Lamentações 2 - Significado, temas e aplicacao

Entenda os temas principais e aplique Lamentações 2 na sua vida hoje

22 versiculos | Almeida Corrigida Fiel

Sobre o que e Lamentações 2?

Lamentações 2 descreve, com imagens fortes e dolorosas, o julgamento de Deus sobre Jerusalém. O capítulo mostra o Senhor como guerreiro que derruba muralhas, profana o santuário, permite a derrota do rei e a humilhação do povo. A dor é coletiva e total: anciãos, virgens, crianças, profetas e sacerdotes são atingidos. No meio da destruição, surge um chamado intenso ao choro, ao derramamento de coração diante de Deus e à intercessão pelos filhos, reconhecendo que tudo o que aconteceu cumpre a palavra divina anunciada desde a antiguidade.

Temas principais em Lamentações 2

O Senhor como inimigo em juízo (versiculos 2:2-6, 2:21-22)

O narrador descreve poeticamente o Senhor como quem se volta contra o próprio povo: devora moradas e palácios, destrói fortalezas, abate o reino e trata Jerusalém como inimiga. Não se trata de ódio arbitrário, mas de juízo sobre uma rebelião prolongada.

Versiculos-chave: 2, 5, 21, 22

A destruição do templo e do culto (versiculos 2:6-7)

O tabernáculo, o altar, o santuário e o lugar de congregação são arrancados e rejeitados. As festas solenes e o sábado são esquecidos em Sião. A casa do Senhor, antes lugar de alegria, é dominada pelo inimigo, sinal de ruptura profunda na relação de aliança.

Versiculos-chave: 6, 7

Vergonha pública e zombaria dos inimigos (versiculos 2:15-16)

A cidade outrora chamada de perfeita em formosura torna-se motivo de escárnio. Passantes e inimigos batem palmas, assobiam, rangem os dentes e celebram o dia em que Jerusalém caiu, expondo publicamente sua vergonha.

Versiculos-chave: 15, 16

Sofrimento extremo dos inocentes (versiculos 2:11-12, 2:19-21)

O lamento se aprofunda ao descrever crianças desfalecendo de fome nas ruas e nos braços de suas mães, jovens e idosos mortos, e até cenas impensáveis de extremo desespero. A dor dos pequenos torna-se um clamor que atravessa o capítulo.

Versiculos-chave: 11, 12, 19, 21

Falsidade profética e responsabilidade espiritual (versiculos 2:14)

Os profetas foram denunciados por anunciarem visões vazias e ilusórias, que não confrontaram o pecado nem impediram o cativeiro. A crise não é apenas política ou militar, mas profundamente espiritual e ligada à liderança infiel.

Versiculos-chave: 14

Convite ao lamento e à intercessão (versiculos 2:18-19)

Mesmo em meio ao juízo, ecoa um chamado insistente a chorar sem cessar, a derramar o coração como água diante do Senhor e a elevar as mãos pela vida dos filhos que desfalece. O lamento torna-se forma de voltar-se a Deus.

Versiculos-chave: 18, 19

Cumprimento da palavra antiga de Deus (versiculos 2:17)

A catástrofe não é um acidente histórico, mas o cumprimento fiel da palavra que o Senhor havia anunciado desde os tempos antigos. O juízo revela a seriedade da aliança e a confiabilidade de tudo o que Deus falou, inclusive sobre disciplina.

Versiculos-chave: 17

Contexto historico e literario

Lamentações 2 reflete a destruição de Jerusalém em 586 a.C., quando o exército babilônico, sob Nabucodonosor, cercou a cidade, derrubou suas muralhas, incendiou o templo e levou muitos habitantes ao exílio. Judá havia quebrado repetidamente a aliança com Deus por meio da idolatria, injustiça social e dureza de coração, apesar das advertências dos profetas ao longo de décadas. A teologia da aliança, fundamentada especialmente em Deuteronômio, anunciava bênçãos pela obediência e maldições pela desobediência; entre essas maldições estavam o cerco, a fome extrema, a perda do templo, a queda da monarquia e o exílio entre as nações. Em Lamentações 2, tudo isso é visto não apenas como ação babilônica, mas como obra do próprio Senhor, que “cumpriu a sua palavra” (v.17). A destruição do templo, centro da vida religiosa e social de Israel, foi vivida como colapso do mundo conhecido: festas interrompidas, sacerdócio golpeado, profetas sem visões e liderança real deportada. O texto faz eco às experiências traumáticas dos sobreviventes que viram crianças morrerem de fome, jovens caírem à espada e anciãos sentarem em silêncio e luto.

