Versículo em destaque
Atos 23:12 - Significado e aplicação
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Tradução: Almeida Corrigida Fiel
" E, quando já era dia, alguns dos judeus fizeram uma conspiração, e juraram, dizendo que não comeriam nem beberiam enquanto não matassem a Paulo. "
Atos 23:12
Versículo no contexto
Entender os versículos ao redor evita interpretações incorretas:
10 E, havendo grande dissensão, o tribuno, temendo que Paulo fosse despedaçado por eles, mandou descer a soldadesca, para que o tirassem do meio deles, e o levassem para a fortaleza.
11 E na noite seguinte, apresentando-se-lhe o Senhor, disse: Paulo, tem ânimo; porque, como de mim testificaste em Jerusalém, assim importa que testifiques também em Roma.
12 E, quando já era dia, alguns dos judeus fizeram uma conspiração, e juraram, dizendo que não comeriam nem beberiam enquanto não matassem a Paulo.
13 E eram mais de quarenta os que fizeram esta conjuração.
14 E estes foram ter com os principais dos sacerdotes e anciãos, e disseram: Conjuramo-nos, sob pena de maldição, a nada provarmos até que matemos a Paulo.
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Aqui vemos a história de uma trama contra a vida de Paulo: como foi formada, como foi descoberta e como foi impedida. Primeiro, vemos como a trama foi formada. Quando os judeus perceberam que não conseguiam nada nem com a violência da multidão nem pelos caminhos legais, recorreram ao assassinato. Planejaram surpreender Paulo e esfaqueá‑lo, se conseguissem chegar perto o suficiente. O ódio deles contra esse homem bom era tão forte que, quando um plano falhava, logo inventavam outro.
Observe quem entrou nessa conspiração. Eram alguns judeus profundamente indignados pelo fato de Paulo ser o apóstolo dos gentios, das nações não judias (Atos 23:12). Mais de quarenta homens estavam envolvidos (Atos 23:13). “Senhor, como se têm multiplicado os que me angustiam!” O plano deles também mostra o momento em que agiram. Trataram de tudo à noite e, assim que amanheceu, já estavam prontos para executar o projeto. Satanás tinha enchido seus corações na escuridão, e pela manhã já estavam em ação, como as pessoas descritas pelo profeta, que “imaginam o mal sobre as suas camas; à luz da manhã o praticam”, trazendo sobre si o ai de Deus (Miquéias 2:1). Cristo havia aparecido a Paulo de noite para protegê‑lo, e de dia esses quarenta homens se reuniram para destruí‑lo. Não se levantaram mais cedo do que Cristo, e Deus “a ajudará, ao romper da manhã” (Salmo 46:5).
Qual foi o acordo deles? Uniram‑se num pacto juramentado, talvez até chamando isso de uma liga santa. Cada um prometeu ajudar a matar Paulo. É chocante que tantos fossem ajuntados tão rapidamente em Jerusalém, e que estivessem tão distantes de qualquer senso de humanidade ou honra. As palavras do profeta sobre Jerusalém se ajustam bem a eles: “Justiça habitava nela, mas agora homicidas” (Isaías 1:21). Antes que tais homens chegassem a formar um plano tão perverso, precisavam ter pintado Paulo como o pior dos homens, um inimigo de Deus e da religião, uma maldição para a nação. Na verdade, o caráter dele era exatamente o oposto. Que leis de verdade e de justiça o ódio e o orgulho religioso não são capazes de violar?
Eles também procuraram tornar o plano firme, para que ninguém recuasse depois, quando a consciência os ferisse. Colocaram‑se debaixo de uma maldição, invocando o juízo mais pesado sobre suas almas, corpos e famílias, caso não matassem Paulo. Chegaram a jurar que não comeriam nem beberiam até que o tivessem feito. Aqui há um terrível amontoado de pecado. Planejar o assassinato de um homem inocente, bom e útil, que não lhes havia feito mal algum e só queria o bem deles, era andar no caminho de Caim. Mostrava que eram semelhantes ao pai deles, o diabo, que foi homicida desde o princípio.
E ainda acrescentaram pecado a pecado. Amarraram‑se por juramento a realizar o crime, o que é pior do que apenas pensar o mal ou tê‑lo em intenção. Isso se assemelha a fazer um pacto com o diabo e jurar fidelidade ao príncipe das trevas. Não deixa espaço para o arrependimento e quase desafia o arrependimento a se aproximar. Além disso, amarraram uns aos outros, arrastando outros para a mesma culpa e fazendo o possível para arruinar não só as próprias almas, mas também as almas daqueles que conseguiram convencer.
