Versículo em destaque
Mateus 17:1 - Significado e aplicação
Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje
Tradução: Almeida Corrigida Fiel
" Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, e a Tiago, e a João, seu irmão, e os conduziu em particular a um alto monte, "
Mateus 17:1
Versículo no contexto
Entender os versículos ao redor evita interpretações incorretas:
1 Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, e a Tiago, e a João, seu irmão, e os conduziu em particular a um alto monte,
2 E transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz.
3 E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele.
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Aqui temos o relato da transfiguração de Cristo. Ele havia acabado de dizer que o Filho do Homem viria em seu reino em breve, e os três evangelistas vinculam cuidadosamente esse relato a essa promessa. É como se a transfiguração de Cristo fosse um prenúncio e uma garantia do seu reino, e da luz e do amor que ali se manifestam ao seu povo escolhido e santo. Pedro se refere a esse evento como o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo (2 Pedro 1:16), porque foi uma demonstração de seu poder e um antegosto de sua vinda.
Durante o tempo de sua humilhação, a vida de Cristo foi predominantemente de humildade e sofrimento. Ainda assim, houve alguns lampejos de glória misturados a isso, tanto para fortalecê‑lo em meio ao sofrimento quanto para impedir que outros se escandalizassem. Seu nascimento, batismo, tentação e morte foram os principais exemplos dessa humilhação, e cada um deles foi marcado por claros sinais de glória e do favor do céu. Como todo o ministério público de Jesus foi uma longa descida em direção à humildade, essa revelação de sua glória vem exatamente no meio desse caminho.
Quanto à transfiguração, observe primeiro o momento. Ocorreu seis dias depois da conversa solene com seus discípulos em (Mateus 16:21). Lucas diz que foi quase oito dias depois, contando seis dias completos entre um acontecimento e outro, de modo que este foi o oitavo dia, uma semana depois. Nada se registra de dito ou feito por Jesus nesses seis dias que precederam a transfiguração. Da mesma forma, antes de grandes atos de Deus, às vezes há silêncio no céu por algum tempo (Apocalipse 8:1). Quando Cristo parece nada estar fazendo por sua igreja, podemos esperar, em breve, algo extraordinário.
Em segundo lugar, aconteceu em um alto monte, à parte. Cristo escolheu um monte como lugar de sossego. Subiu à parte, porque, enquanto uma cidade edificada sobre um monte não pode se esconder, duas ou três pessoas em um monte são difíceis de encontrar. Era comum usar lugares montanhosos para oração em particular. Cristo escolheu um lugar retirado para ser transfigurado, porque uma manifestação pública de sua glória não convinha à sua condição presente. Com isso, mostrou sua humildade e nos ensinou que a privacidade favorece a comunhão com Deus. Quem deseja íntima comunhão com o céu deve, muitas vezes, afastar‑se da conversa e dos negócios do mundo. Descobrirá que nunca está menos só do que quando está a sós, porque o Pai está com ele.
Era também um lugar elevado, acima do que está embaixo. Quem deseja comunhão transformadora com Deus não deve apenas se retirar, mas também se elevar. Precisa erguer o coração e buscar as coisas do alto. A chamada é: “Sobe aqui” (Apocalipse 4:1).
Em terceiro lugar, as testemunhas foram Pedro, Tiago e João. Ele levou três, bom número para confirmar o que se viu, pois pela boca de duas ou três testemunhas se estabelece toda palavra. As revelações de Cristo são suficientemente firmes, mas ele não as torna excessivamente comuns. Não mostrou isso a todo o povo, e sim a testemunhas (Atos 10:41), para que bem‑aventurados fossem os que não viram e creram. Escolheu esses três porque eram discípulos de destaque, provavelmente os mais fortes em dons e graça. Eram companheiros favorecidos de Cristo, separados para testemunhar seus momentos de recolhimento. Já haviam estado com ele quando ressuscitou a menina (Marcos 5:37). Mais tarde, seriam testemunhas de sua agonia, e essa visão foi planejada para prepará‑los para aquilo. A visão da glória de Cristo neste mundo é uma boa preparação para sofrer com ele, assim como sofrer com ele nos prepara para contemplar sua glória no mundo vindouro. Paulo, que teve muitos sofrimentos, também recebeu muitas revelações.
