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Mateus 5:3 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Bíblia BibleGuided — Português Brasileiro

" “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus! "

Mateus 5:3

menu_book Versículo no contexto

1 Vendo aquelas multidões, Jesus subiu à montanha. Sentou-se, e seus discípulos se aproximaram dele.

2 Então, abriu a boca e lhes ensinava, dizendo:

3 “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!

4 Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!

5 Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!

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auto_stories Comentário Bible Guided

Cristo inicia o seu sermão com bem-aventuranças, porque veio ao mundo para nos abençoar (Atos 3:26). Veio como o grande Sumo Sacerdote da nossa fé, semelhante ao bem-aventurado Melquisedeque, e como aquele em quem seriam benditas todas as famílias da terra (Gênesis 12:3). Ele não veio apenas para conquistar bênçãos para nós, mas para dá-las e declará-las sobre nós. Fala com autoridade, como alguém que pode ordenar a bênção, até mesmo a vida para sempre. Quando ele chama alguém de bem-aventurado, de fato o torna assim, porque aqueles a quem ele abençoa são verdadeiramente abençoados.

O Antigo Testamento termina com maldição (Malaquias 4:6), mas o evangelho começa com bênção, porque somos chamados para herdar bênção. Cada bem-aventurança que Jesus pronuncia tem dois propósitos. Primeiro, mostrar quem deve ser considerado realmente feliz e qual é o seu caráter. Segundo, mostrar onde a verdadeira felicidade é encontrada: nas promessas feitas às pessoas que têm esse tipo de caráter. Quando essas promessas se cumprem, elas tornam essas pessoas realmente felizes.

Isso também corrige os enganos arruinadores de uma sociedade mundana e cega. As pessoas correm atrás da bem-aventurança, mas a maioria erra o alvo e constrói uma ideia falsa de felicidade. Julgam que os ricos, poderosos e honrados são os bem-aventurados, especialmente os que vivem para o prazer e conseguem o que querem. Admiram o ganancioso, que diz: “Serei rico” (Salmo 10:3). Mas Jesus vem corrigir esse erro básico e ensinar uma noção muito diferente de quem são os bem-aventurados. Isso pode soar estranho para quem já está contaminado por outra forma de pensar, mas é verdade eterna, e logo seremos julgados por ela.

Se este é o começo do ensino de Cristo, então a vida de um cristão deve começar aceitando dele a definição de felicidade apresentada nessas palavras. Precisamos moldar por elas nossos desejos e nossos objetivos. Esse ensino também anima crentes fracos e pobres, assegurando-lhes que o evangelho não torna felizes somente os mais capacitados, visíveis ou muito úteis. Mesmo o menor no reino dos céus, se o seu coração está certo diante de Deus, é verdadeiramente feliz na honra e nos privilégios desse reino.

Cristo também oferece essas bem-aventuranças para atrair almas a si e preparar os corações para a sua lei. Ele não as coloca no fim do sermão, para despedir a multidão, mas no início, para prepará-la para o que vem depois. Isso nos lembra o monte Gerizim e o monte Ebal, onde foram lidas as bênçãos e maldições da lei (Deuteronômio 27:12 e seguintes). Ali, as maldições são enunciadas de maneira explícita, e as bênçãos aparecem mais de forma implícita. Aqui, as bênçãos são ditas claramente, e as maldições ficam subentendidas. Em ambos os casos, vida e morte são colocadas diante de nós. Mas a lei veio mais como mensagem de morte, para nos afastar do pecado, enquanto o evangelho vem como mensagem de vida, para nos atrair a Cristo, em quem todo bem se encontra.

Aqueles que tinham visto as curas cheias de graça que Jesus realizara com suas mãos (Mateus 4:23-24) e agora ouviam as palavras cheias de graça que saíam de sua boca, podiam perceber que ele era inteiramente coerente, cheio de amor e bondade. Essa abertura do sermão também resume o acordo entre Deus e o ser humano. A Escritura nos mostra o que Deus pede de nós e o que podemos então esperar dele. Em nenhum outro lugar isso é exposto de forma tão clara e concisa como aqui, em poucas palavras. Este é o evangelho que somos chamados a crer, porque a verdadeira fé consiste em ajustar-nos a essas descrições de caráter e em descansar nessas promessas.

