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Tito 3:1 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Almeida Corrigida Fiel

" Admoesta-os a que se sujeitem aos principados e potestades, que lhes obedeçam, e estejam preparados para toda a boa obra; "

Tito 3:1

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1 Admoesta-os a que se sujeitem aos principados e potestades, que lhes obedeçam, e estejam preparados para toda a boa obra;

2 Que a ninguém infamem, nem sejam contenciosos, mas modestos, mostrando toda a mansidão para com todos os homens.

3 Porque também nós éramos noutro tempo insensatos, desobedientes, extraviados, servindo a várias concupiscências e deleites, vivendo em malícia e inveja, odiosos, odiando-nos uns aos outros.

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auto_stories Comentário Bible Guided

Aqui está a quarta parte das instruções desta epístola. Paulo já havia dito a Tito como tratar dos deveres específicos de diferentes tipos de pessoas. Agora ele o orienta a insistir naquilo que é dever de todos em comum: calma, submissão às autoridades, prontidão para fazer o bem e um tratamento bondoso e justo para com todas as pessoas. Essas coisas combinam com a verdadeira religião e a fazem parecer bela. Por isso, Tito deve continuar lembrando os crentes dessas obrigações.

Os ministros são como lembretes vivos do dever do povo. Assim como intercedem a Deus pelo povo (Isaías 62:6), também falam da parte de Deus ao povo na pregação: não deixar de trazê-los sempre à lembrança (2 Pedro 1:12). Esquecer o dever é uma fraqueza comum, por isso as pessoas precisam ser despertadas vez após vez. Paulo então passa a nomear os deveres em si e os motivos para eles.

Em primeiro lugar, é necessário sujeitar-se aos principados, potestades e magistrados, e obedecer às autoridades. O governo é uma ordenação de Deus para o bem comum, portanto deve ser respeitado e acatado por todos. Essa obediência não deve vir apenas do medo da punição, mas ser voluntária, porque a consciência a exige. Por “principados, potestades e magistrados”, Paulo entende todos os governantes civis, tanto os mais altos como os inferiores, sob qualquer forma de governo em que se viva.

Os cristãos eram caluniados como se a sua fé os tornasse maus cidadãos, contrários aos reis e à ordem pública, prontos para a rebelião. Para silenciar essa ignorância insensata e fechar bocas maliciosas, os cristãos devem oferecer exemplos claros de submissão e obediência corretas ao governo sob o qual vivem. O desejo natural de liberdade precisa ser guiado e limitado pela Escritura e pelo bom senso. Privilégios espirituais não anulam deveres civis; ao contrário, os fortalecem.

Em segundo lugar, devem estar preparados para toda boa obra. Alguns entendem isso como as boas obras requeridas pelos governantes e que sustentam a ordem pública e a paz. Isso está incluído, mas Paulo tem mais em mente. Ele fala de todo tipo de boas obras, em toda ocasião, seja para com Deus, para conosco mesmos ou para com o próximo, tudo o que traga honra à fé neste mundo.

Devemos pensar em tudo o que é verdadeiro, honroso, justo, puro, amável e de boa fama, e então praticar e apoiar tais coisas (Filipenses 4:8). Ser apenas inofensivo, ter boas palavras e boas intenções não basta sem boas obras. A religião pura e imaculada consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo (Tiago 1:27). Não devemos apenas aceitar as oportunidades de fazer o bem quando aparecem, mas procurá-las, permanecer prontos para elas e aproveitá-las de boa vontade.

Em terceiro lugar, devem não difamar ninguém. A ideia é não caluniar, amaldiçoar ou insultar pessoa alguma. De forma mais ampla, significa não falar mal injustamente, falsamente ou sem necessidade, especialmente quando isso pode causar dano e nenhum bem. Se nada de bom pode ser dito, é melhor ficar calado do que falar mal sem motivo justo. Não devemos ter prazer em conversas maldosas sobre os outros, nem pintar as coisas da pior forma quando poderíamos, com justiça, interpretá-las da melhor maneira.

