Versículo em destaque
Lucas 15:11 - Significado e aplicação
Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje
Tradução: Almeida Corrigida Fiel
" E disse: Um certo homem tinha dois filhos; "
Lucas 15:11
Versículo no contexto
Entender os versículos ao redor evita interpretações incorretas:
9 E achando-a, convoca as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque já achei a dracma perdida.
10 Assim vos digo que há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende.
11 E disse: Um certo homem tinha dois filhos;
12 E o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda.
13 E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente.
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Temos aqui a parábola do filho pródigo. Ela ensina a mesma lição das parábolas anteriores, isto é, como agrada a Deus quando pecadores, especialmente grandes pecadores, se voltam para Ele, e quão pronto Ele está a recebê‑los quando se arrependem. Mas os detalhes desta parábola mostram as riquezas do evangelho de forma ainda mais plena que as outras. Ela tem sido, e será enquanto o mundo existir, grande auxílio para pobres pecadores, guiando‑os e encorajando‑os ao arrependimento e ao retorno para Deus.
Aqui a parábola apresenta Deus como Pai comum de toda a humanidade, de toda a família de Adão. Somos todos seus filhos, todos temos um só Pai, e um só Deus nos criou (Malaquias 2:10). DEle recebemos o ser, nEle ainda vivemos, e dEle recebemos nosso sustento diário. Ele é nosso Pai porque nos dá lugar, criação e herança, e nos inclui ou não em sua aliança conforme sejamos filhos obedientes ou não. Jesus também estava mostrando àqueles fariseus orgulhosos que os publicanos e pecadores que eles desprezavam eram seus irmãos, partilhavam da mesma natureza humana, e por isso eles deveriam alegrar‑se quando bondade lhes fosse demonstrada. Deus não é somente Deus dos judeus, mas também dos gentios (Romanos 3:29). Ele é Senhor de todos, e rico em misericórdia para com todos os que O invocam.
A parábola também mostra que os filhos dos homens diferem em caráter, embora todos estejam relacionados com Deus como seu Pai comum. Ele tinha dois filhos. Um era firme, sério, contido, sóbrio quanto a si mesmo, embora não muito agradável para com os outros. Alguém assim provavelmente se manteria na criação que recebeu e não se deixaria afastar dela com facilidade. O outro era vivaz, inquieto, impaciente de qualquer controle, sempre vagando e ansioso por experimentar o próprio caminho. Se caísse em má companhia, provavelmente se tornaria um homem desenfreado, apesar de ter tido boa criação. Esse filho mais novo representa os publicanos e pecadores que Cristo estava procurando conduzir ao arrependimento, e também os gentios aos quais os apóstolos depois seriam enviados para pregar o arrependimento. O filho mais velho representa os judeus em geral, e especialmente os fariseus, que Cristo procurava conduzir a aceitar a graça de Deus oferecida aos pecadores.
O filho mais novo é o pródigo, e o seu caráter e condição foram traçados para mostrar o estado de cada um de nós por natureza, e de modo especial o de algumas pessoas em particular. Devemos notar sua vida desperdiçadora, o seu afastamento e a miséria que trouxe sobre si mesmo. Primeiro, é dito o que ele pediu a seu pai (Lucas 15:12). Ele disse, com bastante altivez e franqueza: “Pai, dá‑me a parte dos bens que me pertence”. Poderia ter falado de modo mais respeitoso, mas em vez disso fez um pedido exigente. É mau sinal, e começo de coisa pior, quando as pessoas consideram os dons de Deus como se fossem dívida e direito seu. Ele queria toda a sua parte de uma vez, não uma porção de prova para ver como a administraria. Queria tudo agora em suas próprias mãos, sem se importar com o que poderia vir depois. Essa é a grande loucura dos pecadores, e o que os arruína: contentam‑se com a sua porção somente nesta vida. Fixam os olhos no que se vê e dura pouco tempo, e desejam o prazer presente, sem qualquer cuidado pela alegria futura.
