Deuteronômio 22:1
" Vendo extraviado o boi ou ovelha de teu irmão, não te desviarás deles; restituí-los-ás sem falta a teu irmão. "
Entenda os temas principais e aplique Deuteronômio 22 na sua vida hoje
30 versículos | Almeida Corrigida Fiel
A lei exige que a pessoa não ignore o animal perdido ou em dificuldade de seu irmão, mas que o ajude a recuperar o que é seu e a socorrer o que está caído. O amor ao próximo se expressa em atitudes práticas de cuidado, até com os animais e objetos.
A proibição de trajes trocados entre homem e mulher, as orientações sobre sementes, animais e tecidos misturados buscam preservar distinções e simbolizar a pureza e a ordem estabelecidas por Deus.
Desde o cuidado com o ninho de aves até a construção de um parapeito no terraço, as leis demonstram preocupação divina com a preservação da vida, com a compaixão para com as criaturas e com a prevenção de acidentes.
O texto estabelece normas rigorosas sobre virgindade, adultério, noivado, abuso sexual e difamação, protegendo a instituição do casamento, a reputação das pessoas e a santidade do povo, com punições severas para injustiça e violência.
Deuteronômio 22 faz parte do grande discurso de Moisés às vésperas da entrada de Israel na terra prometida, provavelmente no final do século XV ou início do século XIII a.C., conforme as diferentes propostas de datação do Êxodo. O contexto é de transição: o povo, que viveu por anos no deserto, se prepara para se estabelecer em Canaã como sociedade organizada, com leis que deveriam regular desde assuntos simples, como animais perdidos, até casos complexos relacionados ao casamento e à sexualidade.
As leis civil e cerimonial de Israel estavam profundamente ligadas à aliança com o Senhor. Questões que hoje podem parecer apenas “morais” ou “civis” também tinham dimensão religiosa: preservar a santidade do povo diante das nações e evitar práticas semelhantes às dos cananeus. O noivado (desposório) já era considerado um compromisso tão sério quanto o casamento, exigindo fidelidade. As cidades eram estruturadas com portões onde se reuniam os anciãos, que exerciam função de tribunal local, ouvindo casos, examinando provas e aplicando sentenças.
A cultura patriarcal do antigo Oriente Médio conferia grande valor à honra da família, à descendência legítima e à fidelidade conjugal. A virgindade da noiva estava ligada à proteção econômica e social da família e à segurança de que a descendência pertencia de fato ao marido. Por isso, acusações contra a reputação de uma jovem eram tratadas com máxima seriedade. As punições severas, como o apedrejamento, tinham também caráter pedagógico e comunitário: comunicar a gravidade do pecado e desencorajar a repetição de condutas destrutivas.
O capítulo pode ser organizado em quatro blocos principais:
1) Leis de cuidado com o próximo e com seus bens (22.1-4) - Orientações sobre animais perdidos ou caídos no caminho. - Ênfase no compromisso ativo com o bem-estar do irmão.
2) Leis de distinção, compaixão e segurança (22.5-12) - Proibição de troca de vestes entre homem e mulher (v.5). - Cuidado com o ninho de aves, preservando a mãe (v.6-7). - Construção de parapeito no eirado, prevenindo acidentes (v.8). - Proibição de sementes, animais e tecidos misturados (v.9-11). - Mandamento sobre franjas nas bordas da manta (v.12).
3) Leis sobre reputação, casamento e virgindade (22.13-21) - Caso de marido que despreza a esposa e a acusa falsamente de não ser virgem (v.13-19). - Punição do marido caluniador e proteção da honra da jovem. - Caso de confirmação da acusação e punição da jovem (v.20-21).
4) Leis sobre adultério, noivado e abuso sexual (22.22-30) - Adultério com mulher casada (v.22). - Relação consensual com moça virgem desposada na cidade (v.23-24). - Estupro de moça desposada no campo (v.25-27). - Relação com moça virgem não desposada, levando a casamento e pagamento ao pai (v.28-29). - Proibição de tomar a mulher do pai (v.30).
O estilo é casuístico: apresenta situações hipotéticas ou concretas seguidas da decisão jurídica. A repetição de fórmulas como “assim tirarás o mal do meio de ti” cria coesão temática e destaca o objetivo moral das leis.
