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Hebreus 10:19 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Bíblia BibleGuided — Português Brasileiro

" Por esse motivo, irmãos, temos ampla confiança de poder entrar no santuário eterno em virtude do sangue de Jesus, "

Hebreus 10:19

menu_book Versículo no contexto

17 acrescenta: de seus pecados e de suas iniquidades já não me lembrarei.

18 Ora, onde houve plena remissão dos pecados, não há por que oferecer sacrifício por eles.

19 Por esse motivo, irmãos, temos ampla confiança de poder entrar no santuário eterno em virtude do sangue de Jesus,

20 pelo caminho novo e vivo que nos abriu através do véu, isto é, o caminho de seu próprio corpo.

21 E, dado que temos um sumo sacerdote estabelecido sobre a casa de Deus,

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auto_stories Comentário Bible Guided

Aqui o apóstolo apresenta as honras e privilégios da vida segundo o evangelho. Os crentes precisam conhecer o que Cristo conquistou para eles, para que desfrutem o consolo disso e deem a Ele a glória. O primeiro privilégio é a ousadia de entrar no Santo dos Santos, isto é, o livre acesso a Deus. Eles recebem luz para guiá-los, liberdade de coração e de palavra para seguir essa luz, direito a esse privilégio, ajuda para usá-lo bem e confiança de que serão bem recebidos.

Eles podem entrar na presença graciosa de Deus por meio de sua santa Palavra, de suas ordenanças, de suas providências e de seu concerto. Assim desfrutam comunhão com Deus e recebem o que Ele lhes concede, até que estejam preparados para entrar em sua gloriosa presença no céu. Outro privilégio é terem um grande sumo sacerdote, Jesus, sobre a casa de Deus. Ele governa a igreja na terra e a igreja no céu. Deus se dispõe a habitar com pessoas na terra e a tê-las com Ele no céu, mas seres humanos caídos não podem viver com Deus sem um sumo sacerdote, o Mediador, aquele que traz reconciliação agora e pleno gozo de Deus no porvir.

O apóstolo então mostra como os cristãos entram nesses privilégios. Em termos gerais, é pelo sangue de Jesus, ou seja, pelo valor do seu sacrifício oferecido a Deus como sacrifício expiatório, um pagamento que afasta a culpa do pecado. Ele comprou, para todos os que creem, o livre acesso a Deus nos meios de graça agora e, depois, no reino de glória. Quando esse sangue é aspergido na consciência, afasta o temor servil e dá ao crente confiança de segurança e acolhimento na presença de Deus.

Ele passa a explicar esse caminho de acesso de forma mais completa. Primeiro, é o único caminho. O primeiro acesso à árvore da vida há muito foi fechado. Segundo, é um caminho novo, em contraste tanto com o concerto de obras, que coloca a obediência como caminho para a vida, quanto com o antigo sistema do Antigo Testamento. É o caminho final que jamais será aberto à humanidade, e os que o recusam fecham-se para sempre. É um caminho que sempre funciona.

Terceiro, é um caminho vivo. Tentar chegar a Deus pelo concerto de obras significaria morte, mas por esse caminho podemos chegar a Deus e viver. Ele é aberto por um Salvador vivo, que esteve morto e agora vive. Também é um caminho que comunica vida e uma viva esperança a todos os que entram por ele. Quarto, é um caminho que Cristo nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne. O véu do tabernáculo e do templo apontava para o corpo de Cristo. Quando Ele morreu, o véu do templo se rasgou, e isso aconteceu na hora do sacrifício da tarde. Deu ao povo uma visão impressionante do Santo dos Santos, algo que nunca tinham tido. Nosso caminho para o céu passa por um Salvador crucificado, e a sua morte é o nosso caminho para a vida.

Por serem tão grandes esses privilégios, os hebreus ficam obrigados a certos deveres. Primeiro, precisam chegar-se a Deus, e fazê-lo da maneira correta. Sendo que um caminho de volta para Deus foi aberto, seria grande ingratidão e desprezo a Deus e a Cristo permanecer à distância. Devem chegar-se a Ele pela conversão e pela apropriação do seu concerto. Devem chegar-se em vida santa, como Enoque, que andou com Deus. Devem chegar-se em humilde adoração, prostrando-se diante do seu escabelo. Devem também chegar-se em confiança dependente e obediência cuidadosa à direção de Deus, buscando sempre comunhão mais estreita com Ele até habitarem em sua presença. No entanto, precisam ter certeza de que sua aproximação é feita da forma correta.

