Versículo em destaque
Jó 19:23 - Significado e aplicação
Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje
Tradução: Almeida Corrigida Fiel
" Quem me dera agora, que as minhas palavras fossem escritas! Quem me dera, fossem gravadas num livro! "
Jó 19:23
Versículo no contexto
Entender os versículos ao redor evita interpretações incorretas:
21 Compadecei-vos de mim, amigos meus, compadecei-vos de mim, porque a mão de Deus me tocou.
22 Por que me perseguis assim como Deus, e da minha carne não vos fartais?
23 Quem me dera agora, que as minhas palavras fossem escritas! Quem me dera, fossem gravadas num livro!
24 E que, com pena de ferro, e com chumbo, para sempre fossem esculpidas na rocha.
25 Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra.
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Em todas as conversas entre Jó e seus amigos, não encontramos palavras mais solenes e carregadas de peso do que estas. Quem teria esperado isso? Aqui vemos muito de Cristo e do céu. Jó mostra claramente que buscava uma pátria melhor, isto é, a celestial, como fizeram os patriarcas daquele tempo (Hebreus 11:14).
Aqui está o credo de Jó, sua confissão de fé. Muitas vezes ele já havia falado sobre sua crença em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador dos céus e da terra, e nas verdades básicas da religião natural. Mas aqui vemos que ele também havia sido instruído na revelação especial de Deus. A promessa da Semente e da herança prometida, naquela época, só podia ser vista de forma muito vaga, como a primeira luz da madrugada; ainda assim, Jó cria em um Redentor vivo. Ele também esperava a ressurreição dos mortos e a vida do mundo vindouro. É certamente isso que ele quer dizer aqui.
Ele se consolava com a esperança dessas coisas, e não com um livramento do sofrimento presente ou um retorno à prosperidade terrena, como alguns explicam. As expressões que ele usa sobre o Redentor que se levantará no último dia sobre a terra, e sobre ver a Deus e vê-lo por si mesmo, ficam muito forçadas se forem reduzidas apenas a uma restauração temporária nesta vida. Além disso, é claro que ele não esperava voltar a uma vida próspera neste mundo. Ele havia acabado de dizer que o seu caminho estava cercado (Jó 19:8) e que a sua esperança fora arrancada como se arranca uma árvore (Jó 19:10). Mais adiante, ele volta a dizer que não tem mais consolo a esperar nesta vida (Jó 23:8, Jó 23:9; Jó 30:23). Portanto, é necessário entendê-lo falando do livramento de sua alma do poder da sepultura e de ser recebido em glória, como em (Salmo 49:15).
Temos motivos para pensar que aqui Jó estava sob uma operação especial do bendito Espírito. O Espírito o elevou acima de si mesmo, deu-lhe luz e palavras, até para sua própria surpresa. Alguns observam que, depois disso, Jó não volta a falar com aquelas queixas tão amargas e inquietas contra Deus e sua providência que víamos antes. Essa esperança acalmou seu espírito e serenou a tempestade interior. Tendo ancorado sua alma além do véu, sua mente ficou firme dali em diante.
Note, primeiro, por que Jó faz essa confissão de fé aqui. Ele não poderia ter escolhido momento melhor. Estava sendo acusado, e esta era a sua defesa. Seus amigos zombavam dele como hipócrita e o tratavam como homem perverso. Mas ele apela ao seu credo, à sua fé, à sua esperança e à sua própria consciência, que não só o absolviam de um pecado dominante, como também o consolavam com a esperança de uma ressurreição bendita. Não são palavras de alguém dominado pelo mal. Ele apela desta causa julgada em instância inferior para o juízo de um tribunal mais alto, para aquele a quem todo juízo foi entregue e que o poria em seu verdadeiro lugar. Pensar no Dia de Deus que vem torna muito pequena a importância de ser julgado pela opinião das pessoas (1 Coríntios 4:3, 1 Coríntios 4:4). Quanto melhor suportamos insultos e acusações injustas dos homens quando aguardamos a gloriosa manifestação do nosso Redentor e dos remidos no último dia, e uma ressurreição não só dos corpos, mas também dos nomes.
Em segundo lugar, Jó estava aflito, e essa confissão era o seu consolo. Quando era pressionado além de suas forças, ela o impedia de desfalecer. Ele cria que veria a bondade do Senhor na terra dos viventes; não nesta ordem presente, pois este mundo, na verdade, é terra de moribundos.
