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João 2:12 - Significado e aplicação

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Tradução: Bíblia BibleGuided — Português Brasileiro

" Depois disso, desceu para Cafarnaum com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ali demoraram apenas poucos dias. "

João 2:12

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10 e lhe disse: “É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas você guardou o vinho melhor até agora”.

11 Esse foi o primeiro milagre de Jesus; ele o realizou em Caná da Galileia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.

12 Depois disso, desceu para Cafarnaum com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ali demoraram apenas poucos dias.

13 A Páscoa dos judeus estava próxima, e Jesus subiu a Jerusalém.

14 Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e as mesas dos trocadores de moedas.

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auto_stories Comentário Bible Guided

Aqui vemos, em primeiro lugar, a breve visita que Cristo fez a Cafarnaum (João 2:12). Era uma cidade grande e movimentada, a cerca de um dia de viagem de Caná. Mateus a chama de “a sua cidade” (Mateus 9:1), porque Jesus a tomou como base de operações na Galileia e ali encontrava o pouco descanso que tinha. Era um lugar de grande ajuntamento de pessoas, e por isso Cristo o escolheu para que a notícia de seus ensinos e de seus milagres se espalhasse mais amplamente.

Note a companhia que foi com ele: sua mãe, seus irmãos e seus discípulos. Onde quer que Cristo fosse, não ia sozinho. Levava com ele aqueles que se haviam colocado sob seus cuidados, para poder ensiná‑los e para que fossem testemunhas de seus milagres. Eles também o seguiam, atraídos pela doçura de seu ensino e de suas obras (João 6:26).

Sua mãe, embora ele acabasse de mostrar que, em seu ministério, não lhe daria um tratamento especial acima dos outros, ainda assim o seguia. Ela não veio para impor‑lhe pedidos, mas para aprender dele. Seus irmãos e demais parentes tinham estado nas bodas e haviam sido impressionados pelo milagre realizado ali. Seus discípulos também foram, pois faziam companhia a ele aonde quer que fosse. Parece que, no início, as pessoas ficavam mais comovidas com os milagres de Cristo do que depois, quando as maravilhas, por se repetirem, passaram a causar menos surpresa.

Ele ficou ali apenas alguns dias, porque estava apenas iniciando um relacionamento que mais tarde aprofundaria. Cristo ainda se movia de lugar em lugar, porque não queria limitar sua obra a um só ponto quando tantos precisavam dele. Com isso, também mostrava a seus seguidores que eram apenas peregrinos neste mundo, e ensinava a seus ministros a aproveitar as portas abertas e ir para onde o trabalho os chamasse.

Não o vemos ainda nas sinagogas nesse momento, mas ensinando seus amigos em particular. Assim, começou sua obra pouco a pouco. É bom que ministros mais jovens se habituem primeiro a conversas piedosas e proveitosas em particular, para depois virem ao trabalho público com melhor preparação e maior reverência. Ele não permaneceu muito tempo em Cafarnaum, porque a Páscoa estava próxima e era necessário ir a Jerusalém. Tudo é belo em seu tempo, e o bem menor deve ceder lugar ao maior.

Em seguida, lemos da Páscoa que ele celebrou em Jerusalém. Foi a primeira depois de seu batismo, e João registra todas as Páscoas que ele guardou a partir de então, quatro ao todo. A quarta foi aquela em que ele sofreu, cerca de três anos depois, e até ali haviam se passado aproximadamente seis meses desde seu batismo. Cristo, estando debaixo da lei, observou a Páscoa em Jerusalém, como lhe fora ordenado (Êxodo 23:17). Com seu exemplo, ensinou‑nos a cuidar do culto estabelecido por Deus e a frequentar com fidelidade as reuniões solenes.

Ele subiu a Jerusalém quando a Páscoa se aproximava, para já estar lá desde o começo da festa. É chamada de Páscoa dos judeus porque pertencia de modo especial a eles. Cristo é a nossa Páscoa, e em breve Deus deixaria de reconhecer a antiga festa da mesma maneira. Cristo havia guardado a Páscoa em Jerusalém todos os anos desde os doze anos de idade, em obediência à lei. Mas agora que havia começado seu ministério público, era de se esperar algo mais dele. Em Jerusalém, nos é dito que ele fez duas coisas.