Demonstraram também desprezo pela providência de Deus. Prometeram executar o plano num prazo tão curto que não comeriam até que o tivessem realizado, como se nada pudesse interromper o intento deles. No entanto, quando dizemos: “Amanhã faremos isto ou aquilo”, mesmo tratando‑se de coisas lícitas, devemos acrescentar: “Se o Senhor quiser”. Como poderiam falar em providência de Deus, se todo o propósito deles caminhava diretamente contra o mandamento divino?
Desprezaram também as próprias almas e corpos. Amaldiçoaram suas almas se não levassem o crime até o fim, colocando‑se assim num laço terrível. Se prosseguissem, o juízo de Deus os alcançaria; se recuassem, já tinham invocado sobre si uma maldição. Também prejudicaram seus corpos, privando‑se de comida e bebida em favor de uma ação que nunca deveriam empreender, e talvez nem conseguissem consumar. Tal é a linguagem do inferno, quando as pessoas desejam que Deus as condene e o diabo as leve, se não fizerem o que desejam. “Como amou a maldição, ela lhe sobreveio.”
Alguns entendem que o sentido da maldição que fizeram era: ou matar Paulo, como se ele fosse um anátema semelhante a Acã, ou então fazer‑se a si mesmos malditos diante de Deus em lugar dele. Em qualquer dos casos, o desejo de levar o plano adiante era feroz. Estavam impacientes até que tudo estivesse concluído, como inimigos enlouquecidos de ódio, ou como homens famintos que não conseguem se saciar. Perseguidores podem ser descritos como aqueles que comem o povo de Deus como quem come pão, como se feri‑los fosse uma refeição para eles (Salmo 14:4).
Por fim, vemos o método que escolheram para executar a trama. Eles não conseguiam chegar perto de Paulo na fortaleza, onde ele estava sob proteção das autoridades. Estava preso não porque tivesse feito algum mal, mas para que mal nenhum lhe fosse feito. Então decidiram que os principais sacerdotes e os anciãos pediriam ao comandante que trouxesse Paulo até a sala do conselho para um novo interrogatório. Alegariam ter mais questões a fazer a ele, ou algo mais a ouvir. Então, enquanto ele viesse da fortaleza para o conselho, o matariam, encerrando de uma vez qualquer discussão sobre Paulo.
Depois de passarem o dia inteiro prendendo‑se uns aos outros nesse propósito perverso, foram à tarde aos principais do Sinédrio, o grande conselho judaico. Poderiam ter escondido o objetivo vergonhoso e apenas se valido de algum pretexto para mandar chamar Paulo; mas estavam tão certos de que os líderes aprovariam que não tiveram vergonha de expor tudo abertamente. Disseram que tinham se ligado com grande maldição a não comer nada no dia seguinte até que Paulo estivesse morto. Pretendiam, por assim dizer, tomar o sangue dele como desjejum na manhã seguinte.
Estavam confiantes de que os principais sacerdotes não só aprovariam o plano, mas os ajudariam a realizá‑lo, servindo de instrumento para colocar Paulo em suas mãos. Também esperavam que mentissem por eles, fingindo ao comandante que apenas desejavam uma audiência mais completa sobre o caso de Paulo, quando na verdade pretendiam algo bem diferente.
Que opinião miserável deviam ter dos próprios sacerdotes, se conseguiam atraí‑los para um crime como esse! No entanto, por mais ímpio que fosse o plano, sacerdotes e anciãos concordaram com ele de imediato. Não hesitaram nem repreenderam aqueles homens por tamanha maldade. Pelo contrário, por odiarem Paulo, apoiaram a conspiração e se fizeram cúmplices do pecado, tão culpados quanto se tivessem sido os autores do plano.
Vemos, em seguida, como a trama foi descoberta. Não nos é dito que os conspiradores tenham feito juramento de sigilo, mas apenas de fidelidade ao plano, talvez porque pensassem que cada um guardaria silêncio, ou porque acreditassem que poderiam executá‑lo mesmo se viesse a ser conhecido. Mas Deus dispôs as coisas de modo que o plano viesse à luz e fosse reduzido a nada. Observe, primeiro, como Paulo tomou conhecimento disso, em (Atos 23:16). Um rapaz, filho da irmã de Paulo, provavelmente vivendo em Jerusalém com a mãe, de algum modo ficou sabendo da emboscada. Não nos é dito como: pode tê‑los ouvido conversar, ou recebido notícia de alguém envolvido. Foi à fortaleza, como talvez costumasse fazer para ajudar o tio e levar o que ele necessitasse, e ali contou a Paulo o que ouvira.
