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Jeremias 23:9 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Almeida Corrigida Fiel

" Quanto aos profetas, já o meu coração está quebrantado dentro de mim; todos os meus ossos estremecem; sou como um homem embriagado, e como um homem vencido de vinho, por causa do Senhor, e por causa das suas santas palavras. "

Jeremias 23:9

menu_book Versículo no contexto

7 Portanto, eis que vêm dias, diz o Senhor, em que nunca mais dirão: Vive o Senhor, que fez subir os filhos de Israel da terra do Egito;

8 Mas: Vive o Senhor, que fez subir, e que trouxe a geração da casa de Israel da terra do norte, e de todas as terras para onde os tinha arrojado; e habitarão na sua terra.

9 Quanto aos profetas, já o meu coração está quebrantado dentro de mim; todos os meus ossos estremecem; sou como um homem embriagado, e como um homem vencido de vinho, por causa do Senhor, e por causa das suas santas palavras.

10 Porque a terra está cheia de adúlteros, e a terra chora por causa da maldição; os pastos do deserto se secam; porque a sua carreira é má, e a sua força não é reta.

11 Porque tanto o profeta, como o sacerdote, estão contaminados; até na minha casa achei a sua maldade, diz o Senhor.

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auto_stories Comentário Bible Guided

Aqui começa um forte aviso contra os falsos profetas. Ninguém tinha sido mais amargo e hostil contra os verdadeiros profetas de Deus do que eles; por isso é justo que os verdadeiros profetas falem com firmeza contra esses homens. Jeremias já havia apresentado a Deus sua queixa a respeito deles (Jeremias 14:13) e muitas vezes anunciara que eles participariam do juízo que se aproximava. Aqui, porém, eles recebem uma série própria de ais e condenações.

Jeremias mostra o quanto essa situação pesa sobre ele. Ele diz: “o meu coração está quebrantado dentro de mim; todos os meus ossos estremecem; sou como um homem embriagado” (Jeremias 23:9). Sua mente está abalada de espanto, e seu coração está esmagado de tristeza e angústia. Jeremias levava essas coisas muito a sério, e tudo o que ameaçava sua nação o marcava profundamente.

Ele se angustia por causa dos profetas e do pecado deles, de seus falsos ensinos e de suas vidas perversas. O que mais o feria era ouvi-los usar o nome de Deus e dizer que suas mensagens vinham dele. Jamais o Senhor e as palavras de sua santidade tinham sido tão abusados quanto por esses homens. Uma alma fiel sente a maior dor quando o nome de Deus é desonrado e a sua santa palavra é tratada com descuido.

Jeremias também se abala por causa do Senhor e de seus juízos, que agora vêm sobre o povo como uma enchente. Ele treme diante da ruína e destruição que procedem “da presença do Senhor” e “da presença da palavra da sua santidade” (Jeremias 23:9). Isso mostra que esses juízos vêm pelo poder da ira de Deus, exatamente como sua santa palavra havia advertido. Mesmo aqueles que sabem que Deus é por eles não conseguem deixar de tremer quando pensam na situação daqueles que têm Deus contra si.

Ele lamenta ainda a crescente impiedade da terra e os sinais do desagrado de Deus já visíveis entre o povo. “A terra está cheia de adúlteros” (Jeremias 23:10), isto é, cheia tanto de infidelidade espiritual quanto de imoralidade no corpo. As pessoas se desviaram de Deus; e, quando o temor do Senhor se vai, não é de admirar que se afundem em toda sorte de pecado vergonhoso. Eles também desonraram a Deus e a si mesmos com juramentos levianos e falsos; por isso a terra pranteia.

O jurar falsamente e o falar com juramentos por hábito são pecados que deveriam levar uma nação ao arrependimento; caso contrário, Deus fará a terra prantear sob seus juízos. A terra deles já está pranteando por causa da fome. Os pastos aprazíveis e as regiões secas estão murchando por falta de chuva, e mesmo assim não há sinal de arrependimento. A conduta deles continua avançando na mesma direção pecaminosa, e eles se recusam a se desviar dela.

