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João 2:1 - Significado e aplicação
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Tradução: Bíblia BibleGuided — Português Brasileiro
" Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava ali. "
João 2:1
Versículo no contexto
Entender os versículos ao redor evita interpretações incorretas:
1 Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava ali.
2 Jesus e os seus discípulos também foram convidados.
3 Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles já não têm vinho”.
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Aqui temos o relato de Cristo transformando, de modo miraculoso, água em vinho, numa festa de casamento em Caná da Galileia. Algumas pessoas creram em Cristo e o seguiram mesmo antes de ele realizar qualquer milagre. Mas a maioria só se moveria quando ele desse resposta à pergunta: “Que sinal nos mostras?” Ele poderia ter feito milagres mais cedo, e até tê-los como parte de sua vida diária e de suas amizades. No entanto, os milagres foram destinados a ser sinais sagrados que confirmavam o seu ensinamento, por isso ele não começou a realizá‑los antes de iniciar sua pregação.
Observe o contexto em que esse milagre acontece. Maimônides dizia que era um mérito de Moisés que todos os sinais que fez no deserto respondiam a necessidades reais; o mesmo vale para Cristo. Se Israel precisava de alimento, Moisés deu o maná, e Cristo fez o mesmo. Este milagre ocorreu “ao terceiro dia” depois que Jesus veio à Galileia. O evangelista registra os acontecimentos com cuidado, porque não passava dia sem que algo importante fosse dito ou feito. Nosso Mestre aproveitou o tempo muito melhor do que seus servos, e nunca foi dormir, como certo imperador romano, dizendo que havia desperdiçado um dia.
O lugar era Caná da Galileia, no território da tribo de Aser (Josué 19:28), região antes descrita como aquela que “dá iguarias reais” (Gênesis 49:20). Cristo começou seus milagres num lugar afastado, longe de Jerusalém, que era o grande centro público de ação. Isso mostrava que ele não buscava honra que vem dos homens (João 5:41), mas aceitava honrar os humildes. Seus ensinos e milagres encontrariam menos oposição entre os galileus simples e honestos do que entre os rabis, políticos e líderes orgulhosos e preconceituosos de Jerusalém.
A ocasião era um casamento, e provavelmente um ou ambos os noivos eram parentes de nosso Senhor Jesus. Sua mãe estava ali, e é mencionada como estando “ali” em casa, enquanto de Jesus e de seus discípulos se diz que foram convidados. Isso sugere que ela já fazia parte da casa ou do círculo familiar. Cristo honrou o matrimônio ao participar da celebração e ao fazer ali seu primeiro milagre. Ele o fez porque o casamento foi instituído e abençoado originalmente em estado de inocência, porque por meio dele Deus ainda busca uma descendência piedosa, porque o casamento é figura da união espiritual entre Cristo e sua igreja, e também porque ele via de antemão como o sistema papal haveria de tratar mal o casamento: atribuindo‑lhe, de um lado, um caráter de sacramento indevido e, de outro, rebaixando a vida conjugal como imprópria para o serviço santo.
Tratava‑se de um banquete de casamento, pois os matrimônios costumavam ser celebrados com festa (Gênesis 29:22; Juízes 14:10), como sinal de alegria, de respeito amistoso e de fortalecimento dos laços de amor. Cristo, sua mãe e seus discípulos estavam entre os principais convidados. Sua mãe, Maria, é citada com esse título honroso. Como José não é mencionado, é razoável crer que já havia morrido. Jesus aceitou o convite e participou daquela refeição festiva. Com isso ele nos ensina a ser respeitosos e cordiais com nossos parentes, ainda que sejam pobres ou simples. Cristo veio de maneira diferente de João Batista, que “não comia nem bebia” (Mateus 11:18-19). A verdadeira sabedoria se mostra em saber usar bem a boa convivência, não em evitá‑la.
Quando há um casamento, é muito desejável ter Jesus Cristo presente, com a sua graciosa presença espiritual e com a sua bênção sobre a união. Assim o matrimônio é verdadeiramente honrado. Os que se casam “no Senhor” (1 Coríntios 7:39) não se casam sem ele. Se desejamos que Cristo esteja em nosso casamento, devemos convidá‑lo em oração. Essa é a mensagem que se envia aos céus, e ele virá. Ele atenderá ao chamado e transformará água em vinho.
