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Lucas 16:1 - Significado e aplicacao

Entenda como este versiculo fala com o que voce esta vivendo e como aplica-lo hoje

Traducao: Almeida Corrigida Fiel

" E dizia também aos seus discípulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo; e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens. "

Lucas 16:1

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1

E dizia também aos seus discípulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo; e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens.

2

E ele, chamando-o, disse-lhe: Que é isto que ouço de ti? Dá contas da tua mordomia, porque já não poderás ser mais meu mordomo.

3

E o mordomo disse consigo: Que farei, pois que o meu senhor me tira a mordomia? Cavar, não posso; de mendigar, tenho vergonha.

auto_stories Comentario Bible Guided

Podemos perder o sentido desta passagem se pensarmos que Cristo ensinou apenas para encher nossa mente de mistérios ou de pensamentos agradáveis sobre misericórdia. No evangelho, Deus revela essas verdades para nos mover à ação, especialmente a atos de bondade e generosidade para com os necessitados. Nosso Salvador insiste nisso lembrando que somos apenas mordomos, administradores dos diversos dons de Deus, e que muitas vezes temos sido infiéis. Tendo nós perdido o favor do nosso Senhor pelo mau uso daquilo que ele nos confiou, a verdadeira sabedoria manda refletir seriamente em como ainda podemos empregar bem os recursos que temos.

Não devemos forçar as parábolas além daquilo que elas foram dadas para ensinar. Esta não significa que alguém possa nos socorrer quando estivermos debaixo do desagrado do Senhor. Ela significa, de modo geral, que devemos usar o que temos em atos de adoração e caridade, para que, depois da morte e do sepulcro, encontremos os resultados disso com consolo. Se formos sábios, empregaremos nosso dinheiro com cuidado em piedade e boas obras para o nosso bem futuro e eterno, assim como as pessoas mundanas usam dinheiro para obter lucro terreno e resguardar seus interesses. Nesse sentido, devemos “fazer amigos” com os recursos que possuímos.

Na própria parábola, toda pessoa é apresentada como um mordomo daquilo que possui neste mundo. Tudo o que temos pertence a Deus. A nós cabe apenas o uso, e esse uso deve ser conforme a vontade do nosso grande Senhor e para a sua honra. Um rabino judeu comparou o mundo a uma casa, o céu ao seu telhado, as estrelas às suas luzes, e a terra com seus frutos a uma mesa posta para nós. Deus é o dono da casa, e o ser humano é o mordomo. Se o mordomo administra bem, alcança o favor de seu senhor. Se administra mal, é removido do seu posto.

Em primeiro lugar, vemos a desonestidade desse mordomo. Ele desperdiçou os bens do seu senhor, seja esbanjando, usando mal, seja permitindo que se perdessem por descuido. Por isso foi acusado diante de seu senhor (Lucas 16:1). Corremos o mesmo perigo. Não temos usado bem o que Deus nos confiou neste mundo, mas deturpamos o propósito dele para essas coisas. Portanto, se não queremos ser julgados por nosso Senhor, devemos julgar a nós mesmos agora.

Em segundo lugar, vemos sua remoção do cargo. Seu senhor o chamou e disse algo como: “Como é isto que ouço de ti? Eu esperava coisa melhor de você.” Ele fala como alguém que lamenta a decepção, mas que, mesmo assim, precisa dispensar o mordomo. Este não pode negar a acusação, portanto não há remédio: ele deve prestar contas e logo deixar o ofício (Lucas 16:2). Isso nos ensina que todos nós, em breve, seremos despedidos da nossa mordomia neste mundo. Não ficaremos para sempre com o que hoje desfrutamos. A morte virá e nos tirará a capacidade e as oportunidades de fazer o bem, e outros ocuparão o nosso lugar. Ensina também que essa dispensa na morte é justa e merecida, pois desperdiçamos os bens do Senhor e quebramos a confiança. E, quando nossa mordomia terminar, teremos de prestar contas ao nosso Senhor; depois da morte vem o juízo. Somos alertados claramente sobre a nossa dispensa e sobre o nosso acerto de contas, e deveríamos pensar frequentemente nisso.

