Rute 3 - Significado, temas e aplicacao

Entenda os temas principais e aplique Rute 3 na sua vida hoje

18 versiculos | Almeida Corrigida Fiel

Sobre o que e Rute 3?

Rute 3 descreve o plano de Noemi para garantir descanso e segurança para Rute por meio de Boaz, o parente remidor. Rute segue com coragem e humildade as orientações de sua sogra, se apresenta a Boaz na eira e pede que ele exerça seu papel de remidor. Boaz reconhece a virtude de Rute, promete agir corretamente e envia um sinal de cuidado abundante antes de resolver formalmente a situação.

Temas principais em Rute 3

Busca de descanso e segurança sob o cuidado de Deus (versiculos 1-5)

Noemi deseja descanso para Rute e elabora um plano para que ela seja acolhida e protegida por Boaz. Em meio à vulnerabilidade, a história reflete a busca por segurança legítima, provisão e pertencimento dentro da aliança e da família.

Versiculos-chave: 1, 2

Pureza e honra em um contexto de vulnerabilidade (versiculos 6-14)

Apesar de a cena na eira ocorrer à noite e em situação potencialmente mal interpretada, o texto destaca a virtude de Rute e a integridade de Boaz. Há proximidade, mas sem abuso, manipulação ou imoralidade, e sim respeito, honra e compromisso.

Versiculos-chave: 7, 11, 14

O remidor e o compromisso com a justiça (versiculos 9-13)

Boaz reconhece seu papel de remidor, mas faz questão de agir dentro da ordem certa, respeitando o parente mais próximo. Ele não atropela o processo, mesmo tendo afeição por Rute, mostrando zelo pela justiça e pela lei.

Versiculos-chave: 9, 12, 13

Fidelidade, reputação e graça abundante (versiculos 10-18)

Rute é reconhecida como mulher virtuosa em toda a cidade, e Boaz reage à sua fidelidade com generosidade, enviando-lhe cevada e garantindo que não voltaria de mãos vazias. A reputação de integridade abre portas para graça e cuidado.

Versiculos-chave: 10, 11, 15

Esperar com confiança a atuação de Deus (versiculos 16-18)

Depois que Rute faz sua parte, Noemi a convida a aguardar o desfecho, confiando no caráter de Boaz. A história retrata a tensão entre agir com responsabilidade e depois descansar, deixando o resultado nas mãos de alguém fiel.

Versiculos-chave: 18

Contexto historico e literario

Rute 3 se passa no período dos juízes, tempo marcado por instabilidade espiritual e social em Israel. Ainda assim, a narrativa mostra uma família que procura viver sob a aliança de Deus. O cenário é a época da colheita da cevada, provavelmente na primavera, quando o grão era colhido e depois padejado na eira para separar o grão da palha.

No contexto da lei de Israel, o conceito de "remidor" (goel) era importante: um parente próximo podia resgatar terras vendidas, proteger membros vulneráveis da família e preservar o nome do falecido, inclusive por meio do casamento com a viúva, em alguns casos relacionados ao levirato (ver Deuteronômio 25). Boaz é apresentado como um homem influente e temente a Deus, que conhece e honra essas responsabilidades.

A cena na eira reflete costumes antigos de trabalho agrícola: após um dia de trabalho, o proprietário muitas vezes dormia perto do monte de grãos para proteger a colheita de ladrões. A atitude de Rute de se deitar aos pés de Boaz, cobrir-se com sua capa e pedir que ele estendesse a capa sobre ela é um gesto simbólico de pedido de proteção e compromisso, ligado ao papel dele como remidor. Ao mesmo tempo, a narrativa enfatiza o cuidado para evitar escândalo, com Rute saindo antes de amanhecer e Boaz pedindo que não se espalhasse que uma mulher esteve na eira.

