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Atos 19:21 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Almeida Corrigida Fiel

" E, cumpridas estas coisas, Paulo propôs, em espírito, ir a Jerusalém, passando pela Macedônia e pela Acaia, dizendo: Depois que houver estado ali, importa-me ver também Roma. "

Atos 19:21

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19 Também muitos dos que seguiam artes mágicas trouxeram os seus livros, e os queimaram na presença de todos e, feita a conta do seu preço, acharam que montava a cinqüenta mil peças de prata.

20 Assim a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia.

21 E, cumpridas estas coisas, Paulo propôs, em espírito, ir a Jerusalém, passando pela Macedônia e pela Acaia, dizendo: Depois que houver estado ali, importa-me ver também Roma.

22 E, enviando à Macedônia dois daqueles que o serviam, Timóteo e Erasto, ficou ele por algum tempo na Ásia.

23 E, naquele mesmo tempo, houve um não pequeno alvoroço acerca do Caminho.

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auto_stories Comentário Bible Guided

Os problemas de Paulo em Éfeso surgiram justamente quando ele se preparava para seguir adiante e realizar mais trabalho em outros lugares. Ele tinha planos amplos para Deus e desejava que sua influência alcançasse o mais longe possível. Depois de passar mais de dois anos em Éfeso, planejava visitar as igrejas da Macedônia e da Acaia, especialmente Filipos e Corinto, as principais cidades dessas regiões (Atos 19:21). Ele havia começado igrejas ali e agora queria ver como estavam. Tencionava corrigir o que estivesse errado e fortalecer o que estava indo bem.

Dali, planejava ir a Jerusalém para visitar os crentes e relatar como o Senhor havia abençoado sua obra. Depois disso, pretendia ir a Roma, não apenas para conhecer a famosa cidade, mas para ver os cristãos que ali estavam e ajudá‑los (Romanos 1:11). Os crentes de Roma eram a verdadeira glória daquela cidade, e Paulo ardia em desejos de visitá‑los. Alguns entendem que ele fez esse plano depois da morte do imperador Cláudio, pois Cláudio certa vez havia expulsado os judeus de Roma (Atos 18:2).

Paulo também enviou Timóteo e Erasto à Macedônia para avisar as igrejas de que ele viria e para ajudar a preparar a oferta para os santos pobres em Jerusalém. Pouco depois, escreveu a primeira carta aos Coríntios, planejando ir pessoalmente em seguida, como mais tarde disse: “Enviei‑vos Timóteo, mas em breve irei ter convosco, se o Senhor quiser” (1 Coríntios 4:17, 19). Por enquanto, permaneceu na região em torno de Éfeso, continuando a plantar igrejas.

Paulo também foi impulsionado pelos problemas que encontrou em Éfeso. É até surpreendente que tenha permanecido ali em relativa tranquilidade por tanto tempo, embora provavelmente já tivesse enfrentado dificuldades anteriores que não foram registradas. Numa de suas cartas desse período, ele disse que havia “combatido contra feras em Éfeso” (1 Coríntios 15:32), o que provavelmente se refere a ter sido exposto no teatro para enfrentar animais selvagens. Ele também falou dos graves sofrimentos que lhe sobrevieram na Ásia, em que se viu certo de que morreria e “teve em si mesmo a sentença de morte” (2 Coríntios 1:8, 9).

No relato de Atos, porém, Paulo ficou mais atemorizado do que ferido. Levantou‑se um grande tumulto por causa “do Caminho”, isto é, da fé cristã (Atos 19:23). Alguns escritores dizem que o falso mestre Apolônio de Tiana estava em Éfeso mais ou menos nessa época, mas Lucas não o menciona, provavelmente porque sua oposição ao evangelho foi pequena demais para merecer destaque. A verdadeira perturbação veio de outra fonte, e os detalhes são importantes.

Um ourives chamado Demétrio, provavelmente um dos principais da profissão, reclamou que Paulo e os demais pregadores estavam desviando o povo do culto a Diana e prejudicando os negócios dos que faziam modelos de prata para o templo dela. Esses modelos podiam ser pequenas imagens prateadas do templo ou pequenos santuários que as pessoas podiam levar para casa, semelhantes aos objetos devocionais usados mais tarde em falsos cultos. Os viajantes que vinham a Éfeso para adorar costumavam comprar esses objetos na volta, tanto como lembrança quanto para impressionar os amigos. Isso mostra como artesãos e homens ainda mais astutos, em posição superior à dos simples operários, podem lucrar com a superstição das pessoas e explorá‑la em benefício próprio.