Estrutura de Lamentações 2

Lamentações 2 é um poema acróstico em hebraico, organizado em 22 versos, cada um começando com uma letra sucessiva do alfabeto. Essa estrutura sugere um lamento que vai de “A a Z”, cobrindo a dor em toda a sua extensão. O capítulo pode ser visto em blocos:

1) vv.1-5 – O Senhor como guerreiro contra Sião: imagens fortes descrevem Deus cobrindo Sião de nuvens, derrubando sua glória, destruindo moradas e fortalezas, e tornando-se “como inimigo” de Israel.

2) vv.6-9 – Ruína do culto e da estrutura nacional: tabernáculo, altar, santuário, festas, sábado, rei, príncipes e profetas são atingidos. A destruição é total, religiosa e política.

3) vv.10-12 – Cena de luto e sofrimento nas ruas: anciãos em silêncio, virgens prostradas, crianças desfalececendo de fome no colo das mães. O foco se aproxima da dor concreta do povo.

4) vv.13-16 – Reflexão sobre a grandeza da ferida e a zombaria externa: o narrador reconhece que não há comparação possível para a desgraça de Jerusalém e denuncia a falsidade dos profetas; em seguida, descreve o escárnio de passantes e inimigos.

5) vv.17-19 – Reconhecimento do cumprimento da palavra de Deus e chamado ao lamento: afirma-se que o Senhor fez o que havia planejado; a resposta é um apelo para lágrimas contínuas e derramamento do coração diante de Deus em intercessão.

6) vv.20-22 – Clamor direto a Deus e descrição máxima do horror: o poeta se volta ao Senhor com perguntas retóricas sobre extremos como mães comendo filhos e morte de sacerdote e profeta no santuário, concluindo com a constatação de que ninguém escapou no dia da ira.

Significado teologico

Lamentações 2 destaca a seriedade do pecado e da aliança com Deus. O texto enfatiza que o Senhor não é um observador distante da história, mas o agente principal do juízo, “tornando-se como inimigo” de seu próprio povo por causa da rebelião persistente. Isso revela o caráter santo de Deus: Ele não relativiza o mal, nem ignora a infidelidade espiritual, mesmo quando isso implica disciplina dolorosa sobre aqueles que ama.

A destruição do templo e a suspensão das festas e do sábado mostram que o culto não é um escudo automático contra o juízo. Rituais vazios, desacompanhados de arrependimento e justiça, não garantem proteção. Deus rejeita até mesmo o que é sagrado quando este se torna mera formalidade. O texto também ressalta a responsabilidade da liderança espiritual: profetas que anunciam vaidade e loucura, sem expor a maldade do povo, contribuem para a tragédia.

No entanto, o capítulo não é apenas uma descrição fria do castigo; é também um testemunho de que Deus é fiel à sua palavra. O mesmo Deus que prometeu bênçãos também cumpre o que falou sobre disciplina. Esse cumprimento, por mais severo que seja, sustenta a convicção de que a história está sob o controle divino, não do acaso ou dos impérios. Ao mesmo tempo, o chamado ao lamento e ao derramamento de coração diante do Senhor abre espaço para uma teologia do sofrimento que não foge de Deus, mas se volta a Ele mesmo na ira e na dor. Lamentar diante de Deus torna-se um ato de fé que reconhece que, apesar do juízo, somente o Senhor pode ouvir, ver, considerar e, em última instância, restaurar.

Aplicacao restauradora e de saude mental

Lamentações 2 é um retrato cru de trauma coletivo: guerra, fome, perda, humilhação e colapso da estrutura social e religiosa. Psicologicamente, o texto espelha reações típicas em contextos de trauma extremo: sensação de abandono, visão de Deus como inimigo, choque, silêncio dos anciãos, choro incessante, corpo afetado pela dor emocional (“as minhas entranhas estão turbadas”). Há ainda o impacto devastador sobre crianças, que simbolizam o futuro do povo.

