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Jó 30:15 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Almeida Corrigida Fiel

" Sobrevieram-me pavores; como vento perseguem a minha honra, e como nuvem passou a minha felicidade. "

Jó 30:15

menu_book Versículo no contexto

13 Desbaratam-me o caminho; promovem a minha miséria; contra eles não há ajudador.

14 Vêm contra mim como por uma grande brecha, e revolvem-se entre a assolação.

15 Sobrevieram-me pavores; como vento perseguem a minha honra, e como nuvem passou a minha felicidade.

16 E agora derrama-se em mim a minha alma; os dias da aflição se apoderaram de mim.

17 De noite se me traspassam os meus ossos, e os meus nervos não descansam.

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auto_stories Comentário Bible Guided

Nesta segunda parte da amarga queixa de Jó, ouvimos muitas notas de dor e bem pouca consolação. Quase tudo o que ele diz é lamento e perda. Ele sente que a tribulação se apoderou dele de repente, sem aviso. Conta seus sofrimentos por dias, porque sabe que são temporários, ainda que agora pesem muito, e que são pequenos comparados com a eternidade (2 Coríntios 4:17).

Jó diz que sua tristeza penetrou fundo nele. Suas entranhas, isto é, todo o seu ser interior, estão em dor constante. Ele anda lamentando dia após dia, sempre suspirando e chorando. É como se vivesse debaixo de uma nuvem escura, sem qualquer raio de sol. Alguns entendem que ele significa até que se afastou literalmente da luz do sol para lugares escuros, como pessoas muito angustiadas costumam fazer. Quando vai à assembleia para adorar, ele não fica em silêncio pedindo oração; ao contrário, clama em dor, seja do corpo ou da alma, como se não conseguisse se conter.

Ele diz que se tornou como irmão dos chacais e das corujas, tanto em sua solidão quanto em seus gritos altos e entrecortados. Os gemidos desses animais são estranhos e inquietos, assim como as queixas dele. Mas a pior parte do sofrimento de Jó não é apenas o que acontece ao redor, e sim o medo e a aflição dentro dele. Quando olha para frente, só enxerga coisas assustadoras. Quando tenta sacudir o terror, ele volta correndo sobre ele. Quando tenta escapar, esse terror persegue sua alma como um vento forte. Antes ele já havia falado dos terrores de Deus que se alinhavam em batalha contra ele (Jó 6:4), e ainda se sente cercado por eles.

Se olha para trás, vê que todos os bens que antes desfrutava já passaram. Foram-se tão rápida e completamente como uma nuvem que se desfaz. Se olha para dentro, encontra seu espírito esmagado, incapaz de suportar o que aconteceu. Sente-se não só ferido, mas derramado como água sobre a terra. É um quadro parecido com a profunda miséria descrita em (Salmo 22:14), onde o coração é dito derreter-se como cera.

Sua dor física também é intensa. Ele está cheio de dores, dores agudas que lhe atingem até os ossos. Parece uma espada cortando-o por dentro, especialmente à noite, quando o sono deveria trazer alívio. Seus nervos estão em contínua aflição, seus músculos não descansam, e ele não consegue dormir. É como um homem em febre contínua, ressecado e consumido por dentro. Isso mostra quão frágeis são nossos corpos e como carregam em si as sementes da doença e da morte.

Jó também está coberto de chagas. Alguns sofrem dores fortes nos ossos, mas ainda preservam a integridade da pele; porém o ataque de Satanás sobre Jó alcançou tanto os ossos quanto a carne. Sua pele ficou escura, provavelmente porque as feridas se encheram de crostas e infeções. Até suas roupas mudaram por causa da constante secreção vinda das úlceras. Suas vestes ficaram duras e imundas, como uma gola agarrada ao pescoço. Nem deveríamos querer imaginar o estado miserável de seu corpo e de suas roupas, pela falta de cuidado e limpeza. Alguns supõem ainda que ele podia ter uma enfermidade na garganta, talvez um inchaço que lhe apertava como uma coleira.

Ele diz que foi lançado no lodo, ou até comparado a ele. Seu corpo parecia mais um monte de lama do que um corpo humano. Isso deveria nos advertir a não termos orgulho das nossas roupas ou da nossa limpeza. Uma doença pode rapidamente alterar nossas vestes e torná‑las repugnantes para nós e para os outros. O que antes tinha cheiro suave pode tornar-se mau cheiro (Isaías 3:24). No melhor dos casos, somos pó e cinza, e nossos corpos são fracos e vis. Costumamos esquecer isso, até que Deus permita alguma enfermidade dolorosa que nos faça sentir essa verdade claramente. Jó sente como se já estivesse se tornando aquilo que em breve será, pó e cinza, carregando consigo seu túmulo por onde vai.

O que o fere mais de tudo é que Deus parece ter-se tornado seu inimigo e estar lutando contra ele. Ele crê que foi Deus quem o lançou no lodo e depois o pisou ali. Isso o magoa mais do que qualquer outra coisa. Ele diz que Deus não lhe responde. Clama com insistência, põe-se de pé como quem espera uma resposta, mas não recebe nenhuma. Quando as orações mais sérias não trazem respostas rápidas e visíveis, não devemos estranhar. Os filhos de Jacó nunca buscaram a Deus em vão de fato, mas muitas vezes sentiram como se o tivessem feito, e chegaram a perguntar se Deus estava surdo ou irado com eles (Salmo 80:4).

Jó vai ainda além e diz: “Tornaste-te cruel para comigo” (Jó 30:21). Isso é algo grave e pecaminoso de se afirmar a respeito do Deus de misericórdia, cuja compaixão nunca falha. Deus jamais é cruel, especialmente com seus próprios filhos. Jó falou mal e sem gratidão quando disse isso. No entanto, esse pensamento duro sobre Deus foi o pecado que com mais facilidade o enredou nesse momento.

