmo após rupturas de confiança.
Esse capítulo também ilumina a importância de pausas reflexivas antes de decisões relevantes. A ausência de consulta ao Senhor simboliza, no campo emocional, a falta de espaço para reflexão, oração, busca de conselhos e avaliação mais profunda. Em contextos terapêuticos, essa dimensão se traduz na necessidade de criar tempo e espaço interior para processar medos, verificar fatos, reconhecer limites e evitar agir apenas por impulso ou aparência.
Alguns elementos do capítulo, lidos de forma isolada ou literalista fora do contexto bíblico e histórico, podem acionar gatilhos emocionais ou interpretações problemáticas. A violência implícita na ameaça de destruição dos povos da terra e o temor de morte que move os gibeonitas (v.24) podem despertar ansiedade intensa em pessoas sensíveis a temas de juízo e punição. É importante lembrar o contexto específico da conquista de Canaã e evitar aplicar essas cenas diretamente a situações atuais de conflito.
A maldição de servidão sobre os gibeonitas (v.23, 27) pode ser mal utilizada para justificar relações abusivas, desigualdades permanentes ou opressões étnicas e sociais. Uma leitura terapêutica requer cuidado em distinguir a narrativa histórica da normatização de comportamentos, reforçando que a Escritura, como um todo, aponta para a dignidade de todas as pessoas e para a correção de injustiças, e não para a legitimação de opressão.
O tema do engano também pode ser delicado para quem já sofreu traições profundas. A descoberta tardia do engano (v.16-18) e a impossibilidade de “voltar atrás” por causa do juramento podem despertar sentimentos de impotência, raiva reprimida ou medo de confiar novamente. Em contextos de cuidado emocional, é importante reconhecer essa dor, validar a experiência de quem se identifica com a sensação de ter sido enganado, e lembrar que o texto descreve uma situação específica, não impondo que toda vítima de engano tenha de manter vínculos prejudiciais.
Outro ponto sensível é a ideia de culpa e responsabilidade espiritual. A frase “não pediram conselho ao Senhor” (v.14) pode ser usada, indevidamente, para sobrecarregar pessoas com culpa excessiva por decisões passadas. Uma abordagem saudável encoraja aprendizado, arrependimento quando necessário e busca de nova direção em Deus, sem aprisionar a pessoa em autoacusação permanente.
Josué 9 oferece lições práticas para decisões, relacionamentos e vida comunitária.
Na dimensão da tomada de decisões, o texto destaca a necessidade de ir além das aparências. Os líderes de Israel se baseiam no que veem e escutam – pão bolorento, roupas gastas, discurso convincente – mas falham em buscar a direção do Senhor (v.14). Em situações concretas, isso se traduz em não decidir apenas pelo impulso, pela primeira impressão ou por narrativas bem contadas. Envolve verificar informações, ouvir mais de uma parte, buscar conselhos sábios e, sobretudo, incluir a dimensão espiritual na escolha.
No campo dos relacionamentos e compromissos, o peso do juramento em Josué 9 lembra que promessas e alianças devem ser assumidas com seriedade. Isso vale para vínculos familiares, acordos profissionais, responsabilidades ministeriais e compromissos comunitários. O exemplo dos príncipes que mantêm o pacto, mesmo em desvantagem (v.18-21), aponta para a importância da integridade, da coerência entre palavra e ação, e do temor a Deus acima da conveniência imediata.
A reação dos gibeonitas evidencia como o medo pode distorcer a tomada de decisão. Ao invés de um caminho aberto de súplica ou negociação transparente, escolhem a mentira para se proteger (v.4-6, 24). No cotidiano, o medo de perder, de ser rejeitado ou de sofrer consequências pode levar a meias-verdades e manipulações. Aprender com esse episódio significa reconhecer o medo, mas buscar formas honestas de enfrentá-lo, confiando que a verdade, ainda que arriscada, constrói relações mais estáveis.
O desfecho em que os gibeonitas são inseridos em serviço para a congregação e para o altar (v.27) pode inspirar a percepção de que Deus pode transformar até situações resultantes de erros em oportunidades de serviço e crescimento. Decisões mal tomadas podem gerar limitações, mas não impedem que novas funções e contribuições sejam encontradas.
