Salmos 78 - Significado, temas e aplicação

Entenda os temas principais e aplique Salmos 78 na sua vida hoje

72 versículos | Almeida Corrigida Fiel

Sobre o que é Salmos 78?

Salmo 78 é um salmo didático e histórico que relembra a trajetória de Israel desde o Egito até a escolha de Davi e de Sião. O salmista convoca o povo a ouvir e transmitir às próximas gerações as obras poderosas de Deus, contrastando a fidelidade divina com a repetida infidelidade de Israel. O texto enfatiza a necessidade de confiança, obediência e memória das ações de Deus, mostrando tanto o juízo quanto a misericórdia do Senhor ao longo da história.

Temas principais em Salmos 78

Memória e transmissão da fé às próximas gerações (versículos 1-8)

O salmo começa com um chamado para ouvir e ensinar a lei e as obras de Deus aos filhos e netos. A fé não deve ser ocultada, mas comunicada, para que cada geração ponha sua esperança em Deus e não repita os erros do passado.

Versículos-chave: 4, 7

Infidelidade humana diante da fidelidade de Deus (versículos 9-11, 17-22, 32-37, 56-58)

Mesmo após verem milagres no Egito, no deserto e na conquista da terra, os israelitas repetidamente duvidaram, reclamaram e se afastaram da aliança. O salmo descreve esse ciclo de pecado, juízo temporário, busca superficial por Deus e nova queda.

Versículos-chave: 11, 22, 37

As obras poderosas de Deus na história de Israel (versículos 12-16, 23-29, 43-55)

São lembrados o êxodo, a travessia do mar, o maná, as codornizes, a água da rocha, as pragas do Egito, a condução pelo deserto, a derrota dos inimigos e a distribuição da terra. Tudo aponta para o poder, o cuidado e a soberania de Deus.

Versículos-chave: 13, 24, 52

Juízo disciplinador de Deus (versículos 21, 31-33, 49-51, 59-64)

O salmo mostra que Deus não ignora a rebeldia: há fogo, morte, pestilência, derrota em batalha e perda do tabernáculo como consequências da infidelidade. Contudo, esse juízo tem caráter pedagógico e corretivo, não meramente destrutivo.

Versículos-chave: 31, 59

Misericórdia perseverante de Deus (versículos 38-39, 52-55, 65-72)

Apesar da teimosia do povo, Deus muitas vezes contém sua ira, perdoa, lembra-se da fragilidade humana e continua conduzindo Israel como um rebanho. O salmo termina com a escolha de Judá, Sião e Davi como expressão da graça divina.

Versículos-chave: 38, 72

Escolha de Sião e de Davi (versículos 67-72)

Depois de rejeitar Efraim e Siló, Deus escolhe a tribo de Judá, o monte Sião e Davi, o pastor que guiaria o povo com integridade de coração e habilidade. Essa escolha aponta para uma nova fase da liderança espiritual e política de Israel.

Versículos-chave: 68, 70, 72

Contexto histórico e literario

Salmo 78 é atribuído a Asafe, ligado ao serviço musical do santuário. É um “masquil”, um cântico de instrução, que usa a história de Israel como lição teológica. O salmo percorre episódios desde a escravidão no Egito, passando pelo êxodo, travessia do mar Vermelho, peregrinação pelo deserto, concessão do maná e das codornizes, a água da rocha, as pragas do Egito e a entrada na terra prometida. Fala também de Siló, local onde o tabernáculo esteve por um tempo, e da tribo de Efraim, que representava o norte e, em certo período, a liderança tribal. A referência ao abandono de Siló e à rejeição de Efraim, seguida da escolha de Judá, Sião e Davi, sugere um contexto posterior à instauração da monarquia davídica, talvez em um tempo em que era necessário reafirmar a legitimidade de Sião e da casa de Davi frente à infidelidade do reino do norte. O salmo funciona como uma catequese nacional: relembra a história para formar o coração do povo, advertir contra a rebeldia e ressaltar a fidelidade de Deus, apesar da constante oscilação de Israel entre obediência e idolatria.