Jeremias então lança grande parte da culpa sobre os profetas e sacerdotes, especialmente sobre os profetas. Ambos são profanos, isto é, tratam as coisas santas de modo irreverente (Jeremias 23:11). Os sacerdotes profanam o culto que deveriam conduzir, e os profetas profanam a palavra que deveriam transmitir. Todo o modo de vida deles está contaminado; não é de espantar que o povo também tenha se corrompido.

Eles também agem como hipócritas, embora escondam isso sob linguagem religiosa. Executam seus planos malignos não só em suas casas e nos lugares ímpios que frequentam, mas até mesmo na casa de Deus. Ali, no templo, justamente o lugar onde os sacerdotes serviam e os profetas falavam, eram culpados tanto de idolatria quanto de imoralidade. Hofni e Fineias, os filhos corruptos de Eli, são um triste exemplo disso (1 Samuel 2:22). Deus sonda a sua própria casa; e quanto mais perto de Deus o pecado é cometido, mais ofensivo ele é.

Duas acusações são feitas contra eles. Primeiro, eles ensinavam o povo a pecar por meio do próprio exemplo. Jeremias os compara aos profetas de Samaria, a principal cidade das dez tribos, que já havia sido destruída há muito tempo. Os profetas de Samaria tiveram a loucura de profetizar em nome de Baal, como fizeram os profetas de Acabe, conduzindo Israel a se desviar do Deus verdadeiro para adorar Baal (Jeremias 23:13). Os profetas de Jerusalém não faziam isso, e se orgulhavam desse fato. Diziam falar em nome do Deus verdadeiro, ao contrário dos profetas de Samaria que falavam em nome de Baal.

Mas de que adiantava isso, se corrompiam a nação tanto pela imoralidade quanto os outros pela idolatria? É terrível que os profetas de Jerusalém usassem o nome do Deus santo enquanto viviam em impureza. Faziam pouco caso do adultério. Usavam o nome do Deus da verdade, mas andavam na mentira. Não apenas pregavam falsidade; até na vida diária ninguém podia confiar no que diziam. Tudo neles era piada, engano ou armação.

Vivendo dessa maneira, encorajavam os pecadores a continuar no mal. As pessoas diziam: “Podemos fazer como os profetas fazem. Por que seríamos melhores do que nossos mestres?” Assim, ninguém se desviava da maldade. Ao contrário, todos continuavam dizendo que teriam paz, mesmo permanecendo no pecado, porque seus profetas lhes prometiam isso. Desse modo, Judá e Jerusalém se tornaram como Sodoma e Gomorra, cidades profundamente ímpias diante do Senhor, e Deus passou a considerá-las dignas apenas de destruição, como aquelas que foram destruídas com fogo e enxofre.

Em segundo lugar, esses profetas incentivavam o pecado por meio de suas mensagens falsas. Convenceram a si mesmos de que não havia mal nem perigo no pecado e passaram a agir de acordo com isso. Não é surpresa que tenham levado outros a crer a mesma coisa (Jeremias 23:16). Falavam de uma visão do próprio coração, algo que inventavam e que se ajustava aos desejos deles. Mas isso não vinha da boca do Senhor. Deus nunca lhes dera tal mensagem, e ela não concordava com a lei de Moisés nem com o que o Senhor tinha falado por outros profetas.

Diziam aos pecadores que tudo iria bem com eles, mesmo que continuassem vivendo no pecado (Jeremias 23:17). Observe a quem eles animavam: os que desprezam a Deus, os que tratam com leveza a sua autoridade, os que fazem pouco do seu culto e de seus caminhos. Também fortaleciam os que seguiam a própria imaginação, adoradores de ídolos e escravos de suas paixões. Pessoas entregues ao prazer sempre acabam desprezando o seu Deus.

