Versículo em destaque
Daniel 11:21 - Significado e aplicação
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Tradução: Almeida Corrigida Fiel
" Depois se levantará em seu lugar um homem vil, ao qual não tinham dado a dignidade real; mas ele virá caladamente, e tomará o reino com engano. "
Daniel 11:21
Versículo no contexto
Entender os versículos ao redor evita interpretações incorretas:
19 Virará então o seu rosto para as fortalezas da sua própria terra, mas tropeçará, e cairá, e não será achado.
20 E em seu lugar se levantará quem fará passar um arrecadador pela glória do reino; mas em poucos dias será quebrantado, e isto sem ira e sem batalha.
21 Depois se levantará em seu lugar um homem vil, ao qual não tinham dado a dignidade real; mas ele virá caladamente, e tomará o reino com engano.
22 E com os braços de uma inundação serão varridos de diante dele; e serão quebrantados, como também o príncipe da aliança.
23 E, depois do concerto com ele, usará de engano; e subirá, e se tornará forte com pouca gente.
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Tudo isso é uma profecia sobre o reinado de Antíoco Epifânio, o “chifre pequeno” mencionado antes (Daniel 8:9). Ele foi um inimigo feroz da fé judaica e um perseguidor cruel dos que permaneceram fiéis a ela. Os sofrimentos que os judeus enfrentaram debaixo dos reis persas não foram descritos a Daniel com tantos detalhes, porque, naquela época, Ageu e Zacarias ainda estavam vivos para encorajar o povo de Deus. Mas essas aflições posteriores, sob Antíoco, foram anunciadas, porque então cessaria a profecia, e o povo de Deus precisaria depender da Palavra escrita.
Algumas partes dessa predição sobre Antíoco também apontam para a figura neotestamentária do anticristo, especialmente em (Daniel 11:36) e (Daniel 11:37). Assim como os profetas costumavam fazer, ao falar dos tempos de bonança da igreja, usavam por vezes linguagem que se ajustava ao reino de Cristo e, então, passavam naturalmente a profetizar sobre ele. Do mesmo modo, ao falar das angústias da igreja, empregavam palavras que também olhavam adiante para a ascensão e queda do anticristo.
O anjo descreve primeiro o caráter de Antíoco: “um homem vil”. Ele se autodenominava Epifânio, isto é, “ilustre”, mas sua vida desmentia completamente esse título. Escritores antigos o descrevem como de temperamento estranho, grosseiro, escandaloso e mesquinho. Às vezes escapava do palácio e se misturava com qualquer grupo de gente desprezível, chegando a andar disfarçado entre o povo comum e os piores tipos da cidade. Tinha humores e comportamentos tão estranhos que alguns o julgavam tolo e outros, completamente insano, razão pela qual também era chamado de Epimanes, “o louco”.
Ele é chamado de homem vil em parte porque passou muito tempo em Roma como refém, mantido ali para garantir a fidelidade de seu pai depois que os romanos o derrotaram. Ficara ajustado que, quando os outros reféns fossem trocados, Antíoco permaneceria ali, em liberdade vigiada. Por meio de engano, ele conseguiu que o filho de seu irmão mais velho, Demétrio, fosse enviado a Roma em seu lugar, o que ia contra o acordo. Em seguida, quando seu irmão mais velho foi tirado do caminho por Heliodoro (Daniel 11:20), ele se apoderou do reino.
Os nobres da Síria não lhe deram o trono (Daniel 11:21), porque sabiam que ele pertencia ao filho de seu irmão. Ele também não o conquistou por guerra aberta, mas entrou silenciosamente, fingindo governar em nome de Demétrio, que então era refém em Roma. Com a ajuda de Eumenes e Átalo, governantes vizinhos, ganhou apoio do povo e usou de lisonjas para assegurar o reino. Depois destruiu Heliodoro, que se opunha a ele com grande força, “como uma enchente”. Os que se levantaram contra ele foram arrastados e quebrados diante dele, inclusive o “príncipe do concerto”, seu sobrinho, o legítimo herdeiro, a quem ele falsamente prometera apoiar até o retorno (Daniel 11:22).
