Versículo em destaque
João 11:33 - Significado e aplicação
Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje
Tradução: Bíblia BibleGuided — Português Brasileiro
" Ao vê-la chorar assim, como também todos os judeus que a acompanhavam, Jesus ficou intensamente comovido em espírito. E, sob o impulso de profunda emoção, "
João 11:33
Versículo no contexto
Entender os versículos ao redor evita interpretações incorretas:
31 Os judeus que estavam com ela em casa, apresentando condolências, ao verem Maria levantar-se depressa e sair, seguiram-na, pensando que ela ia ao sepulcro para chorar ali.
32 Quando Maria chegou ao lugar onde Jesus estava e o viu, lançou-se aos pés dele e lhe disse: “Senhor, se tu tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido!”
33 Ao vê-la chorar assim, como também todos os judeus que a acompanhavam, Jesus ficou intensamente comovido em espírito. E, sob o impulso de profunda emoção,
34 perguntou: “Onde vocês o colocaram?” Eles lhe responderam: “Senhor, vem ver.”
35 Jesus começou a chorar.
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Aqui vemos a terna compaixão de Cristo por seus amigos aflitos, e como Ele compartilhou da tristeza deles. Isso aparece de três maneiras. Primeiro, Ele se comoveu profundamente e perturbou-se em espírito. Segundo, perguntou com bondade onde Lázaro tinha sido colocado. Terceiro, chorou.
Jesus viu Maria chorando pela perda do seu querido irmão, e os judeus que estavam com ela chorando pela perda de um bom vizinho e amigo. É um retrato deste mundo, este vale de lágrimas. A própria natureza nos ensina a chorar quando aqueles que amamos são levados pela morte, e a providência nos chama ao luto. É provável que os bens de Lázaro tivessem passado às irmãs e as ajudassem muito. Ainda assim, Maria e Marta desejavam sinceramente ter o irmão de volta, qualquer que fosse o benefício material trazido por sua morte.
A fé também nos ensina a chorar com os que choram, como esses judeus choraram com Maria. Todos fazemos parte de um mesmo corpo, e isso deve nos fazer sentir a dor uns dos outros. Quem realmente ama seus amigos participa tanto das alegrias quanto das tristezas deles. A amizade é um compartilhar de afetos (Jó 16:5).
Aqui também vemos a graça e a compaixão do Filho de Deus para com os que estão em miséria. Em todas as aflições do seu povo, Ele se aflige com eles (Isaías 63:9; Juízes 10:16). Quando Cristo os viu todos em lágrimas, gemeu em espírito e perturbou-se. Ele permitiu que seu coração fosse profundamente tocado, porém sem pecado. Isso pode significar que mostrou desagrado com o excesso de pesar deles, como em (Marcos 5:39), quando Ele repreendeu o pranto barulhento. Ou pode significar que sentiu a triste condição da vida humana e o poder da morte sobre o homem caído.
Ele estava para enfrentar a morte e o túmulo com todo o seu poder, e despertou-se para esse combate. Tomou sobre si o peso de nossas dores para tratar com mais firmeza da nossa miséria e sofrimento. Ou, de forma mais natural, esse foi o seu amoroso sentir junto com os amigos na dor. Foi a comoção profunda daquela compaixão que o povo aflito de Deus tanto deseja (Isaías 63:15). Cristo não apenas parecia preocupado. Ele se comoveu de fato, de maneira sincera, com a situação deles. Os falsos amigos de Davi fingiam simpatia para encobrir o ódio (Salmo 41:6), mas devemos aprender com Cristo a amar e compadecer sem fingimento.
Diz-se também que Ele se perturbou. A ideia é que Ele perturbou a si mesmo. Ele possuía todos os sentimentos próprios da natureza humana, pois precisava ser semelhante a seus irmãos em tudo, mas mantinha perfeito domínio sobre eles. Suas emoções nunca se levantavam senão quando Ele permitia que se levantassem. Jamais se perturbava a não ser quando decidia perturbar-se por uma boa razão. Podia tomar sobre si a tristeza e, quando quisesse, deixá-la de lado. Sua compaixão era voluntária, assim como o seu sofrimento.
