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Jó 30:1 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Almeida Corrigida Fiel

" Agora, porém, se riem de mim os de menos idade do que eu, cujos pais eu teria desdenhado de pôr com os cães do meu rebanho. "

Jó 30:1

menu_book Versículo no contexto

1 Agora, porém, se riem de mim os de menos idade do que eu, cujos pais eu teria desdenhado de pôr com os cães do meu rebanho.

2 De que também me serviria a força das mãos daqueles, cujo vigor se tinha esgotado?

3 De míngua e fome se debilitaram; e recolhiam-se para os lugares secos, tenebrosos, assolados e desertos.

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auto_stories Comentário Bible Guided

Aqui Jó derrama uma queixa profunda e dolorosa sobre a desonra em que caiu. Ele passou da honra e do respeito para a vergonha, e isso era especialmente amargo para alguém como Jó, de espírito íntegro e sensível. Ele mostra que duas coisas tornavam seu sofrimento ainda mais duro: a baixeza das pessoas que o insultavam e a brutalidade com que o faziam.

Primeiro, os que zombavam dele eram inferiores a ele em todos os sentidos. No tempo da sua prosperidade, príncipes e nobres o respeitavam, o que aumentava ainda mais sua dignidade. Agora, na aflição, ele era pisado por homens que não só eram muito inferiores a ele, como também estavam entre os mais desprezíveis da terra. Eram rapazes bem mais jovens do que ele, que deveriam honrá-lo por causa de sua idade e sabedoria. Até os filhos deles zombavam dele, como as crianças de Betel zombando do profeta e dizendo: “Sobe, calvo” (2 Reis 2:23).

Eles vinham ainda de uma linhagem vil e desprezível. Seus pais eram tão indignos que Jó não os teria confiado nem ao trabalho mais baixo em sua casa, como cuidar de ovelhas e auxiliar os pastores de seu rebanho (Jó 30:1). Ele não está dizendo que de fato fez isso, mas que eram tão pouco confiáveis, preguiçosos e insensatos que não serviam sequer para o serviço mais humilde. Jó sabia que não devia tratar ninguém como se não fosse humano, mas quer mostrar quão baixos esses homens eram em caráter.

Além disso, eram inúteis e pesados para a sociedade. Jó não conseguiria deles nenhum trabalho verdadeiro, pois os jovens eram preguiçosos e desajeitados demais para serem úteis, e os velhos já não tinham sabedoria para orientar os outros (Jó 30:2). Eram também extremamente pobres, mas a pobreza deles estava ligada à própria preguiça. Não cavavam para conseguir alimento, e tinham vergonha de mendigar, então vagueavam por desertos, vivendo de juntar o que conseguissem achar (Jó 30:3). A fome os forçava a comer folhas bravas, um alimento muito áspero e pobre (Jó 30:4).

Não eram apenas pobres, mas perversos e danosos. Eram o tipo de gente que os governantes desejariam expulsar da terra, e a multidão gritava atrás deles como se fossem ladrões (Jó 30:5). Por se recusarem a trabalhar, eram com justiça acusados de, na prática, viverem do que os outros produziam, pois quem não quer ganhar o próprio pão com trabalho honesto, de certo modo, o está roubando. Foram obrigados a morar em cavernas e entre arbustos, onde clamavam e sofriam em miséria (Jó 30:6-7). Ali não encontravam consolo algum, só dor, medo e vergonha.

Jó diz que não havia nada de bom neles. Eram uma gente vil, sem nome, sem reputação, tão baixa que ninguém falaria bem deles. É difícil imaginar a natureza humana afundar tanto, e Jó dá a entender que, ao agradecermos a Deus por sermos humanos, também deveríamos agradecer por não sermos como esses homens. Ainda assim, eram exatamente essas pessoas que o maltratavam, em parte porque ele, como bom magistrado, já havia lidado com tais vadios e os havia punido conforme a lei, e em parte porque agora eles julgavam que ele estava reduzido à condição deles.

Em segundo lugar, Jó descreve quão cruelmente o tratavam. Faziam canções sobre ele e transformavam sua miséria em motivo de piada (Jó 30:9). Esse tipo de zombaria revela um espírito muito baixo, pois riam do sofrimento de um homem íntegro. Evitavam-no como se fosse uma doença contagiosa, fugindo dele com nojo (Jó 30:10). E mostravam desprezo aberto, prontos a cuspir-lhe no rosto, tropeçá-lo, empurrá-lo e chutá-lo (Jó 30:12). Tratavam-no como um brinquedo, como se sua dor fosse motivo de diversão.

