Esdras 9 - Significado, temas e aplicacao

Entenda os temas principais e aplique Esdras 9 na sua vida hoje

15 versiculos | Almeida Corrigida Fiel

Sobre o que e Esdras 9?

Esdras 9 descreve a crise espiritual que surge quando Esdras descobre que o povo, incluindo líderes e sacerdotes, se misturou com os povos pagãos por meio de casamentos, contrariando a lei de Deus. Chocado e profundamente entristecido, Esdras rasga suas vestes, se humilha em público e faz uma longa oração de confissão, reconhecendo o pecado coletivo, lembrando a graça recente de Deus após o exílio e suplicando para que o remanescente não volte à desobediência que já havia trazido juízo no passado.

Temas principais em Esdras 9

Pecado coletivo e responsabilidade comunitária (versiculos 9:1-2, 6-7)

O capítulo enfatiza que o pecado não é apenas individual. Toda a comunidade é afetada quando líderes e povo desobedecem a Deus. Esdras se inclui na confissão, mesmo não sendo diretamente culpado, mostrando senso de responsabilidade solidária.

Versiculos-chave: 2, 7

Arrependimento profundo e quebrantamento (versiculos 9:3-6)

A reação de Esdras é intensa: ele rasga as vestes, arranca cabelo e barba, se assenta atônito e depois se ajoelha em oração. Esse quadro mostra arrependimento sincero, dor pelo pecado e vergonha santa diante de Deus.

Versiculos-chave: 3, 5, 6

Graça de Deus para com o remanescente (versiculos 9:8-9, 13)

Mesmo depois de muita infidelidade, Deus concedeu um "pequeno momento" de graça, preservando um remanescente, permitindo o retorno do exílio, a reconstrução do templo e dando proteção em Judá e Jerusalém.

Versiculos-chave: 8, 9, 13

Separação do povo de Deus das práticas idólatras (versiculos 9:1-2, 11-12, 14)

O problema central não é apenas o casamento misto em si, mas a aliança com povos que praticavam abominações e idolatria, comprometendo a santidade e a fidelidade do povo à aliança.

Versiculos-chave: 1, 2, 11, 12, 14

Justiça de Deus e incapacidade humana de se justificar (versiculos 9:10, 13-15)

Esdras reconhece que Deus é justo e que o povo não tem argumentos para se defender. Eles permanecem diante de Deus culpados, dependendo inteiramente da misericórdia divina.

Versiculos-chave: 13, 15

Contexto historico e literario

Esdras 9 se passa após o retorno de parte do povo de Judá do cativeiro babilônico, durante o domínio persa. O templo já havia sido reconstruído (por volta de 516 a.C.) e, mais tarde, Esdras, escriba e sacerdote, chegou a Jerusalém com autorização do rei Artaxerxes da Pérsia para ensinar a lei de Deus e organizar a vida religiosa do povo.

O povo de Judá havia experimentado juízo severo: destruição de Jerusalém, do templo e décadas de exílio. O retorno e a reconstrução do templo foram vistos como um ato extraordinário da graça de Deus. Entretanto, ao chegar, Esdras é informado de que o povo, inclusive sacerdotes e levitas, contraiu casamentos com povos vizinhos que praticavam idolatria (cananeus, heteus, perizeus, jebuseus, amonitas, moabitas, egípcios, amorreus). Isso contrariava a lei dada por meio de Moisés e reafirmada pelos profetas, justamente porque essas alianças religiosas e familiares conduziam o coração do povo a outros deuses.

Esdras 9 registra a reação de Esdras diante desse quadro: ele reconhece que a mesma infidelidade que havia causado o exílio voltava a se repetir logo após o povo receber nova oportunidade. Esse contexto de pós-exílio, de reconstrução da identidade nacional e espiritual, torna a transgressão ainda mais grave, pois ameaça o propósito de Deus de manter um povo santo separado para si.

