Lamentações 2:1
" Como cobriu o Senhor de nuvens na sua ira a filha de Sião! Derrubou do céu à terra a glória de Israel, e não se lembrou do escabelo de seus pés, no dia da sua ira. "
Entenda os temas principais e aplique Lamentações 2 na sua vida hoje
22 versiculos | Almeida Corrigida Fiel
O narrador descreve poeticamente o Senhor como quem se volta contra o próprio povo: devora moradas e palácios, destrói fortalezas, abate o reino e trata Jerusalém como inimiga. Não se trata de ódio arbitrário, mas de juízo sobre uma rebelião prolongada.
O tabernáculo, o altar, o santuário e o lugar de congregação são arrancados e rejeitados. As festas solenes e o sábado são esquecidos em Sião. A casa do Senhor, antes lugar de alegria, é dominada pelo inimigo, sinal de ruptura profunda na relação de aliança.
A cidade outrora chamada de perfeita em formosura torna-se motivo de escárnio. Passantes e inimigos batem palmas, assobiam, rangem os dentes e celebram o dia em que Jerusalém caiu, expondo publicamente sua vergonha.
O lamento se aprofunda ao descrever crianças desfalecendo de fome nas ruas e nos braços de suas mães, jovens e idosos mortos, e até cenas impensáveis de extremo desespero. A dor dos pequenos torna-se um clamor que atravessa o capítulo.
Os profetas foram denunciados por anunciarem visões vazias e ilusórias, que não confrontaram o pecado nem impediram o cativeiro. A crise não é apenas política ou militar, mas profundamente espiritual e ligada à liderança infiel.
Versiculos-chave: 14
Mesmo em meio ao juízo, ecoa um chamado insistente a chorar sem cessar, a derramar o coração como água diante do Senhor e a elevar as mãos pela vida dos filhos que desfalece. O lamento torna-se forma de voltar-se a Deus.
A catástrofe não é um acidente histórico, mas o cumprimento fiel da palavra que o Senhor havia anunciado desde os tempos antigos. O juízo revela a seriedade da aliança e a confiabilidade de tudo o que Deus falou, inclusive sobre disciplina.
Versiculos-chave: 17
Lamentações 2 reflete a destruição de Jerusalém em 586 a.C., quando o exército babilônico, sob Nabucodonosor, cercou a cidade, derrubou suas muralhas, incendiou o templo e levou muitos habitantes ao exílio. Judá havia quebrado repetidamente a aliança com Deus por meio da idolatria, injustiça social e dureza de coração, apesar das advertências dos profetas ao longo de décadas. A teologia da aliança, fundamentada especialmente em Deuteronômio, anunciava bênçãos pela obediência e maldições pela desobediência; entre essas maldições estavam o cerco, a fome extrema, a perda do templo, a queda da monarquia e o exílio entre as nações. Em Lamentações 2, tudo isso é visto não apenas como ação babilônica, mas como obra do próprio Senhor, que “cumpriu a sua palavra” (v.17). A destruição do templo, centro da vida religiosa e social de Israel, foi vivida como colapso do mundo conhecido: festas interrompidas, sacerdócio golpeado, profetas sem visões e liderança real deportada. O texto faz eco às experiências traumáticas dos sobreviventes que viram crianças morrerem de fome, jovens caírem à espada e anciãos sentarem em silêncio e luto.
Lamentações 2 é um poema acróstico em hebraico, organizado em 22 versos, cada um começando com uma letra sucessiva do alfabeto. Essa estrutura sugere um lamento que vai de “A a Z”, cobrindo a dor em toda a sua extensão. O capítulo pode ser visto em blocos:
1) vv.1-5 – O Senhor como guerreiro contra Sião: imagens fortes descrevem Deus cobrindo Sião de nuvens, derrubando sua glória, destruindo moradas e fortalezas, e tornando-se “como inimigo” de Israel.
2) vv.6-9 – Ruína do culto e da estrutura nacional: tabernáculo, altar, santuário, festas, sábado, rei, príncipes e profetas são atingidos. A destruição é total, religiosa e política.
3) vv.10-12 – Cena de luto e sofrimento nas ruas: anciãos em silêncio, virgens prostradas, crianças desfalececendo de fome no colo das mães. O foco se aproxima da dor concreta do povo.
4) vv.13-16 – Reflexão sobre a grandeza da ferida e a zombaria externa: o narrador reconhece que não há comparação possível para a desgraça de Jerusalém e denuncia a falsidade dos profetas; em seguida, descreve o escárnio de passantes e inimigos.