Sua preocupação também apareceu na pergunta cheia de delicadeza sobre os restos mortais do amigo: “Onde o pusestes?” Ele já sabia onde Lázaro estava, mas ainda assim perguntou. Primeiro, falou como um verdadeiro homem, mesmo estando prestes a manifestar poder divino. Ajustou-se às maneiras humanas. Como observou Agostinho, Ele não era ignorante, mas agiu como se fosse. Segundo, perguntou onde era o sepulcro para que os judeus incrédulos não pudessem alegar algum truque ou combinação entre Ele e Lázaro.
Terceiro, pode ter perguntado para aliviar o pesar dos enlutados, desviando seus pensamentos para algo grandioso. Era como se dissesse: “Eu não vim apenas trazer pêsames e acrescentar algumas lágrimas inúteis às de vocês. Tenho outra obra a realizar. Levem-me ao sepulcro, e tratemos logo disso.” Um empenho sério em nosso dever costuma ser o melhor remédio para uma tristeza que passou da medida. Quarto, isso mostra o cuidado especial que Ele tem pelos corpos dos seus santos enquanto descansam no túmulo. Ele sabe onde estão e vela por eles. Há uma aliança que alcança até o pó e uma guarda sobre ele.
Por fim, esse cuidado se manifestou em suas lágrimas. Os outros não apenas lhe disseram onde o corpo estava. Disseram: “Vem e vê” e o conduziram diretamente ao túmulo, para que o que Ele visse o comovesse ainda mais. Indo em direção ao sepulcro, como se seguisse o cortejo fúnebre, Jesus chorou (João 11:35). É um versículo muito curto, mas que ensina muitas coisas. Mostra que Jesus Cristo era verdadeira e plenamente homem, com uma alma humana capaz de alegria, tristeza e outras emoções. Ele deu prova da sua humanidade e da sua misericórdia como homem, antes de dar essa prova do seu poder divino.
Mostra também que Ele foi homem de dores e experimentado nos sofrimentos, como foi anunciado (Isaías 53:3). Não lemos que tenha rido, mas mais de uma vez lemos que chorou. Assim Ele nos ensina que uma vida marcada pela tristeza pode ser vivida no amor de Deus, e que quem semeia para o Espírito deve semear em lágrimas. Lágrimas de compaixão ficam bem aos cristãos e os tornam mais semelhantes a Cristo. É consolo para os que sofrem quando seus amigos se compadecem deles, especialmente quando esse amigo é o Senhor Jesus.
As pessoas entenderam suas lágrimas de maneiras diferentes. Alguns lhes deram um sentido bondoso e justo, o que era o mais natural. Disseram: “Vede como o amava!” Admiraram-se de Cristo sentir tanto afeto por alguém que não era parente próximo e com quem Ele não convivera por muito tempo. Cristo passara a maior parte do tempo na Galileia, longe de Betânia. Devemos seguir esse exemplo, demonstrando amor pelos amigos, tanto em vida quanto na morte. Devemos chorar por aqueles que dormem em Jesus como quem ama, mas não sem esperança, como os homens piedosos que sepultaram Estêvão (Atos 8:2). Nossas lágrimas não aproveitam aos mortos, mas honram a sua memória.
Essas lágrimas revelaram o amor especial de Cristo por Lázaro. No entanto, Ele deu prova ainda mais clara do seu amor por todos os santos, pois morreu por eles. Quando apenas derramou uma lágrima por Lázaro, disseram: “Vede como o amava!” Quanto mais devemos dizer isso daquele por quem Ele entregou a própria vida: “Vede como nos amou!” Não existe amor maior do que esse.