Estrutura de Esdras 9

Esdras 9 apresenta uma estrutura relativamente simples, mas muito intensa:

  1. Denúncia do pecado do povo (vv. 1-2)
    Os príncipes informam Esdras que o povo, sacerdotes e levitas não se separaram dos povos vizinhos, adotando suas abominações e estabelecendo casamentos mistos que maculam a "linhagem santa".

  2. Reação emocional e espiritual de Esdras (vv. 3-4)
    Esdras rasga suas vestes e o manto, arranca cabelo da cabeça e da barba, e se assenta atônito. Aqueles que temem a Palavra de Deus se juntam a ele, enquanto ele permanece assim até o sacrifício da tarde.

  3. Postura de humilhação e início da oração (v. 5)
    Próximo ao sacrifício da tarde, Esdras se levanta de sua aflição, ainda com as vestes rasgadas, se ajoelha e ergue as mãos ao Senhor, introduzindo sua oração de confissão.

  4. Confissão de pecado e reconhecimento da vergonha (vv. 6-7)
    Esdras reconhece a multidão das iniquidades, a culpa que se acumula até os céus e relembra como a história de Israel é marcada por infidelidade e juízo.

  5. Lembrança da graça recente de Deus (vv. 8-9)
    Ele destaca o "pequeno momento" de graça: Deus preservou um remanescente, concedeu vida na servidão, favoreceu o povo diante dos reis da Pérsia e permitiu a reconstrução do templo e a restauração da cidade.

  6. Reafirmação da desobediência à Palavra revelada (vv. 10-12)
    Esdras lembra os mandamentos dados por meio dos profetas sobre a impureza da terra e a proibição de dar e tomar filhas em casamento com os povos idólatras, apontando o contraste entre a orientação divina e a prática atual.

  7. Reflexão sobre a gravidade de reincidir no pecado (vv. 13-14)
    Após tudo o que aconteceu por causa das más obras, Esdras pondera a insensatez de voltar a violar os mandamentos de Deus, sugerindo que tal atitude poderia resultar na destruição total do remanescente.

  8. Conclusão: Deus é justo e o povo está culpado (v. 15)
    A oração termina com a afirmação da justiça de Deus e o reconhecimento de que ninguém pode permanecer de pé diante dele por causa dessa culpa. A tensão permanece em aberto, preparando o terreno para a resposta prática no capítulo seguinte.

Significado teologico

Esdras 9 é um texto central para compreender a seriedade da aliança entre Deus e seu povo, bem como a natureza do arrependimento bíblico.

Em primeiro lugar, o capítulo mostra que o pecado é, essencialmente, infidelidade à aliança e afastamento do padrão de santidade de Deus. Os casamentos com povos idólatras não são meros acordos sociais, mas alianças que envolvem fé, culto e lealdade espiritual. A "linhagem santa" não é simplesmente étnica, mas ligada à identidade do povo separado para Deus.

Em segundo lugar, o texto destaca a dimensão coletiva da culpa. Esdras confessa em primeira pessoa do plural: "nossas iniquidades", "nossa culpa". A teologia bíblica reconhece que há pecados estruturais e comunitários, em que toda a nação é afetada quando seus líderes e representantes se desviam.

Esdras 9 também ressalta a tensão entre juízo e graça. O povo já havia experimentado o juízo severo do exílio por causa de sua infidelidade, mas Deus, em sua graça, preservou um remanescente e concedeu nova oportunidade. A "graça por um pequeno momento" revela a paciência divina, mas também o perigo de menosprezar essa graça ao voltar aos mesmos pecados.

Outro ponto teológico importante é a confissão humilde sem tentativa de autojustificação. Esdras não argumenta mérito algum do povo, não culpa as circunstâncias nem minimiza a gravidade da transgressão. Ele simplesmente reconhece: Deus é justo; o povo é culpado e não tem como permanecer em pé por si mesmo. Essa postura antecipa a ênfase mais ampla da Escritura na necessidade de depender totalmente da misericórdia de Deus.