Quanto ao modo como aconteceu: ele foi transfigurado diante deles. Seu corpo permaneceu o mesmo em substância, mas sua aparência foi profundamente alterada. Ele não se tornou um espírito; ao contrário, seu corpo, que aparecia em fraqueza e desonra, passou a aparecer em poder e glória. Ele foi transfigurado, isto é, teve a forma mudada. As histórias pagãs sobre deuses que mudam de forma são vazias e ridículas, e alguns entendem que Pedro tinha essas fábulas em mente quando disse que não seguira fábulas engenhosamente inventadas ao falar disso (2 Pedro 1:16). Cristo era Deus e homem ao mesmo tempo, mas, durante sua vida terrena, assumiu a forma de servo (Filipenses 2:7). Velou a glória de sua natureza divina, mas agora, na transfiguração, retirou esse véu e apareceu em forma de Deus (Filipenses 2:6), dando a seus discípulos um vislumbre de sua glória. Essa glória inevitavelmente modificou sua aparência.
A grande verdade que confessamos é que Deus é luz e habita em luz inacessível (1 João 1:5; 1 Timóteo 6:16). Ele se cobre de luz como de um manto (Salmo 104:2). Assim, quando Cristo apareceu em forma de Deus, apareceu em luz, a mais gloriosa das coisas visíveis, a primeira e mais brilhante das criaturas, a mais parecida com o eterno Pai. Cristo é a Luz. Enquanto esteve no mundo, a luz resplandeceu nas trevas, e as trevas não a compreenderam, nem o mundo o reconheceu (João 1:5, 10). Mas aqui essa Luz irrompeu com fulgor a partir das trevas.
Essa transfiguração se manifestou de duas maneiras. Primeiro, seu rosto resplandeceu como o sol. O rosto é a principal parte do corpo, pela qual somos reconhecidos. Assim, o rosto de Cristo foi tornado brilhante, o mesmo rosto que depois ele não esconderia de afronta e cuspe. Brilhou como o sol quando sai em sua força, claro e fulgurante, pois ele é o Sol da justiça e a Luz do mundo. O rosto de Moisés brilhou apenas como a lua, com luz emprestada. O de Cristo brilhou como o sol, com luz que lhe pertence por natureza. Isso o tornou ainda mais glorioso, porque essa luz irrompeu de repente, como se saísse de trás de uma nuvem escura.
Em segundo lugar, suas roupas se tornaram brancas como a luz. Todo o seu corpo foi mudado, assim como o rosto, de modo que raios de luz, atravessando cada parte e até mesmo suas vestes, as tornaram resplandecentes e ofuscantes. O brilho no rosto de Moisés era tão fraco que um véu fino podia encobri‑lo. A glória de Cristo era tão grande que até suas roupas foram iluminadas por ela.
Ele também teve companheiros com ele. Um dia virá com miríades de seus santos, e aqui temos uma pequena amostra disso. Moisés e Elias apareceram e falaram com ele (Mateus 17:3). Havia santos glorificados com ele, de modo que, havendo três testemunhas na terra — Pedro, Tiago e João —, também houvesse testemunhas do céu. Assim, vemos uma imagem viva do reino de Cristo, composto de santos no céu e santos na terra, juntamente com os espíritos dos justos aperfeiçoados.
Vemos aqui que os que dormem em Cristo não se perderam para sempre. Eles existem em outro estado e aparecerão quando Deus os chamar. Moisés e Elias foram muito honrados em seus dias. Ambos jejuaram quarenta dias e quarenta noites, como Cristo, e ambos realizaram outros milagres.
Foram também marcados pela forma como deixaram este mundo. Elias foi levado ao céu num carro de fogo e não experimentou a morte. O corpo de Moisés nunca foi encontrado, e é possível que tenha sido preservado da corrupção e reservado para essa aparição. Os judeus tinham grande respeito por Moisés e Elias, por isso eles vieram para dar testemunho de Cristo. Neles, a Lei e os Profetas reconheceram e honraram Cristo e deram testemunho dele.