Por fim, o contraste entre a coalizão de reis que decide guerrear (v.1-2) e Gibeom, que busca uma forma de rendição, lembra que resistências obstinadas ao que Deus está fazendo terminam em confronto e perda, enquanto a disposição de se render – ainda que mal conduzida no caso deles – pode abrir caminhos para preservação e reconfiguração da vida. No plano prático, isso encoraja uma postura de discernimento diante do que Deus está fazendo, substituindo enfrentamento teimoso por escuta e disposição para se alinhar à vontade do Senhor.
A narrativa mostra que o juramento foi feito em nome do Senhor (v.15, 18-19). Romper essa palavra colocaria em risco a honra do nome de Deus, como se Ele próprio não fosse confiável. Os príncipes entendem que, mesmo enganados, devem preservar o juramento para não atrair a ira do Senhor (v.20). Assim, a manutenção da aliança ressalta a seriedade da palavra empenhada diante de Deus e, ao mesmo tempo, mostra como Ele pode usar uma situação originada pelo erro humano para um propósito diferente, colocando os gibeonitas a serviço do altar (v.27).
Do ponto de vista ético, a atitude dos gibeonitas é enganosa e condenável. Eles mentem sobre sua origem, simulam ser de terra distante e montam uma encenação com pão e odres velhos (v.4-6, 12-13). Ao mesmo tempo, o texto revela o motivo: temiam profundamente por suas vidas, pois sabiam que o Senhor havia dado a terra a Israel e destruiria seus moradores (v.24). A narrativa não justifica moralmente o engano, mas o enquadra como uma estratégia desesperada de sobrevivência num contexto de juízo iminente.
Essa expressão descreve um tipo de servidão permanente, ligada a tarefas básicas e contínuas para a comunidade e para o culto. Ser rachador de lenha e tirador de água (v.21, 23, 27) significava realizar serviços essenciais, porém socialmente inferiores, garantindo combustível e água para o povo e para o altar do Senhor. Ao mesmo tempo em que indica uma posição de submissão e maldição social, essa função também os coloca em contato constante com a vida religiosa de Israel, integrando-os de alguma forma ao ambiente da adoração ao Deus verdadeiro.
Quando os israelitas descobrem que os gibeonitas são, na verdade, vizinhos dentro da terra (v.16-17), percebem que a aliança impede que sejam destruídos como os demais povos cananeus. Isso gera frustração e insatisfação, pois a congregação entende que o plano de conquista foi comprometido. A murmuração (v.18) reflete a tensão entre o desejo do povo e a responsabilidade dos líderes de manter o juramento feito em nome do Senhor, mesmo que isso implique mudanças nas expectativas militares.
O versículo 14 é central: “não pediram conselho ao Senhor”. Apesar de terem experiência em batalhas e discernimento humano, os líderes de Israel não consultam o Senhor diante de uma situação aparentemente simples. O resultado é uma aliança que traz complicações duradouras. O capítulo ensina que a dependência de Deus não deve ser reservada apenas para crises evidentes; também nas decisões do dia a dia é necessário buscar Sua direção, evitando confiar apenas nas aparências ou na própria capacidade de julgamento.
Neste capítulo, transparece um cenário carregado de medo, tensão e frustração. Os gibeonitas agem movidos por um temor intenso de serem destruídos; a sobrevivência parece estar em jogo em cada decisão (v.24). A história deles lembra que, muitas vezes, escolhas distorcidas nascem de corações apavorados, que não enxergam outra saída. Não é uma justificativa para o engano, mas uma janela para a dor que existe por trás de ações erradas. Do outro lado, Israel sente a dor de ter sido enganado. A congregação murmura, os príncipes carregam o peso de uma decisão precipitada, e a sensação é de falha coletiva (v.14, 18). Esse peso é real: quando alguém percebe que poderia ter buscado a direção de Deus e não o fez, é natural que surjam arrependimento e culpa. O próprio texto reconhece esse erro, mas não termina afundando o povo nessa culpa. Em vez disso, mostra que, mesmo a partir de um equívoco, é possível seguir adiante com integridade, preservando o juramento e reorganizando a situação da melhor forma possível (v.19-21, 26-27. Há também um gesto de preservação silenciosa: apesar do engano, a vida dos gibeonitas é poupada (v.26). Em meio a um contexto duro de guerra, esse detalhe carrega um fio de misericórdia. Os que temeram ao Senhor, ainda que de forma torta e cheia de falhas, acabam vivendo próximos ao altar, servindo ali dia após dia (v.27). A narrativa, assim, acolhe tanto quem falhou por medo quanto quem falhou por precipitação, mostrando que Deus não descarta pessoas por causa de um erro, mas pode redirecionar histórias, mesmo que carregadas de marcas e lembranças difíceis.
