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Jó 3:1 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Almeida Corrigida Fiel

" Depois disto abriu Jó a sua boca, e amaldiçoou o seu dia. "

Jó 3:1

menu_book Versículo no contexto

1 Depois disto abriu Jó a sua boca, e amaldiçoou o seu dia.

2 E Jó, falando, disse:

3 Pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse: Foi concebido um homem!

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auto_stories Comentário Bible Guided

Por muito tempo o coração de Jó ardia por dentro; enquanto ele meditava em silêncio, o fogo aumentava justamente porque ele continha suas palavras. Por fim, ele falou, mas não com a sobriedade de Davi, que, depois de um tempo calado, disse: “Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim” (Salmo 39:3-4). Ezequiel, o profeta, ficou atônito entre os exilados por sete dias, e então a palavra do Senhor veio a ele, provavelmente no dia de sábado (Ezequiel 3:15-16). Jó e seus amigos ficaram calados por muito tempo, mas não abriram o coração com sinceridade. Eles tinham medo de dizer o que de fato pensavam, para não feri-lo, e ele tinha receio de falar, para não ofendê-los.

Eles tinham ido a Jó para o consolar, mas suas aflições eram tão extremas que começaram a achar que consolo não combinava com o seu caso. Suspeitavam que Jó fosse hipócrita e, por isso, se mantinham em silêncio. Contudo, quem perde muito costuma sentir-se livre para falar primeiro, e assim Jó deixou escapar seus pensamentos. Ainda assim, teria sido melhor que os tivesse guardado, a menos que fossem pensamentos mais retos. Em resumo, ele amaldiçoou o dia em que nasceu. Desejou nunca ter vindo ao mundo, e não conseguia pensar ou falar de seu nascimento sem dor e indignação.

Normalmente as pessoas celebram o aniversário com alegria, mas Jó via esse dia como o mais triste do ano. Para ele, foi o dia que abriu a porta para todos os seus sofrimentos. Isso já era grave. Sua dor e aflição podem, em parte, explicar tal atitude, mas não a justificam. Ele havia esquecido o bem para o qual fora criado, e sua mente estava cheia apenas do mal presente. Desejou não ter nascido. O profeta Jeremias falou de modo semelhante quando sentiu o peso do sofrimento: “Ai de mim, minha mãe, porque me deste à luz” (Jeremias 15:10), e: “Maldito o dia em que nasci” (Jeremias 20:14).

Podemos supor que Jó, em seus dias de prosperidade, muitas vezes bendizia a Deus pelo dia do seu nascimento e o considerava um dia feliz. Agora, porém, ele o marcava com vergonha. Quando pensamos no pecado em que fomos concebidos e nascidos, temos motivo para pranto e vergonha quanto ao nosso nascimento, e até para dizer que o dia da morte é melhor, porque a morte nos liberta do pecado (Romanos 6:7; Eclesiastes 7:1). Mas amaldiçoar o dia em que nascemos simplesmente porque a vida nos trouxe tristeza é contender com o Deus que nos fez. É desprezar o valor da própria existência e seguir uma paixão da qual um pensamento mais sóbrio nos faria envergonhar.

Não existe condição neste mundo em que alguém não possa honrar a Deus e caminhar na salvação, de modo que não tem razão válida para desejar nunca ter nascido. Ainda assim pode, ao final, reconhecer que sua vida valeu a pena. Contudo, é preciso admitir: se não houvesse vida futura, nem consolo divino que nos sustente enquanto olhamos para ela, as dores desta vida às vezes poderiam nos tentar a dizer que fomos feitos em vão (Salmo 89:47) e a desejar jamais haver nascido. Os que estão no inferno têm todo motivo para isso, como Judas (Mateus 26:24). Mas, deste lado do inferno, não há qualquer boa razão para um desejo tão ingrato.

Jó foi fraco e errado ao amaldiçoar o seu dia. Devemos considerar isso como sua falha. Ainda assim, pessoas piedosas às vezes tropeçam justamente nas graças em que mais se destacam. Isso nos ajuda a entender que, quando são chamadas de perfeitas, não significa que sejam sem pecado, e sim íntegras. Devemos também valorizar a vida espiritual acima da vida natural, pois muitos já amaldiçoaram o dia do seu primeiro nascimento, mas ninguém jamais amaldiçoou o dia do seu novo nascimento. Ninguém desejou nunca ter recebido a graça e o Espírito da graça. Esses dons são maiores que a própria vida e nunca se tornam fardo.

Por outro lado, Jó não foi tão longe quanto Satanás desejava. Ele amaldiçoou seu dia, mas não amaldiçoou a Deus. Estava cansado da vida e a teria deixado de boa vontade, mas não se cansou da religião. Permaneceu firme nela e não a abandonou. A questão entre Deus e Satanás a respeito de Jó não era se Jó tinha fraquezas ou paixões humanas, pois isso já era admitido. A verdadeira questão era se Jó era um hipócrita que, no íntimo, odiava a Deus e revelaria esse ódio se fosse pressionado. A prova demonstrou que ele não era esse tipo de homem.