Deuteronômio 22 revela um Deus que se importa com todos os aspectos da vida humana, desde detalhes aparentemente pequenos até questões gravíssimas de justiça e pureza. O mandamento de não se omitir diante do animal perdido ou caído (v.1-4) expressa uma teologia da responsabilidade: a fé na aliança com o Senhor se manifesta em atitudes atentas ao bem do próximo.
A proibição de troca de vestes entre homem e mulher (v.5) e as leis sobre mistura de sementes, animais e tecidos (v.9-11) apontam para a importância simbólica da distinção, pureza e ordem criacional. Israel era chamado a ser um povo separado, diferente das nações, inclusive em suas vestes, plantios e modos de trabalhar, como sinal de pertencimento a Deus.
As leis de proteção da vida – o cuidado com o ninho de aves (v.6-7) e o parapeito no telhado (v.8) – revelam a dignidade da criação e o valor inegociável da vida humana. Aquele que teme ao Senhor deve agir de forma preventiva, evitando causar dano ao outro.
No campo da sexualidade e do casamento, o texto comunica que o corpo, o compromisso conjugal e a reputação das pessoas pertencem à esfera da santidade. Difamar uma virgem de Israel (v.13-19), adulterar (v.22) ou violentar uma noiva (v.25-27) não são apenas faltas sociais, mas ofensas contra o próprio Deus que instituiu o casamento e escolheu Israel como povo santo.
A função das penas severas – inclusive a morte – deve ser entendida dentro da teocracia de Israel, em que a pureza moral tinha ligação direta com a permanência do povo na terra e com a fidelidade à aliança. A expressão repetida “assim tirarás o mal do meio de ti” indica que o pecado, se tolerado, contaminaria toda a comunidade. Em perspectiva bíblica mais ampla, este capítulo aponta para a necessidade de um coração transformado e para a graça que, em Cristo, assume sobre si a penalidade do pecado, ao mesmo tempo em que chama o povo de Deus a viver com seriedade, justiça e amor.
Lido hoje, Deuteronômio 22 pode provocar reações intensas, especialmente nas porções que tratam de sexualidade, punições severas e violência. Ao mesmo tempo, ele traz elementos que conversam com temas contemporâneos da saúde emocional: cuidado com a vida, responsabilidade comunitária, proteção da reputação e amparo às vítimas de injustiça.
O mandamento de não se omitir diante do bem do outro (v.1-4) ecoa princípios de apoio social e comunitário importantes para a saúde mental: ninguém foi feito para enfrentar perdas ou dificuldades sozinho. O cuidado até com animais e detalhes domésticos transmite a ideia de que ambientes seguros e compassivos favorecem o bem-estar.
As leis que visam prevenir acidentes (parapeito no telhado, v.8) dialogam com a noção moderna de prevenção de riscos: organizar a casa, o trabalho e a vida comunitária de modo a reduzir tragédias e sofrimentos evitáveis. Isso reflete uma espiritualidade que valoriza o cuidado antecipado, não apenas a reação após o dano.
O texto também mostra que honra, reputação e corpo importam. A falsa acusação contra a jovem (v.13-19) ilustra o impacto destrutivo da calúnia e da vergonha pública, algo que hoje se reconhece como profundamente traumático. Ao punir o caluniador e proteger a jovem, a lei afirma que a dignidade não deve ser pisoteada.
A distinção feita em casos de violência sexual (sobretudo em v.25-27) traz um princípio relevante: reconhecer a falta de culpa na vítima e a responsabilidade exclusiva do agressor. Embora o contexto e a forma de punição sejam muito diferentes dos atuais, o valor subjacente – de que a vítima não deve ser culpabilizada – é fundamental para abordagens terapêuticas saudáveis.
Em suma, o capítulo, ainda que culturalmente distante, aponta para uma comunidade ideal em que o cuidado preventivo, o respeito ao corpo, a verdade nas relações e a proteção dos vulneráveis formam a base de uma convivência mais segura e menos traumática.
