1 Samuel 10:1
" Então tomou Samuel um vaso de azeite, e lho derramou sobre a cabeça, e beijou-o, e disse: Porventura não te ungiu o SENHOR por capitão sobre a sua herança? "
Entenda os temas principais e aplique 1 Samuel 10 na sua vida hoje
27 versiculos | Almeida Corrigida Fiel
Samuel unge Saul em obediência a Deus e, em seguida, descreve uma sequência de sinais específicos que se cumprem exatamente, confirmando que a escolha de Saul não vem de um capricho humano, mas do próprio Senhor. A unção, os encontros na estrada e a provisão de pães mostram que Deus conduz os detalhes e autentica o chamado.
Ao encontrar o grupo de profetas, o Espírito do Senhor se apodera de Saul, e ele passa a profetizar, tornando-se, nas palavras do texto, "outro homem". Essa experiência revela que a capacitação para liderar o povo de Deus não vem apenas de atributos naturais, mas de uma obra espiritual profunda realizada por Deus no coração.
Quando Samuel reúne o povo em Mizpá, ele relembra a ação salvadora de Deus no passado e denuncia que o pedido por um rei representa, na prática, uma rejeição ao Senhor como Rei. Mesmo assim, Deus concede um rei, ilustrando sua graça que atua em meio às escolhas problemáticas do povo.
Apesar de escolhido por Deus, Saul se esconde entre a bagagem quando é chamado publicamente, mostrando um misto de humildade e insegurança. Em contraste, alguns homens desprezam Saul e não o honram, revelando a resistência e o ceticismo que frequentemente cercam novos líderes.
Samuel apresenta ao povo o "direito do reino", registrando-o num livro perante o Senhor. A monarquia em Israel não é absoluta nem autônoma; ela deve submeter-se à vontade de Deus e à sua Lei. O rei é chamado a reinar debaixo da autoridade divina, segundo princípios claros.
1 Samuel 10 se situa no início da monarquia em Israel, por volta do final do período dos juízes. Até então, Israel era governado por líderes carismáticos levantados por Deus em momentos de crise. O povo, cansado de instabilidade e ameaças externas, pediu um rei "como todas as nações". A tribo de Benjamim, da qual Saul faz parte, havia passado por um trauma recente (cf. Juízes 19–21), quase sendo exterminada. Ver alguém de Benjamim ser elevado à realeza é, portanto, surpreendente do ponto de vista humano. Mizpá, onde o povo é reunido, já havia sido cenário de assembleias nacionais e decisões importantes. A referência à guarnição dos filisteus mostra que Israel ainda vivia sob forte pressão militar estrangeira. Os profetas que descem do alto, com instrumentos musicais, representam um movimento profético estruturado, ligado ao culto e à adoração, no qual o Espírito de Deus se manifesta de forma coletiva. Nesse contexto, a unção com azeite era um gesto solene que simbolizava separação para um ofício sagrado, marcando a pessoa como escolhida de Deus para uma tarefa específica, neste caso, reinar sobre "a sua herança", o povo de Israel.
O capítulo apresenta uma narrativa bem organizada, com movimentos claros:
Unção e sinais proféticos anunciados (vv. 1–8) – Samuel unge Saul com azeite, declara sua escolha divina e descreve, com detalhes, três situações específicas que Saul encontrará: a notícia sobre as jumentas, o encontro com homens que sobem a Betel com ofertas e, por fim, o encontro com o grupo de profetas. Cada evento serve como confirmação progressiva do chamado divino.
Cumprimento dos sinais e transformação de Saul (vv. 9–13) – Quando Saul se afasta de Samuel, Deus muda seu coração. Os sinais se cumprem, com destaque para a vinda do Espírito de Deus sobre Saul, que passa a profetizar, gerando espanto e um provérbio popular: "Está Saul também entre os profetas?".
Retorno de Saul e reserva sobre o chamado (vv. 14–16) – No diálogo com seu tio, Saul relata apenas a questão das jumentas encontradas e omite o assunto do reino. Esse detalhe literário sugere um misto de prudência, temor e talvez incapacidade de assimilar a dimensão de sua vocação.
