Deuteronômio 3:1
" Depois nos viramos e subimos o caminho de Basã; e Ogue, rei de Basã, nos saiu ao encontro, ele e todo o seu povo, à peleja em Edrei. "
Entenda os temas principais e aplique Deuteronômio 3 na sua vida hoje
29 versículos | Almeida Corrigida Fiel
A vitória sobre Ogue, rei de Basã, e a tomada de cidades altamente fortificadas são atribuídas inteiramente à ação do Senhor. A ordem de não temer e a afirmação de que Deus peleja pelo seu povo mostram que a verdadeira força de Israel não está em seu exército, mas no Deus que luta em seu favor.
As tribos que recebem possessão do lado leste do Jordão são chamadas a não buscar conforto isolado, mas a atravessar armadas para apoiar seus irmãos até que todos recebam a herança e descanso prometidos. A bênção de Deus está ligada à solidariedade entre as tribos.
Moisés é instruído a fortalecer e animar Josué para conduzir o povo à conquista da terra. A liderança não é centrada em uma pessoa, mas na fidelidade de Deus, que continuará agindo através do novo líder.
O pedido sincero de Moisés para entrar na terra é negado pelo Senhor, que o lembra das consequências de sua desobediência anterior. Mesmo um líder tão íntimo de Deus experimenta disciplina, mostrando a santidade e a justiça divinas, ao mesmo tempo em que recebe graça para ver a terra e concluir bem sua missão.
Deuteronômio 3 situa-se no final da peregrinação de Israel pelo deserto, pouco antes da entrada na terra de Canaã. O povo está acampado nas campinas de Moabe, a leste do Jordão, em frente a Jericó. O capítulo relembra a recente campanha militar contra Ogue, rei de Basã, um poderoso governante amorreu ao norte, cuja terra ficava na região de Basã e Argobe, conhecida por cidades fortificadas e pela presença de antigos gigantes (refaim). Ogue é descrito como o último remanescente desses gigantes, o que enfatiza a grandeza da vitória e a intervenção sobrenatural de Deus.
O texto também descreve a distribuição das terras conquistadas a leste do Jordão às tribos de Rúben, Gade e à meia tribo de Manassés. Essa concessão já havia sido combinada, desde que essas tribos se comprometessem a lutar junto com seus irmãos na conquista de Canaã, a oeste do Jordão. Moisés, ciente de que não entrará na terra prometida por causa do episódio em Meribá (quando feriu a rocha e não santificou o Senhor diante do povo), prepara o povo e Josué para a próxima etapa da história: a conquista sob nova liderança.
Geograficamente, são citados limites importantes: o rio Arnom ao sul, o monte Hermom ao norte, o Jordão como fronteira ocidental, e o Mar Salgado (Mar Morto) ao sul. Termos como Gileade, Basã, Argobe, Rabá dos filhos de Amom e Asdote-Pisga situam o leitor em uma região estratégica entre grandes reinos da época. As menções aos sidônios e amorreus, com seus diferentes nomes para o monte Hermom, refletem a diversidade de povos e culturas vizinhas em torno de Israel.
Deuteronômio 3 apresenta-se como parte do grande discurso retrospectivo de Moisés, com uma narrativa histórica organizada de forma teológica:
Vitória sobre Ogue, rei de Basã (3:1-7)
– Descrição do encontro com Ogue em Edrei.
– Palavra de encorajamento do Senhor a Moisés: não temer.
– Relato da derrota completa de Ogue e de seu povo.
– Tomada e destruição das cidades, preservando apenas o gado e o despojo.
Resumo territorial das conquistas a leste do Jordão (3:8-11)
– Delimitação geográfica da área tomada dos dois reis amorreus.
– Explicação sobre o monte Hermom e seus diferentes nomes.
– Ênfase na estatura singular de Ogue, com referência ao seu leito de ferro.
Distribuição da terra às tribos do leste (3:12-17)
– Concessão de partes de Gileade a Rúben e Gade.
– Concessão de Basã e Argobe à meia tribo de Manassés.
– Mencão de Jair e Maquir, ligados à tribo de Manassés, e dos nomes dados às regiões.
