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Salmos 22:1 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Bíblia BibleGuided — Português Brasileiro

Salmo de Davi. O Senhor é meu pastor; nada me faltará.

Salmos 22:1

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auto_stories Comentário Bible Guided

Alguns entendem que se encontra uma referência a Cristo no título deste salmo, “A corça da manhã”. Cristo é como o veado ligeiro sobre os montes de aromas (Cânticos 8:14), como a corça amorosa e o gazela gracioso para todos os que creem (Provérbios 5:19), e como Naftali, comparado a uma corça solta, por causa das “palavras formosas” que traz (Gênesis 49:21). Ele é a corça da manhã, designado pelo eterno propósito de Deus para ser perseguido pelos “cães” que o cercaram (Salmo 22:16). Outros entendem que o título apenas indica a melodia segundo a qual o salmo devia ser cantado.

Nestes versículos, vemos primeiro uma queixa triste por causa do aparente afastamento de Deus (Salmo 22:1-2). Isso pode ser aplicado a Davi ou a qualquer filho de Deus, quando os sinais do favor divino parecem ter desaparecido. Nessa situação, a pessoa sente o peso do desagrado de Deus, geme debaixo dele, clama por alívio e pode até sentir-se desamparada, sem socorro e sem resposta. Ainda assim, continua chamando Deus de “meu Deus” e continua clamando a ele dia e noite. O abandono espiritual, quando o crente se sente privado do consolo de Deus, é uma das provas mais difíceis que os santos enfrentam. Quando as evidências do amor divino parecem turvas, os consolos se esgotam, a comunhão com Deus é interrompida e os terrores de Deus parecem voltar-se contra eles, o espírito se abate profundamente.

Até a própria queixa por causa dessa dor é um bom sinal. Mostra que a vida espiritual e a sensibilidade espiritual ainda estão atuando. Se alguém clama: “Meu Deus, por que estou doente? Por que sou pobre?”, isso pode revelar descontentamento ou apego ao mundo. Mas “Por que me desamparaste?” é o grito de um coração que encontra sua felicidade no favor de Deus. Quando lamentamos os afastamentos de Deus, ainda devemos chamá-lo de nosso Deus. Devemos continuar confiando nele, mesmo quando nos falta plena segurança. Por mais que pareça o contrário, Deus continua sendo bom, e continua sendo meu. Ainda que pareça tardar em responder, continuarei orando e esperando. Ainda que pareça silencioso, eu não me calarei.

Este salmo, porém, deve ser aplicado também a Cristo. Com as primeiras palavras dessa queixa, ele derramou a sua alma diante de Deus na cruz (Mateus 27:46). É provável que tenha prosseguido com as palavras seguintes, e alguns pensam que repetiu todo o salmo, se não em voz alta, ao menos em seu íntimo. Cristo, em seus sofrimentos, clamou com grande insistência ao Pai pedindo favor e presença. Clamou de dia na cruz e de noite no jardim. Ofereceu orações e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que o podia livrar, em profunda angústia (Hebreus 5:7).

E, no entanto, Deus o desamparou, se afastou de socorrê-lo e não lhe respondeu. Esta foi a parte mais dolorosa do seu sofrimento. Deus o entregou nas mãos dos inimigos. Pelo desígnio firme de Deus, ele foi crucificado e morto, sem receber o consolo sentido da presença divina. Como Cristo se fez pecado por nós, o Pai colocou sobre ele o peso presente da ira e do desagrado contra o pecado. “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar” (Isaías 53:10). Mesmo assim, Cristo se manteve firme em sua relação com o Pai como seu Deus, aquele que o havia enviado, a quem ele servia e com quem em breve seria glorificado.

Em seguida, ele tira ânimo dessa mesma situação (Salmo 22:3-5). Embora Deus não o tenha ouvido nem socorrido imediatamente, ele continua falando bem de Deus. “Porém tu és santo.” Deus não é injusto, nem falso, nem cruel em nenhum de seus caminhos. Ainda que não venha de imediato em auxílio dos seus que sofrem, continua amando-os, sendo fiel à sua aliança e não aprovando o pecado de seus inimigos (Habacuque 1:13). Sendo perfeitamente puro e reto, Deus se agrada do culto prestado por um povo sincero. Ele habita no meio dos louvores de Israel. Tem prazer em manifestar sua glória, sua graça e sua presença especial entre o seu povo no santuário, quando este se apresenta diante dele com louvor.

Isso mostra a grande bondade de Deus para com os adoradores fiéis. Embora esteja rodeado pelos louvores dos anjos, ele se compraz em morar entre os louvores de Israel. Isso também pode nos consolar em nossas queixas. Ainda que Deus, por algum tempo, pareça não atender os nossos clamores, ele se agrada tanto dos louvores do seu povo que, em tempo oportuno, lhes dará motivo para mudar o tom: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei”. Nosso Senhor Jesus, em seus sofrimentos, mantinha a santidade de Deus diante de si, para resguardá-la e honrá-la, e igualmente honrar a graça de Deus, que habita entre os louvores de Israel apesar das falhas misturadas à sua adoração.

Ele também se conforta com as experiências que os santos anteriores tiveram por meio da fé e da oração (Salmo 22:4-5). “Nossos pais confiaram em ti, clamaram a ti, e tu os livraste.” Logo, ele também me livrará a seu tempo. Nunca alguém que esperou em Deus foi confundido, e nunca quem o buscou o buscou em vão. Deus continua o mesmo em si mesmo, e o mesmo para com o seu povo, como sempre foi. Eles eram nossos pais, e o povo de Deus ainda hoje é amado por causa dos pais (Romanos 11:28). A promessa da aliança é destinada a sustentar os filhos dos fiéis. O Deus de nossos pais deve ser o nosso Deus, e assim ele será.