Por fim, a preocupação com a separação do povo de Deus, neste contexto, aponta para o chamado perene à santidade. Embora o contexto histórico e as aplicações práticas variem, o princípio teológico permanece: o povo de Deus é chamado a viver distinto dos padrões de idolatria, injustiça e impureza moral que o cercam, preservando assim a fidelidade à aliança e o testemunho diante das nações.

Aplicacao restauradora e de saude mental

Esdras 9 oferece um retrato intenso de dor espiritual, vergonha e arrependimento, útil para refletir sobre como lidar com culpa e falhas profundas em nível pessoal e comunitário.

Esdras reage ao pecado com forte expressão emocional: rasgar roupas, arrancar cabelos, ficar atônito. Essa linguagem de lamentação mostra que a Bíblia não ignora o impacto emocional do pecado e das rupturas espirituais. Há espaço legítimo para tristeza, perplexidade e até choque diante da gravidade da situação.

Ao mesmo tempo, o capítulo mostra um caminho saudável: Esdras não fica paralisado apenas na emoção; ele leva seu peso a Deus em oração. Em vez de negar, racionalizar ou culpar outros, ele admite a culpa com honestidade e se coloca diante de Deus em humildade. Esse modelo pode inspirar processos de cura em que a verdade é encarada, a responsabilidade é assumida e a restauração é buscada.

O destaque para o "pequeno momento" de graça também é terapêutico. Mesmo em meio a uma longa história de fracassos, o texto relembra intervenções de bondade divina, proteção e oportunidade de recomeço. Essa memória da graça impede o desespero absoluto e fortalece a esperança de transformação.

Por fim, a consciência de que Deus é justo e, ao mesmo tempo, não abandona o seu povo, oferece uma base estável para lidar com sentimentos de vergonha. A culpa é reconhecida, mas a identidade final do povo não é apenas a de culpados, e sim a de um remanescente preservado pela misericórdia divina.

warning Importante: maus usos comuns

Algumas leituras de Esdras 9 podem gerar interpretações emocionalmente prejudiciais se forem desconectadas do seu contexto e dos princípios mais amplos da Escritura.

  1. Culpa esmagadora e sem esperança: A linguagem de vergonha e de culpa é forte. Se isolada do reconhecimento da graça e da misericórdia de Deus, pode alimentar pensamentos de autodesprezo extremo, desespero e sensação de que não há perdão possível.

  2. Aplicações distorcidas sobre casamentos e etnias: O texto trata de alianças espirituais e idolatria, não de superioridade racial. Leituras equivocadas podem reforçar preconceitos, discriminação ou rejeição injusta de pessoas com base em origem étnica ou cultural.

  3. Responsabilização indevida: A ênfase na culpa coletiva pode ser mal usada para colocar sobre indivíduos um fardo por pecados que não cometeram, alimentando ansiedade, vergonha crônica ou sentimento de ser "amaldiçoado" por erros de gerações passadas.

  4. Intensidade emocional sem acolhimento: A reação dramática de Esdras pode inspirar práticas de autoacusação excessiva ou punição própria, se for entendida como modelo direto e obrigatório para qualquer arrependimento, em vez de ser vista no contexto histórico e cultural específico.

Por causa desses riscos, é importante ler o capítulo reconhecendo tanto a seriedade do pecado quanto a realidade da graça de Deus, evitando usar o texto para justificar abusos espirituais, controle pelo medo ou distorções que alimentem culpa tóxica.

Aplicacao pratica para hoje

Esdras 9 oferece princípios práticos que podem ser traduzidos para a vida atual:

  1. Levar a sério a influência espiritual dos relacionamentos
    As alianças que se formam — em família, amizade, namoro, casamento, parcerias — moldam valores, prioridades e fé. O capítulo lembra a importância de considerar o impacto espiritual dessas conexões para não ser conduzido a padrões que afastam de Deus.