Por que ele queria a sua parte em suas próprias mãos? Não para trabalhar com ela e fazê‑la frutificar. Não pensou nisso. Na verdade, estava cansado do governo do pai, cansado da boa ordem e disciplina da casa paterna, e queria aquilo que chamava de liberdade. Mas isso era, na verdade, o pior tipo de escravidão, pois liberdade para pecar é escravidão. Muitos jovens criados em lares religiosos se cansam das restrições dessa educação. Pensam que só são realmente donos de si quando quebram os freios de Deus e lançam fora as suas cordas, apenas para se amarrarem às cordas dos próprios desejos. É aqui que os pecadores começam a afastar‑se de Deus: não querem permanecer debaixo do domínio de Deus e desejam ser seu próprio guia.
Ele também queria ficar longe dos olhos do pai, porque esse olhar contínuo o incomodava. A aversão a Deus e o desejo de negar que Ele vê todas as coisas estão na raiz da impiedade humana. Ele também desconfiava da administração do pai. Queria sua parte porque achava que o pai reteria algo para o futuro e limitaria seus gastos presentes, e ele não gostava disso. Acima de tudo, era orgulhoso e presunçoso. Pensava que, se tivesse sua parte em mãos, poderia administrá‑la melhor que o pai e construir para si uma vida melhor. Mais jovens são arruinados pelo orgulho do que por qualquer outro pecado. Nossos primeiros pais arruinaram a si mesmos e a todos os seus filhos por uma ambição tola, querendo ser independentes e não dever nada a ninguém, nem mesmo a Deus. Esse mesmo espírito está por trás da persistência dos pecadores no pecado: querem ser donos de si mesmos.
Em seguida vemos quão bondoso foi o pai para com ele: repartiu com eles os seus bens. Avaliou o que tinha a repartir e deu ao filho mais moço a sua parte, e ofereceu ao filho mais velho a dele, que deveria ser porção dobrada. Mas parece que o filho mais velho preferiu que o pai mantivesse tudo em suas mãos, e vemos o que isso lhe trouxe depois (Lucas 15:31): “Tudo o que é meu é teu”. Ele ganhou tudo por esperar que algo ficasse reservado. O pai deu ao filho mais novo o que ele havia pedido, de modo que o filho não tinha razão para dizer que fora prejudicado na partilha. Recebeu tanto quanto esperava, e talvez até mais.
Assim ele podia perceber a bondade do pai, o quanto estava disposto a agradá‑lo e a lhe proporcionar conforto, e que não era o pai áspero que o filho havia pintado em sua mente quando procurava desculpa para ir embora. Ao mesmo tempo, em breve seria forçado a reconhecer sua própria tolice, e que não era o administrador sábio que imaginava ser. Deus é um Pai bondoso para com todos os seus filhos. Ele dá vida, respiração e todas as coisas, até aos maus e ingratos, e assim reparte a vida entre eles. Deus nos dá vida para que o sirvamos e lhe rendamos glória.
Depois vemos como o filho se portou quando teve sua porção em suas próprias mãos. Pôs‑se a gastá‑la o mais depressa possível e, como os pródigos costumam fazer, logo se tornou um mendigo, não muitos dias depois (Lucas 15:13). Se Deus nos deixa entregues a nós mesmos, ainda que por pouco tempo, não demorará até que nos afastemos dEle.
Quando o freio da graça restritiva é retirado, logo nos extraviamos. O filho mais novo decidiu partir imediatamente e, para isso, ajuntou tudo o que tinha. Pecadores que se afastam de Deus arriscam tudo o que possuem. Nesse afastamento do filho pródigo vemos o que é um estado de pecado, e quão miserável é a condição humana caída.
Em primeiro lugar, o estado pecaminoso é um estado de distância de Deus. Sua pecaminosidade está nisto: é um desviar‑se de Deus. O filho partiu da casa de seu pai. Os pecadores fogem de Deus, viram‑se contra Ele como servo fugitivo, ou como esposa infiel que abandona o marido. Dizem a Deus: “Retira‑te de nós”. Procuram ficar o mais longe possível dEle. Este mundo é o país distante onde se estabelecem e se sentem em casa, e onde gastam tudo o que têm em seu serviço e em seus prazeres.