Nosso Senhor Jesus, em seus sofrimentos, tirou forças dessa verdade. Todos os pais que foram figuras dele em seus padecimentos — Noé, José, Davi, Jonas e outros — foram libertos no devido tempo. Eles também apontavam para sua exaltação. Por isso ele sabia que também não seria envergonhado (Isaías 50:7).

A queixa volta então a outro motivo de dor: o desprezo e a zombaria dos homens. Isso não é tão amargo quanto a sensação do afastamento de Deus, mas fere um ponto muito sensível em uma alma piedosa (Salmo 22:6-8). Nossos pais eram honrados, e os patriarcas, em seu tempo, foram estimados pelo mundo, como Abraão, Moisés e Davi. Mas Cristo é chamado de “verme, e não homem”. Já foi uma imensa humilhação ele se fazer homem, um rebaixamento que sempre espantará os anjos. E, como se isso ainda fosse pouco, é descrito como um verme, e não como um homem.

Ele era verdadeiro homem, mas um homem humilde e cheio de dores, não alguém considerado importante pelo mundo. Assumiu a forma de servo, e sua aparência foi mais desfigurada do que a de qualquer outro homem (Isaías 52:14). No melhor dos casos, o homem não passa de um verme; mas Cristo se fez verme, e não homem. Se não tivesse se rebaixado a tal ponto, não poderia ter sido pisado como foi. A palavra também sugere o verme usado na tintura escarlate ou púrpura, o que alguns veem como uma alusão a seus sofrimentos sangrentos. Veja quanta vergonha foi amontoada sobre ele.

Foi injuriado como homem mau, blasfemo, transgressor do sábado, beberrão, falso profeta, inimigo de César e aliado do príncipe dos demônios. Foi também desprezado como homem insignificante, comum, sem valor para ser notado. Sua própria terra não tinha reputação, seus parentes eram simples trabalhadores, e seus seguidores não eram governantes ou fariseus, mas gente do povo.

Foi zombado como homem tolo, que havia enganado outros e enganado a si mesmo. Os que o viam pendurado na cruz riam dele. Não apenas faltaram com compaixão, como aumentaram sua dor com desprezo aberto e escárnio. Troçavam dele, faziam caretas e tratavam seu sofrimento como motivo de diversão: entortavam os lábios, sacudiam a cabeça e diziam: “Este aí dizia que confiava em Deus para o livrar; agora, que Deus o livre”.

Davi, por vezes, foi ridicularizado por confiar em Deus, mas nos sofrimentos de Cristo isso se cumpriu de modo pleno e claro. As pessoas que insultaram Jesus usaram os mesmos gestos e até as mesmas palavras registradas em (Mateus 27:39) e (Mateus 27:43). Nosso Senhor Jesus assumiu a tarefa de reparar a desonra que havíamos lançado sobre Deus com nossos pecados, e o fez submetendo-se à mais profunda vergonha e humilhação.

Há também consolo nessa passagem. Os homens me desprezam, mas tu foste aquele que me tiraste do ventre de minha mãe. Davi e outros piedosos muitas vezes se fortaleceram com o pensamento de que Deus não era apenas o Deus de seus pais (como em Salmo 22:4), mas o Deus de seus primeiros dias. Ele começou a cuidar deles assim que passaram a existir, e por isso confiavam que não os rejeitaria mais tarde.

Aquele que cuidou tão bem de nós quando éramos totalmente indefesos não nos abandonará agora, quando já estamos crescidos e podemos servi-lo. Vemos o cuidado inicial de Deus de várias maneiras. No nascimento, ele nos tirou do ventre; de outro modo, teríamos morrido ali ou sufocado ao nascer. Ao peito, deu-nos esperança, provendo alimento e proteção, ensinando-nos a confiar nele por todos os nossos dias. As bênçãos da amamentação são sinal das bênçãos de toda a vida. Certamente o Deus que nos sustentou então não nos deixará sem o necessário depois (Jó 3:12).

Há também a ideia de uma consagração precoce a Deus. A expressão “sobre ti fui lançado desde a madre” pode apontar para a circuncisão ao oitavo dia. Então, pelos seus pais, ele foi separado e entregue a Deus como o Deus da aliança. A circuncisão era o sinal dessa aliança, e isso lhe dava motivo para confiar em Deus. Têm bons motivos para se sentir seguros aqueles que, tão cedo e de forma tão solene, foram colocados debaixo da proteção do poder de Deus.

Podemos ainda considerar a bondade de Deus para conosco ao longo de todo o caminho, manifestada numa linha contínua de proteção e provisão. “Desde o ventre de minha mãe tu és o meu Deus” significa que Deus o guardou e cuidou dele desde que entrou neste mundo até aquele mesmo dia. Se, tão logo fomos capazes de pensar, confiamos em Deus e entregamos a ele a nossa vida, não precisamos duvidar de que ele se lembrará desse primeiro amor, como em (Jeremias 2:2).

Isso também aponta para o nosso Senhor Jesus. A providência de Deus, seu governo sábio e cuidadoso, velou sobre o nascimento de Jesus com especial atenção. Ele nasceu em um estábulo, foi deitado em uma manjedoura, logo exposto à maldade de Herodes e depois obrigado a fugir para o Egito. Quando era criança, Deus o amou e o chamou para fora, como em (Oséias 11:1), e essa lembrança o consolou em seus sofrimentos. Os homens o insultaram e tentaram abalar sua confiança em Deus, mas Deus o honrou e fortaleceu essa confiança.

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