Os discípulos também foram convidados, os cinco que ele já havia chamado (capítulo 1), pois, até então, não tinha mais do que esses. Eles eram sua “casa”, e vieram com ele. Tinham‑se entregado aos seus cuidados, e logo veriam que, embora não tivesse riquezas, ele tinha bons amigos. Os que seguem a Cristo participam do banquete com ele. Eles compartilham da condição dele, conforme a sua promessa: “onde eu estiver, ali estará também o meu servo” (João 12:26). O amor a Cristo se manifesta também no amor aos que pertencem a ele, pois nossa bondade não pode alcançá‑lo diretamente, mas alcança o seu povo. Calvino observa como o anfitrião foi generoso, embora pareça ter poucos recursos, ao convidar quatro ou cinco pessoas a mais do que havia planejado, apenas porque seguiam Cristo. Isso mostra, diz Calvino, que muitas vezes há mais liberdade, bondade e verdadeira amizade entre os humildes do que entre muitos de alta posição.
Quanto ao milagre em si: faltou vinho (João 2:3). Houve carência mesmo em meio a uma festa, ainda que muita provisão tivesse sido feita, porque tudo foi consumido. Neste mundo, às vezes nos vemos em aperto justamente quando pensamos ter o suficiente. Se continuarmos apenas a consumir, tudo pode se acabar sem percebermos. E a falta aconteceu num banquete de casamento. Os que se casam e assumem os cuidados deste mundo precisam esperar tribulações na carne, e não devem estranhar decepções. É bem provável que Cristo e seus discípulos tenham contribuído para a falta, porque veio mais gente do que se esperava quando se preparou a comida e a bebida. No entanto, quem abre espaço para Cristo não sairá perdendo por causa disso.
Maria, mãe de Jesus, pediu que ele socorresse os amigos naquela necessidade. Em João 2:3-5 é descrito o que se passou entre Cristo e sua mãe. Ela expôs claramente o problema: “Não têm vinho” (João 2:3). Alguns pensam que ela não esperava um milagre, já que ele ainda não havia feito nenhum em público. Julgam que ela queria que ele desse alguma explicação cortês aos convidados, amenizasse o constrangimento e preservasse a honra do noivo. Calvino sugere que talvez ela desejasse que ele suprisse a falta do vinho com algum ensino santo e proveitoso. Mas o mais provável é que ela esperasse, sim, um milagre. Ela sabia que ele agora se manifestava como o grande Profeta semelhante a Moisés, que muitas vezes supriu as necessidades de Israel no momento certo. E, embora este fosse o primeiro milagre público, é possível que já tivesse socorrido a ela e a José em sua condição humilde antes disso.
O noivo poderia ter mandado comprar mais vinho, mas Maria foi diretamente à fonte. Devemos nos importar com as necessidades e dificuldades de nossos amigos, não apenas com as nossas. Em nossas próprias aflições, e também nas de nossos amigos, é sábio e correto recorrer a Cristo em oração. Ao nos achegarmos a ele, não devemos prescrever o que ele deve fazer. Devemos expor o caso com humildade e deixar a ele decidir como e quando agir.
Ele respondeu com uma repreensão, porque viu em sua abordagem algo impróprio, que talvez nós não perceberíamos. Se ele não tivesse visto nela mais do que nós vemos, não lhe teria falado daquela forma. Assim temos a sua palavra de correção.
A repreensão de Jesus foi real: “Mulher, que tenho eu contigo?” A quem Cristo ama, ele também corrige e disciplina. Ele a chama de “mulher”, não de “mãe”, e isso nos lembra da necessidade de permanecer humildes. Quando começamos a nos sentir importantes, precisamos lembrar o que somos: pessoas frágeis e pecadoras.