Veja como esses profetas lisonjeavam o povo. Deveriam repetir sem cessar: “Não há paz para quem continua no mal”; e: “Os que desprezam o Senhor serão tratados com leveza”; e ainda: “Ai deles, muitos ais virão sobre eles.” Em vez disso, insistiam em dizer: “Vocês terão paz; nenhum mal virá sobre vocês.” Pior ainda, afirmavam que Deus é quem tinha dito isso, fazendo parecer que o próprio Senhor apoia o pecado e se contradiz.

Isso nos adverte que pessoas determinadas a permanecer no mal muitas vezes acabam entregues a crer em mentiras, vinda da parte de quem promete paz enquanto se recusa a chamar ao arrependimento. Deus permite esse tipo de forte engano como forma de juízo.

Deus rejeita tudo o que esses falsos profetas disseram para consolar o povo em seus pecados (Jeremias 23:21). “Eu não enviei esses profetas.” Eles não tinham missão alguma da parte de Deus. Não apenas não foram enviados com essa mensagem; na verdade nunca foram enviados por ele para tarefa nenhuma. Deus declara que jamais lhes deu o recado que alegavam ter recebido.

Mesmo assim, avançaram apressados. Eram ousados e descuidados, falando sem o peso interior que costuma acompanhar a verdadeira profecia. Diziam aos pecadores: “Vocês terão paz.” Mas Deus pergunta: “Quem esteve no conselho do Senhor?” Em outras palavras: quem dentre eles realmente buscou a Deus e recebeu o seu verdadeiro pensamento? Falavam com confiança, mas não confrontavam sua mensagem com o caráter de Deus, sua santidade e sua justiça. Não prestavam atenção atenta à sua palavra, nem comparavam suas afirmações com a Escritura. Se o tivessem feito, jamais diriam tais coisas.

Todo aquele que fala em nome de Deus deve provar sua mensagem pela lei e pelo testemunho. Quem ouve também deve fazer isso. Mas qual desses profetas, que prometiam paz, de fato procedeu assim? Essa falha mostra que eles não estiveram no conselho de Deus nem ouviram a sua palavra, como fica ainda mais claro em Jeremias 23:22.

Se realmente tivessem estado no conselho de Deus, teriam usado a Escritura como padrão. Teriam levado o povo de Deus a ouvir as palavras do Senhor e se apegado firmemente a elas. Como não falaram segundo essa regra, fica evidente que neles não havia luz.

Teriam também feito da conversão de almas o alvo de seu ministério. Sua pregação teria buscado afastar as pessoas do mal em geral e de cada prática pecaminosa em particular. Teriam trabalhado por uma reforma real na vida das pessoas. O propósito deles teria sido separar o povo de seus pecados. Mas nunca foi isso que buscaram. Em vez disso, fortaleceram os pecadores para permanecerem em seus pecados.

Eles também teriam visto algum fruto em seu ministério. O sentido é este: se tivessem estado no conselho de Deus, e se as palavras que pregavam fossem de fato palavras de Deus, então teriam levado o povo a se converter de seus maus caminhos. O poder de Deus teria acompanhado a palavra, convencendo os pecadores. Deus abençoa a sua própria obra. Ainda assim, isso não é uma regra infalível em todos os casos, porque o próprio Jeremias, embora enviado por Deus, conseguiu convencer apenas poucos a se desviarem do mal.

Deus então ameaça castigar esses profetas por sua impiedade. Eles prometiam paz ao povo, mas Deus mostra a loucura disso, dizendo que eles mesmos não teriam paz. Estavam totalmente incapacitados para garantir segurança a outros quando o mal já vinha sobre eles e eles nem percebiam (Jeremias 23:12). Porque profetas e sacerdotes eram profanos, seus caminhos seriam como veredas escorregadias na escuridão.