Assembleia em Mizpá e repreensão divina (vv. 17–19) – Samuel convoca o povo perante o Senhor, relembra o cuidado de Deus desde o Egito e denuncia a rejeição ao reinado divino implícita no pedido por um rei.
Sorteio e apresentação pública de Saul (vv. 20–24) – Por meio de um sistema de seleção por tribos, famílias e indivíduo, Deus confirma publicamente Saul. O detalhe de ele estar escondido entre a bagagem acrescenta um toque dramático e irônico à narrativa. Ao ser trazido, sua estatura é notada e Samuel o apresenta como escolhido do Senhor, recebendo a aclamação popular.
Estabelecimento do "direito do reino" (v. 25) – Samuel codifica as diretrizes do reinado em um livro, colocado perante o Senhor, indicando que o poder real está submetido à aliança e ao testemunho divinos.
Retorno de Saul e reações ao novo rei (vv. 26–27) – Saul volta a Gibeá acompanhado de homens cujo coração Deus tocara, enquanto alguns filhos de Belial o desprezam e se recusam a honrá-lo. O capítulo termina com Saul optando por não revidar, "fazendo-se de surdo".
1 Samuel 10 oferece uma visão rica da interação entre a soberania de Deus, a responsabilidade humana e a dinâmica do chamado espiritual. A unção de Saul mostra que o verdadeiro fundamento de qualquer liderança sobre o povo de Deus é a iniciativa divina. O Senhor escolhe, unge e confirma, e não apenas responde às expectativas humanas.
A transformação de Saul em "outro homem" pela ação do Espírito do Senhor aponta para a necessidade de capacitação espiritual para a missão. As habilidades naturais, a aparência física ou a posição social não bastam; é o Espírito que torna alguém apto a servir de instrumento de Deus na história. Contudo, o livro de 1 Samuel mostrará mais adiante que essa capacitação precisa ser acompanhada de obediência perseverante.
A assembleia em Mizpá destaca a tensão teológica central: o povo pede um rei humano e, com isso, rejeita de certo modo o senhorio direto de Deus. Ainda assim, Deus atende ao pedido, não por ser fraco, mas para governar até mesmo por meio das escolhas ambíguas do povo. A monarquia israelita se torna, assim, um espaço no qual a fidelidade ou infidelidade do rei terá consequências profundas para toda a nação.
O registro do "direito do reino" sublinha que nenhum rei está acima da Lei de Deus. Há uma estrutura de aliança que delimita o exercício do poder, remetendo ao ideal de um rei servo, submisso à vontade do Senhor e responsável diante dEle e do povo.
Por fim, as reações contrastantes ao novo rei – corações tocados por Deus que o seguem, e filhos de Belial que o desprezam – ilustram a divisão espiritual diante da obra de Deus na liderança. A presença de apoio e oposição já no início do reinado de Saul antecipa o drama que acompanhará sua trajetória e mostra como o coração humano responde de maneiras muito diferentes à escolha de Deus.
Este capítulo oferece imagens fortes de identidade, vocação e transformação, úteis para reflexão terapêutica em contextos de crises pessoais e de liderança. A experiência de Saul aponta para o impacto emocional de ser chamado para algo maior do que se imagina suportar, incluindo sentimentos de insegurança, medo de exposição e tentativa de se esconder.
A mudança de coração operada por Deus mostra que processos de transformação interior nem sempre são visíveis externamente de imediato, mas podem ser profundos e reais, mesmo quando a pessoa ainda lida com dúvidas e inseguranças. A tensão entre o chamado divino e a resistência interna encontra eco em muitas experiências humanas, especialmente em momentos de transição de vida.
O contraste entre os homens cujo coração Deus tocou, que acompanham Saul, e os filhos de Belial que o desprezam, reflete dinâmicas comuns de aceitação e rejeição que cercam qualquer novo papel ou responsabilidade. Isso dialoga com temas de pertencimento, validação e crítica, bem como com a necessidade de aprender a lidar com desaprovação sem reagir impulsivamente.
Além disso, a lembrança de Samuel sobre o cuidado de Deus desde o Egito traz uma perspectiva de história de vida: olhar para trás e perceber livramentos, intervenções e cuidados anteriores pode trazer sentido e consolo em períodos de mudança, mostrando que a pessoa não está à mercê do acaso, mas inserida em uma narrativa maior de cuidado divino.
