Ezequiel 9 - Significado, temas e aplicacao

Entenda os temas principais e aplique Ezequiel 9 na sua vida hoje

11 versiculos | Almeida Corrigida Fiel

Sobre o que e Ezequiel 9?

Ezequiel 9 descreve uma visão severa de juízo sobre Jerusalém. Seis executores são convocados por Deus, junto com um homem vestido de linho que recebe a missão de marcar aqueles que lamentam o pecado da cidade. Os demais são entregues ao juízo, começando pelo próprio santuário. Ezequiel intercede, mas o Senhor confirma a gravidade da maldade do povo e a necessidade do julgamento, enquanto preserva os que foram marcados.

Temas principais em Ezequiel 9

Juízo divino sobre o pecado coletivo (versiculos 1-7, 9-10)

A cidade e o povo, inclusive os líderes religiosos, são atingidos pelo juízo de Deus por causa da violência, sangue derramado e perversidade generalizada. O juízo é amplo e imparcial, porque o pecado contaminou toda a sociedade.

Versiculos-chave: 5, 6, 9, 10

Preservação dos que lamentam o pecado (versiculos 3-4, 6, 11)

Antes da destruição, Deus manda marcar nas testas aqueles que suspiram e gemem por causa das abominações de Jerusalém. Mesmo em meio à ira, está presente a misericórdia que distingue os que permanecem fiéis e sensíveis ao mal.

Versiculos-chave: 4, 6, 11

A glória de Deus e o santuário como ponto de partida (versiculos 2-3, 6-7)

A glória de Deus se move do querubim para a entrada da casa, sinalizando um momento decisivo. O juízo começa pelo santuário, mostrando que Deus cobra primeiro daqueles que deveriam ser exemplo de santidade e adoração verdadeira.

Versiculos-chave: 3, 6, 7

A falsa ideia de abandono divino (versiculos 9-10)

O povo dizia: "O Senhor abandonou a terra, e o Senhor não vê". Essa crença distorcida alimentou a injustiça e a violência. O capítulo mostra que Deus vê, se importa e responde ao mal, mesmo quando parece silencioso.

Versiculos-chave: 9

Intercessão e resposta de Deus (versiculos 8-11)

Ezequiel cai com o rosto em terra e clama, temendo a destruição total de Israel. Deus responde explicando a grandeza da maldade e reafirmando o juízo, mas o relato do homem vestido de linho indica que a ordem de preservar os marcados foi obedecida.

Versiculos-chave: 8, 11

Contexto historico e literario

Ezequiel 9 faz parte da grande visão que começa em Ezequiel 8, durante o exílio babilônico. Ezequiel era um sacerdote levado cativo para Babilônia em 597 a.C., junto com outros líderes de Judá. Enquanto isso, em Jerusalém, ainda existia um restante de população sob o domínio babilônico, mas persistiam a idolatria, a injustiça e a autoconfiança religiosa. A visão mostra o que Deus via acontecendo no templo e na cidade: abominações no culto, violência na terra e uma crença de que o Senhor tinha abandonado a terra. O capítulo antecipa o cerco e a destruição de Jerusalém e do templo em 586 a.C. pelos babilônios. Os seis homens com armas e o homem vestido de linho simbolizam agentes celestiais executando o decreto divino. O altar de bronze citado é o altar dos holocaustos no átrio do templo, local de sacrifícios, que agora se torna cenário de juízo. O fato de o juízo começar pelo santuário reflete a responsabilidade especial dos sacerdotes e líderes religiosos, que deveriam ter guardado a aliança, mas se corromperam juntamente com o povo.

