1 Samuel 26:1
" E vieram os zifeus a Saul, a Gibeá, dizendo: Não está Davi escondido no outeiro de Haquilá, defronte de Jesimom? "
Entenda os temas principais e aplique 1 Samuel 26 na sua vida hoje
25 versiculos | Almeida Corrigida Fiel
Davi recusa a vingança e não permite que Abisai mate Saul, reconhecendo que Saul, apesar de injusto, ainda é o ungido do Senhor. Davi espera que o próprio Deus trate com Saul no tempo certo.
Davi declara que o Senhor é quem ferirá Saul, ou em sua morte natural, ou na batalha. Ele confia que Deus retribuirá a cada um segundo sua justiça e lealdade, em vez de tomar a justiça pelas próprias mãos.
Davi expõe que não há maldade em suas mãos e que está sendo perseguido injustamente, como se fosse uma pulga ou uma perdiz nos montes. Ele lamenta ser afastado da herança do Senhor pelo ódio humano.
Saul confessa novamente seu pecado, reconhece que Davi o tratou com misericórdia, declara ter agido loucamente e pronuncia bênção sobre Davi. Contudo, o contexto mais amplo mostra que seu arrependimento é frágil e oscilante.
O profundo sono que cai sobre o acampamento de Saul vem da parte do Senhor, permitindo que Davi entre e saia sem ser visto. Mesmo em circunstâncias de perseguição, a narrativa mostra Deus governando cada detalhe.
1 Samuel 26 se passa durante o período em que Davi ainda não havia assumido o trono de Israel, embora já tivesse sido ungido por Samuel (1 Sm 16). Saul continua a reinar oficialmente, mas seu coração se afasta cada vez mais do Senhor, demonstrando ciúme e temor de Davi. O local da narrativa é o deserto de Zife, na região montanhosa de Judá, onde tribos locais, como os zifeus, se alinham politicamente com Saul e o informam sobre os movimentos de Davi.
O contexto militar mostra Saul com três mil homens escolhidos, uma força de elite para caçar um grupo relativamente pequeno de seguidores leais a Davi. Abner, primo de Saul, é o comandante do exército e figura central na estrutura de poder do rei. O acampamento de Saul, com o rei deitado no centro e os soldados ao redor, reflete a prática militar de proteger a figura real.
Nesta fase da história de Israel, não há ainda uma capital consolidada como Jerusalém sob Davi; Gibeá é o centro do governo de Saul. A expressão “ungido do Senhor” indica uma compreensão teocrática do reinado: o rei é escolhido e separado por Deus, o que torna um atentado contra sua vida algo gravíssimo, mesmo quando ele age de modo injusto. O capítulo também ecoa um episódio anterior muito parecido em 1 Samuel 24, mostrando a persistência do conflito e a constância da postura de Davi.
O capítulo apresenta uma narrativa bem estruturada, com paralelos claros com 1 Samuel 24:
Denúncia e perseguição (vv. 1-4):
Reconhecimento do acampamento e planejamento (vv. 5-7):
Tentação da vingança e recusa de Davi (vv. 8-12):
Confronto público à distância (vv. 13-16):
Diálogo entre Davi e Saul (vv. 17-20):
Confissão de Saul e resposta de Davi (vv. 21-24):
Bênção final e despedida (v. 25):
1 Samuel 26 aprofunda o retrato de Davi como um rei segundo o coração de Deus, em contraste com Saul. Teologicamente, o respeito de Davi ao “ungido do Senhor” ressalta a convicção de que a autoridade vem de Deus e que é Ele quem exalta e abate, no seu tempo e modo. A recusa de Davi em matar Saul não é mera covardia ou cálculo político; é um ato de fé na justiça divina.
O capítulo também enfatiza a soberania de Deus. O sono profundo que cai sobre o exército de Saul não é um acaso, mas uma ação deliberada do Senhor, que protege Davi e, ao mesmo tempo, cria uma situação de teste. A cena reforça a ideia de que Deus governa até os detalhes aparentemente naturais para cumprir seus propósitos.
A justiça de Deus aparece tanto na boca de Davi quanto na confissão de Saul. Davi declara que o Senhor pagará a cada um segundo justiça e lealdade (v. 23), e espera ser preservado por Deus (v. 24). Saul, por sua vez, reconhece que agiu loucamente e confessa seu pecado. Ainda que seu arrependimento seja instável, a narrativa mostra que ninguém pode se opor ao propósito de Deus sem ser confrontado.