Estrutura de Salmos 78

Salmo 78 tem estrutura extensa e organizada em blocos temáticos que alternam narrativa histórica e reflexão teológica:

  1. Convite à escuta e propósito didático (vv. 1-8)

    • Chamado ao povo para ouvir a lei.
    • Anúncio de parábolas e enigmas do passado.
    • Ênfase em ensinar os feitos de Deus às gerações futuras para que ponham nele a esperança.
  2. Exemplo de Efraim e esquecimento das obras de Deus (vv. 9-11)

    • Referência simbólica aos filhos de Efraim que fogem na batalha.
    • Destaca-se a quebra da aliança e o esquecimento das maravilhas divinas.
  3. Maravilhas no Egito e no deserto, e rebeldia no deserto (vv. 12-31)

    • Descrição dos milagres: divisão do mar, coluna de nuvem e fogo, água da rocha.
    • Relato da reclamação por carne, da descrença e da ira divina que atinge os mais fortes.
  4. Ciclo de juízo e religiosidade superficial (vv. 32-39)

    • Mesmo após sinais e juízo, o povo continua pecando.
    • Quando castigados, buscam a Deus, mas com lábios falsos e coração desviado.
    • Destaca-se a misericórdia divina que se lembra da fragilidade humana.
  5. Repetidas provocações e esquecimento das libertações (vv. 40-55)

    • Reconta-se a provocação no deserto e o “limitar” o Santo de Israel.
    • Memória das pragas do Egito e do livramento do povo, conduzido como rebanho.
  6. Infidelidade na terra, rejeição de Siló e juízo sobre Israel (vv. 56-64)

    • O povo volta a tentar e provocar a Deus na própria terra.
    • Deus rejeita o tabernáculo de Siló e entrega o povo ao inimigo, com graves perdas.
  7. Intervenção de Deus, derrota dos inimigos e escolha de Judá e Davi (vv. 65-72)

    • Deus “desperta” como um guerreiro e humilha os adversários.
    • Rejeição de José/Efraim e escolha de Judá, Sião e Davi.
    • Davi é apresentado como pastor íntegro que guia Israel com coração e habilidade.

O salmo alterna narrativa, reflexão e avaliação moral, funcionando quase como um sermão histórico-poético.

Significado teológico

Teologicamente, o Salmo 78 destaca a importância da memória e da transmissão da fé. A história de Israel não é apenas registro de eventos, mas testemunho do caráter de Deus e espelho da condição humana. A insistência em “não se esquecer” das obras divinas mostra que o esquecimento espiritual é raiz de incredulidade e rebeldia.

O salmo ressalta a aliança: Deus estabelece testemunho e lei (v. 5) para que o povo viva em confiança e obediência. A infidelidade não anula a fidelidade de Deus, mas traz disciplina severa. O juízo divino é apresentado como resposta justa à quebra de aliança, ao mesmo tempo em que a misericórdia se destaca quando Deus “muitas vezes desviou deles o seu furor” (v. 38).

A visão de Deus é complexa e completa: poderoso em sinais e juízos, cuidador que conduz como pastor, e ao mesmo tempo paciente, lembrando-se de que o ser humano é “vento que passa e não volta” (v. 39). A tensão entre a santidade que julga e a graça que perdoa percorre todo o salmo.

A escolha de Judá, Sião e Davi aponta para o modo como Deus conduz sua história redentora. Após a infidelidade ligada a Efraim e Siló, Deus estabelece um novo centro de adoração e liderança. Davi aparece como figura de pastor-rei ideal, que conduz com integridade de coração e perícia nas mãos (v. 72), antecipando a ideia de um governante segundo o coração de Deus. Teologicamente, isso prepara terreno para a expectativa de um reinado justo e estável fundamentado na escolha soberana de Deus.