Moisés e Elias apareceram aos discípulos. Eles os viram, ouviram‑nos falar e, seja pela conversa, seja pela explicação de Cristo, souberam quem eram. Os santos glorificados se conhecerão mutuamente no céu. Eles falaram com Cristo. Cristo tem comunhão com os bem‑aventurados e não será estranho a nenhum membro dessa assembleia glorificada. Ele estava para ser confirmado em seu ofício profético, e esses dois grandes profetas eram companheiros apropriados. Estavam ali para transferir a ele toda a honra e importância que possuíam, porque, nestes últimos dias, Deus nos fala pelo Filho (Hebreus 1:1).
Os discípulos também experimentaram grande alegria e satisfação ao contemplar a glória de Cristo. Pedro, como de costume, falou em nome dos outros: “Senhor, bom é estarmos aqui”. Ele quis dizer, em primeiro lugar, que se alegravam nessa santa comunhão. Embora estivessem em um alto monte, áspero, frio e provavelmente desconfortável, Pedro declarou que ainda assim era bom estar ali. Falava por todos os discípulos, não apenas por si mesmo. Não procurava reter a bênção apenas para si, mas incluía com alegria os demais.
Pedro disse isto a Cristo. Corações amorosos gostam de se abrir diante do Senhor Jesus. A alma que ama a Cristo, e ama estar com ele, gosta de dizer isso a ele: “Senhor, bom é estarmos aqui.” Isso também mostra gratidão pela bondade de Cristo em deixá-los participar desse privilégio. A comunhão com Cristo é a alegria dos cristãos. Todos os discípulos do Senhor Jesus consideram bom estar com ele no monte santo. É bom estar onde Cristo está, e onde ele nos conduz por sua vontade. É bom estar a sós com Cristo e contemplar a beleza do Senhor Jesus (Salmo 27:4). Também é agradável ver como Cristo está em plena harmonia com Moisés e os profetas, e como todas as leis e promessas apontavam para ele e se cumpriram nele.
Em segundo lugar, Pedro mostrou o desejo de que aquele momento durasse. “Façamos aqui três tabernáculos”, isto é, cabanas ou tendas. Como acontece em muitas das falas de Pedro, havia ali ao mesmo tempo um bom desejo e um juízo fraco. Ele tinha um zelo sincero pelas coisas santas e um real prazer na glória de Cristo. Os que, pela fé, contemplam a beleza do Senhor em sua casa não conseguem deixar de desejar habitar ali por todos os dias de sua vida. É bom ter um lugar na santa habitação de Deus (Esdras 9:8), um lar estável ali, e estar no culto santo como quem está em casa, e não como um viajante de passagem.
Pedro pensou que aquele monte era um bom lugar para construir, e quis armar ali tendas, assim como Moisés outrora fizera um tabernáculo no deserto para a glória divina. Isso mostrava respeito pelo seu Mestre e pelos visitantes celestiais. Também revelava certa agradável falta de atenção a si mesmo e aos outros discípulos, pois ele queria tendas para Cristo, Moisés e Elias, mas nenhuma para si. Estava disposto a deitar ao ar livre, no chão frio, contanto que seu Mestre tivesse um lugar para descansar.
Ainda assim, o zelo de Pedro mostrava muita fraqueza e ignorância. De que precisavam Moisés e Elias de tendas? Eles pertenciam ao mundo bem-aventurado onde não há fome nem sol que castigue. Cristo havia falado há pouco de seus sofrimentos e dissera a seus discípulos que esperassem o mesmo, mas Pedro esqueceu isso. Ou, para fugir disso, ele queria construir tendas no monte da glória, longe das aflições. Ele ainda se apegava à ideia: “Mestre, tem compaixão de ti mesmo”, mesmo depois de ser repreendido por isso. Pessoas piedosas muitas vezes se inclinam a desejar a coroa sem a cruz. Pedro queria agarrar o prêmio, sem ainda ter lutado o bom combate nem terminado a carreira, como aqueles outros discípulos que pensavam em lugares de honra (Mateus 20:21). Erramos o alvo quando procuramos o céu aqui na terra. Somos estrangeiros e peregrinos neste mundo, mesmo em nossa melhor condição, e não devemos falar como se esperássemos aqui uma cidade permanente.