Demétrio não levou sua queixa às autoridades civis. Convocou os artífices e outros trabalhadores da mesma profissão, homens que se preocupavam principalmente com o próprio lucro. Procurou agitá‑los contra Paulo, sabendo que eles reagiriam com ira, não com razão.

Seu discurso foi direto e enérgico. Primeiro, argumentou que o negócio de fabricar santuários de prata de Diana era necessário e devia ser defendido (Atos 19:25). Disse que esse ofício lhes dava não apenas o sustento e o salário, mas riqueza, conforto e meios para viverem bem. Portanto, não deviam permitir que o ofício caísse em descrédito. É natural que as pessoas defendam a fonte de sua renda, seja ela certa ou errada, e muitos têm resistido ao evangelho por essa razão. Resistem a Cristo porque o evangelho os chama a abandonar ocupações desonestas, mesmo quando essas ocupações rendem muito dinheiro.

Em seguida, Demétrio acusou Paulo de convencer o povo a não adorar ídolos. Na acusação, conforme Lucas registra, Paulo havia dito: “Deuses que se fazem com as mãos não são deuses” (Atos 19:26). Nada poderia ser mais claro. Os profetas já haviam enfatizado o mesmo ponto: se é o artífice que fabrica, então não pode ser Deus. A primeira e mais verdadeira ideia que temos de Deus é que ele existe por si mesmo e não depende de nada. Tudo o mais recebe dele a vida e depende dele. Assim, qualquer coisa produzida pela imaginação e pelas mãos humanas não pode ser um deus.

Apesar disso, essa verdade passou a ser tratada como ideia herética e ímpia, e Paulo como criminoso por sustentá‑la. A multidão não podia realmente provar nada contra a doutrina em si. A queixa real era o efeito que ela produzia: não apenas em Éfeso, a cidade principal, mas quase em toda a Ásia, a província romana onde viviam, Paulo havia convencido muita gente, especialmente no interior, a abandonar o culto a Diana. Isso significava que já não havia tanta procura pelos santuários de prata, e eles deixavam de ser vendidos com bons preços.

As pessoas ainda hoje defendem aquilo que é claramente tolo e falso, contanto que a lei humana, o dinheiro e a tradição antiga o sustentem. Aqui, defendiam a ideia de que coisas feitas por mãos humanas são deuses, embora a mentira fosse evidente. A força desse tipo de erro costuma vir não da verdade, mas do lucro e do hábito.

Demétrio também os lembrou de que o negócio deles corria risco de declínio. Qualquer coisa que tocasse no ofício deles os atingia no ponto mais sensível. Em essência, ele dizia: “Se esse ensino se espalhar, estamos arruinados. Podemos muito bem fechar nossas oficinas. Nosso ofício será deixado de lado, desmascarado como superstição e tratado como um engano contra o povo. Nossa parte nesse comércio não apenas se perderá, mas ainda nos trará problemas, e passaremos a ser não apenas pobres, mas culpados.” A palavra traduzida por “ofício” também pode significar a participação deles no comércio ou negócio.

Além disso, ele fingiu ter grande zelo por Diana, a deusa adorada em Éfeso, e profunda preocupação com a honra dela. Não bastava, dizia ele, que o negócio deles estivesse em perigo. O que realmente o perturbava era que o templo da grande deusa Diana pudesse ser desprezado e sua majestade destruída. Ele afirmava que toda a Ásia e, de fato, todo o mundo a adoravam. Isso mostra o que o culto a Diana tinha a oferecer em sua própria defesa, e o melhor que seus mais fervorosos defensores podiam dizer em favor dele.

Em primeiro lugar, havia a favor desse culto o esplendor externo. A beleza e a magnificência do templo eram o que os atraía e os mantinha presos. Não suportavam a ideia de nada que diminuísse esse brilho, muito menos que o destruísse. Em segundo lugar, tinham a seu favor o número de adeptos. Podiam dizer: “Toda a Ásia e o mundo a adoram”, e imaginar que isso, por si só, bastava para provar que o culto era verdadeiro. Do mesmo modo, como o mundo inteiro segue a besta, o dragão, o diabo, chamado de deus deste século, dá a ela poder, trono e grande autoridade (Apocalipse 13:2‑3).