O capítulo toca em pontos sensíveis que podem acionar lembranças dolorosas em alguns leitores:
Insegurança e autoimagem distorcida: A atitude de Saul de se esconder entre a bagagem pode ecoar experiências de vergonha, sensação de inadequação ou medo de assumir responsabilidades, especialmente em quem sofreu humilhação ou críticas constantes.
Rejeição e desprezo: A reação dos filhos de Belial, que desprezam e desvalorizam Saul, pode reverberar lembranças de bullying, exclusão familiar ou rejeição em contextos de igreja e trabalho.
Conflito com figuras de autoridade espiritual: Ver um líder sendo criticado e questionado pode ser delicado para quem foi ferido por abusos espirituais ou conflitos com lideranças religiosas.
Culpa espiritual: A fala de Samuel sobre a rejeição a Deus ao pedir um rei pode ser lida, sem o devido cuidado, como reforço de sentimentos de culpa excessiva em pessoas acostumadas a se sentir sempre em falta diante de Deus.
Em contextos de cuidado, é importante acolher essas possíveis reações com empatia, ajudar a diferenciar a narrativa bíblica das experiências pessoais e, quando necessário, encorajar a busca de apoio seguro e competente para elaborar histórias de rejeição, vergonha ou abuso.
1 Samuel 10 traz implicações práticas para vida pessoal, liderança e comunidade de fé:
Reconhecer o chamado e a soberania de Deus: A história de Saul incentiva a considerar que certos caminhos, oportunidades e responsabilidades podem ser mais do que mera coincidência. Mesmo quando o indivíduo se sente pequeno ou despreparado, pode haver um propósito maior em ação.
Valorizar a capacitação espiritual: A ênfase no Espírito do Senhor lembra que tarefas importantes, especialmente no serviço a Deus e ao próximo, não devem ser encaradas apenas com recursos humanos, mas com dependência espiritual, humildade e oração.
Lidar com inseguranças sem fugir: A imagem de Saul escondido entre a bagagem espelha a tendência de se refugiar para evitar exposição ou risco. Em vez de fugir, o texto inspira a encarar, passo a passo, os desafios que surgem, lembrando que Deus está presente nesse processo.
Responder à crítica com sobriedade: A postura de Saul diante do desprezo dos filhos de Belial – "ele se fez como surdo" – sugere a importância de não permitir que vozes de zombaria e desdém definam a identidade ou determinem as atitudes, escolhendo não revidar em impulsividade.
Entender limites do poder e da autoridade: O "direito do reino" registrado por Samuel mostra que qualquer forma de liderança deve ser exercida dentro de limites éticos e espirituais. Líderes não estão acima de regras; são responsáveis diante de Deus e das pessoas.
Memória do cuidado divino: Samuel relembra a libertação do Egito e outros livramentos, incentivando uma prática de lembrar intervenções de Deus no passado como forma de fortalecer a confiança no presente e no futuro.
A unção com azeite era um sinal visível de que alguém estava sendo separado e consagrado por Deus para uma função especial. Ao derramar azeite sobre a cabeça de Saul, Samuel estava declarando publicamente que o Senhor o havia escolhido como líder sobre sua herança, o povo de Israel. O gesto simboliza capacitação espiritual, autoridade delegada por Deus e início de uma nova etapa na vida de Saul e na história da nação.
Quando o texto afirma que Saul se tornaria "outro homem" e que Deus lhe mudou o coração, está falando de uma transformação interior ligada à ação do Espírito do Senhor. Trata-se de uma capacitação específica para o ofício de rei: nova disposição, coragem e sensibilidade espiritual para cumprir o chamado. Não significa perfeição moral imediata, mas uma mudança real de condição diante de Deus e uma nova orientação para a vida.
O texto não explica diretamente o motivo, mas o contexto sugere um misto de humildade, medo e insegurança diante da grandeza da responsabilidade. Saul sabia da unção e dos sinais, mas, na hora da exposição pública, preferiu se esconder. Essa atitude revela o impacto emocional do chamado e a dificuldade de alguns em aceitar o lugar que Deus lhes dá, especialmente quando envolve liderança e visibilidade.