Em segundo lugar, o estado pecaminoso é um estado de gasto e desperdício. “Ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente” (Lucas 15:13). “Devora‑ste os teus bens com as meretrizes” (Lucas 15:30). Em pouco tempo gastou tudo (Lucas 15:14). Comprou roupas finas, gastou muito com comida e bebida, ofereceu banquetes a outros e se cercou de gente que o ajudou a acabar com o que possuía. Neste mundo, pessoas que vivem desregradamente desperdiçam o que têm, e terão muito que responder se gastarem em seus desejos aquilo que deveria sustentar a si e a sua família.
Isso também se aplica espiritualmente. Pecadores obstinados desperdiçam a própria herança. Usam mal os seus pensamentos e todas as forças de sua alma. Desperdiçam o tempo e cada oportunidade. Não apenas enterram, mas também abusam dos dons que lhes foram confiados para servirem ao seu Senhor, isto é, a Deus, e lhe darem honra. Os dons da providência, as coisas boas que Deus concede na vida diária, são destinados a ajudá‑los a fazer o bem e servir a Deus, mas se transformam em alimento e combustível para desejos pecaminosos. A alma que se torna escrava do mundo ou da carne desperdiça o que tem e vive em prazer perdulário. “Um só pecador faz destruir muitos bens” (Eclesiastes 9:18). O bem que ele destrói é precioso e não lhe pertence. Pertence ao seu Senhor, e dele terá de prestar contas.
Em terceiro lugar, um estado de pecado é um estado de carência. Depois que o filho pródigo gastou tudo com meretrizes, elas o abandonaram para ir atrás de outra vítima. Então sobreveio uma grande fome naquela terra, tudo se tornou escasso e caro, e ele começou a passar necessidade (Lucas 15:14). Desperdício voluntário traz necessidade dolorosa. Uma vida desenfreada pode, e muitas vezes logo faz, a pessoa descer ao pão mais duro, especialmente quando chegam tempos difíceis e revelam as consequências da falta de prudência. Um cuidado sábio teria prevenido isso.
Isso mostra a miséria dos pecadores, que jogaram fora suas próprias misericórdias: o favor de Deus, seu interesse em Cristo, as operações do Espírito e os avisos da consciência. Trocaram tudo isso por prazeres do corpo e riquezas deste mundo, e depois ficam quase arruinados pela falta dessas mesmas coisas que desprezaram. Os pecadores não têm o que a alma precisa. Não têm alimento nem vestes para a alma, nem provisão para o que vem depois desta vida. Um estado de pecado é como uma terra sob fome, uma grande fome. “Os céus são como bronze”, porque Deus retém o orvalho do seu favor e da sua bênção, e temos de carecer do bem se Ele o negar. “A terra é como ferro”, porque o coração do pecador, que deveria produzir bons frutos, está seco, duro e vazio de bondade. Os pecadores são miseravelmente pobres, e o que torna isso pior é que eles mesmos trouxeram essa miséria sobre si e a mantêm, recusando o socorro que lhes é oferecido.
Em quarto lugar, um estado de pecado é um estado baixo e escravo. Quando o desperdício do jovem o levou à necessidade, a necessidade o levou à servidão. Ele foi e se chegou a um dos cidadãos daquela terra (Lucas 15:15). A mesma vida má, antes chamada de vida dissoluta, aqui aparece como vida escravizada, porque os pecadores são de fato escravos. O diabo é o cidadão daquela terra, pois o seu domínio alcança toda parte. Os pecadores se prendem a ele, se alugam para o seu serviço, fazem sua obra, obedecem às suas ordens e dependem dele para sustento e recompensa. “Todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (João 8:34).
Quão baixo e humilhante foi para ele se alugar a um senhor desses! E ele o mandou para os campos, não para alimentar ovelhas, o que teria alguma honra, pois Jacó, Moisés e Davi apascentaram ovelhas, mas para cuidar de porcos. A obra dos servos do diabo é prover para a carne, alimentar desejos pecaminosos, e isso não é melhor do que alimentar porcos gulosos, imundos e barulhentos. Como uma alma racional e imortal pode se rebaixar mais do que isso?
