Deuteronômio 21:1
" Quando na terra que te der o SENHOR teu Deus, para possuí-la, se achar um morto, caído no campo, sem que se saiba quem o matou, "
Entenda os temas principais e aplique Deuteronômio 21 na sua vida hoje
23 versículos | Almeida Corrigida Fiel
Quando ocorre um homicídio sem solução, a comunidade inteira é chamada a lidar com a culpa diante de Deus, por meio de um ritual de expiação, para que o sangue inocente não contamine a terra. Isso mostra que a vida é sagrada e que a responsabilidade diante de Deus é coletiva, não apenas individual.
Mesmo em meio à guerra, Israel recebe leis para restringir abusos contra mulheres estrangeiras capturadas. Há um tempo de luto, a retirada dos sinais de cativeiro e a proibição de tratá-la como mercadoria caso o homem não queira mais viver com ela. A lei não aprova a prática, mas a limita e humaniza dentro de um contexto duro.
A lei da primogenitura impede que um pai favoreça o filho da esposa amada em detrimento do filho primogênito da esposa desprezada. A justiça de Deus não se curva às preferências afetivas humanas, e o direito do primogênito deve ser respeitado.
O filho contumaz e rebelde, que rejeita correção e se entrega à devassidão, é apresentado como uma ameaça à comunidade. A pena extrema de apedrejamento demonstra a seriedade com que Deus vê a desordem moral persistente que corrompe a sociedade.
O corpo do condenado pendurado em madeiro não podia permanecer ali durante a noite, pois o pendurado é considerado maldito por Deus. O rápido sepultamento preservava a pureza da terra e lembrava que a maldição não podia ser normalizada entre o povo.
Versículos-chave: 23
Deuteronômio 21 se insere no bloco de leis dado a Israel às vésperas da entrada na terra prometida, provavelmente no final do segundo milênio a.C. O povo estava prestes a deixar o deserto e estabelecer-se como nação organizada em Canaã. Nesse contexto, Deus fornece orientações detalhadas sobre crimes, família, guerra e pureza ritual, para que a nova sociedade não imitasse as práticas injustas dos povos vizinhos.
As normas sobre o homicídio não solucionado refletem uma cultura em que o sangue derramado clamava por justiça. A ausência de um culpado identificado não significava ausência de culpa diante de Deus, por isso a comunidade realizava um ritual público com sacerdotes e anciãos, reconhecendo a seriedade do crime.
As leis sobre mulheres cativas dialogam com o contexto de guerras da Antiguidade, em que era comum a completa objetificação de prisioneiras. A legislação de Israel introduz limites: tempo de luto pela família perdida, mudança de aparência, inserção na casa sob alguma forma de proteção, e proibição de tratamento como escrava caso o relacionamento fosse encerrado.
A primogenitura era um elemento crucial no sistema de herança patriarcal, ligado à continuidade do nome e da propriedade familiar. Em muitos povos, o chefe da família tinha ampla liberdade para favorecer herdeiros mais queridos; aqui, a Torá restringe esse arbítrio, apontando para um ideal de justiça imparcial.
A lei sobre o filho rebelde não descreve uma mera desobediência juvenil, mas um padrão extremo e persistente de rebeldia associado à devassidão, bebedeira e recusa total à disciplina, em uma sociedade onde a unidade familiar era fundamental para a sobrevivência do clã. É uma legislação de caráter exemplar, destinada a mostrar o perigo social da rebeldia extrema.
Por fim, a orientação sobre o enforcado ou pendurado em madeiro se relaciona com práticas de exposição pública de condenados. Deixar o corpo exposto por longo tempo era comum em outros povos, mas em Israel isso era proibido para que a terra concedida por Deus não fosse contaminada pela maldição e pela banalização da morte.
O capítulo apresenta uma sequência de leis casuísticas, organizadas por temas, mas unidas pela ideia de remover o mal e a culpa do meio de Israel:
Homicídio desconhecido e expiação comunitária (vv. 1-9)
Mulher cativa em guerra (vv. 10-14)
Primogenitura e esposa amada/desprezada (vv. 15-17)
Filho contumaz e rebelde (vv. 18-21)
Condenado pendurado no madeiro (vv. 22-23)
Deuteronômio 21 ressalta a santidade da vida, a seriedade do pecado e o compromisso de Deus com uma justiça que abrange tanto indivíduos quanto a comunidade.