5) vv.17-19 – Reconhecimento do cumprimento da palavra de Deus e chamado ao lamento: afirma-se que o Senhor fez o que havia planejado; a resposta é um apelo para lágrimas contínuas e derramamento do coração diante de Deus em intercessão.
6) vv.20-22 – Clamor direto a Deus e descrição máxima do horror: o poeta se volta ao Senhor com perguntas retóricas sobre extremos como mães comendo filhos e morte de sacerdote e profeta no santuário, concluindo com a constatação de que ninguém escapou no dia da ira.
Lamentações 2 destaca a seriedade do pecado e da aliança com Deus. O texto enfatiza que o Senhor não é um observador distante da história, mas o agente principal do juízo, “tornando-se como inimigo” de seu próprio povo por causa da rebelião persistente. Isso revela o caráter santo de Deus: Ele não relativiza o mal, nem ignora a infidelidade espiritual, mesmo quando isso implica disciplina dolorosa sobre aqueles que ama.
A destruição do templo e a suspensão das festas e do sábado mostram que o culto não é um escudo automático contra o juízo. Rituais vazios, desacompanhados de arrependimento e justiça, não garantem proteção. Deus rejeita até mesmo o que é sagrado quando este se torna mera formalidade. O texto também ressalta a responsabilidade da liderança espiritual: profetas que anunciam vaidade e loucura, sem expor a maldade do povo, contribuem para a tragédia.
No entanto, o capítulo não é apenas uma descrição fria do castigo; é também um testemunho de que Deus é fiel à sua palavra. O mesmo Deus que prometeu bênçãos também cumpre o que falou sobre disciplina. Esse cumprimento, por mais severo que seja, sustenta a convicção de que a história está sob o controle divino, não do acaso ou dos impérios. Ao mesmo tempo, o chamado ao lamento e ao derramamento de coração diante do Senhor abre espaço para uma teologia do sofrimento que não foge de Deus, mas se volta a Ele mesmo na ira e na dor. Lamentar diante de Deus torna-se um ato de fé que reconhece que, apesar do juízo, somente o Senhor pode ouvir, ver, considerar e, em última instância, restaurar.
Lamentações 2 é um retrato cru de trauma coletivo: guerra, fome, perda, humilhação e colapso da estrutura social e religiosa. Psicologicamente, o texto espelha reações típicas em contextos de trauma extremo: sensação de abandono, visão de Deus como inimigo, choque, silêncio dos anciãos, choro incessante, corpo afetado pela dor emocional (“as minhas entranhas estão turbadas”). Há ainda o impacto devastador sobre crianças, que simbolizam o futuro do povo.
Ao mesmo tempo, o capítulo oferece um modelo de expressão emocional honesta diante de Deus. Em vez de negar a realidade, o poeta descreve o horror em detalhes e o leva diretamente à presença do Senhor, inclusive com perguntas fortes e difíceis. O lamento é legitimado como caminho de enfrentamento, não como falta de fé. A insistência em “derramar o coração como águas” e em deixar as lágrimas correrem dia e noite aponta para a importância de não reprimir a dor, mas de colocá-la diante de Deus.
Para a saúde emocional e espiritual, o texto mostra que fé madura inclui espaço para quebrantamento, perplexidade e clamor. A comunidade sofredora é convidada a chorar junta, a se unir na dor, em vez de isolar-se. Isso sugere o valor de apoio mútuo, rituais de luto e linguagem compartilhada de sofrimento. Mesmo sem oferecer respostas imediatas, Lamentações 2 valida a experiência do sofrimento e convida a um diálogo profundo e sincero com Deus no meio da ruína.
O capítulo descreve situações de trauma extremo, fome severa, violência de guerra, morte de crianças e idosos, e imagens de desespero que incluem referências à possibilidade de canibalismo em contexto de cerco (v.20). Também retrata sentimentos intensos de desesperança e percepção de Deus como inimigo, além de dor emocional que afeta profundamente o corpo. Esses elementos podem ser altamente desencadeadores para pessoas que vivenciaram guerras, violência grave, fome, luto recente ou abuso severo.