Não devemos andar como fofoqueiros, carregando histórias prejudiciais que mancham o nome do próximo e quebram o amor cristão. Insinuações falsas, suposições injustas sobre as motivações alheias, ou acusações de hipocrisia sem conhecimento claro, tudo isso está incluído nessa advertência. Esse pecado é comum e muito prejudicial. Se alguém parece ser religioso, mas não refreia a língua, a sua religião é vã (Tiago 1:26).

Esse falar descuidado e duro desagrada a Deus e fere as pessoas. “O que encobre a transgressão procura a amizade, mas o que renova a questão separa os maiores amigos” (Provérbios 17:9). Aquele que espalha faltas alheias destrói amizades e provoca divisões. Esse está entre os pecados que os crentes devem abandonar (Efésios 4:31), pois, se for permitido crescer, torna as pessoas impróprias para a comunhão cristã aqui e para a companhia abençoada do céu (1 Coríntios 6:10).

Em quarto lugar, não devem ser briguentos, isto é, não devem ser pessoas dadas à luta, seja com as mãos, seja com a língua. Cristãos não devem ser contenciosos, sempre prontos a responder asperamente ou a provocar os outros. Há sim um modo correto de contender pelo que é bom e importante, mas isso deve ser feito com um espírito adequado, não com ira nem com força destrutiva. Os cristãos devem seguir o que promove a paz e fazê-lo de maneira pacífica, como servos do Deus de paz e amor (Romanos 12:19).

“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus” é a regra cristã. É sábio e correto evitar a pronta retaliação. “Glória do homem é desviar-se da contenda.” Uma pessoa sensata, e especialmente um cristão cuja razão é moldada pela fé, não deve imediatamente atacar quem o ofendeu. Antes, à semelhança de Deus, deve ser tardio em irar-se e pronto a perdoar.

As contendas e brigas brotam das paixões desordenadas das pessoas, que precisam ser contidas, não alimentadas. Os cristãos precisam ser lembrados disso, para não desonrarem a Deus nem enfraquecerem a fé por um espírito quente e litigioso. Também não devem semear discórdias onde vivem. “O longânimo é melhor do que o valente, e o que governa o seu espírito do que o que toma uma cidade” (Provérbios 16:32).

Por isso Paulo acrescenta que devem ser moderados, cordatos e razoáveis. Isso envolve ser franco e justo ao julgar as coisas, não interpretar palavras e ações da pior forma possível. Inclui também ceder um pouco do próprio direito estrito quando a paz assim o pede. E devem mostrar toda mansidão para com todos os homens. Ou seja, um espírito brando, não só no coração, mas também na fala e na conduta. Essa mansidão deve aparecer em todos os casos, não apenas com amigos, mas para com todos, sem deixar de lado a prudência, como ensina Tiago (Tiago 3:13).

Devemos distinguir entre a pessoa e o pecado, lamentando a situação da pessoa e odiando o pecado. Devemos também distinguir entre pecados diferentes, sem tratar tudo como se fosse igual, pois há faltas menores e maiores.

Devemos ainda fazer diferença entre um pecador e outro. Alguns precisam de compaixão, enquanto outros devem ser salvos com temor, como se fossem arrancados do fogo (Judas 1:22-23). Essas obrigações precisam ser mantidas em mente. A sabedoria que vem do alto é pura, pacífica, moderada e tratável. Um espírito manso e um comportamento gentil tornam a fé atraente. São uma imitação ordenada de Cristo, nosso grande exemplo, e trazem sua própria recompensa, na paz interior e nas bênçãos que os acompanham.

Esses são os deveres que Tito devia lembrar ao povo. Em seguida Paulo apresenta as razões para eles, e a primeira vem da nossa antiga condição. Considerar o que as pessoas são por natureza é um forte motivo para agir com equidade, paciência e bondade para com os que ainda não foram convertidos. Isso ajuda a derrubar o orgulho e a despertar piedade e esperança. Nós mesmos fomos assim no passado, pecadores e corrompidos; portanto, não devemos ser duros, amargos ou severos com outros que estão apenas onde nós já estivemos.