Isso mostra que Deus tem muitos caminhos para expor o mal oculto. Ainda que as pessoas se aprofundem em esconder seus planos do Senhor, ele pode usar “uma ave dos céus” para levar a notícia (Eclesiastes 10:20), ou permitir que as próprias palavras dos conspiradores os denunciem.
Em segundo lugar, vemos como o assunto foi levado ao comandante pelo rapaz, que primeiro havia falado com Paulo. A narrativa é contada com muitos detalhes, talvez porque o escritor tivesse testemunhado esse procedimento prudente e bem‑sucedido e se lembrasse disso com satisfação. Paulo tinha alcançado bom conceito entre os oficiais por seu comportamento sábio e pacífico. Podia chamar um dos centuriões, embora o centurião fosse um oficial com soldados sob suas ordens, e este veio imediatamente quando Paulo pediu, como se lê em (Atos 23:17).
Paulo pediu que levasse o jovem ao comandante, para que este ouvisse algo que dizia respeito à segurança da administração. O centurião fez isso com boa disposição, conforme (Atos 23:18). Não enviou um simples soldado, mas foi ele mesmo, para apoiar o rapaz, mostrar respeito por Paulo e dar mais peso à mensagem: “Paulo, o prisioneiro, pediu que eu trouxesse este moço à tua presença; não sei o que ele tem a dizer, mas tem algo a comunicar‑te.” É verdadeira bondade ajudar prisioneiros desamparados usando nossa influência em favor deles, e não apenas dando alguma ajuda material. “Estive enfermo e preso, e me socorrestes” contará tanto quanto visitar e enviar dons. Aqueles que têm relacionamentos e influência devem estar dispostos a usá‑los em favor dos que estão em aflição.
O centurião ajudou a salvar a vida de Paulo com esse simples ato de cortesia, e isso deve nos deixar dispostos a fazer o mesmo quando tivermos oportunidade. “Abre a tua boca a favor do mudo” (Provérbios 31:8). Mesmo que não possamos dar grandes presentes aos prisioneiros de Deus, ainda podemos falar uma boa palavra em favor deles.
Em terceiro lugar, o tribuno recebeu o aviso com bondade e respeito, como diz (Atos 23:19). Ele tomou o jovem pela mão, como um amigo ou como um pai, para animá‑lo e evitar que se sentisse envergonhado. Isso deveria estimular pessoas em posições elevadas a se tornarem acessíveis, mesmo aos mais humildes, sempre que houver oportunidade de fazer o bem. Aquele tribuno romano é honrado aqui por tratar o sobrinho de Paulo com tanta abertura. Ninguém deve imaginar que humildade ou gentileza diminuem sua dignidade.
O tribuno levou o jovem à parte, em particular, para que ninguém mais ouvisse, e perguntou: “O que tens a me dizer? De que maneira posso ajudar Paulo?”. É provável que ele também quisesse, em certo sentido, reparar o mal que fizera quando prendeu Paulo anteriormente, mesmo sabendo que ele era cidadão romano.
Em quarto lugar, o jovem entregou sua mensagem com clareza e de modo adequado, como mostram (Atos 23:20-21). Ele não disse exatamente quais judeus estavam envolvidos, para não destacar diretamente os principais sacerdotes e anciãos, evitando assim uma ofensa desnecessária. Seu objetivo era salvar a vida do tio, não acusar seus inimigos. Ele contou que eles tinham combinado pedir ao capitão que trouxesse Paulo no dia seguinte ao sinédrio, fingindo que seria para mais uma investigação. Provavelmente esperariam que ele o enviasse sem escolta, já que a distância era curta. Mas o jovem o aconselhou a não aceitar, porque mais de quarenta homens estavam armando uma emboscada. Haviam jurado não comer nem beber até matarem Paulo, e agora estavam prontos, apenas aguardando a resposta do tribuno. Pela misericórdia de Deus, o sobrinho de Paulo se adiantou a eles.