A reação da multidão a essa queixa foi intensa. A denúncia veio de um trabalhador do ofício e tinha o objetivo de inflamar o povo comum. E conseguiu. Naquela ocasião, eles manifestaram grande ira contra o evangelho e seus pregadores. Ficaram cheios de raiva e furor (Atos 19:28). Os artífices se enfureceram completamente quando ouviram que tanto o ofício quanto o ídolo deles estavam em perigo.

Também demonstraram grande apego à honra de sua deusa. Gritavam: “Grande é a Diana dos efésios.” Em outras palavras: “Estamos decididos a sustentá‑la, e viveremos e morreremos em sua defesa.” Se alguém ousasse desonrá‑la ou ameaçar sua destruição, estavam prontos para se opor. Paulo poderia provar o quanto quisesse que coisas feitas por mãos humanas não são deuses; eles, porém, continuariam a clamar: “Grande é a Diana dos efésios.” Pretendiam defender a religião que haviam recebido de seus pais.

É assim que as pessoas, por natureza, andam em nome do seu próprio deus e têm boa opinião de sua própria religião. Quanto mais, então, deveriam os servos do Deus verdadeiro fazer o mesmo, pois podem dizer: “Este Deus é o nosso Deus para todo o sempre” (Salmo 48:14). Mas o zelo falso rapidamente os levou à confusão. Toda a cidade se encheu de desordem (Atos 19:29). Esse é o resultado comum da devoção inflamada a uma religião falsa. Ela lança tudo no caos, derruba a razão do trono e coloca a paixão em seu lugar. As pessoas correm juntas sem sequer se entenderem umas às outras, e muitas vezes sem entenderem a si mesmas.

A multidão foi ainda mais longe. Agarraram alguns dos companheiros de Paulo e os arrastaram ao teatro (Atos 19:29). Alguns entendem que pretendiam lançá‑los às feras, como aconteceu com o próprio Paulo em certas ocasiões; outros pensam que queriam apenas maltratá‑los e expô‑los ao escárnio público. Os homens presos foram Gaio de Derbe (Atos 20:4) e Aristarco, que também é mencionado em Colossenses 4:10. Eles tinham vindo com Paulo da Macedônia, e o único “crime” deles era acompanhar o apóstolo tanto no serviço quanto nos sofrimentos.

O próprio Paulo escapou de ser preso. Quando viu os amigos em perigo por causa dele, quis entrar no meio da multidão e oferecer‑se, se fosse necessário, em lugar deles, para que não sofressem por causa dele. Isso revelava um espírito generoso e um coração que amava o próximo como a si mesmo. Mas os amigos não permitiram. Era mais próprio que ele se oferecesse do que que eles consentissem nisso. Podiam dizer a Paulo o que os servos de Davi disseram a ele, quando estava prestes a se expor no serviço público: “Tu vales mais do que dez mil de nós” (2 Samuel 18:3).

Outros amigos também intervieram para impedir que ele caminhasse diretamente para o perigo. Temiam que a multidão o tratasse ainda pior do que a Gaio e Aristarco, pois o viam como o líder de todo aquele movimento. Julgaram, portanto, melhor que aqueles dois sofressem o primeiro golpe a que Paulo entrasse no teatro (Atos 19:31). Entre esses amigos estavam alguns dos principais da Ásia, chamados asiarcas. Alguns estudiosos entendem que eram principais sacerdotes; outros, que eram administradores dos jogos públicos. Não nos é dito se se haviam convertido ou apenas nutriam boa vontade para com Paulo, mas eram seus amigos.

O dr. Lightfoot sugere que eles mantiveram um profundo respeito por Paulo desde o tempo em que ele lutara com feras naquele mesmo teatro e temiam que ele fosse novamente maltratado. Este é um serviço bondoso e sábio: prezar mais a vida e o bem‑estar de homens de Deus do que eles mesmos prezam. Os amigos de Paulo agiram corretamente ao detê‑lo. Seria um passo extremamente perigoso, que provavelmente lhe custaria a vida. Assim, Paulo foi impedido nessa questão, e aprendemos aqui a evitar o perigo enquanto for possível, contanto que não abandonemos o caminho do dever. Podemos ser chamados a entregar a vida, mas não somos chamados a desperdiçá‑la. Seria mais apropriado que Paulo se arriscasse numa sinagoga do que num teatro.