Samuel declara que, ao pedir um rei, o povo rejeitou a Deus como seu Rei. Isso não significa que deixaram de crer em Deus, mas que passaram a depositar sua confiança principal em um líder humano, querendo ser como as outras nações. É uma forma de rejeição ao modo de governo que Deus tinha estabelecido. Mesmo assim, o Senhor continua agindo, concede um rei e permanece soberano sobre a história, mostrando tanto juízo quanto graça.
A expressão "filhos de Belial" é usada no Antigo Testamento para designar pessoas perversas, sem respeito a Deus, rebeldes e moralmente corruptas. No contexto de 1 Samuel 10, são indivíduos que desprezam a escolha de Saul, zombam de sua capacidade de livrar o povo e se recusam a honrá-lo com presentes. A reação deles ilustra a resistência que frequentemente surge contra líderes constituídos, mesmo quando a escolha vem de Deus.
1 Samuel 10 retrata com muita sensibilidade os abalos do coração quando a vida muda de forma inesperada. Saul sai de casa para buscar jumentas e, em pouco tempo, se vê ungido rei de Israel. O coração humano, diante de algo tão grande, costuma oscilar entre surpresa, medo, alegria e sensação de incapacidade, e esse capítulo deixa entrever tudo isso. A descrição de Deus mudando o coração de Saul e fazendo dele "outro homem" fala profundamente a respeito de quem vive sobrecarregado por inseguranças. Mesmo quando alguém se sente pequeno, invisível ou inadequado, o texto mostra um Deus que enxerga, chama pelo nome, toca o interior e dá um novo começo. A transformação não apaga a história anterior, mas a ressignifica: o filho de Quis, de uma tribo marcada por traumas, agora é conduzido a um lugar de honra pelo próprio Deus. É igualmente marcante ver Saul se escondendo entre a bagagem. Essa cena conversa com muitos sentimentos de medo de ser visto, de não querer decepcionar, de achar que não está à altura. O fato de Deus saber exatamente onde ele estava, chamá-lo para fora do esconderijo e colocá-lo no meio do povo lembra que nenhum lugar é tão distante que Deus não alcance nem tão escondido que Deus não veja. Aquele que chama também sustenta. Por outro lado, alguns corações próximos a Saul se voltam para acompanhá-lo; o texto diz que foram com ele "aqueles cujos corações Deus tocara". Existe consolo em perceber que Deus não apenas chama uma pessoa, mas também prepara gente ao redor para caminhar junto, apoiar e dividir o peso. Em contraste, os filhos de Belial o desprezam, e isso também é parte da experiência humana: nem todos acolhem, nem todos compreendem. O detalhe de Saul "fazer-se de surdo" sugere um cuidado com o coração: nem toda palavra dura precisa ser acolhida e guardada; há críticas que podem ser deixadas de lado para preservar a paz interior. O lembrete de Samuel sobre o cuidado de Deus desde o Egito oferece uma âncora afetiva: em meio às mudanças, à ansiedade e às ambivalências do coração, há uma história de cuidado que vem de longe. O Deus que acompanhou Israel na escravidão, no deserto e nas batalhas é o mesmo que acompanha corações confusos em épocas de transição. Essa memória de amor fiel pode servir como colo para quem se sente deslocado ou assustado com o que vem pela frente.