Em quinto lugar, um estado de pecado traz constante decepção. Quando o pródigo começou a passar necessidade, pensou que poderia se socorrer indo trabalhar. Teve de se contentar com o que o campo, e não a casa, podia oferecer, e era uma comida miserável. Ele bem quisera encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam (Lucas 15:16). Que degradação ele trouxe sobre si, ao querer comer na mesma mesa dos porcos. O que os pecadores prometem a si mesmos que os satisfará quando se afastam de Deus certamente os decepcionará. Estão se afadigando pelo que não pode satisfazer (Isaías 55:2). Aquilo que se torna armadilha do seu pecado jamais encherá a alma nem saciará sua necessidade mais profunda (Ezequiel 7:19). Alfarrobas são alimento para porcos, não para homens. As riquezas deste mundo e os prazeres dos sentidos até podem servir ao corpo, mas o que são para almas preciosas? Não combinam com a sua natureza, não satisfazem seus desejos, não suprem suas necessidades. Quem se contenta com isso está se alimentando de vento (Oséias 12:1) e de cinzas (Isaías 44:20).
Em sexto lugar, um estado de pecado é um estado que não pode esperar socorro de nenhuma criatura. Este pródigo, quando já não pôde ganhar o pão com o trabalho, recorreu à mendicância, mas ninguém lhe dava nada, porque sabiam que ele mesmo havia causado toda aquela desgraça, e porque era imprudente e desagradável a todos. Gente assim é a menos digna de pena aos olhos dos homens. No sentido da parábola, isso mostra que aqueles que se afastam de Deus não podem ser ajudados por criatura alguma. É inútil clamar ao mundo e à carne, os falsos deuses que servimos. Podem até dar o que envenena a alma, mas nada que a alimente ou fortaleça de verdade. Se recusamos o socorro de Deus, que criatura poderá nos socorrer?
Em sétimo lugar, um estado de pecado é um estado de morte. “Este meu filho estava morto” (Lucas 15:24, 32). O pecador não está apenas morto juridicamente, isto é, debaixo de sentença de morte, mas também morto em seu estado, morto em delitos e pecados. Não tem vida espiritual, não tem união com Cristo, não faz uso de sentidos espirituais, não tem vida real para com Deus e, portanto, está morto.
O filho pródigo, no país distante, estava morto para o pai e para a família, cortado deles como um ramo de uma árvore ou um membro de um corpo. Essa morte foi obra dele mesmo. Uma vida de pecado é uma vida perdida, perdida para tudo o que é bom, perdida para a virtude e a honra, perdida para a casa do pai, que não tinha alegria nele. Pessoas separadas de God são almas perdidas, como viajantes que saíram do caminho, e, se a misericórdia não intervier, logo estarão perdidas como um navio que afunda no mar, perdidas para sempre.
Uma vida de pecado é também uma vida de loucura e desvario. Isso é indicado em (Lucas 15:17), quando se diz que ele caiu em si, o que implica que até então estivera fora de si. De fato, ele estava assim quando saiu da casa do pai, e ainda mais quando se juntou aos cidadãos daquele país. A Escritura diz que há loucura no coração dos pecadores (Eclesiastes 9:3). Satanás tomou posse da alma, e o homem possesso por Legião mostra quão selvagem pode ser esse tipo de cativeiro. Os pecadores, como pessoas mentalmente perturbadas, arruínam a si mesmos com desejos insensatos e, ao mesmo tempo, se enganam com falsas esperanças. De todos os doentes, são os mais contrários à própria cura.
Aqui vemos o retorno desse desvio, seu retorno penitente ao pai. Quando foi levado ao último extremo, então começou a pensar o quanto lhe ajudaria voltar para casa. Não se deve desesperar nem mesmo da pior pessoa, pois enquanto há vida, há esperança. A graça de Deus pode amolecer o coração mais endurecido e mudar a direção do hábito de pecado mais arraigado.
Note-se o que o levou a esse retorno e arrependimento: sua aflição. Quando ele passou necessidade, então caiu em si. A aflição, quando guiada pela graça divina, pode se tornar um meio útil para desviar os pecadores de seus maus caminhos. Ela abre o ouvido para a disciplina e dispõe o coração a aprender. Também mostra com clareza tanto o vazio do mundo quanto o dano do pecado. Em sentido espiritual, isso se aplica quando percebemos que as coisas criadas não podem nos fazer felizes e que todos os outros meios de socorrer nossa pobre alma falharam. Então é tempo de pensar em voltar para Deus. Quando vemos que todos, exceto Cristo, são consolos pobres e médicos inúteis para uma alma carregada de culpa e pecado, e que ninguém nos dá o que realmente precisamos, então certamente devemos nos voltar para Jesus Cristo.