O salmo ainda mostra que a verdadeira busca por Deus não é apenas reação ao sofrimento. A religiosidade que nasce apenas do medo do juízo é retratada como lisonja e mentira (vv. 34-36). Deus procura corações retos e fidelidade profunda, não apenas palavras religiosas.

Aplicação restauradora e de saúde mental

Salmo 78 oferece um panorama consolador e confrontador para a saúde emocional e espiritual. Mostra um Deus que conhece a fraqueza humana e, mesmo diante da repetição de erros, escolhe muitas vezes poupar, perdoar e conduzir. Isso pode aliviar sentimentos de culpa paralisante, lembrando que Deus considera a fragilidade e não se surpreende com a limitação humana.

O salmo também trabalha com a importância da memória: relembrar livramentos, provisões e intervenções do passado fortalece a confiança e evita cair em desespero presente. A narrativa dos altos e baixos de Israel normaliza a experiência de oscilação espiritual, ao mesmo tempo em que aponta para um caminho mais maduro de confiança estável.

Há um alerta importante contra ciclos destrutivos: buscar Deus apenas quando a dor aperta, sem alinhamento sincero do coração. Esse padrão gera angústia contínua, pois não produz transformação real. O texto sugere que segurança emocional maior nasce de um relacionamento consistente com Deus, enraizado na lembrança da sua fidelidade.

Por fim, a imagem de Deus como Pastor que guia com segurança (v. 53) e de Davi como pastor íntegro (v. 72) reforça um senso de cuidado, direção e propósito, acolhendo medos de abandono e de caos. A história não está solta: está nas mãos de um Deus que disciplina, mas também conduz.

warning Importante: maus usos comuns

O salmo descreve alguns padrões emocionais e espirituais que, se repetidos na vida de alguém, podem indicar áreas de risco:

  • Ciclos de arrependimento superficial: como Israel que buscava a Deus “quando os matava” (v. 34), mas sem coração reto (v. 37). Isso revela relacionamentos marcados mais pelo medo da consequência que pelo amor.
  • Esquecimento crônico de experiências de cuidado: a incapacidade de lembrar momentos de ajuda e livramento pode alimentar pessimismo constante, desconfiança e ansiedade permanente (v. 42).
  • Questionamentos carregados de cinismo: a pergunta “Acaso pode Deus preparar-nos uma mesa no deserto?” (v. 19) mostra não apenas dúvida, mas desprezo e ironia, o que pode ser sinal de amargura não trabalhada.
  • Viver dominado pelo apetite e impulsos: “não refrearam o seu apetite” (v. 30) aponta para compulsão e incapacidade de limites, o que, em nível emocional, pode gerar culpas, instabilidade e consequências sérias.
  • Endurecimento diante de correções sucessivas: mesmo depois de sinais, juízos e livramentos, o povo continua incrédulo (v. 32). Esse padrão revela risco de insensibilidade crescente e perda de sensibilidade espiritual.

Quando esses traços aparecem de forma intensa e persistente, podem indicar necessidade de cuidado pastoral mais próximo e, em muitos casos, acompanhamento profissional em saúde mental.

Aplicação prática para hoje

Salmo 78 inspira posturas práticas para a vida diária:

  1. Cultivar memória espiritual: registrar e relembrar respostas de oração, livramentos e provisões fortalece a fé diante de novos desafios. A prática de contar histórias de fé em família segue a lógica dos vv. 3-7.

  2. Transmitir a fé às novas gerações: ensinar crianças e jovens não apenas doutrinas, mas as experiências concretas da ação de Deus na história bíblica e na própria família, para que aprendam a colocar a esperança em Deus e não em circunstâncias.

  3. Romper ciclos de religiosidade superficial: buscar alinhar palavras e coração (vv. 36-37), desenvolvendo uma relação com Deus que não aparece apenas nas crises, mas em um caminhar diário de confiança e obediência.