Do ponto de vista exegético e teológico, 1 Samuel 10 é um texto-chave para entender a teologia da monarquia em Israel. A perícope articula três elementos fundamentais: a instituição do rei por meio da unção, a confirmação profética por meio de sinais e a formalização jurídica do "direito do reino". A unção de Saul (v. 1) com um vaso de azeite indica sua instalação em um ofício sagrado. O termo usado para "ungir" está na base do conceito de "ungido" (messias), que se tornará teologicamente central. A pergunta retórica de Samuel – "Porventura não te ungiu o SENHOR por capitão sobre a sua herança?" – estabelece que a origem da autoridade régia é divina, e não meramente social ou militar. Os três sinais anunciados (vv. 2–7) têm função de autenticação profética. Cada encontro é cuidadosamente descrito, com detalhes concretos (quantidade de cabritos, pães, odre de vinho), reforçando o caráter preciso da palavra profética. O terceiro sinal, envolvendo os profetas e a vinda do Espírito, é teologicamente mais denso. Ele associa liderança régia e experiência carismática: o rei não é apenas um administrador, mas alguém sobre quem repousa o Espírito de Deus. A expressão "tornar-te-ás um outro homem" (v. 6) sugere uma reconfiguração da identidade vocacional de Saul. O relato do cumprimento dos sinais (vv. 9–13) explicita que "Deus lhe mudou o coração". Em literatura bíblica, coração diz respeito ao centro da pessoa – intelecto, vontade e afeto. Trata-se, portanto, de obra divina interna, anterior às grandes decisões políticas do reinado. O fenômeno de Saul profetizando entre os profetas gera o provérbio "Está também Saul entre os profetas?", que adquire valor proverbial para situações em que alguém assume um papel inesperado. A reunião em Mizpá (vv. 17–19) é teologicamente crítica. Samuel faz uma releitura histórica: Deus é apresentado como o verdadeiro rei que resgatou Israel do Egito e dos opressores. O pedido por um rei é, assim, qualificado como rejeição de Deus. Esse juízo não invalida a instituição da monarquia, mas a problematiza: o rei é, de certa forma, uma concessão divina à demanda popular, e não o ideal original. Isso estabelece a ambiguidade teológica que perpassará toda a história dos reis. O processo de escolha por sortes (vv. 20–21) reforça a soberania divina: embora a unção ocorra em contexto privado, o sorteio público confirma, diante da assembleia, aquilo que Deus já havia determinado. A hesitação de Saul (v. 22) contrasta com sua estatura física (v. 23), criando uma tensão literária entre aparência e disposição interior. Samuel, ao apresentá-lo, enfatiza a singularidade de Saul no povo e recebe a aclamação popular "Viva o rei!" (v. 24), marca literária de legitimação pública. O versículo 25, que relata o registro do "direito do reino" em um livro perante o Senhor, é decisivo para a compreensão da teologia política bíblica. Ele indica que a monarquia israelita é constitucional no sentido teológico: o rei se submete a normas estabelecidas por Deus, em continuidade com a Torá. Assim, o poder régio não é absoluto. Por fim, o contraste entre os homens cuja disposição Deus toca (v. 26) e os filhos de Belial que desprezam Saul (v. 27) manifesta as diferentes respostas humanas à ação divina na história. A narrativa, portanto, não apenas descreve um evento político, mas insere esse evento na trama maior da aliança, da soberania divina e da responsabilidade humana.
Lido sob uma ótica prática, 1 Samuel 10 oferece muitos insights para lidar com chamadas, responsabilidades e mudanças na vida diária. Saul começa o capítulo em uma tarefa comum – buscar jumentas – e termina reconhecido como rei. Às vezes, grandes viradas acontecem em meio à rotina, em trajetos aparentemente banais, e pedem ajustes internos importantes. Um ponto essencial é que Saul não se escolheu. Foi Deus quem o separou, e Samuel apenas confirmou isso. Em muitas situações da vida – promoção no trabalho, novas responsabilidades na família, liderança em comunidades – a pessoa não escolhe tudo o que lhe é colocado nas mãos, mas precisa aprender a responder. O texto mostra que Deus não apenas entrega a tarefa; Ele também acompanha com sinais de confirmação, provisão prática (como os pães recebidos no caminho) e capacitação espiritual. A reação de Saul à notícia da realeza é bastante humana: ele omite do tio o assunto do reino, guarda em silêncio o que ouviu de Samuel e se esconde quando chega a hora de ser apresentado. Isso ilustra a dificuldade de se ver no lugar que outros – e Deus – já enxergam. Na vida real, isso aparece em forma de autossabotagem, medo de se expor, insegurança diante de um cargo ou de uma nova fase na família. O capítulo sugere que é preciso tempo para que a identidade interna se alinhe com a nova posição. A postura de Samuel também é instrutiva. Ele não apenas unge Saul, mas orienta o que ele deve fazer, indica o caminho, estabelece prazos (os sete dias em Gilgal) e, depois, documenta o "direito do reino". Isso toca em aspectos práticos de liderança saudável: não basta atribuir função; é necessário esclarecer responsabilidades, limites, critérios e processos. Tanto líderes quanto liderados ganham com transparência e orientação clara. Outro ponto útil para a vida cotidiana é a forma como o texto trata o reconhecimento e a crítica. Alguns homens, cujo coração Deus tocou, se juntam a Saul e formam um núcleo de apoio. Outros, chamados de filhos de Belial, o desprezam e se recusam a honrá-lo. Qualquer pessoa em posição de liderança ou responsabilidade enfrentará algo parecido: haverá quem apoie e quem critique duramente. A reação de Saul – não responder, "fazer-se de surdo" – mostra autocontrole. Nem toda crítica merece resposta imediata. Saber quando falar e quando silenciar é um aspecto prático crucial para evitar conflitos desnecessários. Por fim, o lembrete de Samuel sobre a história de Deus com Israel ensina um princípio de tomada de decisão: avaliar o presente à luz do que já foi vivido. Em momentos de grande mudança – seja pessoal, profissional ou familiar – é sábio lembrar como Deus conduziu processos anteriores, o que deu errado quando se confiou apenas em soluções humanas e o que deu certo quando se seguiu princípios sólidos. Isso ajuda a não repetir ciclos de escolhas precipitadas e a caminhar com mais sobriedade em novos papéis.