Aqui o caminho para a felicidade é aberto e transformado numa estrada bem definida (Isaías 35:8). E, como essas palavras vêm da boca de Jesus Cristo, fica claro que dele e por meio dele recebemos tanto a graça necessária quanto a glória prometida. Nada passa entre Deus e a humanidade caída senão por meio de suas mãos. Alguns pagãos mais sábios já tinham concepções de bem-aventurança diferentes das do restante do mundo, aproximando-se desse ensino do nosso Salvador. Sêneca, ao tentar descrever um homem bem-aventurado, disse que seria apenas um homem honesto e bom. Ensinava que nada é verdadeiramente bom ou mau, senão um coração bom ou mau; que acontecimentos exteriores não deveriam exaltar nem esmagar uma pessoa; que o verdadeiro prazer está em recusar o prazer; e que a virtude é o único bem real, enquanto o vício é o único mal real.

Jesus apresenta aqui oito marcas de pessoas bem-aventuradas, que mostram as principais graças da vida cristã. Sobre cada uma delas ele pronuncia uma bênção presente, “Bem-aventurados os…”, e a cada uma ele acrescenta uma bênção futura, expressa de diferentes maneiras, de acordo com a graça ou dever descritos. Quem são, então, os verdadeiramente felizes? Em primeiro lugar, são felizes os pobres de espírito (Mateus 5:3). Existe um tipo de abatimento de ânimo que não traz bênção nenhuma, pois em si é pecado e armadilha: medo covarde, submissão servil, sujeição voluntária aos desejos pecaminosos dos outros. Mas a pobreza de espírito é um estado gracioso da alma, em que somos esvaziados de nós mesmos para que possamos ser cheios de Jesus Cristo.

Ser pobre de espírito significa, primeiro, estar disposto a ser pobre em bens materiais, se Deus assim determinar. É trazer nossa mente a se conformar com a nossa condição quando essa condição é baixa. Muitas pessoas são pobres neste mundo, mas orgulhosas de espírito, sempre reclamando e murmurando do seu quinhão. Precisamos aprender a nos adaptar à pobreza, como Paulo aprendeu, sabendo viver humilhado (Filipenses 4:12). Devemos aceitar com reverência a sabedoria de Deus em nos atribuir a pobreza, suportar pacientemente as suas dificuldades, agradecer a Deus pelo que temos e fazer o melhor uso possível do que nos resta. Significa manter um apego frouxo às riquezas, não pôr nelas o coração, e suportar perdas e frustrações com calma, mesmo nos tempos de maior prosperidade.

Não se trata de orgulho disfarçado ou de ostentação vazia, como se devêssemos nos fazer pobres jogando fora o que Deus nos deu. Isso vale sobretudo para aqueles que fingem fazer voto de pobreza e, ao mesmo tempo, acumulam grandes riquezas. Em vez disso, se somos ricos neste mundo, precisamos ser pobres de espírito. Isso quer dizer descer ao nível dos pobres e compadecer-nos deles, reconhecendo que compartilhamos da mesma fraqueza. Também implica esperar a possibilidade da pobreza e preparar-nos para ela. Não devemos temê-la excessivamente nem fugir dela a qualquer custo, mas recebê-la com disposição, especialmente quando ela vem por termos conservado uma boa consciência (Hebreus 10:34). Jó demonstrou esse espírito quando bendisse a Deus tanto por tirar quanto por dar.

Ser pobre de espírito também significa ser humilde e pequeno aos nossos próprios olhos. É pensar pouco de nós mesmos, do que somos, do que temos e do que fazemos. No Antigo Testamento, o termo “pobres” muitas vezes representa os humildes e autonegadores, em contraste com os orgulhosos e acomodados. É ser como crianças na avaliação de nós mesmos, reconhecendo-nos fracos, tolos e insignificantes (Mateus 18:4; Mateus 19:14). A igreja de Laodiceia era pobre em coisas espirituais, profundamente miserável e necessitada, mas rica em espírito, julgando não precisar de nada (Apocalipse 3:17). Paulo era o oposto: riquíssimo em dons espirituais e graça, e, no entanto, chamava a si mesmo de o menor dos apóstolos e menos do que o menor de todos os santos, considerando-se um nada.

Ser pobre de espírito é ter uma santa baixa opinião de si mesmo e valorizar os outros acima de si. É estar disposto a parecer pequeno e humilde para fazer o bem, tornando-se tudo para com todos. Significa reconhecer que Deus é grande e nós somos pequenos, que ele é santo e nós somos pecadores, que ele é tudo e nós não somos nada, menos que nada, pior que nada. Por isso, humilhamos a nós mesmos diante dele e debaixo de sua poderosa mão.