Paulo descreve essa antiga condição de várias maneiras. Também nós, em outro tempo, éramos insensatos, sem verdadeiro entendimento espiritual e ignorantes das coisas celestiais. Quem se lembra da própria insensatez deve estar mais disposto a suportar a insensatez dos outros. Também éramos desobedientes, teimosos e pouco inclinados a ser persuadidos. Resistíamos à palavra de Deus e até íamos contra as leis naturais que Ele gravou na vida humana. É grande loucura desobedecer a Deus, pois isso contraria a reta razão e o nosso verdadeiro bem.

Também estávamos enganados, desviados do caminho da verdade e da santidade. Em nosso estado caído, somos inclinados a vaguear, como ovelhas perdidas que precisam ser buscadas e reconduzidas (Salmo 119:176). Somos fracos e facilmente iludidos pelas mentiras de Satanás e por pessoas que tentam nos desviar. Servíamos a várias concupiscências e prazeres, como escravos de senhores cruéis. As pessoas pensam que uma vida carnal é liberdade, mas a Escritura a chama de escravidão. O pecado promete liberdade, mas quem se entrega a ele se torna servo da corrupção, pois o homem é escravo daquilo que o domina.

Paulo acrescenta que vivíamos em malícia e inveja. A malícia deseja o mal ao próximo e se compraz nele. A inveja se entristece com o bem do outro e se incomoda com o seu sucesso. Essas são raízes de amargura, das quais brotam muitos males, como maus pensamentos, más palavras e discursos que ferem a boa fama do próximo. Foi o pecado de Satanás e de Caim, que era do maligno e matou seu irmão porque as suas obras eram más e as do irmão, justas. Em nosso estado natural, também nós fomos assim um dia.

Paulo continua dizendo que éramos odiosos e nos odiávamos uns aos outros. Quem vive no pecado é odioso para Deus e para todas as pessoas verdadeiramente piedosas, embora a pessoa em si não seja odiável no mesmo sentido que os seus caminhos e o seu temperamento pecaminosos. Uma das misérias dos pecadores é que se odeiam entre si. Em contraste, é dever e também alegria dos crentes amarem-se uns aos outros. Lembrando o que fomos, devemos ser mais pacientes, mansos, humildes e compassivos para com os que ainda estão nessa condição.

A segunda razão vem do nosso estado presente. Fomos tirados daquela condição miserável, mas não por qualquer mérito ou força em nós. Foi somente pela misericórdia e pela graça livre de Deus, pelo valor de Cristo e pela obra do Espírito. Portanto, não temos motivo, em relação a nós mesmos, para condenar os que ainda não se converteram. Antes, devemos ter compaixão deles e alimentar esperança por eles, pois também podem alcançar misericórdia, assim como nós a alcançamos. Em seguida, Paulo volta a expor as causas da nossa salvação (Tito 3:4-7).

Primeiro, ele mostra o autor principal da nossa salvação, Deus Pai, aqui chamado de Deus nosso Salvador. Todas as coisas procedem de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Jesus Cristo (2 Coríntios 5:18). Tudo o que diz respeito à nova criação e ao resgate de pessoas caídas para a vida e a bem-aventurança vem de Deus Pai como aquele que planeja e inicia a obra. Há uma ordem nesse agir, assim como há ordem no próprio ser de Deus: o Pai inicia, o Filho executa, e o Espírito Santo aplica e completa. Deus Pai salva por meio de Cristo e pelo Espírito. Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (João 3:16). Ele é o Pai de Cristo e, por meio de Cristo, é o Pai das misericórdias. Todas as bênçãos espirituais vêm dele por meio de Cristo (Efésios 1:3). Nele nos gloriamos por meio de nosso Senhor Jesus Cristo (Romanos 5:11), e com um só ânimo e uma só boca glorificamos a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo (Romanos 15:5).

Em segundo lugar, Paulo indica a nascente, a fonte desta salvação: a bondade e o amor de Deus para com a humanidade.

Pela graça somos salvos do começo ao fim. Esse é o grande fundamento e motivo de tudo. A compaixão e a misericórdia de Deus para com pessoas miseráveis foram, por assim dizer, a primeira roda, ou melhor, o Espírito nas rodas, que pôs tudo em movimento e mantém tudo em movimento. Deus não é, nem pode ser, impelido por algo fora de si mesmo.