Há também uma dimensão de sofrimento do justo. Davi é inocente, mas perseguido, afastado da herança do Senhor e tratado como um inimigo. Esse padrão antecipa a experiência de outros servos fiéis nas Escrituras, inclusive o Messias, que sofrem injustamente e confiam que Deus julgará com retidão. A resposta de Davi, marcada por misericórdia em vez de vingança, aponta para um ideal ético e espiritual que encontra plenitude em Cristo, que abençoa os que o perseguem.
Este capítulo oferece um retrato rico de alguém que vive sob pressão injusta sem se deixar consumir pela amargura. Davi sofre perseguição, calúnia e ameaça constante de morte, mas escolhe uma postura interna alinhada com Deus: recusa a vingança, nomeia sua dor, afirma sua inocência e entrega o julgamento definitivo ao Senhor.
Em termos emocionais, o texto mostra a importância de reconhecer a injustiça sem negar a realidade da dor. Davi não minimiza o que está acontecendo; ele fala da loucura de Saul, da desproporção da perseguição e do afastamento da herança do Senhor. Ao mesmo tempo, não permite que a perseguição defina sua identidade nem determine suas ações.
Há também um elemento de limites saudáveis: embora Saul peça o retorno de Davi, ele não se aproxima; devolve a lança por um moço e segue seu caminho. Isso ilustra que perdão e misericórdia não exigem necessariamente a restauração imediata de confiança ou proximidade física quando não há segurança.
A confiança de Davi de que Deus vê, avalia e retribui oferece consolo para quem enfrenta injustiças prolongadas. O capítulo reforça a possibilidade de manter o coração sensível e íntegro, mesmo em ambientes hostis, apoiando-se na presença e na justiça de Deus.
1 Samuel 26 envolve temas sensíveis que podem acionar lembranças dolorosas em algumas pessoas:
Pessoas que viveram violência doméstica, perseguição, relacionamentos abusivos ou ambientes muito controladores podem se identificar com a tensão entre o poder de reagir e a escolha de não revidar. Em casos assim, é importante considerar apoio pastoral, psicológico ou comunitário adequado.
Este conteúdo bíblico é apresentado para reflexão espiritual geral e não substitui acompanhamento médico, psicológico ou psiquiátrico. Quem se percebe em sofrimento intenso, com pensamentos de autodestruição ou preso em situações de risco, precisa de ajuda profissional especializada e proteção imediata.
Confiar na justiça de Deus em vez de buscar vingança: Davi teve a oportunidade perfeita de eliminar seu perseguidor, mas escolheu não fazê-lo, deixando que Deus tratasse com Saul. Em situações de injustiça, a decisão de não revidar na mesma moeda pode abrir espaço para a ação de Deus e preservar a própria consciência.
Reconhecer a gravidade de tocar naquilo que Deus separou: A expressão “ungido do Senhor” lembra que Deus estabelece autoridades e papéis. Mesmo quando há falhas humanas, a postura de respeito e temor ao Senhor deve orientar como se lida com figuras de liderança, buscando correção e justiça da maneira certa, e não por meios violentos.
Nomear a injustiça sem negar o respeito: Davi fala com Saul chamando-o de “meu senhor e rei”, mas não esconde que está sendo perseguido sem motivo. Isso aponta para um equilíbrio entre respeito e verdade, importante em contextos de conflito, especialmente com figuras de autoridade.
Praticar limites saudáveis mesmo após gestos de reconciliação: Davi poupa Saul, conversa com ele e ouve suas palavras de arrependimento, mas não volta para junto dele; segue seu caminho. Isso mostra que é possível perdoar, agir com misericórdia e, ao mesmo tempo, manter distância prudente quando a confiança foi repetidamente quebrada.
Lembrar que Deus vê e valoriza a vida: Davi faz questão de dizer que a vida de Saul foi preciosa aos seus olhos e pede que sua própria vida seja preciosa aos olhos do Senhor. Essa perspectiva fortalece a consciência do valor da vida humana, inclusive da própria vida e até da vida de quem erra.
Reconhecer a limitação do arrependimento apenas verbal: As palavras de Saul são fortes, mas a história mostra que ele não sustenta, a longo prazo, aquilo que declara. Isso convida a observar que arrependimento verdadeiro envolve mudança de atitude, não apenas pronunciar desculpas ou elogios.