Em terceiro lugar, vemos a sua sabedoria tardia, porém prática. Ele começa a perguntar: “Que farei?” (Lucas 16:3). Deveria ter pensado nisso antes de arruinar um bom posto por sua infidelidade, mas é melhor pensar tarde do que nunca. Sabendo que sua mordomia neste mundo logo acabaria, ele começa a considerar o que faria depois. Ele ainda precisa sobreviver; como conseguirá seu sustento? Sabe que não é trabalhador o bastante para ganhar a vida em serviço pesado. Diz: “Cavar não posso”, expressando não fraqueza física, mas preguiça de vontade. Se seu senhor o tivesse colocado a trabalhar com a enxada, ele teria sido forçado a cavar. Ele “não pode” porque nunca se acostumou a isso. Isso também nos lembra que não podemos prover para nossa alma apenas trabalhando por este mundo, nem fazer algo de valor eterno para nossas almas por nossa capacidade natural.

Ele também sabe que é orgulhoso demais para mendigar. “De mendigar tenho vergonha”, diz ele. Essa é a voz do orgulho, assim como sua desculpa anterior revelava preguiça. As pessoas que Deus, em sua providência, impede de se sustentar por si mesmas não deveriam ter vergonha de pedir ajuda aos outros. Esse mordomo tinha muito mais razão de se envergonhar de roubar o seu senhor do que de pedir pão.

Então ele decide fazer amigos entre os devedores de seu senhor, os arrendatários que deviam o aluguel e tinham assinado os documentos da dívida. “Já sei o que hei de fazer” (Lucas 16:4). “Meu senhor está me tirando da casa dele. Não tenho casa própria. Conheço os arrendatários do meu senhor. Já lhes fiz favores antes, e agora vou fazer mais um. Assim eles me receberão em suas casas e me tratarão bem, e, até que eu consiga algo melhor, viverei da hospitalidade deles.” O modo que ele encontrou para ganhar o favor desses devedores foi diminuir o que deviam ao seu senhor e registrar valores menores nos registros oficiais.

Ele chama um que devia cem vasos de azeite, pois o azeite era a mercadoria com que pagava o aluguel. “Toma a tua conta, senta-te depressa e escreve cinquenta” (Lucas 16:6). Ele corta a dívida pela metade e tem pressa em concluir o negócio, para que não sejam suspeitos enquanto fazem o acerto. Depois chama outro que devia cem medidas de trigo e também reduz essa conta, mandando-o escrever oitenta (Lucas 16:7). Provavelmente tratou outros de modo semelhante, reduzindo mais ou menos, conforme o grau de favor que esperava obter.

Aqui vemos quão incertos são os bens deste mundo, especialmente para quem possui muito deles. Essas pessoas frequentemente deixam todo o cuidado dos seus bens nas mãos de outros, e isso abre espaço para que sejam enganadas, porque se recusam a vigiar com seus próprios olhos. Vemos também quanta traição pode haver até entre pessoas em quem se confiou.

É difícil achar alguém em quem se possa confiar plenamente. “Seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso” (Romanos 3:4). Mesmo depois de ter sido demitido por seus negócios desonestos, o mordomo continua agindo de modo fraudulento. Isso mostra como é raro alguém abandonar um mau hábito, ainda que sofra por causa dele.

O senhor daquele mordomo louvou o administrador infiel porque agira prudentemente, isto é, com esperta previsão do futuro (Lucas 16:8). Isso pode significar que o próprio senhor daquele homem elogiou a sua astúcia, embora estivesse irado com a sua desonestidade. Mas também pode ser que a afirmação venha toda de Jesus, como se dissesse: “Observem um homem como este. Ele sabe agir pensando no seu futuro e sabe aproveitar uma pequena oportunidade enquanto a tem.” Jesus não elogia o ato de roubar; ele elogia a previsão.