Os que conduzem outros ao erro, especialmente quando sabem o que estão fazendo, perderão todo conforto no próprio caminho. Fingem mostrar a outros a vereda certa, mas eles mesmos estarão em trevas, ou ao menos em neblina. Sua visão falhará, e não terão clareza nem mesmo para si. Fingem dar aos outros plena segurança, mas não terão base firme. Seus caminhos serão escorregadios, de modo que não andarão com firmeza, nem com segurança, nem com paz.

Tentam acalmar o povo com palavras lisonjeiras, mas eles mesmos serão perturbados. Serão levados à força, ou como cativos, ou como fugitivos que correm de seus perseguidores. Cairão justamente no caminho em que esperavam achar livramento, e assim cairão nas mãos dos inimigos. Prometem afastar o mal dos outros, mas Deus trará o mal sobre eles, o próprio ano do seu castigo, o tempo determinado para lhes pedir contas. Esse tempo fixado chega para todos os que se recusam a se julgar a si mesmos, e é um tempo mau. O ano do castigo é o ano da recompensa.

Deus acrescenta: “Eu lhes darei a beber absinto”, isto é, veneno, algo amargo e nocivo, “e lhes darei a beber água de fel” (ou, como alguns entendem, suco de cicuta). Ver (Jeremias 9:15). É justo que a taça de tremor seja dada primeiro a eles, porque dos profetas de Jerusalém, que deveriam ser exemplos de piedade e de tudo o que é honroso, partiu a impiedade que se espalhou pela terra. Nada destrói mais completamente uma nação do que ministros corrompidos.

O povo também é advertido a não confiar nesses falsos profetas. Embora eles prometessem segurança, os juízos de Deus certamente se levantariam contra o povo, a menos que se arrependessem (Jeremias 23:16). O aviso é: “Atentem para o que Deus diz e não escutem esses profetas. No fim vocês verão que a palavra que permanece é a de Deus, não a deles. A palavra de Deus torna vocês sóbrios e sérios; eles os tornam vazios e insensatos. Eles alimentam em vocês esperanças ocas, que acabarão frustrando vocês.”

Eles dizem: “Nenhum mal virá sobre vocês.” Mas ouçam o que Deus diz (Jeremias 23:19): “Eis que saiu um tufão da parte do Senhor, com furor.” Eles afirmam que tudo ficará calmo e em paz, mas Deus diz que vem uma tempestade, um redemoinho enviado por ele, diante do qual ninguém pode permanecer de pé. É um vendaval levantado pela ira divina. Saiu dos depósitos dos juízos de Deus, por isso será uma tempestade severa. Cairá pesadamente, com chuva e saraiva, sobre a cabeça dos ímpios, e eles não poderão escapar nem encontrar abrigo.

Essa tempestade cairá sobre os profetas ímpios que enganaram o povo, e sobre o povo ímpio que se deixou enganar. Uma tempestade horrível será a porção deles (Salmo 11:6). Essa sentença está firmada e não pode ser revogada (Jeremias 23:20): “A ira do Senhor não se desviará, porque já saiu o decreto.”

Deus não voltará atrás, e não permitirá que sua ira seja afastada, até que tenha executado sua sentença e realizado o que determinou. Quando o redemoinho de Deus desce do céu, não retorna sem cumprir aquilo para o qual foi enviado (Isaías 55:11). Agora as pessoas podem não refletir sobre isso, mas, nos últimos dias, entenderão claramente, com verdadeira percepção. Os que não quiserem temer os avisos de Deus sentirão o seu juízo, e então compreenderão plenamente o que agora se recusam a crer. Aprenderão, tarde demais, quão terrível é cair nas mãos de um Deus santo e zeloso. Os que não querem pensar com antecedência serão obrigados a pensar quando já for tarde.