Em quinto lugar, o tribuno despediu o jovem com a recomendação de manter segredo sobre o assunto, como diz (Atos 23:22). Os favores de pessoas importantes nem sempre devem ser divulgados, e às vezes não podem ser usados nos negócios públicos. Se os conspiradores soubessem que o tribuno havia sido alertado, poderiam tentar outro meio de matar Paulo. Por isso, ele ordenou que nada fosse comentado.
Vê‑se, então, como o plano foi frustrado. Quando o tribuno percebeu quão grande era o ódio dos judeus contra Paulo, quão obstinados estavam em fazer-lhe mal e quão perto ele mesmo poderia chegar da culpa se o deixasse ali, decidiu enviá‑lo rapidamente para longe do alcance deles. Recebeu a notícia com horror e repulsa diante de tamanha crueldade e sede de sangue. Parece que temia que, se mantivesse Paulo na fortaleza, mesmo com forte guarda, ainda assim poderiam encontrar algum meio de matá‑lo, talvez atacando os soldados ou incendiando a fortaleza. De qualquer modo, ele queria proteger Paulo, pois estava convencido de que ele não merecia tal tratamento.
É triste ver que os principais sacerdotes judeus, que tinham conhecimento desse plano de assassinato, o apoiaram e o favoreceram; enquanto um oficial romano, movido apenas por senso comum de justiça e humanidade, trabalhou para impedi‑lo e teve grande cuidado em fazê‑lo plenamente!
Ele ordena que uma força romana considerável se prepare imediatamente para acompanhar Paulo a Cesareia e apresentá‑lo ao governador Félix. Lá, Paulo provavelmente teria um julgamento mais justo do que diante do conselho judaico em Jerusalém.
O tribuno poderia, sem trair seu dever, ter soltado Paulo e deixado que ele cuidasse de sua própria segurança. Paulo não estava legalmente detido como criminoso, e o próprio tribuno depois admite que nada havia sido formalmente imputado a ele que merecesse algemas (Atos 23:29). Ele deveria ter zelado tanto pela liberdade de Paulo quanto por sua vida, mas provavelmente temeu provocar ainda mais os judeus. Ou talvez, percebendo que Paulo era um homem incomum, tivesse certa vaidade em tê‑lo como prisioneiro sob sua proteção.
Dois centuriões, oficiais sobre cem soldados, foram encarregados desse assunto (Atos 23:23-24). Eles deviam providenciar duzentos soldados, provavelmente de seus próprios destacamentos, para ir a Cesareia. Junto com eles iriam setenta cavaleiros e duzentos lanceiros, embora alguns entendam que esses lanceiros fossem parte da guarda pessoal do tribuno. Não é certo se eles iam montados ou a pé, mas provavelmente eram infantaria, destinada a proteger os cavaleiros.
Vê‑se como Deus, com justiça, submeteu a nação judaica ao domínio romano, quando tamanha tropa era necessária apenas para contê‑los de crimes tão graves. Na realidade, Paulo não precisava de toda essa proteção, nem de qualquer proteção humana, para ser preservado de seus inimigos. Nenhum número de soldados poderia tê‑lo guardado se Deus tivesse decidido enviar um anjo, como fizera em outras ocasiões. Contudo, Deus tinha seu propósito nisso.
O tribuno desejava mostrar os judeus como um povo teimoso e desordeiro, incapaz de se manter dentro dos limites da decência e da justiça sem forte controle. Ele também ouvira falar quantos tinham aderido ao complô contra Paulo e, por isso, considerou que uma escolta menor não bastaria. Ao mesmo tempo, Deus queria encorajar Paulo. Ele foi mantido em mãos favoráveis e fora do alcance de seus inimigos.
Paulo não pediu tal guarda, assim como Esdras não pedira (Esdras 8:22), e pela mesma razão: confiava plenamente no poder de Deus. Mesmo assim, essa proteção veio pela providência do governador. Isso também deu a Paulo maior destaque público. Suas cadeias por causa de Cristo foram conhecidas em toda a região (Filipenses 1:13). Como já havia sido predito que grande honra estaria associada aos seus sofrimentos, era apropriado que agora também fosse escoltado com honra. Os crentes seriam fortalecidos ao vê‑lo guardado como um cidadão digno, e não tratado como inimigo da nação, vendo um grande pregador transformado em prisioneiro dessa maneira.