Pode haver também um aspecto em que o mordomo agiu mais justamente para com os arrendatários do que antes. Ele parece ter percebido que lhes havia imposto contratos duros demais, que eles não conseguiam cumprir. Vendo que eles e suas famílias corriam risco de ruína, agora, ao deixar o cargo, ele faz o que a justiça e a misericórdia pediam: diminui suas dívidas e, provavelmente, também reduz o valor do aluguel dali em diante. “Quanto deves?” pode ter o sentido de: “Quanto pagas de aluguel? Vou te dar uma condição melhor, ainda que seja apenas o que já deveria ter sido desde o começo.”

Antes ele pensava somente em seu senhor, mas agora começa a pensar nos arrendatários, porque deseja o favor deles depois de perder o favor do patrão. Reduzir o aluguel os ajudaria de forma duradoura, e assim ele os conquistaria de modo mais seguro do que apenas perdoando parte dos atrasados. Esse tipo de planejamento para uma vida confortável neste mundo envergonha a nossa falta de cuidado com o mundo vindouro. “Os filhos deste mundo”, isto é, aqueles que escolhem este mundo como sua porção, muitas vezes são mais prudentes em lidar com assuntos terrenos do que “os filhos da luz”, os crentes que têm o evangelho e se preocupam com a alma e com a eternidade.

Devemos aprender com as pessoas mundanas o cuidado com que elas usam as oportunidades. Agem depressa quando surge uma boa ocasião. Pensam adiante, ajuntam para o que está por vir e confiam no que é seguro, e não no que é enganoso. Ah, se fôssemos tão prudentes nas coisas espirituais. Os filhos deste século não são sábios de verdade; são sábios apenas para o seu próprio tempo. Contudo, até essa sabedoria limitada muitas vezes é motivo de vergonha para os crentes. Fomos avisados de que nossa mordomia logo acabará, mas não nos preparamos como quem em breve deixará este mundo para entrar em outro.

Como filhos da luz, contemplamos a esperança de vida e imortalidade por meio do evangelho, mas ainda assim não nos preparamos para aquele mundo como deveríamos. Não enviamos para lá o nosso melhor tesouro, nem nossos melhores planos, nem nossos afetos mais fortes. Esse é o peso da aplicação da parábola. Jesus fala aqui aos seus discípulos, pois a história tinha eles como alvo (Lucas 16:1). Embora possuíssem poucos bens deste mundo, deveriam pensar com seriedade em como usar bem até mesmo o pouco que tinham.

A ordem de Cristo é que façamos amigos para nós mesmos usando “as riquezas da injustiça”, isto é, os bens materiais, de maneira correta. “Mamom” é uma palavra que aponta para dinheiro e posses, e “injustiça” lembra tanto os meios errados pelos quais muitas vezes se adquire riqueza, quanto o fato de que ela é enganosa e instável. Se confiarmos nas riquezas para termos felicidade duradoura, seremos iludidos. Elas passam, não podem satisfazer o coração. Ainda assim, embora não possam ser a nossa esperança, podem ser usadas a serviço daquilo que realmente importa.

Devemos usar nosso dinheiro de modo que, no fim, ele sirva para o nosso bem eterno. Não é comprar o céu, nem conquistar mérito por meio das ofertas. Antes, ao usar o que Deus nos deu para a glória dele e para o bem do próximo, estamos fazendo um uso sábio de seus dons. Nesse sentido, fazemos amigos com as nossas riquezas: Deus e Cristo como nossos amigos, os santos anjos e os santos glorificados como nossos amigos, e também os pobres como nossos amigos. É algo precioso ser bem recebido no mundo vindouro.

Na morte, todos nós “falhamos”, como uma empresa que fecha as portas quando o dono quebra. A morte apaga a nossa luz. Ela baixa as portas da loja e sela a mão. Todos os consolos terrenos nos faltarão então; até o corpo e o coração enfraquecerão. Por isso, nossa grande preocupação deve ser garantir que, quando falharmos na morte, sejamos recebidos nas moradas eternas do céu (2 Coríntios 5:1). Essas moradas são eternas, não feitas por mãos humanas. Cristo foi adiante para preparar lugar para os seus, e está ali pronto para recebê-los. Os anjos estão prontos para conduzi-los, e os santos já em glória acolherão aqueles que um dia ajudaram a suprir suas necessidades na terra.