  4. Lembrar da fidelidade de Deus em tempos de crise: em momentos de escassez ou deserto, olhar para trás e reconhecer quantas vezes Deus já abriu “mar”, fez “chover pão” ou trouxe “água da rocha” em fases difíceis.

  5. Praticar autocontrole e gratidão: o exemplo do povo que não refreou o apetite (v. 30) incentiva a aprender contentamento, limites saudáveis e gratidão pela provisão diária, evitando reclamações constantes.

  6. Levar a sério correções e alertas: não tratar consequências dolorosas como mero azar, mas refletir se há algo a ser ajustado no relacionamento com Deus, na forma de viver e nas prioridades.

  7. Valorizar lideranças com integridade: o retrato de Davi como pastor com integridade de coração e perícia nas mãos (v. 72) sugere a importância de líderes que unam caráter e competência, tanto na igreja como em outras áreas da vida comunitária.

Perguntas frequentes

O que significa o salmo chamar-se parábola e falar de enigmas da antiguidade?

Quando o salmista diz que abrirá a boca em parábola e falará enigmas da antiguidade (vv. 2-3), ele está afirmando que usará a história de Israel como uma espécie de parábola instrutiva. Os fatos antigos contêm lições profundas, nem sempre óbvias à primeira vista. “Enigmas” não são segredos ocultos de forma mística, mas verdades que exigem reflexão: a história passada, lida à luz de Deus, revela padrões espirituais e morais que precisam ser compreendidos e aplicados.

Quem são os filhos de Efraim que voltam atrás no dia da batalha?

No v. 9, os filhos de Efraim, armados e trazendo arcos, representam uma tribo importante do norte, muitas vezes símbolo das lideranças do reino setentrional. A imagem deles fugindo na batalha ilustra falha de confiança e quebra de aliança com Deus (vv. 10-11). Mais do que relatar um episódio militar específico, o salmo usa Efraim como figura da infidelidade de Israel que, mesmo bem equipado, falha porque não guarda a aliança e esquece as obras do Senhor.

Como entender Deus enviando juízos tão duros, como pragas e morte?

O salmo relembra as pragas do Egito e outros juízos como resposta ao endurecimento persistente (vv. 21, 31, 49-51). Esses atos devem ser vistos dentro da aliança: Deus é apresentado como Rei justo que reage ao mal e à idolatria, protegendo seu propósito de redenção. Ao mesmo tempo, o texto enfatiza que muitas vezes Deus contém sua ira e perdoa (v. 38). Há tensão entre justiça e misericórdia. O foco do salmo não é detalhar o “como” de cada juízo, mas mostrar que afastar-se repetidamente de Deus traz consequências reais, ao passo que permanecer nele é caminho de vida.

O que significa ‘limitar o Santo de Israel’?

No v. 41, quando diz que eles “limitaram o Santo de Israel”, a ideia é que o povo, por incredulidade e rebeldia, passou a enxergar Deus de forma reduzida, como se ele não pudesse fazer o que havia prometido ou não fosse digno de plena confiança. Não se trata de limitar o poder real de Deus, mas de restringir, em seus próprios corações, o espaço da fé e da obediência. Isso evidencia um problema de percepção e confiança: Deus permanece soberano, mas o povo vive como se ele fosse pequeno ou indiferente.

Por que Deus rejeita Siló e a tribo de Efraim e escolhe Judá e Sião?

Siló havia sido um importante centro de adoração, associado ao tabernáculo e à tribo de Efraim. A rejeição de Siló e de José/Efraim (vv. 60-67) aparece como consequência da infidelidade persistente. Em contraste, Deus escolhe Judá e o monte Sião (vv. 68-69), estabelecendo ali o novo centro de adoração e reinado. A escolha de Davi, o pastor que guia com integridade (vv. 70-72), sinaliza um novo início na história do povo, enfatizando que a verdadeira segurança não está em um lugar ou tribo específica, mas na obediência à vontade de Deus e na liderança que ele estabelece.