Devem vir com coração verdadeiro, sem engano ou hipocrisia consentidos. Deus sonda corações e deseja verdade no íntimo. A sinceridade é a perfeição do evangelho, embora não seja a justiça que justifica, isto é, não é a justiça que nos põe em plena retidão diante de Deus. Devem vir em plena certeza de fé, com confiança plenamente persuadida de que, quando chegam a Deus por meio de Cristo, serão ouvidos e aceitos. Devem afastar toda dúvida pecaminosa. Sem fé é impossível agradar a Deus, e quanto mais forte a nossa fé, mais glória damos a Ele.

Devem vir com os corações purificados de má consciência, pela aplicação, pela fé, do sangue de Cristo à alma. Assim podem ser limpos da culpa, da corrupção, do temor e tormento pecaminosos, da indisposição para com Deus e para com o dever, da ignorância, do erro, da superstição e de todo outro mal que o pecado traz sobre a consciência. Devem também vir com os corpos lavados com água limpa, significando ou o batismo, pelo qual somos assinalados como discípulos de Cristo e membros de seu corpo espiritual, ou a obra santificadora do Espírito Santo, que reforma a nossa vida exterior tanto quanto o nosso estado interior. Ele nos limpa da imundícia da carne e também do espírito. Os sacerdotes, debaixo da lei, tinham de lavar-se antes de entrar na presença do Senhor para oferecer sacrifícios. Assim também deve haver cuidadosa preparação quando nos aproximamos de Deus.

O apóstolo ainda exorta os crentes a conservarem firme a profissão da fé. Devem apegar-se a todas as verdades e caminhos do evangelho, segurá-los com firmeza e manter essa firmeza contra tentações e oposição. Inimigos espirituais tentarão arrancar de nossas mãos a fé, a esperança, a santidade e o consolo, mas precisamos guardar nossa religião como nosso maior tesouro. Devemos fazer isso sem vacilar, sem dúvida, sem argumentar contra a própria obediência e sem demorar sobre tentações de afastar-se de Cristo. Uma vez que essas grandes questões estejam resolvidas entre Deus e nossa alma, devemos permanecer firmes e inabaláveis.

A razão é clara: fiel é o que prometeu. Deus fez grandes e preciosas promessas aos crentes, e é verdadeiro em sua palavra. Nele não há falsidade nem inconstância, e em nós também não deveria haver. A fidelidade de Deus deve mover-nos à fidelidade. Precisamos confiar mais nas promessas que Ele nos faz do que nas promessas que fazemos a Ele, e pedir que Ele nos dê a graça de que necessitamos.

O apóstolo também apresenta meios para nos guardar de voltar atrás e para nos ajudar a permanecer fiéis e perseverantes. Ele menciona vários, começando por este: devemos considerar uns aos outros, a fim de nos estimularmos ao amor e às boas obras.

Os cristãos devem cuidar profundamente uns dos outros. Precisam considerar as necessidades, fraquezas e tentações uns dos outros, e fazê-lo com amor, não com espírito acusador. O objetivo é estimular mutuamente ao amor e às boas obras, a amar mais a Deus e a Cristo, a amar mais a santidade e a servir uns aos outros no corpo e na alma. Um bom exemplo é, muitas vezes, o meio mais forte e eficaz de encorajar ao amor e às boas ações.

Também não devem deixar de se congregar, como diz (Hebreus 10:25). Cristo quer que seus discípulos se reúnam, às vezes em encontros menores para conversa e oração, e também publicamente, para adoração e para ouvir o evangelho. Nos dias dos apóstolos, e em todas as épocas, as reuniões cristãs são necessárias para adorar e para edificar uns aos outros. Alguns, já naquele tempo, começavam a negligenciar essas reuniões, e isso era um passo em direção ao afastamento da fé. A comunhão dos crentes é grande ajuda e bênção, porque fortalece seus corações e suas mãos.