Quando os inimigos o odiavam e os amigos pareciam negligenciá‑lo, um tribuno romano se apresenta como seu protetor e cuida dele com atenção. Primeiro, cuida do conforto de Paulo. “Providenciem animais”, diz ele, “para que Paulo possa ir montado”. Se os perseguidores judeus tivessem organizado sua transferência dentro de um processo legal, provavelmente o fariam ir a pé, ou arrastado num carro ou trenó. Talvez até o colocassem atrás de um dos soldados a cavalo. Em vez disso, o tribuno o trata como um homem de consideração, ainda que prisioneiro, e manda preparar uma montaria adequada, sem demonstrar medo de que Paulo fugisse.
A ordem manda que se providenciem não apenas um animal, mas animais, para colocar Paulo em cima. Isso pode significar que ele teria direito a mais de um cavalo, ou talvez um animal de reserva caso o outro não estivesse em condições. Alguns intérpretes entendem que esses animais eram para os amigos e companheiros de Paulo, para que pudessem viajar com ele, ajudá‑lo no caminho e lhe fazer companhia.
Em segundo lugar, o tribuno cuida da segurança de Paulo. Ele dá ordens estritas para que Paulo seja conduzido são e salvo ao governador Félix, a quem o caso agora é entregue. Félix era a maior autoridade civil sobre os judeus, assim como o tribuno era a mais alta autoridade militar. Escritores romanos falam de Félix como um homem de origem humilde que se elevou por manobras habilidosas até se tornar governador da Judeia. Tácito afirma que ele exercia poder régio com espírito de escravo, entregando‑se a muitas formas de crueldade e luxúria. Pobre Paulo, entregue a um homem assim; ainda assim, isso era melhor do que ficar nas mãos de Ananias, o sumo sacerdote. Um prisioneiro entregue pela via legal deve ser tão bem protegido quanto um príncipe.
Para maior segurança, o tribuno também ordena que Paulo seja levado à terceira hora da noite. Alguns entendem isso como três horas após o pôr do sol, o que se ajustaria à estação do ano após o Pentecostes, quando a noite era mais fresca para viajar. Outros pensam que significa três horas depois da meia‑noite, na terceira vigília, por volta das três da manhã, para que partissem antes que os inimigos de Paulo estivessem acordados. Isso também ajudaria a evitar tumultos públicos e deixaria seus adversários furiosos em vão, como um leão que perdeu a presa.
O tribuno ainda escreve uma carta ao governador Félix, colocando todo o caso em suas mãos e livrando‑se de maior responsabilidade. Lucas registra aqui a carta literalmente, e é provável que tivesse uma cópia dela, já que acompanhava Paulo nessa viagem. Na carta, o tribuno começa com a saudação respeitosa usual a Félix, chamando‑o de “excelentíssimo governador”, um título protocolar. Ele lhe deseja saúde e prosperidade.
Então o comandante dá um relato honesto do caso de Paulo. Ele diz que os judeus tinham um grande ódio contra Paulo, que o haviam agarrado e teriam matado se pudessem. Félix provavelmente conhecia bem os judeus para não julgar mal a Paulo só porque eles o odiavam. O comandante também declara que havia protegido Paulo porque ele era cidadão romano. Quando os judeus estavam prestes a matá‑lo, ele veio com uma tropa armada e o resgatou. Isso o colocava em boa posição diante do governador romano. Ele acrescenta que não conseguia entender qual era, de fato, a questão em jogo, nem por que os judeus odiavam tanto a Paulo.
Ele escolheu o caminho correto para esclarecer os fatos: levou Paulo diante do sinédrio (Atos 23:28) para interrogá‑lo ali. Esperava que, pelas acusações ou pela própria defesa de Paulo, pudesse descobrir o que tinha causado todo aquele tumulto. Em vez disso, viu que Paulo estava sendo acusado por questões relativas à lei deles (Atos 23:29), especialmente pela esperança da ressurreição dos mortos (Atos 23:6).
Esse comandante era sensato, honrado e tinha certo senso de justiça e bondade. Mesmo assim, chama a atenção como ele fala de modo tão superficial sobre a vida futura e sobre os grandes assuntos do mundo vindouro. Trata esse tema como se fosse apenas um ponto controverso, quando na verdade é algo certo e aceito por todos, exceto pelos saduceus. E fala como se fosse apenas uma questão da lei deles, quando na realidade importa para toda a humanidade. Ou talvez estivesse se referindo mais às práticas rituais do que às crenças em si. Nesse caso, parecia que a disputa girava em torno de Paulo diminuir o valor e a autoridade da lei cerimonial, isto é, das leis sobre o culto exterior. Os romanos permitiam que os povos conquistados mantivessem sua própria religião e não impunham a deles. Porém, como responsáveis pela ordem pública, não permitiam que a religião fosse usada como disfarce para prejudicar o próximo.