Perspectivas dos nossos guias espirituais

Heart
Heart

Salmo 78 mostra um povo que falha muitas vezes, até de forma repetitiva, e ainda assim é lembrado, perdoado e conduzido por Deus. As descrições de rebeldia, ingratidão e dureza de coração contrastam com um Deus que, mesmo irado e justo, “muitas vezes desviou deles o seu furor” e perdoou a iniquidade (v. 38), lembrando-se de que eram apenas carne, vento que passa e não volta (v. 39). Esse retrato oferece profundo consolo para corações cansados, que se veem lutando com as mesmas fraquezas há anos. A história de Israel não é a de um povo perfeito, mas de pessoas que oscilam, caem, murmuram, duvidam — e ainda assim são alcançadas por um Deus que insiste em cuidar, ensinar e conduzir como um rebanho (v. 52). O salmo não romantiza a dor; ele mostra como, em meio a juízos e consequências severas, há um Deus que não abandona seu povo à própria sorte. Também é significativo ver que Deus leva a sério lágrimas e clamores, mas não se ilude com palavras vazias. Quando o povo o buscava apenas porque estava sofrendo (vv. 34-36), sem um coração sincero, isso é exposto. Esse detalhe pode ser doloroso, mas, ao mesmo tempo, libertador: Deus conhece a verdade mais profunda do coração. Não exige perfeição, mas sinceridade. A imagem final de Davi, o pastor escolhido para guiar Israel com integridade de coração e perícia das mãos (v. 72), também é reparadora. Em uma história cheia de erros, Deus levanta alguém para cuidar, reunir, proteger. Mesmo depois de momentos em que tudo parece ruir — como a perda de Siló, a derrota e o luto (vv. 60-64) — Deus “desperta” (v. 65) e age. Essa esperança de que Deus não adormece definitivamente sobre a dor do seu povo traz alívio aos que se sentem esquecidos: a história pode passar por vales escuros, mas não termina neles.

Mind
Mind

Salmo 78 é um masquil de Asafe, um salmo didático que combina poesia, teologia e historiografia. Seu objetivo principal é catequético: formar a geração presente e futura à luz da história de Israel. A introdução (vv. 1-8) apresenta a metodologia: o salmista usará a história como “parábola” e “enigmas” — não meros dados, mas fatos carregados de significado, que pedem interpretação. O texto se organiza em ciclos que alternam atos poderosos de Deus e respostas infiéis do povo. O primeiro grande bloco (vv. 9-31) contrasta a provisão extraordinária — divisão do mar, orientação pela nuvem e fogo, água da rocha, maná e carne — com a descrença e a cobiça. A crítica não é à presença de necessidades, mas ao modo como são expressas: reclamações, provações a Deus e uma teologia implícita que duvida da capacidade divina de prover “mesa no deserto” (v. 19). Os vv. 32-39 introduzem a análise teológica do ciclo de juízo e arrependimento superficial. O povo reage à disciplina buscando a Deus, mas de forma meramente verbal, enquanto o coração permanece torto. Em contraste, a misericórdia divina é enfatizada: Deus perdoa, contém sua ira e se lembra da condição frágil humana. A teologia do salmo recusa tanto a visão de um Deus indulgente, que ignora o pecado, quanto a de um Deus implacável, incapaz de compaixão. Os vv. 40-55 retomam a narrativa, relembrando as pragas do Egito com linguagem resumida e simbólica: rios em sangue, enxames de moscas, rãs, pulgões, gafanhotos, saraiva, pestilência e a morte dos primogênitos. Esses eventos funcionam como demonstração da soberania de Deus sobre a criação e as nações, em contraste com a idolatria. Em seguida, a imagem de Israel como rebanho conduzido com segurança (vv. 52-53) sintetiza o cuidado pastoral de Deus. A parte final (vv. 56-72) desloca o foco da peregrinação para a vida na terra prometida. Mesmo ali, o povo continua tentando e provocando a Deus, recorrendo à idolatria nos altos e por meio de imagens. O juízo se manifesta na rejeição de Siló e na entrega do povo ao inimigo. A reação divina é descrita em linguagem antropomórfica — Deus despertando como um valente — culminando na eleição de Judá, Sião e Davi. Do ponto de vista da teologia bíblica, o salmo sublinha a importância da história como veículo de revelação. A memória das obras de Deus é o fundamento da esperança e da obediência (vv. 7-8), enquanto o esquecimento é raiz da apostasia (v. 42). A escolha de Davi e de Sião fornece uma chave de leitura para o período monárquico: não é mera evolução política, mas decisão soberana de Deus, associada a um ideal de liderança pastoral e íntegra (v. 72).