Entretanto, Pedro pode ser em parte desculpado. Ele não sabia o que dizia (Lucas 9:33), e ainda submeteu a proposta à sabedoria de Cristo: “Se queres, façamos aqui três tabernáculos.” Quaisquer planos que façamos para nós mesmos neste mundo, devemos sempre colocá-los debaixo da aprovação de Cristo. Pedro não recebeu resposta a essa proposta, e a glória que logo desapareceu responderia por ele. Os que prometem a si mesmos grandes coisas na terra serão logo corrigidos pela própria experiência.
Então veio o testemunho glorioso de Deus Pai ao nosso Senhor Jesus, por meio do qual ele recebeu honra e glória (2 Pedro 1:17), vinda da voz que saiu da excelsa glória. Foi como o anúncio dos títulos de um rei em sua coroação, quando ele aparece em vestes reais. E, para consolo da humanidade, o título real de Cristo é tirado de sua obra de mediador, isto é, aquele que aproxima Deus e pecadores. Em visão, ele apareceu com um arco-íris, o sinal da aliança, ao redor de seu trono (Apocalipse 4:3), pois é sua glória ser o nosso Redentor.
Esse testemunho do céu veio de uma forma bem definida. Primeiro, houve uma nuvem. No Antigo Testamento, uma nuvem frequentemente marcava a presença visível de Deus. Ele desceu sobre o monte Sinai numa nuvem (Êxodo 19:9) e assim também apareceu a Moisés (Êxodo 34:5; Números 11:25). Ele tomou posse do tabernáculo numa nuvem, e depois do templo. Onde Cristo estava em sua glória, ali estava o verdadeiro templo, e ali Deus manifestou sua presença. Não entendemos como as nuvens se equilibram, mas sabemos que grande parte da comunicação entre céu e terra se dá por meio delas. Das nuvens sobem vapores e cai a chuva, por isso se diz que Deus faz das nuvens o seu carro. Foi isso que ele fez aqui ao descer sobre o monte.
A nuvem era luminosa. Sob a lei, Deus muitas vezes mostrou sua presença numa nuvem espessa e escura. Ele desceu sobre o monte Sinai numa nuvem espessa (Êxodo 19:16) e disse que habitaria em densa escuridão; veja (1 Reis 8:12).
Mas agora não chegamos ao monte envolto em trevas espessas e escuridão (Hebreus 12:18), e sim ao monte coroado com uma nuvem brilhante. Tanto o Antigo como o Novo Testamento tiveram sinais da presença de Deus, mas o primeiro foi um tempo de trevas, temor e servidão, enquanto este é um tempo de luz, amor e liberdade.
A nuvem os cobriu com sua sombra. Ela foi enviada para suavizar o efeito daquela grande luz, que de outro modo teria dominado os discípulos e sido demais para eles. Era como o véu que Moisés pôs sobre o rosto quando este resplandecia. Quando Deus se manifesta ao seu povo, leva em conta a fraqueza deles. Para os olhos dos discípulos, essa nuvem foi como as parábolas para a mente, transmitindo a verdade espiritual por meio de sinais visíveis, até onde eles podiam suportar.
Então uma voz saiu da nuvem, e era a voz de Deus, que, como nos tempos antigos, falava na coluna de nuvem (Salmo 99:7). Não houve trovões, relâmpagos nem som de trombeta, como houve quando a lei foi dada por meio de Moisés. Houve somente uma voz, uma voz calma, e não anunciada por vento forte, terremoto ou fogo, como quando Deus falou com Elias (1 Reis 19:11-12). Moisés e Elias eram testemunhas de que, nestes últimos dias, Deus nos fala por meio de seu Filho de uma maneira nova.
Essa voz veio da excelsa glória (2 Pedro 1:17), a glória que excede todas as outras. Em comparação com ela, a glória anterior não tinha glória alguma. Embora aquela excelsa glória estivesse encoberta por uma nuvem, ainda assim a voz veio dela, pois a fé vem pelo ouvir.