Outros fizeram um comentário azedo e injusto, como se suas lágrimas provassem que Ele não podia ajudar o amigo (João 11:37). Disseram: “Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também com que este não morresse?” De forma velada, sugeriam duas coisas. Primeiro, pensavam que, como a morte de Lázaro causara tanta dor a Jesus, Ele o teria impedido de morrer, se pudesse. Como não o fez, estavam prontos a concluir que não era capaz. Raciocinaram da mesma forma quando Jesus estava morrendo, afirmando que Ele não podia salvar a si mesmo, porque não desceu da cruz. Esqueceram que o poder de Deus sempre atua sob a direção da sabedoria de Deus. Ele não age apenas de acordo com a vontade, mas segundo o conselho da sua vontade, e é nisso que devemos descansar.
Se amigos de Cristo, a quem Ele ama, morrem, ou se sua igreja, que Ele ama, é perseguida e afligida, não devemos atribuir isso a fraqueza do seu poder ou do seu amor. Devemos concluir que Ele vê um caminho melhor. Segundo, insinuavam que talvez o milagre anterior fosse duvidoso. Pensavam: se Ele não realiza agora este milagre, talvez nunca tenha realmente aberto os olhos do cego. Pelo menos alimentavam a esperança de que isso mostrasse que Ele tinha poder limitado e, portanto, não era verdadeiramente divino. Cristo respondeu logo a esses murmuradores ressuscitando Lázaro dentre os mortos, que era uma obra ainda maior. Mostrou que poderia ter impedido a morte de Lázaro, mas preferiu não fazê-lo, porque tencionava glorificar-se ainda mais.
A aproximação de Cristo ao sepulcro, e o modo como se preparou o caminho para o milagre, vem em seguida. Ao chegar perto da sepultura, Ele tornou a gemer em si mesmo (João 11:38). Gemeu porque se entristeceu com a incredulidade dos que falavam duvidosamente do seu poder e o culpavam por não ter impedido a morte de Lázaro. Ficou magoado com a dureza do coração deles. Nunca gemeu tanto por suas próprias dores e sofrimentos quanto pelos pecados e pela insensatez das pessoas, especialmente de Jerusalém (Mateus 23:37).
Também foi movido pelos novos gritos das irmãs enlutadas, que provavelmente se lamentaram ainda mais forte ao chegar ao túmulo. Seu coração terno foi profundamente tocado pelo choro delas. Alguns pensam ainda que Ele gemeu porque, para atender ao desejo dos amigos, estava prestes a trazer Lázaro de volta a este mundo pecaminoso e atribulado, tirando-o do descanso em que acabara de entrar. Isso seria bondade para com Marta e Maria, mas para Cristo era como arrancar alguém de um porto seguro e lançá-lo novamente em um mar tempestuoso. Se Lázaro tivesse sido deixado em paz, em breve Cristo iria a ele no outro mundo. Mas, uma vez restaurado à vida, Cristo em pouco tempo o deixaria novamente neste mundo.
Cristo também gemeu como alguém que sentia profundamente a triste condição da natureza humana, sujeita à morte, da qual ele estava prestes a libertar Lázaro. Desse modo, ele despertou a si mesmo para invocar a Deus na oração que faria em seguida, a fim de oferecê-la com forte clamor (Hebreus 5:7). Os ministros, quando são enviados para vivificar almas mortas pela pregação do evangelho, devem sentir intensamente a condição miserável daqueles por quem pregam e por quem oram. Devem gemer em seu íntimo ao considerar tal estado.