Estrutura de Rute 3

O capítulo 3 tem uma estrutura narrativa bem definida e progressiva:

  1. Plano de Noemi (3:1-5) – A seção se inicia com a preocupação de Noemi em buscar descanso para Rute. Ela reconhece Boaz como parente e elabora um plano detalhado, com instruções precisas sobre como e quando Rute deve se aproximar dele.

  2. Obediência de Rute e preparação da cena (3:6-7) – O narrador mostra Rute cumprindo exatamente as instruções da sogra, indo à eira, aguardando o momento certo e se aproximando com discrição.

  3. Encontro na eira (3:8-9) – O clímax inicial ocorre quando, à meia-noite, Boaz percebe a presença de Rute. O diálogo é curto, mas carregado de significado: Rute se identifica, se coloca como serva e pede que Boaz estenda sua capa sobre ela, apelando ao papel de remidor.

  4. Resposta de Boaz e reconhecimento da virtude de Rute (3:10-13) – Boaz bendiz Rute, elogia sua escolha e reafirma sua reputação de mulher virtuosa. Em seguida, explica a existência de outro remidor mais próximo e estabelece o caminho justo para proceder, jurando diante do Senhor que a redimirá se o outro não o fizer.

  5. Noite de espera e proteção da reputação (3:14) – Rute permanece deitada aos pés de Boaz até o amanhecer, preservando segurança e sob cuidado dele. Ao mesmo tempo, há zelo para evitar rumores, com a instrução de que não se divulgue que uma mulher esteve na eira.

  6. Presente de Boaz e retorno a Noemi (3:15-17) – Boaz envia Rute com seis medidas de cevada, um gesto simbólico de provisão e intenção, acompanhado da mensagem de que ela não deveria voltar vazia à sua sogra. Rute relata tudo a Noemi.

  7. Conselho final de Noemi e suspense narrativo (3:18) – O capítulo encerra com Noemi conclamando Rute a esperar o desfecho, afirmando que Boaz não descansará até resolver a situação naquele mesmo dia, deixando o leitor em expectativa para o capítulo seguinte.

Significado teologico

Rute 3 aprofunda a compreensão do cuidado providencial de Deus que opera por meio de relacionamentos, leis e escolhas responsáveis. Em um tempo de insegurança nacional, Deus está escrevendo uma história de redenção por meio de uma viúva estrangeira, uma sogra amargurada que volta a ter esperança e um homem justo que assume seu papel de remidor.

A ideia de "remidor" é teologicamente rica: o parente que resgata revela o coração de Deus, que não abandona os vulneráveis. Boaz, ao agir com integridade, se torna um tipo de figura redentora, apontando para o modo como Deus se aproxima dos necessitados para lhes dar nome, futuro e lugar em seu povo.

O texto também ressalta o valor da fidelidade e da virtude em contextos de fragilidade. Rute, uma moabita, é chamada de mulher virtuosa, mostrando que a graça de Deus ultrapassa fronteiras étnicas e culturais. Sua reputação é formada por escolhas reais: lealdade a Noemi, humildade diante de Boaz, pureza na noite na eira. Essa integridade abre caminho para que ela seja objeto de cuidado especial e se torne parte da linhagem messiânica.

Outro aspecto teológico é o equilíbrio entre ação humana e confiança em Deus. Noemi planeja, Rute obedece, Boaz responde com retidão, e em tudo isso a mão de Deus conduz o enredo. Não é uma fé passiva, mas também não é um ativismo ansioso: existe um agir responsável seguido por um descanso confiante, como se vê na frase final de Noemi, ao chamar Rute a esperar o desfecho daquilo que Boaz, homem fiel, fará.

Por fim, Rute 3 prepara o terreno para uma redenção mais ampla: o Deus que cuida da situação concreta de duas viúvas pobres é o mesmo que, na história mais ampla da salvação, providencia um Redentor definitivo para seu povo, que cobre sua vergonha, lhes dá descanso e garante um futuro.