Aqui estava o testemunho do céu: “Este é o meu Filho amado, a ele ouvi.” Isso revela o grande mistério do evangelho: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.” É a mesma mensagem falada do céu em seu batismo (Mateus 3:17), e é a melhor notícia já enviada do céu à terra desde que o homem pecou. Ela está de acordo com a grande verdade de (2 Coríntios 5:19), de que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo.
Moisés e Elias foram grandes homens e honrados no céu, mas eram apenas servos. E, mesmo como servos, nem sempre foram perfeitos. Moisés falou sem refletir devidamente, e Elias era um homem sujeito às mesmas paixões que nós. Cristo é o Filho, e Deus sempre se agradou dele. Moisés e Elias, às vezes, ajudaram a promover a paz entre Deus e Israel, Moisés como grande intercessor, um mediador que se põe entre as duas partes, e Elias como grande reformador. Mas em Cristo, Deus está reconciliando consigo o mundo. Sua intercessão é mais poderosa do que a de Moisés, e sua obra de reforma é mais eficiente do que a de Elias.
Esta voz repetida do céu não foi desnecessária. Como o sonho duplo de Faraó, indicava que o assunto estava firmemente decidido. Aquilo que Deus fala uma vez, e de fato duas, certamente ele confirmará, e espera que prestemos atenção. Foi dito no batismo de Jesus porque ele então entrava em sua tentação e em seu ministério público. Foi repetido aqui porque ele entrava em seus sofrimentos, que devem ser contados a partir deste ponto, pois a partir de agora, e não antes, ele começou a falar deles. Logo depois da transfiguração, se diz (Lucas 9:51) que chegara o tempo em que ele seria recebido acima. Assim, essa mensagem foi repetida para fortalecê-lo contra o terror da cruz e para impedir que seus discípulos tropeçassem nela. Quando os sofrimentos aumentam, os consolos também são dados em medida maior (2 Coríntios 1:5).
O grande dever do evangelho também é mencionado aqui, e é a condição para sermos abençoados por meio de Cristo: “A ele ouvi.” Deus não se agrada de ninguém em Cristo, exceto daqueles que o ouvem. Não basta simplesmente escutar, pois que proveito há nisso sozinho? É preciso ouvi-lo e crer nele como o grande Profeta e Mestre, ouvi-lo e obedecê-lo como o grande Príncipe e Legislador, ouvi-lo e levá-lo a sério. Quem quiser conhecer a mente de Deus precisa ouvir Jesus Cristo, porque nestes últimos dias Deus nos falou por meio dele.
Essa voz do céu torna todas as palavras de Cristo tão dignas de confiança como se tivessem sido faladas diretamente da nuvem. É como se Deus estivesse nos entregando a Cristo para toda a revelação da sua vontade. Isso também aponta para a promessa sobre o Profeta que Deus levantaria semelhante a Moisés: “a ele ouvireis” (Deuteronômio 18:18). Cristo agora apareceu em glória, e quanto mais vemos da glória de Cristo, mais razão temos para ouvi-lo. Mas os discípulos estavam fixos na glória que viam com os olhos, por isso lhes foi dito não apenas para olhar, mas para ouvi-lo. A visão da glória logo foi encoberta pela nuvem, mas o dever de ouvi-lo permanecia. Andamos por fé, que vem pelo ouvir, e não por vista (2 Coríntios 5:7).
Moisés e Elias estavam com ele, a lei e os profetas. Até então se dizia: “Ouçam-nos” (Lucas 16:29). Os discípulos estavam prontos para colocá-los no mesmo nível de Cristo, pois queriam fazer tendas para Moisés e Elias, bem como para ele. Eles tinham conversado com Cristo, e os discípulos provavelmente queriam saber o que haviam dito, e ouvir mais deles. Mas Deus diz: “Ouçam a ele”, e isso basta. Ouçam a ele, e não a Moisés e Elias, que estavam ali e nada disseram contra essa voz. Por maior que tivesse sido o lugar deles como profetas neste mundo, estavam prontos para ver tudo isso ser entregue a Cristo, para que em tudo ele tivesse a primazia. Não fiquem perturbados porque Moisés e Elias permanecem com vocês apenas por pouco tempo. Ouçam Cristo, e não sentirão falta deles.