Josué 9 oferece um material rico para observação exegética e teológica. Primeiramente, o contraste entre a coalizão dos reis cananeus (v.1-2) e a estratégia singular dos gibeonitas destaca respostas distintas ao mesmo fato teológico: o avanço do povo a quem o Senhor prometeu a terra. O texto não apenas relata um episódio político, mas revela um reconhecimento generalizado da ação soberana de Deus na história. A chave interpretativa interna do capítulo está no v.14: “não pediram conselho ao Senhor”. Esta observação editorial explica a causa fundamental do erro de Israel. O relato mostra que os sinais externos podem ser manipulados – pão bolorento, odres velhos, roupas gastas (v.4-5, 12-13) –, e que o discernimento meramente humano é insuficiente quando não se busca a orientação divina. Trata-se de um comentário teológico sobre o processo decisório da liderança. O pacto com Gibeom também é significativo dentro da estrutura de Deuteronômio–Josué, que enfatiza a necessidade de separação dos povos cananeus para evitar contaminação religiosa. Ao fazer aliança com um povo da terra, Israel cria uma tensão com as instruções recebidas. A solução encontrada – preservar a vida, mas atribuir função de servidão vinculada ao culto (v.21, 23, 27) – atenua a violação da ordem quanto ao extermínio, mas preserva a integridade do juramento feito em nome do Senhor. Assim, o texto trabalhou duas exigências: o temor ao nome de Deus e o cuidado com o cumprimento de Sua vontade revelada previamente. Do ponto de vista literário, a estrutura em duas reações ao avanço de Israel (guerra ou rendição astuta) prepara o caminho para os capítulos seguintes, em que a presença dos gibeonitas se tornará um fator geopolítico relevante. A nota “até ao dia de hoje” (v.27) indica que, para o leitor original, aquela situação ainda repercutia. Isso sugere a intenção do autor de explicar como aquele povo em posição de servos ligados ao culto passou a integrar o cenário de Israel. Por fim, o capítulo reforça a importância da ética nos acordos. O engano dos gibeonitas é claramente exposto, sem ser romantizado, enquanto a fidelidade de Israel ao juramento, mesmo em desvantagem, é apresentada como exigência derivada do temor a Deus (v.18-20). A teologia do texto acompanha, assim, a ideia de que a palavra empenhada em nome do Senhor vincula o povo e não pode ser tratada com leviandade.