Depois que fizeram aliança com ele, Antíoco “usaria de engano” (Daniel 11:23). Ele agia como se os príncipes não estivessem obrigados a manter sua palavra além do ponto em que isso lhes fosse vantajoso. Embora começasse com apenas um pequeno grupo, foi-se tornando forte. Entrou em paz nas partes mais ricas da Síria e, ao contrário dos governantes anteriores, espalhou despojos e riquezas entre o povo para ganhar sua lealdade. Ao mesmo tempo, planejava como tomar as fortalezas e tornar-se senhor delas. Sua generosidade durou apenas por um tempo. Uma vez que as guarnições estavam sob o seu controle, cessou as liberalidades e passou a governar pela força, como muitos governantes fazem quando primeiramente entram no poder por astúcia. Quem entra como raposa, muitas vezes governa como leão.
Alguns entendem esses versículos como descrevendo sua primeira viagem ao Egito, quando ele veio não como inimigo, mas como amigo e protetor do jovem rei Ptolemeu Filométer. Por isso levou apenas alguns seguidores, embora fossem homens corajosos e dedicados à sua causa. Colocou-os em vários redutos fortificados do Egito e fez-se senhor deles.
A parte seguinte descreve sua guerra com o Egito, sua segunda campanha ali (Daniel 11:25, Daniel 11:27). Antíoco despertaria a sua força e coragem contra Ptolemeu Filométer, rei do Egito. Ptolemeu, então, seria movido a pelejar e viria contra ele com um exército muito grande e poderoso, mas não conseguiria resistir diante dele. O exército de Antíoco derrotaria e esmagaria o de Ptolemeu, e muitos soldados egípcios cairiam mortos.
Isso não seria surpresa, porque o rei do Egito seria traído por seus próprios conselheiros. Os que comiam de sua comida e dependiam dele, depois de subornados por Antíoco, conspirariam contra ele e até ajudariam a destruí-lo. Que proteção pode haver contra tamanha traição? Depois da batalha, eles fariam um tratado de paz, e os dois reis se reuniriam em conselho para acertar os termos. Mas nenhum dos dois seria sincero. Em suas promessas e declarações de amizade, mentiriam um ao outro, enquanto cada um ainda planejava causar o máximo de dano ao outro. Não admira, portanto, que a paz fracassasse. Ela duraria apenas até o tempo determinado pela providência de Deus, e então a guerra recomeçaria, como uma ferida que havia sido apenas coberta.
Segue-se outra campanha contra o Egito. Antíoco voltou do conflito anterior com grandes riquezas (Daniel 11:28) e, por isso, aproveitou a primeira oportunidade para invadir o Egito novamente, no tempo determinado por Deus, dois anos depois, no oitavo ano de seu reinado (Daniel 11:29). Ele viria ao sul, mas essa tentativa seria frustrada. Não teria êxito como antes, porque “navios de Quitim” viriam contra ele, isto é, a frota romana ou, possivelmente, apenas embaixadores do Senado Romano que vieram por mar.
Ptolemeu Filométer, rei do Egito, agora estava estreitamente aliado aos romanos e lhes pediu ajuda contra Antíoco, que o havia sitiado, junto com sua mãe Cleópatra, em Alexandria. O Senado Romano enviou embaixadores a Antíoco e ordenou que levantasse o cerco. Quando ele pediu tempo para refletir e consultar seus amigos, Popílio, um dos embaixadores, traçou um círculo ao seu redor com o cajado e lhe disse que deveria dar uma resposta clara antes de sair daquele círculo. Temendo o poder de Roma, Antíoco teve de ordenar o levantamento do cerco e retirar seu exército do Egito. Lívio e outros relatam essa história, e esta profecia aponta para esse episódio. Ele ficaria indignado e voltaria, porque foi uma grande humilhação ser obrigado a ceder daquela maneira.