Em terceiro lugar, observe as palavras solenes com que ele introduz essa confissão (Jó 19:23, Jó 19:24). De repente, interrompe suas queixas e passa a falar do seu consolo, e o faz não apenas para sua própria paz, mas também para o proveito de outros. Ele pensava que as pessoas à sua volta dariam pouca atenção ao que dissesse, e foi o que de fato aconteceu. Por isso desejou que suas palavras pudessem ser preservadas para as gerações futuras. “Quem me dera agora, que as minhas palavras fossem escritas!”, diz ele, referindo-se às palavras que estava prestes a pronunciar. É como se dissesse: “Sei que já falei muitas palavras tolas, e queria que fossem esquecidas, porque não me trouxeram honra nem fizeram bem a ninguém. Mas agora falo com cuidado, e quero que estas palavras sejam publicadas ao mundo inteiro e conservadas para as gerações futuras, como um memorial duradouro. Que sejam escritas com clareza, registradas de modo que até quem passa correndo possa ler, e não deixadas em folhas soltas, mas colocadas em um livro. E, se ainda assim esse livro se perder, que estas palavras sejam gravadas como inscrição em um monumento, com pena de ferro sobre chumbo, ou esculpidas em pedra. Que o gravador use toda a sua arte para fazer com que esse testemunho permaneça para a posteridade.”
O que Jó desejou com tanta veemência, Deus em sua graça concedeu. Suas palavras foram escritas. Estão registradas no livro de Deus, de modo que, onde quer que esse livro seja lido, isto é contado como memorial a respeito de Jó. Ele creu, por isso falou.
Em seguida, chegamos à confissão em si, às palavras que ele queria ver registradas (Jó 19:25-27). É preciso observá-las com atenção.
Ele crê na glória do Redentor e na sua própria parte nessa redenção. “Porque eu sei que o meu Redentor vive”, ou seja, ele é real e vivo, e é a vida de Jó. “E que por fim se levantará sobre a terra.” Ele será exaltado, ou aparecerá nos últimos dias, isto é, no tempo plenamente determinado por Deus. A era do evangelho é chamada de últimos tempos porque é a forma final da aliança de Deus com os homens. Assim, essas palavras apontam para a sua vinda em carne. Ou podem apontar para a sua crucificação, se o sentido for que será levantado da terra. Ou podem apontar para a sua ressurreição, se o sentido for que se erguerá da terra. Ou, como geralmente entendemos, falam de sua manifestação final sobre a terra, no fim dos tempos, quando virá nas nuvens, e todo olho o verá, tão perto ele virá desta terra. Ele estará sobre o pó, isto é, sobre todos os seus inimigos, que serão reduzidos a pó debaixo de seus pés. Ele os pisará e triunfará sobre eles.
Há aqui duas coisas a notar. Primeiro, foi provido um Redentor para o homem caído, e Jesus Cristo é esse Redentor. A palavra usada fala de um parente próximo, aquele que, pela lei de Moisés, tinha direito de resgatar uma propriedade hipotecada (Levítico 25:25). Nossa herança celestial foi hipotecada pelo pecado. Somos totalmente incapazes de resgatá-la. Cristo é nosso parente próximo, o mais chegado de todos, e é poderoso para redimir. Ele pagou nossa dívida, satisfez a justiça de Deus quanto ao pecado e retirou a hipoteca, estabelecendo nova forma para a herança. Nossas próprias pessoas também precisavam de um Redentor. Éramos vendidos ao pecado, e debaixo do pecado. Nosso Senhor Jesus realizou a redenção em nosso favor, a proclama em nosso favor e a anuncia a nós, e assim é verdadeiramente o Redentor.
Segundo, ele é um Redentor vivo. Assim como fomos criados por um Deus vivo, somos salvos por um Redentor vivo, que é ao mesmo tempo todo-poderoso e eterno, e portanto pode salvar perfeitamente.
A Escritura diz de Cristo que ele vive para sempre (Hebreus 7:8; Apocalipse 1:18). Nós estamos morrendo, mas ele vive; e ele nos assegurou que, porque ele vive, nós também viveremos (João 14:19). Há aqueles que, pela graça, têm verdadeira participação nesse Redentor e podem chamá-lo legitimamente de seu. Quando Jó perdeu seus bens e seus amigos, não foi separado de Cristo, nem cortado do vínculo com ele: “Ainda assim, ele é o meu Redentor.” Esse Parente mais chegado permaneceu com ele quando todos se afastaram, e nisso Jó encontrou consolo.