Também implica desviar a confiança da nossa própria justiça e força, para depender somente do mérito de Cristo para a nossa justificação, isto é, para sermos considerados justos diante de Deus, e do Espírito e da graça de Cristo para a nossa santificação, isto é, para sermos feitos santos. Aquele espírito quebrantado e arrependido, com o qual o publicano clamou por misericórdia, é a pobreza de espírito de que Jesus fala. Precisamos reconhecer-nos pobres, porque estamos sempre necessitando da graça de Deus, sempre mendigando à sua porta, sempre dependendo dele na sua casa.

Essa pobreza de espírito vem em primeiro lugar entre as graças cristãs. Os filósofos antigos não colocavam a humildade entre suas virtudes morais, mas Cristo a coloca em primeiro lugar. A abnegação é a primeira lição em sua escola, e a pobreza de espírito recebe a primeira bem-aventurança. A humildade é o fundamento de todas as outras graças. Quem deseja construir alto deve começar por baixo. Ela também é uma excelente preparação para que a graça do evangelho opere na alma, pois torna o coração pronto para receber a semente. Os cansados e sobrecarregados são os pobres de espírito, e eles encontrarão descanso em Cristo.

Eles já são bem-aventurados neste mundo. Deus olha para eles com favor. São os seus pequeninos, e os anjos deles os assistem. Ele lhes dá mais graça. Vivem as vidas mais contentes, em paz consigo mesmos e agradáveis aos que os cercam, e nada lhes parece difícil demais. Espíritos orgulhosos, pelo contrário, estão sempre inquietos.

Deles é o reino dos céus. O reino da graça é formado por pessoas assim. Só elas são aptas para pertencer à igreja de Cristo, chamada de congregação dos pobres (Salmo 74:19). O reino da glória também está preparado para elas. Os que se humilham dessa maneira, e se submetem quando Deus os humilha, serão exaltados. Os orgulhosos e altivos podem alcançar a glória de reinos terrenos, mas os humildes, mansos e maleáveis recebem a glória do reino dos céus.

Tendemos a pensar que os ricos que usam bem suas riquezas certamente terão o reino dos céus, já que podem ajuntar um bom tesouro para o futuro. Mas e quanto aos pobres, que nada têm para dar? A mesma felicidade é prometida aos que são pobremente satisfeitos quanto aos que são ricamente úteis. Se não posso gastar liberalmente por amor a Cristo, mas posso padecer necessidade com alegria por amor a ele, isso também será recompensado. E ele não é um bom Senhor?

Eles são bem-aventurados já nos próprios desejos. Nem todo desejo pela graça é, em si, graça verdadeira, pois desejos fingidos ou fracos não têm valor. Mas um desejo como esse é evidência de algo bom já presente, e promessa de algo ainda melhor. É um desejo que o próprio Deus despertou, e ele não deixará inacabada a obra de suas mãos. Todos hão de ter fome e sede de alguma coisa; felizes são, portanto, os que se agarram àquilo que é certo, àquilo que de fato satisfaz e não engana. Eles não suspiram pelo pó da terra (Amós 2:7; Isaías 55:2).

Eles também serão saciados com essas bênçãos. Deus lhes dará aquilo por que anseiam e os levará à plena satisfação. Só Deus pode encher a alma, porque só a sua graça e o seu favor bastam para as verdadeiras necessidades dela. Ele encherá aqueles que, sentindo o próprio vazio, vão à sua plenitude, recebendo graça sobre graça. Ele enche os famintos (Lucas 1:53) e os satisfaz (Jeremias 31:25). O céu certamente encherá completamente a alma. Então a sua justiça será perfeita, com o favor de Deus em sua plenitude e a sua imagem neles em forma perfeita.

Isso diz respeito de modo especial àqueles que se destacam em virtude, porque precisam esperar mais dificuldades e aflições do que outras pessoas.