Então vem sua ira e seus atos cruéis contra os judeus.
É esta parte de seu governo, ou melhor, de seu mau governo, que a profecia enfatiza mais. Quando voltou de sua campanha no Egito, anunciada em (Daniel 11:28), atacou os judeus no sexto ano de seu reinado e saqueou a cidade e o templo. Mas a pior aflição veio em seu retorno posterior do Egito, dois anos depois, conforme predito em (Daniel 11:30). Nessa viagem de volta, passou pela Judeia e, como os romanos haviam frustrado seus planos no Egito, descarregou sua ira sobre os indefesos judeus. Eles nada haviam feito para provocá-lo, mas tinham provocado muito a Deus, que permitiu isso (Daniel 8:23).
Em primeiro lugar, ele nutria um ódio profundo pela religião judaica. Seu coração era contra o santo concerto, como diz (Daniel 11:28). (Daniel 11:30) afirma que ele se indignou contra o santo concerto, esse concerto especial que distinguia os judeus como povo peculiar e lhes conferia honra acima das outras nações. Ele odiava a lei de Moisés e o culto ao Deus verdadeiro. Irritava-se com os privilégios especiais concedidos à nação judaica e com as promessas feitas a ela. Aquilo que traz esperança e alegria ao povo de Deus frequentemente desperta a inveja de seus vizinhos, e isso é o santo concerto. Esaú odiou Jacó porque Jacó recebeu a bênção. Os que estão de fora do concerto muitas vezes se mostram hostis a ele.
Em segundo lugar, ele executou seus planos perversos com a ajuda de judeus infiéis, que haviam se desviado de sua fé. Ele mantinha contato com aqueles que abandonaram a santa aliança (Daniel 11:30), judeus falsos à sua própria religião, que introduziram costumes dos gentios, com os quais fizeram aliança. Isso se cumpriu em 1 Macabeus 1:11-15, onde se diz que esses judeus rebeldes se fizeram como incircuncisos e abandonaram a santa aliança. Em 2 Macabeus 4:9 lemos sobre Jasão, irmão de Onias, o sumo sacerdote, que foi nomeado por Antíoco e estabeleceu em Jerusalém um ginásio para treinar os jovens nos costumes gentílicos. Em 2 Macabeus 4:23 em diante, lemos sobre Menelau, que tomou partido de Antíoco e o ajudou a entrar em Jerusalém em sua última volta do Egito. O livro dos Macabeus fala muito do mal que Jasão, Menelau e seu grupo causaram aos judeus. Antíoco se valia dessas pessoas sempre que podia. Os que procedem impiamente contra a aliança, lançam fora sua religião e se conformam com os gentios, ele os conquista com suaves promessas. Ele usa lisonjas para endurecê‑los na rebelião e fazê‑los isca para atrair outros (Daniel 11:32). Não é de estranhar que pessoas que não vivem de acordo com sua religião e agem perversamente contra a aliança sejam facilmente conquistadas por lisonjas. Quem destrói a boa consciência logo destruirá também a fé.