Diversas verdades são aqui colocadas diante desses falsos profetas, para levá‑los à convicção e, se possível, levá‑los a reconhecer seu erro e confessar o mal que causaram ao povo de Deus. Primeiro, deveriam lembrar que, embora possam enganar as pessoas, não podem enganar a Deus. Os homens não conseguem atravessar o véu de suas mentiras, mas Deus consegue. Nisso, Deus declara sua presença em toda parte e seu perfeito conhecimento de todas as coisas (Jeremias 23:23-24). Quando esses profetas diziam ao povo que nenhum mal viria, mesmo que continuassem vivendo em pecado, agiam sobre pensamentos incrédulos. Agiam como se o Senhor não visse o pecado, não pudesse julgar através da nuvem escura, e nunca fosse chamá‑los a prestar contas. Por isso precisavam ser instruídos nas verdades mais básicas da religião e confrontados com o que ninguém pode negar de forma razoável.

Deus afirma que, embora seu trono esteja estabelecido nos céus e a terra pareça distante dele, ainda assim ele está presente neste mundo inferior tanto quanto no mundo superior que nos parece mais próximo dele (Jeremias 23:23). O olhar de Deus é o mesmo sobre a terra e sobre o céu. Ele esquadrinha aqui da mesma forma que esquadrinha lá (2 Crônicas 16:9). O que está na mente dos seres humanos, cujos espíritos estão revestidos de carne, é tão claro para ele quanto o que está na mente dos anjos, esses espíritos sem véu que cercam o seu trono. Seu poder é o mesmo na terra entre os seus habitantes, como é no céu entre os exércitos celestiais. Para nós, perto e longe fazem grande diferença no que vemos e fazemos, mas não é assim com Deus. Trevas e luz, o que está próximo e o que está distante, são igualmente acessíveis a ele.

Deus também declara que ninguém pode se esconder de seu olhar onisciente, por mais esperto ou cuidadoso que seja (Jeremias 23:24). Pode alguém esconder‑se em lugares secretos da terra de tal forma que Deus não o veja? Pode alguém esconder seus planos e intenções nos recantos secretos do coração para que Deus não os perceba? Nenhum tipo de esconderijo consegue tirar as pessoas do campo de visão de Deus ou enganar o seu juízo. Ele está presente em toda parte. Ele não apenas governa céus e terra e sustenta ambos com seu cuidado; ele enche céus e terra com a sua própria presença (Salmo 139:7-8). Nenhum lugar consegue contê‑lo nem excluí‑lo.

Deus aplica essa verdade diretamente àqueles profetas, que tinham se tornado peritos em esconder o que faziam (Jeremias 23:25-26). Ele diz: “Tenho ouvido o que dizem esses profetas que profetizam mentiras em meu nome.” Eles pensavam que Deus estivesse tão ocupado com o outro mundo que não tivesse tempo de notar o que se passava aqui. Mas Deus lhes mostrará que conhece todas as mentiras deles e todas as afirmações falsas que espalharam sob o disfarce de revelação divina. Aquilo com que queriam lisonjear o povo, fingiam ter recebido em sonho, embora nada disso tivesse acontecido. As pessoas não podiam facilmente desmenti‑los, pois qualquer um pode dizer: “Tive um sonho”, e ninguém pode contestar diretamente. Mas Deus revelou a fraude. Talvez esses falsos profetas murmurassem suas alegações apenas aos amigos íntimos, dizendo: “Sonhei isto e aquilo.” Deus ouviu. Seu olhar penetrante seguiu cada método que usaram para enganar o povo, e ele pergunta: “Até quando?” Deveria eu suportá‑los para sempre? Ou, como alguns entendem, será que está mesmo no coração desses profetas continuar profetizando mentiras e o engano de seus próprios corações? Nunca perceberão a afronta que fazem a Deus, o mal que causam ao povo e os juízos que estão acumulando para si mesmos?