A necessidade está em nós, isto é, em nossa miséria e ruína. O pecado traz essa miséria, de modo que poderia ter vindo ira em vez de compaixão. Contudo, Deus, que sabe harmonizar todas as coisas com a própria honra e bondade, escolheu ter pena e salvar em vez de destruir. Ele se agrada da misericórdia. Onde o pecado abundou, superabundou a graça. Lemos sobre as riquezas da bondade e da misericórdia de Deus (Romanos 2:4; Efésios 2:7). Reconheçamos isso e dêmos a ele a glória, não transformando tal graça em licença para viver dissolutamente, mas em gratidão e obediência.

Aqui está o meio, ou instrumento, da salvação: o resplendor do amor e da graça de Deus no evangelho, quando essa graça apareceu na palavra. A manifestação desse amor e dessa graça tem grande poder, pelo Espírito, para amolecer corações, mudar vidas e converter pessoas a Deus. Dessa forma, o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê.

Assim, depois de mostrar que Deus é o autor, que a graça livre é a fonte e que a revelação dessa graça no evangelho é o meio, Paulo remove os falsos fundamentos e motivos. Não é “por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia” que ele nos salvou. Não por causa de obras que Deus teria previsto em nós, e sim por sua própria graça e misericórdia soberanas. As boas obras precisam estar presentes nos que são salvos, sempre que houver espaço para elas, mas não são a causa da salvação. São o caminho do reino, não o preço que o compra. Tudo se apoia no favor imerecido e na misericórdia de Deus do começo ao fim.

A eleição, isto é, a escolha de Deus, é pela graça. Somos escolhidos para sermos santos, não porque Deus tenha primeiro visto que seríamos santos (Efésios 1:4). A santidade é o resultado, não a razão da eleição: “Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). O mesmo vale para a vocação eficaz, o chamado de Deus que de fato traz uma pessoa à fé. Nesse chamado, a eleição irrompe e se torna visível: “Ele nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos” (2 Timóteo 1:9).

Somos justificados, isto é, declarados justos diante de Deus, gratuitamente pela graça (Romanos 3:24), e também somos santificados e salvos pela graça: “Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Efésios 2:8). A fé e toda graça que salva são dom livre de Deus e sua obra. O início, o crescimento e a perfeição delas na glória vêm todos dele. Na edificação das pessoas como templo santo para Deus, da fundação à pedra final, nada mais podemos dizer senão: “Graça, graça a ela.” Não é por obras, para que ninguém se glorie. É pela graça, para que aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.

Aqui está a causa formal da salvação, isto é, aquilo em que a salvação consiste pelo menos em seu começo: a regeneração, ou renovação espiritual. As coisas velhas passam, e tudo se faz novo, não no corpo, mas na vida moral e espiritual. Continua sendo a mesma pessoa, mas com novas disposições e hábitos. Caminhos maus são removidos, ao menos quanto ao seu domínio e poder, e todos os vestígios que restam deles serão removidos com o tempo, quando a obra for completada no céu. Um novo princípio dominante de graça e santidade é implantado, que inclina, dirige e governa a pessoa, fazendo dela um novo homem, uma nova criatura. Ela passa a ter novos pensamentos, desejos e afetos, e um novo padrão santo de vida e ação. Esta é a vida de Deus na pessoa, não apenas vinda de Deus de modo especial, mas voltada para ele e em movimento em direção a ele.

Esta é a salvação começada, e aquilo que Deus começa ele certamente levará a termo. Por isso a Escritura pode falar dela como coisa já feita: “Ele nos salvou.” O que é certo de ser concluído no tempo muitas vezes é descrito como se já estivesse completo. Precisamos dar atenção a isso agora, sem demora. Se quisermos ter bom fundamento para esperar a salvação plena no céu, devemos ser salvos deste modo inicial agora, pela regeneração. Então a mudança será de grau, não de natureza. A graça é a glória em começo, e a glória é a graça levada à perfeição.

Poucos dão real importância a isso. A maioria age como se tivesse medo de ser feliz cedo demais. Dizem querer o céu no fim, mas não querem santidade agora. Em outras palavras, desejam o término sem o começo. Assim são insensatos os pecadores. Sem regeneração, a primeira ressurreição, não se chega à segunda, gloriosa, a ressurreição dos justos. Aqui está, portanto, a salvação interior, a nova vida divina produzida pelo evangelho.