Em seguida é descrito o túmulo onde Lázaro estava. Era uma caverna, e havia uma pedra sobre ela. Os sepultos comuns provavelmente eram enterrados em covas, como fazemos, mas as pessoas de posição eram colocadas em câmaras sepulcrais, como foi o caso de Lázaro e como mais tarde aconteceu com o próprio Jesus. Esse costume provavelmente foi conservado entre os judeus em imitação dos patriarcas, que sepultaram seus mortos na caverna de Macpela (Gênesis 23:19). O cuidado que tinham com os corpos de seus entes queridos mostrava que esperavam uma ressurreição. Consideravam o funeral encerrado quando a pedra era rolada para a entrada do túmulo, ou colocada sobre ele, como a pedra na boca da cova onde Daniel foi lançado (Daniel 6:17), de modo que ninguém pudesse alterar o resultado. Isso mostrava que os mortos estão separados dos vivos e seguiram por um caminho de onde não voltarão.
Provavelmente a pedra também servia como lápide, com alguma inscrição gravada. Os gregos a chamavam de memorial, porque é ao mesmo tempo lembrança dos mortos e advertência para os vivos, recordando-nos daquilo que todos precisamos ter em mente. Os latinos a chamavam de monumento, a partir de uma palavra que significa “advertir”, porque traz uma advertência.
Então é dada a ordem para tirar a pedra (João 11:39). Jesus quis que a pedra fosse removida para que todos os presentes pudessem ver que o corpo estava realmente morto no túmulo, e também para que houvesse espaço para que saísse. Ele quis deixar claro que se tratava de um corpo real, não de um fantasma ou espírito. Mandou que alguns servos removessem a pedra, para que fossem testemunhas, inclusive pelo cheiro de decomposição, de que o homem estava de fato morto.
Isso também é uma boa figura de uma alma sendo ressuscitada para a vida espiritual. Tudo começa quando a pedra é tirada, quando o preconceito é removido e se abre espaço para que a palavra alcance o coração e ali opere.
Cristo apresenta este milagre como resposta à oração por dois motivos. Primeiro, para se humilhar. Embora fosse Filho, aprendeu obediência pedindo e recebendo. Sua coroa mediadora, isto é, sua autoridade como aquele que se põe entre Deus e os homens, lhe foi conferida em resposta a pedido, ainda que lhe pertencesse de pleno direito (Salmo 2:8; João 17:5). Ele orou pela glória que tinha antes que o mundo existisse, embora nunca a tivesse perdido e pudesse reivindicá-la por direito. Segundo, ele quis honrar a oração, fazendo dela a chave que abre até os tesouros do poder e da graça de Deus. Assim, nos ensina a entrar na presença de Deus pela oração, exercendo uma fé viva ao entrarmos no lugar santo.
Certo de que sua oração fora atendida, Cristo expressou sua aceitação agradecida dessa resposta: “Graças te dou por me haveres ouvido”. O milagre ainda não tinha acontecido, mas a oração já tinha sido respondida, e ele celebrou antes da vitória. Ninguém mais pode reivindicar a mesma certeza que Cristo. Ainda assim, pela fé na promessa de Deus, também podemos olhar para a misericórdia antes que ela chegue, regozijar-nos nessa esperança e agradecer a Deus por ela. Nas orações de Davi, o mesmo salmo que começa com um pedido de misericórdia muitas vezes termina com ações de graças por ela. As misericórdias concedidas em resposta à oração devem ser especialmente lembradas com gratidão. E, além do dom em si, devemos considerar como grande bondade o fato de Deus ter dado atenção às nossas pobres orações. Quando enxergarmos os primeiros sinais de resposta, devemos recebê-los com ações de graças antecipadas.
Assim como Deus nos responde com misericórdia antes que o chamemos e enquanto ainda estamos falando, também devemos responder-lhe com louvor antes mesmo que ele conceda o pedido. Devemos agradecê-lo enquanto ele ainda fala palavras boas e consoladoras.
Cristo também mostrou calma confiança de que o Pai o atenderia em qualquer tempo (João 11:42): “Eu bem sei que sempre me ouves”. Ninguém deve pensar que isso foi um favor especial concedido apenas naquele momento, que jamais se repetiria. Ele tinha consigo o mesmo poder divino em toda a sua obra, e nada fazia senão o que sabia estar de acordo com a vontade de Deus. “Eu dei graças”, ele diz, “por ser ouvido neste caso, porque tenho certeza de ser ouvido em todas as coisas.”