– Definição detalhada dos limites de cada parte: rios, campina, Jordão e mar.
Chamado à solidariedade nas batalhas (3:18-20)
– Ordem às tribos já estabelecidas para que seus guerreiros passem armados à frente dos irmãos.
– Definição de quem fica nas cidades (mulheres, crianças e gado).
– Condição: permanecerem no apoio até que os demais também recebam descanso e herança.
Encorajamento e comissionamento de Josué (3:21-22)
– Moisés usa as obras de Deus contra os dois reis como base para a confiança no futuro.
– Reafirmação de que o Senhor é quem peleja por Israel.
O pedido de Moisés e a resposta de Deus (3:23-29)
– Oração de Moisés, exaltando a grandeza exclusiva de Deus.
– Pedido para atravessar o Jordão e ver a boa terra, a montanha e o Líbano.
– Recusa firme de Deus, por causa do povo, com a ordem: “Basta”.
– Instrução para Moisés subir ao Pisga e contemplar a terra de longe.
– Ordem de fortalecer e animar Josué, que conduzirá o povo.
– Conclusão situando o povo no vale defronte de Bete-Peor.
Deuteronômio 3 destaca a combinação entre a soberania de Deus, a responsabilidade humana e a graça, tudo isso dentro da história concreta de Israel.
A vitória sobre Ogue e a conquista de cidades fortificadas revelam Deus como o verdadeiro guerreiro de Israel. O comando “não o temas” (v.2) e a declaração “o Senhor vosso Deus é o que peleja por vós” (v.22) expressam a teologia central de que o povo da aliança não confia em carros, cavalos ou gigantes, mas no Senhor. A destruição completa dos amorreus, embora difícil sob a lente moderna, está ligada ao julgamento de Deus sobre povos cuja iniquidade havia amadurecido, e à preservação do povo da aliança de influências espirituais e morais destrutivas.
A distribuição da terra a leste do Jordão ilustra que a herança é dom de Deus, não conquista autônoma de Israel. Ainda assim, a ordem para que os homens valentes passem armados à frente de seus irmãos mostra que a fé bíblica não é passiva: Deus promete, mas chama seu povo a agir em cooperação com sua vontade. A expressão “até que o Senhor dê descanso a vossos irmãos como a vós” (v.20) antecipa a teologia do “descanso” que atravessa as Escrituras, apontando não apenas para estabilidade geográfica, mas para uma condição de vida sob o governo de Deus.
A figura de Moisés, impedido de entrar na terra, é teologicamente densa. A recusa de Deus em atender à súplica de um servo tão fiel revela a seriedade da santidade divina e da liderança espiritual. Ao mesmo tempo, a graça se manifesta em permitir que Moisés veja a terra do alto do Pisga e em lhe confiar a missão de preparar Josué. Essa transição sublinha que a obra de Deus não depende de um único líder; ela continua de geração em geração, sustentada pela fidelidade do próprio Deus.
Ao exaltar a incomparável grandeza de Deus (“pois, que Deus há nos céus e na terra, que possa fazer segundo as tuas obras?”, v.24), o capítulo afirma o monoteísmo radical de Israel: não há outro Deus que se compare ao Senhor em poder, obras e fidelidade à aliança. Assim, Deuteronômio 3 une história, adoração, juízo e esperança, convidando à confiança no Deus que conduz seu povo à herança prometida, mesmo quando seus caminhos desafiam as expectativas humanas.
Deuteronômio 3 oferece uma rica base para cuidado emocional e espiritual em contextos de medo, frustração e transição. A repetição da ordem de não temer, ancorada na certeza de que Deus luta pelo seu povo, fala a corações tomados por ansiedade diante de desafios que parecem maiores do que as próprias forças. O relato das vitórias passadas funciona como um recurso terapêutico de memória: revisitar o que Deus já fez fortalece a esperança em situações presentes.
A narrativa de Moisés, que deseja algo bom, ora sinceramente e, ainda assim, recebe um “não” definitivo de Deus, reconhece a dor de expectativas não realizadas. O texto não minimiza esse sofrimento; mostra um servo fiel que precisa acolher o limite imposto por Deus, lidar com a frustração e, mesmo assim, seguir adiante em sua vocação de servir, encorajando Josué e cuidando do povo. Isso legitima a experiência humana de luto por sonhos não concretizados, sem negar a possibilidade de encontrar sentido e paz nesse processo.