A lei sobre o homicídio desconhecido enfatiza que diante de Deus não existe morte "sem dono". Mesmo quando o responsável não é encontrado, permanece uma culpa que precisa ser tratada. A comunidade, representada por anciãos e sacerdotes, se humilha, declara inocência e clama por misericórdia, reconhecendo a soberania divina sobre a vida e a terra.
As instruções sobre mulheres cativas mostram que Deus, ao lidar com um povo num contexto bélico do Antigo Oriente, introduz freios ao impulso de poder masculino e militar. A dignidade da mulher não é ignorada, ainda que o texto reflita uma realidade cultural dura, distante do ideal pleno de relacionamento revelado progressivamente nas Escrituras.
Na questão da primogenitura, o texto afirma que a justiça de Deus não se curva ao favoritismo humano. O direito estabelecido por Deus deve prevalecer sobre os afetos parciais do pai. Essa preocupação com imparcialidade se conecta a todo o ensino bíblico sobre a justiça divina, que não aceita suborno nem favoritismo.
A lei sobre o filho rebelde revela, em linguagem forte, a gravidade da quebra deliberada de autoridade, particularmente quando ligada à devassidão e à embriaguez. A família é vista como célula básica da aliança; quando ela é corroída pela rebeldia sem arrependimento, toda a comunidade é ameaçada. O caráter extremo da pena ressalta que Deus não é indiferente à desordem moral persistente.
Por fim, a declaração de que o pendurado no madeiro é maldito de Deus abre caminho para reflexões posteriores na revelação bíblica. A relação entre maldição, morte e exposição pública do condenado aponta para a gravidade do juízo divino. Mais adiante, esse princípio será reinterpretado na fé cristã em torno da cruz, mas aqui já se destaca a verdade de que o pecado traz maldição real, não apenas simbólica, e que a terra concedida por Deus deve permanecer santa.
Em todo o capítulo, a expressão "tirarás o mal do meio de ti" funciona como refrão teológico: o povo da aliança não pode conviver pacificamente com a injustiça, a violência sem expiação, a opressão ou a rebeldia irremediável. A vida comunitária é chamada a refletir a santidade do Deus que habita no meio de Israel.
Este capítulo toca em temas emocionalmente difíceis: morte violenta sem solução, abuso de poder em guerra, conflitos familiares profundos, rebeldia extrema de filhos e punições duras. Esses assuntos podem despertar sensações de injustiça, medo, raiva, tristeza e até repulsa.
A narrativa do homicídio sem autor conhecido reflete a angústia de quem se depara com perdas sem explicação clara. O ritual de lavagem das mãos e clamor por misericórdia mostra um caminho simbólico de reconhecer a dor, assumir responsabilidade comunitária e buscar alívio da culpa difusa. Para quem lida com culpa coletiva ou sensação de injustiça não resolvida, essa imagem pode ajudar a nomear a dor e a perceber que Deus vê o sangue inocente e não o ignora.
As leis sobre mulheres cativas e o filho rebelde, embora duras, expõem realidades de abuso, humilhação e ruptura extrema nos laços familiares. Isso pode ressoar com quem experimentou violência, rejeição, favoritismo entre irmãos ou conflitos parentais intensos. O texto evidencia que, mesmo em contextos brutais, Deus colocou limites e chamou o povo a não tratar pessoas como objetos, nem ignorar comportamentos autodestrutivos que ferem a comunidade.
A referência ao corpo pendurado no madeiro pode ativar medos relacionados à morte, punição e vergonha pública. Ao mesmo tempo, o cuidado em enterrar o corpo no mesmo dia revela que Deus não deseja a exposição prolongada da vergonha, nem a normalização da maldição. Há um reconhecimento da necessidade de encerrar ciclos de dor e de não perpetuar imagens traumáticas.
Lido com sensibilidade, o capítulo pode ajudar a trabalhar temas de culpa e responsabilidade, limites saudáveis, reconhecimento de injustiças e a necessidade de que a comunidade se envolva no cuidado com o mal que a afeta.
Alguns trechos deste capítulo podem ser gatilhos para pessoas com histórico de trauma:
Leitores em sofrimento psíquico intenso, com histórico de abuso, ideação suicida, autolesão ou pensamentos de condenação espiritual, podem precisar de acompanhamento seguro ao ler textos assim. É importante que interpretações abusivas não sejam usadas para justificar violência familiar, discriminação, controle excessivo ou punições cruéis em nome de Deus. Qualquer aplicação que incentive agressão física, abandono de cuidado, ou que aumente a sensação de maldição pessoal deve ser rejeitada, buscando apoio de líderes responsáveis e, se necessário, de profissionais de saúde mental.