Espiritualmente, 1 Samuel 10 revela uma cena de profunda significância: um homem comum é tomado pela mão de Deus e introduzido em um plano que ultrapassa qualquer expectativa natural. A unção de Saul como rei, os sinais minuciosamente cumpridos e a transformação operada pelo Espírito do Senhor mostram um Deus que chama, confirma e capacita para um propósito que se insere na história da salvação. A declaração de que Saul seria "outro homem" ilumina o mistério da vocação espiritual. Para além do contexto específico de Israel, o texto aponta para a realidade de que Deus é capaz de operar mudanças profundas no coração, não apenas para dar conforto, mas para ajustar a vida à missão que Ele tem. O chamado divino sempre vem acompanhado de uma obra interior que molda caráter, visão e disposição. Ao mesmo tempo, a repreensão de Samuel ao povo em Mizpá relembra que é possível buscar soluções legítimas e, ainda assim, deslocar a confiança primordial do lugar certo. O desejo de um rei não era, em si, proibido, mas se tornou um sinal de rejeição quando substituiu o próprio Deus como objeto de segurança. Isso toca questões de adoração: onde está, de fato, a confiança última – em estruturas, pessoas, sistemas, ou no Senhor que liberta e conduz? O registro do "direito do reino" diante do Senhor insinua um princípio espiritual profundo: toda forma de autoridade e poder na terra está, em última instância, sob a autoridade de Deus. Isso abre caminho, mais adiante, para a compreensão de um Rei perfeito, que cumpre a Lei de Deus em tudo e reina em justiça absoluta. A monarquia de Israel, com suas falhas e acertos, prepara o terreno para a expectativa de um reinado ideal, eterno, que não dependa de estatura física, carisma ou aprovação humana. Além disso, o contraste entre os corações tocados por Deus, que seguem Saul, e os filhos de Belial, que o desprezam, aponta para a divisão espiritual que acompanha a atuação de Deus na história. Onde Deus chama e levanta alguém, reações se polarizam. A resposta ao agir divino revela algo sobre o próprio coração: abertura ou dureza, humildade ou arrogância. Em última análise, o capítulo convida a contemplar a vida como parte de uma narrativa maior de governo divino. Aquele que tirou Israel do Egito continua dirigindo eventos, levantando e derrubando lideranças, e conduzindo a história em direção a um reino onde Deus será reconhecido plena e abertamente como Rei. A transformação de Saul antecipa, de forma imperfeita, a obra mais profunda que Deus realiza, séculos depois, ao transformar corações para viverem sob o senhorio do Rei perfeito, num reino que não terá fim.