Na esfera prática, Josué 9 funciona quase como um estudo de caso sobre decisões, alianças e consequências. Os líderes de Israel se baseiam em elementos aparentemente convincentes – a história bem contada, as evidências materiais de uma longa viagem, o tom de humildade dos gibeonitas – e, ainda assim, tomam uma decisão equivocada porque não adicionam um passo essencial: buscar a direção do Senhor (v.14). Em termos de vida cotidiana, isso equivale a acordos profissionais, parcerias, compromissos afetivos ou decisões financeiras tomadas apenas pela aparência e urgência, sem tempo de checagem, reflexão e oração. O capítulo também mostra o peso dos compromissos firmados. Uma vez que o juramento é feito, não é simplesmente revertido quando surgem novas informações. Os príncipes explicam ao povo que, por terem jurado pelo Senhor Deus de Israel, não podem tocar nos gibeonitas (v.19). A decisão agora precisa ser administrada: preservam a vida do outro lado, mas estabelecem limites claros, colocando-os em posição de serviço (v.21). Em termos práticos, isso ensina a lidar com compromissos assumidos de maneira imperfeita: nem sempre é possível “anular” o que foi feito, mas é possível estabelecer novos contornos, regras e funções para minimizar danos e proteger o que é essencial. Do lado dos gibeonitas, a narrativa mostra como o medo pode levar à escolha pela manipulação, e não pela transparência (v.4-6, 24). Em relacionamentos hoje, o medo de perder algo importante pode incentivar a omissão de verdades, a criação de narrativas convenientes ou o uso de aparências para controlar o resultado. O texto expõe esse caminho como problemático: os gibeonitas sobrevivem, mas o preço é uma posição permanente de servidão e a marca do engano sobre sua identidade (v.23, 27). Há, porém, um aprendizado valioso na resposta final de Josué e dos príncipes. Em vez de reagir apenas com ira ou vingança, eles equilibram justiça e preservação. A vida é mantida, o juramento é honrado, os limites são definidos. Em termos práticos, isso se parece com a gestão madura de crises: reconhecer erros, assumir responsabilidade, proteger princípios fundamentais (como a palavra dada) e, ao mesmo tempo, redefinir papéis para que aquela situação não continue gerando dano descontrolado. Assim, Josué 9 encoraja uma postura de prudência, integridade e coragem para lidar com os desdobramentos de escolhas já feitas, lembrando que até decisões mal conduzidas podem ser reorganizadas com sabedoria e temor a Deus.
Sob a ótica da alma e da eternidade, Josué 9 é um retrato da humanidade diante da realidade do juízo e da soberania de Deus. Os gibeonitas ouviram que o Senhor havia determinado dar toda a terra a Israel e destruir seus moradores (v.24). Diante desse decreto, reconhecem que não podem resistir e, temendo por suas vidas, procuram um modo de se colocar sob a proteção daquele mesmo povo a quem Deus favorece. A forma como fazem isso é falha e enganosa, mas o movimento de fundo é significativo: em vez de se unirem à coalizão que enfrenta o propósito de Deus, rendem-se, mesmo que de maneira imperfeita. Essa tensão entre resistência e rendição ecoa realidades espirituais profundas. Há quem, diante da verdade sobre Deus, feche o coração e escolha a guerra; há quem, percebendo a gravidade do juízo e a grandeza do Senhor, busque refúgio junto a Ele, embora marcado por fragilidades. Em Gibeom, o temor não gera fé madura ou obediência plena, mas produz ao menos um reconhecimento: “o Senhor teu Deus ordenou” (v.24). É um início de resposta à revelação divina, ainda distante da plenitude, mas real. A posição final dos gibeonitas – servindo à congregação e ao altar do Senhor, “até ao dia de hoje” (v.27) – sugere um paradoxo espiritual: um povo que deveria ser destruído passa o restante de sua história vivendo aos pés da adoração ao Deus verdadeiro, ainda que em condição de servos. Sob a lente da revelação maior das Escrituras, isso antecipa a inclusão de povos antes distantes na esfera da presença de Deus, ainda que de forma limitada naquele momento. Para a alma que contempla esse texto, surge um chamado à vigilância: o povo de Deus, mesmo conhecendo o Senhor, pode caminhar sem consultá-Lo, agindo na prática como se bastasse a própria experiência (v.14). Essa autossuficiência espiritual ameaça a profundidade da comunhão e afeta o testemunho no mundo. Ao mesmo tempo, o relato também aponta para a paciência de Deus em lidar com os erros de Seu povo, usando inclusive alianças imperfeitas para desenhar um cenário onde estrangeiros servem no ambiente do culto. Em última análise, Josué 9 recorda que a história não é apenas uma sequência de decisões humanas, mas um palco onde o propósito divino avança, ajustando, disciplinando e, por vezes, acolhendo de formas surpreendentes. A alma é convidada a se colocar não no lado daqueles que resistem ao que Deus faz, mas entre os que, reconhecendo Sua autoridade e fama, buscam abrigo junto dEle, com reverência, disposição de servir e confiança em Sua soberania sobre o tempo e sobre o destino eterno.