Primeiro, purificou o templo (João 2:14‑17). O primeiro lugar em que o encontramos em Jerusalém é o templo, e parece que ele não fez nenhuma aparição pública até ir ali. Sua presença e seu ensino naquele lugar seriam a glória do último templo, maior do que a do primeiro (Ageu 2:9). Também estava profetizado: “Eis que envio o meu mensageiro”, referindo‑se a João Batista, e então “de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais” (Malaquias 3:1). Assim, aquela era a época, e o templo era o lugar, em que o Messias devia ser esperado.

A primeira obra que o vemos fazendo no templo é purificá‑lo, como também havia sido predito (Malaquias 3:2‑3). Ele se assentaria como ourives e purificaria os filhos de Levi. Agora havia chegado o tempo da reforma. Cristo veio como o grande reformador e, à semelhança dos reis reformadores de Judá, começou removendo o que estava errado, como se fez por ocasião da Páscoa nos dias de Ezequias (2 Crônicas 30:14‑15) e nos dias de Josias (2 Reis 23:4 e seguintes), e depois ensinou o povo a fazer o que era certo. Primeiro se tira o velho fermento, depois se guarda a festa. Cristo veio ao mundo para reformá‑lo, e espera que todos os que se achegam a ele reformem seu coração e sua vida (Gênesis 35:2). Ele ensinou isso ao purificar o templo.

Devemos considerar que corrupções precisavam ser removidas. Ele encontrou um mercado em um dos pátios do templo, o átrio dos gentios, dentro da área sagrada. Ali vendiam bois, ovelhas e pombas para sacrifício. Podemos supor que isso começou com a intenção de ajudar os que vinham de longe e não podiam trazer consigo os animais (Deuteronômio 14:24‑26). Talvez esse mercado tivesse ficado antes junto ao tanque de Betesda (João 5:2), mas os principais sacerdotes o permitiram dentro do templo por ganância. Sem dúvida, lucravam com o aluguel do espaço, com a inspeção dos animais e com o atestado de que estavam sem defeito. Muitas corrupções graves na igreja começam com o amor ao dinheiro (1 Timóteo 6:5, 10).

Também trocavam dinheiro para facilitar o pagamento do meio siclo anual exigido para o serviço do tabernáculo (Êxodo 30:12). E disso também tiravam lucro. Cristo já tinha visto esses abusos no templo antes, enquanto levava uma vida reservada, mas não agiu contra eles até esse momento, quando assumiu publicamente seu papel de profeta. Ele não apresentou queixa aos principais sacerdotes, pois sabia que eles sustentavam essas corrupções. Em vez disso, ele mesmo tomou a iniciativa.

Primeiro, expulsou do templo as ovelhas e os bois, juntamente com os que os vendiam. Nunca usou força para trazer alguém ao templo, apenas para expulsar os que o profanavam. Não se apossou dos animais nem os reteve como se fossem invasores no terreno de seu Pai. Simplesmente os enxotou, junto com seus donos. Fez um chicote de cordéis, provavelmente com as cordas que usavam para conduzir os animais e que estavam jogadas no chão. Muitas vezes, os próprios pecadores preparam o azorrague com que acabarão sendo expulsos do templo do Senhor. Ele não fez o chicote para bater nas pessoas, pois seus juízos são de outra ordem, mas apenas para afugentar os animais. Sua intenção era reformar, e nada além disso (Romanos 13:3‑4; 2 Coríntios 10:8).

Em seguida, derramou o dinheiro dos cambistas, as pequenas moedas que tinham acumulado. Ao espalhar o dinheiro, Jesus mostrou o quanto o desprezava. Atirou‑o ao chão, o lugar que lhe convinha. Ao virar as mesas, manifestou sua indignação contra os que fazem da religião um meio de lucro. Cambistas no templo eram uma vergonha para aquele lugar.