Aplicacao restauradora e de saude mental

Rute 3 oferece um retrato sensível de pessoas lidando com vulnerabilidade, insegurança e necessidade de proteção, e mostra como cuidado, lealdade e honra podem transformar uma situação frágil em uma história de esperança.

Do ponto de vista emocional, Noemi aparece mais ativa e esperançosa do que nos capítulos anteriores. Ela volta a planejar, a chamar Rute de "minha filha" e a buscar descanso para ela. Isso reflete o processo de alguém que, após a dor intensa, começa lentamente a reconstruir a esperança, ainda que de forma cautelosa.

Rute vive um momento de grande exposição: estrangeira, viúva, mulher pobre, ela se coloca em uma cena noturna que poderia ser facilmente interpretada de forma negativa. O texto, porém, sublinha sua coragem, sua obediência e sua virtude. Há um equilíbrio entre vulnerabilidade e dignidade: Rute não é passiva, mas também não manipula; se expõe, mas confia no caráter de Boaz e no cuidado de Deus.

Boaz, por sua vez, representa um modelo saudável de poder e influência. Ele não se aproveita da situação, não pressiona, não usa sua posição para benefícios pessoais. Ao contrário, responde com respeito, benção, clareza de limites e compromisso com o caminho correto. É uma imagem de segurança relacional e proteção emocional que contrasta com experiências de abuso ou uso distorcido de autoridade.

O capítulo também toca no tema da espera: depois de fazer o que podiam, Noemi e Rute são chamadas a descansar, confiando no caráter de Boaz e, por trás disso, na providência de Deus. Isso reflete a dimensão terapêutica de reconhecer limites, aceitar que nem tudo está sob controle próprio e encontrar paz ao entregar o desfecho nas mãos de alguém confiável.

warning Importante: maus usos comuns

Alguns elementos de Rute 3, lidos fora do contexto, podem ser mal compreendidos e exigem cuidado.

  1. Uso prescritivo da cena noturna na eira: O episódio de Rute se deitando aos pés de Boaz é descrito, não ordenado como modelo universal. Transportar essa cena diretamente para situações atuais de relacionamento pode incentivar comportamentos arriscados, exposição a abuso ou mal-entendidos. O texto enfatiza a virtude de Rute e a integridade de Boaz, mas não legitima situações onde alguém é colocado em risco físico ou emocional.

  2. Pressão familiar para relacionamentos: Noemi faz um plano detalhado para Rute, envolvendo casamento e segurança. Em contextos atuais, isso pode ser confundido com controle excessivo ou pressão familiar que desrespeita a vontade da pessoa. Na narrativa, Rute consente e responde com disposição, mas isso não justifica, hoje, decisões invasivas ou manipuladoras em nome de "cuidado".

  3. Idealização de figuras de autoridade: Boaz é um exemplo de homem justo que usa bem sua autoridade. Porém, na realidade contemporânea, líderes e pessoas influentes nem sempre agem assim. Usar Boaz como padrão para confiar cegamente em qualquer figura de autoridade pode deixar pessoas vulneráveis a abusos espirituais, emocionais ou físicos.

  4. Romantização da vulnerabilidade: A história é bela, mas não transforma vulnerabilidade em algo romântico em si. É preciso evitar leituras que incentivem permanência em situações inseguras na expectativa de que alguém surgirá como "remidor" humano. A narrativa aponta para o cuidado de Deus, não para a busca inconsequente de salvadores humanos.

  5. Culpa religiosa sobre reputação: O capítulo mostra zelo com a reputação de Rute e de Boaz. Em ambientes religiosos, isso pode ser distorcido para produzir culpa excessiva, rigidez ou vergonha em situações de falha real ou de boatos injustos. A narrativa não legitima controle social opressor, mas valoriza integridade e proteção mútua.

Aplicacao pratica para hoje

Rute 3 inspira diversas aplicações práticas para a vida cotidiana, especialmente em áreas de relacionamentos, tomada de decisão e gestão da vulnerabilidade.