Ao mesmo tempo, o capítulo oferece um modelo de expressão emocional honesta diante de Deus. Em vez de negar a realidade, o poeta descreve o horror em detalhes e o leva diretamente à presença do Senhor, inclusive com perguntas fortes e difíceis. O lamento é legitimado como caminho de enfrentamento, não como falta de fé. A insistência em “derramar o coração como águas” e em deixar as lágrimas correrem dia e noite aponta para a importância de não reprimir a dor, mas de colocá-la diante de Deus.

Para a saúde emocional e espiritual, o texto mostra que fé madura inclui espaço para quebrantamento, perplexidade e clamor. A comunidade sofredora é convidada a chorar junta, a se unir na dor, em vez de isolar-se. Isso sugere o valor de apoio mútuo, rituais de luto e linguagem compartilhada de sofrimento. Mesmo sem oferecer respostas imediatas, Lamentações 2 valida a experiência do sofrimento e convida a um diálogo profundo e sincero com Deus no meio da ruína.

warning Importante: maus usos comuns

O capítulo descreve situações de trauma extremo, fome severa, violência de guerra, morte de crianças e idosos, e imagens de desespero que incluem referências à possibilidade de canibalismo em contexto de cerco (v.20). Também retrata sentimentos intensos de desesperança e percepção de Deus como inimigo, além de dor emocional que afeta profundamente o corpo. Esses elementos podem ser altamente desencadeadores para pessoas que vivenciaram guerras, violência grave, fome, luto recente ou abuso severo.

Para leitores em sofrimento emocional atual, é importante reconhecer que o texto é uma descrição histórica e poética de um momento extremo, não uma prescrição para a vida. A leitura pode despertar memórias dolorosas, sensação de abandono espiritual ou culpa exagerada. Em casos de trauma, depressão profunda, pensamentos autodestrutivos ou lembranças intrusivas ao ler passagens assim, é aconselhável buscar acompanhamento de profissionais de saúde mental, apoio pastoral cuidadoso e uma comunidade segura. A leitura pode ser feita com pausas, em pequenos trechos e, se necessário, junto com alguém de confiança, permitindo processar as emoções que surgirem.

Aplicacao pratica para hoje

Lamentações 2 convida a levar o sofrimento a sério, sem minimizar nem espiritualizar de forma superficial a dor. No cotidiano, isso inspira comunidades e famílias a darem espaço para o luto, reconhecerem perdas e falhas, e evitarem respostas rápidas que silenciam quem sofre.

O capítulo também alerta para a importância de lideranças responsáveis: profetas que anunciam o que o povo quer ouvir, e não a verdade, contribuem para tragédias maiores. Em termos práticos, isso aponta para a necessidade de ensino bíblico honesto, que confronte o pecado, denuncie injustiças e não use o nome de Deus para legitimar vaidades ou interesses pessoais.

Outro aspecto aplicável é o chamado a “derramar o coração como águas” diante do Senhor. Isso pode se traduzir em práticas de oração sincera, escrita de lamentos, cânticos que expressem tristeza e não apenas alegria, e momentos comunitários de confissão e intercessão. Em contextos de crise, o texto incentiva a interceder especialmente pelas crianças e pelos mais vulneráveis, tal como o apelo “pela vida de teus filhinhos” (v.19). Na vida diária, isso se reflete em cuidado prático, proteção, defesa de quem não tem voz e sensibilidade às consequências coletivas do pecado, da injustiça e da negligência.

Perguntas frequentes

Por que Lamentações 2 descreve Deus como se fosse inimigo de seu próprio povo?

O texto apresenta Deus “como inimigo” para expressar poeticamente a experiência do povo sob juízo. Após longa rebelião, idolatria e recusa em ouvir os profetas, o Senhor age em disciplina, permitindo a conquista babilônica e a queda de Jerusalém. Ao atribuir a Deus o protagonismo desses eventos, o capítulo afirma que não se trata de acaso histórico, mas de juízo dentro da aliança. A linguagem forte destaca a seriedade do pecado e mostra que Deus não trata com leviandade a infidelidade de seu povo. Mesmo assim, o restante do livro aponta que esse juízo não é o fim da história, mas parte de um caminho que ainda inclui misericórdia e esperança.