Esse é um forte motivo para usarmos o que temos para a honra de Deus e o bem dos irmãos. Assim, vamos ajuntando bom tesouro, uma segurança firme, um sólido fundamento para a vida futura, sim, para a eternidade. Em (1 Timóteo 6:17-19) esse ponto é mais explicado. Depois, Jesus continua insistindo nessa mesma lição, com mais argumentos, conclamando a uma vida rica em piedade e misericórdia.

Se não usamos com sabedoria os dons temporais de Deus, como podemos esperar que ele nos dê os consolos que vêm do seu Espírito? Jesus põe em comparação esses dois tipos de dádivas. O uso fiel das coisas deste mundo não compra o favor de Deus, mas a infidelidade nas pequenas coisas pode, com justiça, ser tratada como perda da graça de que precisamos para chegar à glória; é isso que Jesus mostra em (Lucas 16:10-14).

As riquezas deste mundo são a menor coisa; graça e glória são as maiores. Se somos infiéis nos bens terrenos, usando-os para fins errados, é razoável temer que também faríamos mau uso da graça de Deus e a receberíamos em vão. Jesus diz: “Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito.” Quem serve a Deus e faz o bem com o dinheiro também saberá usar bem a sabedoria, a graça, os dons espirituais e as promessas do céu. Mas quem enterra o único talento das riquezas terrenas nunca fará bom uso dos cinco talentos das riquezas espirituais. Deus retém a graça dos mundanos e gananciosos mais do que imaginamos.

As riquezas terrenas também são incertas e passageiras. São “mamom da injustiça”, riqueza deste mundo que facilmente afasta as pessoas de Deus. Como está passando depressa, se quisermos usá-la para o bem, temos de agir sem demora. Se não o fizermos, como esperar que nos sejam confiadas as riquezas espirituais, que são as únicas riquezas verdadeiras? A verdadeira riqueza pertence aos que são ricos em fé e ricos para com Deus, ricos em Cristo, nas promessas e nas primícias do céu. Por isso, devemos ajuntar nosso tesouro ali, olhar para isso como nossa verdadeira porção e buscar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça. Se outras coisas nos forem acrescentadas, devemos usá-las de modo espiritual, para que nos ajudem a apegar-nos mais firmemente às verdadeiras riquezas e a nos preparar para receber mais graça de Deus. Deus dá sabedoria, conhecimento e alegria ao homem que lhe agrada, isto é, ao generoso, ao que reparte liberalmente (Eclesiastes 2:26). Assim, ele concede verdadeiras riquezas ao que é fiel no uso do mamom da injustiça.

As riquezas deste mundo também são “alheias”. Não são realmente nossas. São estranhas à alma e aos seus verdadeiros interesses. Pertencem primeiro e de modo mais pleno a Deus do que a nós. Apenas as detemos por um tempo, como quem usa algo que não é seu. São alheias porque as recebemos de outros, usamos em favor de outros e logo teremos de deixá-las para outros, sem saber ao certo quem as terá. Já as riquezas espirituais e eternas são, de fato, nossas. Entram na alma que as recebe e ali permanecem para sempre. Cristo, as promessas e o céu podem ser chamados, com verdade, de nossos, se os tornarmos nossos pela fé. Mas como esperar que Deus nos enriqueça com essas riquezas se não o servimos com os bens materiais que ele apenas nos confiou?