Estrutura de Ezequiel 9

O capítulo tem uma estrutura visionária clara e progressiva:

  1. Convocação dos executores do juízo (9:1-2)
  • Uma voz poderosa chama os "intendentes da cidade" com armas destruidoras.
  • Seis homens aparecem, junto com um sétimo personagem, o homem vestido de linho com tinteiro.
  • Eles se posicionam junto ao altar de bronze, ligando o juízo ao lugar de culto.
  1. Movimento da glória de Deus e ordem de marcar os que lamentam (9:3-4)
  • A glória do Deus de Israel se levanta do querubim e vai até a entrada da casa.
  • O Senhor se dirige ao homem de linho, ordenando que ele atravesse Jerusalém e marque na testa os que gemem por causa das abominações.
  1. Ordem de executar o juízo sem piedade aparente (9:5-7)
  • Aos outros seis é dada a ordem de seguir pela cidade e ferir, sem poupar nem se compadecer.
  • O juízo é abrangente: velhos, jovens, virgens, meninos e mulheres.
  • Há uma exceção explícita: não tocar em quem tem o sinal.
  • O juízo começa pelo santuário e se expande para a cidade, enchendo os átrios de mortos.
  1. Lamento intercessor de Ezequiel (9:8)
  • Restando sozinho após a visão do massacre, Ezequiel cai com o rosto em terra.
  • Ele clama, com temor de que Deus destrua todo o restante de Israel ao derramar sua indignação sobre Jerusalém.
  1. Justificativa divina do juízo (9:9-10)
  • Deus responde, descrevendo a grandiosidade da maldade de Israel e Judá.
  • A terra está cheia de sangue e a cidade cheia de perversidade.
  • O povo, em sua cegueira espiritual, afirma que o Senhor abandonou a terra e não vê.
  • Deus declara que também não poupará nem se compadecerá, fazendo recair sobre eles o seu próprio caminho.
  1. Relato de obediência do homem vestido de linho (9:11)
  • O homem que tinha o tinteiro volta com um relatório simples e solene: "Fiz como me mandaste".
  • A cena encerra com a confirmação de que a proteção sobre os que foram marcados foi devidamente aplicada.

Significado teologico

Ezequiel 9 apresenta temas teológicos centrais ligados ao caráter de Deus, à responsabilidade humana e ao conceito de remanescente fiel.

  1. Deus é santo e justo A visão destaca a santidade de Deus e sua intolerância ao pecado institucionalizado. A maldade não é apenas individual, mas estrutural: a terra está cheia de sangue e a cidade de perversidade. O fato de o juízo começar pelo santuário mostra que Deus exige pureza, sobretudo de quem está mais próximo do culto e da liderança espiritual. A justiça divina não é impulsiva, mas resposta a um acúmulo de rebelião e desprezo.

  2. Juízo e misericórdia atuando juntos Embora o capítulo tenha um tom predominantemente de juízo, a ordem de marcar os que lamentam o pecado revela que a misericórdia não desaparece. Deus distingue entre os que se acostumaram com o mal e os que sofrem por causa dele. A marca nas testas simboliza proteção divina, antecipando temas posteriores de selamento e preservação de um remanescente.

  3. Responsabilidade moral e autodecepção O povo dizia que o Senhor abandonou a terra e não vê. Essa teologia distorcida servia de justificativa para o pecado. O texto ensina que Deus vê a violência, o sangue inocente e a perversidade, mesmo quando a sociedade age como se Ele estivesse ausente. O juízo "sobre a cabeça deles farei recair o seu caminho" reforça o princípio de que cada um colhe as consequências do seu próprio caminho.

  4. O remanescente que geme pelas abominações Os homens e mulheres que suspiram e gemem se tornam um retrato do remanescente fiel. Eles não são descritos como perfeitos, mas como sensíveis ao pecado coletivo. Do ponto de vista teológico, apontam para aqueles que compartilham da visão de Deus sobre o mal, não se acomodam à injustiça e aguardam a restauração.

  5. A glória de Deus em movimento O deslocamento da glória de Deus do querubim para a entrada da casa é parte de um processo maior, descrito nos capítulos seguintes, de retirada progressiva da presença divina do templo. Teologicamente, isso indica que o culto formal não garante a presença de Deus quando o coração do povo está corrompido. A verdadeira segurança não está no edifício, mas na aliança obedecida.