  2. Reconhecer a realidade do pecado coletivo
    Falhas não são apenas individuais. Famílias, comunidades de fé e sociedades desenvolvem hábitos, estruturas e culturas que podem ser distantes da vontade de Deus. Esdras 9 incentiva a reconhecer essas dimensões coletivas e a buscar arrependimento também em nível comunitário.

  3. Praticar confissão honesta, sem autojustificação
    A oração de Esdras é um modelo de franqueza: não minimiza o pecado, não transfere a culpa, não negocia termos com Deus. Aplicado hoje, isso significa admitir erros com clareza, sem desculpas, buscando restauração.

  4. Lembrar a graça em meio à culpa
    Mesmo enquanto confessa a gravidade da situação, Esdras relembra a graça de Deus no passado recente. Essa memória da fidelidade divina ajuda a manter a esperança e protege contra o desespero, encorajando a buscar um recomeço em vez de permanecer preso ao passado.

  5. Discernir quando é hora de parar e lamentar
    Esdras interrompe a rotina, senta-se atônito até o sacrifício da tarde, e depois ora. Em tempos de crise moral ou espiritual, pode ser necessário interromper a normalidade, refletir, lamentar e buscar direção de Deus com seriedade.

  6. Valorização de líderes que tremem diante da Palavra
    Os que "tremiam das palavras do Deus de Israel" se ajuntam a Esdras. O texto destaca a importância de lideranças sensíveis à Palavra de Deus, dispostas a confrontar pecados incômodos por amor à santidade e à vida do povo.

Perguntas frequentes

Por que os casamentos mistos eram considerados tão graves em Esdras 9?

O problema não era uma questão étnica em si, mas espiritual. Os povos mencionados praticavam idolatria e abominações, enchendo a terra de corrupção. Ao casar com esses povos sem renúncia à idolatria, o povo de Israel se abria para adotar outros deuses e costumes contrários à lei de Deus. Esses casamentos criavam alianças religiosas e culturais que ameaçavam a fidelidade à aliança com o Senhor e colocavam em risco todo o propósito de manter um povo santo separado para Deus.

O que significa a expressão "linhagem santa" em Esdras 9:2?

A "linhagem santa" se refere ao povo que Deus separou para si, descendente das promessas feitas a Abraão, Isaque e Jacó, e chamado a viver em santidade. Não é apenas uma categoria biológica, mas teológica: um povo marcado pela aliança com Deus, com leis, culto e identidade espiritual distintos. A mistura com povos que adoravam outros deuses ameaçava essa identidade, diluindo a fidelidade à aliança e abrindo caminho para sincretismo e apostasia.

Por que Esdras reage com tanta intensidade (rasgando as vestes e arrancando cabelos)?

A reação de Esdras segue as práticas de luto e lamentação da antiguidade. Rasgar as vestes e arrancar cabelos expressava dor extrema, indignação santa e choque diante de uma situação grave. Isso mostra quanto ele percebia a seriedade da transgressão: o povo, recém-liberto do exílio por causa de pecados semelhantes, estava repetindo o mesmo padrão. Sua reação pública também funciona como um sinal para a comunidade, chamando atenção para a urgência de arrependimento.

O que Esdras quer dizer com "por um pequeno momento se manifestou a graça" (Esdras 9:8)?

Esdras está reconhecendo que, depois de muitos anos de juízo e exílio, Deus concedeu uma janela especial de favor: permitiu o retorno de um remanescente, a reconstrução do templo, a reorganização da vida espiritual e concedeu proteção diante dos reis da Pérsia. Esse "pequeno momento" de graça é uma oportunidade de recomeço, que não deveria ser desperdiçada com nova infidelidade. A expressão ressalta tanto a generosidade de Deus quanto a responsabilidade do povo em responder com obediência.

Por que Esdras fala em culpa desde os dias dos pais até aquele dia (Esdras 9:7)?