Em segundo lugar, eles deveriam considerar que passar adiante revelações falsas e afirmar que seus próprios pensamentos vinham por inspiração divina era o caminho mais certo para trazer a religião ao desprezo e levar muitos ao ateísmo e à incredulidade. Esse, na verdade, era o resultado daquilo que faziam, embora usassem com frequência o nome de Deus e começassem tudo com “Assim diz o Senhor”. Contudo, Deus declara: “Eles pensam em fazer o meu povo esquecer o meu nome por meio dos seus sonhos.” Eles queriam afastar o povo do culto a Deus, de suas leis e ordenanças, e dos verdadeiros profetas, assim como seus pais haviam esquecido o nome de Deus por causa de Baal. O grande objetivo de Satanás é fazer as pessoas se esquecerem de Deus e de tudo aquilo por meio do qual Deus se deu a conhecer, e ele usa muitos artifícios sutis para isso. Às vezes ele faz isso levantando falsos deuses, pois quem se apega a Baal logo esquece o nome do Senhor. Outras vezes faz isso deturpando o verdadeiro Deus, como se Ele fosse semelhante a nós. Pretensas “novas revelações” podem ser tão perigosas para a verdadeira religião quanto negar toda e qualquer revelação. Falsos profetas falando em nome de Deus podem causar mais dano à verdadeira piedade do que falsos profetas falando em nome de Baal, porque as pessoas se guardam menos contra eles.

Em terceiro lugar, eles deveriam pensar na imensa diferença entre as mensagens que traziam e as mensagens dos verdadeiros profetas do Senhor (Jeremias 23:28). O profeta que tem um sonho, forma de inspiração à qual os falsos profetas mais gostavam de recorrer, deveria contá‑lo apenas como sonho. Não deveria dar a ele mais peso do que o que se dá a sonhos comuns, nem esperar que fosse tratado como algo importante. Não deveria dizer que veio de Deus, nem chamar mensagens tolas de sonhos, de recados divinos. Mas o verdadeiro profeta, aquele que tem a palavra de Deus, deve falar essa palavra fielmente e declará‑la como verdade. Ele deve ater‑se ao que Deus lhe confiou, e então a diferença entre os sonhos dos falsos profetas e a verdadeira mensagem de Deus logo ficará evidente. Quem afirma ter uma mensagem de Deus, por sonho ou por voz, deve proclamá‑la claramente, e logo se verá qual mensagem procede realmente de Deus e qual não procede. Aqueles cujos sentidos espirituais estão exercitados conseguem discernir a diferença. Que é a palha em comparação com o trigo? As promessas de paz que esses profetas ofereciam se pareciam tão pouco com as promessas de Deus quanto a palha se parece com o trigo. Ideias humanas são leves, ocas e sem valor, como palha levada pelo vento. Mas a palavra de Deus tem substância. Ela é preciosa e alimenta a alma como pão.

O trigo era a principal cultura de alimento em Canaã, aquela terra muitas vezes chamada de vale da visão (Deuteronômio 8:8; Ezequiel 27:17). Da mesma maneira, há tanta diferença entre as ideias vazias dos homens e a pura palavra de Deus quanto há entre palha e trigo. Jeremias diz mais adiante: “Não é a minha palavra como fogo?”, diz o Senhor (Jeremias 23:29). A palavra deles não se parece em nada com isso. A comparação é tão impossível quanto entre fogo pintado e fogo verdadeiro.

O ensino deles é como uma falsa luz, um clarão enganoso que tira as pessoas do caminho e as conduz ao perigo. A palavra de Deus é como fogo. A lei foi um fogo ardente (Deuteronômio 33:2), e Cristo diz do evangelho: “Vim lançar fogo na terra” (Lucas 12:49). O fogo age de maneiras diferentes, conforme o que toca. Ele endurece o barro, mas amolece a cera. Queima a escória, mas purifica o ouro. Assim também, a palavra de Deus comunica vida a uns e traz juízo a outros.