Davi entendia que Saul ainda era o ungido do Senhor, ou seja, alguém que Deus havia colocado na posição de rei. Para Davi, tirar a vida de Saul seria assumir o papel de juiz final, algo que pertence a Deus. Ele afirma que o Senhor mesmo trataria com Saul, seja por morte natural, seja na batalha. Ao agir assim, Davi mostra reverência à autoridade de Deus sobre a história e recusa a vingança pessoal, guardando sua consciência diante do Senhor.
“Ungido do Senhor” se refere a alguém escolhido e separado por Deus para uma função específica, aqui o rei de Israel. A unção com óleo simbolizava essa escolha divina. Mesmo que Saul estivesse agindo de forma errada, Davi reconhecia que desafiar sua vida era, de certa forma, tocar em algo que Deus havia estabelecido. Por isso, ele rejeita qualquer ataque direto à pessoa de Saul, deixando ao Senhor a responsabilidade de removê-lo no tempo certo.
A lança e a bilha de água eram símbolos de autoridade e proteção de Saul. A lança, fincada à cabeceira, representava seu poder militar; a bilha de água, sua sobrevivência física em um ambiente desértico. Ao tomar ambos e depois mostrá-los à distância, Davi comprova que esteve perto o suficiente para matar Saul, mas escolheu poupá-lo. Esses objetos se tornam evidência concreta da inocência de Davi e da negligência de Abner ao guardar o rei.
Davi usa essas imagens para destacar a desproporção da perseguição de Saul. Uma pulga é algo insignificante, e uma perdiz nos montes é uma ave pequena, sem grande ameaça. Ao dizer que o rei de Israel saiu para caçar uma pulga ou uma perdiz, Davi mostra como é irracional gastar tantos recursos e poder real para perseguir alguém que não representa perigo real para o trono. É uma forma de ressaltar a injustiça e a loucura da situação.
Saul confessa seu pecado, admite que agiu loucamente, reconhece o valor de Davi e até o abençoa, o que indica certa consciência de culpa e admiração. Contudo, ao considerar o conjunto da narrativa de 1 Samuel, percebe-se que o arrependimento de Saul é instável e não se traduz em transformação duradoura. Suas emoções oscilam e ele volta a atitudes destrutivas em outros momentos. O capítulo mostra que palavras de arrependimento, por si só, não garantem mudança profunda.
1 Samuel 26 mostra um coração que sofre e, mesmo assim, não se endurece. Davi vive num ciclo de perseguição que parece não acabar: ele se esconde, é denunciado, corre risco de morte novamente. Ainda assim, quando vê Saul dormindo indefeso, não se deixa dominar pela raiva. Ele escolhe poupar a vida daquele que o persegue. Há um peso emocional nesse texto. Davi sente a dor de ser injustiçado, afastado da terra que representa a herança do Senhor, tratado como se fosse nada, uma simples pulga. Ele não finge que está tudo bem; expressa seu sofrimento e a desproporção da perseguição. Essa honestidade diante de Deus e diante de Saul é parte da sua saúde interior. Ao mesmo tempo, Davi guarda o coração. Ele se recusa a responder maldade com maldade, guarda espaço dentro de si para a misericórdia e deixa a justiça final nas mãos do Senhor. Isso o protege de se tornar parecido com o próprio perseguidor. O fato de ele tratar Saul com respeito, mesmo ferido, mostra um coração que ainda reconhece a obra de Deus na história, por mais confusa que pareça. Também chama a atenção a maneira como Davi lida com limites. Ele demonstra amor e misericórdia, mas não volta a viver perto de Saul. Ele devolve a lança por meio de um moço e cada um segue seu caminho. Há cuidado, há perdão implícito, mas também há proteção. Isso lembra que Deus não pede que corações feridos se exponham de novo a situações de risco para provar que perdoaram. Esse capítulo guarda a experiência de quem sofre sem ser compreendido, mas continua crendo que Deus enxerga e valoriza cada lágrima. Davi pede que sua vida seja preciosa aos olhos do Senhor. A história não nega a dor, mas a coloca dentro de um abraço maior: o de um Deus que vê, ouve e, no tempo certo, age.