O que significa a destruição do templo e o fim das festas e do sábado em Sião?

A destruição do templo e a interrupção das festas e do sábado simbolizam um colapso total da vida religiosa de Judá. O templo era o centro do culto, da identidade nacional e da presença simbólica de Deus no meio do povo. Quando o texto afirma que o Senhor rejeitou o altar, o santuário e pôs em esquecimento as festas, mostra que Ele não aceita culto meramente externo, desconectado de arrependimento e obediência. O sistema ritual, que deveria expressar a aliança, tornou-se vazio diante da persistência no pecado. Assim, a ruína do templo é um sinal dramático de que Deus não pode ser manipulado por práticas religiosas, mas busca um povo de coração íntegro.

Como entender o sofrimento das crianças descrito em Lamentações 2?

As crianças em Lamentações 2 aparecem como vítimas inocentes do colapso da nação. A fome, a morte e a angústia dos pequenos refletem as consequências coletivas do pecado e da injustiça dos adultos, sobretudo de líderes e geração anterior. O texto não afirma que cada criança sofre por causa de suas próprias faltas, mas retrata um mundo em que decisões erradas e rebelião contra Deus geram ondas de sofrimento que atingem os mais vulneráveis. Ao mesmo tempo, o sofrimento das crianças se torna motivo de clamor intenso a Deus, chamando a comunidade à intercessão, à responsabilidade e à sensibilidade diante dos frágeis em qualquer época.

Qual o papel do lamento em Lamentações 2 e na vida de fé?

Em Lamentações 2, o lamento é parte essencial da resposta do povo ao juízo e à dor. Há um chamado para que as lágrimas corram como ribeiro, dia e noite, e para que o coração seja derramado como água diante do Senhor. O lamento não é murmuração vazia, mas uma forma de fé que se recusa a romper o vínculo com Deus, mesmo quando tudo está em ruínas. Ele permite nomear o sofrimento, confessar o pecado, expressar perplexidade e, ainda assim, dirigir-se ao Senhor. Na vida de fé, o lamento ajuda a evitar a negação da realidade e fortalece a confiança de que Deus escuta, vê e considera, mesmo quando não há respostas imediatas.

Por que o texto critica tão fortemente os profetas de Jerusalém?

O versículo 14 denuncia que os profetas viram “vaidade e loucura” para o povo, em vez de expor sua maldade e assim impedir o cativeiro. Eles ofereceram mensagens confortáveis, mas enganosas, que não chamavam ao arrependimento nem alertavam para a gravidade da situação espiritual. Dessa forma, contribuíram para que o povo continuasse em segurança falsa até que o juízo chegasse. A crítica mostra que a liderança espiritual tem responsabilidade séria diante de Deus: calar-se quanto ao pecado, distorcer a verdade ou usar visões vãs para agradar ouvintes pode levar a desastres profundos, tanto espirituais quanto sociais.

Perspectivas dos nossos guias espirituais

Heart
Heart

Lamentações 2 é um dos retratos mais intensos de dor coletiva nas Escrituras. Cada versículo parece carregar o peso de um coração que se partiu ao ver sua cidade destruída, seu templo arrasado e seus filhos desfalecendo de fome nas ruas. A linguagem é tão forte porque a ferida é profunda: o narrador fala de olhos consumidos em lágrimas, de entranhas abaladas, de corpo afetado pela tristeza. Esse capítulo valida a experiência de quem sente que o chão desapareceu. Há espaço para lágrimas que não cessam, para o silêncio dos anciãos, para o abaixar da cabeça das virgens, para a sensação de que tudo o que era belo foi perdido. O texto não minimiza a dor, não tenta encobrir o horror. Pelo contrário, ele a expõe, quase como se dissesse: essa realidade é dura demais para ser escondida. Ao mesmo tempo, no meio desse cenário, surge um chamado: “derrama o teu coração como águas diante da presença do Senhor” (v.19). A dor não precisa ser carregada sozinha, nem reprimida. Ela pode ser levada inteira, sem filtros, ao Deus que vê e considera. O lamento é acolhido, não rejeitado. A experiência de se sentir como se Deus fosse inimigo também é nomeada, e ainda assim o povo fala com Ele. Isso mostra que mesmo os sentimentos mais confusos e difíceis podem ser colocados diante do Senhor. Lamentações 2 lembra que em tempos de sofrimento extremo, chorar é uma resposta legítima, e que a fé não exige que emoções sejam maquiadas. O capítulo oferece um lugar seguro nas Escrituras onde a dor encontra linguagem, o trauma encontra voz e o coração partido encontra permissão para simplesmente existir diante de Deus, sem pressa, sem respostas fáceis, apenas com lágrimas que correm como um rio diante daquele que continua ouvindo.