Em terceiro lugar, ele profanou o templo. Forças se levantarão de sua parte (Daniel 11:31). Isso incluía não só o seu próprio exército, que trouxera do Egito, mas também um grande grupo de desertores judeus que se uniram a ele. Eles contaminaram o santuário, o lugar santo de fortaleza, significando não só a cidade santa, mas o próprio templo. 1 Macabeus 1:21 em diante conta essa história. Ele entrou no santuário com arrogância e levou o altar de ouro, o castiçal e outros objetos sagrados. Por causa disso houve grande pranto em Israel, e os príncipes e anciãos lamentaram, como diz 1 Macabeus 1:25. Em 2 Macabeus 5:15 em diante, Antíoco entrou no templo santíssimo, guiado por Menelau, aquele traidor da lei de Deus e de sua própria pátria. Querendo que todos ao seu redor adotassem a sua religião, Antíoco tirou o sacrifício contínuo, como diz Daniel 11:31. Alguns observam que a palavra traduzida por “contínuo” é usada aqui e na passagem paralela para o sacrifício diário, como se o termo fosse deixado mais aberto para poder apontar tanto para o sacrifício judeu, que Antíoco fez cessar, como para o culto do evangelho, que mais tarde o Anticristo se oporia. Em seguida, ele pôs a abominação desoladora sobre o altar (1 Macabeus 1:54), um altar idólatra, como diz 1 Macabeus 1:59. Ele chegou a chamar o templo de templo de Júpiter Olímpico, conforme registra 2 Macabeus 6:2.
Em quarto lugar, ele perseguiu os que permaneceram fiéis. Muitos abandonaram a aliança e agiram perversamente contra ela, mas ainda havia um povo que conhecia o seu Deus e se apegava a esse conhecimento. Eles seriam fortes e fariam proezas (Daniel 11:32). Enquanto outros cederam às exigências do tirano e entregaram suas consciências, esses fiéis permaneceram firmes, resistiram à tentação e envergonharam o tirano. O bom e velho Eleazar, um dos principais escribas, teve carne de porco forçada à boca, mas corajosamente a cuspiu, sabendo que isso lhe custaria a vida. E assim foi, como relata 2 Macabeus 6:19. A mãe e seus sete filhos também foram mortos por se manterem fiéis à sua religião, como narra 2 Macabeus 7. Isso pode justamente ser chamado de grandes feitos, pois escolher sofrer em vez de pecar é um grande feito. Eles fizeram isso pela fé, sendo fortes na fé, e foram torturados, não aceitando o livramento, como Hebreus 11:35 provavelmente se refere. Pode também apontar para a coragem militar e as vitórias de Judas Macabeu e outros contra Antíoco.
O verdadeiro conhecimento de Deus é a força da alma, e por essa força os piedosos realizam grandes coisas. Os que conhecem o seu nome confiarão nele, e, por essa confiança, farão muito. Sobre esse povo que conhecia o seu Deus, é dito que eles instruiriam a muitos (Daniel 11:33). Eles fariam disso o seu trabalho: mostrar aos outros o que aprenderam sobre a diferença entre verdade e erro, entre o bem e o mal. Os que conhecem a Deus devem compartilhar esse conhecimento com as pessoas ao redor, e essa espécie de bondade espiritual precisa alcançar muitos. Alguns entendem que isso se refere a um grupo recém-formado para difundir o conhecimento divino, chamado de Assideus, isto é, homens piedosos ou devotos, pois o nome significa “pietistas”. Eles eram instruídos na lei e zelosos por ela, e ensinaram a muitos. Em tempos de perseguição e apostasia, quando as pessoas são provadas, os que têm conhecimento devem usá‑lo para fortalecer e firmar os outros. Os que entendem corretamente as coisas devem fazer o que podem para ajudar outros a entender, porque o conhecimento é um talento que precisa ser empregado. Ou eles podem instruir a muitos simplesmente por sua firmeza no dever e seu paciente sofrer por causa dele. Bons exemplos instruem a muitos, e muitas vezes ensinam melhor.
Eles também cairiam sob a crueldade de Antíoco, sendo torturados e mortos por sua fúria. Embora sejam excelentes, sábios e úteis para os outros, Antíoco não lhes mostraria misericórdia. Cairiam por alguns dias, como se pode ler em Apocalipse 2:10: “Tereis tribulação de dez dias”.
Lemos muito, nos livros dos Macabeus, sobre o tratamento cruel de Antíoco para com os judeus fiéis, quantos matou em guerra e quantos assassinou a sangue frio. Mulheres foram condenadas à morte por terem circuncidado seus filhos, e os bebês foram pendurados em seus pescoços (1 Macabeus 1:60, 61). Mas por que Deus permitiu isso? Como isso se harmoniza com a justiça e a bondade de Deus?