Os crentes também devem exortar-se mutuamente. Isso significa lembrar a si mesmos e uns aos outros do dever, advertir-se quanto ao pecado e ao perigo de afastar-se de Deus, e vigiar uns pelos outros com santo cuidado. Devem, com mansidão, trazer à memória falhas e corrupções, e manter uns aos outros despertos com santa seriedade. Feito no verdadeiro espírito do evangelho, esse é o melhor tipo de amizade, calorosa e fiel.

Devem ainda atentar para os tempos de provação que se aproximam e deixar que isso os mova a maior diligência: “tanto mais quanto vedes que se vai aproximando aquele Dia”. Os cristãos devem notar os sinais dos tempos que Deus já anunciou. Um dia terrível se aproximava para a nação judaica, quando sua cidade seria destruída e o povo seria rejeitado por haver rejeitado Cristo. Isso traria dispersão e muitas tentações para o remanescente escolhido, por isso o apóstolo os incentiva a reunir-se com mais fidelidade e a animar-se uns aos outros com mais plenitude, para estarem preparados. Também se aproxima um dia de prova para toda pessoa, o dia da morte, e devemos vigiar a sua chegada e deixar que isso nos torne mais cuidadosos e firmes no cumprimento do dever.

Depois de falar desses auxílios para manter os crentes firmes, o apóstolo, no final do capítulo, passa a exortar à perseverança e a advertir contra a apostasia, usando razões muito sérias, em (Hebreus 10:26-27) e seguintes. Ele começa tratando da natureza da apostasia, que é pecar deliberadamente depois de receber o conhecimento da verdade, pecar contra uma verdade que foi claramente mostrada. Esse versículo tem perturbado alguns crentes sinceros, que temeram que todo pecado voluntário depois de terem sido convencidos fosse o pecado sem perdão. Isso é um engano. O pecado descrito aqui é um afastamento total e definitivo de Cristo, quando pessoas, com vontade firmada, rejeitam Cristo, o único Salvador, resistem ao Espírito, o único que santifica, e rejeitam o evangelho, o único caminho de salvação e as únicas palavras de vida eterna. Fazem isso depois de conhecer, aceitar e professar a fé cristã, e continuam nisso teimosamente e com malícia. Esse é o grande pecado, semelhante ao pecado de presunção descrito em (Números 15:30-31), pelo qual a lei determinava que tais pessoas fossem eliminadas.

O apóstolo também aponta para o terrível juízo que segue tal apostasia. Para essas pessoas, já não resta mais sacrifício pelos pecados, não existe outro Cristo que possa vir salvá‑las. Elas rejeitaram o último refúgio e o único remédio. Sob a lei, alguns pecados não tinham sacrifícios estabelecidos, e ainda assim um pecador verdadeiramente arrependido podia olhar adiante para Cristo e ser salvo da ruína eterna. Mas, sob o evangelho, aqueles que recusam a Cristo e não querem ser salvos por ele não têm outro lugar para onde se voltar.

Para eles resta apenas uma certa expectação horrível de juízo (Hebreus 10:27). Alguns entendem que isso se refere à destruição da igreja e da nação judaicas, e isso está incluído, mas o texto também fala da destruição final que aguarda todos os apóstatas obstinados na morte e no juízo. Então o Juiz mostrará sua ira ardente contra eles, e esse fogo destruirá os inimigos de Deus. Serão entregues a um fogo devorador e a um tormento eterno. Às vezes, ainda em vida, Deus dá a grandes pecadores um prenúncio disso por meio de suas próprias consciências, de modo que vivem apavorados, esperando a punição e sentindo que não podem nem suportá‑la nem escapar dela.

O apóstolo então compara isso com o castigo previsto na lei de Moisés para aqueles que desprezavam essa lei, isto é, para os que pecavam presunçosamente e zombavam da autoridade, das advertências e do poder de Deus. Quando tais pessoas eram declaradas culpadas pela palavra de duas ou três testemunhas, eram mortas, e morriam sem misericórdia, ainda que apenas com uma morte temporal. Governantes sábios devem proteger a honra de seu governo e suas leis, punindo os transgressores deliberados, mas devem fazê‑lo somente quando as provas são firmes. Essa era a regra de Deus na lei de Moisés, e o apóstolo a usa para mostrar quão pior deve ser o juízo para os que se afastam de Cristo. A própria consciência deles pode julgar o quanto maior será seu castigo, à medida da grandeza de seu pecado.