Mind
Mind

Lamentações 2 apresenta uma teologia do juízo profundamente enraizada na aliança. A autoria tradicionalmente ligada a Jeremias se percebe na consonância com o livro profético: a queda de Jerusalém é vista como cumprimento da palavra de Deus, não como vitória do acaso ou mera superioridade babilônica. O versículo 17 é chave: o Senhor fez o que intentou, cumpriu a sua palavra desde os dias da antiguidade. Isso remete às maldições da aliança em Deuteronômio e às advertências proféticas repetidas. Literariamente, a personificação de Sião como “filha” traz um tom relacional e afetivo ao juízo. O Senhor aparece “como inimigo”, armando arco e dirigindo sua ira contra o que antes protegia. Essa antropomorfização não pretende descrever literalmente Deus como adversário, mas evidenciar o choque da experiência histórica: quem antes defendia agora disciplina. O uso de imagens de guerra, fogo e demolição reforça a ideia de que o juízo não é parcial; ele atinge moradas, fortalezas, palácios, muralhas, portas, rei, príncipes, profetas, sacerdotes, anciãos, virgens e crianças. O colapso do culto é central. O Senhor arranca o tabernáculo, rejeita o altar, detesta o santuário, põe em esquecimento festas e sábado. A crítica não é ao culto em si, mas ao culto desvinculado da fidelidade ética e espiritual. A ruptura do sistema cultual indica que o problema é mais profundo do que ritos: trata-se de uma aliança quebrada. O versículo 14 denuncia os profetas como responsáveis significativos pela tragédia, por oferecerem visões vazias que não revelavam o pecado. Em termos exegéticos, isso mostra que a revelação verdadeira não é apenas consolo, mas também confrontação. A omissão profética tem consequências históricas concretas. Por fim, a dimensão antropológica do texto é notável: o poeta não olha apenas para causas e efeitos espirituais, mas para o sofrimento humano real. Crianças que perguntam por trigo e vinho ao morrer de fome, anciãos sentados em silêncio, o corpo do narrador afetado. A teologia do juízo aqui não é abstrata; ela é experimentada nos corpos e nas ruas. O convite final ao lamento e à intercessão sugere que, mesmo quando o juízo é reconhecido como justo, a resposta adequada inclui dor, súplica e busca pela misericórdia de Deus.

Life
Life

Lamentações 2 mostra, em linguagem concreta, como decisões espirituais e morais se desdobram em consequências muito práticas para uma sociedade inteira. A rebelião prolongada de Judá não ficou restrita ao campo das ideias ou da religião; ela resultou em destruição de casas, fome nas ruas, insegurança, perda de lideranças e colapso de estruturas que sustentavam o cotidiano. Isso traz um alerta para a vida prática: escolhas coletivas e individuais, quando afastadas de Deus e da justiça, afetam gerações e, especialmente, os mais frágeis. O texto enfatiza a responsabilidade da liderança: profetas que preferiram mensagens agradáveis às verdadeiras contribuíram para a tragédia. Em termos de vida diária, isso aponta para o perigo de buscar apenas vozes que confirmam o que já se deseja, em vez de conselhos que confrontam e corrigem. Líderes espirituais, familiares, comunitários e até profissionais têm peso real nas escolhas de muitos; quando escolhem superficialidade, a conta recai sobre todo o grupo. A descrição do silêncio dos anciãos, da vergonha das virgens e do desfalecer das crianças cria um quadro de colapso comunitário. Do ponto de vista prático, isso ressalta a importância de construir comunidades com espaço para verdade, correção mútua e cuidado com os vulneráveis. Negligenciar pequenas infidelidades, tolerar injustiças, fechar os olhos para a falsidade podem gerar, ao longo do tempo, crises profundas que nenhum arranjo rápido consegue resolver. Ao mesmo tempo, o capítulo sugere um caminho: não fugir da realidade dolorosa, mas encará-la e levá-la à presença de Deus. “Derramar o coração como águas” é uma atitude que se traduz em conversas honestas, revisões sérias de conduta, disposição para reconhecer falhas e clamar por mudança. A intercessão pelas crianças desfalececentes indica uma prioridade prática: em tempos de crise, é essencial voltar a atenção para aqueles que mais sofrem os efeitos das falhas dos adultos, buscando proteção, provisão e justiça para eles. Lamentações 2, assim, não apenas narra um colapso, mas convoca à responsabilidade, à verdade e ao cuidado concreto no meio da dor.