A resposta é que isso se harmoniza muito bem, se considerarmos o que Deus tinha em vista com esses acontecimentos (Daniel 11:35). Alguns dos que tinham entendimento cairiam, mas seria para o bem da igreja e para o seu próprio bem espiritual. Serviria para prová‑los, purificá‑los e embranquecê‑los. Eles mesmos precisavam dessas aflições. Mesmo as melhores pessoas têm manchas que precisam ser lavadas e escória, o metal inútil que precisa ser removido. Suas tribulações, sobretudo sua participação nas calamidades públicas, ajudam nesse processo.
Quando a graça de Deus torna essas aflições úteis, elas se tornam um meio de mortificar o pecado, de afrouxar o apego ao mundo e de despertá‑los para maior seriedade e fidelidade na religião. Elas os provam como a prata no forno, purificando-a de suas impurezas. Elas os limpam como o cereal na eira é joeirado da palha. Elas os tornam brancos como o pano é alvejado pelo lavadeiro. Veja (1 Pedro 1:7). O sofrimento deles pela justiça também serviria para provar e purificar a nação judaica, e para convencer muitos da verdade, do valor e do poder daquela santa religião pela qual esses sábios morreram.
O sangue dos mártires é semente da igreja. É sangue precioso, e nenhuma gota dele é derramada sem produzir um fruto de grande valor. A causa da verdadeira religião, ainda que violentamente atacada, não será destruída. Quando eles caírem, não serão completamente abatidos, mas serão ajudados com um pouco de socorro (Daniel 11:34). Judas Macabeu, seus irmãos e alguns poucos com eles se levantaram contra o tirano e defenderam a religião arruinada. Derrubaram os altares idólatras, circuncidaram as crianças que encontraram incircuncisas e recuperaram a lei das mãos dos gentios, e a obra prosperou em suas mãos (1 Macabeus 2:45 em diante).
Os que permanecem ao lado da religião quando ela é atacada e ferida, mesmo que não sejam logo libertos nem vencedores de imediato, ainda assim terão ajuda presente. E até um pouco de ajuda não deve ser desprezado. Quando os tempos são muito maus, devemos ser gratos por qualquer alívio. Também é predito que muitos se ajuntariam a eles com lisonjas. Quando vissem os Macabeus prosperar, alguns judeus se ligariam a eles, embora não fossem verdadeiros amigos da religião. Apenas fingiriam amizade, seja para traí‑los, seja para se elevar com eles. Mas a prova de fogo (Daniel 11:35) separaria o precioso do vil, e por meio dela o que é verdadeiro se tornaria claro.
Embora essas tribulações pudessem durar muito tempo, teriam um fim. São por um tempo determinado, um prazo fixado no propósito de Deus. Essa guerra será concluída. O poder do inimigo irá até aqui e não mais. Aqui se deterão as suas ondas orgulhosas.
Antíoco então se encheu de orgulho, tornou‑se grosseiro e profano. Inflado por suas vitórias, desafiou o céu e pisou em tudo o que era sagrado (Daniel 11:36 e seguintes). Alguns entendem que aqui começa uma profecia sobre o anticristo, o reino papal. É claro que Paulo, em sua profecia sobre a ascensão e o domínio do homem do pecado, retoma essas mesmas ideias (2 Tessalonicenses 2:4). Isso mostra que Antíoco foi um tipo, uma figura histórica daquele inimigo, assim como Babilônia também foi. Mas, como tudo está ligado numa mesma sequência às profecias anteriores sobre Antíoco, parece mais provável que o foco principal continue sendo ele, com uma aplicação posterior e mais plena ao outro, por meio de comparação.
