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Lamentações 2:10 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Almeida Corrigida Fiel

" Estão sentados na terra, silenciosos os anciãos da filha de Sião; lançam pó sobre as suas cabeças, cingiram sacos; as virgens de Jerusalém abaixam as suas cabeças até à terra. "

Lamentações 2:10

menu_book Versículo no contexto

8 Intentou o Senhor destruir o muro da filha de Sião; estendeu o cordel sobre ele, não retirou a sua mão destruidora; fez gemer o antemuro e o muro; estão eles juntamente enfraquecidos.

9 As suas portas caíram por terra; ele destruiu e quebrou os seus ferrolhos; o seu rei e os seus príncipes estão entre os gentios, onde não há lei, nem os seus profetas acham visão alguma do Senhor.

10 Estão sentados na terra, silenciosos os anciãos da filha de Sião; lançam pó sobre as suas cabeças, cingiram sacos; as virgens de Jerusalém abaixam as suas cabeças até à terra.

11 Já se consumiram os meus olhos com lágrimas, turbadas estão as minhas entranhas, o meu fígado se derramou pela terra por causa do quebrantamento da filha do meu povo; pois desfalecem o menino e a criança de peito pelas ruas da cidade.

12 Ao desfalecerem, como feridos, pelas ruas da cidade, ao exalarem as suas almas no regaço de suas mães, perguntam a elas: Onde está o trigo e o vinho?

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auto_stories Comentário Bible Guided

Estas palavras são com razão chamadas de Lamentações, e são profundamente comoventes. São o lamento derramado em sua força máxima, nada além de pranto e dor, como a mensagem que estava no rolo que Ezequiel recebeu (Ezequiel 2:10).

O capítulo nos apresenta quadros de tristeza que parecem muito reais. Primeiro, os juízes e líderes, que antes vestiam roupas de honra, as deixaram de lado. Agora estão vestidos como enlutados, e os anciãos já não se assentam nos assentos de juízo, que eram como tronos da casa de Davi. Sentam-se na terra, sem lugar de descanso, como os amigos de Jó, que se assentaram com ele na sua dor (Jó 2:13). Não falam mais à porta da cidade, como antes. Estão calados, abatidos pela dor, com pó sobre a cabeça e cingidos de pano de saco, porque perderam seu poder e sua riqueza. Lágrimas derramadas por causa de bens perdidos ainda são lágrimas verdadeiras.

As moças, que antes se vestiam com luxo e andavam com porte altivo (Isaías 3:16), também foram abatidas. As virgens de Jerusalém curvam a cabeça até o chão. As que pareciam as menos prováveis de conhecer a aflição agora a sentem profundamente.

O próprio profeta, Jeremias, apresenta-se como exemplo de pranteador em Lamentações 2:11. Seus olhos já se consumiram de tanto chorar. Chorou até não poder mais chorar, como se tivesse chorado os olhos até ficarem cegos. Sua dor não está somente no exterior. Seu íntimo também se agita, como já acontecera quando ele viu esses males se aproximando (Jeremias 4:19, 20). Ainda que o sofrimento não o tenha surpreendido, ele continua a esmagá-lo. Ele se descreve como se sua vida tivesse se derretido, linguagem semelhante à do Salmo 22:14. Jeremias tinha sido tratado melhor do que seus vizinhos, e o cativeiro deles significou algum alívio para ele. No entanto, ele não pensa na própria vantagem. Seu coração é inteiramente tomado pela aflição do povo, e ele lamenta a ruína da filha do seu povo como se ele mesmo tivesse sofrido o pior. Os juízos de Deus sobre uma terra e uma nação devem ser chorados por nós, mesmo que pessoalmente escapemos da maior parte da perda.