Observe aqui a honra que nosso Senhor Jesus tinha no céu. O Pai sempre o ouvia. Ele tinha acesso ao Pai em todas as ocasiões e sempre obtinha êxito naquilo que apresentava diante dele. Podemos ter certeza de que sua aceitação diante do Pai não é menor agora que está no céu. Isso deve nos encorajar a depender de sua intercessão, de sua palavra junto ao Pai por nós, e a colocar todas as nossas orações em suas mãos, porque o Pai sempre o ouve.
Observe também a confiança que ele tinha nessa posição. “Eu sabia”, diz ele. Não hesitou nem duvidou em nada. Estava plenamente satisfeito em seu íntimo de que o Pai nele se comprazia e cooperava com ele em tudo. Nós não podemos ter essa mesma certeza pessoal que ele tinha. Mas sabemos isto: que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve (1 João 5:14, 1 João 5:15).
Por que Cristo fez essa declaração pública antes de realizar o milagre? Ele mesmo diz que foi por causa da multidão que estava ao redor, para que cressem que o Pai o enviara. A oração pode pregar.
Primeiro, ela respondia às objeções e calúnias de seus inimigos. Os fariseus e os que os seguiam, perversamente, diziam que ele fazia milagres por acordo com o diabo. Para mostrar o contrário, ele se dirige a Deus em público. Usou a oração, e não encantamentos mágicos, nem murmurações secretas como as dos que tratavam com espíritos malignos (Isaías 8:19). Levantou os olhos e a voz em público, manifestando sua ligação com o céu e sua dependência do céu.
Segundo, fortaleceu a fé dos que lhe eram favoráveis, para que cressem que o Pai o enviara, não para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los. Moisés mostrou que Deus o enviara fazendo a terra abrir a boca para engolir homens (Números 16:31). Elias mostrou que Deus o enviara chamando fogo do céu para consumir homens. A lei era caminho de temor e morte, mas Cristo comprovou sua missão ressuscitando um morto.
Alguns entendem que, se Cristo tivesse dito abertamente que o fazia por seu próprio poder, alguns discípulos fracos, que ainda não compreendiam sua natureza divina, poderiam achar que ele reivindicava demais e se escandalizar. Esses “pequeninos” ainda não podiam suportar um ensino tão forte; por isso, ele fala de seu poder como recebido e concedido a ele. Falou de si de forma humilde para poder falar mais claramente a nós. “Ele não considerou tanto sua própria dignidade quanto a nossa salvação”, como observa Jansênio.
Em seguida, voltou-se para o amigo morto no túmulo. Clamou em alta voz: “Lázaro, sai para fora”.
Ele poderia ter ressuscitado Lázaro por um ato silencioso de poder, pela operação invisível do Espírito de vida. Em vez disso, chamou-o em alta voz. Assim mostrou o poder então em ação ao ressuscitar Lázaro, como quem traz à existência algo novo. Ele falou, e assim se fez. Gritou para mostrar quão grande era a obra e quão grande o poder que a realizava. Era como se se despertasse para atacar as portas da morte, como soldados que levantam um brado ao entrar em batalha.
Era adequado clamar ao falar com Lázaro. Primeiro, a alma de Lázaro, que devia ser chamada de volta, estava longe. Não estava, como imaginavam os judeus, pairando perto do túmulo, mas tinha ido ao Hades, o mundo dos espíritos. É natural falar alto quando se chama alguém que está distante. Segundo, o corpo de Lázaro, que devia ser levantado, estava como alguém dormindo, e costumamos falar alto quando queremos acordar alguém.