O compromisso das tribos já estabelecidas a ajudar seus irmãos aponta para a importância de redes de apoio: ninguém deveria descansar plenamente enquanto outros ainda lutam para alcançar segurança e estabilidade. Esse princípio de solidariedade ressoa com abordagens terapêuticas que valorizam comunidade, corresponsabilidade e suporte mútuo em tempos de crise.
Por fim, a ordem de Deus para que Moisés suba ao Pisga e veja a terra, ainda que não entre nela, sugere um cuidado divino que concede consolo simbólico em meio à perda: permitir vislumbrar a bondade do que Deus está fazendo, ainda que a pessoa não participe de tudo diretamente. Essa perspectiva pode ajudar na elaboração de perdas, convidando a integrar gratidão e dor na mesma história.
O capítulo descreve guerras, destruição de cidades e a morte de homens, mulheres e crianças (v.6), além de referências a gigantes e conflitos intensos. Leitores com histórico de trauma relacionado a violência, guerra, abuso ou perda familiar podem sentir-se incomodados ou desencadeados por esses elementos. A linguagem de extermínio, se lida sem contexto, pode gerar sentimentos de medo, revolta ou confusão sobre o caráter de Deus.
O relato da negativa de Deus ao pedido de Moisés (v.25-27) também pode ser difícil para pessoas em luto por orações aparentemente não atendidas, doenças crônicas, perdas irreversíveis ou frustrações profundas. Sem acompanhamento cuidadoso, esse trecho pode ser interpretado como Deus sendo frio, punitivo ou indiferente à dor humana.
Outro ponto sensível é o uso de linguagem de combate espiritual, como “o Senhor vosso Deus é o que peleja por vós” (v.22). Em alguns contextos, isso pode ser mal aplicado para incentivar atitudes impulsivas, agressivas ou fatalistas, em vez de confiança equilibrada, responsabilidade e busca de ajuda adequada.
Em leituras pastorais ou terapêuticas, é importante reconhecer essas possíveis reações, validar as emoções despertadas e oferecer espaço para perguntas honestas sobre justiça, sofrimento e limites. Também é prudente evitar usar esse texto isoladamente para justificar violência, negligência de cuidados humanos ou para silenciar a dor genuína de quem teve sonhos negados ou adiados.
Enfrentar desafios com memória das vitórias de Deus
Recordar situações passadas em que portas se abriram, provisões chegaram ou forças inesperadas surgiram pode sustentar a coragem diante de novos desafios. Assim como Israel olhava para as vitórias sobre Siom e Ogue, a memória de livramentos anteriores fortalece a confiança no cuidado contínuo de Deus.
Ser solidário mesmo em tempos de conquista pessoal
As tribos que já tinham sua terra não foram liberadas de lutar; ao contrário, foram chamadas a ir na frente para ajudar os irmãos. Na prática, isso inspira a não viver de forma isolada quando se alcança estabilidade financeira, emocional ou espiritual, mas a usar essa condição para apoiar quem ainda está em meio à batalha.
Lidar com o “não” de Deus com sinceridade e rendição
Moisés ora pedindo para atravessar o Jordão, mas aprende a aceitar a resposta negativa sem romper seu relacionamento com Deus. Isso oferece um modelo de como continuar servindo, amando e obedecendo, mesmo quando planos profundamente desejados não se cumprem.
Preparar e encorajar a próxima geração
Em vez de se apegar ao próprio papel, Moisés investe em Josué, fortalecendo-o para assumir a liderança. No cotidiano, isso se traduz em mentorear outras pessoas, transmitir experiências e abrir espaço para novos líderes em família, igreja, trabalho e comunidade.
Rever o medo à luz de quem Deus é
A ordem de “não temer” está sempre ligada à pessoa de Deus e ao que Ele já fez. Superar o medo não significa negar riscos ou emoções, mas interpretá-los à luz da presença e fidelidade de Deus, buscando também recursos práticos e apoio comunitário.