A frase pode ser entendida também como: “Que temos nós com isso?” Mas, de todo modo, é uma palavra de censura. Não significa que Jesus deixou de honrar sua mãe, pois ele sempre guardou o quinto mandamento e lhes foi sujeito como Filho humano (Lucas 2:51). Mas a resposta tinha três propósitos. Primeiro, continha Maria por entrar em um assunto que dizia respeito ao seu poder divino, que não dependia dela.
Embora, como homem, Jesus fosse Filho de Davi e Filho de Maria, como Deus ele era Senhor de Davi e Senhor de Maria. Ele queria que ela soubesse disso. Grandes privilégios nunca devem nos levar a esquecer o nosso lugar, e a proximidade com Cristo nunca deve nos fazer irreverentes ou presunçosos. Em segundo lugar, isso ensinou também às pessoas ao redor, muitas delas parentes, que ele não realizaria milagres para favorecer laços de sangue. Na obra de Deus não se deve praticar favoritismo.
Em terceiro lugar, essa palavra serve como advertência contra a idolatria que mais tarde cresceu em torno de Maria. A tradição romana, como o autor aponta, confere a ela honras que pertencem somente a Cristo, chamando‑a de rainha do céu, salvadora do mundo e mediadora. Mediador é quem se coloca entre duas partes para reconciliá‑las, mas a Escritura reserva esse papel a Cristo, e não a Maria. O Filho de Deus é nosso advogado junto ao Pai, mas Maria nunca foi destinada a ser advogada junto ao Filho.
Jesus então dá a razão: “Ainda não é chegada a minha hora.” Cristo tinha um tempo determinado para tudo o que fazia, e até para o que fariam com ele. Sua “hora” pode significar o momento adequado para seus milagres, ou o momento de torná‑los públicos, ou ainda o tempo de se manifestar abertamente como profeta. Neste caso, ele realizou o milagre antes dessa hora, porque via que isso fortaleceria a fé dos primeiros discípulos (João 2:11).
Também é possível que o vinho ainda não tivesse acabado por completo. Maria pediu ajuda quando o vinho estava começando a faltar, mas Jesus esperou até que se esgotasse de vez. Assim, ninguém poderia pensar que os servos tinham misturado restos de vinho com a água. Isso também nos ensina que o extremo da necessidade humana muitas vezes é a oportunidade de Deus. Quando somos levados ao fim de nossos recursos, a ajuda do Senhor se manifesta com mais clareza.
Maria não recebeu mal a repreensão. Ela não retrucou, o que é o melhor caminho quando Cristo nos corrige. Se não tivermos merecido a repreensão, tanto melhor; mas, se tivermos, é bom recebê-la em silêncio e considerá-la um ato de bondade (Salmo 141:5). Ela continuou confiando na misericórdia dele e esperando que ele ajudasse seus amigos em sua necessidade.
Quando buscamos a misericórdia de Deus em Cristo, duas coisas frequentemente nos desanimam. Primeiro, sentimos nossa fraqueza e insensatez, e pensamos que nossas orações são imperfeitas demais para serem ouvidas. Segundo, percebemos o desagrado do Senhor porque as dificuldades continuam e as respostas parecem demoradas. Maria estava assim naquela situação, mas ainda esperava que Jesus respondesse em paz. Isso nos ensina a perseverar em oração, mesmo quando a providência de Deus parece estar contra nós. Precisamos crer, esperando contra a esperança (Romanos 4:18).
Maria também desviou a atenção de si mesma e a direcionou para Jesus. Ela abriu mão de qualquer pretensão de influência especial sobre ele e disse aos servos que esperassem somente nele (Salmo 62:5). Já tinha aprendido, pela própria correção, a não se colocar no meio. Por isso, ordenou que o obedecessem plenamente, sem discutir nem questionar. “Tudo o que ele vos disser, fazei.” Se ele mandasse derramar água quando os convidados queriam vinho, era isso que deveriam fazer.
Os que esperam o favor de Cristo devem obedecer a seus mandamentos com confiança. O caminho do dever é o caminho da misericórdia, e o modo de agir de Cristo não deve ser questionado. No fim, ele supriu o que faltava, e muitas vezes ele é melhor do que sua própria palavra, jamais pior.