Ele desonraria o Deus de Israel, o único Deus vivo e verdadeiro, aqui chamado de Deus dos deuses. Em desafio a Deus e à sua autoridade, faria o que quisesse contra o povo de Deus e contra a religião santa. Ele se exaltaria acima de Deus, como fez Senaqueribe, e proferiria coisas terríveis contra Deus, contra suas leis e ordenanças. Isso se cumpriu quando Antíoco proibiu os sacrifícios no templo, mandou profanar os sábados e fez com que o santuário e o povo santo fossem contaminados, para que esquecessem a lei e mudassem todos os estatutos, sob pena de morte (1 Macabeus 1:45).
Ele também mostraria desprezo soberbo por todos os outros deuses e se colocaria acima de todo deus, até mesmo acima dos deuses das nações. Antíoco escreveu ao seu reino que todos deveriam abandonar os deuses que antes adoravam para cultuarem os que ele determinasse, ao contrário dos conquistadores anteriores (1 Macabeus 1:41, 42). Os gentios obedeceram à ordem do rei. Por mais apegados que fossem a seus deuses, não julgavam que valesse a pena sofrer por eles. Sendo seus deuses ídolos, para eles dava no mesmo quais deuses adorariam.
Antíoco não respeitou deus algum, mas se fez maior do que todos (Daniel 11:37). Era tão presunçoso que se via acima dos limites de um simples mortal. Agia como se pudesse ordenar ao mar e alcançar as estrelas do céu, conforme sua arrogância é descrita em (2 Macabeus 9:8, 10). Ele seguiu por esse caminho até que a ira se completasse, até que tivesse concluído seu curso e enchido a medida de seu pecado. Pois o que Deus decidiu é o que acontecerá; não se fará nada além nem aquém disso.
Ele também, de modo incomum até entre os gentios, desprezaria o deus de seus pais (Daniel 11:37). Entre os povos pagãos, a fidelidade à religião dos antepassados era quase tão natural quanto o desejo das mulheres. Se alguém percorresse as ilhas de Quitim, não encontraria uma nação que trocasse os seus deuses (Jeremias 2:10, 11). No entanto, Antíoco não considerou o deus de seus pais. Fez leis para abolir a religião de sua terra e introduzir os deuses gregos. Seus predecessores tinham honrado o Deus de Israel e dado grandes presentes ao templo de Jerusalém (2 Macabeus 3:2, 3), mas ele demonstrou o máximo desprezo por Deus e por seu templo.
O fato de ele não considerar “o desejo das mulheres” pode apontar para sua natureza cruel, pois não poupou idade nem sexo, nem mesmo os pequeninos. Pode também sugerir paixões antinaturais, ou, de modo mais amplo, seu desprezo por tudo aquilo que os homens honrados costumam prezar. Ou ainda se referir a algum fato que não foi preservado pela história. Sua ligação com o desprezo ao deus de seus pais sugere que a idolatria de seu país envolvia mais prazeres carnais do que a adoração de outras nações, como escreveu Luciano a respeito das deusas sírias, e ainda assim nem isso o manteve fiel a elas.
Ele também estabeleceria um deus desconhecido, um deus novo (Daniel 11:38).
No lugar dos deuses de seus pais, isto é, dos deuses que seus antepassados adoravam, como Apolo e Diana, deuses associados ao prazer, ele honraria um deus de poder. Este é um falso deus que seus pais não conheceram nem adoraram. Julgando‑se mais sábio e mais forte do que eles, prestaria honra a esse deus com ouro, prata e pedras preciosas, oferecendo‑lhe tudo o que lhe parecesse bom demais para ser poupado.
Parece tratar‑se de Júpiter Olímpio, conhecido entre os fenícios como Baal‑Semém, “o senhor do céu”. Antíoco introduziu esse culto na Síria, onde antes não era conhecido. Faria o mesmo nas fortalezas mais fortes, especialmente no templo de Jerusalém, chamado de santuário da fortaleza (Daniel 11:31). Ali ele colocaria a imagem desse deus estranho. Alguns entendem a expressão como significando que ele entregou as mais fortes defesas, isto é, Jerusalém, a um deus estrangeiro, colocando‑a sob a proteção e domínio de Júpiter Olímpio.