O passo seguinte foi a reflexão. Ele disse consigo mesmo, e ponderou consigo, depois que recobrou o juízo: “Quantos trabalhadores de meu pai têm abundância de pão”. A consideração é o primeiro passo para a conversão, ou para o retorno a Deus (Ezequiel 18:28). Ele pensou, e então se voltou. Considerar é entrar dentro de nós mesmos, examinar bem a nossa própria situação, comparar as coisas e decidir em conformidade.
Primeiro, ele refletiu sobre a miséria de sua condição: “Eu pereço de fome”. Não disse apenas: “Estou com fome”, mas: “Estou morrendo de fome e não vejo saída”. Os pecadores não virão ao serviço de Cristo enquanto não enxergarem que correm perigo de perecer a serviço do pecado. Esse pensamento deve nos impelir a Cristo: “Senhor, salva-nos, perecemos”. E quando somos forçados a ir a Cristo desse modo, Ele não nos rejeitará, nem se sentirá desonrado porque fomos a Ele em desespero. Ele é honrado quando o buscamos como nosso socorro em extrema necessidade.
Depois ele pensou em quão melhor poderia ser se voltasse: “Quantos trabalhadores de meu pai, até os mais humildes da casa, os diaristas, têm pão com fartura e de sobra”. Seu pai mantém uma boa casa. Há pão para toda a família em casa de nosso Pai. Isso foi simbolizado pelos doze pães da proposição que estavam continuamente sobre a mesa santa no santuário, um pão para cada tribo. Há suficiente para todos, suficiente para cada um, e ainda sobra para aqueles que se juntam aos seus servos. Até as migalhas da sua mesa muitos as receberiam com gratidão. Até os trabalhadores assalariados na família de Deus são bem cuidados. A pessoa mais simples que se contrata para entrar na casa de Deus, fazer a sua obra e confiar na sua recompensa será bem suprida. Isso deve encorajar pecadores que se afastaram de Deus a pensar em voltar para Ele. De modo semelhante, a mulher infiel raciocina, quando seus novos amantes a decepcionam: “Irei e voltarei para o meu primeiro marido, porque melhor me ia então do que agora” (Oséias 2:7).
Por fim, seu pensamento chegou a uma decisão firme: “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai”. Boas intenções são boas, mas o que realmente importa são boas ações. Ele decidiu o que faria. Não ficaria adiando, mas se levantaria e iria imediatamente. Embora estivesse longe da casa do pai, voltaria. Cada passo que damos para longe de Deus precisa ser respondido com um passo de volta em direção a ele. Embora estivesse ligado ao cidadão daquela terra, ele não fez caso de romper esse laço. Não somos devedores da carne, não temos obrigação de servir nossos antigos senhores. Podemos abandonar esse serviço. Suas palavras revelam firme resolução: “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai. Estou decidido a fazer isso, aconteça o que acontecer, em vez de ficar aqui e morrer de fome”.
Ele também decidiu o que diria. O verdadeiro arrependimento se levanta e vem a Deus, dizendo: “Vimos a ti”. Mas com que palavras? Ele também pensou nisso. É sábio, quando oramos ou confessamos nossos pecados a Deus, pensar antes no que vamos dizer, para expor nosso caso diante dele com ordem e falar com entendimento. Temos liberdade na oração, e devemos usá-la plenamente, sem abusar dela. Ele planejou dizer, em primeiro lugar: “Pequei”. Como todos pecamos, é justo e apropriado reconhecermos isso. A confissão de pecado é exigida e fortemente recomendada como parte necessária para termos paz e perdão. Se negamos nossa culpa, nos colocamos debaixo de uma aliança de inocência, e isso certamente nos condenará. Se admitimos a culpa com um coração humilde, arrependido e obediente, lançamo-nos sobre a aliança da graça, que oferece perdão aos que confessam seus pecados.
Em segundo lugar, ele apresentaria seu pecado tão grave quanto realmente era, não mais leve: “Pequei contra o céu e perante ti”.