Deuteronômio 21 oferece princípios que podem ser traduzidos para a vida cotidiana, mesmo em um contexto cultural muito diferente:
Responsabilidade diante da injustiça
A preocupação com o sangue inocente lembra que a indiferença frente à violência e à injustiça também é problemática. Hoje, isso se conecta a não normalizar violência doméstica, abusos, corrupção ou injustiças na vizinhança e no trabalho. A comunidade de fé é chamada a reconhecer o mal, interceder e, dentro da lei e da sabedoria, agir.
Cuidado com quem está em posição vulnerável
As leis sobre mulheres cativas indicam um chamado a proteger quem está em situação de fragilidade: estrangeiros, refugiados, vítimas de violência, pessoas em dependência econômica ou emocional. Na prática, isso inclui estabelecer limites contra qualquer forma de exploração, inclusive em relacionamentos afetivos, e promover ambientes de dignidade e respeito.
Imparcialidade nas relações familiares
O ensino sobre primogenitura desafia favoritismos dentro da família. Pais e responsáveis são chamados a não tratar filhos de forma preconceituosa, seja por afinidade, temperamento ou origem. No cotidiano, isso significa buscar equidade, ouvir todos, evitar comparações destrutivas e não usar afeto como moeda de recompensa ou punição.
Seriedade na educação e nos limites
A figura extrema do filho rebelde aponta para a importância de não banalizar comportamentos autodestrutivos. Aplicado hoje, o foco não está em punições violentas, mas na responsabilidade de pais e comunidade de enfrentar dependências, comportamentos abusivos, descontrole com comida, bebida e vícios, buscando ajuda adequada e não encobrindo problemas graves.
Honrar a dignidade, mesmo na falha
O cuidado com o corpo do condenado mostra que até quem sofre juízo conserva uma dimensão de dignidade a ser respeitada. Isso inspira práticas de respeito por pessoas presas, falecidas, ou marcadas por erros passados, evitando humilhação pública gratuita, exposição indevida em redes sociais ou tratá-los como menos humanos.
Remover o mal, não as pessoas
Repetidamente aparece o propósito de "tirar o mal do meio". Em termos práticos, trata-se de identificar sistemas, hábitos e estruturas que alimentam injustiça, violência e rebeldia, e não de buscar bodes expiatórios. Cristãos são chamados a combater o mal com o bem, com justiça e misericórdia, não com mais maldade.
Na mentalidade de Israel, o sangue derramado clama por justiça diante de Deus. Quando o culpado não era encontrado, permanecia uma culpa não resolvida sobre a comunidade e a terra. O ritual com a novilha, a participação dos anciãos, dos juízes e dos sacerdotes, a lavagem das mãos e a oração reconheciam diante de Deus a seriedade da situação, pedindo que Ele não considerasse o povo responsável por aquele sangue inocente. Era uma forma simbólica de expiação e de afirmar publicamente o valor da vida humana.
O texto descreve e regula uma prática real do contexto antigo, não o ideal de Deus para os relacionamentos. Em vez de autorizar abusos, a lei coloca freios dentro de uma realidade dura: proíbe a violência imediata, concede tempo de luto, muda o status da mulher para alguém da casa, e impede que ela seja vendida ou tratada como escrava se o homem decidir deixá-la ir. À luz da revelação bíblica como um todo, o ideal de Deus é um relacionamento marcado por amor, fidelidade e consentimento, não por coerção.
O texto apresenta uma lei exemplar, extremamente severa, com critérios muito específicos: rebeldia persistente, recusa a toda correção e um estilo de vida devasso (comilão e beberrão). Além disso, a acusação devia ser feita pelos próprios pais diante dos anciãos da cidade. Muitos estudiosos entendem que a intenção principal era pedagógica, para mostrar a gravidade da rebeldia extrema e proteger a comunidade de comportamentos destrutivos, mais do que incentivar frequentes execuções literais de filhos.
Manter o corpo exposto por muito tempo era visto como prolongar a vergonha, a maldição e a contaminação da terra. A lei exige sepultamento no mesmo dia para afirmar duas verdades: o pecado é grave e traz maldição, mas essa maldição não deve ser normalizada ou transformada em espetáculo permanente. A terra que Deus deu a Israel deveria permanecer santa, e a exposição contínua do condenado contrariava esse princípio.