Mesmo assim, tudo isso é compatível com o fato de Jó ser um exemplo de paciência. Ele falou de modo irrefletido com seus lábios, mas antes e depois disso mostrou grande submissão à santa vontade de Deus, e se arrependeu de sua impaciência. Ele mesmo julgou sua falha, e por isso Deus não o condenou, nem nós devemos condená-lo. Antes, devemos vigiar cuidadosamente a nós mesmos, para não cairmos no mesmo pecado.

As palavras de Jó ao amaldiçoar seu dia são cheias de força poética e paixão, e causam tanta dificuldade aos intérpretes quanto o próprio acontecimento causa aos que ensinam a Escritura. Não é necessário examinar cada expressão em detalhe. Quando Jó quis dizer que desejava nunca ter existido, voltou-se contra o dia do seu nascimento e desejou, primeiro, que a terra o esquecesse. “Pereça aquele dia”, diz ele, “não seja contado entre os dias do ano” (Jó 3:3, 6).

Ou seja, que não fosse sequer posto no calendário, nem honrado como o aniversário de um rei. Jó havia sido como um rei em seus dias anteriores (Jó 29:25), mas agora queria que aquele dia fosse apagado e enterrado no esquecimento. Que o mundo jamais soubesse que tal homem nasceu e viveu, um homem agora exposto publicamente à miséria. Ele também desejou que o céu mostrasse desaprovação sobre esse dia: “Que Deus lá de cima não o reclame nem sobre ele resplandeça a luz” (Jó 3:4). Tudo é o que Deus faz ser. Um dia só é honrado quando Deus o honra e o marca com seu favor e bênção, como fez com o sétimo dia da semana. Mas Jó queria que seu aniversário nunca fosse assim distinguido.

Ele queria que fosse marcado como dia mau, como se carregasse um sinal negro. “Seja aquele dia transformado em trevas” (Jó 3:4). Se a luz de um dia se torna escuridão, quão terrível é essa escuridão, pois o dia é justamente o tempo em que esperamos luz. Jó desejava que a escuridão daquele dia combinasse com a sua própria condição, pois seu sol se pusera ao meio-dia. Quanto à noite em que nasceu, que perdesse o brilho da lua e das estrelas. Que trevas densas se apoderassem dela, trevas tão espessas que quase pudessem ser sentidas. Isso não a tornaria uma noite de descanso, mas de temor. Jó também quis que toda alegria se afastasse dela: “Seja uma noite triste, solitária, sem cantos de alegria nem danças.”

“Que nela não ressoe voz de júbilo” (Jó 3:7). Que seja uma noite longa, que nunca veja as primeiras luzes da aurora (Jó 3:9), aquela luz que traz alegria. Que toda maldição recaia sobre ela (Jó 3:8). Que ninguém jamais deseje tal noite nem a acolha quando vier. Pelo contrário, que aqueles que amaldiçoam dias também amaldiçoem a noite do seu nascimento.

Isso pode apontar para um costume de maldições especialmente amargas. Alguns, quando estavam prestes a ferir um grande animal marinho, como uma baleia ou um crocodilo, lançavam pragas sobre ele, esperando que suas palavras o enfraquecessem e facilitassem dominá-lo. Jó talvez faça alusão a algo assim. Alguns entendem “Leviatã” aqui como figura do diabo, enquanto outros pensam nas maldições proferidas por feiticeiros e magos quando tentam invocar um demônio ou quando não conseguem fazê-lo retornar. Em qualquer dos casos, Jó deseja que o dia do seu nascimento seja tratado como algo terrível e abominado.

Mas qual é a razão da queixa de Jó contra o dia e a noite do seu nascimento? Ele diz que é porque não “fecharam as portas” do ventre de sua mãe (Jó 3:10). Isso mostra a insensatez de um descontentamento amargo e como ele fala de modo desvairado quando perde o domínio próprio. É este o mesmo Jó a quem antes os homens honravam por sua sabedoria, a quem ouviam com respeito e silêncio (Jó 29:21, 11)? Certamente aqui sua sabedoria estava obscurecida.

Ele mostrou essa fraqueza, primeiro, por gastar tanto esforço desejando nunca ter nascido. Esse desejo é vazio, porque nada pode tornar aquilo que já existiu como se jamais tivesse sido. Segundo, foi longe demais ao amaldiçoar um dia e uma noite que não podem ser feridos por palavras humanas. Terceiro, desejou algo cruel para a própria mãe, que ela não tivesse dado à luz quando chegou o tempo, o que significaria sua morte dolorosa. Quarto, esqueceu a bondade de Deus em lhe conceder a vida, dom tão nobre e excelente, muito acima da vida de qualquer outra criatura na terra.

Tratou esse dom como se não valesse a pena, apenas porque veio acompanhado de aflições. E essas aflições só chegaram depois de muitos anos desfrutando prazeres da vida. Que tolice foi desejar que seus olhos nunca tivessem visto a luz, para não verem a tristeza, quando ainda podia esperar ver, além dela, a alegria. Jó cria que, em sua carne, veria a Deus no último dia (Jó 19:26), e mesmo assim deseja nunca ter sido feito para tamanha bem-aventurança, só porque, por um momento, sofria dores? Que a graça de Deus nos livre desse pecado tolo e danoso da impaciência.

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