Os que são ingratos ou desobedientes a seus pais terrenos devem considerar isto: pecam contra o céu e diante de Deus. Fazer mal a eles é também fazer mal a Deus. Todos devemos ter isso em mente, porque torna o pecado muito mais sério e deveria nos tornar muito mais tristes por causa dele.
Primeiro, o pecado é cometido em desprezo à autoridade de Deus sobre nós: “Pequei contra o céu”. Deus é chamado de céu aqui para mostrar o quanto está acima de nós e o quanto reina plenamente sobre nós, pois os céus governam. O pecado se ergue em rebelião contra o próprio céu. Do pecador audacioso se diz que “põe a sua boca contra os céus” (Salmo 73:9). E, contudo, esse mal é fraco, porque não podemos de fato atingir o céu. É também loucura, porque o dardo lançado contra o céu cai de volta sobre quem o atira (Salmo 7:16). O pecado afronta o Deus do céu, põe a pessoa em risco de perder a glória e a alegria do céu e vai contra o próprio propósito do reino dos céus.
Segundo, o pecado é cometido em desprezo ao olhar de Deus sobre nós: “Pequei contra o céu e perante ti”. Pecar debaixo dos olhos de Deus é grande insulto contra ele.
Terceiro, o pecador julga a si mesmo e admite ter perdido todo direito aos privilégios da família: “Já não sou digno de ser chamado teu filho” (Lucas 15:19). Ele não nega a relação de filho, porque era a única coisa em que ainda podia ter alguma esperança. Mas reconhece que seu pai teria razão se o recusasse e lhe fechasse a porta. Ele já havia recebido a parte da fazenda que pediu, e não tinha motivo para esperar mais. Os pecadores devem reconhecer que não merecem nenhum favor de Deus e devem se humilhar diante dele.
Quarto, ainda assim ele pede para ser recebido de volta na família, nem que seja no lugar mais humilde: “Faze-me como um dos teus jornaleiros”. Isso é bom o bastante para mim, e até bom demais para mim. Os verdadeiros arrependidos valorizam a casa de Deus e todas as suas bênçãos, e se alegram em ter qualquer lugar nela, mesmo que seja o mais humilde, como o de um porteiro (Salmo 84:10). Se estar entre os servos faz parte de seu rebaixamento, eles não apenas suportam isso, mas consideram um privilégio em comparação com a condição em que estavam. Os que voltam para Deus depois de terem se desviado querem, de alguma forma, servi-lo e honrá-lo. Querem mostrar que agora amam a casa do Pai tanto quanto antes a desprezaram.
Quinto, em tudo isso ele olha para o pai como pai: “Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai”. Olhar para Deus como Pai, e como nosso Pai, ajuda muito no arrependimento e no retorno a ele. Torna a tristeza pelo pecado mais verdadeira, fortalece nossa resolução contra o pecado e anima nossa esperança de perdão. Deus se agrada de ser chamado de Pai tanto pelos que se arrependem como pelos que vêm pedir misericórdia. “Não é Efraim um filho precioso para mim?” (Jeremias 31:20).
Chegamos agora à maneira como ele cumpriu esse propósito: “Levantou-se e foi para seu pai”. Colocou em prática sua boa resolução imediatamente. Agiu enquanto a convicção ainda estava viva e não adiou para um momento mais oportuno. É sábio agir logo diante das convicções de pecado. Se já dissemos: “Levantar-me-ei e irei”, então levantemo-nos e vamos sem demora. Ele não veio só até a metade do caminho para depois parar, dizendo que estava cansado demais para prosseguir. Fraco e abatido como estava, levou o assunto até o fim. “Se voltares, ó Israel, volta para mim, e pratica as primeiras obras”.
Também vemos como seu pai o recebeu. Ele veio para seu pai, mas será que foi bem recebido? Sim, calorosamente bem recebido. Isso é também uma lição para pais cujos filhos têm sido insensatos e desobedientes. Se tais filhos se arrependem e se submetem, os pais não devem ser ásperos e severos. Nessa situação, devem agir de acordo com a sabedoria lá do alto, que é tratável e fácil de se entender. Sejam semelhantes a Deus e misericordiosos como ele é. Mas o propósito principal é mostrar a graça e a misericórdia de Deus para com pobres pecadores que se arrependem e voltam para ele, e quão pronto ele está para perdoá-los.