Ele não apenas reconheceria esse deus, mas ainda lhe daria maior glória colocando sua imagem até mesmo sobre o altar de Deus. Promoveria os sacerdotes desse ídolo, dando‑lhes posições de poder e confiança. Eles repartiriam a terra para proveito próprio e viveriam com luxo à custa da riqueza do país. Alguns entendem o “deus das fortalezas” como sendo o dinheiro, já que o dinheiro responde a muitas necessidades e frequentemente se torna o principal ídolo das pessoas mundanas.
Muito disso também se ajusta ao homem do pecado, isto é, ao poder religioso rebelde descrito no Novo Testamento. Ele se exalta acima de tudo o que se chama deus ou é objeto de culto. Seus aduladores chegam a chamá‑lo de “nosso senhor Deus o papa”. Ao proibir o casamento e exaltar o estado de solteiro, age como se não se importasse com o desejo das mulheres. Ele também honra o deus das fortalezas, ou dos baluartes, por meio de santos e anjos, que seus seguidores tratam como protetores, de modo semelhante ao que os gentios faziam com seus demônios. Chegam a colocar essas figuras como governantes sobre diferentes países e a honrá‑las com grandes tesouros. Um estudioso, Mede, entendeu que essa profecia se cumpre aí, e que é a isso que se refere (1 Timóteo 4:1-2).
Aqui parece haver uma nova expedição ao Egito, ou pelo menos uma retomada da luta com o Egito. Os romanos haviam impedido Antíoco de invadir Ptolomeu, mas agora o rei do sul o fere (Daniel 11:40) e tenta tomar alguns de seus territórios. Em resposta, Antíoco, o rei do norte, vem contra ele como um redemoinho, com espantosa rapidez e fúria, com carros, cavaleiros e muitos navios, um exército muito numeroso. Ele passa por diversas terras e as inunda. Nessa marcha acelerada, muitas nações são subjugadas, e ele entra na terra gloriosa, a terra de Israel, o mesmo lugar chamado de terra formosa em (Daniel 8:9).
Ele causa grande dano entre as nações ao redor, mas alguns escapam de sua mão, especialmente Edom, Moabe e a maior parte dos filhos de Amom (Daniel 11:41). Ele não sujeitou essas terras a tributo porque se aliaram a ele contra os judeus. Mas o Egito, em especial, não escapa. Ele o saqueia de tal forma que o deixa quase vazio. Alguns entendem que essa foi sua quarta e última campanha contra o Egito, no décimo ou décimo primeiro ano de seu reinado, sob o pretexto de ajudar o irmão mais novo de Ptolomeu Filométor contra ele.
Não se lê de um grande morticínio nessa campanha, mas houve grande pilhagem, e isso parece ter sido o seu alvo. Ele teria domínio sobre os tesouros de ouro e de prata, e sobre todas as coisas preciosas do Egito (Daniel 11:43). Políbio, citado por Ateneu, afirma que Antíoco reuniu grande quantidade de riquezas ao saquear o jovem Filométor, rompendo o acordo com ele e exigindo contribuições de seus aliados. Depois gastou uma soma enorme em um triunfo, imitando Paulo Emílio, e a extravagância disso é descrita. Assim, esta profecia mostra como ele conseguiu o dinheiro que mais tarde esbanjou com tanta liberdade.
Somos ainda informados da ajuda que recebeu dos líbios e etíopes, que viviam próximos ao Egito. Eles andavam a seus passos, prontos a seu comando. Faziam incursões no Egito em seu favor e serviam aos seus propósitos.