Ele está conectando o pecado atual à longa história de infidelidade do povo. Desde gerações anteriores, Israel se afastava repetidamente da lei de Deus, o que resultou em juízos sucessivos, culminando no exílio. Ao mencionar essa continuidade, Esdras mostra que o pecado presente não é um incidente isolado, mas parte de um padrão histórico. Isso torna ainda mais grave o fato de, mesmo depois do exílio e da restauração, o povo repetir a mesma desobediência que já havia trazido tanto sofrimento.

O que significa dizer que Deus é justo e que ninguém pode estar na presença dele (Esdras 9:15)?

Quando Esdras afirma que Deus é justo, ele reconhece que tudo o que Deus faz, incluindo o juízo, é correto e coerente com seu caráter santo. Ao dizer que ninguém pode estar diante dele por causa da culpa, Esdras admite que, diante da santidade divina e da realidade do pecado, o povo não tem defesa nem mérito próprio. Isso ressalta a total dependência da misericórdia de Deus: se Deus tratar o povo apenas com base no merecimento, ninguém permanece em pé. A esperança está justamente em que esse Deus justo também é misericordioso.

Perspectivas dos nossos guias espirituais

Heart
Heart

Esdras 9 revela um coração profundamente ferido ao perceber o quanto o povo se afastou de Deus logo depois de ter recebido tanto cuidado e restauração. A cena de Esdras rasgando as vestes, arrancando o cabelo e ficando sentado, atônito, mostra a dor de quem ama a Deus e ama o povo, e sofre ao ver essa relação machucada. É um capítulo carregado de vergonha, confusão e sensação de repetição de velhos erros. Esdras não se coloca de fora da dor; ele fala em "nossas" iniquidades e "nossa" culpa. Há um senso de identificação com a fragilidade coletiva, sem cinismo, mas com muito lamento. Isso mostra que, diante de pecados profundos — pessoais ou comunitários —, a Bíblia reconhece o peso emocional, a vergonha, a angústia. Não é um texto que normaliza o pecado, mas também não descarta aqueles que falharam: fala de um "remanescente" que ainda existe porque Deus, na sua benignidade, não abandonou o povo. No meio da confissão, a lembrança desse "pequeno momento" de graça é como um raio de luz: mesmo em culpa, o povo tinha sido preservado, protegido, tido seus olhos iluminados e recebido um pouco de vida na servidão. Em termos emocionais, isso significa que a história do povo não é definida apenas pelas falhas, mas também pelas intervenções de cuidado de Deus. O tom final do capítulo é pesado: "estamos diante de ti, na nossa culpa". É a experiência de ficar nu emocionalmente diante de Deus, sem máscara, sem justificativa. Mas esse reconhecimento sincero, embora doloroso, é também o começo de restauração. Esdras 9 valida o peso da culpa sincera, mas o coloca nas mãos de um Deus justo que, ao longo da história, vem demonstrando graça. Para corações quebrados, esse capítulo oferece um espaço onde lágrimas, vergonha e esperança podem coexistir diante de Deus.