Para leitores em sofrimento emocional atual, é importante reconhecer que o texto é uma descrição histórica e poética de um momento extremo, não uma prescrição para a vida. A leitura pode despertar memórias dolorosas, sensação de abandono espiritual ou culpa exagerada. Em casos de trauma, depressão profunda, pensamentos autodestrutivos ou lembranças intrusivas ao ler passagens assim, é aconselhável buscar acompanhamento de profissionais de saúde mental, apoio pastoral cuidadoso e uma comunidade segura. A leitura pode ser feita com pausas, em pequenos trechos e, se necessário, junto com alguém de confiança, permitindo processar as emoções que surgirem.
Lamentações 2 convida a levar o sofrimento a sério, sem minimizar nem espiritualizar de forma superficial a dor. No cotidiano, isso inspira comunidades e famílias a darem espaço para o luto, reconhecerem perdas e falhas, e evitarem respostas rápidas que silenciam quem sofre.
O capítulo também alerta para a importância de lideranças responsáveis: profetas que anunciam o que o povo quer ouvir, e não a verdade, contribuem para tragédias maiores. Em termos práticos, isso aponta para a necessidade de ensino bíblico honesto, que confronte o pecado, denuncie injustiças e não use o nome de Deus para legitimar vaidades ou interesses pessoais.
Outro aspecto aplicável é o chamado a “derramar o coração como águas” diante do Senhor. Isso pode se traduzir em práticas de oração sincera, escrita de lamentos, cânticos que expressem tristeza e não apenas alegria, e momentos comunitários de confissão e intercessão. Em contextos de crise, o texto incentiva a interceder especialmente pelas crianças e pelos mais vulneráveis, tal como o apelo “pela vida de teus filhinhos” (v.19). Na vida diária, isso se reflete em cuidado prático, proteção, defesa de quem não tem voz e sensibilidade às consequências coletivas do pecado, da injustiça e da negligência.
O texto apresenta Deus “como inimigo” para expressar poeticamente a experiência do povo sob juízo. Após longa rebelião, idolatria e recusa em ouvir os profetas, o Senhor age em disciplina, permitindo a conquista babilônica e a queda de Jerusalém. Ao atribuir a Deus o protagonismo desses eventos, o capítulo afirma que não se trata de acaso histórico, mas de juízo dentro da aliança. A linguagem forte destaca a seriedade do pecado e mostra que Deus não trata com leviandade a infidelidade de seu povo. Mesmo assim, o restante do livro aponta que esse juízo não é o fim da história, mas parte de um caminho que ainda inclui misericórdia e esperança.
A destruição do templo e a interrupção das festas e do sábado simbolizam um colapso total da vida religiosa de Judá. O templo era o centro do culto, da identidade nacional e da presença simbólica de Deus no meio do povo. Quando o texto afirma que o Senhor rejeitou o altar, o santuário e pôs em esquecimento as festas, mostra que Ele não aceita culto meramente externo, desconectado de arrependimento e obediência. O sistema ritual, que deveria expressar a aliança, tornou-se vazio diante da persistência no pecado. Assim, a ruína do templo é um sinal dramático de que Deus não pode ser manipulado por práticas religiosas, mas busca um povo de coração íntegro.
As crianças em Lamentações 2 aparecem como vítimas inocentes do colapso da nação. A fome, a morte e a angústia dos pequenos refletem as consequências coletivas do pecado e da injustiça dos adultos, sobretudo de líderes e geração anterior. O texto não afirma que cada criança sofre por causa de suas próprias faltas, mas retrata um mundo em que decisões erradas e rebelião contra Deus geram ondas de sofrimento que atingem os mais vulneráveis. Ao mesmo tempo, o sofrimento das crianças se torna motivo de clamor intenso a Deus, chamando a comunidade à intercessão, à responsabilidade e à sensibilidade diante dos frágeis em qualquer época.
Em Lamentações 2, o lamento é parte essencial da resposta do povo ao juízo e à dor. Há um chamado para que as lágrimas corram como ribeiro, dia e noite, e para que o coração seja derramado como água diante do Senhor. O lamento não é murmuração vazia, mas uma forma de fé que se recusa a romper o vínculo com Deus, mesmo quando tudo está em ruínas. Ele permite nomear o sofrimento, confessar o pecado, expressar perplexidade e, ainda assim, dirigir-se ao Senhor. Na vida de fé, o lamento ajuda a evitar a negação da realidade e fortalece a confiança de que Deus escuta, vê e considera, mesmo quando não há respostas imediatas.