Também não temos outro modo de mostrar que somos servos de Deus senão entregando-nos tão completamente ao seu serviço que até o mamom, isto é, todo o nosso lucro terreno, passe a ser útil para servi-lo (Lucas 16:13). Nenhum servo pode servir a dois senhores cujas ordens caminham em direções opostas, como acontece com Deus e mamom. Se alguém ama o mundo e se agarra a ele, acabará odiando a Deus e tratando-o com desprezo. Irá dobrar a religião aos seus negócios e projetos, usando as coisas de Deus para impulsionar seus interesses mundanos. Mas, se alguém ama a Deus e permanece perto dele, em comparação “odiará” o mundo sempre que mundo e Deus entrarem em conflito. Tratará o mundo como coisa menor, e usará seu trabalho e seu sucesso terreno para ajudá-lo a crescer na vida espiritual. As coisas deste mundo, então, passarão a sustentar seu serviço a Deus e a sua salvação. A questão é clara: “Não podeis servir a Deus e a mamom.” Seus interesses são tão diferentes que seus serviços jamais podem ser unidos. Portanto, se pretendemos servir a Deus, precisamos renunciar ao serviço do mundo.

Em seguida, somos informados de como os fariseus receberam esse ensino e de como Jesus respondeu a eles. Os fariseus eram avarentos, e, quando ouviram essas coisas, como não podiam responder, zombavam de Jesus (Lucas 16:14). Esse foi o pecado deles, nascido da cobiça que os dominava. Muitas pessoas que fazem grande demonstração de religião, têm muito conhecimento e são ativas em deveres religiosos, ainda assim se perdem pelo amor ao mundo. Nada endurece mais o coração contra a palavra de Cristo do que esse amor. Aqueles fariseus cobiçosos não suportavam que Jesus tocasse justamente no pecado que mais amavam. Por isso zombaram dele, com profundo desprezo. A palavra de Deus se tornou motivo de chacota para eles (Jeremias 6:10). Riam porque Jesus contrariava as ideias e o estilo de vida do mundo, e porque tentava desviá-los de um pecado ao qual já haviam decidido se apegar.

Isso também fez parte dos sofrimentos de Cristo. Nosso Senhor suportou não apenas a oposição dos pecadores, mas também o desprezo deles. Zombaram dele o dia inteiro. Aquele que falou como ninguém jamais falou foi ridicularizado. Isso deve impedir que os ministros fiéis desanimem quando sua pregação é tratada da mesma maneira. Não é desonra ser alvo de zombaria, mas sim merecê-la. Os apóstolos de Cristo também foram ridicularizados, e isso não surpreende, pois o discípulo não é maior do que o seu Senhor.

Jesus repreendeu justamente os fariseus, não por zombarem dele, pois ele sabia considerar a vergonha como nada, mas por se enganarem a si mesmos com a aparência de religião, sem possuir o seu poder (Lucas 16:15). Tinham uma bela fachada. Justificavam-se diante dos homens, negando qualquer acusação, mesmo quando vinha do próprio Cristo.

Pretendiam ser pessoas de santidade e devoção extraordinárias, e defendiam com firmeza essa reputação. “Vocês são do tipo que faz isso como ninguém mais faz. Trabalham duro para ganhar a aprovação das pessoas, e, com razão ou sem razão, tratam de se justificar diante do mundo. Todos sabem disso a respeito de vocês.” Eles também eram muito respeitados. Os outros não apenas os isentavam de culpa, mas os louvavam e honravam, não só como homens bons, mas como os melhores entre os homens.

Suas opiniões eram recebidas quase como oráculos, seus conselhos como leis, e seus costumes como regras que ninguém deveria questionar. Mas Deus via o interior deles, e aquela vida interior era abominável aos seus olhos, por estar cheia de todo tipo de mal. É loucura defender-nos diante dos homens e achar que isso basta para nos sustentar no dia do juízo. As pessoas podem não saber nada de mau sobre nós, e ainda assim Deus conhece o mal do nosso coração, que ninguém mais enxerga. Isso deve nos tornar humildes e vigilantes em relação a nós mesmos, pois Deus sabe quanta falsidade ainda habita em nós.