" Então tomou Samuel um vaso de azeite, e lho derramou sobre a cabeça, e beijou-o, e disse: Porventura não te ungiu o SENHOR por capitão sobre a sua herança? "
" Apartando-te hoje de mim, acharás dois homens junto ao sepulcro de Raquel, no termo de Benjamim, em Zelza, os quais te dirão: Acharam-se as jumentas que foste buscar, e eis que já o teu pai deixou o negócio das jumentas, e anda aflito por causa de vós, dizendo: Que farei eu por meu filho? "
" E quando dali passares mais adiante, e chegares ao carvalho de Tabor, ali te encontrarão três homens, que vão subindo a Deus a Betel; um levando três cabritos, o outro três bolos de pão e o outro um odre de vinho. "
" E te perguntarão como estás, e te darão dois pães, que tomarás das suas mãos. "
" Então chegarás ao outeiro de Deus, onde está a guarnição dos filisteus; e há de ser que, entrando ali na cidade, encontrarás um grupo de profetas que descem do alto, e trazem diante de si saltérios, e tambores, e flautas, e harpas; e eles estarão profetizando. "
" E o Espírito do Senhor se apoderará de ti, e profetizarás com eles, e tornar-te-ás um outro homem. "
" E há de ser que, quando estes sinais te vierem, faze o que achar a tua mão, porque Deus é contigo. "
" Tu, porém, descerás antes de mim a Gilgal, e eis que eu descerei a ti, para sacrificar holocaustos, e para oferecer ofertas pacíficas; ali sete dias esperarás, até que eu venha a ti, e te declare o que hás de fazer. "
" Sucedeu, pois, que, virando ele as costas para partir de Samuel, Deus lhe mudou o coração em outro; e todos aqueles sinais aconteceram naquele mesmo dia. "
" E, chegando eles ao outeiro, eis que um grupo de profetas lhes saiu ao encontro; e o Espírito de Deus se apoderou dele, e profetizou no meio deles. "
" E aconteceu que, como todos os que antes o conheciam viram que ele profetizava com os profetas, então disse o povo, cada um ao seu companheiro: Que é o que sucedeu ao filho de Quis? Está também Saul entre os profetas? "
" Então um homem dali respondeu, e disse: Pois quem é o pai deles? Pelo que se tornou em provérbio: Está Saul também entre os profetas? "
" E, acabando de profetizar, foi ao alto. "
" E disse-lhe o tio de Saul, a ele e ao seu moço: Aonde fostes? E disse ele: A buscar as jumentas, e, vendo que não apareciam, fomos a Samuel. "
" Então disse o tio de Saul: Declara-me, peço-te, o que vos disse Samuel? "
" E disse Saul a seu tio: Declarou-nos, na verdade, que as jumentas foram encontradas. Porém o negócio do reino, de que Samuel falara, não lhe declarou. "
" Convocou, pois, Samuel o povo ao Senhor, em Mizpá. "
" E disse aos filhos de Israel: Assim disse o Senhor Deus de Israel: Eu fiz subir a Israel do Egito, e livrei-vos da mão dos egípcios e da mão de todos os reinos que vos oprimiam. "
" Mas vós tendes rejeitado hoje a vosso Deus, que vos livrou de todos os vossos males e trabalhos, e lhe tendes falado: Põe um rei sobre nós. Agora, pois, ponde-vos perante o Senhor, pelas vossas tribos e segundo os vossos milhares. "
" Tendo, pois, Samuel feito chegar todas as tribos, tomou-se a tribo de Benjamim. "
" E, fazendo chegar a tribo de Benjamim pelas suas famílias, tomou-se a família de Matri; e dela se tomou Saul, filho de Quis; e o buscaram, porém não se achou. "
" Então tornaram a perguntar ao Senhor se aquele homem ainda viria ali. E disse o Senhor: Eis que se escondeu entre a bagagem. "
" E correram, e o tomaram dali, e pôs-se no meio do povo; e era mais alto do que todo o povo desde o ombro para cima. "
" Então disse Samuel a todo o povo: Vedes já a quem o Senhor escolheu? Pois em todo o povo não há nenhum semelhante a ele. Então jubilou todo o povo, e disse: Viva o rei! "
" E declarou Samuel ao povo o direito do reino, e escreveu-o num livro, e pô-lo perante o Senhor; então despediu Samuel a todo o povo, cada um para sua casa. "
" E foi também Saul à sua casa, em Gibeá; e foram com ele do exército aqueles cujos corações Deus tocara. "
" Mas os filhos de Belial disseram: É este o que nos há de livrar? E o desprezaram, e não lhe trouxeram presentes; porém ele se fez como surdo. "
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