Mesmo os melhores servos de Deus podem receber o pior tratamento de um mundo ímpio e zombador. O sofrimento de Jó foi profundamente vergonhoso, mas não foi algo estranho. Nisso, ele participava de um caminho que os fiéis frequentemente percorrem, e até o próprio Senhor foi tratado de modo semelhante.

Eles foram muito cruéis com ele. Não apenas riam, como também procuravam causar-lhe dano real. O sentido é: “Levantam-se contra mim e provocam a minha ruína”, ou, como alguns entendem, “Lançam sobre mim a culpa de seus próprios males”. Ou seja, culpavam Jó por terem sido expulsos, e é comum que culpados odeiem as leis e os juízes que os condenam.

Sob esse pretexto, acusavam-no falsamente e distorciam a história de sua vida, o que é chamado de “estragar o seu caminho”. Falavam dele como se fosse um tirano e opressor, justamente porque ele havia exercido justiça contra eles. É possível que os amigos de Jó tenham alimentado seus juízos duros, em Jó 22:6 em diante, com base nas queixas injustas dessa gente inútil. Isso revelaria grande fraqueza e má avaliação, pois quem poderia ser tido por inocente se se dão crédito às acusações de pessoas assim?

Eles não só zombavam do sofrimento de Jó, como o agravavam. É um pecado grave aumentar a aflição de alguém, principalmente a de pessoas piedosas. Ninguém os forçou a isso, nem havia quem os apoiasse. Fizeram por vontade própria. Eram tolos em muitas coisas, mas sabiam ser “sábios” para o mal e não precisavam de ajuda para tramar perversidades.

Alguns entendem as palavras no sentido de: “Eles contam a minha miséria como lucro, ainda que nada ganhem com isso.” Gente má costuma se alegrar com a desgraça alheia, mesmo quando não tira nenhum proveito dela.

Os que faziam mal a Jó eram muitos, unidos e violentos (Jó 30:14). Vinham contra ele como torrentes rompendo um dique, ou como soldados invadindo por uma brecha larga num muro depois que a cidade foi arrombada. Avançavam com grande força, e se orgulhavam e se deleitavam nisso. Rolavam sobre a sua ruína como se fosse um leito macio, e o esmagavam com todo o peso do seu ódio.

Todo esse desprezo veio por causa da situação de desgraça em que Jó já se encontrava (Jó 30:11). Porque Deus havia afrouxado o cordão de sua honra e poder, retirando aquilo que o fortalecia e sustentava (Jó 12:18), e desfeito sua antiga tranquilidade, essas pessoas se acharam livres para atacá-lo. Uma vez que Deus o havia despojado de honra, eles se julgaram à vontade para tratá-lo com desprezo. Se Deus solta o freio da maldade humana, as pessoas dirão e farão o que lhes aprouver.

O original também pode ser entendido como: “Porque ele afrouxou o cordão deles”, isto é, Deus retirou o freio que continha a maldade deles. Então eles lançaram fora toda a contenção em relação a Jó, sem mostrar respeito pela sua autoridade ou posição. É somente porque Deus ainda segura as consciências até mesmo dos maus e ainda os restringe que não somos sempre tratados assim. Quando somos insultados desse modo, devemos reconhecer a mão de Deus em retirar essa contenção, como Davi fez quando Simei o amaldiçoou: “Deixa-o amaldiçoar, porque o Senhor lhe disse” (2 Samuel 16:10).

Diante disso, percebemos quão incerta é a honra deste mundo, especialmente o louvor público. Um homem pode cair rapidamente de grande honra em profunda vergonha. Por isso, há pouca razão para se orgulhar ou confiar naquilo que se perde tão facilmente. Os que hoje gritam “Hosana” podem amanhã gritar “Crucifica-o”. Mas há uma honra que vem de Deus; se a buscamos e a guardamos, veremos que ela não muda nem se desfaz como o elogio humano.

Vemos também que pessoas sábias e bondosas muitas vezes foram pisadas e insultadas. E aqueles que julgam só pelas aparências desprezam os que o mundo rejeita, ainda que o céu ainda lhes seja favorável. Nada torna a pobreza mais dura do que ser tratado como desprezível. Como se dizia, a multidão romana seguia a fortuna e se mantinha odiando os que caíam.

Em Jó, enxergamos também um retrato de Cristo, que foi feito “opróbrio dos homens e desprezado do povo” (Salmo 22:6; Isaías 53:3). Cristo não escondeu o rosto da afronta e do cuspir, e suportou essa vergonha de maneira ainda mais perfeita do que Jó.

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