Reconhecer limites pessoais sem perder o senso de vocação
Moisés não entra na terra, mas cumpre plenamente a missão de conduzir o povo até o limiar da promessa e preparar a transição. Isso inspira a reconhecer limites de saúde, tempo, idade ou circunstâncias, sem abandonar a responsabilidade de servir com fidelidade no espaço que ainda é possível.
Ogue foi um rei amorreu que governava a região de Basã, ao norte de Gileade, conhecida por suas cidades fortificadas. Ele é descrito como o último remanescente dos gigantes (refaim), o que ressalta sua impressionante estatura e poder. O texto menciona seu leito de ferro, de cerca de quatro metros de comprimento (nove côvados), provavelmente um símbolo de sua grandeza. A derrota de Ogue por Israel, sob a direção do Senhor, é apresentada como uma vitória extraordinária, destinada a fortalecer a fé do povo para as batalhas futuras.
Deuteronômio 3 retoma uma decisão já comunicada anteriormente: Moisés não entraria na terra prometida por causa de um episódio de desobediência em Meribá, quando não santificou o Senhor diante do povo. Aqui, Moisés conta que suplicou a Deus para atravessar o Jordão e ver a boa terra, mas o Senhor se indignou por causa do povo e lhe disse um firme “Basta”. Em vez de revogar a decisão, Deus o orienta a subir ao Pisga para contemplar a terra de longe e a investir em Josué como sucessor. Isso mostra a seriedade da liderança espiritual e, ao mesmo tempo, a graça de Deus em permitir a Moisés concluir sua missão com dignidade.
Essa frase resume uma das convicções centrais da fé de Israel: o verdadeiro guerreiro do povo é o próprio Senhor. As batalhas não são vistas apenas como confrontos entre exércitos humanos, mas como situações em que Deus intervém para cumprir suas promessas. A ordem de não temer não ignora o perigo real representado por reis poderosos e cidades fortificadas; ela reconhece que, diante do poder de Deus, nenhum inimigo é invencível. A fé autêntica, nesse contexto, consiste em obedecer e avançar, confiando que Deus está ativamente envolvido na história do seu povo.
Essas tribos receberam sua herança nas terras conquistadas a leste do Jordão, mas o restante de Israel ainda precisava tomar posse de Canaã, a oeste. A ordem para que seus homens valentes atravessassem armados diante dos irmãos expressa um princípio de solidariedade: ninguém deveria desfrutar de descanso pleno enquanto seus irmãos ainda estavam em luta. Isso reforça a visão de que o povo de Deus é uma comunidade unida, na qual a bênção de uns está ligada à fidelidade em apoiar os outros até que todos recebam a herança prometida.
A transição de Moisés para Josué mostra que a obra de Deus não depende de um único líder, por mais importante que ele seja. Moisés, que conduziu o povo desde o Egito, não entra na terra, mas é chamado a animar e fortalecer Josué, que dará o próximo passo da história. Isso destaca que a verdadeira continuidade não está em figuras humanas, mas na fidelidade do próprio Deus, que permanece com seu povo de geração em geração. A transição planejada, com encorajamento explícito, também aponta para a importância de preparar novos líderes e transmitir-lhes confiança e visão.
Deuteronômio 3 revela um Deus que conhece profundamente o medo humano e fala diretamente a ele. As palavras “não o temas” e “não os temais” não são ordens frias, mas declarações cheias de cuidado, acompanhadas de uma promessa: “o Senhor vosso Deus é o que peleja por vós”. Em meio a batalhas reais, cercados por cidades fortificadas e pela memória de gigantes como Ogue, o povo precisava saber que não estava sozinho. O capítulo também abre uma janela sensível para o coração de Moisés. Ele é um líder fiel, que carrega o peso da caminhada do povo, e ainda assim tem desejos profundos, como o de entrar na boa terra e ver o Líbano. Seu pedido a Deus é honesto, quase um suspiro: “Rogo-te que me deixes passar”. Quando Deus responde com um “Basta; não me fales mais deste assunto”, isso toca em uma dor real. Moisés precisa aceitar um limite definitivo, algo que não será mudado, por mais que ele deseje. Essa história reconhece que até pessoas muito próximas de Deus conhecem frustração e perda de sonhos. A graça de Deus aparece no cuidado de permitir a Moisés ver a terra do alto do Pisga e no privilégio de fortalecer Josué para continuar a obra. Não é o final que ele imaginou, mas Deus ainda o envolve em seu plano. Há consolo em saber que a dor por aquilo que não será vivido não é desconhecida perante Deus. Ele enxerga o desgaste da caminhada, o medo das batalhas, o luto pelos “não” recebidos. E, ao mesmo tempo, oferece presença, propósito renovado e pequenas antecipações da sua bondade, como a visão da terra prometida ao longe. Nesse encontro entre coragem e limite, o coração encontra um Deus que luta ao lado de seu povo, mas também acompanha de perto as lágrimas de seus servos.