  6. Intercessão em meio ao juízo O clamor de Ezequiel mostra a tensão entre o horror diante do juízo e o reconhecimento da justiça de Deus. A intercessão não impede o juízo necessário, mas revela que o coração profético se alinha com a compaixão de Deus, mesmo quando Ele disciplina o seu povo. Esse padrão ecoa a intercessão de outros servos de Deus ao longo da história bíblica.

Aplicacao restauradora e de saude mental

Em termos de cuidado emocional, Ezequiel 9 confronta a dor diante do juízo, da violência e da perda, ao mesmo tempo em que reafirma que Deus vê tudo o que é injusto. Para quem lida com a sensação de que o mal vence sem consequências, o capítulo oferece uma visão de que Deus não é indiferente ao sangue derramado nem à perversidade social. Por outro lado, o texto pode ser perturbador, especialmente para quem já sofreu violência ou lida com imagens de punição severa.

Há um contraste marcante entre os que se acostumaram com o pecado e os que gemem por causa dele. Em uma leitura terapêutica, esses “gemidos” representam a experiência de quem sofre ao ver injustiças, corrupção e idolatrias modernas, e sente que sua dor é ignorada. O capítulo sugere que essa sensibilidade não é fraqueza, mas alinhamento com o coração de Deus.

O selo sobre os que lamentam comunica segurança em meio ao caos: mesmo quando estruturas desabam, Deus distingue, conhece e protege os que se mantêm sensíveis ao bem e ao mal. A resposta de Deus a Ezequiel mostra que Ele permite que o profeta expresse sua angústia, inclusive seu temor de destruição total. A dor, o espanto e o lamento não são silenciados, mas colocados diante de Deus.

Em uma perspectiva de saúde emocional, o capítulo encoraja a reconhecer a gravidade do mal, sem minimizar, mas também a confiar que a justiça última não depende apenas das estruturas humanas. O lamento se torna um caminho legítimo para processar a realidade dura, ao invés de negá-la ou endurecer o coração.

warning Importante: maus usos comuns

O conteúdo de Ezequiel 9 é intenso e pode acionar gatilhos em diferentes áreas:

  • Imagens de violência e morte: a linguagem de matar velhos, jovens, virgens, meninos e mulheres pode ser muito difícil para pessoas com histórico de trauma, abuso, violência doméstica, guerra ou perdas violentas.
  • Ideias de punição severa: pode despertar medo religioso excessivo em quem já luta com culpa intensa, escrúpulos religiosos (scrupulosity) ou imagem distorcida de Deus apenas como castigador.
  • Linguagem de ausência de compaixão: expressões como "não poupe" e "não me compadecerei" podem ser mal interpretadas fora do contexto, reforçando visões de rejeição ou abandono, especialmente em pessoas com histórico de abandono afetivo ou espiritual.
  • Juízo começando pelo santuário: pode ser perturbador para quem foi ferido em contextos religiosos ou por líderes espirituais, reativando lembranças dolorosas de abusos ou disciplina religiosa rígida.

Em leituras pessoais ou em grupo, é importante considerar estes pontos. Pessoas emocionalmente fragilizadas podem precisar de acompanhamento sensível ao explorar textos de juízo, com ênfase no contexto maior da Bíblia, no caráter completo de Deus (justiça e amor) e na presença de graça mesmo em meio à disciplina.

Aplicacao pratica para hoje

Ezequiel 9, embora seja uma visão ligada a um momento específico da história de Israel, oferece princípios práticos para a vida diária:

  1. Levar o pecado e a injustiça a sério O capítulo mostra que Deus não trata a violência, a corrupção e a idolatria como algo leve. Em termos práticos, inspira a cultivar uma consciência desperta em relação à injustiça social, violência contra inocentes, corrupção e práticas que desonram a Deus. Em vez de normalizar ou relativizar, o texto aponta para uma postura de responsabilidade e arrependimento.