Na reforma do mal, é sábio fazer o trabalho por completo. Ele os expulsou a todos. Não apenas jogou o dinheiro fora, mas, ao derrubar as mesas, interrompeu o próprio comércio. Depois disse aos que vendiam pombas, que eram sacrifícios destinados aos pobres: “Tirai daqui estes”. As pombas ocupavam menos espaço e causavam menos incômodo do que bois e ovelhas, mas ainda assim não tinham lugar ali. Pardais e andorinhas eram bem‑vindos, porque eram deixados sob o cuidado de Deus (Salmo 84:3), mas as pombas estavam ali separadas para o lucro humano. O templo de Deus não devia ser transformado em pombal.

Ainda assim, veja‑se a sabedoria de Cristo em seu zelo. Ao expulsar bois e ovelhas, seus donos podiam segui‑los. Ao derramar o dinheiro, os cambistas podiam recolhê‑lo novamente. Mas, se tivesse soltado as pombas para voar, talvez não fossem recuperadas. Por isso, aos que vendiam pombas ele apenas disse: “Tirai daqui estes”. A sabedoria deve sempre guiar o zelo, para que não façamos nada indigno de nós nem prejudicial ao próximo.

Ele também apresentou uma razão clara para o que fez: “Não façais da casa de meu Pai casa de venda”. A correção deve vir acompanhada de uma explicação que alcance a consciência. Primeiro, não deviam profanar o templo, porque era a casa de Deus, não um mercado. O comércio é coisa boa em seu lugar, mas não no templo. Usar o que fora consagrado à honra de Deus para fins de lucro era sacrilégio, um roubo contra Deus.

Além disso, rebaixava o que era santo, tornando‑o comum. Perturbava o culto, que deveria ser solene e concentrado. Era também um desprezo especial aos gentios, os “filhos do estrangeiro”, que tinham de adorar justamente no pátio onde o mercado se instalara. Sua adoração era sufocada por bois, ovelhas e pelo barulho da feira. E ainda fazia com que a religião servisse a interesses terrenos, pois a santidade do lugar era usada para impulsionar vendas e promover as mercadorias dos negociantes.

As pessoas fazem da casa de Deus uma casa de negócio de duas maneiras. Uma é enchendo a mente de cuidados e preocupações com negócios enquanto participam do culto, como em (Amós 8:5) e (Ezequiel 33:31). A outra é realizando obras sagradas por ganância, ou até tentando comercializar os dons do Espírito Santo, como em (Atos 8:18). Em seguida, Cristo apresentou outro motivo para a sua ação: aquele era a casa de seu Pai. Isso lhe dava autoridade para purificá-la, pois ele foi fiel como Filho sobre a sua própria casa (Hebreus 3:5, Hebreus 3:6). Ao chamar Deus de seu Pai, ele mostrava que era o Messias, aquele prometido em (2 Samuel 7:13, 2 Samuel 7:14).

Por ser a casa de seu Pai, ele tinha um zelo santo por sua purificação. Em essência, ele dizia: “É a casa de meu Pai, não posso suportar vê-la desonrada.” Se Deus é nosso Pai que está nos céus e desejamos que o nome dele seja santificado, então deve nos entristecer vê-lo profanado. A purificação do templo por Cristo pode ser contada, com razão, entre as suas grandes maravilhas. Entre todos os milagres de Cristo, Jerônimo dizia que este lhe parecia o mais admirável.

Considere-se como ele fez isso, sem ajuda dos amigos. Seria fácil agitar a multidão, pois muitos honravam o templo e se oporiam à sua profanação. Mas Cristo nunca aprovou nada desordenado ou violento. Ele se pôs só, e o seu próprio braço executou tudo. E ele realizou isso sem resistência dos inimigos, nem dos mercadores, nem dos principais sacerdotes que os autorizavam e tinham sob seu comando os guardas do templo. A corrupção era clara demais para ser defendida. Consciências culpadas costumam ser grandes aliadas de um reformador. Além disso, o poder de Deus agia ali, um poder sobre os corações humanos. Nessa falta de resistência, cumpriram-se as palavras de (Malaquias 3:2, Malaquias 3:3): “Quem subsistirá quando ele se manifestar?”

Os discípulos se lembraram do que estava escrito: “O zelo da tua casa me devorou” (João 2:17). A princípio, ficaram admirados de ver aquele de quem lhes fora dito que era o Cordeiro de Deus agir com tamanho ardor, e o Rei de Israel fazer isso pessoalmente, com tão pouca aparência exterior de grandeza. Mas uma passagem da Escritura os ajudou a entender que essa atitude combinava tanto com a sua mansidão quanto com a sua majestade. Davi, falando do Messias, já havia descrito seu zelo pela casa de Deus como tão intenso que o consumia, como em (Salmo 69:9).