Também é tolice julgar pessoas e coisas pelo que os outros pensam e simplesmente seguir a opinião pública. Aquilo que os homens muito elogiam, porque julgam pela aparência, pode ser abominação diante de Deus, porque ele vê as coisas como realmente são e julga com total verdade. Por outro lado, algumas pessoas que o mundo despreza e condena são aceitas e aprovadas por Deus (2 Coríntios 10:18).

Em seguida, ele se volta dos fariseus para os publicanos e pecadores, porque estes estavam mais propensos a receber o seu evangelho do que aqueles fariseus orgulhosos e gananciosos (Lucas 16:16). Ele diz: “A lei e os profetas duraram até João”. Isto é, a ordem do Antigo Testamento, que estivera centrada entre os judeus, permaneceu até a vinda de João Batista. Antes disso, podia parecer que só eles tinham direito à justiça e à salvação, e eles se orgulhavam disso. Ganhavam respeito do povo porque eram estudiosos da lei e dos profetas.

Mas, desde que João Batista veio, o reino de Deus está sendo anunciado. Essa ordem do Novo Testamento não honra as pessoas simplesmente porque são mestres da lei. Em vez disso, todo tipo de gente entra com empenho no reino, gentios assim como judeus. Ninguém pensa que deva esperar educadamente por seus supostos superiores, como governantes e fariseus, para que entrem primeiro. O evangelho não é um sistema nacional, como era a ordem judaica, quando a salvação vinha dos judeus. Ele se torna uma questão pessoal para cada indivíduo; assim, todo aquele que sabe que tem uma alma a salvar e uma eternidade para preparar procura entrar logo, para não perder a oportunidade por atraso e por uma polidez vazia.

Alguns entendem o sentido assim: os fariseus zombavam de Cristo por ele falar contra as riquezas. Podiam pensar: “Acaso não havia muitas promessas de riqueza e outras bênçãos terrenas na lei e nos profetas? Não foram alguns dos melhores servos de Deus, como Abraão e Davi, muito ricos?” A resposta de Cristo é: “Isso era assim antes, mas agora que o reino de Deus está sendo anunciado, a situação mudou. Agora são bem-aventurados os pobres, os que choram e os perseguidos”.

Os fariseus, em troca da alta opinião que o povo tinha deles, permitiam que as pessoas se contentassem com uma religião fácil, barata e apenas exterior. Mas agora que o evangelho é pregado, os olhos das pessoas se abrem. Elas já não podem admirar os fariseus como antes, nem se satisfazer com a religião descuidada que lhes foi ensinada. Em vez disso, elas entram no reino de Deus com santa insistência. Quem quer ir para o céu precisa se esforçar, lutar contra a corrente e avançar através da multidão que caminha na direção oposta.

Mesmo assim, Cristo afirma com firmeza que não pretende enfraquecer a lei (Lucas 16:17). É mais fácil o céu e a terra passarem, embora pareçam tão firmemente estabelecidos, do que cair por terra o menor traço da lei. A lei moral é confirmada e sustentada, e nem a menor parte dela deixa de valer. Os deveres que ela ordena continuam sendo deveres, e os pecados que ela proíbe continuam sendo pecados. Na verdade, o evangelho explica e reforça esses mandamentos, mostrando o seu sentido mais profundo e espiritual.

A lei cerimonial é levada ao seu cumprimento à luz do evangelho. Nem a menor parte dela cai, porque o seu modelo aparece claramente no evangelho. O livro de Hebreus testemunha isso. Algumas coisas foram permitidas sob a lei para evitar males maiores, mas o evangelho retira essas permissões. Isso não prejudica nem desonra a lei, pois recoloca essas questões no propósito original da própria lei, como no caso do divórcio (Lucas 16:18; Mateus 5:32; Mateus 19:9).

Cristo não permite o divórcio, porque o seu evangelho é destinado a atingir a raiz amarga da corrupção humana, os desejos e paixões pecaminosas que dominam as pessoas. Esses desejos precisam ser mortos e arrancados, não alimentados. Quanto mais são alimentados, mais fortes e teimosos se tornam.

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