Deuteronômio 3 se insere no primeiro grande discurso de Moisés (Dt 1–4), que funciona como uma releitura teológica da história recente de Israel às portas de Canaã. O capítulo combina narrativa militar, delimitação territorial, legislação relacionada à herança e reflexão pessoal de Moisés, tudo sob a ótica da fidelidade de Deus à aliança. Do ponto de vista histórico, a derrota de Ogue, rei de Basã, complementa a vitória anterior sobre Siom, rei de Hesbom (cap. 2). Juntos, esses relatos mostram a tomada do território amorreu a leste do Jordão, desde o Arnom até o Hermom. A menção ao leito de ferro de Ogue é um recurso literário que ressalta sua estatura e status, provavelmente associado aos refaim, grupo de gigantes lembrados em diversas tradições do Antigo Testamento. A referência geográfica a Rabá dos filhos de Amom indica que, na época do autor ou editor final, esse objeto ainda era conhecido. A distribuição da terra às tribos de Rúben, Gade e à meia tribo de Manassés mostra como a historiografia deuteronomista integra tradição geográfica, ancestral e teológica. Personagens como Jair e Maquir conectam a posse da terra com a genealogia de Manassés. A descrição dos limites com rios (Arnom, Jaboque, Jordão), montes (Hermom, Pisga) e cidades (Salcá, Edrei, Bete-Peor) ancora o texto em um cenário geopolítico concreto. Teologicamente, o capítulo reafirma vários temas centrais: – A guerra santa sob comando divino, em que a vitória é atribuída exclusivamente ao Senhor. – O ban (herem), ou destruição consagrada, como expressão do juízo de Deus sobre povos específicos e proteção da identidade de Israel. – O “descanso” como conceito-chave da herança, antecipando desenvolvimentos posteriores na teologia bíblica. – A liderança carismática, na qual o espírito de Deus que atuou por meio de Moisés será agora evidenciado por meio de Josué. O episódio da oração de Moisés e sua recusa sintetiza a tensão entre a proximidade de Deus e sua soberania absoluta. Moisés pode interceder com liberdade, mas não controla a decisão divina. Em termos literários, a recusa reforça a mensagem de que a entrada na terra dependerá de uma nova geração e de um novo líder, sem enfraquecer a grandeza da vocação de Moisés. O capítulo, portanto, funciona como ponte entre o passado de peregrinação e o futuro de conquista, interpretando ambos à luz da palavra e das promessas do Senhor.