Algumas passagens de Deuteronômio 22 podem ser especialmente difíceis ou gatilho emocional para determinadas pessoas:
1) Punições de apedrejamento e morte (v.21-24): A severidade das penas, especialmente quando narradas de forma direta, pode despertar medo, culpa intensa, lembranças de abusos religiosos ou associação com violência física. Pessoas sensíveis a temas de punição e julgamento podem se sentir esmagadas ou aterrorizadas.
2) Textos sobre violência sexual (v.25-27, 28-29): Para sobreviventes de abuso ou violência sexual, a descrição de casos de estupro e humilhação pode acionar memórias dolorosas e sentimentos de vergonha, raiva ou confusão. A forma antiga de tratar essas situações, incluindo a obrigação de casamento no v.28-29, pode ser especialmente perturbadora.
3) Ênfase na virgindade feminina e honra da família (v.13-21, 28-29): Quem já sofreu pressão extrema em torno da sexualidade, da “pureza” ou da honra familiar pode ler esses textos como confirmação de narrativas opressivas do passado. Isso pode alimentar sentimentos de inadequação, desvalor ou vergonha, mesmo quando não há culpa real.
4) Diferenças de contexto cultural e risco de má aplicação: Ler essas leis sem considerar o contexto histórico pode levar à culpa exagerada, legalismo ou uso abusivo de textos para controlar outras pessoas, especialmente mulheres. Há risco de se justificar atitudes rígidas e punitivas usando passagens que pertencem a uma realidade social e jurídica muito específica.
Diante dessas possíveis reações, é importante ler o capítulo com mediação cuidadosa, reconhecendo a distância cultural, buscando entendimento bíblico mais amplo e, quando necessário, conversando com pessoas maduras na fé ou profissionais de saúde mental sobre emoções despertadas por esse tipo de texto.
1) Responsabilidade ativa pelo bem do próximo: As leis sobre animais perdidos ou caídos (v.1-4) inspiram a assumir uma postura de cuidado prático hoje: ajudar quem perdeu algo importante, não ignorar necessidades óbvias, apoiar pessoas em dificuldade material ou emocional. A omissão é tratada como algo sério; atitudes pequenas de serviço podem fazer grande diferença.
2) Prevenção e cuidado com a segurança: O mandamento do parapeito (v.8) pode ser aplicado na criação de ambientes seguros: revisar instalações domésticas, cuidar do trânsito, prevenir acidentes no trabalho, estabelecer limites claros em relacionamentos. A fé se traduz também em responsabilidade concreta pela vida alheia.
3) Respeito às diferenças e identidade: A proibição de trocar vestimentas entre homem e mulher (v.5) está ligada à identidade e à ordem social da época, mas inspira um princípio mais amplo: tratar com respeito a maneira como Deus criou cada pessoa e não confundir ou manipular identidades para proveito próprio ou engano. Isso inclui honestidade, transparência e integridade do ser, sem usar aparência para iludir ou ferir.
4) Verdade e proteção da reputação: O caso da falsa acusação contra a jovem (v.13-19) chama à responsabilidade ao falar dos outros. Espalhar boatos, levantar suspeitas sem provas ou exagerar falhas reais pode ferir a honra de alguém profundamente. Em contextos modernos, isso inclui cuidado em redes sociais, conversas informais e julgamentos apressados.
5) Sexualidade tratada com seriedade e respeito: As leis sobre adultério, noivado e abuso (v.22-27) ensinam que o corpo do outro não é objeto, e que compromisso conjugal exige fidelidade. Hoje, isso inspira a cultivar relacionamentos marcados por consentimento, respeito aos limites, proteção dos vulneráveis e combate a qualquer tipo de abuso ou traição.
6) Rejeição da culpa da vítima: Em v.25-27, a jovem violentada no campo é declarada sem culpa. O princípio permanece: vítimas de abuso não devem ser responsabilizadas pela violência sofrida. Na prática, isso implica acolher, ouvir, apoiar e buscar justiça para quem foi ferido, em vez de questionar ou envergonhar.