A multidão estava completamente confusa. Uns gritavam uma coisa e outros, outra, conforme seus sentimentos, paixões e talvez boatos que tinham ouvido (Atos 19:32). Alguns clamavam contra os judeus, outros contra Paulo, mas o ajuntamento estava em tumulto, porque não se entendiam entre si.

Discutiam uns com os outros, prontos até a se voltar uns contra os outros, mas sequer compreendiam a própria causa. A maioria nem sabia por que se reunira. Não sabiam o que tinha provocado o motim, nem quem era responsável, nem mesmo o que tinham ido fazer ali. Em momentos assim, muitos comparecem apenas para “ver o que está acontecendo”. Seguem o barulho, seguem a multidão e, assim, o ajuntamento cresce rapidamente e se torna um grande tumulto.

Os judeus tentaram se envolver na desordem, embora em outros lugares tivessem sido muitas vezes os verdadeiros instigadores de tais tumultos. Aqui em Éfeso, porém, não tinham força suficiente para agitar a multidão por conta própria. Ainda assim, uma vez que a massa estava em movimento, tinham hostilidade bastante para se unir a ela (Atos 19:35). Então empurraram Alexandre para a frente, incitando‑o a falar em nome dos judeus contra Paulo e seus companheiros.

No fundo, queriam que ele dissesse algo como: “Vocês ouviram o que Demétrio e os ourives falaram contra eles, como inimigos da nossa religião. Agora ouçam o que nós temos a dizer contra Paulo, como inimigo da nossa religião.” Os judeus o encorajavam e prometiam apoiá‑lo. Entendiam que isso era necessário para se defenderem. Por isso, sua fala é chamada de “apologia”, isto é, defesa, não apenas em causa própria, mas em favor de todos os judeus, que também eram vistos pelos adoradores de Diana como inimigos.

Queriam deixar claro que eram tão contrários a Paulo quanto os fabricantes de ídolos. Os que hoje se apressam em se separar dos servos de Cristo, com medo de serem confundidos com eles, serão avaliados assim no fim. Alexandre acenava com a mão, querendo que a multidão o ouvisse contra Paulo. Seria estranho que uma perseguição contra cristãos não tivesse, em algum ponto, a participação de judeus. Se não podiam começar o tumulto, estavam dispostos a ajudá‑lo a prosseguir e, assim, participar dos pecados de outros.

Alguns entendem que esse Alexandre teria sido, em certo momento, cristão, mas voltara ao judaísmo, e por isso foi apresentado como acusador “adequado” de Paulo. Ligam‑no a Alexandre, o latoeiro, que causou muitos males a Paulo (2 Timóteo 4:14) e que foi entregue por ele a Satanás, isto é, ao juízo e disciplina de Deus, em 1 Timóteo 1:20.

Isso apenas fez com que os acusadores deixassem de pressionar contra os amigos de Paulo e se voltassem a gritar louvores estrondosos à sua deusa (Atos 19:34). Quando perceberam que Alexandre era judeu e, portanto, inimigo do culto a Diana, recusaram‑se a ouvi‑lo. Os judeus, naquela época, haviam chegado a um ódio profundo contra os ídolos e a idolatria, e por isso a multidão não quis escutar nada que ele dissesse, fosse a favor ou contra Paulo.

Em vez disso, começaram a gritar: “Grande é a Diana dos efésios!” Quem quer que se levantasse contra ela, fosse judeu ou cristão, receberia a mesma resposta. Ela era a “Diana deles”, e eles se orgulhavam de ter o seu templo entre si. Afirmavam a grandeza dela porque era amplamente honrada e porque o seu templo era mais famoso e suntuoso que qualquer outro. Essa foi a única resposta por duas horas seguidas.