Deuteronômio 3 transpõe princípios muito concretos para a vida diária. O povo está diante de inimigos fortes, cidades muradas e memórias de gigantes. A orientação de Deus não é ficar parado, mas avançar sob sua palavra: “Não o temas… a ele e a todo o seu povo… tenho dado na tua mão”. Há uma combinação saudável entre confiança e ação: o povo não presume, mas responde a um comando claro, com responsabilidade. A distribuição da terra aos rubenitas, gaditas e à meia tribo de Manassés também traz lições práticas. Eles já tinham seu lugar garantido, cidades, gado, uma certa estabilidade. Mesmo assim, recebem a ordem de atravessar armados à frente de seus irmãos. A ideia é simples e desafiadora: quem está em situação mais confortável não se isola, mas se coloca à disposição para ajudar outros a chegarem lá. Esse princípio é valioso em qualquer contexto: pessoas com mais experiência de fé, recursos financeiros, estabilidade emocional ou conhecimento são chamadas a ser suporte ativo para quem ainda está lutando. O trato de Moisés com seu próprio limite é outro ponto relevante. Ele deseja algo bom, ora com sinceridade, mas aprende a lidar com um “não” que não será revertido. Em vez de se fechar na frustração, assume o papel de preparar o sucessor e fortalecer quem virá depois. No cotidiano, isso inspira a reconhecer que algumas metas podem não se concretizar como planejado, mas ainda assim é possível investir na próxima geração, apoiar novas lideranças, reorganizar expectativas e continuar contribuindo com aquilo que está ao alcance. Por fim, o encorajamento a Josué mostra a importância de palavras certas em momentos de transição. Moisés não apenas passa o cargo; ele lembra a Josué do que Deus já fez e de quem Deus é. Em situações de mudança de trabalho, liderança, responsabilidades familiares ou projetos, esse modelo incentiva a unir memória (o que já foi vivido), promessa (o que ainda pode vir) e encorajamento prático, para que ninguém caminhe sozinho rumo ao desconhecido.
Em Deuteronômio 3, a jornada de Israel rumo à terra prometida ecoa uma realidade espiritual mais profunda: a caminhada do povo de Deus em direção ao descanso pleno que Ele promete. As vitórias sobre Siom e Ogue não são apenas capítulos militares, mas sinais de que o Senhor conduz a história de forma soberana até que sua promessa se cumpra. A terra, com suas montanhas e o Líbano, é um vislumbre de uma herança maior, que no Novo Testamento se amplia em direção a um novo céu e uma nova terra. O “descanso” mencionado, que os irmãos ainda precisam receber, aponta para algo além de fronteiras geográficas. Indica um estado de vida sob o governo justo e presente de Deus, no qual o povo experimenta segurança, provisão e paz em comunhão com Ele. Esse descanso terreno, porém, é sempre provisório: Israel ainda enfrentaria crises, exílio e retorno. Assim, o capítulo desperta para a percepção de que toda conquista nesta vida é antecipação imperfeita de um descanso eterno, que só se cumpre plenamente na presença definitiva de Deus. A experiência de Moisés ilumina outra dimensão espiritual: nem mesmo os servos mais fiéis controlam o modo como as promessas se cumprem em sua própria biografia. Ele vê a terra, mas não entra. Paradoxalmente, sua história encontra plenitude mais adiante, quando aparece ao lado de Jesus na transfiguração, na própria “terra” da presença gloriosa do Filho. Em termos espirituais, isso sugere que alguns desejos podem ser negados aqui, para serem transfigurados em algo maior na eternidade. A afirmação de que não há Deus nos céus e na terra que faça obras como as do Senhor convida a uma fé exclusiva e adoradora. Não se trata apenas de recorrer a Deus em busca de ajuda pontual, mas de reconhecer que Ele é o centro e o fim último da existência. A batalha de Israel, a distribuição da terra, a transição de liderança e até a frustração de Moisés são partes de uma história maior, na qual Deus está formando um povo para si. Assim, Deuteronômio 3 chama à confiança perseverante: Deus luta pelo seu povo, conduz a história além de um único líder e guarda uma herança que ultrapassa esta vida. A perspectiva eterna ressignifica vitórias, derrotas, limites e esperas, lembrando que a verdadeira terra prometida é a comunhão eterna com o Senhor que reina sobre céus e terra.