Life
Life

Salmo 78 transforma história em sabedoria prática. O salmista olha para trás, identifica padrões e mostra consequências, oferecendo um mapa para decisões do presente. A primeira prática evidente é a educação intencional. O texto enfatiza que os pais receberam a responsabilidade de contar aos filhos o que Deus fez (vv. 5-6). Não se trata apenas de tradições, mas de formar visão de mundo: onde o povo vê Deus na história, ali eles aprendem a esperar nele, obedecer e evitar a teimosia das gerações anteriores (vv. 7-8). Outro aspecto prático é a forma de lidar com necessidades e frustrações. O povo, no deserto, tinha demandas reais — fome, sede, insegurança. O problema não é ter carências, mas investir nelas um tom de incredulidade e exigência (“poderá também dar-nos pão?”, v. 20). Há aqui um alerta sobre a maneira de reclamar, sobre exigir de Deus e da vida uma satisfação imediata dos apetites. O resultado foi juízo, exatamente no momento em que “ainda lhes estava a comida na boca” (v. 30), mostrando o perigo de deixar-se governar apenas pelo desejo. O salmo também expõe o risco de uma espiritualidade de emergência: buscar Deus com intensidade só durante a dor (vv. 34-35), mas retornar aos mesmos padrões assim que a crise passa. Isso se parece com relacionamentos frágeis, em que só há aproximação quando algo está errado. Na prática, esse ciclo gera instabilidade, desgaste e sensação de vazio espiritual. Há ainda uma lição sobre liderança. Davi é apresentado como alguém tirado de tarefas comuns — cuidar de ovelhas — para pastorear o povo de Deus (vv. 70-71). Sua qualificação não é apenas técnica, mas de coração: integridade interior e habilidade prática (v. 72). Em qualquer esfera (família, trabalho, comunidade), o modelo que emerge é de líderes que reúnem caráter e competência. Não basta boa intenção sem preparo, nem talento sem integridade. Por fim, o salmo convida a revisar o lugar que a memória ocupa na rotina. Em vez de viver preso à queixa do presente, a prática de revisitar as “maravilhas” e livramentos passados (vv. 12-16, 43-55) treina o coração para respostas mais equilibradas em novas crises. Esse exercício de lembrar, contar e agradecer funciona como antídoto contra a repetição dos mesmos erros que marcaram gerações anteriores.