  1. Planejar com responsabilidade e fé: Noemi não se acomoda ao sofrimento. Ela observa a realidade, identifica Boaz como possibilidade legítima e elabora um plano. Isso encoraja a unir fé e responsabilidade: avaliar caminhos honestos, usar sabedoria, buscar conselhos e agir, sem paralisar diante da dor.

  2. Obediência e confiança em relações saudáveis: A interação entre Noemi e Rute mostra um vínculo de respeito e carinho. Rute leva a sério o conselho da sogra porque há confiança construída. Em relacionamentos saudáveis, conselhos são dados com cuidado, não com controle, e são recebidos com liberdade e consideração.

  3. Integridade em situações ambíguas: A cena na eira tem riscos de aparência, mas o texto destaca a pureza das motivações e a honra com que ambos agem. Hoje, isso inspira a cuidar tanto do coração quanto do contexto: agir com transparência, fugir de segundas intenções, estabelecer limites claros, evitar espaços que comprometam desnecessariamente a reputação e o testemunho.

  4. Uso responsável do poder e da influência: Boaz é modelo de como alguém com recursos e voz deve tratar pessoas vulneráveis: com respeito, sem exploração, assegurando proteção, caminhando dentro da justiça e assumindo compromissos claros. Isso se aplica a chefes, líderes, pais, mães, mentores e qualquer pessoa em posição de influência.

  5. Valor da reputação construída ao longo do tempo: Rute é conhecida em toda a cidade como mulher virtuosa. Essa reputação não nasceu em um dia, mas de uma sequência de escolhas fiéis. Em meio a contextos adversos, perseverar em integridade, lealdade e humildade contribui para uma boa reputação que, muitas vezes, abre portas e inspira confiança.

  6. Fazer o que cabe a cada um e depois descansar: Rute faz o que lhe é pedido, Boaz assume o que é de sua responsabilidade e, então, Noemi convida à espera. Na prática, isso incentiva a agir com diligência, mas também a reconhecer limites e aprender a descansar, sem carregar o peso de resultados que não dependem apenas do esforço pessoal.

  7. Cuidado concreto, não apenas palavras: Boaz não apenas fala bem de Rute, mas envia cevada para ela e para Noemi. Isso destaca a importância de transformar boas intenções em gestos concretos de generosidade e cuidado, especialmente com quem está em situação de vulnerabilidade.

Perguntas frequentes

O que significa Rute pedir que Boaz estenda sua capa sobre ela?

Quando Rute pede que Boaz estenda sua capa sobre ela (v. 9), está utilizando uma linguagem simbólica de proteção e compromisso. Em várias culturas antigas, a capa ou manto podia representar abrigo e assumir responsabilidade sobre alguém. Nesse contexto, ela está pedindo que Boaz exerça seu papel de remidor, isto é, que a acolha e proteja dentro da estrutura familiar e legal de Israel, possivelmente por meio do casamento.

A cena de Rute deitando-se aos pés de Boaz implica algo imoral?

O texto de Rute 3 não apresenta a cena como imoral. Embora seja uma situação potencialmente ambígua (de noite, na eira, em segredo), a narrativa enfatiza a virtude de Rute e a integridade de Boaz. Ele a chama de mulher virtuosa (v. 11), protege a reputação dela, não se aproveita da situação e segue o caminho correto para a redenção. A ênfase é em respeito, honra e compromisso, não em sensualidade ou abuso.

O que é um remidor em Rute 3?

O remidor (goel) era um parente próximo com responsabilidades específicas dentro da lei e dos costumes de Israel. Ele podia resgatar terras vendidas para não se perderem da família, proteger parentes em perigo e, em certos casos, assumir o compromisso de casamento com a viúva de um parente, para preservar o nome e a herança do falecido. Em Rute 3, Boaz reconhece ser remidor, mas explica que existe outro parente ainda mais próximo (v. 12), mostrando que deseja agir de modo justo e ordenado.