Os discípulos ficaram amedrontados com essa voz, e Cristo os consolou. Caíram com o rosto em terra e tiveram grande medo. A intensidade da luz, e o impacto súbito da cena, naturalmente poderiam abalá-los. Mas havia mais do que isso. Desde que o homem pecou e ouviu a voz de Deus no jardim, manifestações extraordinárias de Deus sempre foram assustadoras para as pessoas. Sabendo que não têm motivo para esperar nada de bom, temem ouvir qualquer coisa diretamente de Deus. Mesmo quando do lugar secreto vêm coisas agradáveis, ainda assim com Deus há terrível majestade (Jó 37:22). Vê-se quão temível é a voz do Senhor (Salmo 29:4). É uma misericórdia Deus nos falar por homens semelhantes a nós, cuja própria fraqueza não nos apavora.
Cristo então os levantou com grande ternura. Sua glória e honra não diminuem o cuidado que ele tem por seu povo, mesmo quando estão fracos. É consolador saber que agora, em seu estado exaltado, ele ainda tem compaixão do mais humilde verdadeiro crente. Ele se aproximou e os tocou. Sua aproximação expulsou o medo, e, uma vez que souberam que estavam nas mãos de Cristo, nada mais foi necessário para acalmá-los. Ele tocou João de forma semelhante, e também Daniel (Apocalipse 1:17; Daniel 8:18; Daniel 10:18). O toque de Cristo muitas vezes trazia cura, e aqui trouxe força e consolo.
Então ele disse: “Levantai-vos, e não temais.”
Um santo temor e reverência quando nos aproximamos de Deus é agradável a Cristo, mas um espanto dominado pelo medo não é. Esse tipo de medo deve ser resistido. Cristo disse: “Levantai-vos.” É Cristo quem, por sua palavra e pelo poder da sua graça que a acompanha, ergue as pessoas piedosas de seus desânimos e acalma seus temores, e somente Cristo pode fazer isso. “Levantai-vos, e não temais.”
Temores indevidos logo passariam se não nos entregássemos a eles e não nos deixássemos afundar por causa deles. Devemos nos levantar e agir contra esses medos, na medida do que pudermos. Quando os discípulos refletissem sobre o que tinham visto e ouvido, tinham mais motivo para se alegrar do que para temer, e ainda assim precisavam dessa advertência. Por causa de nossa fraqueza humana, muitas vezes nos assustamos com aquilo que deveria nos encorajar.
Depois de receberem uma ordem clara do céu para ouvirem a Cristo, as primeiras palavras que ouviram dele foram: “Não temais.” Cristo veio ao mundo para dar consolo aos que são de Deus, para que, libertos de seus inimigos, servissem a Deus sem temor (Lucas 1:74-75).
Em seguida, a visão desapareceu (Mateus 17:8). Eles se levantaram, ergueram os olhos e não viram ninguém, a não ser Jesus somente. Moisés e Elias tinham partido, e os raios resplandecentes da glória de Cristo estavam novamente velados. Eles tinham alimentado a esperança de que aquele fosse o dia de entrada de Cristo em seu reino, com uma demonstração pública de esplendor exterior, como eles imaginavam. Mas ficaram desapontados.
É falta de sabedoria colocar nossas esperanças muito alto neste mundo. As melhores alegrias e honras aqui são passageiras, até mesmo a doçura de uma comunhão muito íntima com Deus. Essa comunhão não é um banquete contínuo, mas algo mais semelhante a uma refeição que vem e vai. Se às vezes nos são concedidos sinais especiais da graça de Deus, ou vislumbres e promessas da glória futura, logo são retirados. Dois céus são demais para esperar para quem não merece nem um.
Ainda assim, eles não viram ninguém, a não ser Jesus somente. Cristo permanece conosco quando Moisés e Elias se vão. Os profetas não vivem para sempre (Zacarias 1:5), e vemos o limite do tempo de nossos ministros entre nós. Mas Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hebreus 13:7-8).