Ele clamou com grande voz para que se cumprisse a Escritura (Isaías 45:19): “Não falei em segredo, nem em lugar algum de trevas da terra”. Isso também apontava para outras obras maravilhosas, especialmente outras ressurreições que Cristo realizaria. Esse forte brado era uma figura do chamado do evangelho, pelo qual almas mortas são tiradas do sepulcro do pecado. Cristo já havia falado dessa ressurreição (João 5:25) e de sua palavra como meio dela (João 6:63), e agora dá uma amostra disso.
Pela sua palavra ele diz às almas: “Vive”, sim, diz: “Vive” (Ezequiel 16:6). “Desperta dentre os mortos” (Efésios 5:14). O Espírito de vida vindo de Deus entrou nos ossos secos quando Ezequiel profetizou sobre eles (Ezequiel 37:10). Aqueles que usam as ordens da Palavra, que dizem “convertei-vos e vivei”, para provar que o homem tem, por si mesmo, poder para se converter e se renovar, poderiam, com a mesma lógica, usar esse chamado a Lázaro para provar que Lázaro tinha poder para se ressuscitar.
Esse brado também aponta para o som da trombeta do arcanjo no último dia, quando os que dormem no pó despertarão e serão trazidos diante do grande tribunal. Então Cristo descerá com alarido, com uma ordem semelhante a esta: “Vinde” (Salmo 50:4). Ele chamará aos céus pelas almas e à terra pelos corpos, para julgar seu povo.
Esse chamado forte foi breve, mas poderoso em Deus para derrubar as fortes muralhas da sepultura. Chamou Lázaro pelo nome, “Lázaro”, como chamamos pelo nome aqueles que queremos acordar de um sono profundo. Deus disse a Moisés, como sinal de favor: “Te conheço por nome”. Mencionar o nome mostra que a mesma pessoa que morreu ressuscitará no último dia. Aquele que conta as estrelas e as chama pelo nome também pode distinguir, pelo nome, suas estrelas que jazem no pó da terra, sem perder nenhuma delas.
Chamou Lázaro para fora do túmulo, falando com ele como se já estivesse vivo e só precisasse sair. Ele não disse: “Vive”, porque é ele mesmo quem deve dar vida. Em essência, disse: “Move-te”, pois, quando vivemos espiritualmente pela graça de Cristo, devemos nos mover. O túmulo do pecado e este mundo não são lugar para aqueles a quem Cristo vivificou; por isso, eles devem sair para fora.
O resultado foi exatamente o que ele pretendia: “Saiu o que estivera morto” (João 11:44). Poder acompanhou a palavra de Cristo para reunir novamente a alma e o corpo de Lázaro, e então ele saiu. O milagre não é descrito por sua causa oculta, para satisfazer nossa curiosidade, mas por seu resultado visível, para fortalecer nossa fé.
Alguns perguntam onde estava a alma de Lázaro durante os quatro dias após a morte. A Escritura não nos diz. Ainda assim, há boa razão para supor que estivesse no paraíso, em gozo e bem-aventurança. Pode-se perguntar se não foi falta de bondade trazê-lo de volta ao corpo, que pode parecer uma prisão. Mas, se foi, ainda assim não houve injustiça para com ele, porque isso foi feito para a honra de Cristo e para o bem do seu reino, assim como não foi perda para Paulo permanecer na carne, quando sabia que partir e estar com Cristo era muito melhor.
Se alguém perguntar se Lázaro, depois de ser ressuscitado, poderia descrever o que aconteceu quando sua alma saiu e voltou ao corpo, ou relatar o que viu no outro mundo, a resposta mais provável é que ambas as mudanças estavam além da própria compreensão dele. Teria de falar como Paulo, dizendo que não podia afirmar se estava no corpo ou fora do corpo, e que o que viu e ouviu não era permitido, nem possível, de ser expresso em palavras. Neste mundo, governado pelos sentidos, não conseguimos formar ideias claras sobre o mundo dos espíritos, muito menos transmiti-las a outros. Portanto, não devemos tentar ser mais sábios do que aquilo que está escrito. Tudo o que a Escritura declara sobre a ressurreição de Lázaro é isto: o morto saiu para fora.