Por que Boaz pede sigilo sobre a presença de Rute na eira?

Boaz diz: "Não se saiba que alguma mulher veio à eira" (v. 14), porque se preocupa com a reputação de Rute e possivelmente com a sua própria. Em um contexto cultural em que aparências podiam gerar boatos e escândalos, ele procura evitar interpretações maliciosas. Essa atitude destaca o cuidado em proteger a honra de Rute, não porque tenha havido algo indevido, mas para que nenhum mal-entendido cause dano à sua imagem de mulher virtuosa.

Qual o significado das seis medidas de cevada que Boaz dá a Rute?

Boaz mede seis medidas de cevada e coloca sobre Rute (v. 15-17), enviando-a de volta a Noemi com esse presente. O gesto é um sinal concreto de generosidade, provisão e intenção. Ao dizer que ela não deveria ir vazia para sua sogra, Boaz demonstra cuidado com a casa de Noemi e um compromisso prático com o bem-estar delas, antecipando, de certa forma, o que pretende resolver no dia seguinte em relação à redenção.

Perspectivas dos nossos guias espirituais

Heart
Heart

Rute 3 é um capítulo cheio de delicadeza emocional. Noemi, que antes estava amargurada, agora chama Rute de "minha filha" e volta a sonhar descanso para ela. É como se, pouco a pouco, o coração ferido de Noemi começasse a acreditar novamente que Deus ainda pode escrever histórias de cuidado em meio às perdas. Rute aparece aqui em um momento de grande vulnerabilidade. Ela se arrisca, se expõe, segue orientações que envolvem coragem e confiança. Nada disso é fácil. A beleza do texto é que, nesse lugar de exposição, ela encontra alguém que responde com respeito, afirmação e proteção. Boaz a abençoa, chama sua escolha de "melhor" e reconhece sua virtude. Onde poderia haver humilhação, há honra. Há uma ternura especial no fato de Boaz não apenas dizer palavras bonitas, mas também garantir que Rute e Noemi não voltem vazias. Isso fala profundamente ao coração de quem já se sentiu vazio, desamparado ou esquecido: a história mostra um Deus que não ignora a dor, mas que move pessoas e circunstâncias para encher mãos que antes estavam vazias. Também há o tema da espera. Depois de toda a tensão da noite na eira, Noemi diz: "Espera, minha filha". Essa frase revela o lado emocional da fé: o momento em que não há mais o que fazer, senão descansar, respirar fundo e confiar que alguém fiel cumprirá o que prometeu. Essa espera, muitas vezes dolorosa, não é um vazio, mas um espaço onde a alma é convidada a ser acalentada pelo caráter de Deus, que não abandona seus filhos.

Mind
Mind

Do ponto de vista exegético e literário, Rute 3 é uma peça cuidadosamente construída. O capítulo articula, de forma concentrada, temas como remissão, lealdade, reputação e providência divina, utilizando uma narrativa cheia de simbolismos e tensionada pelo suspense. O conceito de remidor (goel) aqui é central. Em Levítico e Números, o goel aparece em funções de resgate de propriedades, defesa de parentes e, em certas tradições, ligado ao levirato. O livro de Rute parece entrelaçar esses elementos: o campo de Elimeleque, a descendência e o nome do falecido estão em jogo. Boaz reconhece a categoria legal, mas a vive com sensibilidade, não apenas formalismo. O pedido de Rute para que Boaz estenda sua capa sobre ela remete à ideia de estar sob as asas de Deus, já mencionada no capítulo anterior. Boaz havia dito que Rute veio buscar refúgio sob as asas do Senhor; agora, ela busca refúgio sob a "capa" dele, que é parente remidor. É uma bela correspondência: a proteção divina se expressa por meio da responsabilidade concreta de um membro da aliança. Literariamente, o uso da noite, do silêncio e do ponto de vista de Boaz ao acordar cria suspense e ambiguidade controlada. A narrativa evita detalhes escandalosos e, pelo contrário, insiste na virtude de Rute. Há um jogo entre aparência e realidade: a situação poderia ser mal interpretada, mas o narrador orienta o leitor a ver o que Deus vê, não apenas o que os olhos superficiais enxergam. O capítulo também problematiza a ética do desejo: Boaz gosta de Rute, e Rute se aproxima dele, mas o desejo é regulado pela justiça e pela ordem comunitária. Ao mencionar outro remidor mais próximo e se submeter a esse fato, Boaz não deixa o afeto atropelar a lei. Assim, o texto apresenta um modelo de amor que dialoga com responsabilidade, não com impulsividade. Por fim, Rute 3 prepara o desenlace de Rute 4, onde as questões legais serão tratadas em público. O que acontece na intimidade da eira, com honra e pudor, será formalizado à luz do dia, na porta da cidade. Essa passagem do privado ao público reforça o caráter íntegro do processo de redenção narrado no livro.