A expressão resume o propósito dessas leis: o povo de Deus não pode conviver passivamente com injustiça, sangue inocente, rebeldia extrema e desprezo pela dignidade humana. "Tirar o mal" significa tratar com seriedade o pecado, a violência e a desordem moral, adotando medidas que protejam a comunidade e honrem a santidade de Deus. Em diferentes contextos ao longo da Bíblia, isso envolverá disciplina, restauração, arrependimento e, acima de tudo, um coração comprometido com a justiça e a misericórdia.
Deuteronômio 21 toca em experiências humanas muito dolorosas: morte sem resposta, famílias divididas por favoritismo, filhos que se perdem em caminhos autodestrutivos, pessoas humilhadas e expostas. É um capítulo pesado, mas dentro dele aparece um fio de cuidado: Deus não ignora o sangue inocente, não fecha os olhos para a injustiça, e não trata a dor como algo banal. A cena dos anciãos lavando as mãos e pedindo que Deus não coloque aquele sangue sobre o povo mostra um coração que reconhece limite: há situações em que não se sabe o que fazer, não se tem controle, mas ainda assim é possível se achegar a Deus, confessar a dor, a impotência, e pedir misericórdia. Isso fala de um Deus que pode ouvir um povo que se sente confuso, ameaçado e com medo de carregar culpas que não compreende totalmente. A mulher cativa, rasgando simbolicamente o passado de cativeiro, chorando pai e mãe por um mês, lembra que Deus vê o luto. Mesmo dentro de uma cultura dura, há espaço para chorar aquilo que se perdeu. O texto não romantiza a situação dela, mas mostra que o luto não é descartável. Em um mundo que muitas vezes exige rapidez para superar dor, essa imagem de um tempo separado para chorar traz consolo: a tristeza tem um lugar legítimo diante de Deus. A lei sobre o filho rebelde é muito forte, e facilmente desperta medo ou culpa em quem viveu conflitos familiares. No entanto, o foco da narrativa está na proteção da comunidade contra um mal extremo, não em punir falhas comuns de juventude. Vista com cuidado, ela mostra o quanto Deus leva a sério vidas que caminham para a autodestruição, não por desprezo, mas porque isso traz sofrimento profundo para todos ao redor. Por fim, a proibição de deixar o corpo pendurado no madeiro até o outro dia fala de um Deus que não deseja a exposição infinita da vergonha. A culpa, o juízo e as consequências existem, mas não são para ficar eternamente pendurados aos olhos de todos. Há um momento em que é preciso sepultar, encerrar, e permitir que a terra não seja mais marcada por aquela imagem. Para corações machucados, esse capítulo pode ser lido como um lembrete de que Deus leva a sério tanto o mal que foi cometido quanto o sofrimento de quem foi ferido. Ele vê a dor que não tem explicação, a lágrima que ninguém valoriza, o luto que o tempo não resolveu tão rápido quanto os outros queriam. E, ao longo de toda a história bíblica, Ele se revela como aquele que não apenas manda tirar o mal do meio do povo, mas que se aproxima para curar corações quebrados.
Deuteronômio 21 é um excelente exemplo da forma como a Torá combina princípios teológicos com regulações concretas dentro de um contexto sociocultural específico. O capítulo se organiza em cinco grupos de leis, todos conectados pela preocupação com o "mal" e a "contaminação" da terra que o Senhor concede a Israel. O ritual da novilha na situação de homicídio não solucionado é singular no Antigo Testamento. Ele configura um tipo de "sacrifício de expiação" descentralizado, realizado longe do altar, em um vale não cultivado. A escolha de uma novilha que nunca trabalhou e de um campo não lavrado enfatiza a ideia de algo puro, não profanado pelo uso humano, sendo dedicado a Deus para lidar com uma culpa não atribuível a um indivíduo específico. A participação de anciãos, juízes e sacerdotes destaca a natureza ao mesmo tempo jurídica e cultual da expiação. Na seção sobre mulheres cativas, a legislação deuteronômica não institui a prática, mas a regula. Em contraste com códigos do Antigo Oriente que pouco ou nada protegiam prisioneiras, aqui há: 1) um período de transição e luto, 2) alteração da aparência que marcava status anterior, 3) incorporação à casa e 4) a proibição de revenda ou escravização em caso de separação. Isso é coerente com a tendência de Deuteronômio de atenuar abusos contra grupos vulneráveis (mulheres, estrangeiros, órfãos, viúvas), mesmo sem alcançar ainda os ideais éticos revelados mais plenamente ao longo da narrativa bíblica. A lei da primogenitura (vv. 15-17) corrige um ponto crítico na estrutura familiar patriarcal. Em Gênesis, há repetidos conflitos envolvendo primogenitura (Esaú/Jacó, filhos de Jacó), muitas vezes marcados por favoritismos parentais. Aqui, a Torá limita a possibilidade de manipulação humana dos direitos sucessórios, exigindo respeito à