Até ali, o comandante havia entendido que nada se havia levantado contra Paulo que merecesse morte ou mesmo prisão, muito menos algo que tivesse sido provado. Os próprios judeus tinham se tornado odiosos por causa de sua maldade. Eles mancharam sua própria honra, trouxeram vergonha sobre sua coroa e desonra sobre sua igreja, sua lei e seu lugar santo. Depois disso, ainda reclamavam que Paulo havia diminuído sua reputação. Seria isso realmente um crime digno de morte ou de cadeias?
Então ele encaminha o caso de Paulo para Félix (Atos 23:30): “Quando fui informado de que os judeus estavam armando uma emboscada para matar esse homem, sem qualquer julgamento legítimo, enviei‑o imediatamente a ti, que és a autoridade competente para ouvir o caso e decidir. Que os seus acusadores venham e apresentem suas queixas diante de ti. Sou soldado de formação, não juiz; deixo a questão em tuas mãos.”
Paulo foi levado em segurança a Cesareia, durante a noite, e os soldados deixaram os conspiradores sozinhos com o peso do seu juramento. Se eles não se arrependessem da impiedade do voto feito contra Paulo, agora teriam tempo ao menos para se arrepender da imprudência dele, pois haviam colocado a si mesmos em risco. Se alguns, por teimosia e frustração, chegassem a morrer de fome, morreriam sem compaixão. Paulo foi conduzido até Antipátride, cerca de vinte e sete quilômetros de Jerusalém, mais ou menos a metade do caminho até Cesareia (Atos 23:31). Ali, os duzentos soldados de infantaria e os duzentos lanceiros voltaram para Jerusalém e retornaram aos quartéis na fortaleza. Como Paulo já estava fora de perigo, tamanha escolta não era mais necessária. Os cavaleiros poderiam levá‑lo mais rapidamente até Cesareia, e isso também poupava esforço deles e despesa do comandante. Esse procedimento dá um bom exemplo aos servos: obedecer às ordens de seus superiores e, ao mesmo tempo, agir com prudência pelo bem deles.
Paulo foi entregue a Félix como prisioneiro (Atos 23:33). Os oficiais entregaram a carta e Paulo juntos nas mãos de Félix, e assim cumpriram o seu dever. Paulo nunca tinha procurado amizades com pessoas influentes, mas sim com os discípulos, por onde quer que passasse. Contudo, Deus usou seus sofrimentos para lhe dar a oportunidade de testemunhar de Cristo diante de homens importantes. Isso correspondia ao que Cristo havia predito: que seus discípulos seriam levados à presença de governadores e reis por causa dele, para lhes servirem de testemunho (Marcos 13:9).
O governador perguntou de que província do império Paulo era natural, e soube que era da Cilícia. Félix então lhe prometeu uma audiência em breve (Atos 23:35): “Ouvirei tua causa quando teus acusadores chegarem, e escutarei com imparcialidade ambas as partes, como deve fazer um juiz.” Também ordenou que Paulo fosse mantido sob custódia no pretório de Herodes, uma sala do palácio chamada assim por ter sido construída por Herodes, o Grande. Ali Paulo teve a oportunidade de encontrar homens importantes que vinham à corte do governador, e sem dúvida aproveitou bem esses contatos para fins proveitosos.
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Deste capítulo
Atos 23:1
"E, pondo Paulo os olhos no conselho, disse: Homens irmãos, até ao dia de hoje tenho andado diante de Deus com toda a boa consciência."
Atos 23:2
"Mas o sumo sacerdote, Ananias, mandou aos que estavam junto dele que o ferissem na boca."
Atos 23:3
"Então Paulo lhe disse: Deus te ferirá, parede branqueada; tu estás aqui assentado para julgar-me conforme a lei, e contra a lei me mandas ferir?"
Atos 23:4
"E os que ali estavam disseram: Injurias o sumo sacerdote de Deus?"
Atos 23:5
"E Paulo disse: Não sabia, irmãos, que era o sumo sacerdote; porque está escrito: Não dirás mal do príncipe do teu povo."
Atos 23:6
"E Paulo, sabendo que uma parte era de saduceus e outra de fariseus, clamou no conselho: Homens irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseu; no tocante à esperança e ressurreição dos mortos sou julgado."
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