Eles pisaram o Filho de Deus. Pisar um simples homem já é ultrajante; fazer isso a uma pessoa de honra é insuportável. Mas tratar assim o Filho de Deus é o insulto máximo. É pisar sua pessoa, negando que ele seja o Messias; é pisar sua autoridade e enfraquecer seu reino; é pisar seu povo, tratando‑o como lixo e como se não tivesse direito de existir no mundo. Que castigo poderia ser grande demais para pessoas assim?

Eles também consideraram o sangue da aliança, pelo qual Cristo foi santificado, como algo comum e impuro. Ou seja, trataram o sangue de Cristo, que comprou e selou a aliança, como se não tivesse nenhum valor santo. As palavras podem também se referir ao próprio apóstata, que tinha sido santificado, isto é, batizado e exteriormente introduzido na nova aliança, e admitido à Ceia do Senhor. Há um tipo de santificação da qual a pessoa pode participar e ainda assim cair. Alguém pode receber marcas exteriores de religião, dons e graças comuns, uma profissão de fé, uma forma de piedade, uma vida cheia de deveres religiosos e certos privilégios, e, mesmo assim, por fim, apostatar.

Pessoas que um dia pareciam valorizar muito o sangue de Cristo podem depois tratá‑lo como algo impuro, nada melhor do que o sangue de um criminoso. Mas esse sangue foi o resgate do mundo, e cada gota dele tem valor infinito.

Eles também desprezaram o Espírito da graça, isto é, o Espírito Santo, que é bondosamente dado aos homens e produz graça onde quer que opere. Esse Espírito deve ser atentamente observado e obedecido, mas eles o entristeceram, resistiram, extinguiram e até o insultaram. Isso é o grau máximo de maldade, e deixa o pecador em situação desesperadora, porque ele se recusa a permitir que a salvação do evangelho seja aplicada a ele.

O escritor então entrega o assunto à consciência de cada leitor. Ele apela para a razão comum e para o senso de justiça, perguntando se pecados tão graves não devem receber um castigo proporcional, um castigo mais duro do que a morte sem misericórdia. Mas o que poderia ser mais duro do que a morte sem misericórdia? A resposta é esta: morrer debaixo da misericórdia e da graça que a pessoa rejeitou. É terrível quando não apenas a justiça de Deus, mas também sua graça e misericórdia desprezadas, clamam por punição.

Essa advertência é reforçada pelo que a Escritura diz sobre a ira justa de Deus, sobre seu santo juízo contra o pecado. Deus disse: “A mim pertence a vingança”, como está no (Salmo 94:1). Os terrores do Senhor são conhecidos tanto pela revelação quanto pela razão. Sua justiça vingadora é uma parte gloriosa, embora terrível, do seu ser. Ela pertence a ele, e ele a executará sobre aqueles que desprezam sua graça. Ele tomará vingança por si mesmo, por seu Filho, por seu Espírito e por sua aliança, contra os que dele se afastam.

A outra citação vem de (Deuteronômio 32:36): “O Senhor julgará o seu povo”. Ele examinará e provará sua igreja visível, e descobrirá aqueles que apenas afirmam pertencer a ele. Ele separará o precioso do vil e punirá com grande severidade os pecadores em Sião. Assim, todo aquele que conhece o Deus que disse: “A mim pertence a vingança; eu recompensarei” precisa concordar com a conclusão do apóstolo em (Hebreus 10:31): “Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo”.

Os que conhecem a alegria que vem do favor de Deus também podem avaliar o poder e o terror de sua ira vingadora. A miséria eterna dos pecadores impenitentes e apóstatas é esta: cairão nas mãos do Deus vivo. Seu castigo virá do próprio Deus. Ele os tomará na mão de sua justiça e tratará com eles pessoalmente, e a maior miséria deles será o peso direto da ira divina sobre suas almas.