Aqui também está o sinal e selo exteriores disso no batismo, razão pela qual ele é chamado de “lavagem da regeneração”. A obra em si é interior e espiritual, mas é mostrada externamente e selada nessa ordenança. A água, por sua natureza, lava e remove a sujeira; por isso foi apropriada para representar a remoção da culpa e da impureza do pecado pelo sangue e pelo Espírito de Cristo, embora essa adequação natural, por si só, não bastasse sem a instituição de Cristo. É isso que faz do batismo, do lado de Deus, um selo da justiça que vem pela fé, como a circuncisão foi antes, e, do nosso lado, um compromisso de que pertencemos ao Senhor. Desse modo, o batismo salva de forma figurada e sacramental, quando é bem usado.

“Levanta-te, recebe o batismo e lava os teus pecados, invocando o nome do Senhor” (Atos 22:16). E ainda: “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” (Efésios 5:26). Não desprezes este sinal e selo exteriores, quando podes recebê-lo segundo o mandamento de Cristo. Mas não te contentes com a lavagem externa. Considera a resposta de uma boa consciência, sem a qual a lavagem de fora nada significa.

A aliança selada no batismo envolve deveres, além de conceder benefícios e privilégios. Se os deveres são ignorados, é inútil esperar os benefícios. Não se deve separar o que Deus uniu. No batismo, o aspecto externo e o interno pertencem juntos. Assim como o circuncidado se tornava responsável por guardar toda a lei (Gálatas 5:3), o batizado fica ligado ao evangelho, para obedecer a todos os seus mandamentos e ordenanças estabelecidos por Cristo. Ele ordenou que se fizessem discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que ele ordenou (Mateus 28:19-20).

Aqui está, então, o sinal e selo exterior da salvação: o batismo, chamado de “lavagem da regeneração”.

Aqui também está a causa principal em operação, o Espírito de Deus, pois é “a renovação do Espírito Santo”. Isso não exclui o Pai e o Filho, que atuam juntos em todas as suas obras para fora de si mesmos. Também não exclui o uso dos meios, como a Palavra e os sacramentos, por meio dos quais o Espírito opera. É pelo poder dele que esses meios se tornam eficazes para a salvação. Na obra da nossa salvação, atribui-se especialmente ao Espírito o aplicar e efetivar essa salvação. Diz-se que nascemos do Espírito, somos vivificados e santificados pelo Espírito, e somos guiados, conduzidos, fortalecidos e ajudados por ele.

Por meio dele mortificamos o pecado, cumprimos nosso dever e andamos nos caminhos de Deus. Todas as ações e operações da vida divina em nós, e todas as obras e frutos de justiça ao nosso redor, procedem desse bendito e santo Espírito. Por isso ele é chamado de Espírito de vida, de graça e de santidade. Toda graça procede dele.

Devemos, portanto, buscá-lo com fervor e dar-lhe atenta consideração, para que não extingamos seus santos impulsos nem resistamos à sua obra. O Espírito é sensível, e o modo como lidamos com ele influencia o modo como ele procederá conosco. Se desprezarmos, resistirmos e lutarmos contra a sua atuação, ele a diminuirá. Se continuarmos a entristecê-lo, ele se retirará. “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção” (Efésios 4:30). O Espírito sela renovando e santificando, isto é, tornando-nos novos e santos, além de testemunhar e assegurar-nos. Ele marca os crentes para a salvação e os prepara para ela. Essa é sua obra, pois não poderíamos nos voltar para Deus por nossa própria força, assim como não poderíamos ser justificados por nossa própria justiça.

Temos aqui também o modo como Deus concede esse Espírito, com os dons e graças que o acompanham, não de modo escasso, mas livre e abundantemente. “Ele o derramou sobre nós ricamente.” Sob o evangelho, é dada uma medida maior do Espírito, em seus dons e graças, do que foi dada sob a lei. Por isso o evangelho é chamado de ministério do Espírito (2 Coríntios 3:8). Deus concedeu à sua igreja alguma medida do Espírito em todas as épocas, mas há um derramamento mais pleno nos tempos do evangelho, desde a vinda de Cristo, do que havia antes.

A lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. Isso significa uma comunicação mais rica de graça, como as promessas e profecias já tinham anunciado. Deus prometeu derramar água sobre o sedento e rios sobre a terra seca, derramar seu Espírito sobre a descendência de seu povo e sua bênção sobre a sua posteridade (Isaías 44:3). Essa é a maior e melhor bênção: um derramamento de graça e dos santos dons do Espírito. Ele prometeu ainda derramar seu Espírito sobre toda carne (Joel 2:28), não apenas sobre judeus, mas também sobre gentios. Isso haveria de acontecer nos tempos do evangelho, e assim aconteceu (Atos 2:17-18; Atos 2:33). Pedro declarou que Cristo, ressuscitado e exaltado, havia recebido do Pai a promessa do Espírito Santo e derramado aquilo que todos ali viam e ouviam. O mesmo se deu em Atos 10:44-45, quando o Espírito Santo caiu sobre todos os que ouviam a Palavra, gentios e judeus.

Isso se manifestou, em grande medida, por meio de dons milagrosos do Espírito Santo, mas não sem sua graça santificadora, que acompanhava muitos, senão todos, esses dons. Houve então grande abundância de dons comuns, como entendimento, chamado exterior, profissão e fé em sentido geral. Houve também dons mais especiais de santificação, como fé, esperança, amor e outras graças do Espírito. Devemos buscar nossa parte nessas coisas. De que adiantará se muito for derramado e nós permanecermos secos? Nossa culpa só será maior se ficarmos sem graça sob tão rica manifestação de graça. O apóstolo ordena: “Enchei-vos do Espírito”. Isso é ao mesmo tempo dever e privilégio, pois Deus nos deu os meios do evangelho, que ele está pronto para abençoar e tornar eficazes. É assim que Deus concede graça e toda bênção espiritual sob o evangelho, ricamente. A limitação não está em Deus para conosco, mas em nós mesmos diante dele.

Aqui está a fonte de tudo isso: Jesus Cristo, nosso Salvador. Por meio dele recebemos o Espírito e seus dons e graças salvadoras. Tudo nos vem por meio dele, e dele enquanto Salvador, cuja obra é conduzir-nos à graça e à glória. Ele é nossa justiça e nossa paz, e nosso cabeça, de quem recebemos toda vida espiritual e toda influência. Deus o constituiu nossa sabedoria, justiça, santificação e redenção. Portanto, devemos louvar a Deus por ele acima de tudo. Devemos chegar ao Pai por meio dele e recorrer a ele para todo objetivo santo e salvador. Se temos graça, demos graças ao Pai, ao Filho e ao Espírito por isso. Consideremos todo o mais como perda e como refugo, em comparação com o valor de conhecê-lo, e prossigamos nesse conhecimento, cada vez mais.

Aqui estão também os fins para os quais somos introduzidos nesse novo estado espiritual: justificação, herança e esperança da vida eterna. “Para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros, segundo a esperança da vida eterna.” Justificação, em sentido evangélico, é Deus perdoar livremente o pecador e aceitá-lo como justo, mediante a justiça de Cristo recebida pela fé. Isso significa que a culpa é removida, juntamente com a punição que ela merecia, e a pessoa é aceita e tratada como justa diante de Deus. Deus faz isso gratuitamente para nós, mas por meio do sacrifício e da justiça de Cristo, que a fé se apropria (Romanos 3:20 e seguintes). “Pelas obras da lei nenhuma carne será justificada”, mas sim pela “justiça de Deus” que vem pela fé em Jesus Cristo para todos os que creem. Somos “justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus”, que Deus propôs como propiciação, sacrifício que afasta a ira, pela fé em seu sangue, para demonstrar sua justiça no perdão dos pecados, a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus (Romanos 3:24).