Observe primeiro a condição dos crentes sofredores, e como ela é dura e dolorosa. Eles são perseguidos, caçados e tratados como animais nocivos que se persegue para matar. É como se um cristão carregasse na testa a marca de fora da lei, para que qualquer um que o encontrasse pudesse tirá‑lhe a vida. São deixados como o refugo do mundo, multados, presos, expulsos, despojados de seus bens, afastados de cargos de honra e confiança, espancados, torturados e expostos continuamente à morte. São tratados como ovelhas destinadas ao matadouro. Esse tem sido o resultado da oposição da descendência da serpente contra a santa semente desde o justo Abel. Já era assim no tempo do Antigo Testamento (Hebreus 11:35 e seguintes). Cristo anunciou que isso seria ainda mais evidente na igreja, e não devemos estranhar (1 João 3:13). Ele nos deixou o exemplo.

Eles também são insultados, e todo tipo de mal é dito falsamente contra eles. Colam‑se apelidos e nomes vergonhosos tanto em indivíduos quanto em todo o conjunto dos justos, para torná‑los odiados. Às vezes isso é feito para que pareçam perigosos, e assim possam ser atacados com mais facilidade. Acusações falsas são levantadas contra eles, coisas que nunca fizeram nem imaginaram (Salmo 35:11; Jeremias 20:18; Atos 17:6‑7). Aqueles que não tinham outro poder para feri‑los, ainda assim podiam fazer isso; e os que tinham poder para perseguir muitas vezes precisavam também difamá‑los, para justificar sua crueldade. Não poderiam zombar deles como se fossem monstros em um espetáculo, se antes não os tivessem caricaturado como tais. Não os tratariam tão mal se antes não os tivessem pintado como os piores dos homens.

Insultarão vocês e os perseguirão. Falar mal dos santos já é, em si, uma forma de perseguição, e isso será mostrado no fim, quando as pessoas tiverem de responder por palavras duras (Judas 1:15) e zombarias cruéis (Hebreus 11:36). “Dirão todo mal contra vós, mentindo.” Às vezes fazem isso em tribunais, como falsas testemunhas; às vezes no meio de zombadores, em banquetes; às vezes cantam canções vergonhosas sobre eles em meio à bebedeira. Às vezes os amaldiçoam abertamente, como Simei amaldiçoando Davi; outras vezes espalham mentiras pelas costas, como faziam os inimigos de Jeremias. Não há mal tão feio que, em algum momento, não tenha sido atribuído falsamente aos discípulos e seguidores de Cristo.

Tudo isso acontece por causa da justiça (Mateus 5:10) e por causa de Cristo (Mateus 5:11). Se é por causa da justiça, também é por causa de Cristo, porque Cristo está profundamente ligado à prática da justiça. Quem odeia a justiça, odeia a Cristo. Ficam de fora aqui aqueles que sofrem com justiça e de quem se fala a verdade por causa de seus crimes reais. Esses devem sentir vergonha, pois tal sofrimento é parte de sua punição. Não é o simples fato de sofrer, mas a causa do sofrimento que faz um mártir. Sofrem por causa da justiça aqueles que padecem porque não querem pecar contra a própria consciência e porque sofrem por fazer o bem. Qualquer que seja o pretexto dos perseguidores, o ódio real deles é contra a verdadeira piedade. Na verdade, é a Cristo e à sua justiça que eles odeiam, atacam e perseguem. “Por amor de ti tenho suportado afrontas” (Salmo 69:9; Romanos 8:36).

Considere agora o consolo dos crentes sofredores. Eles são bem‑aventurados, porque, nesta vida, já recebem sua parte de coisas más (Lucas 16:25), e as recebem com um propósito santo. São bem‑aventurados porque isso é uma honra para eles (Atos 5:41). Dá‑lhes a oportunidade de glorificar a Cristo, de fazer o bem e de experimentar consolos especiais, visitas de graça e sinais claros da sua presença (2 Coríntios 1:5; Daniel 3:25; Romanos 8:29).

Eles também serão recompensados. Deles é o reino dos céus. Já têm direito certo a ele, já o provam em parte, e em breve o possuirão plenamente. Embora nada nesses sofrimentos possa, em si, merecer algo de Deus, pois até o melhor de nós é pecador e mereceria o pior, ainda assim esta promessa é dada como recompensa (Mateus 5:12): “Grande é o vosso galardão nos céus.” É tão grande que ultrapassa imensamente qualquer serviço prestado. Está nos céus, no futuro, fora da vista, mas bem guardado, fora do alcance do acaso, do engano ou da violência. Deus fará com que aqueles que perdem por amor a ele, ainda que percam a própria vida, não saiam perdendo no fim. O céu será, por fim, a rica recompensa por todos os sofrimentos do caminho. É isso que tem sustentado os crentes sofredores.

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