Life
Life

Rute 3 oferece pistas muito práticas sobre como lidar com relacionamentos, decisões importantes e situações de risco emocional. Noemi mostra iniciativa responsável. Ela não fica paralisada pela dor nem age de forma impulsiva. Observa, discerne, identifica uma oportunidade legítima e constrói um plano que respeita os limites culturais e legais. Isso inspira a olhar para a própria realidade com sobriedade: reconhecer quem são as pessoas confiáveis ao redor, quais caminhos são justos e possíveis, e como se preparar de forma adequada para dar passos importantes. Rute, por sua vez, combina coragem com submissão saudável à sabedoria de Noemi. Ela não se rebela nem se anula: responde com um "farei" que demonstra confiança na sogra e decisão própria. Nas relações familiares e de orientação, esse equilíbrio é valioso: aprender a ouvir conselhos, sem perder a responsabilidade pessoal pelas escolhas. Boaz é um exemplo concreto de como alguém em posição de força deve agir: ele protege, deixa claros os próximos passos, não alimenta expectativas confusas e faz o possível para evitar situações comprometedoras. Em relacionamentos afetivos, profissionais ou de liderança, essa postura é extremamente prática: não ambígua, não manipuladora, transparente e comprometida com o que é certo, mesmo quando isso exige mais trabalho. O cuidado com a reputação também é prático. Não se trata de viver escravo da opinião alheia, mas de entender que escolhas em contextos delicados podem ter impactos maiores. Boaz manda Rute sair antes de amanhecer e pede que a visita não se torne assunto público. Esse zelo mostra que é sábio evitar situações desnecessariamente ambíguas, especialmente se envolvem vulneráveis. Por fim, a orientação de Noemi para que Rute espere o desfecho nos lembra de um aspecto prático da vida: depois de fazer tudo que é correto e possível, chega a hora de não se consumir por aquilo que não está mais sob controle. Saber quando agir e quando esperar é uma habilidade essencial para decisões equilibradas e para preservar a saúde emocional no dia a dia.