Deus apela à consciência daqueles que ouviram essa palavra: “Não são as minhas palavras assim?” (Zacarias 1:6). Em outras palavras, falem com sinceridade sobre o que vocês mesmos têm experimentado. A palavra de Deus também é como um martelo que quebra a penha em pedaços. O coração humano orgulhoso é como pedra. Se não se deixa derreter pelo fogo da palavra de Deus, acabará sendo despedaçado por ela como por um martelo. Qualquer resistência à palavra, um dia, será destruída.

Eles também precisavam lembrar que Deus era contra eles enquanto continuassem nesse caminho. Três vezes ele declara isso, em Jeremias 23:30, Jeremias 23:31 e Jeremias 23:32: “Eu sou contra esses profetas.” Eles alegavam falar por Deus e usavam seu nome, mas, na verdade, eram contra Ele. Deus os vê como realmente são e se põe contra eles. Como alguém pode estar seguro, ou mesmo em paz, quando o Deus Todo‑poderoso está contra si?

Enquanto esses profetas prometiam paz ao povo, Deus declarava guerra contra eles. Aqui são acusados de roubo: “Roubam as minhas palavras, cada um ao seu companheiro.” Alguns entendem que isso significa que eles roubavam as mensagens dos verdadeiros profetas. Copiavam seus sermões e expressões, misturavam com suas próprias palavras e os vendiam, como mercadores que misturam mercadoria ruim com a boa. Outros entendem que isso quer dizer que arrancavam a palavra de Deus do coração do povo. Como o maligno na parábola de Jesus, roubavam a boa semente da palavra (Mateus 13:19). Por suas manobras, enfraqueciam a autoridade e o poder da palavra de Deus justamente naqueles que começavam a ser convencidos por ela.

Eles também são acusados de falsificar o selo de Deus. Deus é contra eles porque usam a língua segundo o seu bel‑prazer e, em seguida, colocam o nome de Deus sobre suas próprias ideias. Dizem: “Ele disse: oráculo do Senhor”, quando a mensagem veio deles mesmos. Alguns entendem que o texto indica que eles “alisam” a língua: falam de modo agradável e lisonjeiro, nunca repreendendo nem advertindo o povo. Suas palavras são mais suaves que a manteiga. Usam isso para ganhar simpatia e dinheiro, e depois têm a ousadia e maldade de atribuir a Deus a responsabilidade por suas mentiras. Que insulto maior poderia haver ao Deus da verdade do que colocar à porta dele as mentiras do pai da mentira?

Eles também são desmascarados como falsários comuns. Deus diz: “Eu sou contra eles, porque profetizam sonhos mentirosos.” Alegam mensagens divinas, mas aquilo que anunciam são apenas invenções próprias. Esse é um engano terrível. Não serve de desculpa dizer: “Que o comprador se cuide”, ou, “Se as pessoas querem ser enganadas, que sejam enganadas.” De fato, o povo erra ao confiar cegamente e não provar o que ouve. Mas é muito pior que os próprios profetas conduzam o povo de Deus ao erro por meio de suas mentiras e de seu procedimento irresponsável. Eles bajulam as pessoas em suas pregações, deixando‑as à vontade em seus pecados, e reforçam esses mesmos pecados pela frouxidão e maldade de sua própria conduta.

Deus deixa claro que nunca os enviou nem lhes deu ordem alguma. Eles não são seus mensageiros, e o que dizem não é a sua mensagem. Por isso, Ele com toda justiça lhes recusa sua bênção. “Portanto, não aproveitarão a este povo em coisa alguma.” O único “benefício” que procuram é deixar o povo tranquilo, mas até isso falhará, porque os juízos de Deus, ao mesmo tempo, farão o povo tremer. Eles em nada aproveitam o povo, e aqui se sugere mais do que se declara. Não apenas deixam de ajudar; causam grande dano. Aqueles que corrompem a palavra de Deus enquanto afirmam pregá‑la não edificam a igreja. Eles causam o pior estrago possível.

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