Ao justificar o pecador pelo caminho do evangelho, Deus é gracioso para com o pecador e, ao mesmo tempo, justo para consigo mesmo e para com sua lei. O perdão vem por meio de uma justiça perfeita, e a justiça divina é satisfeita por Cristo, que é a propiciação pelo pecado, não por qualquer mérito no pecador. É isso que se ensina aqui: “Não pelas obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia nos salvou, para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros, segundo a esperança da vida eterna.” É pela graça como fonte e origem, como já foi dito, embora pela redenção em Cristo como o caminho aberto para nós, com a lei e a justiça de Deus satisfeitas, e mediante a fé que se apropria dessa redenção. “Por ele” — por Cristo — “todo aquele que crê é justificado de todas as coisas de que pela lei de Moisés não pudestes ser justificados” (Atos 13:39). Por isso o apóstolo desejava ser achado em Cristo, não tendo a sua própria justiça, que procede da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus pela fé.

Não devemos, portanto, confiar em nossa própria justiça nem em qualquer mérito das boas obras, mas somente na justiça de Cristo, recebida pela fé, para justificação e aceitação diante de Deus. Precisamos de justiça interior e do fruto dela em obras de obediência. Mas isso não é nossa justiça justificadora perante Deus. São fruto da justificação, prova de que pertencemos a Cristo, preparação para a vida e a felicidade, e até o início e parte dessa própria vida. Ainda assim, a obtenção de tudo isso vem por meio de Cristo, a fim de que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros.

Note-se isto: nossa justificação vem pela graça de Deus, e essa justificação pela graça é necessária para que nos tornemos herdeiros da vida eterna. Sem essa justificação, não há adoção como filhos e, portanto, nenhum direito de herdar.

A todos quantos receberam a Cristo, isto é, a todos os que creram em seu nome, Deus concedeu o direito de se tornarem filhos de Deus (João 1:12). A vida eterna nos é oferecida na promessa. O Espírito opera em nós a fé e a esperança dessa vida. Assim somos feitos herdeiros dela e, de certo modo, já temos uma participação presente nela. Fé e esperança a trazem para perto de nós e nos enchem de alegria na expectação segura do que há de vir.

O mais humilde dos crentes é um herdeiro riquíssimo. Ainda que não tenha em mãos, por enquanto, toda a sua herança, tem boa esperança pela graça e pode permanecer firme em meio a toda aflição. Um estado muito melhor o aguarda. Ele espera uma herança que não pode ser destruída, nem manchada, nem murchar, reservada nos céus para ele. Que consolo palavras assim devem trazer ao coração.

Tudo isso é um forte motivo para mostrarmos mansidão para com todas as pessoas. Já recebemos tanto da benignidade e do amor de Deus, e podemos esperar que elas, no tempo de Deus, venham a participar da mesma graça que nós recebemos. Por isso os cristãos devem tratar os outros com igual conduta gentil, mansa e terna. Devem lembrar-se da sua própria má condição no passado e do estado mais feliz para o qual a graça de Deus os trouxe, não porque o merecessem. A mesma graça pode trazer outros também.

O apóstolo, depois de expor os deveres dos cristãos em geral, com as razões que decorrem da sua própria condição, acrescenta outro motivo tirado da sua utilidade e bondade para com o próximo. Note-se que, logo após falar da graça de Deus para conosco, ele imediatamente insiste na necessidade das boas obras. Não devemos esperar o proveito da misericórdia de Deus se não formos cuidadosos em cumprir nosso dever (Tito 3:8). Esta é uma palavra fiel, e estas coisas devem ser constantemente afirmadas, isto é, este é o verdadeiro ensino cristão de máxima importância, e os ministros devem insistir nele. Os que creram em Deus não devem imaginar que uma fé nua e vazia irá salvá-los. A fé precisa ser viva e ativa, produzindo o fruto da justiça. Devem empenhar-se em manter boas obras, não só praticando-as quando a ocasião aparece, mas procurando ocasiões de praticá-las.

Estas coisas são boas e úteis aos homens. Alguns entendem que isto se refere às próprias boas obras; outros, ao ensino destas verdades, em contraste com discussões inúteis. Em qualquer dos casos, o sentido é que tais coisas são boas em si mesmas, e o seu ensino é proveitoso à humanidade, tornando as pessoas úteis aos outros nos lugares onde vivem. Os ministros, ao ensinar, devem assegurar-se de apresentar o que é sadio e bom em si, e o que é proveitoso aos que ouvem. Tudo deve ter em vista a edificação das pessoas e das comunidades.

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