O versículo 14 denuncia que os profetas viram “vaidade e loucura” para o povo, em vez de expor sua maldade e assim impedir o cativeiro. Eles ofereceram mensagens confortáveis, mas enganosas, que não chamavam ao arrependimento nem alertavam para a gravidade da situação espiritual. Dessa forma, contribuíram para que o povo continuasse em segurança falsa até que o juízo chegasse. A crítica mostra que a liderança espiritual tem responsabilidade séria diante de Deus: calar-se quanto ao pecado, distorcer a verdade ou usar visões vãs para agradar ouvintes pode levar a desastres profundos, tanto espirituais quanto sociais.
Lamentações 2 é um dos retratos mais intensos de dor coletiva nas Escrituras. Cada versículo parece carregar o peso de um coração que se partiu ao ver sua cidade destruída, seu templo arrasado e seus filhos desfalecendo de fome nas ruas. A linguagem é tão forte porque a ferida é profunda: o narrador fala de olhos consumidos em lágrimas, de entranhas abaladas, de corpo afetado pela tristeza. Esse capítulo valida a experiência de quem sente que o chão desapareceu. Há espaço para lágrimas que não cessam, para o silêncio dos anciãos, para o abaixar da cabeça das virgens, para a sensação de que tudo o que era belo foi perdido. O texto não minimiza a dor, não tenta encobrir o horror. Pelo contrário, ele a expõe, quase como se dissesse: essa realidade é dura demais para ser escondida. Ao mesmo tempo, no meio desse cenário, surge um chamado: “derrama o teu coração como águas diante da presença do Senhor” (v.19). A dor não precisa ser carregada sozinha, nem reprimida. Ela pode ser levada inteira, sem filtros, ao Deus que vê e considera. O lamento é acolhido, não rejeitado. A experiência de se sentir como se Deus fosse inimigo também é nomeada, e ainda assim o povo fala com Ele. Isso mostra que mesmo os sentimentos mais confusos e difíceis podem ser colocados diante do Senhor. Lamentações 2 lembra que em tempos de sofrimento extremo, chorar é uma resposta legítima, e que a fé não exige que emoções sejam maquiadas. O capítulo oferece um lugar seguro nas Escrituras onde a dor encontra linguagem, o trauma encontra voz e o coração partido encontra permissão para simplesmente existir diante de Deus, sem pressa, sem respostas fáceis, apenas com lágrimas que correm como um rio diante daquele que continua ouvindo.
Lamentações 2 apresenta uma teologia do juízo profundamente enraizada na aliança. A autoria tradicionalmente ligada a Jeremias se percebe na consonância com o livro profético: a queda de Jerusalém é vista como cumprimento da palavra de Deus, não como vitória do acaso ou mera superioridade babilônica. O versículo 17 é chave: o Senhor fez o que intentou, cumpriu a sua palavra desde os dias da antiguidade. Isso remete às maldições da aliança em Deuteronômio e às advertências proféticas repetidas. Literariamente, a personificação de Sião como “filha” traz um tom relacional e afetivo ao juízo. O Senhor aparece “como inimigo”, armando arco e dirigindo sua ira contra o que antes protegia. Essa antropomorfização não pretende descrever literalmente Deus como adversário, mas evidenciar o choque da experiência histórica: quem antes defendia agora disciplina. O uso de imagens de guerra, fogo e demolição reforça a ideia de que o juízo não é parcial; ele atinge moradas, fortalezas, palácios, muralhas, portas, rei, príncipes, profetas, sacerdotes, anciãos, virgens e crianças. O colapso do culto é central. O Senhor arranca o tabernáculo, rejeita o altar, detesta o santuário, põe em esquecimento festas e sábado. A crítica não é ao culto em si, mas ao culto desvinculado da fidelidade ética e espiritual. A ruptura do sistema cultual indica que o problema é mais profundo do que ritos: trata-se de uma aliança quebrada. O versículo 14 denuncia os profetas como responsáveis significativos pela tragédia, por oferecerem visões vazias que não revelavam o pecado. Em termos exegéticos, isso mostra que a revelação verdadeira não é apenas consolo, mas também confrontação. A omissão profética tem consequências históricas concretas. Por fim, a dimensão antropológica do texto é notável: o poeta não olha apenas para causas e efeitos espirituais, mas para o sofrimento humano real. Crianças que perguntam por trigo e vinho ao morrer de fome, anciãos sentados em silêncio, o corpo do narrador afetado. A teologia do juízo aqui não é abstrata; ela é experimentada nos corpos e nas ruas. O convite final ao lamento e à intercessão sugere que, mesmo quando o juízo é reconhecido como justo, a resposta adequada inclui dor, súplica e busca pela misericórdia de Deus.