Mind
Mind

Esdras 9 é um texto denso do ponto de vista teológico e histórico, articulado em torno da aliança e da identidade do povo pós-exílico. Do ponto de vista histórico, o capítulo se situa após o retorno do cativeiro babilônico, quando Judá está sob domínio persa. Já houve reconstrução do templo, e a missão de Esdras inclui ensinar a lei de Deus e reorganizar a vida religiosa. O grande problema exposto aqui é que, apesar da recente experiência de juízo e restauração, o povo volta a repetir a transgressão clássica do Antigo Testamento: misturar-se com povos idólatras e, consequentemente, comprometer a fidelidade ao Senhor. Exegética e teologicamente, é fundamental notar que o foco não é raça, mas religião e culto. Os povos citados (cananeus, amonitas, moabitas etc.) são conhecidos por práticas abomináveis. A proibição de casamentos com eles, reiterada pelos profetas e lembrada por Esdras (vv. 11–12), visa impedir que Israel adote sua idolatria. O termo "linhagem santa" (v. 2) é teológico: exprime a vocação do povo como propriedade exclusiva de Deus, chamado a ser distinto em ética, culto e lealdade espiritual. A reação de Esdras articula-se em duas partes: lamento performático (vv. 3–4) e oração teologicamente estruturada (vv. 5–15). A oração exibe características clássicas de confissão comunitária: uso do "nós" solidário, memória histórica do pecado (desde os pais até hoje), reconhecimento de juízo justo, contraste entre culpa e graça e ausência de autojustificação. A expressão "por um pequeno momento se manifestou a graça" (v. 8) é chave: ela destaca o pós-exílio como período de favor imerecido que não deveria ser desperdiçado. Esdras também trabalha com a categoria de remanescente (vv. 8, 13–15). Mesmo após o exílio, Deus preservou um grupo que mantém viva a aliança. A pergunta do v. 14 projeta um cenário hipotético extremo: se o povo insiste em violar a aliança, poderia chegar a um ponto em que nem remanescente restaria. Isso reforça a gravidade da reincidência. O clímax teológico está no v. 15: Deus é justo; o povo está culpado; ninguém pode permanecer de pé por mérito próprio. Essa tensão entre justiça divina, culpa humana e preservação graciosa do remanescente ecoa temas centrais da teologia bíblica, preparando o terreno para uma compreensão mais ampla da necessidade de intervenção divina soberana para que o povo de Deus permaneça existindo e fiel.

Life
Life

Esdras 9 toca em aspectos muito práticos da vida comunitária e dos relacionamentos, mostrando como decisões aparentemente pessoais podem ter impacto espiritual coletivo. O foco do capítulo são alianças comprometedoras. Os casamentos com povos que não compartilhavam a fé em Deus não eram apenas escolhas afetivas; eram parcerias que envolviam valores, crenças, práticas religiosas, hábitos familiares. O resultado era uma mistura de lealdades que enfraquecia a identidade espiritual do povo. Em termos práticos, isso chama atenção para o poder dos vínculos profundos: casamento, família, sociedades, amizades íntimas e alianças de confiança moldam o coração e as prioridades. A narrativa também evidencia o papel dos líderes. Príncipes e magistrados foram "os primeiros" na transgressão (v. 2). Quando quem lidera relativiza a obediência a Deus, todo o ambiente se torna mais permissivo com práticas distantes da vontade divina. Esdras, por outro lado, encarna o tipo de liderança que se incomoda, interrompe a rotina, lamenta e leva a questão a Deus com seriedade. Outro ponto prático é a forma como o erro é tratado. Esdras não finge que nada aconteceu, não suaviza a linguagem: fala em "iniquidades", "grande culpa", "más obras". Ao mesmo tempo, ele reconhece a graça: Deus deu vida, proteção, uma "estaca" no lugar santo, um espaço para recomeçar (vv. 8–9). Esse equilíbrio é extremamente útil na vida diária: reconhecer com clareza quando decisões e hábitos estão em rota contrária à vontade de Deus, mas, ao mesmo tempo, enxergar que ainda há oportunidades para correção de rumo. No contexto cotidiano, o capítulo sugere a necessidade de revisar influências que moldam escolhas: parcerias que envolvem compromissos éticos questionáveis, ambientes que normalizam injustiça ou idolatrias modernas (como poder, status, ganho a qualquer custo). A pergunta implícita é: que tipo de alianças estão sendo formadas, e qual o impacto disso sobre a fidelidade a Deus e a saúde espiritual de famílias e comunidades? Esdras 9, portanto, funciona como um chamado prático à vigilância nas escolhas de relacionamento, à responsabilidade dos líderes no exemplo que dão e à coragem de, quando necessário, parar, lamentar e reordenar a vida de acordo com o que Deus orienta em sua Palavra.