O milagre foi este: ele transformou água em vinho. A água conservou a sua substância, mas recebeu a forma, o sabor e as qualidades de vinho. Isso é um verdadeiro milagre. Pelo sinal, Cristo se mostrou Senhor da natureza, aquele que faz a terra produzir vinho (Salmo 104:14, 15). A cada ano, o poder oculto da terra faz o vinho brotar da umidade do solo, e isso também é uma grande obra, embora aconteça no curso ordinário da natureza.
O primeiro milagre de Moisés foi transformar água em sangue (Êxodo 4:9; Êxodo 7:20). O primeiro milagre de Cristo foi transformar água em vinho. Essa diferença aponta para a diferença entre a lei de Moisés e o evangelho de Cristo.
A maldição da lei transforma água em sangue. Converte consolos comuns em amargura e medo. Mas a bênção do evangelho transforma água em vinho. Nesse sinal, Cristo mostrou que veio ao mundo para elevar e aperfeiçoar as coisas boas da vida para todos os crentes, fazendo delas verdadeiros consolos.
Sobre Siló, o governante prometido na bênção de Jacó, se diz que ele lava suas vestes no vinho (Gênesis 49:11). Até a água usada para lavar é transformada em vinho. O convite do evangelho também diz: “Vinde às águas e comprai vinho” (Isaías 55:1). A graça de Cristo traz alegria onde a lei trazia apenas peso.
O contexto do milagre o tornou ainda mais impressionante e não deixou espaço para suspeita. Primeiro, ele foi realizado justamente com as talhas de água, as talhas de pedra que ali estavam (João 2:6). Essas talhas eram destinadas às purificações dos judeus, exigidas pela lei de Deus e por muitas outras lavagens acrescentadas pelas tradições dos anciãos. Os judeus “lavavam-se muitas vezes” antes de comer (Marcos 7:3), e para isso precisavam de muita água. Eram grandes talhas providas para esse fim.
Cristo as usou para algo totalmente diferente. Fez com que nelas fosse guardado o vinho miraculoso. Assim, mostrou que tinha vindo trazer a graça do evangelho, comparada ao vinho que alegra (Juízes 9:13), em lugar das sombras da lei, comparadas à água, fraca e limitada. Essas talhas nunca antes haviam contido vinho. Eram de pedra, para que não retivessem cheiro de qualquer líquido antigo. Cada talha comportava duas ou três metretas, uma quantidade muito grande.
É certo que o vinho não se destinava a ser todo consumido ali na festa. Era também um presente para os noivos, como o azeite multiplicado dado à viúva pobre, para que pagasse sua dívida e vivesse do resto (2 Reis 4:7). Cristo dá conforme o que ele é: com abundância, segundo as suas riquezas em glória. O escritor diz “duas ou três metretas” porque o Espírito Santo poderia ter dado a medida exata, mas não o fez. Isso nos ensina a falar com cautela e sem demasiada segurança sobre coisas que não sabemos com certeza (João 6:19).
Em segundo lugar, os servos encheram as talhas até em cima, por ordem de Cristo (João 2:7). Assim como Moisés, servo do Senhor, foi à rocha quando Deus o mandou, também esses servos foram à água quando Cristo ordenou. Já que nada é difícil demais para o poder de Deus, não devemos objetar à sua palavra só porque algo nos parece improvável.
Em terceiro lugar, o milagre aconteceu de imediato, de modo que ficasse ainda mais claro. Assim que as talhas foram enchidas, Jesus disse: “Tirai agora” (João 2:8), e assim foi feito. Ele realizou isso sem qualquer ostentação pública, ali mesmo diante das pessoas. Poderíamos esperar que viesse à frente e clamasse a Deus com um grande sinal, como Eliseu fez por Naamã (2 Reis 5:11). Em vez disso, permaneceu sentado, não disse palavra em voz alta, apenas quis e assim se fez. Cristo realiza grandes e maravilhosas obras sem alarde, e produz mudanças claras de modo oculto. Em alguns momentos ele usou palavras e sinais em seus milagres, mas isso foi por causa dos que estavam observando (João 11:42).