Nossa parte no Redentor é algo que pode ser conhecido; e, quando é conhecido, pesa mais do que todas as nossas tristezas. “Eu sei”, diz Jó, com confiança firme, “que o meu Redentor vive.” Seus amigos muitas vezes o acusaram de falar ao acaso ou de não saber o suficiente, mas alguém sabe o suficiente, e sabe o que mais importa, se conhece Cristo como seu Redentor. Haverá também um último dia, o dia final, quando o tempo chegar ao fim (Apocalipse 10:6). Esse é um dia que deveríamos manter em lembrança todos os dias. Nessa ocasião, nosso Redentor estará sobre a terra, ou sobre o pó, para chamar os mortos de suas sepulturas e colocá-los em estado irrevogável, pois todo juízo lhe foi entregue. Ele estará por fim sobre o pó em que este mundo se tornará quando for consumido.
Jó também crê na felicidade dos remidos e em seu próprio direito a essa felicidade. Na segunda vinda de Cristo, os crentes serão ressuscitados em glória e feitos perfeitamente bem-aventurados na plena visão e fruição de Deus, e Jó crê nisso para si mesmo. Ele espera que seu corpo se desfará no túmulo, e fala disso com calma e santa serenidade. “E depois de consumida a minha pele…”, isto é, já está gasta e quase destruída; caso ainda mais destruam este corpo, se o túmulo e os vermes reduzirem este esqueleto, esta frágil estrutura, este corpo que posso apontar e tocar, mesmo esperando que logo sirva de alimento aos vermes. O corpo de Cristo não viu corrupção, mas o nosso verá. Jó menciona isso para que a glória da ressurreição que ele espera se destaque com ainda mais clareza.
É bom pensarmos com frequência, não apenas na morte que virá para o nosso corpo, mas também na sua decomposição e dissolução no sepulcro. Porém isso não deve enfraquecer nossa esperança na ressurreição, porque o mesmo poder que formou o corpo humano do pó comum pode levantá-lo outra vez do seu próprio pó. Este corpo, que agora cuidamos tanto e para o qual providenciamos com tanta atenção, em breve será destruído. Até o íntimo de mim é consumido, diz Jó, referindo-se às partes mais profundas do corpo, que podem apodrecer primeiro.
Jó consola-se com a esperança de uma felicidade além da morte e da sepultura. Depois que eu despertar, diz a nota marginal, ainda que este corpo seja destruído, em minha carne verei a Deus. Alma e corpo se unirão novamente. O corpo que deve ser destruído na sepultura será ressuscitado como um corpo glorioso: em minha carne verei a Deus. A alma separada possui olhos espirituais com os quais vê a Deus, mas Jó fala de vê-lo com olhos de carne, em minha carne, com os meus próprios olhos. O mesmo corpo que morreu ressurgirá, um corpo real, mas glorificado, adequado para a atividade e as alegrias daquele mundo, e por isso chamado corpo espiritual (1 Coríntios 15:44). Devemos, portanto, honrar a Deus em nossos corpos, porque tal glória está destinada a eles.
Jó e Deus também se encontrarão novamente. Em minha carne verei a Deus significa que ele verá o Redentor glorificado, que é Deus. Alguns entendem como: verei a Deus em minha carne, isto é, o Filho de Deus revestido de um corpo visível até aos olhos humanos. Embora o corpo no túmulo pareça desprezível e miserável, será honrado e feito feliz na presença de Deus. Jó agora lamentava não conseguir encontrar a Deus (Jó 23:8-9), mas esperava vê-lo em breve e nunca mais perder de vista sua face. Essa visão será ainda mais doce depois da presente escuridão e distância.