7) Santidade no cotidiano: As diversas leis de distinção (sementes, animais, tecidos, franjas, v.9-12) lembram que, para Israel, até detalhes da rotina apontavam para a consagração a Deus. Hoje, o princípio se expressa em viver a fé nas escolhas diárias, na forma de trabalhar, consumir, usar o corpo, falar e relacionar-se, reconhecendo que tudo pertence ao Senhor.
As leis sobre animais perdidos e caídos (v.1-4) mostram que, na visão bíblica, o amor ao próximo é prático e detalhado. Deus não se preocupa apenas com grandes questões religiosas, mas também com a forma como alguém lida com o bem do outro, com perdas materiais e com situações comuns da vida rural. Cuidar do animal, guardar o objeto perdido e não se omitir refletem um coração que leva a sério a aliança com Deus e o compromisso de viver em comunidade justa e solidária.
No contexto de Israel, vestimentas tinham forte ligação com identidade, papéis sociais e até práticas religiosas pagãs. A proibição de troca de trajes (v.5) visava preservar a distinção entre homem e mulher, impedir confusão de papéis e possivelmente evitar participação em rituais idólatras que envolviam travestismo. O foco é a ordem e pureza da comunidade diante de Deus, não uma lista de regras de moda para todas as culturas e épocas, mas um princípio de respeito à forma como Deus criou e organizou a vida humana.
Essas leis fazem parte de um conjunto de mandamentos de distinção e pureza. Não semear diferentes sementes na vinha, não lavrar com boi e jumento juntos e não vestir tecidos mistos de lã e linho funcionavam como lembretes visíveis de que Israel era um povo separado para Deus. A teologia por trás é que a mistura desordenada simbolizava confusão e impureza. Ao viver de forma distinta até em detalhes práticos, Israel testemunhava que pertencia ao Senhor e não deveria se confundir com as nações ao redor.
Em Israel, adultério, relações ilícitas e violência sexual não eram vistos apenas como questões privadas, mas como ameaças à estrutura familiar, à transmissão da herança e à santidade do povo diante de Deus. A sociedade era teocrática: a lei civil se ligava diretamente à aliança com o Senhor. As penas severas, incluindo a morte (v.21-24), refletiam a seriedade do pecado e tinham caráter tanto punitivo quanto pedagógico, para remover o mal do meio do povo e desencorajar condutas que destruiriam a comunidade.
O texto fala de um homem que pega uma moça virgem não desposada, se deita com ela e ambos são apanhados. O foco é que ele a “humilhou” e, no contexto antigo, isso comprometia gravemente as chances de casamento e o amparo financeiro e social dela. A solução legal era o homem pagar compensação ao pai e assumir responsabilidade vitalícia pela moça, sem poder divorciar-se. Isso não deve ser visto como ideal de relacionamento, mas como tentativa de prover proteção numa cultura em que a segurança da mulher dependia muito da estrutura familiar. Não se trata de modelo normativo para todas as épocas, mas de uma legislação específica para um tempo e sociedade muito diferentes dos atuais.
Essa frase aparece em contextos de pecados graves, especialmente envolvendo sexualidade e casamento (v.21-22, 24). A ideia é que certos comportamentos não deveriam ser tolerados na comunidade do povo de Deus, porque contaminavam o todo e ameaçavam a fidelidade à aliança. Remover o mal significava aplicar justiça, proteger vítimas, afirmar valores santos e evitar que o pecado se tornasse normal. Em perspectiva bíblica maior, a expressão também aponta para a necessidade de purificação interior e da obra de Deus que transforma o coração.