Ele também agiu sem qualquer hesitação em seu próprio coração. Não disse: “Tirai e deixai-me provar primeiro”, como se precisasse verificar se tinha dado certo. Mesmo sendo esse o seu primeiro milagre, mandou o vinho diretamente ao mestre-sala. Ele sabia tanto o que faria quanto o que podia fazer. Não precisou de teste. Tudo foi bom, muito bom, desde o princípio.
Nosso Senhor Jesus mandou primeiro que os servos tirassem o vinho, e não que o deixassem nas talhas, apenas para ser admirado. Era para ser usado. As obras de Cristo são todas para uso. Ele não dá nenhum dom para ser enterrado, mas para ser colocado em serviço. Se ele transformou sua água em vinho, se lhe deu conhecimento e graça, use isso para o bem. Ele também mandou tirar “agora”, porque quem deseja conhecer a Cristo deve prová-lo andando nos meios ordinários que ele estabeleceu, e então pode esperar a sua ajuda especial. O que Deus reservou para os que o temem é realizado na experiência dos que nele confiam (Salmo 31:19).
Ele ordenou ainda que levassem o vinho ao mestre-sala. Alguns entendem que fosse apenas o principal convidado, na cabeceira da mesa. Se assim fosse, Cristo deveria ocupar esse lugar, pois era o mais importante dos convidados em todos os sentidos. Mas parece que outro tomou a melhor posição, provavelmente alguém que amava essa honra (Mateus 23:6; Lucas 14:7). Cristo, conforme seu próprio ensino, tomou o último lugar. Contudo, embora não fosse tratado como o mestre da festa, agiu como verdadeiro amigo da celebração e, se não era o anfitrião, certamente era o seu maior benfeitor.
Outros entendem que esse homem era quem dirigia a festa, conforme o costume grego de ter um organizador do banquete. Sua tarefa era garantir que todos fossem bem servidos, que ninguém exagerasse e que não houvesse desordem. Festas precisam de tal supervisão, porque muitos não se governam bem quando se assentam para comer e beber. Alguns pensam ainda que fosse uma espécie de capelão, um sacerdote ou levita que pedia a bênção de Deus e dava graças. Se assim fosse, Cristo mandaria levar o cálice a ele para que o abençoasse e bendissesse a Deus por ele. Mesmo os sinais especiais da presença e do poder de Cristo nunca foram destinados a substituir os deveres ordinários de culto e devoção.
O vinho que Cristo forneceu era o melhor e o mais fino, e o mestre-sala o reconheceu. E como ele não sabia de onde vinha (João 2:9, 10), vemos que não era imaginação. Era certo que aquilo era vinho. O mestre sabia disso ao prová-lo, embora não conhecesse sua origem. Os servos sabiam de onde vinha, embora ainda não o tivessem provado. Se aquele que provou tivesse visto o vinho ser tirado, ou se os servos também o tivessem provado, alguém poderia atribuir o resultado a engano ou imaginação. Mas, desse modo, não havia espaço para suspeita.
Era também o melhor vinho. As obras de Cristo se recomendam por si mesmas, até mesmo às pessoas que não sabem quem as realizou. O que vem de um milagre é sempre o melhor em sua espécie. Esse vinho tinha mais força e melhor sabor do que o vinho comum. O mestre‑sala comentou isso com o noivo em tom leve, quase brincando, como algo fora do comum. O costume normal era diferente: primeiro se servia o bom vinho, quando os convidados ainda estavam descansados, com a mente clara, capazes de apreciá‑lo e elogiá‑lo. Depois que já tinham bebido bastante, seus sentidos ficavam embotados e o apetite desaparecia, de modo que um vinho inferior bastava.
Vê‑se aqui a vaidade de todos os prazeres do corpo. Eles rapidamente se tornam excessivos, mas nunca satisfazem de verdade. Quanto mais as pessoas os desfrutam, menos agradáveis se tornam.
Este noivo, ao ter uma reserva do melhor vinho para a última rodada, mostrou grande generosidade para com seus amigos. Os convidados disseram: “Tu guardaste até agora o bom vinho” e, sem saber quem o havia providenciado, agradeceram ao noivo por ele. De modo semelhante, Deus disse a respeito de Israel: “Ela não soube que eu é que lhe dava o trigo e o vinho” (Oséias 2:8).