O povo também é chamado a continuar clamando ao Senhor (Lamentações 2:18). Alguns podem ter gritado apenas em amarga reclamação, mas muitos provavelmente invocaram a Deus em verdadeira angústia. O profeta manda que prossigam no pranto. Ele conclama o muro da filha de Sião a chorar, seja se referindo aos sentinelas sobre as muralhas (Isaías 62:6), seja à própria cidade, por causa do muro quebrado. Devem deixar que as lágrimas corram como um ribeiro, de dia e de noite, sem descanso, sem parar, sem alívio para a dor. Isso mostra que o sofrimento não terminaria de uma vez, e o povo continuaria encontrando novas razões para chorar. Mostra também que precisariam ser chamados repetidas vezes à humilhação, porque o coração humano pode se tornar insensível mesmo debaixo da mão de Deus.

As razões do lamento são então descritas em detalhes dolorosos. Muitos morrem de fome, que é um dos juízos severos de Deus. Ele já os havia advertido com a falta de alimento por causa da ausência de chuvas (Jeremias 14:1), mas eles não se arrependeram. Agora, pelo aperto do cerco, ele faz esse juízo chegar ao seu extremo. Crianças morrem de fome nos braços das próprias mães. Os meninos e os que mamam, que deveriam ser socorridos primeiro, desfalecem pelas ruas (Lamentações 2:11, 12). Eles clamam por trigo e por vinho, e não há. Estão tão enfraquecidos que morrem nos braços de suas mães. Isso é repetido em Lamentações 2:19, onde se diz que desfalecem de fome em todas as esquinas.

A fome foi ainda pior do que isso. Algumas mães mataram e comeram seus próprios filhos (Lamentações 2:20). A escassez foi tão extrema que mulheres comeram o fruto do próprio ventre, até mesmo crianças ainda pequeninas, exatamente como Deus havia advertido em (Deuteronômio 28:53). Algo semelhante aconteceu também no cerco de Samaria (2 Reis 6:29). A fome as levou a extremos e a atos horríveis. Em tempos de fartura, devemos agradecer a Deus porque ele nos dá alimento suficiente, não só para nós, mas também para nossos filhos.

Muitos também caem à espada, que não poupa ninguém, especialmente quando usada por inimigos cruéis como os caldeus. A espada não respeita posição. Até o sacerdote e o profeta, que pareceriam os mais prováveis de receber proteção de Deus e honra dos homens, são mortos. Não são mortos no campo de batalha, como Hofni e Fineias, os filhos corruptos de Eli, mas dentro do santuário do Senhor, o lugar onde serviam e onde tinham esperado encontrar segurança. A espada também não poupa idade. Os jovens, que ainda não tinham idade para a guerra, e os velhos, que há muito já haviam sido dispensados dela, jazem mortos pelas ruas até que alguém os enterre. Tampouco poupa sexo. O profeta diz que suas virgens e seus jovens caíram à espada. Em muitas guerras, as virgens eram poupadas e levadas como despojo (Números 31:18; Juízes 5:30), mas aqui até elas são mortas.

Tudo isso foi obra do Senhor. Ele permitiu que os caldeus, o exército babilônico, exterminassem o povo sem distinção. “Na tua ira mataste, não os perdoaste”, pois é Deus quem dá a vida e a tira, e preserva vivo a quem ele quer. E, no entanto, a frase seguinte é dura de ouvir: “Mataste, não os perdoaste”, embora o coração de Deus se entristecesse pela miséria de Israel.

Os inimigos que os trataram com tanta crueldade foram exatamente aqueles que Deus ajuntou e convocou contra eles (Lamentações 2:22). “Convocaste de toda parte os meus temores, como num dia de solenidade”, isto é, os caldeus, que se tornaram um terror para Jerusalém. Eles se ajuntaram na cidade tão densamente quanto os adoradores se reuniam para uma grande festa, de modo que a cidade foi esmagada pelo número. Ninguém escapou, ninguém foi deixado para trás. Jerusalém se tornou um lugar de matança total.