Segue então o diálogo entre Cristo e seus discípulos enquanto desciam do monte (Mateus 17:9-13). Eles desceram do monte. Precisamos descer dos montes santos onde temos comunhão com Deus e nos agradamos dessa comunhão, mesmo quando dizemos: “É bom estarmos aqui.” Mesmo ali, não temos cidade permanente. Mas graças a Deus, há um monte de glória e alegria adiante, do qual jamais desceremos.
Quando os discípulos desceram, Jesus desceu com eles. Assim, quando voltamos ao mundo depois de um ato de adoração, devemos cuidar de levar Cristo conosco. Então também poderemos ter o consolo de saber que ele está conosco. Enquanto desciam, conversavam sobre Cristo. Quando saímos de um tempo de culto, é bom que conversemos uns com os outros sobre coisas que se harmonizam com a obra espiritual que acabamos de fazer. Conversas que promovem o crescimento espiritual são especialmente adequadas nesse momento. Em contraste, conversas pecaminosas são ainda piores nessa hora do que em outras.
Cristo deu aos discípulos uma ordem para manterem por enquanto em segredo aquela visão (Mateus 17:9). “A ninguém conteis até que o Filho do Homem seja ressuscitado.” Se eles tivessem divulgado naquele momento, os sofrimentos que logo viriam poderiam enfraquecer a confiança das pessoas nesse testemunho. Mas, se a notícia esperasse até depois da ressurreição, então esse fato, junto com a glória posterior de Cristo, daria forte confirmação ao relato.
Cristo sempre seguiu uma ordem sábia ao se revelar. Ele quis que suas obras ficassem lado a lado, explicando-se mutuamente, de modo que aparecessem em toda a sua força e poder convincente. Tudo é formoso em seu tempo. A ressurreição de Cristo foi, de fato, o início da era e do reino do evangelho, e tudo antes disso foi preparação. Assim, embora esse acontecimento já tivesse ocorrido, não devia ser usado como prova antes disso, e depois foi fortemente citado (2 Pedro 1:16-18). O tempo de Cristo é o melhor e mais adequado para a sua manifestação, e devemos esperar por ele.
Então os discípulos levantaram uma objeção ao que Cristo dissera (Mateus 17:10). “Por que dizem então os escribas que é mister que Elias venha primeiro?” Se Elias permanece tão pouco tempo e desaparece de forma tão repentina, e se nos é dito para não falar dele, por que então fomos ensinados pela lei a esperar sua aparição pública no mundo imediatamente antes do estabelecimento do reino do Messias? A vinda de Elias deve ser secreta, quando todos a esperam?
Ou talvez quisessem dizer: se a ressurreição do Messias, e com ela o início do seu reino, está próxima, o que acontece com aquela entrada gloriosa que esperávamos na vinda de Elias? Os escribas, que eram os mestres públicos da lei, diziam isso baseados na Escritura (Malaquias 4:5): “Eis que eu vos envio o profeta Elias.” Os discípulos usaram o modo comum de falar entre os judeus, chamando aquilo que os escribas diziam de palavra da própria Escritura. Mas, quando os ministros nos ensinam segundo a Palavra de Deus, devemos dizer: “Deus está nos falando”, e não “os ministros estão nos falando”, pois não devemos receber isso como simples palavra humana (1 Tessalonicenses 2:13).
Note-se que, quando os discípulos não conseguiam conciliar o que Cristo dizia com o que tinham ouvido do Antigo Testamento, eles lhe pediam explicação. Quando ficamos confusos com a Escritura, devemos recorrer a Cristo em oração, pedindo que seu Espírito abra nosso entendimento e nos guie em toda a verdade.
Cristo respondeu à objeção deles. Peçam, e ser-lhes-á dado. Peçam entendimento, e lhes será concedido. Primeiro, ele confirmou a predição (Mateus 17:11). “Em verdade Elias virá primeiro, e restaurará todas as coisas.” Até esse ponto, eles estavam certos. Cristo não veio para mudar nem para anular nada do que havia sido predito no Antigo Testamento. Explicações erradas e corrompidas podem ser rejeitadas sem que isso enfraqueça a autoridade ou a honra da Escritura.