Alguns observam que, embora a Escritura relate muitas pessoas que foram ressuscitadas e que, sem dúvida, voltaram a conviver com os demais, não registra uma única palavra dita por qualquer delas, exceto pelo próprio Senhor Jesus. Esse milagre foi realizado de modo repentino. Nada se interpôs entre a ordem de Cristo, “Vem para fora”, e o resultado. Falou-se e, ao mesmo tempo, cumpriu-se. Assim também será na ressurreição, num momento, num abrir e fechar de olhos (1 Coríntios 15:52). O Todo-Poderoso pode fazê-lo instantaneamente. Então ele chamará, e Deus responderá, como Lázaro respondeu ao chamado: “Eis-me aqui”.
O milagre também foi perfeito. Lázaro foi tão plenamente restaurado que se levantou do túmulo com a mesma firmeza com que antes se levantava de sua cama. Não foi ressuscitado apenas para um propósito passageiro, mas para voltar a viver como os outros homens vivem. Alguns ainda consideram parte do milagre o fato de ele ter saído ainda envolto nas ataduras funerárias, com mãos e pés amarrados, e o rosto coberto por um pano, conforme o costume de sepultamento judaico. Ele saiu com as mesmas vestes funerárias, para que todos vissem claramente que era de fato ele, e não outro homem, e para mostrar que não estava apenas vivo, mas forte o bastante para se mover, ainda vestido com aquelas faixas.
O pano sobre o rosto também provava que ele realmente havia morrido, pois, do contrário, o teria sufocado em menos de quatro dias. E, quando os que estavam ali o desataram, ao tocarem nele, veriam que era realmente Lázaro, e assim se tornariam testemunhas do milagre. Aqui aprendemos o quão pouco levamos quando deixamos este mundo: apenas um lençol mortuário e um caixão. Não há troca de roupas no túmulo, apenas um único traje fúnebre. Também aprendemos em que condição ficaremos ali. Que sabedoria pode haver quando os olhos estão cobertos? Que trabalho pode ser feito quando mãos e pés estão atados? Assim será no sepulcro, para onde todos nós estamos caminhando.
Quando Lázaro saiu, ainda enredado nas faixas da sepultura, certamente os que estavam junto ao túmulo se encheram de espanto e temor. Nós também ficaríamos, se víssemos um corpo morto se levantar. Mas Cristo, para tornar essa maravilha mais familiar, deu-lhes algo a fazer: “Desligai-o”. Tirem as roupas de sepultura, para que sirvam como roupas comuns até que ele chegue em casa. Então ele irá por si mesmo, vestido assim, sem precisar de guia ou ajudante. Assim como Enoque e Elias, no Antigo Testamento, foram sinais evidentes de uma vida invisível e futura — um na época dos patriarcas e o outro no tempo de Moisés —, a ressurreição de Lázaro, no Novo Testamento, foi destinada a confirmar o ensinamento sobre a ressurreição.
Deste capítulo
João 11:1
"Lázaro ficou doente em Betânia, onde estavam Maria e sua irmã Marta."
João 11:2
"Maria era aquela que havia ungido o Senhor com o óleo perfumado e enxugado os pés dele com os próprios cabelos. E Lázaro, que estava enfermo, era irmão dela."
João 11:3
"Por isso, suas irmãs mandaram dizer a Jesus: “Senhor, aquele que tu amas está enfermo”."
João 11:4
"Ao ouvir essas palavras, Jesus lhes disse: “Esta enfermidade não causará a morte, mas tem por finalidade a glória de Deus. Por meio dela, o Filho de Deus será glorificado”."
João 11:5
"Jesus amava Marta, Maria, sua irmã, e Lázaro."
João 11:6
"Mas, embora tivesse ouvido que ele estava enfermo, permaneceu ainda dois dias no mesmo lugar."
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