Os discípulos chegaram a compreender a obra de Cristo lembrando-se da Escritura. A palavra de Deus e as obras de Deus se explicam mutuamente. Textos escuros da Escritura se tornam mais claros quando são cumpridos na providência, e acontecimentos difíceis de entender se tornam mais fáceis quando comparados com a Escritura. Isso mostra como é útil para os discípulos de Cristo conhecerem bem as Escrituras e manterem a memória cheia de suas verdades, para estarem preparados para toda boa obra.

O texto que eles lembraram se encaixava perfeitamente naquele caso: “O zelo da tua casa me devorou.” Davi foi, nisso, uma figura de Cristo, pois era profundamente dedicado à casa de Deus (Salmo 132:2, Salmo 132:3). O que fez por ela, fez com todas as suas forças (1 Crônicas 29:2). A parte final de (Salmo 69:9) é aplicada a Cristo em (Romanos 15:3), e a parte inicial é aplicada aqui. Todas as graças encontradas nos santos do Antigo Testamento foram encontradas em Cristo em grau infinitamente maior, e especialmente esse zelo pela casa de Deus. Eles foram exemplos para nós e também sombras que apontavam para ele.

Jesus Cristo era profundamente zeloso pela casa de Deus, que é a sua igreja. Ele a amou e sempre cuidou da sua honra e do seu bem. Esse zelo o consumiu. Levou-o a humilhar-se, gastar-se e expor-se. “O meu zelo me consumiu” (Salmo 119:139). O zelo pela casa de Deus nos impede de dar importância excessiva à nossa própria reputação, conforto ou segurança quando o dever e o serviço de Cristo exigem outra coisa. Às vezes esse zelo nos conduz com tanta força e tão longe no cumprimento do dever que o corpo não consegue acompanhar o coração, e nos torna tão surdos quanto o nosso Mestre àqueles que dizem: “Salva-te a ti mesmo.” As ofensas ali podiam parecer pequenas e fáceis de relevar, mas o zelo de Cristo não permitiu nem mesmo os que compravam e vendiam no templo. Se ele tivesse encontrado bêbados ali, o que o Senhor teria feito?

Se Cristo tivesse encontrado bêbados no templo, quanto mais indignado teria ficado? Depois de purificar o templo, ele deu um sinal aos que exigiam uma prova, para confirmar a sua autoridade para fazer aquilo.

Eles pediram um sinal. Os judeus, isto é, a multidão e seus líderes, responderam a ele. Sendo judeus, deviam ter ficado ao lado dele e ajudado a defender a honra do templo. Em vez disso, se opuseram. Os que trabalham com sinceridade para corrigir abusos devem esperar resistência. Quando não conseguiram encontrar nada de errado no ato em si, questionaram o seu direito de fazê-lo. “Que sinal nos mostras”, perguntaram, “para provar que tens autoridade para fazer estas coisas?” Purificar o templo era uma boa obra, mas pensavam que ele não tinha nenhum cargo ali. Tomaram aquilo como um ato de autoridade, e queriam que ele provasse ser um profeta ou algo ainda maior. Contudo, o próprio feito já era um sinal. O poder de expulsar tantas pessoas de seus lugares sem qualquer resistência demonstrava sua autoridade. Certamente, quem agia com tão divino poder também tinha uma comissão divina. O que fez os compradores e vendedores fugirem e recuarem? Foi a presença do Senhor (Salmo 114:5, Salmo 114:7).

Cristo respondeu à exigência deles em (João 2:19), mas não realizou um milagre imediato para convencê-los. Em vez disso, deu-lhes um sinal em algo que aconteceria depois, cuja veracidade seria confirmada pelo resultado, como em (Deuteronômio 18:21-22). O sinal que lhes deu foi a sua própria morte e ressurreição. Primeiro, este foi o seu sinal final. Se não cressem no que viam e ouviam, teriam de esperar. Segundo, foi o grande sinal que o confirmava como Messias, pois estava predito que ele seria ferido (Isaías 53:5), tirado (Daniel 9:26) e, ainda assim, não veria corrupção (Salmo 16:10). Tudo isso se cumpriu no bendito Jesus. Assim, ele era de fato o Filho de Deus e tinha autoridade na casa de seu Pai.