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Versiculos em Esdras 9

Esdras 9:1

" Acabadas, pois, estas coisas, chegaram-se a mim os príncipes, dizendo: O povo de Israel, os sacerdotes e os levitas, não se têm separado dos povos destas terras, seguindo as abominações dos cananeus, dos heteus, dos perizeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos egípcios, e dos amorreus. "

Esdras 9:2

" Porque tomaram das suas filhas para si e para seus filhos, e assim se misturou a linhagem santa com os povos dessas terras; e até os príncipes e magistrados foram os primeiros nesta transgressão. "

Esdras 9:3

" E, ouvindo eu tal coisa, rasguei as minhas vestes e o meu manto, e arranquei os cabelos da minha cabeça e da minha barba, e sentei-me atônito. "

Esdras 9:4

" Então se ajuntaram a mim todos os que tremiam das palavras do Deus de Israel por causa da transgressão dos do cativeiro; porém eu permaneci sentado atônito até ao sacrifício da tarde. "

Esdras 9:5

" E perto do sacrifício da tarde me levantei da minha aflição, havendo já rasgado as minhas vestes e o meu manto, e me pus de joelhos, e estendi as minhas mãos para o Senhor meu Deus; "

Esdras 9:6

" E disse: Meu Deus! Estou confuso e envergonhado, para levantar a ti a minha face, meu Deus; porque as nossas iniqüidades se multiplicaram sobre a nossa cabeça, e a nossa culpa tem crescido até aos céus. "

Esdras 9:7

" Desde os dias de nossos pais até ao dia de hoje estamos em grande culpa, e por causa das nossas iniqüidades somos entregues, nós e nossos reis e os nossos sacerdotes, na mão dos reis das terras, à espada, ao cativeiro, e ao roubo, e à confusão do rosto, como hoje se vê. "

Esdras 9:8

" E agora, por um pequeno momento, se manifestou a graça da parte do Senhor, nosso Deus, para nos deixar alguns que escapem, e para dar-nos uma estaca no seu santo lugar; para nos iluminar os olhos, ó Deus nosso, e para nos dar um pouco de vida na nossa servidão. "

Esdras 9:9

" Porque somos servos; porém na nossa servidão não nos desamparou o nosso Deus; antes estendeu sobre nós a sua benignidade perante os reis da Pérsia, para que nos desse vida, para levantarmos a casa do nosso Deus, e para restaurarmos as suas assolações; e para que nos desse uma parede de proteção em Judá e em Jerusalém. "

Esdras 9:11

" Os quais mandaste pelo ministério de teus servos, os profetas, dizendo: A terra em que entrais para a possuir, terra imunda é pelas imundícias dos povos das terras, pelas suas abominações com que, na sua corrupção a encheram, de uma extremidade à outra. "

Esdras 9:12

" Agora, pois, vossas filhas não dareis a seus filhos, e suas filhas não tomareis para vossos filhos, e nunca procurareis a sua paz e o seu bem; para que sejais fortes, e comais o bem da terra, e a deixeis por herança a vossos filhos para sempre. "

Esdras 9:13

" E depois de tudo o que nos tem sucedido por causa das nossas más obras, e da nossa grande culpa, porquanto tu, ó nosso Deus, impediste que fôssemos destruídos, por causa da nossa iniqüidade, e ainda nos deste um remanescente como este; "

Esdras 9:14

" Tornaremos, pois, agora a violar os teus mandamentos e a aparentar-nos com os povos destas abominações? Não te indignarias tu assim contra nós até de todo nos consumir, até que não ficasse remanescente nem quem escapasse? "

Esdras 9:15

" Ah! Senhor Deus de Israel, justo és, pois ficamos qual um remanescente que escapou, como hoje se vê; eis que estamos diante de ti, na nossa culpa, porque ninguém há que possa estar na tua presença, por causa disto. "

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