Cristo, ao providenciar tanto vinho para os convidados, aprovou um uso sóbrio e alegre do vinho, especialmente em um tempo de festa (Neemias 8:10). Mas em nada enfraqueceu a sua própria advertência de que o nosso coração nunca deve se sobrecarregar com glutonaria e embriaguez, nem mesmo em um banquete de casamento (Lucas 21:34). Ao dar tanto vinho bom àqueles que já tinham bebido bem, ele estava provando o domínio próprio deles e ensinando como lidar tanto com a abundância quanto com a necessidade.
Temperança imposta à força não é virtude pela qual alguém agradece. Mas, se a providência de Deus nos dá muitas coisas boas para desfrutar, e a graça de Deus nos ajuda a usá‑las com sabedoria, esse tipo de abnegação é digno de louvor. Cristo também quis que sobrasse vinho, para que houvesse prova do milagre em favor da fé de outros. E temos bons motivos para pensar que os convidados eram bem instruídos ou ficaram tão impactados com a presença de Cristo que ninguém abusou do vinho.
Duas lições dessa história devem nos fortalecer contra os excessos. Primeiro, nosso alimento e nossa bebida são dádivas da bondade de Deus, e a nossa liberdade de desfrutá‑los, bem como o consolo que encontramos neles, vêm por meio da mediação de Cristo, isto é, de sua obra de nos conduzir a Deus. Por isso, é ao mesmo tempo ingrato e pecaminoso fazer mau uso deles. Segundo, onde quer que estejamos, Cristo nos vê. Devemos “comer pão diante de Deus” (Êxodo 18:12), e então não comeremos de modo descuidado e sem reverência.
Este milagre também nos dá uma figura da maneira como Cristo trata aqueles que o servem. Ele reserva o melhor para o fim, de modo que o seu povo precisa confiar nele de antemão. A recompensa por seu serviço e sofrimento é guardada para o mundo vindouro, onde haverá glória por vir. Os prazeres do pecado podem parecer brilhantes no início, mas terminam em dor. Os prazeres da verdadeira religião permanecerão para sempre.
Nas palavras finais desta narrativa (João 2:11), somos informados, em primeiro lugar, que este foi o início dos milagres que Jesus fez. Muitos milagres já tinham acontecido em torno dele em seu nascimento e batismo, e ele próprio era o maior de todos os milagres. Mas este foi o primeiro milagre que ele realizou diretamente. Ele poderia ter operado milagres quando falou com os doutores no templo, mas ainda não era chegada a sua hora. Ele tinha poder, mas houve um tempo em que esse poder permaneceu oculto.
Em segundo lugar, neste milagre ele manifestou a sua glória. Mostrou‑se Filho de Deus, e sua glória era a glória do Filho unigênito do Pai. Também revelou a natureza e o propósito de sua missão. Em todos os seus milagres, e especialmente neste, ao mesmo tempo o poder de Deus e a graça de um Salvador foram evidenciados, e o Messias tão esperado foi revelado em glória.
Em terceiro lugar, seus discípulos creram nele. Aqueles que ele havia chamado antes (capítulo 1), que não tinham visto milagre algum e mesmo assim o seguiram, agora viram este, participaram dele e tiveram sua fé fortalecida por isso. Até a fé verdadeira começa fraca. Os homens mais fortes um dia foram crianças, e os cristãos mais firmes um dia foram novos convertidos. E quando a glória de Cristo é manifestada, ela dá forte apoio à fé dos cristãos.
Deste capítulo
João 2:2
"Jesus e os seus discípulos também foram convidados."
João 2:3
"Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles já não têm vinho”."
João 2:4
"Jesus lhe respondeu: “Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou”."
João 2:5
"Então sua mãe disse aos serventes: “Façam o que ele disser a vocês”."
João 2:6
"Ora, havia ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, e cada uma continha duas ou três medidas."
João 2:7
"Jesus lhes ordena: “Encham as talhas de água”. Eles as encheram até em cima."
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