As mães são profundamente feridas no íntimo quando aqueles a quem cuidaram e criaram com ternura são de repente destruídos. “Aqueles que criei e dei à luz, o meu inimigo os consumiu”, como se tivessem nascido apenas para o assassino, como cordeiros reservados para o matadouro (Oséias 9:13). Sião, que tinha sido mãe de todos eles, lamenta ao ver os que foram criados em seus átrios e instruídos sob a sua santa doutrina tornarem-se presa.

Seus falsos profetas os haviam enganado (Lamentações 2:14). Jeremias já havia se angustiado por isso muito antes, quando ouviu o povo dizer: “Não vereis espada” (Jeremias 14:13). Agora ele inclui isso no seu lamento: “Teus profetas viram para ti vaidade e loucura”. Pretendiam conhecer a mente de Deus e falar a sua palavra, mas tudo que ofereciam eram sonhos vazios e tolos, provavelmente inventados pela própria imaginação ou por uma mente confusa.

Eram teus profetas, não profetas de Deus. Ele nunca os enviou, e eles não eram pastores segundo o seu coração. O povo é que os escolheu e desejou que falassem coisas agradáveis; assim, eles se tornaram profetas conforme os desejos do povo. Profetas deveriam expor o pecado e conclamar ao arrependimento, o que poderia ter afastado o juízo, removendo a culpa. Mas esses homens não desnudaram a tua iniquidade, porque sabiam que isso lhes custaria o favor e o sustento do povo.

Profetas também deveriam advertir o povo sobre o juízo que se aproxima, mas esses homens viram para eles mensagens falsas. Os avisos que diziam trazer da parte de Deus eram mentiras que apresentavam como se fossem sua palavra. Ao embalarem o povo em falsa segurança, contribuíram para trazer o exílio que uma advertência honesta poderia ter evitado.

Seus vizinhos zombaram deles (Lamentações 2:15). “Todos os que passam batem palmas contra ti.” Jerusalém havia sido uma grande cidade, conhecida de longe e temida pelas nações. Quando caiu, todos ao redor se alegraram, como muitas vezes acontece quando uma cidade orgulhosa é abatida. Assobiaram e abanaram a cabeça, satisfeitos em vê-la cair de sua antiga glória.

“É esta a cidade que chamavam de perfeição de formosura?” (Salmo 50:2). “Como pôde tornar-se agora a perfeição da feiúra?”, era o sentido da zombaria. Perguntavam: “Onde está toda a sua beleza agora?”. Também diziam: “É esta a cidade chamada de alegria de toda a terra?” (Salmo 48:2). Onde está agora a sua alegria, e onde está sua glória? É grande pecado zombar do sofrimento alheio, e isso só acrescenta mais dor aos que já estão feridos.

Seus inimigos também triunfaram sobre eles (Lamentações 2:16). Os que haviam desejado mal a Jerusalém e à sua paz agora manifestavam livremente o ódio que antes guardavam. Abriram bem a boca, assobiaram e rangeram os dentes em desprezo e ira. Gabaram-se da vitória e do rico despojo que haviam conquistado ao dominar Jerusalém.

“Devoramo-la”, diziam. “É obra nossa, e ganho nosso. Ela agora nos pertence. Jerusalém nunca mais será admirada ou temida como antes. Este é o dia que há muito esperávamos. Vimo-lo. Conseguimos o que queríamos.” Os inimigos do povo de Deus muitas vezes pensam que as aflições da igreja significam sua ruína definitiva, e se alegram cedo demais. Mas serão desmentidos, porque as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja.

Em tudo isso, era o próprio Deus quem agia contra eles (Lamentações 2:17). “O Senhor fez o que intentou.” Os destruidores de Jerusalém não tinham poder algum contra ela, a não ser aquele que lhes fora dado do alto. Eles eram apenas uma espada na mão de Deus. Foi ele quem os derrubou e não mostrou piedade. Nesse confronto com o seu povo, eles não experimentaram a misericórdia habitual de Deus.