Ele predisse sua morte e ressurreição, mas não em linguagem direta. Como muitas vezes fazia com os que não queriam aprender, falou de forma figurada. Mais tarde, ao apresentar esse mesmo sinal, chamou-o de sinal de Jonas. Aqui disse: “Destruí este santuário, e em três dias o levantarei.” Falou assim a pessoas dispostas a permanecer na ignorância, para que não entendessem (Mateus 13:13-14). Os que se recusam a ver, não verão. De fato, essa palavra figurada se tornou uma pedra de tropeço para eles, a ponto de ser usada em seu julgamento como prova contra ele, para acusá-lo de blasfêmia (Mateus 26:60-61). Se tivessem perguntado humildemente o que ele queria dizer, ele lhes teria explicado, e isso lhes teria trazido vida. Em vez disso, escolheram discutir, e isso se tornou ocasião de juízo. Como não quiseram ser convencidos, foram endurecidos. Até a maneira de ele enunciar essa profecia contribuiu para que se cumprisse.

Ele predisse a sua morte pela maldade dos judeus, dizendo: “Destruí vós este santuário.” Em outras palavras: “Vocês o destruirão. Eu sei que o farão. Eu permitirei que o destruam.” Cristo, já no início de seu ministério, via claramente todos os seus sofrimentos no fim dele, e mesmo assim avançou com alegria. É sabedoria, ao começar qualquer obra, prever o pior. Ele predisse sua ressurreição pelo seu próprio poder: “Em três dias o levantarei.” Outros foram ressuscitados, mas Cristo ressuscitou a si mesmo e retomou sua própria vida.

Ele escolheu a imagem de destruir e reconstruir o templo por duas razões. Primeiro, estava se defendendo pela purificação do templo que eles haviam profanado. Era como se dissesse: “Vocês, que profanam um templo, destruirão outro; e eu provarei meu direito de limpar o que vocês corromperam, levantando o que vocês destruirão.” Profanar o templo é, de certo modo, destruí-lo; reformá-lo é levantá-lo de novo. Segundo, a morte de Cristo de fato trouxe, como consequência, a destruição do templo judaico. Sua ressurreição levantou outro templo: a igreja do evangelho, a igreja edificada em torno do Renovo e Rei prometido (Zacarias 6:12). A ruína da cidade e da nação deles (João 11:48) se tornou riqueza para o mundo. Veja também (Amós 9:11) e (Atos 15:16).

Eles responderam com uma espécie de queixa: “Em quarenta e seis anos foi edificado este templo” (João 2:20). A obra do templo sempre fora lenta; por isso, para eles, era inconcebível que alguém o fizesse em tão pouco tempo. Nisso demonstraram algum conhecimento, pois sabiam dizer há quanto tempo o templo estava em construção. Um estudioso calcula que se passaram exatamente quarenta e seis anos desde o início do templo de Zorobabel, no segundo ano de Ciro, até a plena organização do serviço do templo, no trigésimo segundo ano de Artaxerxes. O mesmo número de anos teria corrido desde o início da obra deste templo por Herodes, no décimo oitavo ano do seu reinado, até o momento em que os judeus pronunciaram essas palavras.

Mas, ao mesmo tempo, revelaram ainda maior ignorância. Primeiro, entenderam mal as palavras de Cristo. As pessoas caem em grandes erros quando tomam ao pé da letra o que a Escritura apresenta em sentido figurado. Muitos danos espirituais surgiram de se ler “Isto é o meu corpo” de forma totalmente física e carnal. Segundo, eles não entenderam o poder todo-poderoso de Cristo, como se ele não pudesse fazer mais do que qualquer outro homem. Se tivessem reconhecido que ele é aquele que fez todas as coisas em seis dias, não teriam achado absurdo que edificasse um templo em três dias.