Do ponto de vista exegético, 1 Samuel 26 é um texto profundamente elaborado, que ecoa e aprofunda o episódio de 1 Samuel 24. Muitos estudiosos percebem aqui um padrão de duplicação narrativa, típico da literatura antiga, com variações que acentuam pontos teológicos importantes. Ao invés de ser mera repetição, o capítulo reforça a constância de Davi e a instabilidade de Saul. A ambientação no deserto de Zife, com a participação dos zifeus, indica alianças políticas locais com o poder central de Saul. Eles funcionam como delatores de Davi, o que revela a dimensão social da perseguição. A estrutura do acampamento, com Saul no centro e soldados ao redor, serve para destacar a ousadia de Davi ao atravessá-lo à noite e, teologicamente, a impotência das defesas humanas diante da intervenção de Deus (o sono profundo vindo da parte do Senhor). O diálogo entre Davi e Abisai é chave. Abisai interpreta a situação como “Deus te entregou nas mãos o teu inimigo”, uma leitura pragmática da providência. Davi, porém, corrige essa interpretação e a submete a um princípio maior: não tocar no ungido do Senhor. Isso ensina que nem toda oportunidade aparente é, automaticamente, uma permissão divina para agir; é preciso avaliar à luz do caráter de Deus e de sua revelação. O título “ungido do Senhor” é teologicamente carregado. Ele faz ponte com a teologia da realeza em Israel e prepara o caminho para a compreensão messiânica posterior. Davi, já ungido por Samuel, respeita a unção presente em Saul até que Deus mesmo o remova, mostrando uma ética de espera e obediência que legitima sua própria futura realeza. Literariamente, o confronto com Abner acrescenta um elemento de crítica à elite militar de Saul. Abner é exposto como incapaz de guardar o rei, o que enfraquece a imagem do regime de Saul. Ao exibir a lança e a bilha de água, Davi oferece uma prova visual de sua inocência e da vulnerabilidade do sistema de Saul. O discurso de Davi a Saul (vv. 18-20) combina elementos jurídicos (afirmação de inocência), teológicos (se o Senhor incita, receba a oferta) e poéticos (imagens da pulga e da perdiz). A queixa de ser expulso da herança do Senhor, com a sugestão de “vai, serve a outros deuses”, é grave: significa que a perseguição de Saul empurra Davi para fora do espaço do culto legítimo, quase como se o expulsasse da comunhão do povo de Deus. A resposta de Saul, com confissão de pecado e bênção sobre Davi, encerra o episódio com uma tensão: há reconhecimento de que Davi prevalecerá, mas não há uma reconciliação política efetiva. A separação final dos caminhos dos dois personagens antecipa a inevitável transição de reino. O texto, assim, consolida a imagem de Davi como modelo de rei piedoso, que confia na justiça de Deus, enquanto o trono de Saul se mostra, progressivamente, esvaziado de legitimidade moral.
Do ponto de vista prático, 1 Samuel 26 fala diretamente sobre como lidar com injustiças, conflitos de poder e relações complicadas, especialmente quando envolvem pessoas em posição de autoridade ou afeto. Davi vive um cenário que mistura perigo real e confusão relacional: Saul é ao mesmo tempo rei e sogro, alguém que já o amou e agora o persegue. Ainda assim, Davi escolhe não ser guiado apenas por emoções do momento. Ele avalia a situação com clareza: entende o risco, enxerga a oportunidade de se livrar do perigo, mas decide não cruzar uma linha que, para ele, seria inegociável — tocar no ungido do Senhor. Isso inspira a pensar em limites para a própria reação perante injustiças. Há coisas que se pode fazer, mas que não se deve fazer. Davi demonstra domínio próprio e senso de responsabilidade diante de Deus, não apenas diante das circunstâncias. Ele protege sua integridade interior, mesmo podendo encerrar o problema de forma imediata e violenta. Outro ponto prático importante é o modo como Davi usa evidências para esclarecer a situação. Ao pegar a lança e a bilha de água, ele não só poupa a vida de Saul, como gera uma prova concreta de sua boa intenção. Isso mostra a importância de agir de modo que, mais tarde, se possa mostrar, com clareza, que se buscou o caminho correto, sem recorrer a meios torcidos. Davi também ensina algo sobre comunicação em conflitos. Ele fala com Saul com respeito, chama-o de “meu senhor e rei”, mas não esconde a verdade sobre a perseguição injusta. Não faz discursos agressivos, nem fica calado diante do erro. Expõe os fatos, fala de sua inocência, mostra a desproporção da caçada. É uma combinação de firmeza e honra. Além disso, a atitude de Davi em relação à proximidade física revela uma sabedoria importante em relacionamentos quebrados. Mesmo depois da confissão de Saul e de suas palavras afetuosas, Davi não volta a viver com ele. Ele mantém distância, devolve a lança por meio de outro e segue seu caminho. Isso sugere que reconciliação de coração e restauração de confiança são etapas diferentes; em contextos de repetido comportamento destrutivo, pode ser prudente manter limites objetivos, ainda que se deseje o bem da outra pessoa. Por fim, Davi coloca sua segurança última nas mãos do Senhor, não em estratégias humanas. Ele faz o que está ao seu alcance (vigia, planeja, conversa, confronta), mas conclui pedindo que sua vida seja preciosa aos olhos de Deus. É uma postura prática de quem faz a sua parte, sem assumir o papel de juiz final sobre a vida dos outros.