  2. Ser parte do grupo que "geme" e não do que se acostuma Os marcados são definidos como aqueles que suspiram e gemem pelas abominações. Na prática, isso se traduz em pessoas que não se acostumam ao mal. Em um mundo saturado de notícias de violência e imoralidade, o coração pode endurecer. O capítulo incentiva a manter sensibilidade, compaixão e lamento responsável, em vez de cinismo ou apatia.

  3. Buscar coerência entre culto e vida O juízo começa pelo santuário, mostrando que religiosidade externa sem integridade não sustenta. Em termos concretos, a fé professada no culto precisa se expressar na ética, nas relações, no trabalho e no uso do poder. O texto motiva a examinar se há duplicidade: uma vida pública religiosa e práticas privadas ou sociais contrárias ao caráter de Deus.

  4. Reconhecer que Deus vê, ainda que pareça ausente A frase "o Senhor não vê" reflete uma mentira que alimentou a maldade em Jerusalém. Hoje, a sensação de impunidade ou abandono também pode levar à descrença ou ao desespero. O capítulo convida a viver com a consciência de que Deus vê, conhece e responderá ao mal, o que fortalece a integridade mesmo quando ninguém parece observar.

  5. Praticar o lamento como resposta saudável ao mal Os que são preservados não são descritos como ativistas poderosos, mas como pessoas que gemem diante de Deus. Na prática, isso incentiva o uso do lamento, da oração sincera e da confissão comunitária como respostas legítimas ao pecado coletivo e às crises sociais, em vez de apenas indignação vazia ou indiferença.

  6. Valorizar a responsabilidade pessoal A ideia de que o caminho de cada um recai sobre a própria cabeça lembra que escolhas têm consequências. Em nível pessoal, o texto reforça a importância de decisões éticas, arrependimento genuíno e busca de transformação, não apenas por medo de punição, mas por alinhamento com a santidade de Deus.

Perguntas frequentes

Quem são os seis homens com armas e o homem vestido de linho em Ezequiel 9?

Os seis homens com armas destruidoras e o homem vestido de linho são figuras simbólicas que representam agentes celestiais de juízo e preservação. Os seis executores são encarregados de ferir a cidade, enquanto o homem vestido de linho, com um tinteiro à cintura, tem a missão de marcar os que lamentam o pecado. A roupa de linho e o tinteiro evocam a imagem de um escriba ou oficial sagrado, ligado à ordem e ao registro, indicando que nada do que Deus faz é arbitrário ou desorganizado.

O que significa a marca na testa dos que gemem pelas abominações?

A marca na testa simboliza proteção e distinção. Antes que o juízo caia sobre Jerusalém, Deus ordena que sejam marcadas as pessoas que não se acomodaram ao pecado, mas suspiram e gemem por causa das abominações. A marca mostra que Deus conhece e separa aqueles que compartilham do seu olhar sobre o mal. Em toda a Bíblia, imagens de selos e marcas nas testas apontam para proteção espiritual e pertença a Deus, ainda que o texto aqui trate de um evento específico no contexto do juízo sobre Jerusalém.

Por que o juízo começa pelo santuário em Ezequiel 9?

O juízo começar pelo santuário mostra que Deus responsabiliza primeiro os que estão mais próximos do culto e da liderança espiritual. O templo deveria ser o centro da fidelidade à aliança, mas havia se tornado lugar de abominações. Ao iniciar ali, Deus revela que privilégio espiritual traz maior responsabilidade. Isso ecoa em outros textos bíblicos que afirmam que o juízo começa pela casa de Deus e que quem muito recebeu, mais será cobrado.

Como conciliar a falta de compaixão aparente neste capítulo com o amor de Deus?