Deuteronômio 22 traz textos fortes, alguns deles difíceis de ler, especialmente quando falam de violência, vergonha pública e punições severas. Em meio a isso, aparece um Deus que não é indiferente à dor, à injustiça ou ao abuso. O Senhor se importa com animais cansados, com uma ave no ninho, com a segurança de quem anda no terraço, com a honra de uma jovem injustamente acusada. Esse cuidado detalhado revela um coração divino atento a cada aspecto da vida. Para quem já sofreu injustiça, difamação ou violência, muitas linhas deste capítulo podem tocar feridas antigas. Importa perceber que, nas situações de abuso descritas, a Palavra afirma que a moça não tem culpa de morte e aponta a responsabilidade para o agressor. Isso contradiz qualquer narrativa que coloque peso injusto sobre a vítima. Mesmo em um sistema jurídico antigo, há um eco da verdade de que Deus vê, escuta o grito sufocado e se posiciona ao lado de quem foi humilhado. Há também consolo em notar que a reputação e o corpo das pessoas importam para Deus. A falsa acusação contra a jovem é tratada com seriedade, e sua honra é defendida. Isso fala com quem já teve sua história distorcida ou seu valor questionado. O Senhor não se esquece, não minimiza o dano, não passa pano na calúnia. Seu desejo é restaurar a dignidade. Mesmo que as formas de punição e organização social sejam distantes da realidade atual, o coração de Deus mostrado aqui é o mesmo: um Deus que se importa com segurança, cuidado, verdade e proteção dos vulneráveis. Em tempos de confusão e dor, essa percepção pode aliviar o peso: não se está sozinho diante da injustiça; há um Deus que enxerga, se importa e deseja cura para aquilo que foi quebrado.
Do ponto de vista exegético, Deuteronômio 22 integra o chamado código de leis deuteronômico, que expande e aplica os Dez Mandamentos à vida prática de Israel. O capítulo alterna entre preceitos de caráter civil, cerimonial e moral, todos enquadrados no contexto da aliança. Muitos estudiosos destacam a estrutura casuística: são apresentados casos hipotéticos (“quando um homem…”, “quando encontrares…”) seguidos das consequências legais. Os vv.1-4 enfatizam a obrigação jurídica e ética de preservar a propriedade do próximo, refletindo o mandamento “não furtarás” em sua forma positiva – proteger o que é do outro. A proibição da troca de vestes (v.5) provavelmente se relaciona tanto à preservação da distinção sexual quanto ao combate a práticas cultuais pagãs envolvendo travestismo. A legislação de separação de espécies (vv.9-11) se insere na categoria de leis de pureza e distinção, presentes também em Levítico, que demarcam Israel como povo separado. Os vv.6-7 sobre o ninho de aves e o v.8 sobre o parapeito são exemplos de leis de proteção da vida. Curiosamente, o mandamento sobre o ninho é acompanhado de promessa (“para que prolongues os teus dias”), o que o vincula à teologia de retribuição de Deuteronômio: obediência traz vida longa e bem-estar. A seção dos vv.13-21 é juridicamente complexa. Ela prevê um procedimento legal para lidar com a acusação de ausência de virgindade na noiva, incluindo a apresentação de “sinais de virgindade”, possivelmente um lençol com vestígios de sangue da noite de núpcias. O objetivo principal é inibir difamação maliciosa e proteger a honra da família da jovem. Em caso de acusação falsa, o marido é punido financeiramente e perde o direito de se divorciar. Nos vv.22-29, a legislação diferencia claramente situações de adultério, relação consensual e violência sexual. A distinção entre cidade e campo está ligada à possibilidade real de pedir socorro; se a jovem desposada é violentada no campo, presume-se sua inocência por não haver quem ouça o grito. Em v.28-29, a situação é de relação com moça não desposada, com desfecho de casamento obrigatório e compensação financeira ao pai. Essa norma precisa ser interpretada à luz da estrutura patriarcal da época, onde a segurança econômica da mulher dependia fortemente de sua posição familiar. Por fim, o v.30 retoma a proibição de relações com a “mulher do pai”, possivelmente incluindo madrastas, o que é tratado em outros textos legais (Lv 18.8). Em conjunto, o capítulo enfatiza a preservação da ordem social e familiar, a proteção da vida e da honra, e a necessidade de remover práticas destrutivas do meio do povo da aliança, sempre dentro da estrutura teocrática específica de Israel.