1 Samuel 26 ilumina o caminho da formação espiritual de alguém que vive entre uma promessa recebida e um cumprimento ainda distante. Davi já foi ungido para ser rei, mas continua fugindo, vivendo em desertos e cavernas, convivendo com perseguições e incertezas. Nesse intervalo, entre unção e trono, sua alma é moldada. O modo como Davi trata Saul revela muito sobre sua relação com Deus. Ele não vê sua vida como um projeto pessoal de ascensão, e sim como uma história diante do Senhor. Por isso, recusa-se a antecipar, por meios próprios, aquilo que Deus prometeu fazer. Ele sabe que Deus pode remover Saul no tempo certo: por morte natural, por enfermidade, por batalha. Sua confiança não está em oportunidades "perfeitas" de resolver os conflitos à sua maneira, mas na certeza de que o Senhor governa o tempo e o destino. Essa atitude de esperar em Deus, mesmo em meio à injustiça, é uma disciplina espiritual profunda. Treina o coração para depender, não apenas para receber respostas, mas para aceitar o modo e o momento em que elas virão. Ao dizer que o Senhor pagará a cada um segundo sua justiça e lealdade, Davi transfere a Deus a função de juiz supremo, liberando-se da necessidade de controlar todos os desfechos. Outro aspecto espiritual marcante é a forma como Davi enxerga sua própria vida: ele pede que sua vida seja preciosa aos olhos do Senhor. Isso significa ver-se não pela ótica da perseguição, nem pela grandeza futura do trono, mas pelo valor que Deus dá. Mesmo sendo tratado como "pulga" pelos outros, ele confia que, diante de Deus, sua existência tem peso, significado e cuidado. O texto também expõe a fragilidade de um arrependimento que não se aprofunda. Saul chora, admite erro, pronuncia bênçãos, mas sua história demonstra que não há transformação consistente. Isso contrasta com a jornada de Davi, que, em outros momentos de queda, mostra-se capaz de um arrependimento mais profundo e duradouro. Espiritualmente, o capítulo convida a distinguir entre emoções momentâneas e verdadeira conversão do coração. Em perspectiva mais ampla, o caminho de Davi antecipa o de Cristo, que também sofreu perseguição injusta, teve oportunidade de responder com poder, mas escolheu confiar-se àquele que julga com justiça. A recusa de Davi em levantar a mão contra o ungido prepara a compreensão do Ungido por excelência, que não revidou ultraje com ultraje, mas entregou sua causa ao Pai. Assim, 1 Samuel 26 convida a alma a viver com os olhos voltados para a fidelidade de Deus, suportando a demora aparente de suas promessas com confiança obediente.