Lamentações 2 mostra, em linguagem concreta, como decisões espirituais e morais se desdobram em consequências muito práticas para uma sociedade inteira. A rebelião prolongada de Judá não ficou restrita ao campo das ideias ou da religião; ela resultou em destruição de casas, fome nas ruas, insegurança, perda de lideranças e colapso de estruturas que sustentavam o cotidiano. Isso traz um alerta para a vida prática: escolhas coletivas e individuais, quando afastadas de Deus e da justiça, afetam gerações e, especialmente, os mais frágeis. O texto enfatiza a responsabilidade da liderança: profetas que preferiram mensagens agradáveis às verdadeiras contribuíram para a tragédia. Em termos de vida diária, isso aponta para o perigo de buscar apenas vozes que confirmam o que já se deseja, em vez de conselhos que confrontam e corrigem. Líderes espirituais, familiares, comunitários e até profissionais têm peso real nas escolhas de muitos; quando escolhem superficialidade, a conta recai sobre todo o grupo. A descrição do silêncio dos anciãos, da vergonha das virgens e do desfalecer das crianças cria um quadro de colapso comunitário. Do ponto de vista prático, isso ressalta a importância de construir comunidades com espaço para verdade, correção mútua e cuidado com os vulneráveis. Negligenciar pequenas infidelidades, tolerar injustiças, fechar os olhos para a falsidade podem gerar, ao longo do tempo, crises profundas que nenhum arranjo rápido consegue resolver. Ao mesmo tempo, o capítulo sugere um caminho: não fugir da realidade dolorosa, mas encará-la e levá-la à presença de Deus. “Derramar o coração como águas” é uma atitude que se traduz em conversas honestas, revisões sérias de conduta, disposição para reconhecer falhas e clamar por mudança. A intercessão pelas crianças desfalececentes indica uma prioridade prática: em tempos de crise, é essencial voltar a atenção para aqueles que mais sofrem os efeitos das falhas dos adultos, buscando proteção, provisão e justiça para eles. Lamentações 2, assim, não apenas narra um colapso, mas convoca à responsabilidade, à verdade e ao cuidado concreto no meio da dor.
Lamentações 2 coloca a alma diante de um mistério difícil: como conciliar a santidade de Deus, sua fidelidade à aliança e o sofrimento extremo do seu povo? O texto responde de forma séria: o Senhor é tão fiel à sua palavra que cumpre tanto as promessas de bênção quanto as advertências de juízo. Isso desafia qualquer espiritualidade que reduza Deus a um garante de bem-estar imediato, sem considerar a profundidade do pecado e da rebelião. A destruição de Jerusalém abala símbolos centrais: o templo, o altar, o rei, o profeta, o sacerdote. Muitos poderiam concluir que tudo acabou. No entanto, a própria consciência de que foi o Senhor quem “cumpriu a sua palavra” preserva uma base: se Ele continua soberano na disciplina, também permanece soberano para restaurar. A ira não é o último capítulo da história divina, mas parte do caminho pelo qual Deus purifica e chama de volta um povo que se afastou. Espiritualmente, o lamento proposto aqui é um ato de retorno. Não é fuga da presença de Deus, mas confronto honesto com Ele: “Vê, ó Senhor, e considera a quem fizeste assim!” (v.20). Ao direcionar sua dor e suas perguntas ao Senhor, o povo não corta o vínculo com Ele, mas o reafirma. A alma, mesmo ferida, continua falando com Deus, reconhecendo que só Ele pode ver, considerar e, um dia, sarar a ferida “grande como o mar”. A perspectiva eterna que emerge, ainda que em sombras, é a de que a disciplina de Deus tem um propósito além do momento: purificar, despertar, redirecionar o coração. Lamentações 2 não oferece, por si só, a imagem completa da restauração, mas prepara o terreno para ela, mostrando a profundidade do problema que precisa ser curado. A alma é convidada a levar o pecado e o sofrimento com seriedade, a não banalizar a santidade de Deus e, ao mesmo tempo, a não abandonar a oração. Em meio à ruína, o derramar do coração diante do Senhor torna-se uma semente de esperança que aponta para um relacionamento com Deus que ultrapassa o juízo e olha para além dos muros derrubados, em direção à misericórdia que ainda virá.