Ele fez o inimigo alegrar-se sobre eles (ver Jó 30:11) e exaltou o poder de seus adversários. Foi ele quem lhes deu força e também motivo para se gloriarem. Este é o peso mais profundo da tristeza: Deus mesmo tinha se tornado como um inimigo para eles. Ainda assim, é também o motivo mais forte para a paciência, porque é necessário submeter-se ao que Deus faz.

Por um lado, isso cumpre o seu propósito. “O Senhor fez o que intentou.” Ele age com conselho e cuidado, não por impulso repentino. Este era o mal que ele havia preparado (Jeremias 18:11), e se ajustaria exatamente ao que ele havia determinado. O que Deus planeja contra o seu povo é algo feito sob medida para ele, e no fim se mostrará verdadeiro.

Por outro lado, isso cumpre os seus avisos. É a execução da Escritura, o cumprimento da palavra que ele havia falado muito antes. Quando lhes deu a sua lei por meio de Moisés, ele declarou com clareza quais juízos viriam se eles a violassem. Agora eles haviam quebrado essa lei, e ele cumpriu a sentença, conforme Levítico 26:16 em diante e Deuteronômio 28:15.

Em todos os modos de Deus lidar com a sua igreja, é bom notar como ele cumpre a sua palavra. Há uma estreita correspondência entre os juízos de sua mão e os juízos de sua boca. Quando os comparamos, cada um ajuda a explicar o outro.

O consolo que pode curar esses lamentos agora é buscado e exposto. O profeta procura palavras adequadas e cheias de esperança para falar a Jerusalém: “Como te consolarei, ó virgem filha de Sião?” A ideia é que se deve procurar consolar aqueles cuja aflição nos leva a lamentar. Quando nossos sentimentos fazem tudo parecer pior do que é, a sabedoria deve nos corrigir e nos ajudar a enxergar a situação com a máxima fidelidade possível.

Os dois modos mais comuns com que as pessoas tentam consolar quem sofre são provados aqui, e ambos falham. Muitas vezes dizemos que a situação de alguém não é única, que outros sofreram mais, ou pelo menos tanto quanto. Mas o caso de Jerusalém não permite esse tipo de argumento: “Que coisa te compararei, a quem te farei semelhante, para te consolar?” Não há cidade ou nação cujo sofrimento se iguale ao dela. Não há testemunho que se possa apresentar como exemplo semelhante, porque não há dor como a sua, nem honra como a honra que ela já teve.

Também tentamos consolar dizendo que a situação não é desesperadora e que pode ser facilmente resolvida. Mas isso também não funciona aqui, ao menos não segundo o raciocínio humano. A sua ferida é vasta como o mar, como uma brecha no dique que vai se alargando sem parar. Ela está ferida, e não há quem a cure. Nenhuma sabedoria nem poder humanos podem restaurar uma condição tão arruinada e despedaçada.

Assim, o único remédio seguro é voltar-se para Deus. O povo precisa vir em oração arrependida e colocar a sua causa nas mãos dele, orando com perseverança e fervor. São exortados a levantar-se do pó e do desânimo, clamar à noite, vigiar para a oração e orar enquanto outros dormem. Nas vigílias da noite, devem derramar o coração perante o Senhor, sendo sinceros e abertos, e levantar as mãos a ele em esperança. Devem até suplicar pela vida de seus filhinhos, aqueles cordeirinhos indefesos que nada haviam feito para merecer tamanha dor (2 Samuel 24:17).

Também são orientados a chegar com palavras: “Olha, Senhor, e considera.” Devem lembrar a Deus de quem são o povo, a descendência de Abraão, seu amigo, e de Jacó, seu escolhido. Não é ordenar a Deus o que fazer, mas apresentar a necessidade diante de sua misericórdia. A oração é bálsamo curador para toda ferida, mesmo a pior delas. Em oração, a nossa parte não é dirigir a Deus, mas submeter-nos à sua sabedoria e à sua vontade, e então deixar o assunto com ele. “Senhor, olha e considera”, e que a tua vontade seja feita.

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