Lendo Deuteronômio 22 com olhar prático, aparece um retrato de vida em comunidade onde ninguém finge que não viu o problema. Se o boi do irmão está perdido, se o animal caiu no caminho, a pessoa não se afasta: vai lá, ajuda, devolve, guarda até o dono aparecer. Essa mentalidade confronta a tendência moderna de pensar apenas em si mesmo. Aplicado hoje, significa não ignorar o carro do vizinho com pneu furado, o colega de trabalho sobrecarregado, o amigo em dificuldade financeira ou emocional. O mandamento do parapeito no eirado traz uma lógica valiosa: não basta reagir ao acidente depois que ele acontece; é preciso prevenir. Em termos práticos, isso inclui cuidados com segurança em casa, no trânsito, no trabalho, mas também limites claros em relacionamentos, protocolos em instituições e igrejas para prevenir abuso, e atitudes responsáveis com aquilo que pode afetar terceiros. A ênfase na reputação e na verdade nas acusações fala diretamente a uma cultura saturada de exposição digital. Difamar alguém, espalhar boatos ou acusar sem base sólida continua sendo destrutivo. No ambiente profissional, familiar ou online, esse texto convida a checar fatos, evitar repassar rumores e recusar participar de linchamentos públicos, tanto presenciais quanto virtuais. Na área de relacionamentos, o capítulo trata sexo como algo sério, ligado a compromisso, respeito e responsabilidade. Adultério, traição a um noivado ou abuso sexual não aparecem como “falhas discretas”, mas como casos que abalam a base da convivência. Em termos cotidianos, isso inspira a cultivar fidelidade, conversar abertamente sobre limites, não incentivar flertes que ferem alianças e levar a sério a proteção de pessoas vulneráveis, sobretudo em ambientes mistos, festas, eventos e contextos de poder desigual. Outro ponto prático é a postura diante da vítima de violência. Quando o texto declara que a moça violentada no campo não tem culpa, ele aponta um princípio que continua válido: parar de responsabilizar quem sofreu e concentrar a energia em acolher e buscar justiça contra quem agrediu. Em comunidade, isso se traduzi em ouvir, acreditar, apoiar e encaminhar para ajuda especializada, em vez de silenciar ou minimizar o ocorrido. No conjunto, Deuteronômio 22 estimula uma vida concreta onde fé significa assumir responsabilidade pelo outro, zelar pela segurança de todos, falar com verdade e tratar corpo, reputação e compromisso com máximo respeito.
Espiritualmente, Deuteronômio 22 mostra que a santidade que Deus deseja não é abstrata, mas encarnada em detalhes do cotidiano. O cuidado com o animal perdido, com a ave no ninho, com o parapeito no telhado, com o tipo de roupa, sementes e tecidos, todos esses elementos funcionam como lembretes de que a vida inteira está sob o governo de Deus. Não há “áreas neutras”: tudo pode ser lugar de obediência ou de descuido. A repetida ordem de “tirar o mal do meio de ti” revela a seriedade com que Deus trata o pecado, especialmente nas áreas de idolatria e sexualidade. Esse chamado não se limita a comportamentos externos; aponta para uma purificação mais profunda do coração, pois, em última instância, adultério, difamação e abuso nascem de desejos desordenados, de egoísmo e de desprezo pelo outro. A legislação severa de Israel evidencia como, aos olhos do Senhor, o pecado é incompatível com a vida plena da aliança. Ao mesmo tempo, o texto traz lampejos de misericórdia e cuidado: a mãe ave é preservada, a vítima no campo é declarada sem culpa, a honra da jovem injustamente acusada é defendida. Esses sinais antecipam a revelação plena de um Deus que, em Cristo, não apenas exige justiça, mas assume sobre si o peso da injustiça humana. A cruz reúne, de forma suprema, a seriedade do juízo e a profundidade do amor. Para a jornada espiritual, o capítulo convida a enxergar a fé como algo que transforma o modo de tratar o próximo, o corpo, o sexo, a palavra, o patrimônio e a natureza. Significa permitir que o Espírito Santo sonde motivações ocultas, derrube justificativas para a omissão e cure visões distorcidas sobre culpa, honra e dignidade. A santidade deixa de ser um ideal distante e passa a ser um caminho diário de alinhamento com o caráter de Deus. No horizonte eterno, as leis de Deuteronômio 22 apontam para um Reino onde não haverá mais difamação, abuso, traição ou medo, onde toda vida estará segura e todo relacionamento será permeado por verdade e amor. Caminhar espiritualmente à luz desse capítulo é desejar e antecipar, com pensamentos, palavras e ações, essa realidade futura em que o mal terá sido plenamente removido do meio do povo de Deus.