Imaginavam que isso bastava para provar que Paulo estava errado, como se gritos pudessem responder à verdade de que deuses feitos por mãos humanas não são deuses. Assim, muitas das verdades mais santas são muitas vezes abafadas por barulho, ira e furor de multidão. Já se dizia há muito tempo que os idólatras enlouquecem por causa de seus ídolos, e isto foi um claro exemplo. Diana dera prestígio a Éfeso, pois a cidade enriquecia com as multidões que vinham de toda parte ao seu templo. Por isso, fizeram tudo o que podiam para proteger a honra minguante da deusa, clamando: “Grande é a Diana dos efésios.”

O tumulto foi enfim acalmado e disperso pela sabedoria e vigilância do escrivão da cidade, o secretário ou tabelião público. Ele era o responsável oficial pelos registros públicos e teve grande dificuldade para fazer a multidão ficar em silêncio o bastante para ouvi‑lo. Quando conseguiu, falou com calma, ilustrando o provérbio de que as palavras dos sábios, ouvidas em silêncio, valem mais do que o clamor de um governante insensato (Eclesiastes 9:17).

Primeiro, ele os acalmou reconhecendo que Diana era, de fato, a famosa deusa dos efésios (Atos 19:35). Não precisavam gritar tanto para defender um fato que ninguém contestava. Todos sabiam que a cidade de Éfeso era devota da grande deusa Diana. A expressão usada indica que a cidade, como corpo público, tinha a responsabilidade oficial por seu culto, por cuidar de seu templo e receber os que vinham prestar‑lhe honra.

De certo modo, Éfeso era “zeladora” da grande deusa Diana. A cidade parecia mais protetora de Diana do que Diana protetora da cidade. Os idólatras se esforçam muito para sustentar a honra de deuses feitos por mãos humanas, enquanto o culto ao Deus vivo e verdadeiro é negligenciado. Poucas nações ou cidades se orgulham de proteger esse culto. O templo de Diana em Éfeso era rico e impressionante, mas pareciam valorizar ainda mais a imagem da deusa do que o próprio templo, porque diziam que ela tinha caído de Júpiter e, portanto, não fora feita por mãos humanas. Isso mostra como pessoas supersticiosas podem ser facilmente enganadas por um embuste bem elaborado.

Porque a imagem permaneceria ali desde tempos antigos e ninguém sabia dizer quem a havia feito, fizeram o povo crer que ela caíra de Júpiter. O escrivão da cidade afirmou com muita seriedade, embora não saibamos se realmente acreditava nisso, que essas coisas não podiam ser contestadas, pois eram universalmente aceitas e não trariam dano à cidade se fossem questionadas. Alguns entendem que ele quis dizer: “Como a imagem de Diana caiu de Júpiter, como todos cremos, o que se falou contra deuses feitos por mãos humanas não nos atinge em nada.”

Então ele os advertiu contra o uso da violência e a criação de desordem, pois a religião deles não precisava desses meios e nada, de fato, ganharia com isso (Atos 19:36). “Convém que vos acalmeis”, disse ele, “e nada façais precipitadamente.”

Esta é uma boa regra em todo tempo, na vida particular e nos assuntos públicos. Não devemos agir com pressa nem nos lançar às coisas de impulso. Pelo contrário, devemos dar tempo ao pensamento, conservar a calma e manter a razão no comando, enquanto a paixão permanece sob controle.

Devemos estar prontos a usar esse conselho quando vemos desordem ao nosso redor, ou quando a sentimos surgindo em nosso próprio coração. É melhor ficar em silêncio e evitar ações precipitadas, porque muitas coisas feitas com pressa depois são motivo de arrependimento.

O escrivão da cidade também absolveu Paulo e seus companheiros das falsas acusações feitas contra eles (Atos 19:37). Em essência, ele disse: “Vocês trouxeram estes homens aqui e estão prontos para despedaçá-los, mas que mal, de fato, eles cometeram? O que vocês podem provar contra eles?”. Ele ressaltou que eles não eram saqueadores de templos e não haviam roubado nada consagrado a Diana. Eles não atacaram o templo de Diana nem suas riquezas, e não insultaram a deusa nem maltrataram seus adoradores.

Por que usar tamanha violência contra pessoas que, embora não concordassem com eles, não responderam com palavras duras? Eles estavam calmos; por que, então, a multidão deveria estar furiosa? O verdadeiro alvo da mensagem de Paulo era o ídolo no coração das pessoas. Se esse ídolo caísse, o ídolo no templo também cairia.