As profecias do Novo Testamento são verdadeiras e boas, e devem ser recebidas e usadas, mesmo que algumas pessoas insensatas e apressadas as tenham compreendido mal e tirado delas conclusões erradas. Elias virá e restaurará todas as coisas, não no sentido de devolver tudo ao estado antigo, assim como João Batista não teve esse propósito, mas cumprindo tudo o que foi escrito a respeito dele, inclusive as predições sobre a vinda de Elias. João Batista veio restaurar as coisas de maneira espiritual, reavivar uma religião que estava desfalecendo e converter o coração dos pais aos filhos. Esse é o sentido aqui. João pregava arrependimento, e o arrependimento é o que restaura todas as coisas.
Então Cristo declara o cumprimento: os escribas tinham razão em dizer que Elias havia vindo (Mateus 17:12).
As promessas de Deus muitas vezes são cumpridas antes que as pessoas percebam. Continuam perguntando: “Onde está a promessa?”, quando ela já está em andamento. Elias veio, e eles não o conheceram. Não o reconheceram como o Elias prometido, aquele que viria antes do Messias.
Os escribas estavam ocupados discutindo a Escritura, mas não entendiam os sinais dos tempos, nem percebiam a Escritura se cumprindo diante deles. É mais fácil explicar a palavra de Deus do que aplicá-la e usá-la corretamente. Não é de admirar que a estrela da manhã tenha sido desprezada quando o próprio Sol estava no mundo, e o mundo não o conheceu.
Como não o conheceram, fizeram com ele o que quiseram. Se tivessem reconhecido quem ele era, não teriam crucificado a Cristo nem decapitado João (1 Coríntios 2:8). Zombaram de João, perseguiram-no e por fim o mataram. Isso foi executado por Herodes, mas aqui é atribuído a toda a nação judaica incrédula, especialmente aos escribas. Ainda que não pudessem realizar isso diretamente, alegraram-se com o que Herodes fez.
Jesus acrescenta: “Assim também o Filho do Homem há de padecer às mãos deles.” Não é de estranhar que Elias tenha sido maltratado e morto por aqueles que diziam honrá-lo e esperá-lo. O próprio Messias seria tratado do mesmo modo. Os sofrimentos de Cristo tornam menos surpreendentes todos os outros sofrimentos (João 15:18). Depois que mancharam as mãos com o sangue de João Batista, estavam prontos para fazer o mesmo com Cristo.
Como tratam os servos de Cristo, assim tratariam o próprio Cristo. Os que se embriagam com o sangue dos mártires continuam clamando por mais (Atos 12:1-3).
Os discípulos ficaram satisfeitos com a resposta de Cristo à sua pergunta. Entenderam que ele falava a respeito de João Batista (Mateus 17:13). Jesus não mencionou o nome de João diretamente, mas o descreveu de um modo que os fez lembrar do que já lhes havia dito: “Este é Elias.” Esse é um modo proveitoso de ensinar. Leva os aprendizes a pensar por si mesmos e os ajuda a se tornarem, se não seus próprios mestres, ao menos seus próprios lembradores. Assim, o conhecimento se torna fácil para quem entende. Quando usamos com atenção os meios de adquirir conhecimento, como a confusão se desfaz depressa e os erros são corrigidos.
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Deste capítulo
Mateus 17:2
"E transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz."
Mateus 17:3
"E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele."
Mateus 17:4
"E Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, façamos aqui três tabernáculos, um para ti, um para Moisés, e um para Elias."
Mateus 17:5
"E, estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem luminosa os cobriu. E da nuvem saiu uma voz que dizia: Este é o meu amado Filho, em quem me comprazo; escutai-o."
Mateus 17:6
"E os discípulos, ouvindo isto, caíram sobre os seus rostos, e tiveram grande medo."
Mateus 17:7
"E, aproximando-se Jesus, tocou-lhes, e disse: Levantai-vos, e não tenhais medo."
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Bible Guided oferece orientação baseada na fé e deve complementar, não substituir, apoio terapêutico profissional.