" Vendo extraviado o boi ou ovelha de teu irmão, não te desviarás deles; restituí-los-ás sem falta a teu irmão. "
" E se teu irmão não estiver perto de ti, ou não o conheceres, recolhê-los-ás na tua casa, para que fiquem contigo, até que teu irmão os busque, e tu lhos restituirás. "
" Assim também farás com o seu jumento, e assim farás com as suas roupas; assim farás também com toda a coisa perdida, que se perder de teu irmão, e tu a achares; não te poderás omitir. "
" Se vires o jumento que é de teu irmão, ou o seu boi, caídos no caminho, não te desviarás deles; sem falta o ajudarás a levantá-los. "
" Não haverá traje de homem na mulher, e nem vestirá o homem roupa de mulher; porque, qualquer que faz isto, abominação é ao Senhor teu Deus. "
" Quando encontrares pelo caminho um ninho de ave numa árvore, ou no chão, com passarinhos, ou ovos, e a mãe posta sobre os passarinhos, ou sobre os ovos, não tomarás a mãe com os filhotes; "
" Deixarás ir livremente a mãe, e os filhotes tomarás para ti; para que te vá bem e para que prolongues os teus dias. "
" Quando edificares uma casa nova, farás um parapeito, no eirado, para que não ponhas culpa de sangue na tua casa, se alguém de algum modo cair dela. "
" Não semearás a tua vinha com diferentes espécies de semente, para que não se degenere o fruto da semente que semeares, e a novidade da vinha. "
" Com boi e com jumento não lavrarás juntamente. "
" Não te vestirás de diversos estofos de lã e linho juntamente. "
" Franjas porás nas quatro bordas da tua manta, com que te cobrires. "
" Quando um homem tomar mulher e, depois de coabitar com ela, a desprezar, "
" E lhe imputar coisas escandalosas, e contra ela divulgar má fama, dizendo: Tomei esta mulher, e me cheguei a ela, porém não a achei virgem; "
" Então o pai da moça e sua mãe tomarão os sinais da virgindade da moça, e levá-los-ão aos anciãos da cidade, à porta; "
" E o pai da moça dirá aos anciãos: Eu dei minha filha por mulher a este homem, porém ele a despreza; "
" E eis que lhe imputou coisas escandalosas, dizendo: Não achei virgem a tua filha; porém eis aqui os sinais da virgindade de minha filha. E estenderão a roupa diante dos anciãos da cidade. "
" Então os anciãos da mesma cidade tomarão aquele homem, e o castigarão. "
" E o multarão em cem siclos de prata, e os darão ao pai da moça; porquanto divulgou má fama sobre uma virgem de Israel. E lhe será por mulher, em todos os seus dias não a poderá despedir. "
" Porém se isto for verdadeiro, isto é, que a virgindade não se achou na moça, "
" Então levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão, até que morra; pois fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai; assim tirarás o mal do meio de ti. "
" Quando um homem for achado deitado com mulher que tenha marido, então ambos morrerão, o homem que se deitou com a mulher, e a mulher; assim tirarás o mal de Israel. "
" Quando houver moça virgem, desposada, e um homem a achar na cidade, e se deitar com ela, "
" Então trareis ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis, até que morram; a moça, porquanto não gritou na cidade, e o homem, porquanto humilhou a mulher do seu próximo; assim tirarás o mal do meio de ti. "
" E se algum homem no campo achar uma moça desposada, e o homem a forçar, e se deitar com ela, então morrerá só o homem que se deitou com ela; "
" Porém à moça não farás nada. A moça não tem culpa de morte; porque, como o homem que se levanta contra o seu próximo, e lhe tira a vida, assim é este caso. "
" Pois a achou no campo; a moça desposada gritou, e não houve quem a livrasse. "
" Quando um homem achar uma moça virgem, que não for desposada, e pegar nela, e se deitar com ela, e forem apanhados, "
" Então o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinqüenta siclos de prata; e porquanto a humilhou, lhe será por mulher; não a poderá despedir em todos os seus dias. "
" Nenhum homem tomará a mulher de seu pai, nem descobrirá a nudez de seu pai. "
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