" E vieram os zifeus a Saul, a Gibeá, dizendo: Não está Davi escondido no outeiro de Haquilá, defronte de Jesimom? "
" Então Saul se levantou e desceu ao deserto de Zife, e com ele três mil homens escolhidos de Israel, a buscar a Davi no deserto de Zife. "
" E acampou-se Saul no outeiro de Haquilá, que está defronte de Jesimom, junto ao caminho; porém Davi ficou no deserto, e viu que Saul vinha seguindo-o no deserto. "
" Pois Davi enviou espias, e soube que Saul tinha vindo. "
" E Davi se levantou, e foi ao lugar onde Saul se tinha acampado; viu Davi o lugar onde se tinha deitado Saul, e Abner, filho de Ner, capitão do seu exército; e Saul estava deitado dentro do lugar dos carros, e o povo estava acampado ao redor dele. "
" E dirigindo-se Davi a Aimeleque, o heteu, e a Abisai, filho de Zeruia, irmão de Joabe, disse: Quem descerá comigo a Saul ao arraial? E respondeu Abisai: Eu descerei contigo. "
" Foram, pois, Davi e Abisai de noite ao povo, e eis que Saul estava deitado dormindo dentro do lugar dos carros, e a sua lança estava fincada na terra à sua cabeceira; e Abner e o povo deitavam-se ao redor dele. "
" Então disse Abisai a Davi: Deus te entregou hoje nas mãos o teu inimigo; deixa-me, pois, agora encravá-lo com a lança de uma vez na terra, e não o ferirei segunda vez. "
" E disse Davi a Abisai: Nenhum dano lhe faças; porque quem estendeu a sua mão contra o ungido do Senhor, e ficou inocente? "
" Disse mais Davi: Vive o Senhor que o Senhor o ferirá, ou o seu dia chegará em que morra, ou descerá para a batalha e perecerá. "
" O Senhor me guarde, de que eu estenda a mão contra o ungido do Senhor; agora, porém, toma a lança que está à sua cabeceira e a bilha de água, e vamo-nos. "
" Tomou, pois, Davi a lança e a bilha de água, da cabeceira de Saul, e foram-se; e ninguém houve que o visse, nem que o advertisse, nem que acordasse; porque todos estavam dormindo, porque da parte do Senhor havia caído sobre eles um profundo sono. "
" E Davi, passando ao outro lado, pôs-se no cume do monte ao longe, de maneira que entre eles havia grande distância. "
" E Davi bradou ao povo, e a Abner, filho de Ner, dizendo: Não responderás, Abner? Então Abner respondeu e disse: Quem és tu, que bradas ao rei? "
" Então disse Davi a Abner: Porventura não és homem? E quem há em Israel como tu? Por que, pois, não guardaste o rei, teu senhor? Porque um do povo veio para destruir o rei, teu senhor. "
" Não é bom isso, que fizeste; vive o SENHOR, que sois dignos de morte, vós que não guardastes a vosso senhor, o ungido do SENHOR; vede, pois, agora onde está a lança do rei, e a bilha de água, que tinha à sua cabeceira. "
" Então conheceu Saul a voz de Davi, e disse: Não é esta a tua voz, meu filho Davi? E disse Davi: É minha voz, ó rei meu senhor. "
" Disse mais: Por que persegue o meu senhor tanto o seu servo? Que fiz eu? E que maldade se acha nas minhas mãos? "
" Ouve, pois, agora, te rogo, rei meu senhor, as palavras de teu servo: Se o SENHOR te incita contra mim, receba ele a oferta de alimentos; se, porém, são os filhos dos homens, malditos sejam perante o SENHOR; pois eles me têm expulsado hoje para que eu não tenha parte na herança do SENHOR, dizendo: Vai, serve a outros deuses. "
" Agora, pois, não se derrame o meu sangue na terra diante do Senhor; pois saiu o rei de Israel em busca de uma pulga, como quem persegue uma perdiz nos montes. "
" Então disse Saul: Pequei; volta, meu filho Davi, porque não tornarei a fazer-te mal; porque foi hoje preciosa a minha vida aos teus olhos; eis que procedi loucamente, e errei grandissimamente. "
" Davi então respondeu, e disse: Eis aqui a lança do rei; venha cá um dos moços, e leve-a. "
" O Senhor, porém, pague a cada um a sua justiça e a sua lealdade; pois o Senhor te entregou hoje na minha mão, porém não quis estender a minha mão contra o ungido do Senhor. "
" E eis que, assim como foi a tua vida hoje de tanta estima aos meus olhos, assim seja a minha vida de muita estima aos olhos do Senhor, e ele me livre de toda a tribulação. "
" Então Saul disse a Davi: Bendito sejas tu, meu filho Davi; pois grandes coisas farás e também prevalecerás. Então Davi se foi pelo seu caminho e Saul voltou para o seu lugar. "
Aviso importante: Esta orientacao biblica nao substitui cuidados profissionais de saude mental. Se voce estiver com sintomas de crise, entre em contato com o 988 (National Suicide Prevention Lifeline) ou procure ajuda profissional imediata.