Soul
Soul

Lamentações 2 coloca a alma diante de um mistério difícil: como conciliar a santidade de Deus, sua fidelidade à aliança e o sofrimento extremo do seu povo? O texto responde de forma séria: o Senhor é tão fiel à sua palavra que cumpre tanto as promessas de bênção quanto as advertências de juízo. Isso desafia qualquer espiritualidade que reduza Deus a um garante de bem-estar imediato, sem considerar a profundidade do pecado e da rebelião. A destruição de Jerusalém abala símbolos centrais: o templo, o altar, o rei, o profeta, o sacerdote. Muitos poderiam concluir que tudo acabou. No entanto, a própria consciência de que foi o Senhor quem “cumpriu a sua palavra” preserva uma base: se Ele continua soberano na disciplina, também permanece soberano para restaurar. A ira não é o último capítulo da história divina, mas parte do caminho pelo qual Deus purifica e chama de volta um povo que se afastou. Espiritualmente, o lamento proposto aqui é um ato de retorno. Não é fuga da presença de Deus, mas confronto honesto com Ele: “Vê, ó Senhor, e considera a quem fizeste assim!” (v.20). Ao direcionar sua dor e suas perguntas ao Senhor, o povo não corta o vínculo com Ele, mas o reafirma. A alma, mesmo ferida, continua falando com Deus, reconhecendo que só Ele pode ver, considerar e, um dia, sarar a ferida “grande como o mar”. A perspectiva eterna que emerge, ainda que em sombras, é a de que a disciplina de Deus tem um propósito além do momento: purificar, despertar, redirecionar o coração. Lamentações 2 não oferece, por si só, a imagem completa da restauração, mas prepara o terreno para ela, mostrando a profundidade do problema que precisa ser curado. A alma é convidada a levar o pecado e o sofrimento com seriedade, a não banalizar a santidade de Deus e, ao mesmo tempo, a não abandonar a oração. Em meio à ruína, o derramar do coração diante do Senhor torna-se uma semente de esperança que aponta para um relacionamento com Deus que ultrapassa o juízo e olha para além dos muros derrubados, em direção à misericórdia que ainda virá.

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Versiculos em Lamentações 2

Lamentações 2:1

" Como cobriu o Senhor de nuvens na sua ira a filha de Sião! Derrubou do céu à terra a glória de Israel, e não se lembrou do escabelo de seus pés, no dia da sua ira. "

Lamentações 2:2

" Devorou o Senhor todas as moradas de Jacó, e não se apiedou; derrubou no seu furor as fortalezas da filha de Judá, e abateu-as até à terra; profanou o reino e os seus príncipes. "

Lamentações 2:3

" No furor da sua ira cortou toda a força de Israel; retirou para trás a sua destra de diante do inimigo; e ardeu contra Jacó, como labareda de fogo que consome em redor. "

Lamentações 2:4

" Armou o seu arco como inimigo, firmou a sua destra como adversário, e matou tudo o que era formoso à vista; derramou a sua indignação como fogo na tenda da filha de Sião. "

Lamentações 2:5

" Tornou-se o Senhor como inimigo; devorou a Israel, devorou a todos os seus palácios, destruiu as suas fortalezas; e multiplicou na filha de Judá a lamentação e a tristeza. "