Aqueles que pregam contra a idolatria têm a verdade ao seu lado, e devem apegar-se firmemente a ela e aplicá-la à consciência das pessoas. Mas não devem agir como salteadores, nem usar linguagem torpe contra esses adoradores. Devem ensinar com mansidão, não com ira e insultos, em relação aos que se opõem. A verdade de Deus não precisa de mentiras humanas, nem precisa do calor da raiva. A ira humana não produz a justiça de Deus.

O escrivão da cidade então os encaminhou para os canais jurídicos apropriados, que sempre devem ter prioridade sobre a violência de multidões, especialmente em nações bem ordenadas. É grande misericórdia viver em um país onde há leis para manter a paz, tribunais para tratar injustiças e meios legítimos para reparar danos.

Se a queixa é sobre um dano particular, o lugar adequado são os juízes e tribunais, que se reúnem publicamente em tempos determinados. Se Demétrio e os ourives se sentem prejudicados, ou pensam que algum direito legal foi violado, devem entrar com uma ação. Que apresentem suas acusações e que a causa seja ouvida de forma justa. A lei está aberta, e há autoridades para ouvir ambas as partes e decidir com justiça. Todos devem aceitar essa decisão e não agir como seus próprios juízes, nem inflamar a multidão.

A lei é útil quando bem utilizada, como último recurso para definir um direito em disputa ou recuperar um direito negado.

Se o assunto diz respeito a uma queixa pública, algo que afeta o governo ou a vida comum, deve ser tratado, não por uma multidão barulhenta, mas por uma assembleia pública legítima (Atos 19:39). Questões assim devem ser resolvidas em reunião ordeira, convocada da forma correta por aqueles que têm autoridade. Pessoas particulares não devem interferir em assuntos públicos de maneira que ultrapasse os governantes estabelecidos. Já temos o bastante a fazer cuidando dos nossos próprios assuntos.

O escrivão também os advertiu sobre o perigo que tinham atraído para si com aquele tumulto (Atos 19:40). Eles poderiam ser chamados a prestar contas pelo alvoroço daquele dia, e até denunciados ao tribunal do imperador como uma cidade inquieta e rebelde. Ele disse que não havia motivo real para aquela reunião e nenhuma desculpa para a desordem. Eles não poderiam justificar a quebra da paz dizendo que outros a quebraram primeiro e que apenas estavam se defendendo.

A maioria das pessoas teme mais o juízo humano do que o juízo de Deus. Seria muito melhor se usássemos essa mesma advertência para acalmar nossos desejos e paixões pecaminosas. Devemos lembrar que em breve daremos conta ao Juiz do céu e da terra por toda a nossa desordem. Podemos ser chamados a responder pelo tumulto de hoje em nossos corações e lares, e não teremos boa resposta se não houver causa real para nossa ira ou razão justa para nossa violência.

Assim como devemos conter desejos pecaminosos, também precisamos refrear nossas paixões com o pensamento de que Deus trará toda obra a juízo (Eclesiastes 11:9). Devemos viver como pessoas que terão de prestar contas.

Depois de mostrar à multidão a insensatez do tumulto e o perigo que poderia resultar dele, o escrivão ordenou que se dispersassem imediatamente (Atos 19:41). Ele dissolveu a assembleia, e cada um voltou para sua casa.

Aqui vemos como a providência soberana de Deus preserva a paz pública governando as mentes dos homens. Assim, o mundo é impedido de cair em caos total, e as pessoas são refreadas de agir como os peixes do mar, em que o mais forte devora o mais fraco. Se considerarmos quão feroz e indomada pode ser uma multidão, temos motivo para agradecer a Deus por não estarmos sempre sob o seu poder.

Ele faz cessar o bramido dos mares e o ruído das suas ondas, e também faz cessar o tumulto dos povos (Salmo 65:7). Vemos também quantos meios Deus tem para proteger o seu povo. Esse escrivão talvez não fosse amigo de Paulo nem do evangelho que ele pregava, mas Deus usou seu bom senso humano e sua prudência para cumprir seu próprio propósito. Muitas são as aflições do justo, mas o Senhor o livra de todas.

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