Quando Deus pune por meio de instrumentos humanos, o próprio instrumento atenua a força do golpe. Mas, quando ele pune com sua própria mão, o sofrimento é completo e sem medida. É isso que eles receberão da mão de Deus. Deitar‑se‑ão em tormento. Sua ruína virá da presença gloriosa e poderosa do Senhor. Quando fizerem sua amarga cama no inferno, verão que Deus está ali, e sua presença será seu terror e tormento mais profundo. E, como ele é o Deus vivo, vive para sempre e punirá para sempre.

O apóstolo então os exorta a prosseguir, lembrando‑os dos sofrimentos que já haviam suportado por amor a Cristo: “Lembrai‑vos, porém, dos dias anteriores, em que, depois de iluminados, suportastes grande combate de aflições” (Hebreus 10:32). Nos primeiros tempos do evangelho, irrompeu forte perseguição contra os cristãos, e os hebreus crentes participaram dela. Ele quer que se lembrem de quando sofreram, logo depois de terem sido iluminados, isto é, depois que Deus lhes deu luz espiritual, vivificou suas almas e os recebeu em seu favor e em sua aliança. Então, a terra e o inferno se uniram contra eles. Uma pessoa em estado natural está em trevas, e enquanto permanece ali, Satanás e o mundo pouco o perturbam. Mas um estado de graça é um estado de luz, por isso os poderes das trevas o atacam violentamente. Os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus hão de padecer perseguição.

Ele também quer que se lembrem do que sofreram. Suportaram grande combate de aflições, muitas e diferentes tribulações unidas contra eles. Foram afligidos em suas próprias pessoas, expostos como espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens (1 Coríntios 4:9). Foram feridos também em seus nomes e reputações, por meio de muitos vitupérios (Hebreus 10:33). Os cristãos devem se importar com seu bom nome, sobretudo porque a honra da religião está ligada a isso, o que torna a afronta um peso muito grave. Foram ainda afligidos em seus bens, pela perda de suas propriedades, por confisco, multas e prejuízos.

Eles também sofreram ao participar dos sofrimentos de outros irmãos. O espírito cristão é compassivo, não egoísta. Ele faz com que a dor de um cristão seja sentida como nossa própria dor e nos move a ter piedade, visitar, ajudar e defendê-lo. Os cristãos são um só corpo, guiados por um só Espírito, trabalhando em uma causa comum, pertencendo ao Deus que se aflige com todas as aflições do seu povo. Se um membro do corpo sofre, todos os outros sofrem com ele. O apóstolo lembra especialmente como eles haviam tomado parte em seus sofrimentos: “tivestes compaixão de mim nas minhas prisões” (Hebreus 10:34). Devemos lembrar com gratidão a bondade que irmãos em Cristo mostraram a nós em nossas próprias aflições.

Ele também destaca a maneira como eles suportaram tais provações. Deus os havia sustentado poderosamente naqueles primeiros conflitos. Eles suportaram o sofrimento com paciência e, mais do que isso, o aceitaram com alegria, recebendo-o de Deus como honra, considerando um privilégio sofrer afronta por causa do nome de Cristo. Deus pode fortalecer seu povo sofredor com todo poder no homem interior, de modo que suportem com paciência e longanimidade, e até com alegria (Colossenses 1:11).

O que os ajudou a suportar foi isto: sabiam dentro de si mesmos que tinham nos céus uma possessão melhor e permanente. A felicidade dos crentes no céu é substância real, algo de verdadeiro peso e valor. Tudo o que há aqui na terra é apenas sombra. Aquilo é melhor do que qualquer coisa que possam ter ou perder aqui, e dura para sempre. Seus inimigos jamais podem tirá-lo, como tiraram seus bens terrenos. Essa esperança futura compensará mais do que tudo o que perdem e sofrem agora. No céu terão uma vida melhor, uma herança melhor, liberdade melhor, companhia melhor, corações melhores, trabalho melhor, tudo melhor.

Os cristãos devem saber disso por si mesmos e sentir isso em seus próprios corações. O Espírito de Deus testifica com o espírito deles, e essa certeza interior os ajuda a permanecer firmes em qualquer luta ou sofrimento que enfrentem neste mundo.