" E sucedeu que, ouvindo isto todos os reis, que estavam aquém do Jordão, nas montanhas, e nas campinas, em toda a costa do grande mar, em frente do Líbano, os heteus, e os amorreus, os cananeus, os perizeus, os heveus, e os jebuseus, "
" Se ajuntaram eles de comum acordo, para pelejar contra Josué e contra Israel. "
" E os moradores de Gibeom, ouvindo o que Josué fizera com Jericó e com Ai, "
" Usaram de astúcia, e foram e se fingiram embaixadores, e levando sacos velhos sobre os seus jumentos, e odres de vinho, velhos, e rotos, e remendados; "
" E nos seus pés sapatos velhos e remendados, e roupas velhas sobre si; e todo o pão que traziam para o caminho era seco e bolorento. "
" E vieram a Josué, ao arraial, a Gilgal, e disseram a ele e aos homens de Israel: Viemos de uma terra distante; fazei, pois, agora, acordo conosco. "
" E os homens de Israel responderam aos heveus: Porventura habiteis no meio de nós; como pois faremos acordo convosco? "
" Então disseram a Josué: Nós somos teus servos. E disse-lhes Josué: Quem sois vós, e de onde vindes? "
" E lhe responderam: Teus servos vieram de uma terra mui distante, por causa do nome do Senhor teu Deus, porquanto ouvimos a sua fama, e tudo quanto fez no Egito; "
" E tudo quanto fez aos dois reis dos amorreus, que estavam além do Jordão, a Siom rei de Hesbom, e a Ogue, rei de Basã, que estava em Astarote. "
" Por isso nossos anciãos e todos os moradores da nossa terra nos falaram, dizendo: Tomai em vossas mãos provisão para o caminho, e ide-lhes ao encontro e dizei-lhes: Nós somos vossos servos; fazei, pois, agora acordo conosco. "
" Este nosso pão tomamos quente das nossas casas para nossa provisão, no dia em que saímos para vir a vós; e ei-lo aqui agora já seco e bolorento; "
" E estes odres, que enchemos de vinho, eram novos, e ei-los aqui já rotos; e estas nossas roupas e nossos sapatos já se têm envelhecido, por causa do mui longo caminho. "
" Então os homens de Israel tomaram da provisão deles e não pediram conselho ao Senhor. "
" E Josué fez paz com eles, e fez um acordo com eles, que lhes daria a vida; e os príncipes da congregação lhes prestaram juramento. "
" E sucedeu que, ao fim de três dias, depois de fazerem acordo com eles, ouviram que eram seus vizinhos, e que moravam no meio deles. "
" Porque, partindo os filhos de Israel, chegaram às cidades deles ao terceiro dia; e suas cidades eram Gibeom e Cefira, e Beerote, e Quiriate-Jearim. "
" E os filhos de Israel não os feriram; porquanto os príncipes da congregação lhes juraram pelo Senhor Deus de Israel; por isso toda a congregação murmurava contra os príncipes. "
" Então todos os príncipes disseram a toda a congregação: Nós juramos-lhes pelo Senhor Deus de Israel, pelo que não lhes podemos tocar. "
" Isto, porém, lhes faremos: conservar-lhes-emos a vida, para que não haja grande ira sobre nós, por causa do juramento que já lhes fizemos. "
" Disseram-lhes, pois, os príncipes: Vivam, e sejam rachadores de lenha e tiradores de água para toda a congregação, como os príncipes lhes disseram. "
" E Josué os chamou, e falou-lhes dizendo: Por que nos enganastes dizendo: Mui longe de vós habitamos, morando vós no meio de nós? "
" Agora, pois, sereis malditos; e dentre vós não deixará de haver servos, nem rachadores de lenha, nem tiradores de água, para a casa do meu Deus. "
" Então responderam a Josué, e disseram: Porquanto com certeza foi anunciado aos teus servos que o Senhor teu Deus ordenou a Moisés, seu servo, que a vós daria toda esta terra, e destruiria todos os moradores da terra diante de vós, tememos muito por nossas vidas por causa de vós; por isso fizemos assim. "
" E eis que agora estamos na tua mão; faze-nos aquilo que te pareça bom e reto. "
" Assim pois lhes fez, e livrou-os das mãos dos filhos de Israel, e não os mataram. "
" E naquele dia, Josué os fez rachadores de lenha e tiradores de água para a congregação e para o altar do Senhor, até ao dia de hoje, no lugar que ele escolhesse. "
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