A linguagem de Ezequiel 9 é forte porque descreve um momento extremo, após longa história de rebeldia, idolatria e violência. Quando Deus diz que não poupará nem se compadecerá, o foco está na necessidade de um juízo que interrompa a injustiça e o derramamento de sangue. O mesmo Deus que disciplina é o Deus que, em outros textos, se mostra paciente, tardio em irar-se e abundante em misericórdia. Aqui, a ênfase está no limite da tolerância divina ao mal persistente. Mesmo assim, a ordem de marcar e preservar os que lamentam o pecado mostra que a misericórdia não está ausente, mas atua juntamente com a justiça.

O que Ezequiel 9 ensina sobre a ideia de que Deus abandonou a terra?

O povo dizia: "O Senhor abandonou a terra, e o Senhor não vê". Essa frase revela uma crença que alimentava a injustiça: se Deus não vê, tudo é permitido. Ezequiel 9 corrige essa percepção, mostrando que Deus vê o sangue derramado, a perversidade e as abominações. O juízo descrito é justamente a prova de que Deus não abandonou a terra, mas responde ao mal de forma justa. O capítulo ensina que a aparente ausência de Deus não significa indiferença, e que a história está, sim, sob seu olhar e governo.

Perspectivas dos nossos guias espirituais

Heart
Heart

Ezequiel 9 é um dos capítulos mais duros de se ler, porque mergulha em imagens de juízo e perda. No entanto, mesmo nesse cenário pesado, há um fio de cuidado que não se rompe: Deus manda marcar aqueles que suspiram e gemem por causa do pecado. Esses gemidos são ouvidos. O sofrimento de quem olha ao redor, vê injustiça, idolatria e violência, e se entristece profundamente, não passa despercebido. Há, também, a figura de Ezequiel caindo com o rosto em terra, angustiado com a possibilidade de destruição total. Essa reação não é reprimida nem condenada. A dor diante do juízo, o choque com a gravidade da situação, o lamento pelo povo são parte legítima da experiência diante de Deus. O coração sensível do profeta não é um problema a ser corrigido, mas um reflexo da compaixão que o próprio Deus tem, mesmo quando disciplina. Dentro dessa visão, Deus não minimiza o mal que enche a terra de sangue. Ele não trata a violência como algo pequeno ou suportável. Para quem sente o peso de viver em um mundo injusto, esse capítulo mostra que a indignação de Deus é ainda mais profunda. Ao mesmo tempo, a marca sobre os que lamentam comunica que, no meio do caos, Ele distingue, conhece e guarda. A sensibilidade à maldade, a recusa em se acostumar com o que desonra a Deus e fere o próximo, é vista por Ele como algo precioso. O texto não oferece respostas simples para toda a dor, mas abre espaço para o lamento honesto, para o choro diante do que está errado. Entre linhas tão severas, permanece a verdade de que Deus se importa com quem sofre por amor à justiça e guarda, com cuidado, aqueles que se alinham ao seu coração.

Mind
Mind

Ezequiel 9 se insere na sequência de visões iniciada em Ezequiel 8, onde são reveladas as abominações cometidas em Jerusalém, especialmente no templo. Literariamente, o capítulo é construído como uma cena judicial e militar, na qual a cidade é tratada como uma área a ser inspecionada e julgada. Os "intendentes da cidade" com armas destruidoras funcionam como uma espécie de guarda executora celestial. A presença do homem vestido de linho com tinteiro sugere uma função administrativa e sagrada, possivelmente remetendo a sacerdotes ou oficiais do templo, e a escribas que registram decisões divinas. A ordem de marcar os que gemem pelas abominações remete a práticas antigas de selar e identificar aqueles que pertencem ou são preservados, antecipando temas desenvolvidos em outros livros proféticos e apocalípticos. Do ponto de vista teológico, é significativo que a glória de Deus se mova do querubim para a entrada da casa (9:3). Esse deslocamento se relaciona com o processo posterior de afastamento da glória do templo (Ezequiel 10–11), apontando para a retirada da presença divina por causa da infidelidade do povo. O templo, que deveria ser centro da presença e da bênção, torna-se ponto de partida do juízo. O mandamento de matar sem distinção aparente (velhos, jovens, virgens, meninos e mulheres) deve ser lido como linguagem visionária e simbólica que enfatiza a totalidade do juízo, não como instrução para ação humana. A única distinção relevante no texto é espiritual: quem é marcado, preserva-se; quem não é, participa do juízo. A condição para a marca não é um conjunto explícito de obras, mas a postura de lamento diante do pecado coletivo. A justificativa divina no verso 9 expõe dois eixos principais da acusação: violência (sangue derramado) e perversidade (injustiça, idolatria, corrupção moral), sustentadas pela teologia distorcida de que Deus abandonou a terra e não vê. A resposta divina corrige essa visão e reafirma o princípio de retribuição: "sobre a cabeça deles farei recair o seu caminho". O capítulo, assim, reforça a coerência interna da justiça de Deus ao longo do livro de Ezequiel: Ele age de acordo com a conduta do povo, preservando um remanescente que se mantém alinhado ao seu caráter.