O escritor então os exorta a prosseguir por causa da recompensa que espera todos os cristãos fiéis (Hebreus 10:35). Ele lhes diz: “Não rejeiteis, pois, a vossa confiança”, isto é, a santa coragem e ousadia. Já tinham sofrido muito por causa da fé, e haviam suportado bem esses sofrimentos; portanto, deviam manter firme a mesma confissão.

Ele reforça essa exortação lembrando que a santa confiança traz uma recompensa muito grande. Ela traz bênçãos presentes, como paz interior, alegria e muita da presença e do poder de Deus repousando sobre eles. E trará recompensa ainda maior na vida futura. A paciência também é necessária na vida presente (Hebreus 10:36). “Necessitais de paciência”, diz ele, porque, depois de fazerem a vontade de Deus, precisam esperar para alcançar a promessa, isto é, a recompensa prometida.

A maior parte da felicidade dos santos ainda é promessa. Primeiro precisam fazer a vontade de Deus, e depois esperar o tempo de Deus para cumprir o que prometeu. Precisam de paciência para viver até que Deus os chame para casa. É uma prova da paciência cristã ficar contente em continuar vivendo depois que a obra já foi feita, e esperar pela recompensa até que Deus esteja pronto para dá-la. Devemos ser servos que esperam em Deus quando já não podemos ser servos que trabalham para ele. Aqueles que já demonstraram muita paciência devem continuar a demonstrá-la até a morte.

Para ajudá-los a esperar, ele os lembra de que a vinda de Cristo está próxima, tanto para livrá-los quanto para recompensá-los (Hebreus 10:37). “Porque ainda um pouquinho de tempo”, diz ele, “e o que há de vir virá, e não tardará.” Cristo em breve virá para eles na morte, por fim a todos os seus sofrimentos e lhes dará a coroa da vida. Em breve também virá em juízo, por fim aos sofrimentos de toda a igreja, de todo o seu corpo místico, e lhes concederá plena e gloriosa recompensa diante de todos. Há um tempo determinado para ambas as coisas, e ele não demorará além desse tempo (Habacuque 2:3). A luta presente do cristão pode ser intensa, mas logo terá fim.

Ele também os estimula à perseverança mostrando que ela é a marca dos verdadeiros crentes e o caminho para a felicidade, enquanto o retroceder é a vergonha e a ruína dos que assim procedem (Hebreus 10:38, Hebreus 10:39). “O justo viverá da fé” significa que, nos tempos mais difíceis, crentes sinceros podem continuar vivendo confiando nas promessas de Deus. A fé lhes dá vida e força. Eles podem apoiar-se em Deus, viver de Deus e esperar o seu tempo. E, assim como a fé sustenta agora sua vida espiritual, será coroada mais tarde com a vida eterna.

Afastar-se de Deus é marca daqueles em quem Deus não tem prazer, e acarreta o seu severo desagrado. Deus nunca se agradou de mera profissão vazia e religião apenas exterior em pessoas que não perseveram na fé. Ele via a hipocrisia em seus corações o tempo todo e se ofende grandemente quando a religião exterior termina em aberta rebelião contra ele.

O apóstolo conclui com uma palavra de esperança sobre si mesmo e sobre aqueles hebreus. Ele confia que eles não perderão o caráter e a felicidade dos justos, caindo na vergonha e na miséria dos ímpios (Hebreus 10:39). Em essência, ele diz: “Espero que não sejamos dos que retrocedem. Espero que vocês e eu, que já enfrentamos grandes provações e fomos sustentados pela graça de Deus, não sejamos deixados a nós mesmos, para recuar para a perdição. Antes, que Deus nos guarde pelo seu grande poder, mediante a fé, para a salvação.”

Pessoas que professam fé podem avançar bastante e, ainda assim, no fim, voltar atrás. Retroceder em relação a Deus é caminhar em direção à destruição, pois quanto mais nos afastamos dele, mais nos aproximamos da ruína. Mas aqueles que permaneceram fiéis em grandes provações no passado têm fortes motivos para esperar que a mesma graça continue suficiente para ajudá-los a viver pela fé até que recebam o fim da fé e da paciência: a salvação de suas almas. Se vivermos pela fé e morrermos na fé, nossas almas estarão seguras para sempre.

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