ordem estabelecida, independentemente das preferências afetivas do pai. O texto reflete uma teologia da justiça divina: Deus não aceita parcialidade (ver também Deuteronômio 10:17). A passagem sobre o filho contumaz e rebelde é uma das mais debatidas. A descrição do comportamento (rebeldia crônica, recusa a ouvir, comilança e bebedeira) indica não um adolescente desobediente comum, mas alguém já envolvido em estilo de vida dissoluto. É relevante que os pais apareçam como acusadores, mas não executores, e que os anciãos e a comunidade participem da decisão. Muitos intérpretes veem nessa lei uma função sobretudo dissuasória, delineando uma fronteira entre conflitos familiares normais e uma rebeldia que ameaça a ordem social. Por fim, a instrução sobre o condenado pendurado no madeiro (vv. 22-23) assume que a execução já ocorreu e que a exposição pública do cadáver é adicional, provavelmente para fins de advertência. A declaração de que "o pendurado é maldito de Deus" relaciona a morte pública e vergonhosa com a noção de maldição da aliança. O cuidado em sepultar o corpo no mesmo dia reforça a tensão entre a necessidade de advertência e o respeito à santidade da terra. No conjunto, o capítulo articula três grandes eixos teológicos: 1) a santidade da terra e a rejeição de qualquer contaminação ligada ao sangue inocente e à maldição; 2) a responsabilidade comunitária diante do pecado e da injustiça; 3) a proteção, ainda que limitada, de pessoas em situação de vulnerabilidade dentro da estrutura patriarcal. Ler estas leis requer atenção ao seu lugar no desenvolvimento progressivo da revelação bíblica e à distância cultural que nos separa de seu contexto original.
Lendo Deuteronômio 21 com foco no dia a dia, surgem questões muito concretas: como lidar com injustiças sem resposta, como tratar pessoas vulneráveis, como evitar favoritismos destrutivos na família, como encarar comportamentos rebeldes e autodestrutivos, e como lidar com erros graves sem desumanizar quem errou. O caso do morto no campo relembra que problemas coletivos não se resolvem apenas esperando que alguém, em algum lugar, faça algo. Anciãos, juízes e sacerdotes se movem, investigam, assumem responsabilidade simbólica. Traduzindo isso para hoje, situações de violência, abuso ou conflito no bairro, na igreja ou na família pedem esse tipo de mobilização: líderes que se envolvem, comunidades que não fecham os olhos, gente disposta a pedir ajuda e a tratar do assunto com seriedade. A lei sobre a mulher cativa, mesmo refletindo um contexto duro, carrega um princípio que continua atual: quanto mais poder alguém tem sobre outra pessoa, maior a responsabilidade de usar esse poder com cuidado e não para exploração. Isso vale em relações de trabalho (chefes e funcionários), em relacionamentos afetivos (quando um lado é emocional ou financeiramente mais dependente), e na família (pais e filhos, cuidadores e pessoas fragilizadas). A mensagem prática é clara: não transformar ninguém em objeto descartável. No ambiente familiar, a advertência contra privilegiar o filho da esposa amada toca num ponto sensível: favoritismo. Pais que comparam filhos, que usam um como modelo para envergonhar o outro, ou que valorizam mais o filho que se parece com eles tendem a plantar ressentimento e divisão. A sabedoria de Deuteronômio 21 aponta para a importância de ser justo, estabelecer critérios claros e não deixar que preferências de afeto definam o que é certo. A figura do filho rebelde também traz um alerta prático. Hoje não se trata de repetir a pena, mas de perceber o perigo de normalizar padrões de destruição: dependência química, irresponsabilidade crônica com trabalho ou estudo, violência nas palavras e atitudes, gastos descontrolados. Pais, líderes e amigos muitas vezes oscilam entre tolerar tudo ou explodir de forma agressiva. O texto sugere outra via: reconhecer a gravidade, procurar apoio da comunidade e das autoridades competentes, e entender que certos comportamentos precisam ser confrontados de forma séria e estruturada. O cuidado com o corpo do condenado pendurado fala sobre como a sociedade lida com pessoas que erraram feio. Em vez de manter a vergonha exposta sem fim (como se vê em linchamentos virtuais e cancelamentos permanentes), o princípio bíblico aponta para uma advertência responsável, que não nega o erro, mas também não transforma a pessoa em vitrine eterna de culpa. Na prática, isso incentiva a combinar responsabilidade pelos atos com respeito básico à dignidade, mesmo de quem falhou gravemente. Em resumo, Deuteronômio 21 desafia a construir ambientes – na família, no trabalho, na igreja – onde injustiças não sejam varridas para baixo do tapete, vulneráveis não sejam explorados, favoritismos não governem as relações e erros graves sejam tratados com firmeza, mas sem desumanização.