Life
Life

Ezequiel 9, embora descreva uma visão específica de juízo sobre Jerusalém, toca em questões muito práticas da vida em sociedade. A cidade é descrita como cheia de sangue e de perversidade, sustentada pela ideia de que Deus não vê. Em termos de vida diária, isso se parece com contextos onde a impunidade, a corrupção e a violência são tão comuns que muitos acabam se acostumando ou se aproveitando delas, acreditando que não haverá consequências. Os que são marcados, porém, não são os mais fortes ou influentes, mas os que "suspiram e gemem" por causa das abominações. Isso aponta para um grupo que se recusa a normalizar o mal. Em ambientes de trabalho, famílias, comunidades e até instituições religiosas, esse texto ressalta a importância de manter a consciência desperta: não aderir à mentira, à injustiça ou ao abuso só porque são comuns ou vantajosos. O fato de o juízo começar pelo santuário traz um alerta para a coerência entre discurso e prática. Não adianta uma fachada de espiritualidade se, na prática, as mesmas injustiças e perversidades acontecem dentro de ambientes que se dizem de fé. Em termos práticos, isso se conecta com ética em liderança, transparência no uso de recursos, respeito às pessoas e integridade no exercício de autoridade. A frase "o Senhor não vê" é extremamente atual. Ela se traduz em atitudes como: "ninguém vai descobrir", "todo mundo faz", "não vai dar em nada". O capítulo mostra que viver com essa mentalidade é construir sobre areia. Por outro lado, viver com a convicção de que Deus vê inspira escolhas diferentes: recusar atalhos desonestos, cuidar do próximo, denunciar abusos quando possível, e permanecer fiel mesmo sem aplausos. A marca dos que lamentam o pecado sugere uma forma de proteção ligada à postura do coração e às escolhas. Na prática, a pessoa que se alinha com o caráter de Deus, que se entristece com o mal em vez de se beneficiar dele, caminha em outra direção. Ainda que não esteja livre de dificuldades, está posicionada do lado daquilo que, a longo prazo, permanece em pé quando tudo o mais entra em colapso.