Essa é a bem-aventurança dos bem-aventurados: verão a Deus, verão como ele é, e o verão face a face, não mais por meio de um vidro embaçado. Jó se alegra em expandir essa esperança: a quem eu mesmo verei, isto é, verei e desfrutarei, verei para meu próprio consolo profundo e satisfação. Eu o verei como meu, com um olhar pessoal e apropriador (Apocalipse 21:3). O próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Eles serão semelhantes a ele, porque o verão como ele é (1 João 3:2). Meus olhos o verão, e não outro quer dizer, em primeiro lugar, que ele mesmo será visto, não uma figura ou sombra dele, mas ele em pessoa. Os santos glorificados têm plena certeza de que não estão sendo enganados, não é ilusão dos sentidos. Em segundo lugar, eu mesmo, e não outro em meu lugar, o verei. Ainda que minha pele, ainda que meu corpo seja consumido, não precisarei de um substituto. Eu o verei com meus próprios olhos. Essa era a esperança e o ardente desejo de Jó, e alguns entendem assim as últimas palavras: o meu coração desfalece dentro de mim, porque todos os seus anseios se reúnem nessa única esperança. É isso que coroará todos os seus desejos. Dê-me isto, e não preciso de mais nada. Isso basta.
Jó então aplica essa verdade aos seus amigos. Sua fé lhe trazia consolo, mas trazia aviso e temor para aqueles que se opunham a ele. Era uma advertência para que não continuassem a tratá-lo com dureza. Ele já os havia corrigido pelo que disseram, e agora lhes indica o que deveriam dizer para conduzir a si mesmos e uns aos outros a um espírito melhor: Por que o perseguimos assim? Por que o entristecemos e inquietamos, condenando-o, se a raiz da questão se acha nele? Que isso nos guie em dois sentidos.
Primeiro, no cuidado conosco mesmos. Todos precisamos nos certificar de que a raiz da questão está em nós. Um princípio vivo, ativo e dominante da graça no coração é a raiz da questão, tão necessário à verdadeira religião quanto a raiz é necessária à árvore, pois desta dependem sua firmeza e seus frutos. Amor a Deus e ao próximo, fé em Cristo e ódio ao pecado, isso é a raiz da questão. Outras coisas são como folhas ao lado disso. A piedade séria é a única coisa realmente necessária.
Segundo, no modo como tratamos nossos irmãos. Devemos crer que muitos têm em si a raiz da questão, mesmo que não concordem conosco em tudo, e mesmo que tenham tolices, fraquezas e erros. É perigoso perseguir tais pessoas.
Ai de quem fizer mal a um destes pequeninos. Deus se ofenderá com isso e o vingará. Jó e seus amigos divergiam em alguns pontos sobre a forma como Deus governa o mundo, mas concordavam na verdade principal: existe outro mundo depois deste. Portanto, não deveriam ter se atacado por causa dessas diferenças.
Era também uma advertência para eles. A segunda vinda de Cristo será muito assustadora para os que forem encontrados espancando os seus conservos (Mateus 24:49). Assim, como diz o versículo 29, “temei a espada”, isto é, o juízo afiado de Deus, que se volta para todos os lados. Temam provocar esse juízo sobre si mesmos. Pessoas piedosas precisam dos terrores do Todo-Poderoso para se afastarem do pecado, especialmente do pecado de julgar seus irmãos com precipitação (Mateus 7:1; Tiago 3:1).
Aqueles que são duros, irados, críticos ou maldosos contra outros crentes precisam saber de mais de uma coisa. A ira deles, qualquer que seja a desculpa apresentada, não produz o que é justo diante de Deus. E podem esperar sofrer por isso ainda nesta vida. Muitas vezes isso leva a crimes que trazem a espada civil, isto é, o castigo por parte das autoridades. O próprio Deus com frequência pune tal comportamento, e os que não mostram misericórdia não encontrarão misericórdia.
E, se não se arrependerem, isso é aviso de algo ainda pior por vir. Disso se pode saber que há juízo, não apenas o governo presente de Deus sobre o mundo, mas também um juízo futuro, no qual até as palavras duras terão de ser respondidas.
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Deste capítulo
Jó 19:1
"Respondeu, porém, Jó, dizendo:"
Jó 19:2
"Até quando afligireis a minha alma, e me quebrantareis com palavras?"
Jó 19:3
"Já dez vezes me vituperastes; não tendes vergonha de injuriar-me."
Jó 19:4
"Embora haja eu, na verdade, errado, comigo ficará o meu erro."
Jó 19:5
"Se deveras vos quereis engrandecer contra mim, e argüir-me pelo meu opróbrio,"
Jó 19:6
"Sabei agora que Deus é o que me transtornou, e com a sua rede me cercou."
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