Em primeiro lugar, vemos o grande amor e afeto com que o pai recebeu o filho. “Vindo ele ainda longe, viu-o seu pai” (Lucas 15:20). O pai demonstrou bondade antes que o filho tivesse expresso plenamente o seu arrependimento, porque Deus se adianta a nós com as bênçãos de sua bondade. Antes que clamemos, ele responde, porque conhece o que está em nosso coração. “Confessei que ia declarar o meu pecado”, e tu perdoaste.
Que quadros vivos temos aqui. Houve olhos de misericórdia, e foram rápidos para ver. “Vindo ele ainda longe, viu-o seu pai”, antes que qualquer outra pessoa da casa o notasse. É como se o pai estivesse vigiando a estrada de um alto mirante, pensando: “Quem dera eu ver aquele meu filho miserável voltando para casa”. Isso mostra o desejo de Deus de trazer de volta os pecadores a si mesmo e a prontidão com que ele se encontra com os que caminham em sua direção. Ele observa as pessoas mesmo depois de se desviarem, para ver se voltarão, e nota o primeiro movimento do coração em direção a ele.
Houve também entranhas de misericórdia, profundos sentimentos de pena que se agitaram nele ao ver o filho. “Se moveu de íntima compaixão”. A miséria pede compaixão, mesmo quando é a miséria de um pecador. Ainda que ele tenha trazido esse mal sobre si mesmo, Deus ainda assim se compadece. Sua alma se angustiou pela miséria de Israel (Oséias 11:8; Juízes 10:16).
Houve pés de misericórdia, e se moveram depressa. “Correndo”. Isso mostra quão pronto Deus é em mostrar misericórdia. O filho pródigo vinha devagar, carregado de vergonha e medo. Mas o pai terno correu ao encontro dele com boas-vindas e encorajamento.
Houve braços de misericórdia estendidos para abraçá-lo: “lançou-se-lhe ao pescoço”. Apesar de o filho ser culpado e merecer castigo, apesar de estar sujo e ter acabado de vir do serviço aos porcos, e embora qualquer pessoa sem o coração terno de um pai pudesse afastar-se dele com repulsa, o pai o tomou nos braços e o apertou ao peito. Assim são caros a Deus os verdadeiros arrependidos e assim são bem-vindos ao Senhor Jesus.
Houve lábios de misericórdia, doces como mel: “o beijou”. Esse beijo não apenas garantiu ao filho que era bem-vindo, mas selou o seu perdão. Toda a sua loucura passada seria perdoada e não seria usada contra ele. Não se ouve sequer uma palavra de reprovação. Lembra o beijo de Davi em Absalão (2 Samuel 14:33). Isso mostra quão disposto, livre e ansioso está o Senhor Jesus para receber pobres pecadores que voltam arrependidos, conforme a vontade de seu Pai.
Em seguida vem a resposta humilde do pródigo arrependido (Lucas 15:21): “Pai, pequei”. Assim como honra a bondade do pai o fato de ele tê-la demonstrado antes que o filho expressasse seu arrependimento, também honra o arrependimento do filho o fato de ele dizer isso depois que o pai já lhe mostrara tanta misericórdia. Mesmo depois de receber o beijo que selava seu perdão, ele ainda diz: “Pai, pequei”.
Observe que mesmo aqueles que já receberam perdão por seus pecados, e o consolo de saberem-se perdoados, ainda assim precisam de verdadeira tristeza no coração e de sincera confissão com a boca. Isso inclui pecados que têm boas razões para crer que já foram perdoados. Davi escreveu o Salmo 51 depois que Natã lhe dissera: “Também o Senhor perdoou o teu pecado; não morrerás.” Na verdade, o consolo do perdão deveria aprofundar ainda mais a nossa tristeza pelo pecado. Esse é o tipo de tristeza sincera segundo o evangelho que cresce quando lembramos da misericórdia de Deus (Ezequiel 16:63). Quanto mais claramente vemos a disposição de Deus em nos perdoar, mais difícil deveria ser para nós mesmos nos perdoarmos levianamente.