Soul
Soul

Em Rute 3, a alma encontra um retrato sensível de como Deus trabalha silenciosamente para conduzir pessoas vulneráveis a um lugar de descanso e pertencimento. O plano de Noemi, o risco assumido por Rute e a resposta de Boaz compõem um cenário onde, por trás de cada gesto humano, está a mão de um Deus que redime. O remidor que surge na figura de Boaz é mais do que um recurso narrativo. Ele aponta para um padrão espiritual profundo: Deus provê alguém que se aproxima, que cobre a vergonha, que assume responsabilidades que o outro não pode suportar sozinho e que abre um futuro antes impensável. Rute chega à eira como estrangeira, pobre e viúva; sai dali carregando sinais de provisão e promessas de um novo começo. O pedido de Rute para que a capa de Boaz a cubra ecoa, em dimensão espiritual, o clamor de quem busca abrigo sob a misericórdia divina. Há na cena um misto de ousadia e humildade: ela se reconhece como serva, mas apela para a graça do remidor. Esse movimento alimenta a consciência de que a vida espiritual não é conquistada por méritos, mas vivida na confiança em quem tem o poder de redimir. A espera ensinada por Noemi no final do capítulo também fala à dimensão da alma. Depois de se apresentar ao remidor, Rute não tem controle sobre os bastidores, mas pode descansar na certeza de que ele não descansará até concluir o que começou. Essa imagem se alinha com a esperança de que Aquele que inicia uma obra de redenção na vida de alguém é fiel para completá-la. Assim, Rute 3 convida a enxergar a própria história sob uma perspectiva maior: Deus não se esquece dos nomes, das dores e dos vazios. Ele escreve, com paciência, capítulos em que a vergonha é coberta, a solidão é acolhida, e a vida ganha um lugar dentro de uma linhagem de propósito eterno.

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Versiculos em Rute 3

Rute 3:1

" E disse-lhe Noemi, sua sogra: Minha filha, não hei de buscar descanso, para que fiques bem? "

Rute 3:2

" Ora, pois, não é Boaz, com cujas moças estiveste, de nossa parentela? Eis que esta noite padejará a cevada na eira. "

Rute 3:3

" Lava-te, pois, e unge-te, e veste os teus vestidos, e desce à eira; porém não te dês a conhecer ao homem, até que tenha acabado de comer e beber. "

Rute 3:4

" E há de ser que, quando ele se deitar, notarás o lugar em que se deitar; então entrarás, e descobrir-lhe-ás os pés, e te deitarás, e ele te fará saber o que deves fazer. "

Rute 3:7

" Havendo, pois, Boaz comido e bebido, e estando já o seu coração alegre, veio deitar-se ao pé de um monte de grãos; então veio ela de mansinho, e lhe descobriu os pés, e se deitou. "

Rute 3:8

" E sucedeu que, pela meia-noite, o homem estremeceu, e se voltou; e eis que uma mulher jazia a seus pés. "

Rute 3:9

" E disse ele: Quem és tu? E ela disse: Sou Rute, tua serva; estende pois tua capa sobre a tua serva, porque tu és o remidor. "

Rute 3:10

" E disse ele: Bendita sejas tu do Senhor, minha filha; melhor fizeste esta tua última benevolência do que a primeira, pois após nenhum dos jovens foste, quer pobre quer rico. "

Rute 3:11

" Agora, pois, minha filha, não temas; tudo quanto disseste te farei, pois toda a cidade do meu povo sabe que és mulher virtuosa. "

Rute 3:12

" Porém agora é verdade que eu sou remidor, mas ainda outro remidor há mais chegado do que eu. "

Rute 3:13

" Fica-te aqui esta noite, e será que, pela manhã, se ele te redimir, bem está, que te redima; porém, se não quiser te redimir, vive o Senhor, que eu te redimirei. Deita-te aqui até amanhã. "

Rute 3:14

" Ficou-se, pois, deitada a seus pés até pela manhã, e levantou-se antes que pudesse um conhecer o outro, porquanto ele disse: Não se saiba que alguma mulher veio à eira. "

Rute 3:15

" Disse mais: Dá-me a capa que tens sobre ti, e segura-a. E ela a segurou; e ele mediu seis medidas de cevada, e lhas pôs em cima; então foi para a cidade. "

Rute 3:16

" E foi à sua sogra, que lhe disse: Como foi, minha filha? E ela lhe contou tudo quanto aquele homem lhe fizera. "

Rute 3:17

" Disse mais: Estas seis medidas de cevada me deu, porque me disse: Não vás vazia à tua sogra. "

Rute 3:18

" Então disse ela: Espera, minha filha, até que saibas como irá o caso, porque aquele homem não descansará até que conclua hoje este negócio. "

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