" Como cobriu o Senhor de nuvens na sua ira a filha de Sião! Derrubou do céu à terra a glória de Israel, e não se lembrou do escabelo de seus pés, no dia da sua ira. "
" Devorou o Senhor todas as moradas de Jacó, e não se apiedou; derrubou no seu furor as fortalezas da filha de Judá, e abateu-as até à terra; profanou o reino e os seus príncipes. "
" No furor da sua ira cortou toda a força de Israel; retirou para trás a sua destra de diante do inimigo; e ardeu contra Jacó, como labareda de fogo que consome em redor. "
" Armou o seu arco como inimigo, firmou a sua destra como adversário, e matou tudo o que era formoso à vista; derramou a sua indignação como fogo na tenda da filha de Sião. "
" Tornou-se o Senhor como inimigo; devorou a Israel, devorou a todos os seus palácios, destruiu as suas fortalezas; e multiplicou na filha de Judá a lamentação e a tristeza. "
" E arrancou o seu tabernáculo com violência, como se fosse o de uma horta; destruiu o lugar da sua congregação; o Senhor, em Sião, pôs em esquecimento a festa solene e o sábado, e na indignação da sua ira rejeitou com desprezo o rei e o sacerdote. "
" Rejeitou o Senhor o seu altar, detestou o seu santuário; entregou na mão do inimigo os muros dos seus palácios; deram gritos na casa do Senhor, como em dia de festa solene. "
" Intentou o Senhor destruir o muro da filha de Sião; estendeu o cordel sobre ele, não retirou a sua mão destruidora; fez gemer o antemuro e o muro; estão eles juntamente enfraquecidos. "
" As suas portas caíram por terra; ele destruiu e quebrou os seus ferrolhos; o seu rei e os seus príncipes estão entre os gentios, onde não há lei, nem os seus profetas acham visão alguma do Senhor. "
" Estão sentados na terra, silenciosos os anciãos da filha de Sião; lançam pó sobre as suas cabeças, cingiram sacos; as virgens de Jerusalém abaixam as suas cabeças até à terra. "
" Já se consumiram os meus olhos com lágrimas, turbadas estão as minhas entranhas, o meu fígado se derramou pela terra por causa do quebrantamento da filha do meu povo; pois desfalecem o menino e a criança de peito pelas ruas da cidade. "
" Ao desfalecerem, como feridos, pelas ruas da cidade, ao exalarem as suas almas no regaço de suas mães, perguntam a elas: Onde está o trigo e o vinho? "
" Que testemunho te trarei? A quem te compararei, ó filha de Jerusalém? A quem te assemelharei, para te consolar, ó virgem filha de Sião? Porque grande como o mar é a tua quebradura; quem te sarará? "
" Os teus profetas viram para ti, vaidade e loucura, e não manifestaram a tua maldade, para impedirem o teu cativeiro; mas viram para ti cargas vãs e motivos de expulsão. "
" Todos os que passam pelo caminho batem palmas, assobiam e meneiam as suas cabeças sobre a filha de Jerusalém, dizendo: É esta a cidade que denominavam: perfeita em formosura, gozo de toda a terra? "
" Todos os teus inimigos abrem as suas bocas contra ti, assobiam, e rangem os dentes; dizem: Devoramo-la; certamente este é o dia que esperávamos; achamo-lo, vimo-lo. "
" Fez o Senhor o que intentou; cumpriu a sua palavra, que ordenou desde os dias da antiguidade; derrubou, e não se apiedou; fez que o inimigo se alegrasse por tua causa, exaltou o poder dos teus adversários. "
" O coração deles clamou ao Senhor: Ó muralha da filha de Sião, corram as tuas lágrimas como um ribeiro, de dia e de noite; não te dês descanso, nem parem as meninas de teus olhos. "
" Levanta-te, clama de noite no princípio das vigias; derrama o teu coração como águas diante da presença do Senhor; levanta a ele as tuas mãos, pela vida de teus filhinhos, que desfalecem de fome à entrada de todas as ruas. "
" Vê, ó Senhor, e considera a quem fizeste assim! Hão de comer as mulheres o fruto de si mesmas, as crianças que trazem nos braços? Ou matar-se-á no santuário do Senhor o sacerdote e o profeta? "
" Jazem por terra pelas ruas o moço e o velho, as minhas virgens e os meus jovens vieram a cair à espada; tu os mataste no dia da tua ira; mataste e não te apiedaste. "
" Convocaste os meus temores em redor como num dia de solenidade; não houve no dia da ira do Senhor quem escapasse, ou ficasse; aqueles que eu trouxe nas mãos e sustentei, o meu inimigo os consumiu. "
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