A resposta à objeção deles é simples, uma vez explicado o sentido. Ele falava do templo do seu corpo (João 2:21). Cristo havia demonstrado grande respeito pelo templo ao purificá-lo, mas quer que saibamos que a santidade que ele ali defendeu com tanto zelo era apenas uma figura. Ela nos conduz a outro templo, do qual o templo de Jerusalém era apenas uma sombra. A realidade é o próprio Cristo (Hebreus 9:9; Colossenses 2:17). Alguns pensam que, ao dizer “Derribai este templo”, ele apontou para o próprio corpo ou pôs a mão sobre ele. De todo modo, é certo que falava do templo do seu corpo. O corpo de Cristo é o verdadeiro templo, do qual o templo em Jerusalém era apenas um tipo.

Assim como o templo, o corpo de Cristo foi formado por direção divina direta: “Um corpo me preparaste” (comparar com 1 Crônicas 28:19). Como o templo, era uma casa santa, até chamado “aquele santo ser”. Como o templo, era o lugar onde a glória de Deus habitava. Nele morou o Verbo eterno, a verdadeira glória manifesta, o sinal visível da presença de Deus. Ele é Emanuel, Deus conosco. O templo era o lugar onde Deus se encontrava com Israel, e onde Israel comparecia diante dele. Ali Deus se dava a conhecer e ali o povo apresentava orações e serviço. Da mesma forma, Deus nos fala por meio de Cristo, e nós falamos com Deus por meio de Cristo. Os adoradores olhavam para aquela casa (1 Reis 8:30, 1 Reis 8:35), e assim também devemos adorar a Deus com os olhos da fé voltados para Cristo.

Os discípulos pensaram nisso muito tempo depois, e João registra aqui para esclarecer o episódio (João 2:22). Depois que Jesus ressuscitou dentre os mortos, lembraram-se de que ele dissera essas palavras. Antes, vimos que eles se lembraram do que estava escrito sobre ele (João 2:17); agora, vemos que se lembraram do que tinham ouvido da própria boca dele. Os discípulos de Cristo devem guardar tanto as verdades antigas quanto as novas, como o pai de família sábio que mantém seu tesouro bem suprido (Mateus 13:52).

Observe-se o momento em que se lembraram disso: depois que Jesus ressuscitou. Na hora em que ouviram, não entenderam plenamente o que ele queria dizer, porque ainda eram imaturos no entendimento. Mas conservaram aquelas palavras no coração, e, mais tarde, elas se tornaram claras e proveitosas. É sabedoria ouvir agora já pensando na compreensão mais plena que virá depois (Isaías 42:23). Crentes jovens, ou ainda em crescimento, devem manter firmes verdades que ainda não compreendem por completo, porque mais tarde essas verdades lhes serão muito úteis quando tiverem maior conhecimento.

Essa palavra parece ter “despertado” na mente deles quando Jesus ressuscitou dentre os mortos. Alguns antigos mestres diziam que os ditos de Pitágoras pareciam permanecer “congelados” na mente dos discípulos até cerca dos quarenta anos, e depois “descongelavam”. De modo semelhante, as palavras de Cristo ganharam vida na memória dos discípulos após a ressurreição. Por quê? Primeiro, porque o Espírito Santo lhes foi dado para trazer à memória tudo o que Jesus havia dito e torná-lo claro e pronto para uso (João 14:26). No próprio dia da ressurreição, Cristo também abriu o entendimento deles para compreenderem as Escrituras (Lucas 24:45). Segundo, porque suas palavras então tinham sido cumpridas. Quando o templo do seu corpo foi destruído e levantado de novo ao terceiro dia, eles se lembraram dessas e de outras palavras semelhantes.

Isso mostra o quanto ajuda, para compreender a Escritura, vê-la cumprida. O acontecimento esclarece a profecia. Então os discípulos creram na Escritura e na palavra que Jesus dissera. Sua fé em ambas foi fortalecida e renovada. Antes tinham sido tardios em crer (Lucas 24:25), mas sua fé se tornou mais firme. Aqui “a Escritura” e “a palavra de Jesus” aparecem lado a lado, não porque haja divergência entre elas, mas porque uma lança luz sobre a outra. Quando os discípulos viram que o que tinham lido no Antigo Testamento e o que tinham ouvido de Cristo se cumpriu em sua morte e ressurreição, sua confiança em ambos se consolidou ainda mais.

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