O cuidado generoso do pai amoroso para com o filho pródigo que volta é impressionante. O filho ainda estava tentando continuar a sua confissão, e uma frase que ele tinha planejado dizer em (Lucas 15:19), mas que não chegou a pronunciar em (Lucas 15:21), foi: “Faze-me como um dos teus jornaleiros.” Não é que ele tenha esquecido, muito menos que tenha mudado de ideia. Antes, o pai o interrompeu e não permitiu que ele dissesse isso. Em essência, o pai estava dizendo: “Pare por aí, meu filho. Não fale mais da sua indignidade. Você é bem-vindo de coração. Embora você não seja digno de ser chamado meu filho, será tratado como um filho querido, como uma criança amada.” Alguém recebido assim não precisa pedir para ser tratado como um simples empregado. Do mesmo modo, quando Efraim se lamentou de si mesmo, Deus o consolou (Jeremias 31:18-20).
É notável que não haja aqui sequer uma palavra de repreensão. O pai não diz: “Por que você não ficou com as prostitutas e com os porcos? Você jamais teria encontrado o caminho de volta se as suas próprias aflições não tivessem empurrado você para cá.” Nada disso aparece. Isso mostra que, quando Deus perdoa pecadores verdadeiramente arrependidos, ele esquece os seus pecados. Ele não mais os lembra, e eles não serão trazidos de volta contra eles (Ezequiel 18:22). Mas não é só isso. O pai faz por ele uma provisão rica e quase real, adequada ao seu nascimento e à sua posição, muito além do que ele poderia esperar. O pródigo teria achado mais que suficiente, e teria sido profundamente grato, se o pai apenas o tivesse notado e o mandado para a cozinha comer com os servos. Porém Deus faz por aqueles que voltam ao dever e se lançam sobre a sua misericórdia muito mais do que podem pedir ou pensar.
O pródigo voltou para casa dividido entre o medo e a esperança: medo de ser rejeitado e esperança de ser recebido. No entanto, seu pai foi não apenas mais bondoso do que os seus medos, mas mais bondoso do que as suas esperanças. Ele não apenas o recebeu de volta, mas o recebeu com honra. Primeiro, o filho voltou em trapos, e o pai não apenas o vestiu, mas o adornou. Disse aos servos, que estavam todos à disposição do seu senhor assim que souberam do retorno do filho: “Trazei depressa a melhor roupa e vesti-o.” As piores roupas velhas da casa já seriam suficientes para ele, e mesmo estas seriam mais do que ele merecia. Mas o pai não pede um casaco qualquer. Pede uma túnica, a veste de príncipes e grandes homens, a melhor túnica, a primeira túnica, a que ele usava antes de sair na sua vida de desperdício.
Quando os desviados, aqueles que se afastam e depois se arrependem, voltam aos seus primeiros deveres, são recebidos e vestidos com as suas primeiras túnicas. “Trazei aquela túnica e vesti-o.” Ele poderia sentir vergonha de usá-la e achar que não combina com um homem que voltou para casa em condição tão imunda, mas o pai manda que a ponham nele, não apenas que a ofereçam. Em seguida acrescenta: “Ponde-lhe um anel na mão”, um anel de sinete com o selo da família, mostrando que ele ainda é reconhecido e honrado como membro da casa. As pessoas ricas usavam anéis, e o pai está mostrando que, embora uma parte já tivesse sido desperdiçada, ele ainda pretendia dar-lhe outra após o seu arrependimento. O filho voltou descalço, talvez com os pés feridos da viagem, então o pai diz: “Ponde sandálias em seus pés, para o aliviar.” Assim a graça de Deus provê para os verdadeiros penitentes. Primeiro, a justiça de Cristo é a túnica, aquela principal túnica, com a qual eles são vestidos.
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Deste capítulo
Lucas 15:1
"E Chegavam-se a ele todos os publicanos e pecadores para o ouvir."
Lucas 15:2
"E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe pecadores, e come com eles."
Lucas 15:3
"E ele lhes propôs esta parábola, dizendo:"
Lucas 15:4
"Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove, e vai após a perdida até que venha a achá-la?"
Lucas 15:5
"E achando-a, a põe sobre os seus ombros, jubiloso;"
Lucas 15:6
"E, chegando a casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida."
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