Lamentações 2:6

" E arrancou o seu tabernáculo com violência, como se fosse o de uma horta; destruiu o lugar da sua congregação; o Senhor, em Sião, pôs em esquecimento a festa solene e o sábado, e na indignação da sua ira rejeitou com desprezo o rei e o sacerdote. "

Lamentações 2:7

" Rejeitou o Senhor o seu altar, detestou o seu santuário; entregou na mão do inimigo os muros dos seus palácios; deram gritos na casa do Senhor, como em dia de festa solene. "

Lamentações 2:8

" Intentou o Senhor destruir o muro da filha de Sião; estendeu o cordel sobre ele, não retirou a sua mão destruidora; fez gemer o antemuro e o muro; estão eles juntamente enfraquecidos. "

Lamentações 2:9

" As suas portas caíram por terra; ele destruiu e quebrou os seus ferrolhos; o seu rei e os seus príncipes estão entre os gentios, onde não há lei, nem os seus profetas acham visão alguma do Senhor. "

Lamentações 2:10

" Estão sentados na terra, silenciosos os anciãos da filha de Sião; lançam pó sobre as suas cabeças, cingiram sacos; as virgens de Jerusalém abaixam as suas cabeças até à terra. "

Lamentações 2:11

" Já se consumiram os meus olhos com lágrimas, turbadas estão as minhas entranhas, o meu fígado se derramou pela terra por causa do quebrantamento da filha do meu povo; pois desfalecem o menino e a criança de peito pelas ruas da cidade. "

Lamentações 2:12

" Ao desfalecerem, como feridos, pelas ruas da cidade, ao exalarem as suas almas no regaço de suas mães, perguntam a elas: Onde está o trigo e o vinho? "

Lamentações 2:13

" Que testemunho te trarei? A quem te compararei, ó filha de Jerusalém? A quem te assemelharei, para te consolar, ó virgem filha de Sião? Porque grande como o mar é a tua quebradura; quem te sarará? "

Lamentações 2:14

" Os teus profetas viram para ti, vaidade e loucura, e não manifestaram a tua maldade, para impedirem o teu cativeiro; mas viram para ti cargas vãs e motivos de expulsão. "

Lamentações 2:15

" Todos os que passam pelo caminho batem palmas, assobiam e meneiam as suas cabeças sobre a filha de Jerusalém, dizendo: É esta a cidade que denominavam: perfeita em formosura, gozo de toda a terra? "

Lamentações 2:16

" Todos os teus inimigos abrem as suas bocas contra ti, assobiam, e rangem os dentes; dizem: Devoramo-la; certamente este é o dia que esperávamos; achamo-lo, vimo-lo. "

Lamentações 2:17

" Fez o Senhor o que intentou; cumpriu a sua palavra, que ordenou desde os dias da antiguidade; derrubou, e não se apiedou; fez que o inimigo se alegrasse por tua causa, exaltou o poder dos teus adversários. "

Lamentações 2:18

" O coração deles clamou ao Senhor: Ó muralha da filha de Sião, corram as tuas lágrimas como um ribeiro, de dia e de noite; não te dês descanso, nem parem as meninas de teus olhos. "

Lamentações 2:19

" Levanta-te, clama de noite no princípio das vigias; derrama o teu coração como águas diante da presença do Senhor; levanta a ele as tuas mãos, pela vida de teus filhinhos, que desfalecem de fome à entrada de todas as ruas. "

Lamentações 2:20

" Vê, ó Senhor, e considera a quem fizeste assim! Hão de comer as mulheres o fruto de si mesmas, as crianças que trazem nos braços? Ou matar-se-á no santuário do Senhor o sacerdote e o profeta? "

Lamentações 2:21

" Jazem por terra pelas ruas o moço e o velho, as minhas virgens e os meus jovens vieram a cair à espada; tu os mataste no dia da tua ira; mataste e não te apiedaste. "

Lamentações 2:22

" Convocaste os meus temores em redor como num dia de solenidade; não houve no dia da ira do Senhor quem escapasse, ou ficasse; aqueles que eu trouxe nas mãos e sustentei, o meu inimigo os consumiu. "

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