" Quando na terra que te der o SENHOR teu Deus, para possuí-la, se achar um morto, caído no campo, sem que se saiba quem o matou, "
" Então sairão os teus anciãos e os teus juízes, e medirão a distância até as cidades que estiverem em redor do morto; "
" E, na cidade mais próxima ao morto, os anciãos da mesma cidade tomarão uma novilha da manada, que não tenha trabalhado nem tenha puxado com o jugo; "
" E os anciãos daquela cidade trarão a novilha a um vale áspero, que nunca foi lavrado nem semeado; e ali, naquele vale, degolarão a novilha; "
" Então se achegarão os sacerdotes, filhos de Levi; pois o Senhor teu Deus os escolheu para o servirem, e para abençoarem em nome do Senhor; e pela sua palavra se decidirá toda a demanda e todo o ferimento; "
" E todos os anciãos da mesma cidade, mais próxima ao morto, lavarão as suas mãos sobre a novilha degolada no vale; "
" E protestarão, e dirão: As nossas mãos não derramaram este sangue, e os nossos olhos o não viram. "
" Sê propício ao teu povo Israel, que tu, ó Senhor, resgataste, e não ponhas o sangue inocente no meio do teu povo Israel. E aquele sangue lhes será expiado. "
" Assim tirarás o sangue inocente do meio de ti; pois farás o que é reto aos olhos do Senhor. "
" Quando saíres à peleja contra os teus inimigos, e o Senhor teu Deus os entregar nas tuas mãos, e tu deles levares prisioneiros, "
" E tu entre os presos vires uma mulher formosa à vista, e a cobiçares, e a tomares por mulher, "
" Então a trarás para a tua casa; e ela rapará a cabeça e cortará as suas unhas. "
" E despirá o vestido do seu cativeiro, e se assentará na tua casa, e chorará a seu pai e a sua mãe um mês inteiro; e depois chegarás a ela, e tu serás seu marido e ela tua mulher. "
" E será que, se te não contentares dela, a deixarás ir à sua vontade; mas de modo algum a venderás por dinheiro, nem a tratarás como escrava, pois a tens humilhado. "
" Quando um homem tiver duas mulheres, uma a quem ama e outra a quem despreza, e a amada e a desprezada lhe derem filhos, e o filho primogênito for da desprezada, "
" Será que, no dia em que fizer herdar a seus filhos o que tiver, não poderá dar a primogenitura ao filho da amada, preferindo-o ao filho da desprezada, que é o primogênito. "
" Mas ao filho da desprezada reconhecerá por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto tiver; porquanto aquele é o princípio da sua força, o direito da primogenitura é dele. "
" Quando alguém tiver um filho contumaz e rebelde, que não obedecer à voz de seu pai e à voz de sua mãe, e, castigando-o eles, lhes não der ouvidos, "
" Então seu pai e sua mãe pegarão nele, e o levarão aos anciãos da sua cidade, e à porta do seu lugar; "
" E dirão aos anciãos da cidade: Este nosso filho é rebelde e contumaz, não dá ouvidos à nossa voz; é um comilão e um beberrão. "
" Então todos os homens da sua cidade o apedrejarão, até que morra; e tirarás o mal do meio de ti, e todo o Israel ouvirá e temerá. "
" Quando também em alguém houver pecado, digno do juízo de morte, e for morto, e o pendurares num madeiro, "
" O seu cadáver não permanecerá no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia; porquanto o pendurado é maldito de Deus; assim não contaminarás a tua terra, que o Senhor teu Deus te dá em herança. "
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Aviso importante: Esta orientação bíblica não substitui cuidados profissionais de saúde mental. Se você estiver com sintomas de crise, ligue 188 (CVV) no Brasil, 988 nos EUA, ou procure ajuda profissional imediata.