" Depois nos viramos e subimos o caminho de Basã; e Ogue, rei de Basã, nos saiu ao encontro, ele e todo o seu povo, à peleja em Edrei. "
" Então o Senhor me disse: Não o temas, porque a ele e a todo o seu povo, e a sua terra, tenho dado na tua mão; e far-lhe-ás como fizeste a Siom, rei dos amorreus, que habitava em Hesbom. "
" E também o Senhor nosso Deus nos deu na nossa mão a Ogue, rei de Basã, e a todo o seu povo; de maneira que o ferimos até que não lhe ficou sobrevivente algum. "
" E naquele tempo tomamos todas as suas cidades; nenhuma cidade houve que lhes não tomássemos; sessenta cidades, toda a região de Argobe, o reino de Ogue em Basã. "
" Todas estas cidades eram fortificadas com altos muros, portas e ferrolhos; e muitas outras cidades sem muros. "
" E destruímo-las como fizemos a Siom, rei de Hesbom, destruindo todas as cidades, homens, mulheres e crianças. "
" Porém todo o gado, e o despojo das cidades, tomamos para nós por presa. "
" Assim naquele tempo tomamos a terra das mãos daqueles dois reis dos amorreus, que estavam além do Jordão; desde o rio de Arnom, até ao monte de Hermom "
" (A Hermom os sidônios chamam Siriom; porém os amorreus o chamam Senir); "
" Todas as cidades do planalto, e todo o Gileade, e todo o Basã, até Salcá e Edrei, cidades do reino de Ogue em Basã. "
" Porque só Ogue, o rei de Basã, restou dos gigantes; eis que o seu leito, um leito de ferro, não está porventura em Rabá dos filhos de Amom? De nove côvados, o seu comprimento, e de quatro côvados, a sua largura, pelo côvado comum. "
" Tomamos, pois, esta terra em possessão naquele tempo: Desde Aroer, que está junto ao ribeiro de Arnom, e a metade da montanha de Gileade, com as suas cidades, tenho dado aos rubenitas e gaditas. "
" E o restante de Gileade, como também todo o Basã, o reino de Ogue, dei à meia tribo de Manassés; toda aquela região de Argobe, por todo o Basã, se chamava a terra dos gigantes. "
" Jair, filho de Manassés, alcançou toda a região de Argobe, até ao termo dos gesuritas, e maacatitas, e a chamou de seu nome, Havote-Jair até este dia. "
" E a Maquir dei Gileade. "
" Mas aos rubenitas e gaditas dei desde Gileade até ao ribeiro de Arnom, cujo meio serve de limite; e até ao ribeiro de Jaboque, o termo dos filhos de Amom. "
" Como também a campina, e o Jordão por termo; desde Quinerete até ao mar da campina, o Mar Salgado, abaixo de Asdote-Pisga para o oriente. "
" E no mesmo tempo vos ordenei, dizendo: O Senhor vosso Deus vos deu esta terra, para possuí-la; passai, pois, armados vós, todos os homens valentes, diante de vossos irmãos, os filhos de Israel. "
" Tão-somente vossas mulheres, e vossas crianças, e vosso gado (porque eu sei que tendes muito gado), ficarão nas vossas cidades, que já vos tenho dado. "
" Até que o Senhor dê descanso a vossos irmãos como a vós; para que eles herdem também a terra que o Senhor vosso Deus lhes há de dar além do Jordão; então voltareis cada qual à sua herança que já vos tenho dado. "
" Também dei ordem a Josué no mesmo tempo, dizendo: Os teus olhos têm visto tudo o que o Senhor vosso Deus tem feito a estes dois reis; assim fará o Senhor a todos os reinos, a que tu passarás. "
" Não os temais, porque o Senhor vosso Deus é o que peleja por vós. "
" Também eu pedi graça ao Senhor no mesmo tempo, dizendo: "
" Senhor DEUS! já começaste a mostrar ao teu servo a tua grandeza e a tua forte mão; pois, que Deus há nos céus e na terra, que possa fazer segundo as tuas obras, e segundo os teus grandes feitos? "
" Rogo-te que me deixes passar, para que veja esta boa terra que está além do Jordão; esta boa montanha, e o Líbano! "
" Porém o Senhor indignou-se muito contra mim por causa de vós, e não me ouviu; antes o Senhor me disse: Basta; não me fales mais deste assunto; "
" Sobe ao cume de Pisga, e levanta os teus olhos ao ocidente, e ao norte, e ao sul, e ao oriente, e vê com os teus olhos; porque não passarás este Jordão. "
" Manda, pois, a Josué, e anima-o, e fortalece-o; porque ele passará adiante deste povo, e o fará possuir a terra que verás. "
" Assim ficamos neste vale, defronte de Bete-Peor. "
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