Soul
Soul

Ezequiel 9 coloca em foco a seriedade do encontro entre a santidade de Deus e a rebeldia persistente do ser humano. Espiritualmente, o capítulo lembra que a história não é neutra: caminha em direção a um acerto de contas, em que Deus julga o que é injusto e violento e preserva aqueles que se alinham ao seu coração. A imagem da marca na testa dos que gemem remete a um princípio espiritual profundo: Deus conhece, distingue e sela aqueles que lhe pertencem. A falsa crença de que "o Senhor abandonou a terra, e o Senhor não vê" é, em si, uma tentação espiritual recorrente. Quando o mal parece dominar, nasce a impressão de que Deus se afastou. E quando essa ideia se instala, abre espaço para a entrega ao pecado, ao cinismo ou ao desespero. Ezequiel 9 corrige essa distorção afirmando que Deus vê a totalidade da realidade, inclusive aquilo que é escondido, e responderá de maneira justa. O remanescente descrito no capítulo não é definido por posição social, mas por uma atitude espiritual: eles sofrem por ver Deus desonrado e o próximo ferido. Essa postura de lamento se aproxima do que, em outras partes da Escritura, é chamado de "tributo de coração quebrantado". Em termos de formação espiritual, trata-se de uma sensibilidade que se recusa a se adaptar ao pecado, permitindo que o coração permaneça maleável diante de Deus. A retirada progressiva da glória de Deus do templo, da qual este capítulo faz parte, aponta para uma verdade duradoura: não é o lugar físico, nem a tradição por si só, que garantem a presença de Deus, mas a fidelidade ao pacto com Ele. Espiritualmente, isso leva à pergunta sobre onde está, de fato, a confiança última: em estruturas humanas ou na relação viva com o Deus santo e justo. À luz da revelação mais ampla das Escrituras, o juízo severo de Ezequiel 9 prepara o terreno para a compreensão da necessidade de uma salvação mais profunda, que transforme o coração. A marca dos que lamentam antecipa a realidade de pessoas seladas por Deus para a vida, não por mérito próprio, mas por uma relação de pertença e fidelidade. Em perspectiva eterna, esse capítulo convida a escolher, ainda agora, estar entre os que se alinham com a santidade de Deus e esperam a restauração final em que justiça e paz caminharão juntas.

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Versiculos em Ezequiel 9

Ezequiel 9:1

" Então me gritou aos ouvidos com grande voz, dizendo: Fazei chegar os intendentes da cidade, cada um com as suas armas destruidoras na mão. "

Ezequiel 9:2

" E eis que vinham seis homens a caminho da porta superior, que olha para o norte, e cada um com a sua arma destruidora na mão, e entre eles um homem vestido de linho, com um tinteiro de escrivão à sua cintura; e entraram, e se puseram junto ao altar de bronze. "

Ezequiel 9:3

" E a glória do Deus de Israel se levantou de sobre o querubim, sobre o qual estava, indo até a entrada da casa; e clamou ao homem vestido de linho, que tinha o tinteiro de escrivão à sua cintura. "

Ezequiel 9:4

" E disse-lhe o Senhor: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela. "

Ezequiel 9:5

" E aos outros disse ele, ouvindo eu: Passai pela cidade após ele, e feri; não poupe o vosso olho, nem vos compadeçais. "

Ezequiel 9:6

" Matai velhos, jovens, virgens, meninos e mulheres, até exterminá-los; mas a todo o homem que tiver o sinal não vos chegueis; e começai pelo meu santuário. E começaram pelos homens mais velhos que estavam diante da casa. "

Ezequiel 9:8

" Sucedeu, pois, que, havendo-os ferido, e ficando eu sozinho, caí sobre a minha face, e clamei, e disse: Ah! Senhor DEUS! dar-se-á caso que destruas todo o restante de Israel, derramando a tua indignação sobre Jerusalém? "

Ezequiel 9:9

" Então me disse: A maldade da casa de Israel e de Judá é grandíssima, e a terra se encheu de sangue e a cidade se encheu de perversidade; porque dizem: O Senhor abandonou a terra, e o Senhor não vê. "

Ezequiel 9:10

" Pois, também, quanto a mim, não poupará o meu olho, nem me compadecerei; sobre a cabeça deles farei recair o seu caminho. "

Ezequiel 9:11

" Eis que o homem que estava vestido de linho, a cuja cintura estava o tinteiro, tornou com a resposta, dizendo: Fiz como me mandaste. "

Aviso importante: Esta orientacao biblica nao substitui cuidados profissionais de saude mental. Se voce estiver com sintomas de crise, entre em contato com o 988 (National Suicide Prevention Lifeline) ou procure ajuda profissional imediata.