Há também aqui um anúncio da queda e ruína de Antíoco, como em (Daniel 8:25). Quando estiver no auge da honra, cheio de vitórias e carregado de despojos, notícias do oriente e do norte, ou do nordeste, o perturbarão (Daniel 11:44). Ou ele ouvirá que o rei da Pártia está invadindo seu reino por ambos os lados. Isso o forçará a deixar seus planos atuais e voltar‑se contra os persas e partos que se rebelavam contra ele.
Isso o deixará profundamente perturbado, porque ele havia planejado destruir por completo a nação judaica. Em vez disso, essa expedição o chamará para longe, e nela ele morrerá. Tácito, ainda que fale de modo perverso, relata que Antíoco tentou acabar com a religião judaica e substituí-la por costumes gregos, e lamenta que a guerra contra os partos o tenha impedido de concluir esse intento. Assim, esse é o último grande surto de sua ira contra os judeus. Quando estiver confuso e aflito em seus negócios, ele sairá com grande furor para destruir e matar muitos (Daniel 11:44). A história se reflete em (1 Macabeus 3:27 em diante), onde se conta quão furioso Antíoco ficou ao ouvir sobre os sucessos de Judas Macabeu, e que ordens deu a Lísias para destruir Jerusalém.
Então ele armou as tendas do seu pavilhão real entre os mares, entre o Grande Mar e o mar Morto. Estabeleceu seu acampamento real em Emaús, perto de Jerusalém, mostrando que, embora não estivesse ali em pessoa, dava a seus capitães plena autoridade para continuar a guerra contra os judeus com a máxima dureza. Ele armou sua tenda ali como se já tivesse tomado posse do glorioso monte santo e o reivindicasse como seu. Quando o mal se torna ousado e sem vergonha, muitas vezes se pode ver que sua ruína está próxima.
Esse é o seu fim: ele chegará ao seu fim, e não haverá quem o ajude. Deus o exterminará no meio de seus dias, e ninguém será capaz de deter sua queda. É a mesma ideia de (Daniel 8:25), onde se diz que ele será quebrado sem intervenção de mãos humanas. Quando chega o tempo de Deus de abater os opressores orgulhosos, ninguém pode salvá‑los, e talvez ninguém sequer queira. Aqueles que desejam que todos os temam em sua grandeza descobrem, na aflição, que ninguém os ama. Ninguém lhes estende a mão, nem intercede por sua libertação. Se o Senhor não ajudar, quem poderá?
Dos reis que sucederam Antíoco nada é profetizado aqui. Ele foi o mais perverso e danoso inimigo do povo de Deus, e prefigurou o filho da perdição, o homem do pecado, que o Senhor destruirá com o sopro de sua boca e com o esplendor de sua vinda, e ninguém poderá ajudá‑lo.
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Deste capítulo
Daniel 11:1
"Eu, pois, no primeiro ano de Dario, o medo, levantei-me para animá-lo e fortalecê-lo."
Daniel 11:2
"E agora te declararei a verdade: Eis que ainda três reis estarão na Pérsia, e o quarto acumulará grandes riquezas, mais do que todos; e, tornando-se forte, por suas riquezas, suscitará a todos contra o reino da Grécia."
Daniel 11:3
"Depois se levantará um rei valente, que reinará com grande domínio, e fará o que lhe aprouver."
Daniel 11:4
"Mas, estando ele em pé, o seu reino será quebrado, e será repartido para os quatro ventos do céu; mas não para a sua posteridade, nem tampouco segundo o seu domínio com que reinou, porque o seu reino será arrancado, e passará a outros que não eles."
Daniel 11:5
"E será forte o rei do sul; mas um dos seus príncipes será mais forte do que ele, e reinará poderosamente; seu domínio será grande."
Daniel 11:6
"Mas, ao fim de alguns anos, eles se aliarão; e a filha do rei do sul virá ao rei do norte para fazer um tratado; mas ela não reterá a força do seu braço; nem ele persistirá, nem o seu braço, porque ela será entregue, e os que a tiverem trazido, e seu pai, e o que a fortalecia naqueles tempos."
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