Aqui, Jó pensa que Deus está lutando contra ele e empregando toda a sua força para destruí-lo. Em outras palavras, ele diz: “Com a tua forte mão te opões a mim, agindo como meu inimigo.” Antes, em (Jó 23:6), ele tinha uma visão melhor de Deus e cria que Deus não usaria seu grande poder para contender com ele. Deus tem plena autoridade e força irresistível, mas nunca usa nenhuma delas para esmagar ou oprimir alguém.

Jó também sente que Deus o está levantando apenas para, em seguida, lançá-lo por terra com desprezo (Jó 30:22). Ele se vê como uma pena ou como a palha ao vento, jogado de um lado para outro por algo infinitamente maior do que ele. Sente-se um adversário desproporcional diante do Todo‑Poderoso e completamente indefeso quando Deus o faz “cavalgar”, não em triunfo, mas em temor, sobre as asas do vento. Os juízos de Deus parecem despedaçar seu próprio ser, como uma nuvem levada embora pelo vento. A força humana, mesmo em seu auge, nada é diante do poder de Deus. Pode desfazer‑se muito rapidamente.

Agora ele já não espera outra coisa senão que esses sofrimentos terminem em morte. Se está sendo levado pelo vento, só pode esperar ser lançado para baixo e morrer. Fala como se Deus não tivesse outro propósito com ele senão conduzi-lo à morte, embora pudesse ter chegado a esse fim sem tanto sofrimento, pois “a casa que está determinada para todos os viventes” é o túmulo (Jó 30:23). A sepultura é chamada de casa: um lugar estreito, escuro, frio e pobremente provido, mas será nossa morada, onde descansaremos e estaremos em segurança. É nossa longa casa, nossa própria casa, pois ali seremos reunidos a nossos pais.

Essa sepultura é designada para nós por Aquele que fixou os limites da nossa vida. É destinada a todos os viventes. É o lugar comum onde ricos e pobres se encontram, o grande ajuntamento geral. Todos teremos de ser levados para lá em breve. É Deus quem nos conduz até lá, pois as chaves da morte e do além estão em suas mãos. Podemos ter certeza de que, mais cedo ou mais tarde, ele nos levará lá. É proveitoso meditarmos nisso com frequência. Os vivos sabem que hão de morrer, e cada um deve aplicar essa verdade ao seu próprio coração.

Duas coisas tornavam o sofrimento de Jó ainda mais difícil de suportar. Primeiro, era uma grande decepção em relação ao que ele esperava (Jó 30:26). Ele diz: “Quando aguardava o bem, ou mais bem ainda, ou pelo menos a continuação do que já tinha, veio o mal.” As consolações deste mundo são incertas, e é loucura construir grandes expectativas sobre elas. Os que esperam luz a partir das faíscas dos prazeres terrenos terão uma decepção profunda e terminarão em trevas.

Segundo, toda a sua condição havia mudado de forma dolorosa (Jó 30:31). “Minha harpa não está apenas guardada e pendurada, mas foi transformada em pranto, e minha flauta se tornou voz de choro.” Em sua prosperidade, Jó usara tamborins e harpas e desfrutara do som da música (Jó 21:12). Mesmo sendo sério e piedoso, ele reservava momentos para alegrar-se. Agora, porém, seu cântico se transformara. Assim, os que se alegram devem viver como se sua alegria fosse apenas por um momento, pois não sabem quão depressa o riso pode se converter em pranto e a alegria em tristeza.

Ainda assim, em meio a tudo isso, Jó encontra um pequeno consolo. Ele prevê que a morte será o fim de suas aflições presentes (Jó 30:24). Embora agora Deus pareça opor-se a ele com mão forte, Jó entende que essa mão não se estenderá até dentro da sepultura. A ira de Deus o conduziria à morte, mas não o seguiria além da morte. Sua alma estaria segura e feliz no mundo espiritual, e seu corpo estaria seguro e em descanso no pó. Embora as pessoas gritem na dor do morrer, a sepultura em si nada sente e nada teme. Ali tudo é silêncio. Estando livre da segunda morte, a primeira morte seria para ele um verdadeiro alívio. É por isso que depois ele deseja ser escondido na sepultura (Jó 14:13).

Jó também encontrava consolo no fato de que sempre se importara com as aflições dos outros quando ele mesmo vivia em tranquilidade (Jó 30:25). “Porventura não chorei eu por aquele que estava aflito?” Alguns entendem que aqui ele está reclamando com Deus, como se fosse injusto que alguém que demonstrou tanta misericórdia aos outros não recebesse agora misericórdia. Mas é melhor entender isso como um consolo interior para ele. Sua consciência dava testemunho de que ele realmente se compadecia dos que sofriam e fazia o que estava ao seu alcance para ajudá-los. Por isso, ele tinha algum fundamento para esperar que, no fim, tanto Deus quanto seus amigos teriam compaixão dele.

Os que choram com os que choram suportarão melhor as próprias dores quando chegar a sua vez de beber o cálice amargo. Alguns traduzem: “A minha alma ardia pelos pobres”, em paralelo com as palavras de Paulo: “Quem se escandaliza, que eu não me inflame?” (2 Coríntios 11:29). Aqueles que foram duros e sem bondade para com os outros poderão ouvir isso ecoar na própria consciência quando a angústia chegar para eles. Mas os que cuidaram dos pobres e os ajudaram descobrirão que essa lembrança suaviza o leito de enfermidade (Salmo 41:1, Salmo 41:3).

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