Soul
Soul

Salmo 78 é um retrato profundo da jornada espiritual de um povo ao longo do tempo. Em sua essência, ele mostra que a vida com Deus não é linear e perfeita, mas uma história de alianças, quedas, disciplina, misericórdia e renovação. A espiritualidade aqui não é desvinculada da história: Deus se revela em acontecimentos concretos — mar aberto, pão do céu, água da rocha, livramento de inimigos, juízos sobre a idolatria. Ao longo do salmo, a grande questão espiritual é a confiança. O povo vê grandes obras, mas não permanece crendo (vv. 22, 32). A dúvida que ecoa — “Acaso pode Deus preparar-nos uma mesa no deserto?” (v. 19) — representa o conflito entre a fé teórica e a fé prática. Espiritualmente, esse conflito define se a esperança será colocada em Deus ou nas circunstâncias. A memória das obras de Deus torna-se então disciplina espiritual essencial: sem lembrar, a fé se esvai; com memória viva, a confiança se renova. Outro eixo importante é a integridade do coração. O salmo denuncia a distância entre lábios e coração (vv. 36-37). Espiritualmente, isso expõe o perigo de uma devoção aparente, sem transformação profunda. A busca por Deus apenas como refúgio em tempos de aperto, sem entrega real, produz um movimento cíclico que não amadurece a alma. Em contraste, Deus é apresentado como aquele que deseja fidelidade interior, não apenas ritos e discursos. A misericórdia de Deus, porém, percorre todo o texto: ele lembra que o ser humano é frágil, “vento que passa” (v. 39), e, por isso, muitas vezes poupa e perdoa. Essa consciência da nossa transitoriedade confere um tom de humildade à vida espiritual: a alma é convidada a reconhecer limites e depender da graça. O juízo divino, quando vem, não tem apenas caráter punitivo, mas pedagógico, chamando o povo de volta à aliança. A escolha de Judá, de Sião e de Davi (vv. 68-72) dá ao salmo uma direção de esperança: Deus não abandona seu propósito mesmo quando o povo falha repetidamente. Ele levanta um pastor-rei que guia com integridade e sabedoria. A alma é convidada a contemplar a fidelidade de Deus à sua própria promessa, acima da infidelidade humana. Há aqui um chamado à confiança num Deus que corrige, mas também conduz a história rumo a um futuro marcado por liderança justa, adoração verdadeira e presença duradoura. Essa perspectiva amplia o olhar da alma para além das crises imediatas, firmando-a na certeza de que o Deus da história continua escrevendo sua obra redentora.

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Versículos em Salmos 78

Salmos 78:4

" Não os encobriremos aos seus filhos, mostrando à geração futura os louvores do Senhor, assim como a sua força e as maravilhas que fez. "

Salmos 78:5

" Porque ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e pôs uma lei em Israel, a qual deu aos nossos pais para que a fizessem conhecer a seus filhos; "

Salmos 78:6

" Para que a geração vindoura a soubesse, os filhos que nascessem, os quais se levantassem e a contassem a seus filhos; "

Salmos 78:7

" Para que pusessem em Deus a sua esperança, e se não esquecessem das obras de Deus, mas guardassem os seus mandamentos. "

Salmos 78:8

" E não fossem como seus pais, geração contumaz e rebelde, geração que não regeu o seu coração, e cujo espírito não foi fiel a Deus. "

Salmos 78:20

" Eis que feriu a penha, e águas correram dela: rebentaram ribeiros em abundância. Poderá também dar-nos pão, ou preparar carne para o seu povo? "

Salmos 78:21

" Portanto o Senhor os ouviu, e se indignou; e acendeu um fogo contra Jacó, e furor também subiu contra Israel; "

Salmos 78:26

" Fez soprar o vento do oriente nos céus, e o trouxe do sul com a sua força. "

Salmos 78:26 mostra Deus controlando os ventos para trazer alimento ao povo, lembrando que Ele dirige até a natureza para cuidar de quem confia nele. …

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Salmos 78:38

" Ele, porém, que é misericordioso, perdoou a sua iniqüidade; e não os destruiu, antes muitas vezes desviou deles o seu furor, e não despertou toda a sua ira. "

Salmos 78:50

" Preparou caminho à sua ira; não poupou as suas almas da morte, mas entregou à pestilência as suas vidas. "

Salmos 78:50 mostra que Deus, depois de muita paciência, permitiu que o juízo viesse sobre um povo teimoso. Ele não impediu as consequências. Na vida …

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